Um Murro nas Trombas

Caminho pela ecopista. Levo máquina fotográfica e tiro algumas fotografias. Não as mostro a ninguém. Nem eu jamais as vou ver. Acumulo cartões de memória cheios de fotografias e filmes que nunca mais vejo depois de os registar. Vão ficar para memória futura da minha vida nesta época. Uma memória a quem interessar.
Vejo ao fundo a vila. À volta há aldeias. Um pouco por todo o lado há casas. Pedreiras a esventrar a montanha. A zona é muito ruidosa. Não há um enquadramento vazio, selvagem, sem rasto de intervenção humana.
Passo por dentro de um túnel. Regresso ao céu aberto numa nesga e retorno a um segundo túnel. Está frio dentro dos túneis. Caem pingos de água do tecto. Um deles acerta-me na cabeça. Sinto-o contornar-me o crânio e escapar-se pescoço abaixo e enfiar-se pela costas. Dá-me um arrepio. Depois desaparece absorvido pela camisola.
Deixo o segundo túnel para trás e páro para fumar um cigarro. O trajecto está vazio de gente. As pessoas devem andar às compras no Centro Comercial. Está um bom dia para andar na rua. Não está frio. Não chove. Está…
Sinto um aperto no coração. Penso se não será do tabaco. Mas percebo logo que não.
Passo o ano a fugir. Passo o ano a pensar numas coisas para não pensar noutras. Esquecendo-as, esqueço-me da tristeza.
Levo com a época em cheio nas trombas. Sem aviso. Num sítio sem história, a fumar um cigarro e a ver como lá ao fundo, e visto aqui de cima, tudo é tão pequeno, as pessoas, a vida, os problemas.
E zás.
Materializa-se dentro do coração. Provoca-me uma lágrima que tento reprimir e ainda digo Que raio! como se não soubesse a que se deve, mas sei.
Eu bem tento não ligar à quadra, às festas, ao apelo constante do amor ao próximo, à família, ao reencontro. E, no entanto, ela chega. Forte. A ausência. A minha e a deles.
Não consigo parar a enxurrada de água que galga dos olhos para fora. Sento-me na cerca de madeira que circunda o caminho e não deixa as pessoas perderem-se ao longo da pista, sento-me com as pernas para fora, sobre o penhasco, lá em baixo a vila, o castelo, que está lá em baixo embora esteja numa colina, sento-me lá, na cerca, a fumar o cigarro e a pensar nas ausências. Digo Merda de Natal! como se o Natal tivesse culpa, alguma culpa dos nossos problemas. Dos meus problemas. Mas sei que não é o Natal que me incomoda. É esta alegria a que sou alérgico. Uma alegria obrigatória como obrigatório é comprar coisas, não importa o quê, coisas, muitas coisas, livros, discos, jogos, roupa, meias e a porra dos Ferrero-Rocher que andam de casa em casa até que finalmente alguém os come, ninguém sabe quem.
Sento-me na cerca de madeira a fumar um cigarro e pergunto-me se ainda se lembram de mim. E não sei a resposta. Ou tenho medo de saber.
Quero que passe rápido o Natal e eu possa voltar ao esquecimento. Prefiro esquecer que sentir a minha ausência na ausência deles.
Apago o cigarro contra a madeira da cerca. Levo a beata apagada na mão. Esqueci-me que tinha a máquina fotográfica nas mãos e bato-a contra a madeira da cerca. Porra! Regresso à minha vida de olhos molhados e o coração desfeito. Ainda o sinto bater, mas bate descompassado. Um coração em segunda-mão, com certeza. Um resto que ninguém quis.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/22]

Tempos Estranhos, estes!

Tempos estranhos, estes.
São tempos de moeda. Finança. Quem não tem jeito para vender está posto de lado. Deixado para trás. Crê-se num crescimento desmedido e infinito. Como se o futuro não chegasse nunca. Mas ele é já hoje! Agora! Não crescer é morrer. Estamos já todos mortos à espera de vez.
O deus do homem é o cartão de crédito.
Festeja-se o nascimento de um refugiado e fecham-se as portas e erguem-se muros contra esses mesmos refugiados. Porque não se pode albergar toda a gente. Sim, é verdade. Então é preciso criar condições de vida para além dos nossos muros. Deixar de roubar o que não é nosso. Em nome do progresso. Em nome do consumo. Não se festeja o refugiado. Festeja-se o bacalhau. O polvo. As filhoses e as rabanadas. O vinho e o espumante. E os presentes. As milhares de caixinhas de Ferrero-Rocher que andam de casa em casa. Passa-ao-outro-e-não-ao-mesmo.
Finanças. Progresso. Moral.
É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha que um rico entrar no reino dos céus. Era assim que eu ouvia contar quando era criança. Onde isto já vai!
In God We Trust!, they say.
São tempos estranhos, estes. Têm-se mais medo de uma mulher nua que de um homem morto. Há um politicamente correcto que cortou tudo a direito e massacra-nos a cabeça com a moral. Os bons-costumes. A pureza. Temos de ser assépticos. Esconder os mamilos.
Houve tempos em que mulheres nuas vendiam perfumes, carros, jóias. Hoje não se pode mostrar um mamilo. Um rabo. Uma vagina. A não ser que seja A Origem do Mundo.
No meu mundo, no meu mundo de portas fechadas à razão, não visto a moral. No meu mundo os homens têm pilas. As mulheres têm mamas e vaginas. Todos, mas todos, homens e mulheres e outros géneros têm sexo. Porque querem. Se não quiserem não têm. O que eles não têm, mesmo, é a porra de uma pistola na mão. O que eles não têm é um dedo no gatilho. O que eles não têm é um estômago de ferro para os impedir de vomitar ao ver a fome que grassa para além dos muros. E mesmo aquém.
São tempos estranhos, estes. É Inverno. Estamos em Dezembro. Às portas do Natal. Eu estou de t-shirt sentado no alpendre. Olho a montanha verde lá ao fundo. O céu está azul. Ouço os pássaros a chilrear. Fumo um cigarro.
Ela chega do interior de casa. Está nua. Descalça. Aproxima-se do varandim. Traz uma caneca de café a fumegar nas mãos. Beberica. Mas o que me chama a atenção são as mamas dela. Estão um pouco descaídas. Mas são redondinhas. Belas. Como duas lágrimas enormes prontas a tombar mas que, afinal, ficam por lá, a olhar para mim. Os mamilos eriçados, talvez por causa de algum vento frio que não descortino. Ela vira-se. Sem pudor algum. Encosta-se ao varandim. Dá as costas à montanha. Descobre-se para mim. Uma pequena penugem sobre o sexo a garantir que já não é uma criança. Eu largo o cigarro no chão e levanto-me. Aproximo-me dela. Tiro-lhe a caneca de café das mãos. Encosto-me.
In God We Trust!
Nem moeda, nem finança, nem venda, nem deus, nem nada…
Há lá coisa melhor que uma mulher?
São tempos estranhos, estes, em que há gente que o esquece.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/23]

Espírito Natalício

Sinto-me azedo. Chega esta altura do ano e começo com as irritações. Não gosto do espírito natalício. Não o espírito natalício em si, que não tenho nada contra, antes pelo contrário, e até era gajo para gostar do Natal, não tanto do aniversário mas, de tudo aquilo que o Natal podia representar. Amizade. Amor. Humildade. Bem estar.
Mas é tudo muita mentira.
O trânsito na cidade anda caótico. As pessoas estão agressivas.
Parei na senhora das castanhas, a eterna senhora das castanhas que está ali, naquela curva da cidade, desde antes do princípio dos tempos, a vender castanhas assadas, e assisti. O carro parou antes da passadeira para dar passagem a um casal de namorados. Eles passaram lentos, apaixonados, arrogantes, sozinhos no mundo. Só eles e o seu desejo. A meio da passadeira pararam para dar um beijo. Um beijo terno e apaixonado. Um beijo cheio de tesão. O homem do carro começou a apitar. Colou a mão à buzina. Vi a boca dele a abrir e fechar. Senti os gritos. A baba que caía pelo ódio abaixo. E depois, pé no acelerador, arrancou num foguete, queimando borracha no asfalto e deixando cheiro de borracha queimada a sobrepor-se ao cheiro das castanhas assadas, quase atropelando o par. Fiquei parado a olhar o carro a arrancar, doido, e a ter de parar uns metros mais à frente para dar passagem ao autocarro que saía da garagem. Karma.
Pedi uma dúzia de castanhas. Havia duas estragadas. Não me importei. Mas elas são pagas quase ao preço do ouro. Fui andando pela cidade. As luzes. As músicas. Os sacos. As cores. Tudo em excesso. Tudo demasiado. Tudo em promoção.
A cidade de lantejoulas mas em saldo. O brilho é falso. É tudo mentira.
Compras aqui e eles oferecem X a uma instituição de caridade. Compras ali e uma % das tuas compras vai para uma IPSS. Mais ao fundo são mais baratos. Mais ao lado são melhores. Na loja a seguir são os presentes ideais. Mas o melhor de tudo é que nem precisas de pensar muito no que é que vais oferecer à pessoa a quem queres oferecer. Compras um cheque. Um vale. Um valor. Compras um valor para oferecer. E depois, a pessoa troca o valor por algo que queira ou, não querendo, qualquer coisa porque já está pago. Não interessa o que se dá. Interessa é dar.
É o espírito natalício.
As pessoas oferecem presentes porque podem. Para mostrar que podem. Coisas caras. Únicas. Exclusivas. A minha carteira não tem fundo.
As pessoas oferecem presentes à família, aos amigos, conhecidos, colegas de trabalho, amigos-secretos. É obrigação. Oferece-se porque sim. Fica mal se não se oferecer. Mas ninguém gosta do que recebe. Quase nunca. Às vezes gostam. São uns simplórios, estes.
As pessoas oferecem presentes, muitos presentes para pagar as ausências, as faltas, as falhas, os erros, os enganos, as mentiras. As pessoas compram-se umas às outras.
Houve um tempo de meias. Houve um tempo de Ferrero-Rocher. Agora é o cheque-qualquer-coisa.
É o espírito natalício.
Em Outubro comecei a armazenar comida em casa. Enchi a despensa. Tudo para evitar entrar agora, nesta época, nos supermercados, hipermercados, megamercados, centros comerciais e todas as outras catedrais de consumo. Quero distância.
A cidade está iluminada. Há barracas. Barraquinhas. Presépios. A vaquinha. O burro. O menino Jesus nu, deitado numas palhinhas. Ao lado o carpinteiro José. E a mãe Maria. Uma árvore cheia de fitas e fitinhas e bolas e neve, de muitas cores, cores muito bonitas e apelativas. Um velho gordo, barbudo, com um saco enorme com presentes, meninos sentados ao colo e que só diz Ho-ho-ho.
Era uma vez um casal pobre, refugiado, emigrante, que não conseguiu um quarto para albergar a mulher grávida. Era uma vez uma mãe que teve de dar à luz num estábulo porque ninguém lhe abriu as portas. Era uma vez uns miseráveis escorraçados por toda a gente. Era uma vez uma estória de amizade, amor, bondade, humildade e bem-estar. Mas não era esta. Era uma vez uma estória que não tem nada a ver com esta que se conta todos os dias de Dezembro nas nossas cidades.
Se eu tivesse dinheiro, comprava-te um frasco anti-rugas ou anti-envelhecimento da La Prairie. Mas estou a brincar contigo. Gosto das tuas rugas. Das histórias que elas me contam. Preferia gastar esse dinheiro numa garrafa de vinho e sentar-me contigo a beber e a conversar.
Estou azedo. Amargo.
Mas estou mais ainda é triste.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/30]

O Amor… Que Vai e Vem

…sobreviver ao Natal, esta festa cristã que a economia conseguiu pôr a render mais que qualquer outra festa e que leva inclusivamente a olhar de lado quem não sente nenhuma empatia por este lufa-lufa entre lojas, umas mais caras outras mais baratas, à procura de coisas para oferecer, tendo o cuidado de pedir o sacro-santo talão de troca porque já se sabe que quem dá, dá uma coisa qualquer, comprada sem o mínimo de sentido e muito menos objectivo, e quem recebe acha que merecia outra coisa bem melhor ou mais de acordo com o estatuto género raça ou credo e a roupa não é prenda e os pares de meias e a caixa de Ferrero-Rocher que andam há anos de casa em casa sem nunca encontrarem abrigo, mas é estranho que este ano nem um Ferrero-Rocher franqueou as portas de minha casa, e que deve ter algum significado mas não quero agora pensar nisto até porque o que importa é a orgia do bacalhau com as couves e o polvo e o peru e o cabrito, quando não é borrego, e o camarão que agora é quase de graça comprado nos supermercados e já nem é preciso acordar de madrugada nem andar à tareia com alguém da fila, porque já não há fila para o comprar, regado a um qualquer vinho, este sim, caro, com um bom rótulo porque vai à mesa e é preciso impressionar, como impressionante foi ver que todas as estradas da cidade iam dar ao Shopping, a abarrotar pelas costuras com gente que se passeia, e também compra, depois de enfrentar filas de trânsito de horas, enquanto a cidade fica deserta, definha e é palco de actividades lúdicas e populares o suficiente para trazer cá para dentro quem cá não vive porque as pessoas que habitam a zona velha devem ter o hotel pago durante estas eternas festividades que infestam esta zona de tanto barulho que não deve haver gente que resista a estas terapias de choque de alegria a todo o custo e, ainda mal refeitas desta loucura natalícia, que muitos já esqueceram o que celebra e, como já disse lá em cima no texto ostraciza quem não acredita no Pai Natal, nos unicórnios, em princesas da Disney nem príncipes de cavalo branco que os divórcios dos pais ajudaram a esquecer, ganha-se pedalada para a Passagem de Ano onde os foliões vão gastar as energias do ano passado e as do seguinte, entrando já neste novo ano em deficit, mas muito alegres e contentes que o que é preciso é esta alienação da vida, não é preciso ler, estudar, aprender, discutir, perceber, o que é necessário é competir, ser melhor, ir mais longe, ganhar e depois extravasar tudo no vómito de uma festa de Passagem de Ano como se nos preparasse para as tristezas que o novo ano nos traz mas que, ansiosamente acreditamos que seja melhor que o outro e desta é que é e é agora que a humanidade muda e que as pessoas largam o livro de cheques e o cartão de crédito e vão finalmente abraçar-se umas às outras e dar mimo e colo que é, afinal, o que todos nós andamos à procura mesmo quando estudamos a física-quântica: o amor, o raio que o parta do amor que vai… e vem…

[escrito para o Jornal de Leiria em 2017/12/28]

Esquecer as Palavras

Pus-me a olhar lá para fora, através do vidro da janela fechada e pensei que o tempo estava como eu: cinzento, frio, chuvoso e furiosamente ventoso.
Voltei para a cozinha e procurei entre os restos de pão os que não tinham bolor e coloquei alguns pedaços a torrar. Fui fazer café, mas descobri a lata vazia. Nem um vestígio de pó. Abri a porta do frigorífico e vi uma garrafa de cerveja de litro já encetada. Abri-a e levei o gargalo à boca. E cuspi, subitamente, para a pia do lava-louça. Estava morta. Totalmente morta. Sabia a urina, se é que a urina sabia assim. E pensei num chá, e sim, era o que ia fazer. Procurei um limão. Só encontrei uma laranja. Que seja. Pus água ao lume e descasquei duas lascas da casca da laranja. Nunca tinha provado chá de laranja. Há sempre uma primeira vez para tudo.
Peguei no telemóvel e telefonei para o trabalho. Avisei que estava com dores reumáticas na perna e não podia mexer-me. O meu trabalho obriga-me a estar o dia inteiro em pé a andar de um lado para o outro. Com dores na perna, não me poderia mexer e não poderia trabalhar, o melhor mesmo era ficar em casa. E fiquei. Na verdade não me doía a perna. Mas doía-me a alma. Esta semana de Natal tinha-me ferido de morte. As ausências, as faltas, as percas, tudo tinha contribuído para a morte do meu, já de si fraco, coração.
As torradas começaram a queimar e fui a correr tirá-las da torradeira. A água ferveu, saltou do púcaro e sujou o fogão.
Acabei por deitar o pão queimado fora e despejar o resto da água pelo cano do lava-loiça abaixo. Que porra de vida a minha.
Sentei-me na mesa da cozinha a pensar no que havia de fazer e olhei para uma caixa de Ferrero-Rocher que jazia lá em cima. Tinha sido a minha única prenda de Natal e dada pelo amigo secreto lá do trabalho. Abri-a e comi um chocolate. Eu nem gosto de chocolate. Quando dei por mim a caixa estava vazia e eu um pouco enjoado.
Acendi um cigarro. Levantei-me e fui abrir a janela da cozinha e pensei nas horas que ali passava a fumar e a ver as pessoas lá em baixo. Podia dar algumas estórias se eu tivesse paciência para as escrever. Não tenho.
O que é que tenho afinal?
Nada.
Não tenho nada.
Ou uma vontade de me deixar estar, ali, sem me mexer, sem pestanejar, sem coçar o nariz nem o rabo, sem precisar de me levantar para urinar, reduzir a minha existência ao estar, assim, ali, com um cigarro aceso no canto da boca e a cabeça a pensar em coisas inócuas que não fizessem doer, não pensar na falta de gente na minha vida, na falta de amigos, namoradas ou namorados, na falta de sexo, nada, nada, nada, nem sequer querer saber dos jogos do Benfica das selfies do Marcelo ou da lei de financiamento dos partidos. E de onde é que saiu esta? O que é que eu sei disto? Que mania esta de mimetizar o que sai da rádio ou da televisão. Mas acho que nem o Correio da Manhã quero ler. Não, não quero nada, nem comer, nem beber, nem foder, nem ver, nem olhar, nem cheirar, nem respirar. Não querer viver. Estar só ali assim, de cigarro na mão e ser o nada. Esquecer as palavras. Deixar de saber o sentido e significado. Perdê-las. Assim bndmsiaf neidd jhwbx…

[escrito directamente no facebook em 2017/12/26]