Baratas

Lembro-me.
Cheguei lá já era de noite. Lembro-me de pisar a areia com os pés nus. Lembro-me de enfiar os dedos pela areia à procura de um pouco de fresco e ouvir alguém dizer Não andem descalços nesta areia da povoação. Há uns bichinhos que entram dentro do vosso corpo e trazem-vos problemas! A sério?, pensei. Tantas horas de viagem com o rabo a bater numa ripa de madeira para isto?
Peguei na mochila e arranquei à procura da Pousada. A Pousada onde tinha reservado um quarto.
A povoação não era grande. Dei três voltas por três ruas pequenas e descobri. Tinha razão. A povoação não era grande. Toquei à campainha. Silêncio. Voltei a tocar. Ninguém. Insisti. Acendeu-se uma luz no primeiro andar. Esperei. Uma cabeça à janela. Digo Tenho quarto reservado! Resposta Oi?
A cabeça recolheu. Depois acenderam-se outras luzes como a fazer um caminho. Abriu-se a porta da rua. Entrei. Registei. Assinei. Segui a cabeça, que agora já tinha corpo, pelo interior da casa. Abriram-me uma porta. Entrei. Fiquei sozinho. Senti o silêncio. O silêncio do quarto. Da casa. Da povoação. E depois, uns barulhinhos. Algo a esgatanhar no chão. Olhei à volta. Olhei o quarto. A cama no meio. Uns quadros coloridos pendurados nas várias paredes. Um quadro azul com o mar. Um quadro verde com a Mata Atlântica. Um quadro beije com as dunas. Um quadro amarelo com o sol. E foi por baixo do quadro amarelo com o sol que vi a primeira barata. A andar desalmada junto ao rodapé do quarto. Era grande. Mal sabia eu que aquela era, somente, a filha.
Estava cansado. Larguei a mochila numa cadeira. Deitei-me em cima da cama. Deixei pousar o silêncio. Só ouvia a minha respiração. E, depois, algo mais. Vi algo pelo canto do olho. Algo a mexer-se. Atrás de mim. Virei-me. Uma barata. Outra. A mãe da outra. Enorme e barriguda na cama comigo. Mandei-lhe um piparote com o dedo. Voou para o outro lado do quarto. Sentei-me na cama. Olhei em volta. Esperei a vingança.
Mas precisava de dormir. Estava cansado.
Despi-me. Fiquei com os boxers. Coloquei o candeeiro no chão. Deixei-o ligado a noite inteira. Enrolei-me no lençol. Como se fosse a minha mortalha. Cobri-me todo. A cabeça. Os pés. E deixei-me ir.

Acordei de manhã. Manhã tarde, que o sol já estava alto. Acordei com cócegas nos pés. Com as voltas que dei durante o sono, acabei por libertar os pés da mortalha. As baratas descobriram os meus pés descobertos. Chamaram-lhe um figo. Já se passeavam por cima deles. Uma das baratas já se aventurava por uma das minhas pernas acima. Fui acordado pelas cócegas que me faziam nos pés.
Dei três coices. Vi-as a voarem. Levantei-me. Tomei um duche, mas sempre a olhar para o ralo do polibã. Sempre a olhar para a retrete. Sempre a olhar para as torneiras. Sempre a olhar para qualquer buraco.
Vesti-me. Saí do quarto. Entrei na cozinha. Havia café quente. Acabado de fazer. Não vi ninguém. Enchi uma caneca. Abri a tampa do açucareiro. Uma quantidade de pequenos bichinhos a fugir para fora da caixa. Ri-me. Ri-me de nervosismo. E disse para mim próprio O que não mata, engorda!…
Pus duas colheres de açúcar na caneca e pensei que, no fundo, era tudo proteína.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/23]

Qual É o Meu Nome?

Algo se passa comigo.
Sinto-me cansado. A voz está a desaparecer. Falo do fundo de um poço. Eu próprio mal me ouço. E custa-me falar.
Já me é difícil aguentar o peso. Não que esteja gordo. Pelo menos, não mais que o habitual. Mas é o meu corpo que já não se suporta. Está a soçobrar debaixo dele próprio.
Desloquei-me à figueira que está no quintal. Estiquei o braço para apanhar um figo, mas não consegui. Não consegui puxar o figo. Agora penso se ele realmente estava lá. Já não me lembro se fui à figueira ou não. Não me recordo.
Vi uma formiga. Tentei esmagá-la com o dedo. Fui incapaz de o fazer. Mas não foi uma incapacidade física. Não consegui matar a formiga. Comecei a chorar ao olhar para ela com um pedaço de batata frita às costas a caminhar ao longo da ripa de madeira da mesa.
Sentei-me no alpendre a fumar um cigarro. A olhar lá para fora. A olhar para a montanha que se abre lá ao fundo. Está uma nuvem escura sobre ela. Vai chover. Vai chover sobre o incêndio que deflagrou na montanha. Vejo o fumo que se acumula lá no alto. Se calhar não vai chover. Se calhar é só uma nuvem de fumo. Do incêndio.
Acabei o cigarro. Tenho a beata na mão e não sei que lhe fazer. Sei que devia fazer qualquer coisa, mas não sei o quê.
Estou com a beata na mão a olhar o incêndio na montanha enquanto penso no figo que não comi na companhia de uma formiga.
Não consigo falar.
Vejo a minha cara assustada no reflexo do vidro dos óculos que tenho postos na cara. A cara está assustada. E cansada. Tento falar mas não consigo. Mexo a boca mas não sai nenhum som audível.
Deixo cair a beata.
Faço força nos braços da cadeira mas não consigo levantar-me.
Estou cansado.
A beata pegou fogo ao jornal caído debaixo da cadeira. A cadeira já começou a arder. Mas não consigo sair daqui. Não consigo fugir.
Choro e espero que as lágrimas apaguem o fogo.
Algo se passa comigo.
Já não consigo articular uma palavra audível. Não consigo levantar-me. Estou esquecido mas nem sei do quê.
Cheira-me a fumo e sinto vontade de fumar um cigarro.
Gostava de saber o meu nome. Eu não devia ter um nome? Qual é o meu nome?

[escrito directamente no facebook em 2018/08/08]