Uma Sardinhada

Eu devia ter percebido logo. Mas não percebi. Às vezes não percebo logo as coisas. Mesmo quando são evidentes.
Era perto do meio-dia. Eu estava em pé, no alpendre, a ver o cão às voltas do arbusto e a levantar a perna para mijar e marcar território mas já sem ter mijo para despejar, quando ela chegou por trás de mim com um gin tónico nas mãos. Sorri e agradeci. Estava calor. Não costumo beber álcool de manhã mas, não ia dizer que não. Levantei o copo para ela em agradecimento e bebi um gole, um grande gole com o qual despejei quase metade do copo. Estava refrescante. Soube-me bem.
E então ela disse Comprei sardinhas.
Oh, pá! Afinal, era isso. O gin era para me comprar. Era para me preparar para as sardinhas. A lata dela. Bom, tinha uma fogueira para ir fazer. Tinha brasas para ir fazer. Tinha sardinhas para ir assar.
Dei-lhe um beijo e fui até à churrasqueira. Gravetos. Uns pauzinhos maiores e mais grossos. Pinhocas. Acendalhas. Risquei um fósforo. Acendi o lume. Abanei um pouco com o abanador. Beberiquei o gin. Dei novo gole. Acabei com ele. O gin é refrescante. Escorre pela garganta. Vai-se enquanto o Diabo esfrega o olho. E só bate quando é tarde demais.
Continuei a abanar o lume para fazer crescer as chamas. O fogo estava vivo. Ela voltou a aparecer com outro gin tónico e uma caixa com sardinhas e dois pimentos, um verde e um vermelho. Beberiquei o gin.
Peguei no saco do carvão e despejei um pouco sobre o lume. Dei ao abano. Fiz o carvão incandescer.
Virei-me para trás. Vi-a voltar para o interior de casa.
Há uns anos, numa férias, as primeiras férias que fizemos juntos, partilhámos quase tudo, a cama, a comida e a bebida. Lembro-me de estarmos a vir da praia, primeiro dia de praia juntos, os corpos quentes, o meu muito queimado porque não quis usar creme protector, e mais tarde tive de me besuntar com creme hidratante, sentei-me numa esplanada, com ela, e mandámos vir uma tosta mista que partilhámos. Metade para mim, metade para ela. E uma cerveja. Dois copos. Metade para mim, metade para ela. Ela ainda me deu uma trinca da tosta dela, assim, da boca dela, num bocado maior, com um bocado de fora da boca e que me obrigou a aproximar dela, da boca dela, os lábios a tocarem-se, os dentes a rasgarem o pão de forma torrado, o queijo derretido a cair pelo queixo abaixo.
Os gravetos arderam. O carvão estava em brasa. Coloquei a grelha e os pimentos. Deixei os pimentos assarem bem. Queimaram um pouco mas não havia problema. Era a pele. O queimado era na pele. Bebi mais um bocado de gin. Ela apareceu com um saco de plástico. Coloquei os pimentos dentro do saco de plástico. Ela deu um nó no saco. Eu coloquei as sardinhas na grelha. Ela deu um gole no gin. No meu copo de gin. Eu tirei-lho das mãos e acabei com ele. Ela levou o copo vazio e os pimentos.
Nesse dia, e depois de me ter colocado creme hidratante no corpo, saímos para jantar. Comemos frango assado. Meio-frango assado com batatas-fritas e salada. Era uma dose. Partilhámos a dose pelos dois. Voltámos a beber uma cerveja pelos dois. Naquelas férias foi tudo muito assim. Partilhámos tudo. Ou quase tudo.
Ela voltou com outro gin. Beberiquei. Virei as sardinhas.
Mais tarde, naquela noite, partilhámos uma fartura e fiquei cheio de azia. Tivemos de procurar uma farmácia aberta para comprar Kompensan. Ela também tomou uma pastilha. Não porque precisasse. Mas por solidariedade.
As sardinhas estavam assadas. Acabei com o gin. Sentia-me um pouco tonto. Entrei em casa com as sardinhas e o copo de gin vazio.
A mesa estava posta. Uma fatia de broa nos pratos. Uma batata cozida. A saladeira com uma salada de pimentos, pepino e tomate. Azeitonas. Uma garrafa de vinho aberta e vinho nos copos.
Comi e bebi. Fui pondo as sardinhas sobre a fatia de broa. Parti a batata. Um pouco de salada ao lado. Reguei com azeite. Comi uma azeitona. Outra. Porra, estava com fome. Devorei a sardinha. Fui repondo uma sardinha em cima da fatia de broa. No fim, comi a broa cheia de azeite e gordura das sardinhas. Bebi vários copos de vinho tinto. Não sei quantos.
No fim, arrotei. Estava satisfeito. Sonolento.
Fui até ao alpendre. Sentei-me e deixei-me adormecer.
Voltei à praia. Nessas férias fiz nudismo. Fizemos. Eu e ela. Foi a primeira vez que fiz nudismo na praia. Voltei a não usar creme protector. Voltei a queimar-me. À noite, ela voltou a besuntar-me com creme hidratante. Nessa férias partilhámos tudo. Menos os corpos. Eu não estava em estado de fazer sexo com ninguém. No dia seguinte fomos comprar um chapéu-de-sol e passei o resto das férias debaixo do chapéu.
Acordei agora, há uns minutos. Ainda estou a pensar naquelas férias. Um dia tenho de falar naquelas férias. As férias em que partilhei tudo com ela, menos os corpos. Por minha culpa. Às vezes sou estúpido e faço merdas assim. Mais tarde vim a partilhar o corpo com ela. O meu corpo e o corpo dela. Até hoje. Hoje já não vou para a praia sem creme protector. Mas continuo a partilhar tudo com ela. Agora até o corpo. O meu. O meu e o dela.
Naquelas férias também não comemos sardinhas. Foi o único ano em que não comemos sardinhas. Nem sei porquê.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/13]

Aguardo

Aguardo. Tenho a vida em suspenso. Posso ir ou não? Devo fazer ou esperar?
São tempos de enormes incógnitas. Não sei como vai ser a minha vida amanhã. Daqui a uma hora. Dentro de cinco minutos.
Tudo pode mudar. Ou tudo pode ficar na mesma. Não, na mesma não vai ficar. Já há demasiadas alterações à ordem das coisas para considerar que a vida retome a sua normal cadência diária. Os dias já não são iguais. Os dias já não são iguais a nada.
O país pode fechar.
O mundo pode encerrar para limpeza.
Eu posso ficar preso dentro do país. Do meu país. Na minha cidade. Em casa. Fechado em casa à espera de melhores dias. Mas aguardo. Aguardo em casa como me aconselham a fazer. Não estou de férias. Estou na corda bamba. Estou funâmbulo. Aguardo.
E se for eu? E se for eu o contagiado? Em segunda ou terceira via mas, e se eu for o contagiado?
Não vou para a praia. Isto não é uma brincadeira. Isto é a alteração do nosso modo de vida. Que pode passar a nosso modo de morte.
Gente que não sabe de nada opina com uma sapiência adquirida em conversas de café. Toda a gente sabe de tudo, mesmo que não saiba de nada. Brinca-se com a morte. O medo é terrível e leva ao disparate.
Vejo nos noticiários a busca desenfreada por papel-higiénico. Papel-higiénico? Por vezes não consigo perceber os caminhos que os homens percorrem.
Se tenho medo. Sim, tenho. Mas estou tranquilo.
O bom-senso manda aguardar. Aguardo.
Aguardo as sugestões, as ordens de quem sabe. Aguardo as ordens de quem estuda o assunto. Dos técnicos preparados para tomarem decisões por mim que não sei de nada, a não ser aquilo que me dizem, aquilo que querem que eu saiba. E eu não quero saber mais. Só quero saber o suficiente.
Recuso o pânico. A arrogância de que sei quando nada sei.
Aguardo. Tenho a vida em suspenso mas aguardo.
Aguardo com calma que me informem do evoluir da situação.
Aguardo que me digam que vou continuar vivo.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/11]

Éramos Jovens

Éramos todos jovens. Jovens, bonitos, elegantes e muito sensuais. Eu também era assim. Era o futuro. Aquele que, no presente, representava o futuro e nunca, nunca por nunca, seria passado.
As calças apertadas. As camisas abertas. A barba de três dias. O cabelo revolto ou o gel no cabelo. As discotecas. Os bares dançantes. As saídas de casa. O teatro. O cinema. Os concertos. As bebedeiras. As drogas. As noites de sexo que os pais, coitados, nunca tinham tido. Eram namoradas, amigas, amigas muito coloridas, conhecidas.
No alto da minha arrogância apontava o dedo acusador aos velhos que me tinham precedido. Não sabiam. Já não sabiam. Ria-me de os ver curvados, gordos, carecas. De perderem o fôlego numa pequena corrida. De não entenderem a tecnologia. De terem dedos demasiado grossos para escrever mensagens no iPhone. De esquecerem onde tinham largado os óculos e não verem nada sem eles. Das roupas sem graça que usavam. Dos livros esquecidos que citavam. Das músicas parolas que dançavam. E como dançavam. Colados. Uns aos outros. A sentirem a transpiração uns dos outros.
Eu nunca usaria óculos nem bengala. Nunca mijaria nas calças nem na cama. De corpo direito e cabeça erguida nunca receberia ordens. Seria eu a dá-las.
O mundo era meu. Nosso. Nosso, dos jovens. Os que tinham futuro. Íamos ter trabalhos de grande responsabilidade mas cheios de glamour, com salários com que os nossos pais nunca puderam sonhar, e podíamos ir de férias para todo o lado. O mundo era o nosso quintal. A globalização tinha-nos dado a ideia de que podíamos ir a todo o lado. A internet levou-nos lá. As low-cost levaram-nos, de facto, a quase todos os lados. Mais a uns lados que outros que temos tendência para ir onde vai toda a gente. Precisamos de eco. Ver o que os outros vêm. Ouvir o que os outros ouvem. Ler o que os outros lêem. Ir onde os outros vão. Mas não uns outros quaisquer. Os nossos outros. Os meus outros. Os meus amigos. A minha tribo. O meu parâmetro de comparação. Fomos às mesmas ilhas das caraíbas, em resorts assépticos que a realidade é uma merda. Às mesmas cidades de cartaz. Quem não foi a Veneza? A Barcelona? A Paris? A Londres? Quem não passou férias na República Dominicana e em Cuba? Quem não foi a Jericoacoara? A Natal? Quem não sonhou em ir à Nova Zelândia? Mas já não chegámos lá.
Éramos a geração escolarizada. Todos aprendemos a ler e a escrever. A ter opinião e a deixar de a ter. Éramos superiores aos nossos pais que não sabiam ler ou tinham uma quarta classe tirada em adulto. Fomos os primeiros a levar livros para casa. Falávamos várias línguas. Íamos conquistar o futuro.
E saímos de casa dos pais para ir estudar. Estudar longe de casa – ainda se podia. E a pensar nunca mais voltar.
Como estávamos enganados.
E depois, depois de muitos anos de tudo a que nos julgávamos com direito, depois de muitos anos a tratar o mundo por tu, percebemos que nós éramos os nossos pais.
Eu percebi isso quando voltei para casa deles. Quando regressei, porque não podia ter sido de outro modo. Todo o meu conhecimento não foi suficiente para conseguir um trabalho bem pago. Sem capacidade de pagar uma renda de casa. Mais água. E gás. E electricidade. E o cabo. Como viver sem internet? Sem férias. Sem viagens. O mundo era meu, mas era digital. Estava lá, não estando. Um sonho que que só existia no Facebook, no Instagram.
Então, descobri que eles era eu. Eu era o velho. Era o gordo. Eu é que tinha os dedos demasiado grossos para escrever mensagens no iPhone. O meu presente já não tinha futuro, só passado. Um passado cheio de esperança e ambição que não chegou ao presente.
Agora uso calças largas porque me são mais confortáveis. Óculos para perceber quais os comprimidos a tomar. Já não tenho cabelo. O sexo só por marcação e com ajuda do comprimido azul. Já não saio de casa sem a bengala. Na verdade, já não saio de casa. Tenho frio. E medo.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/04]

O Prego

Eu olhava o pé e via o prego lá espetado. Havia sangue a escorrer para os lados.
A minha mãe tinha-me avisado Não andes descalço, rapaz! e eu, enfadado, dizia Estou de chinelos, mãe! ao que ela respondia É a mesma coisa!
Ela tinha razão. Nos sítios por onde eu andava, naquele Verão quente e solitário, o único miúdo da rua a ficar em casa nas férias, não havia dinheiro para os habituais quinze dias na praia da Vieira, andar com aqueles chinelos de borracha de enfiar no dedo era o mesmo que andar descalço.
E era.
Quando pisei a tábua com o prego, comprovei. O prego furou a borracha e o meu pé como se cortasse manteiga quente. Só dei por ela quando o prego estava já todo enfiado.
Nem percebi.
Andava pelos estaleiros da rua. Tempos de prosperidade no país. Novas casas. Novos prédios. Novas ruas. Nunca se tinha visto nada assim ali na zona.
Nós, eu e os outros, subíamos ao alto dos prédios e voávamos para os montículos de areia que estavam por ali, como pequenas dunas, à espera de fabricarem cimento. Quem não voasse era medricas. Quem é que não voava?
Naquele Verão solitário vagueava por lá, a fazer tempo, a queimar dias até à chegada dos outros miúdos, parceiros da bola.
De manhã ficava em casa a ler. Li muito nessas férias. Depois de almoço, saía de casa e aventurava-me sozinho pelas ruas novas. Os calções a cair pelo cu abaixo, os chinelos a bater na planta dos pés, chlep-chlep.
Procurava tubos de PVC para fazer cornetas. Martelos perdidos. Cheguei a trazer uma porta de madeira, dois cavaletes e uma plaina.
Já me tinha arranhado. Nunca tinha espetado um prego no pé.
Agora já tinha um. Olhava para ele. O prego espetado no pé. O sangue a cair. Comecei a sentir náuseas. Dor de cabeça.
Pensei Puxo o pé de uma vez.
Tentei, mas não consegui. Não consegui sequer mexer o pé.
Lembro-me da primeira vez que voei para um monte de areia. Saltei do primeiro andar. De uma varanda aberta de um primeiro andar. Lembro-me de me sentir o Super-Homem enquanto voava da varanda para cima do monte de areia. Um pássaro. Um avião. Eu!
Baixei-me para ver o tamanho do prego. O tamanho do buraco. A quantidade de sangue. Senti o olhar fugir. A cabeça começou a rodar numa espiral. O sangue desapareceu. O prego desapareceu. O buraco não existia. Doía-me a barriga. Chegaram os vómitos.
Eu disse, baixinho Mãe!
E ouvi-a dizer Eu avisei-te! mas se calhar imaginei.
Vomitei. E depois senti que o chão já não existia debaixo de mim e o mundo era uma mancha preta no vácuo.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/30]

Esquecer Tudo o que Nos Faz Sentir Mal

Íamos os dois estrada fora. Duas faixas. Nós sempre na faixa da direita, mais devagar, a apreciar a paisagem, o verde, o amarelo, o castanho, as casas perdidas algures, entre montes e vales e muitas nas encostas. Há sempre uma casa perdida na paisagem. Já não há paisagens virgens.
Era o primeiro dia de férias. Janelas abertas. Eu com o cotovelo pousado na janela aberta. Ela com os pés esticados sobre o tablier. Uma mania. Já tínhamos sido multados por isso. Por ela ir com os pés descalços colados ao pára-brisas. Nunca cheguei a pagar essa multa. Qualquer dia vão buscar-me a casa. Se eu lá estiver.
Éramos ultrapassados por camiões cheios de pressa que nos faziam tremer na deslocação de ar das suas ultrapassagens, em velocidade bizarra e colados a nós. Cheguei a pensar que podíamos ser chupados por um túnel de vento.
Ela acendia-me um cigarro. Outro para ela. Íamos assim, descontraídos, a fumar um cigarro, com o rádio a debitar uma qualquer música local que não percebíamos por causa do ruído do vento que vinha de fora e nos enchia os ouvidos.
Então, senti a mão dela, suave, sobre o meu braço descansado sobre a alavanca de velocidades. Olhei para ela que disse Preciso de fazer chichi.
Continuei a conduzir naquela velocidade quase sonolenta mas agora atento às placas de indicação de Estações de Serviço.
Odiava aquelas Estações de Serviço. Quer dizer, para encher o depósito de combustível, eram todas iguais. Mais cêntimo, menos cêntimo, esta marca ou aquela, normal ou aditivada, era só enfiar a agulheta no buraco do depósito e encher. Mas para comer e ir à casa-de-banho, eram todas muito sofríveis. A comida era cara e geralmente muito má. O pão era seco. A manteiga margarina. O queijo corrente. O fiambre era mortadela. As vezes até a Coca-Cola era Pepsi. Quanto às casas-de-banho, por mais que fossem limpas, estava lá sempre o papel com os horários de limpeza e a assinatura da funcionária responsável, nunca perdiam aquele cheiro entranhado a mijo, as retretes entupidas, a falta de papel-higiénico, as torneiras automáticas que não davam tempo de mudar a mão de um lado para o outro e os secadores que, por mais que as mãos ficassem lá por baixo a esfregarem-se, nunca ficavam secas.
Saí na primeira indicação. Não valia a pena escolher. Eram todas iguais. Entrámos mais uma vez em contra-mão no parque de estacionamento da Estação de Serviço. Nunca acerto com as direcções pintadas no chão, e entretanto apagadas pelos pneus dos milhares de carros que entram por ali diariamente, e as placas de trânsito com as suas mil-e-uma informações ao utente e qual-é-a-minha, porra?
Parei num lugar vago debaixo do sol escaldante. Nestas Estações de Serviço nunca há árvores. Ela tirou os pés a contra-gosto do tablier e enfiou-os nas Havaianas.
Saímos do carro.
Entrámos no bar da Estação de Serviço. Encostei-me ao balcão. Ela encostou-se a mim. De costas para o balcão. Abraçada a mim. A morder-me o pescoço. Eu pedi Duas Coca-Colas e un bocadillo de calamares cortado pela mitad. E ele respondeu Solo Pepsi. Ela riu-se. E eu disse Entonces, puede ser.
Ela deixou-me encostado ao balcão, e foi, a rir, em direcção à casa-de-banho. Eu mandei um grande gole na Pepsi. E disse Foda-se! Comecei a comer uma metade do pão com calamares.
Ela apareceu. Branca como a cal. Agarrou-se a mim. Estava a tremer. A tremer que nem varas-verdes. Caíam-lhe gotas de suor pelas têmporas. E eu perguntei O que foi? e ela encostou-se mais a mim, aproximou a boca do meu ouvido e disse, num sussurro quase inaudível, assustado, quase-morto Acho que está um feto morto na casa-de-banho. No meio do caixote de lixo. Era assim uma coisa… E começou a chorar. A chorar baixinho.
Eu tirei uma nota de dez euros do bolso. Larguei-a no balcão. Agarrei na outra metade de pão com calamares, em vários guardanapos e saí do bar, com ela agarrada a mim, a querer cair por mim abaixo, a querer desmaiar, a querer adormecer e despertar de um horrível pesadelo.
Entrámos no carro. E arranquei, de novo, pela estrada fora.
Levávamos as janelas abertas. A rádio desligada. Ela não falava. Eu não dizia nada. Continuámos em silêncio. Continuámos em frente mas já não sabia se queríamos ir para onde íamos.
Às vezes basta um pequeno acidente no percurso para nos mudar a vida. Para o bem ou para o mal. Para nos mudar, com certeza.
Já não somos os mesmos depois da paragem naquela Estação de Serviço. Mas também ainda não sabemos o que é que somos. Ainda estamos a processar as coisas. Estas coisas que nos acontecem. E não pedem autorização para acontecer. E nos mudam, assim, de repente.
Parei o carro à beira da estrada. De um lado e outro, descampado. Ao fundo, o touro da Osborne. Eu mijei virado para o touro. Quando regressei ao carro, vi que ela estava agachada entre o carro e a porta aberta. Eu entrei no carro. Ela também. O carro arrancou. Ela acendeu um cigarro e deu-mo. E depois acendeu outro para ela. E fomos, estrada fora, a fumar, a ouvir o vento a entrar pelas janelas abertas, e a tentar esquecer todas as coisas que nos fazem sentir mal.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/20]

O Tornado

Estou sentado na esplanada da Batel, na marginal da Nazaré, a beber um café. Estou na marginal virado para o mar e tento vê-lo. Espreito por uma nesga de espaço livre entre os insufláveis da Minnie, da Patrulha Pata e do Faísca McQueen, de um lado, e de uma pista de carrinhos de choque infantil e uns discos voadores que rolam em pista no chão, do outro. Mais afastado está uma barraca de hambúrgueres McDaniel’s.
As pessoas vêm à praia para se deitarem na areia, mergulhar no mar, beber uma imperial, comer uma bola de Berlim, lamber um gelado mas, antes de o conseguirem, têm de sobreviver a toda a panóplia de actividades que servem de chamariz às criancinhas que azucrinam a cabeça aos pais Papá eu quero! Papá eu quero! Papá eu quero pular no insuflável!…
A Nazaré tornou-se uma feira durante os meses de Verão. Hoje já não é possível ir para a praia descansar. Agora, as férias são o martírio maior das famílias. Já nem é só pelo dinheiro que se gasta em ninharias, mas o barulho, a confusão, o apelo, os berros, o futebol de praia, a música, há sempre música, há sempre um festival em qualquer canto, em qualquer baiuca, como se o Homem não conseguisse viver sem a confusão e o engano da companhia.
No fundo continuamos todos sozinhos.
Atrás de mim na esplanada, uma mulher dos seus cinquenta anos, de cigarro na mão, pigarreia. Puxa muco do nariz e engole-o. Eu percebo todos estes sons característicos enquanto tento ver o mar lá ao fundo, por entre a nesga de espaço livre.
Ao meu lado um casal de brasileiros, jovens, com três filhas ainda muito novas, bebem uma imperial enquanto as miúdas comem um Magnum cada uma. Os pais comentam o azar pelo mau tempo nas férias. E têm razão. O tempo está encoberto. O horizonte termina logo ali, numa neblina carregada, sobre o mar. E levanta-se vento.
A mulher atrás de mim puxa, agora, expectoração do peito e agarra-a na boca. Ouço-a cuspir para o chão e sinto-me enojado. Tenho vómitos. Mas aguento.
O vento aumenta agora bastante de intensidade. A família brasileira sai da esplanada e foge para o interior da pastelaria.
Vejo aquilo que deve ser um pequeno tornado a vir, rápido, do mar. O vento é muito forte. Cai água. Não sei se é chuva se é água do mar a viajar no vento. Recuo para a beira da esplanada, para debaixo do arco do prédio.
A mulher que pigarreia, chega-se à frente para ver melhor o que está a acontecer. A esplanada voa. A mulher está mesmo à minha frente. E eu estico o pé. Dou-lhe um empurrão no rabo e vejo-a tombar. Mas não cai. É agarrada pelo tornado que a leva na sua espiral de vento junto com as mesas e cadeiras da esplanada.
A mulher desaparece no ar. O vento acalma. A neblina dissipa-se. Volta o sol. Reparo que os insufláveis desapareceram. As pistas também. O McDaniel’s resistiu, mas sem telhado que foi não sei para onde.
As cadeiras e as mesas da esplanada também voaram para parte incerta. Os pais brasileiros avançam até à esplanada com as mesmas imperiais na mão. As miúdas ficaram no interior a comerem os gelados.
Eu acendo um cigarro enquanto reparo que agora já vejo o mar.
Volta o sol. As pessoas começam a levantar-se na praia e andam de um lado para o outro à procura das suas coisas e das pessoas que perderam naquela confusão.
Encontro uma cadeira virada no chão, que não era desta esplanada, e sento-me nela. Tenho muito para observar.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/20]

No Domingo de Ramos

Entrámos na semana da Páscoa. A Semana Santa. Hoje celebra-se a chegada de Cristo a Jerusalém. Hoje também joga o Benfica. Hoje também é o último dia do fim-de-semana. Amanhã, há regressos ao trabalho. Os miúdos ficam por casa. Não há escola. São as férias. Uma dor de cabeça para alguns pais. E para mim. Eu já não posso ir ao café. Há muita confusão. Muita miudagem. Demasiada brincadeira de miudagem à solta, para mim.
Sento-me no sofá com vontade de pensar em tudo isto. Depois lembro-me das notícias que, cada vez mais, declaram que isto, isto tudo, esta vida que vivemos, estas vidas que vemos viver, não passam de simulações.
Sento-me no sofá mas já não penso em nada. Olho para a televisão. Apanho, em directo, o Nuno Rogeiro a comentar a semana política. Arranco no zapping. Cada vez mais rápido. Estou a ficar bom nisto. Nisto de carregar com o dedo no botão a grande velocidade e ainda conseguir ver, pelo menos, um frame de cada canal. Por vezes ainda consigo ouvir uma sílaba. Um esgar. Uma onomatopeia.
Mando o comando contra a parede. Vejo-o estilhaçar-se. Ouço-o quebrar-se em milhares de pequenas peças.
A televisão fica ligada num canal qualquer. Nem sei o que é. Nem percebo o que vejo.
Levanto-me. Vou até à janela da cozinha. Penso Podia estar a chover. Mas não está. Não está a chover. Os gatos estão a dormir sobre o pequeno muro do alpendre. O cão anda lá em baixo. Levanta a perna em todas as árvores. Como é que tem mijo para tanta árvore?
Olho em volta. Vejo o maço de cigarros na mesa da cozinha. Acendo um cigarro. Saio para o alpendre. Ouço o som da televisão lá ao fundo na sala, enquanto saio. Os gatos abrem os olhos. Olham para mim. Mas ignoram-me.
Ainda não comi nenhuma fatia de folar. Nem um ovo de chocolate. Não gosto de chocolate. Devo ser a única pessoa no mundo que não gosta de chocolate. Mas gosto do folar. Sem ovo. Nunca percebi para que serve aquele ovo.
O sino na igreja começou a bater. Está a chamar para a missa. Será que vai muita gente? Se calhar, nesta altura, vai lá muita gente. É preciso reforçar os pedidos de ajuda ao altíssimo.
O cão viu-me. Corre na minha direcção. Salta à minha volta. Lambe-me as mãos. Depois volta lá para baixo. Mais uma mija. Raios o partam.
Os gatos levantam a cabeça mas regressam ao sono.
Acabo o cigarro. Vou para mandar a beata ao chão e penso que depois sou eu que tenho de a apanhar. É melhor levá-la já para dentro de casa e colocá-la num cinzeiro.
Volto para dentro de casa. Penso Hoje é Domingo de Ramos. Entrámos na Semana Santa. Mas não sei o que quero dizer com isto.
Lembro-me que quebrei o comando da televisão. Penso Amanhã tenho de comprar um comando universal.
Apetecia-me beber uma aguardente, mas lembro-me que já acabou e ainda não comprei outra garrafa.
Volto para a sala. Quero sentar-me no sofá a olhar para a televisão e vou na esperança que o Nuno Rogeiro já tenha ido embora. Depois volto a lembrar-me que já não tenho comando. Vou olhar para o que estiver a dar. Ou então tenho que me levantar cada vez que queira mudar de canal. Decido que olho para um canal qualquer. Tenho a secreta esperança de conseguir adormecer no sofá, embalado por um qualquer canal televisivo que me consiga levar. Os Domingos de Ramos são bons para dormir.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/14]

Estou em Stereo e Recordo o Chiado

Estou em stereo. À minha direita o Sol. À minha esquerda a Lua. O Sol ainda vive os últimos raios antes de morrer para além da praia, do mar, lá para os lados da América. A Lua já canta lá em cima, foco de luz num azul petróleo que pinta o céu por cima das montanhas.
Enquanto me sinto em stereo, aqui no alpendre, recordo.
Sim, recordo.
Recordo o rescaldo do grande incêndio do Chiado.
Era Agosto e eu estava de férias na província. Vivia o Meu Querido Mês de Agosto. São Pedro de Moel, Vieira, Pedrogão. Em Leiria perdia-me pelo Terreiro, nos Vicentes e na Estrebaria. Nos Filipes. No Panaceia se ainda não tinha fechado. No Amadeus se já tinha aberto. A memória aqui torna-se um pouco difusa e perde-se nos pormenores. Mas também havia o Alibi. E o strip-tease no Raínho. E a Ala dos Namorados às cinco da manhã. As sandes de panado. A sopa de feijão na companhia das putas, dos chulos e da droga.
Mas recordo aquela manhã. E a tarde. E a noite. E os dias que se seguiram. E todas as imagens do Inferno. E todas as reportagens angustiantes e angustiadas de quem via uma parte importante do seu mundo desabar. Quem perdeu tudo. Quem viu perder tudo. Quem viu o diabo subir à Terra.
O Chiado como o conhecia, acabara. Acabara ali em poucas horas. Consumido pelas chamas.
Regressei a Lisboa em Setembro. Já bem no fim de Setembro. Mas ainda havia Inferno.
E recordo. Recordo de me aproximar mas não conseguir lá ir. Recordo que era assustador. Recordo que não queria ver. E vi à distância. À distância de segurança.
Para ir para o Bairro Alto subia pelo Elevador da Glória. Não precisava de subir o Chiado. Não queria subir pelo Chiado.
Recordo mais tarde. Recordo a reconstrução. Recordo os estaleiros. Recordo os fins-de-tarde de final de aulas, a descer o Chiado e passar pelas pontes, pelos passadiços, no meio dos estaleiros da reconstrução, e dos mirones que faziam fila para observarem os trabalhos de quem lá estava a trabalhar. Os trabalhadores. Os processos de reconstrução. De inovação. De recriação de uma zona que deixou de ser uma coisa para se tornar outra.
Mais tarde revi-a num filme de João César Monteiro. Não me recordo qual, mas ele era um militar que observava, do alto da sua arrogância de conhecedor, como todos os mirones, os trabalhos de recuperação do coração da cidade.
Em stereo recordo o Chiado. Recordo um tempo que não mais regressa. E mesmo tendo sido terrível, deixa-me um amargo pelo impossibilidade de regressar a um tempo em que tudo ainda era possível. Um tempo em que eu ainda era capaz. Uma época em que eu ainda acreditava. Em que julgava que tudo estava à mão-de-semear e que era só preciso estender a mão e agarrar. E em que estava tão enganado.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/24]

Uma Onda Gigante Veio das Colunas de Hércules

Estou no colchão de ar. Vou acima e abaixo seguindo a pequena ondulação do Mediterrâneo. Estou de olhos fechados e deixo-me embriagar naquele sobe-e-desce suave.
Ouço o barulho que me cerca, ao fundo, muito longe, como se estivesse a afastar-me dos outros. É a minha sonolência. Estou a dormitar em cima do colchão. O sol bate-me em força. A ondulação adormece-me. Os barulhos circundantes afastam-me. Afastam-se.
Sinto uma gaivota a passar. As suas pás junto a mim, distante, lá muito ao fundo. Os pés a pedalar. Esforçados. Ouço a respiração acelerada dos miúdos que saltam das borrachas da gaivota para o mar. E repetem. Sobem de novo para a gaivota e mergulham. Uma e outra vez.
O colchão ondula mais quando passa alguém a nadar forte perto de mim, bate os pés com fúria e agita as águas calmas onde estou deitado, em comunhão com a natureza preguiçosa que me embala.
Abro um pouco os olhos pesados e vejo lá no alto alguém pendurado num pára-quedas, mas não vem a cair, está a voar, como se fosse o Super-Homem ou a Mulher-Maravilha. Risca o azul do céu. Uma corda prende-o a um barco que, imagino, o puxa cá de baixo, do mar.
Volto a fechar os olhos. Estão pesados. O barulho da água a bater no colchão fazem-nos pesar. Querem adormecer-me. Querem justificar-me as férias.
Alguém diz Gosto deste mar.
Alguém diz Amo-te.
Alguém diz Sabes quanto nos vai custar estas férias?
Alguém pergunta O que é aquilo?
Alguém ri.
Alguém diz Vai à merda!
Alguém chama Maria!
Alguém diz E logo à noite?
Alguém pergunta O que é aquilo?
Alguém diz Já não tenho paciência para ela.
Alguém diz Para o ano vou para outro lado.
Alguém chora.
Alguém pergunta O que é aquilo?
Silêncio.
Abro os olhos.
Silêncio.
Olho o céu e já não vejo o Super-Homem.
Algo se passa.
Tento virar-me no colchão para ver o que se passa e o colchão vira-se. Sou deitado ao mar. Mergulho. Fecho os olhos. Sinto alguém a passar à minha volta enquanto estou mergulhado no mar. Sinto alguém a nadar ao pé de mim. Alguém a andar. A forçar um andar, pé-ante-pé junto a mim.
Agarro o colchão. Dou um impulso e puxo-me para cima do colchão. Abro os olhos. E ouço.
Confusão.
Gritos.
Choro.
Desespero.
Alguém pergunta O que é aquilo?
Vejo gente a sair, em pânico, do mar. A correr praia fora. A esbracejar. A gritar.
Vejo o medo na cara das pessoas. Vejo o desespero.
Toda a gente foge.
E finamente vejo.
Vejo uma onda gigante vinda das Colunas de Hércules, ali, do Estreito de Gibraltar.
Vejo uma onda gigante que vem na minha direcção e que é cada vez maior.
Está cada vez mais perto.
Eu petrifico.
Não faço nada.
Continuo agarrado ao colchão enquanto vejo a onda gigante a aproximar-se de mim e toda a gente corre praia fora.
Tenho os olhos pesados. Querem fechar-se.
Estou sonolento.
A onda aproxima-se.
Ainda ouço, lá muito ao longe, no meio de toda a barulheira de gentes e natureza assustadas, perguntar E agora?

[escrito directamente no facebook em 2018/08/21]

As Viagens de Carreira pelas Aldeias da Minha Terra

Entro na rodoviária e apanho uma carreira. É o que tenho feito nos últimos dias. Entro na rodoviária, vejo qual é a primeira carreira a sair para uma das aldeias à volta da cidade e lá vou eu. São as minha férias. É o meu Verão.
Houve uns dias de calor extremo em que acabei por ficar em casa, deitado no chão onde chegava o fresco, a chupar cubos de gelo e a esfregar a minha transpiração pelos tacos de madeira afagados.
Mas agora, agora ando a conhecer a minha terra.
Tenho descoberto nomes deliciosos. Alguns feios. Outros só bizarros. Janardo. Caranguejeira. Memória. Chaínça. Souto da Carpalhosa. Bajouca. Chiqueda. Pingarelhos.
Algumas terras são só uma pequena rua, deserta, outras parecem um puzzle com casas espalhadas à sorte em terrenos verdes, cheios de árvores e mato à espera de uma fagulha.
Reparo na grande quantidade de carros com matrículas estrangeiras. De França. Suíça. Alemanha. Luxemburgo. Cruzo-me nos cafés centrais, ou nos clubes da terra com gente descontraída, eles de bermudas, camisola de alças e chinelos, elas de calças de ganga riscada e manchas muito brancas e camisas estranhas com mangas grandes e em forma de balão. Eles carecas ou pouco cabelo, elas com os cabelos coloridos.
Bebem muito, falam alto e em estrangeiro.
Vejo casas a arejar. Casas que estão fechadas o ano inteiro, casas que esperam esta altura para abraçarem a vida e garantirem o regresso mais tarde e que abrem as portas e janelas para a aldeia e família.
Pelos cartazes que tenho apanhado nos postes de electricidade e nos muros das fábricas abandonadas, há festas em todas as localidades. Há festas todos os dias. Desde meados de Julho e até ao fim de Agosto, há festas todos os dias, com terras a sobreporem-se umas às outras com festas em simultâneo.
No início ainda havia uns morteiros e foguetes a avisar da festa. Agora, com medo dos incêndios, o fogo de artifício parou.
Há um nome que trago gravado na memória que se repete de terra para terra, de festa para festa, de cartaz para cartaz: Zé Café & Guida. Ainda não ouvi mas, um dia destes vou ouvir.
Depois das minhas voltas, o regresso. Volto ao ponto de partida. Chego à rodoviária de onde parti e sinto uma certa tristeza. As aldeias da minha terra são bem mais interessantes que a minha cidade.
Mas amanhã volto a partir. Deixar-me embrenhar em terras de nomes estranhos e gente esquisita e tão fascinante.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/10]