O Primeiro Mar do Ano

Há uns anos, quando era miúdo, quando ainda estudava e vivia em casa dos meus pais, quando os meus amigos eram os meus vizinhos, quando passava a vida a jogar à bola nos quintais traseiros das casas da rua, quando as festas, todas as festas, eram sempre com os mesmos convidados que eram sempre os mesmos amigos de sempre que eram os mesmos vizinhos de sempre, tive o desejo de conhecer gente diferente.
E conheci.
Havia, na época, um programa de troca de correspondência com estudantes de todo o mundo, e eu era estudante e correspondi-me durante alguns anos com miúdas da minha idade de países tão exóticos como Trinidad e Tobago ou tão banais como Itália. Comunicávamos em inglês e sempre achei que o inglês delas era muito bom, muito melhor que o meu, e que elas deviam ser umas miúdas excepcionais para conseguirem perceber o meu inglês escrito, e na época não havia Google Translate nem podia pedir ajuda e revisão de texto às miúdas mais inteligentes da turma porque não queria que soubessem o que é que eu tanto conversava com estas outras miúdas que nem conhecia mas para quem eu abria o coração e o meu mundo. Agora que penso nisto acho que foi uma espécie de Facebook antes da era da internet.
Para essa correspondência tinha arranjado um papel de carta com fotografias coloridas de pôres-de-sol e parezinhos de namorados em silhueta, abraçados, de mãos-dadas e, às vezes, a trocar um beijo. É claro que comecei a escrever nestes papéis, porque também comecei a receber correspondência escrita em folhas similares, com paisagens bonitas, praias, campo, muito pôr-do-sol e sempre, sempre, um casal a aproveitar, junto, as belezas do mundo.
Lembrei-me disso agora por estar a ver um casalinho abraçado e a trocar beijos encostado ao varandim sobre a falésia do Vale Furado.
Vim ver o mar. O primeiro mar do ano. Vim ao Vale Furado. Parei cá em cima, no pequeno parque em frente ao Mad. Antes de sair do carro vi um casal em contraluz encostado ao varandim em madeira, abraçado e aos beijos, e fui projectado para as minhas memórias de adolescente.
Era um jovem adolescente ainda sem namorada quando comecei a trocar correspondência com estas miúdas de todo o mundo. Escrevi a muitas embaixadas a pedir informação sobre os respectivos países, mapas, fotografias, revistas e recebi muito material que me ajudou a perceber melhor países dos quais nem sabia a existência. As miúdas ajudaram-me a conhecer os países e os países abriram-me as portas para a conversa com as miúdas.
Algures no caminho perdi essa capacidade de conversar. Seja com miúdas ou com miúdos. Perdi a capacidade de comunicar. As pessoas assustam-me e eu fujo delas. Não delas propriamente, mas do contacto com elas.
Saí do carro. Fui até ao varandim sobre a arriba e olhei todo o esplendor da costa marítima que vai dali do Vale Furado até à Praia do Norte e continua por ali fora, Salgados, São Martinho do Porto, Foz do Arelho, às vezes até se vê as Berlengas e os Farelhões, o que não é o caso. Cá de cima o mar não parecia bravo, mas estava. Percebia-se pela quantidade de ondas em cadeia e a espuma que largavam quando chegavam a terra. Vi lá em baixo duas raparigas a tirarem fotografias. Ao mar e a elas. Faziam pose. Riam uma da outra, riam uma com a outra. Estavam felizes, parecia-me. Fumei um cigarro enquanto ia olhando um horizonte inexistente, o céu e o mar confundiam-se lá ao fundo, no que devia ser a linha do horizonte. Estava um pouco de vento e de frio. Não muito. Só o suficiente para perceber que, ao contrário do que parecia, e do sol e de todas as azedas que tinha encontrado pelo caminho até cá, não estávamos afinal na Primavera, mas ainda no pico do Inverno, embora o próprio tempo estivesse baralhado e não percebesse bem como é que devia reagir.
Depois deixei cair o resto do cigarro pela falésia abaixo e fui ao Mad beber um café. A esplanada estava cheia. Um homem agarrava uma mulher, forte, pelas costas e tentava fazer a manobra de Heimlich. Estava eu a entrar na esplanada quando a mulher projectou algo pela boca que passou à minha frente e, quase que me acertava. Ninguém me ligou nada. Ninguém me pediu desculpa. Ninguém me viu. Estava toda agente preocupada com a mulher. Eu era invisível. Arranjei uma pequena mesa ao sol. Era a única pessoa sozinha naquela esplanada. Mas estava bem. Sentia-me bem. Gostava de estar ali assim, a levar com aquele sol de Inverno em cima.
O que seria feito das miúdas com quem troquei correspondência na adolescência?

[escrito directamente no facebook em 2020/01/04]

Um Murro nas Trombas

Caminho pela ecopista. Levo máquina fotográfica e tiro algumas fotografias. Não as mostro a ninguém. Nem eu jamais as vou ver. Acumulo cartões de memória cheios de fotografias e filmes que nunca mais vejo depois de os registar. Vão ficar para memória futura da minha vida nesta época. Uma memória a quem interessar.
Vejo ao fundo a vila. À volta há aldeias. Um pouco por todo o lado há casas. Pedreiras a esventrar a montanha. A zona é muito ruidosa. Não há um enquadramento vazio, selvagem, sem rasto de intervenção humana.
Passo por dentro de um túnel. Regresso ao céu aberto numa nesga e retorno a um segundo túnel. Está frio dentro dos túneis. Caem pingos de água do tecto. Um deles acerta-me na cabeça. Sinto-o contornar-me o crânio e escapar-se pescoço abaixo e enfiar-se pela costas. Dá-me um arrepio. Depois desaparece absorvido pela camisola.
Deixo o segundo túnel para trás e páro para fumar um cigarro. O trajecto está vazio de gente. As pessoas devem andar às compras no Centro Comercial. Está um bom dia para andar na rua. Não está frio. Não chove. Está…
Sinto um aperto no coração. Penso se não será do tabaco. Mas percebo logo que não.
Passo o ano a fugir. Passo o ano a pensar numas coisas para não pensar noutras. Esquecendo-as, esqueço-me da tristeza.
Levo com a época em cheio nas trombas. Sem aviso. Num sítio sem história, a fumar um cigarro e a ver como lá ao fundo, e visto aqui de cima, tudo é tão pequeno, as pessoas, a vida, os problemas.
E zás.
Materializa-se dentro do coração. Provoca-me uma lágrima que tento reprimir e ainda digo Que raio! como se não soubesse a que se deve, mas sei.
Eu bem tento não ligar à quadra, às festas, ao apelo constante do amor ao próximo, à família, ao reencontro. E, no entanto, ela chega. Forte. A ausência. A minha e a deles.
Não consigo parar a enxurrada de água que galga dos olhos para fora. Sento-me na cerca de madeira que circunda o caminho e não deixa as pessoas perderem-se ao longo da pista, sento-me com as pernas para fora, sobre o penhasco, lá em baixo a vila, o castelo, que está lá em baixo embora esteja numa colina, sento-me lá, na cerca, a fumar o cigarro e a pensar nas ausências. Digo Merda de Natal! como se o Natal tivesse culpa, alguma culpa dos nossos problemas. Dos meus problemas. Mas sei que não é o Natal que me incomoda. É esta alegria a que sou alérgico. Uma alegria obrigatória como obrigatório é comprar coisas, não importa o quê, coisas, muitas coisas, livros, discos, jogos, roupa, meias e a porra dos Ferrero-Rocher que andam de casa em casa até que finalmente alguém os come, ninguém sabe quem.
Sento-me na cerca de madeira a fumar um cigarro e pergunto-me se ainda se lembram de mim. E não sei a resposta. Ou tenho medo de saber.
Quero que passe rápido o Natal e eu possa voltar ao esquecimento. Prefiro esquecer que sentir a minha ausência na ausência deles.
Apago o cigarro contra a madeira da cerca. Levo a beata apagada na mão. Esqueci-me que tinha a máquina fotográfica nas mãos e bato-a contra a madeira da cerca. Porra! Regresso à minha vida de olhos molhados e o coração desfeito. Ainda o sinto bater, mas bate descompassado. Um coração em segunda-mão, com certeza. Um resto que ninguém quis.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/22]

Um Passeio pela Vila

Saio de casa com o saco do lixo na mão. O tempo está cinzento. Ameaça chuva, mas não está frio. Estou de t-shirt e um casaco de malha. Desço a alameda. Os gatos ficam a olhar para mim sem se mexerem de onde estão. Saio pelo portão para a rua. Viro à esquerda e caminho os cem metros que me separam do caixote do lixo. Abro a tampa e largo lá o saco lá dentro. O caixote cheira mal. Sacudo as mãos às calças de ganga. Acendo um cigarro. Inspiro fundo e depois deito o fumo todo fora. Olho as montanhas lá ao fundo. Estão sempre lá, as montanhas. São a minha grande referência, mesmo quando não as vejo, encobertas pelo nevoeiro. Parece estar a chover lá ao fundo, sobre as montanhas.
Respiro fundo. Volto para trás. Passo o portão da casa e continuo em frente. Caminho. Sinto-me como o tempo. Cinzento.
Vou pelo passeio. Neste lado da estrada há um passeio feito com lajes hexagonais. Provavelmente de barro. No outro lado da estrada não há passeio. Há uma vala para escoar as águas. Já lá torci um pé. Já lá encontrei um cão morto. E duas cobras. Há muitas cobras por aqui mas, normalmente só aparecem lá mais para o Verão. Agora está muito frio para elas.
Passo pelo quintal de uma casa. Há um cão pequenino, daqueles muito chatos, que começou a ladrar quando me viu e vai aqui ao lado a acompanhar-me, sempre a ladrar, o cabrão. Está uma mulher à janela da casa a estender um edredão. É a dona da casa. Olha-me com desconfiança. Como se não me conhecesse. Já moro aqui há cerca de cinco anos, mas ainda sou um estrangeiro. Não socializo. Não frequento o clube recreativo. É raro ir ao café da vila. Vou, às vezes, ao pequeno mini-mercado que é mais uma mercearia e que costuma ter frescos, muito frescos, aqui da terra. A mulher continua a olhar mim como se não me conhecesse. Deixo o muro da casa. O cão. O ladrar irritante do cão. O olhar frio da mulher.
Acabo o cigarro e mando-o ao chão. Esmago-o com a ponta da sapatilha. Olho para o céu. O cinzento está a ficar ainda mais escuro. As nuvens que estavam sobre a montanha deslocam-se para cá. Continuo em frente. Agora a subir um pouco. Não é grande o declive, mas prende-me a respiração. Forço o passo e fico cansado. Chego ao cimo da rua e páro para recuperar o fôlego. Depois viro à esquerda. Agora não há passeio. Nem de um lado nem de outro. As bermas dos dois lados são baixas. Costuma haver aqui alguns acidentes. Há sempre muitos camiões a passar por aqui. Camiões que vêm buscar produtos aqui às fábricas da zona. Os carros que passam por aqui e se cruzam com um camião, se não têm cuidado, acabam dentro das valetas. Já aí vi alguns. Outros vão ribanceira abaixo. Mas ninguém se incomoda. A Junta de Freguesia nunca arranjou solução. Não quer saber.
À minha frente passa um gato. Um gato todo preto. Gordo. Pára na estrada a olhar para mim. Também se pergunta quem sou eu. Eu ignoro-o. E o gato acaba a seguir o seu caminho e desaparece no outro lado da estrada por entre o mato que começa a invadir a estrada. Há um certo abandalhamento dos terrenos, por aqui. Não sei de quem são estas terras. Não são minhas.
Do nada, aparece um novo passeio, novamente só de um dos lados da estrada. Do outro lado. Cruzo a estrada. O passeio continua a ser de uma espécie de tijolo barroso, mas agora são lajes rectangulares. Aqui na vila não há uma uniformização dos bens públicos. Desde casa até aqui, já contei com quatro candeeiros de rua diferentes. E ainda vou encontrar mais na volta que irei fazer até regressar a casa. E, provavelmente, alguns deles não devem funcionar. Alguns devem ter as lâmpadas fundidas, outros talvez tenham problemas um pouco maiores mas que ninguém quer resolver.
Passa um carro por mim. O primeiro desde que saí de casa. Às vezes parece que vivo numa terra fantasma.
Acendo outro cigarro. Sinto o cheiro da terra molhada lá mais à frente. Vem aí a chuva. Continuo a andar. Passo em frente a uma pequena fábrica caseira. Acho que fazem produtos em vime. Cestas. Cadeiras. Coisas assim. Há uma carrinha de caixa aberta na rampa de acesso à garagem onde funciona a pequena fábrica. Mais à frente, na estrada, está um carro em cima do passeio. Até aqui os carros ocupam os passeios. Numa terra onde não se passa nada, onde há lugar para tudo, há também carros em cima dos passeios.
Olho para trás, não vejo nenhum carro e desço para a estrada. Passo o carro que ocupa o passeio. À frente do carro puxo os limpa-pára-brisas. Deixo-os assim, em pé, como dois cornos de um boi a pastar nos terrenos verdes que vejo na minha caminhada.
Começa a pingar. Não é ainda uma chuva. São alguns pingos a avisar que vem aí chuva. Eu continuo a andar ao meu passo habitual. À minha velocidade. Não tenho pressa. Não tenho medo da chuva. Na verdade quero molhar-me. Quero refrescar a cabeça. Tirar daqui ideias que me estão a incomodar. Que me andam a moer.
Começo a descer para o centro da vila. Passo pela farmácia que é a primeira casa à direita quando se chega por esta estrada. A porta está fechada. Mas a farmácia está sempre aberta. O farmacêutico mora por cima. Se necessário, toca-se à campainha e ele atende. Está sempre por aqui. Acho que nunca foi de férias. Acho que nunca se ausentou um fim-de-semana. Mas é raro estar mesmo na farmácia. Normalmente está em casa. A fazer o quê, não sei. Mas está quase sempre em casa.
A seguir vem o clube recreativo. Há sempre uns velhotes sentados cá fora. Não hoje, que já está a chover. Ainda não é muita mas já é alguma. Nunca entrei lá dentro. Nem durante as festas. As festas aqui da vila dividem-se entre o clube e o adro da igreja, que fica do outro lado, num pequeno quase-largo, virando ali à direita naquela estrada, mas eu não vou agora por lá porque está a chover. E também não vou passar pela Junta de Freguesia que fica naquela outra rua, mas mais lá para trás, ao lado do cabeleireiro. O cabeleireiro é da mulher do presidente da Junta. Se passasse ao pé da Junta ia lá deixar outra reclamação. Ia reclamar a falta de passeios em torno da vila. Na semana passada fui queixar-me da falta de caixotes para a separação do lixo no lado da vila onde moro. Ninguém por aqui me conhece mas, o presidente da Junta já não me suporta.
Aqui é o Lar. É uma casa de velhotes. Mas é raro vê-los. Nunca há ninguém nas janelas. Nunca há ninguém no pátio quando aqui passo. Devem estar todos deitados ou em frente à televisão. É assim, o fim da vida. O cu colado a uma cadeira a ver um programa de variedades com chamadas de valor acrescentado. Ora, foda-se!
Agora já chove bastante. Tenho o cigarro apagado e molhado ao canto da boca. Tinha-me esquecido dele. Não está frio. Mas chegando a casa, vou tomar um banho quente. Quando foi a última vez que tomei um banho? Um banho assim, de chuveiro? Inteiro? Cabelo e tudo? Já nem me lembro. A vidas são diferentes quando os sítios onde estamos também são diferentes.
Os gatos estão todos em cima do muro à minha espera. Têm medo da água da mangueira e dos baldes, mas não têm medo da chuva. Quem é que os percebe? Raio dos gatos.
Sinto o telemóvel no bolso das calças. Tiro-o para fora para ver as horas. E percebo que ninguém me telefonou. Ninguém me mandou uma mensagem. Olho para o gatos. Guardo o telemóvel e entro pelo portão.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/29]

A Celebrar o Equinócio de Outono

Estava toda a gente contente e triste ao mesmo tempo.
Estavam contentes porque celebravam o equinócio de Outono e, ao mesmo tempo, tristes por dizerem adeus ao Verão, às férias, ao calor e à vitamina D.
Mas estavam enganados.
O Verão não estava a acabar. Agosto já tinha partido, sim, era verdade. Setembro estava a chegar ao seu fim. O equinócio de Outono dizia-nos que estávamos a mudar de estação mas, na verdade, e eu sentia-o nos ossos, o frio ainda vinha longe e a praia ainda tinha muito para me dar.
Tenho ido todos os dias à praia. Ainda não é tempo das marés-vivas. Tenho mergulhado no mar. Todos os dias. Deito-me na areia e deixo-me lamber pelo sol.
Ainda ando de calções. T-shirt. Uso o cabelo curto. Às vezes boné para proteger a cabeça dos excessos de raios solares, principalmente nas horas mais quentes.
Mas já ninguém mais vem à praia. Pelo menos a esta aqui, onde estou agora, nu, com ela em cima de mim, a saltar em cima de mim a celebrar o equinócio. Com doçura. Com violência. Arranhou-me o peito. Fez sangue.
Celebra, miúda. Celebra comigo.
O mar está tranquilo. A água está fria, mas é o Atlântico, não é de se esperar outra coisa.
Estou deitado de costas na areia. Ela está sentada em cima de mim. Pula devagar. Por vezes mais depressa. Ginga as ancas com mestria. Eu olho o cimo das arribas e penso se ainda andarão por lá os mirones de Agosto. Se alguém está lá ainda a masturbar-se com a visão da performance sexual dela ou se está a gravar a nossa história para fazer um filme e colocá-lo no PornHub.
Estamos, também, a celebrar o equinócio à nossa maneira. Mais ela que eu. Eu estou mais concentrado em listar a equipa do Benfica que jogou no Sábado passado e não me vir depressa demais e deixá-la frustrada e furiosa com os seus desejos não cumpridos.
As cidades voltaram a encher-se de carros. Os transportes públicos voltaram a encher. Os estudantes ocupam as ruas com as suas manifestações pelo clima. Os partidos políticos, alheados do presente, mantêm as suas campanhas velhas e com cheiro a mofo, em arruadas, festas e debates onde não se fala de nada que interesse às gerações mais novas mas a mesma lenga-lenga de sempre, a esquerda, a direita, a maioria absoluta, os funcionários públicos, os professores, os enfermeiros, a tourada, a carne de vaca, a social-democracia na boca de todos e todos a jurar, a pés-juntos, que só eles conseguem estancar o aumento da pobreza e a falta de perspectivas de trabalho digno para o grosso da população que não tem as valências necessárias para as exigências do futuro.
Ela grita agora um pouco, embora tente abafar o grito, e eu penso que o salário mínimo são seiscentos euros. Seiscentos euros.
E acabo por me esquecer da equipa do Benfica e do valor do salário mínimo nacional e deixo-me ir com ela, para dentro dela e sinto-a tombar sobre mim e não sei se é verdade ou mentira, se ela chegou onde queria chegar ou só não quer que eu me sinta diminuído na minha evidente fragilidade sexual perante ela.
Enfim.
Ela levanta-se. Dá-me a mão. Ajuda-me a levantar. Vamos os dois de mãos dadas ao mar. Mergulhamos no Atlântico. Gritamos com o frio da água, mas rimos de estarmos ali assim, sozinhos, a viver o nosso Verão dentro do Outono e a pensar que Agosto é quando queremos e nós queremos Agosto agora, em plena celebração de um equinócio que também nós vivemos.
Aproveitamos uma onda para sair do mar e voltamos para as toalhas para aproveitar mais um pouco de vitamina D.
Mais tarde sairemos daqui. Subiremos à arriba. Iremos beber um copo de vinho branco. Petiscar uns camarõezinhos da Figueira. Olhar um para o outro. E iremos rir como parvos.
Como gostamos de ser parvos! E iremos rir de novo. E eu irei pensar se, um dia, irei encontrar a minha cara no PornoHub. Mas não estarei preocupado. Nem triste.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/23]

Dia Um de Setembro

Dia um de Setembro. Acabaram-se as férias. Os emigrantes regressam a França. À Suíça. Ao Luxemburgo. Os parques de campismo ganham clareiras. As unidades hoteleiras deixam de estar lotadas. Deixa de haver festas nas aldeias. Os Santos já foram todos homenageados. Os camiões TIR, que se transformam em palcos de luz e cor, voltam para as suas garagens à espera da rentrée, que não tardará. Deixo de ouvir os morteiros que me anunciavam as festas aqui à volta. Os pais pegam no dinheiro que esconderam nas férias, por causa das tentações, e avançam para a compra do material escolar dos filhos. A escola está aí ao virar da esquina. Alguns pais andam desesperados com o site Mega. Não funciona. Ou funciona mal. Aos bochechos. Os pais não conseguem os vouchers para adquirirem os livros gratuitos. As secretarias das escolas vão estar a meio-gás e não vão ter as informações necessárias. Haverá gente que irá parecer não ter ido de férias. Ou ainda não ter voltado. As cidades, amanhã, vão ter mais gente, mais carros, mais confusão.
Dia um de Setembro. Acabaram-se as férias. É altura de eu ir até à praia. Ter espaço para estender a toalha sem ter de deitar a cabeça nos pés do vizinho. Mergulhar na água do mar e não no chichi da velha. Poder dormir na areia e não ter de levar com o tijolo musical do jovem adolescente. Com a bola do atleta. Com a estória interminável da tagarela que não se cala, nem com o choro da criancinha que quer um gelado, uma Bola de Berlim, uma Bolacha Americana, ir ao mar ou, tão só, chatear toda a gente só porque sim.
Dia um de Setembro. Saio de casa de manhã. Levo chinelos nos pés. Calções de banho vestidos e outros para vestir mais tarde. Uma toalha. Um boné. Uma garrafa de água que deixei no congelador de véspera. Um Tupperware com uvas. Os óculos escuros que impedem os raios UV de me estragarem os olhos e uma vontade de mergulhar no Atlântico.
Dia um de Setembro. Cruzo-me com poucos carros na estrada. Pareço estar num filme pós-apocalíptico. Rodo sozinho. Fumo um cigarro enquanto faço o pinhal de Leiria que ainda não ardeu, a caminho da Nazaré. Deito a cinza no cinzeiro. Aproximo-me do primeiro carro que vejo desde que saí de casa. Vejo sair um pacote de batatas fritas pela janela do lado direito do carro. Apito. Ele responde com outra apitadela. Depois vejo um braço a sair pelo vidro esquerdo e fazer-me um pirete. Filho-da-puta!, penso.
Acelero. Ultrapasso o carro. Ponho-me ao lado dele. Olho para o homem que vai a conduzir através dos meus óculos escuros. São Ray-Ban. Não faço nenhum gesto. Só olho. O homem evita olhar para mim. Não estava à espera que eu me chegasse à frente. Guino o volante para a direita. O tipo assusta-se. Guina também para a direita e sai da estrada, entrando pelo pinhal de Leiria dentro. Eu continuo em frente, indiferente ao carro, ao tipo e a quem mandou o pacote de batatas-fritas janela fora.
Estou a chegar à Nazaré. No Calhau vejo uma quantidade enorme de cartazes a anunciar Quartos, Rooms, Zimmers, Habitaciones.
É bom sinal. Quer dizer que já toda a gente foi mesmo embora. Só espero que já não hajam Caravelas Portuguesas a impedir-me de ir ao mar.
Quando começo a descer para Nazaré, percebo que, afinal, ainda não acabaram as férias de toda a gente. É Domingo. É a porra de Domingo. Há fila compacta para chegar lá abaixo, à praia da Nazaré. Na rotunda, vejo que também há fila para ir para o Sítio.
Foda-se!
Contorno a rotunda e volto para trás. Volto para casa. Ainda não estou preparado para multidões. Afinal, ao fim-de-semana, Setembro ainda não é Setembro.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/01]

No Silêncio de uma Tarde de Domingo em Agosto

Estou no quarto, sentado na cama, com o iPad nas mãos. Estou farto das mesmas notícias. Farto dos incêndios no Brasil e na Sibéria. Farto do degelo no Árctico e na Gronelândia. Farto das birras de um idiota. Farto da estupidez do outro idiota. Farto das palhaçadas de mais um idiota. Farto do autoritarismo do mesmo idiota de sempre. Farto de Hong Kong. Da greve. Do mar frio no Algarve e quente na Nazaré. Farto da derrota do Benfica. E das petições no Facebook. Fecho o iPad e saio do quarto.
Passo na casa-de-banho e desligo o rádio. A hi-fi na sala. A televisão na cozinha, que está a transmitir para o boneco. Abro a porta para a rua e deixo-me envolver por aquele bafo quente que vem lá de fora.
Respiro fundo e saio para o alpendre. Desço as escadas e vou à pereira. Apanho uma pêra da árvore. Está madura. Rija mas madura. Limpo-a à camisola. Trinco-a. Volto para o alpendre.
Sento-me na cadeira a olhar lá para longe, para as montanhas.
É Domingo.
A casa está agora no silêncio. Ou quase. Ainda ouço o barulho do frigorífico a trabalhar. Ouço a minha boca a triturar a pêra.
Apuro os ouvidos para os sons que me cercam.
Ouço as galinhas nas traseiras da casa. Anda o cocó a querer saltar-lhes para cima. Por isso é que as ouço. Estão a fugir dele. Toda a gente foge do cocó. Até eu. O cocó só quer foder as galinhas.
Ao fundo, vindo de uma quinta lá de baixo, o latido de um cão. Algum estranho que passa do outro lado da vedação.
As cigarras em coro.
Não ouço os gatos. Um deles está deitado aqui ao meu lado. Nem lhe ouço a respiração. Não vejo o cão. Não responde ao outro que ainda ouço a latir.
Agora, percebo o moinho de vento do vizinho. Tac-tac-tac-tac. O moinho de vento no alto da chaminé.
Acabo de comer a pêra. Lanço o caroço para o meio do jardim. Acendo um cigarro.
Hoje não há morteiros. Se calhar não há festas. Já acabaram as festas de Agosto?
Há uns anos eram os anos do Sasha Summer Fest. O que lhe terá acontecido?
Hoje também há umas festas de Verão, mas diferentes. São festas de fim-de-dia, do lusco-fusco, disto e daquilo. Felizmente, longe daqui. Aqui não ouço essas músicas lúdicas à procura de criar um ambiente zen.
Será que acabaram as festas de Agosto?
Passa um carro lá em baixo, na estrada. É o primeiro carro que ouço passar em muito tempo. Está calor. As pessoas devem estar na praia. Debaixo de alguma árvore a piquenicar. A dormir a sesta. A fumar uma ganza. Gosto de árvores. Gosto da minha pereira.
E, então, ela chega. Traz uma pequena bandeja com uma tigela de fisális, uma garrafa de Alvarinho e dois copos de vidro.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/25]

Um Domingo a Ouvir The Las Vegas Story dos Gun Club

Era Domingo. Fui acordado pelo sol a lamber-me os olhos Acorda, mandrião!, disse.
Levantei-me da cama. Espreitei pela janela. Era Domingo. Um dia igual aos outros mas com menos gente na rua. Menos gente atarefada. Menos gente a caminho do trabalho. Menos gente a trabalhar. Menos gente no café no rés-do-chão do prédio. Mais gente a comprar pão que a beber café e a tomar o pequeno-almoço.
Estava sol e calor. Ia para a praia, pronto. Decidido. Ia dormir para a praia. Mergulhar no mar. Ver as miúdas. Beber umas cervejas.
Fui lavar o carro. Tomei banho. Desci ao café e comprei pão. Fiz duas sandes de fiambre com manteiga. Agarrei num pêssego.
Ainda não eram dez da manhã e o tempo mudara de cara. O sol tinha ido embora. O tempo, agora, estava cinzento. Começou a levantar-se vento.
Resolvi esperar. Larguei o pêssego na mesa da cozinha.
Ao meio-dia começou a chover.
Ao meio-dia e meio caiu granizo. O tempo ficou frio.
Acendi um cigarro e fui até à janela. Olhei para o meu carro lavado. A ser fustigado pela chuva. A ser sovado pelo granizo.
Começou a doer-me a cabeça. Tomei um Ben-U-Ron Caff. Vesti uma camisola de algodão. Com capuz. Enfiei o capuz na cabeça. Sentei-me no sofá. Fechei os olhos. Comecei a zunir. O corpo a baloiçar. Para a frente e para trás. Para a frente e para trás.
Levantei-me. Fui pôr um disco na aparelhagem. The Las Vegas Story dos Gun Club
A dor de cabeça tinha-se dissipado.
Pus-me a aspirar a casa. Não ouvia a música. Aumentei o volume para ouvir por cima do barulho do aspirador.
Na rua continuava a chover.
Haviam várias festas nas aldeias aqui à volta. E estava a chover.
Havia um concerto do Zé Café & Guida. E estava a chover.
Não saí de casa.
Acabei de aspirar. Puxei a agulha do prato para o início do disco.
Acendi um cigarro. Voltei à janela para fumar. Olhei de novo para o carro. Estava realmente bem lavadinho. Mandei o resto do cigarro para a rua.
Fui à casa-de-banho. Mijei. Olhei-me ao espelho. Mandei um murro no espelho e parti-me em mil-e-um estilhaços que se espalharam por toda a casa-de-banho.
Fiz sangue. Sangue no espelho. No lavatório. Na bancada de pedra. A mão passeou-se pela cara. Levou-me sangue à boca. Senti um pedaço de vidro espetar-se no lábio. Cuspi-o.
Saí da casa-de-banho. Entrei no quarto. Enfiei-me debaixo do edredão. Enrolei-me nele. Estava a tremer. Estava com frio. Estava ansioso. Sentia-me cansado. Sentia-me sozinho.
Estes Domingos cinzentos de chuva e frio deixam-me assim. Ao fundo ouvia o Give Up the Sun. E foi assim.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/30]