Para uma Biografia, que Pode ou Não Ser Auto (capítulo um)

Já tinha acabado o recreio dos anos oitenta e os noventa já davam os primeiros passos. Foi nessa altura que me casei. Que me casei pela primeira vez. Foi um casamento em que tentei prolongar a festa que tinham sido os anos oitenta. E durante algum tempo, foi o que aconteceu.
Alugámos umas águas-furtadas num bairro típico da capital. Era um inferno de Verão. Um gelo de Inverno. Mas era uma boa casa, acolhedora, de desenho bizarro, cheio de corredores e tectos baixos e janelas levantadas sobre o telhado, e divisões amplas. Dissemos que era uma casa fantástica para convidar pessoas e fazermos festas. O facto é que nunca tivemos ninguém lá em casa. Houve festas sim, mas só nós é que éramos os convidados. Só nós os dois. Nós os dois sozinhos até às duas últimas semanas em que lá vivemos, quando nasceu o nosso filho. Duas semanas depois de ter nascido mudámos para uma casa normal, num prédio normal, para tentar ter uma vida normal. Quarto andar com elevador num prédio de oito andares. Um prédio onde não chegámos sequer a conhecer os vizinhos de andar. Nem mesmo os que tinham a porta ao lado da nossa. Um prédio de onde saímos quando nos divorciámos algum tempo depois. Não chegámos a lá estar um ano. Foi nesse prédio que percebemos, mais ela que eu, que os anos oitenta tinham realmente acabado e era preciso crescer. E ela achava que eu não crescia.
A verdade é que na nossa primeira casa, nas águas-furtadas de um prédio de um bairro típico da capital, também não chegámos a conhecer ninguém do prédio, prédio pequeno, de escadas em madeira e íngremes, que em determinadas noites subíamos de gatas, a rir, perdidos de bêbados, onde vomitámos algumas vezes e de onde caímos outras e onde eu fiz esta cicatriz que tenho na testa. Ainda se vê bem a cicatriz quando tenho o cabelo curto, que é quase sempre, agora.
Estes anos nas águas-furtadas foram anos muito intensos. Duraram pouco mas, o que duraram, duraram quase por uma vida.
Nos meses de Verão andávamos sempre nus lá por casa. Eu e ela. As janelas abertas à espera de um pouco de corrente-de-ar que nunca vinha. Janelas abertas numa casa sem cortinas. Janelas abertas à discrição da vizinhança. Às vezes ficávamos horas a fumar cigarros e a ver a ponte sobre o Tejo lá ao fundo, ancas encostadas uma à outra. Às vezes fazíamos amor ali mesmo. À janela. Ela contra a balaustrada. Víamos as luzes dos carros a passar na ponte, as luzes vermelhas dos que iam, as luzes amarelas dos que vinham. Ao lado o Cristo-Rei, acho que envolvido numa luz azul. Por vezes também apanhávamos por ali o pôr-do-sol. O Tejo em tons prata. Os telhados que se estendiam como tapetes multicor. Tanta ganza fumada naquela janela. Algumas pastilhas. Muita loucura.
Vivíamos uma vida simples. Simples, mas intensa.
Em casa tínhamos um colchão no chão, onde dormíamos, e uma mesa com quatro cadeiras onde comíamos e trabalhávamos. Nos primeiros tempos nem prateleiras para os livros que se empilhavam no chão. Depois, alguns meses depois, comprámos umas prateleiras no Continente que montei sozinho, eu e uma chave-de-fendas, e por causa da qual fiquei com um calo na mão direita durante meses. Foi também nessa altura que comprámos uma televisão, pequena, a cores.
Tínhamos uns vasos à janela onde cultivávamos algumas especiarias que utilizávamos nas nossas festas gastronómicas. Nestes anos engordei bastante. Uma dieta à base de experiências gastronómicas exóticas, muito vinho e cocktails e charros que nos obrigavam a terminar as noites em volta de torradas banhadas em manteiga e pacotes de bolachas tartelletes de morango que devorávamos umas a seguir às outras, de boca cheia e onde enfiávamos sempre mais outra bolacha e quando falávamos cuspíamos migalhas sobre o outro e ríamos muito, ríamos que nem parvos.
Tínhamos fogão, frigorífico e esquentador que tinham vindo com a casa. Foi muito útil no início da nossa vida. Nos primeiros tempos nem sentimos a falta da televisão.
No Inverno deitávamos-nos com as galinhas da província. Eu agarrava-me a ela. Ela deixava-se agarrar por mim e dormíamos assim, agarrados e quentes, aquecidos um no outro, sem televisão, a ouvir o barulho da rua que nos embalava, com excepção dos eléctricos que, em dias de chuva, eram um inferno de barulho.
E durante uns tempos, durante alguns anos, o tempo que durou a nossa vida naquela casa de águas-furtadas, parecia que a nossa vida era um compêndio de felicidade. Como se os anos oitenta não tivessem nunca acabado e durassem para sempre. No tijolo que tinha ido connosco no primeiro dia, não parava de tocar uma cassete com os Echo and The Bunnymen e os Chameleons. Tínhamos trabalho, os dois. Um trabalho bem pago. Vivíamos em festa constante. Mas uma festa caseira. Muito sexo. Só os dois. Sem necessidade de mais gente. De outra gente. Às vezes íamos ver um filme ou outro ao cinema. Às vezes saíamos a meio do filme para irmos para casa foder. Às vezes íamos a um concerto ou outro. Mas perdíamos os concertos em enormes filas para conseguir beber cerveja. Às vezes íamos jantar fora. Mas preferíamos os balcões das churrasqueiras que, na década seguinte, entrariam em desuso, ultrapassadas pelos restaurantes-lounge de decoração minimal e preços astronómicos.
Este estado de festa durou até ela engravidar.
Depois ela mudou.
Depois ela quis que eu mudasse.
Depois mudámos de casa.
E acabámos por mudar de vida. E mudámos cada um para seu lado.
Acabou-se a festa e o casamento.
Às vezes penso que os anos oitenta foi uma década com muitos mais anos que os dez que a classifica.
Às vezes acho que regresso lá, mas descubro uma década fechada e vazia e onde já não consigo estar sozinho.
Quando finalmente descobri os anos noventa, já estávamos com medo do milénio.
Mas isso é outra estória.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/09]

Como É que se Destrói o que Já Está Destruído?

Como é que se destrói o que já está destruído?
Tinha passado o dia inteiro a pensar nisso: como é que se destrói o que já está destruído?
Fiz o meu trabalho, que não tem nada que saber, não é nenhuma ciência, nem requer grandes conhecimentos, mas que exige bastante atenção, pois estou sujeito a ficar sem os dedos das mãos, há vários colegas meus assim, lá na fábrica, sem alguns dedos das mãos, dedos deixados dentro das máquinas com que temos de conviver, e mesmo assim não consegui deixar de pensar no filme que tinha visto na véspera, à noite, sobre a guerra na Síria. A guerra na Síria e os seus incontáveis mortos. Uma guerra de que ninguém quer saber. Uns mortos que ninguém quer ver. Vi o filme e passei a noite em claro, desperto, de candeeiro aceso na mesa-de-cabeceira porque não conseguia enfrentar a escuridão da noite e o que ela traz. E depois, de manhã, depois de ter bebido uma caneca de café para me manter acordado no trabalho e ter fumado um cigarro, o filme veio comigo para o trabalho. E não deixei de pensar nele. O dia inteiro a pensar nele. Não cortei nenhum dedo, mas também não resolvi a equação: como é que se destrói o que já está destruído?
Às quinze horas, quando acabou o meu turno, pensei em ir dar uma volta pela cidade. Beber uma imperial. Libertar a cabeça dos seus dramas e descontrair. Ir a uma esplanada, talvez. Se não chovesse. Se não fizesse frio. Se não me desse a neura a meio do caminho e mudasse de vontade.
Mas nem cheguei aí, a meio do caminho.
Ao aproximar-me do carro, vi que tinha um furo.
Merda.
Depois de um dia de merda a fazer um trabalho de merda por um salário de merda a pensar que há gente que tem uma vida muito mais merdosa que a minha e, mesmo assim, debaixo de bombardeamentos constantes em cidades sitiadas por anos, têm filhos, têm inúmeros filhos, casam, fazem festas de casamento e de aniversário e buscam, mesmo assim, a felicidade, pensei que, ao ver o pneu do carro em baixo, que merecia um pouco mais de sorte da roda do destino. Até parecia que o mundo me queria atazanar o juízo.
Tirei o pneu de reserva, e vi que, ainda por cima, era de diâmetro mais pequeno, só para desenrascar, e que teria de ir à recauchutagem o mais rápido possível para recauchutar o pneu furado, tirei o macaco e a chave de porcas em cruz e o triângulo. Depois pensei para que raio me serviria o triângulo se o carro estava com o furo no parque de estacionamento da fábrica. Mandei o triângulo para dentro do porta-bagagens e percebi que tinha acabado de fazer merda. Eu a pensar nisso e o triângulo a bater no canto de uma caixa-de-ferramentas (quem é que anda com uma caixa-de-ferramentas no porta-bagagens do carro?) e lascou um bocado do vidro reflector que o vi saltar no ar e projectar alguns reflexos de sol pelo interior do carro como se fosse uma bola de espelhos numa festa de garagem nos anos ’80. E aí bateu uma saudade.
Merda.
Acendi um cigarro. Encostei-me ao carro a fumar o cigarro e pensei para comigo Se estivesse em Aleppo, seria pior! E seria, com certeza. Pois como é que se destrói o que já está destruído? E, estranhamente, acalmei. Deixei o fumo do cigarro entrar pelos pulmões e pensei que, de qualquer maneira, ainda poderia ir beber uma cerveja depois de mudar o pneu. Ora pois.
Deitei o cigarro fora. Arregacei as mangas. Agarrei na chave de porcas e comecei a desaparafusar as porcas que prendiam o pneu ao carro. Depois, antes de tirar as porcas por completo, peguei no macaco e comecei a elevar o carro. É difícil manusear estes macacos modernos.
Uma colega de trabalho, uma colega engraçada do trabalho, uma colega que costuma rir-se constantemente para mim, uma colega que é divorciada e sem filhos, bem-disposta e que faz piadas por tudo e por nada, passou por mim quando eu estava a elevar o carro com o macaco de difícil manuseamento e perguntou-me a rir (lá está!) Precisas de ajuda? E eu sorri, um sorriso amarelo e parvo e limitei-me a abanar a cabeça. Ainda pensei em convidá-la para ir beber uma cerveja comigo depois de ter mudado o pneu, mas olhei para as minhas mãos, todas sujas da borracha do pneu, e senti o cheiro que exalava debaixo dos sovacos e pensei que seria melhor ficar calado, não fosse ela aceitar, a pensar que, afinal queria levá-la era para o pinhal, o que ela quereria, e que com as unhas e os dedos tão encardidos que estavam e com o cheiro azedo que exalava, era bem melhor não me meter em grandes cavalgadas e não estragar aquilo que bem podia ser um caso com futuro no futuro, futuro esse que talvez não fosse assim tão distante. Baixei os olhos para o pneu e senti-a, pelo canto dos olhos, seguir em frente para o seu carro, a olhar para trás, para mim, até entrar dentro do seu carro que, um pouco mais tarde, ouvi sair do parque de estacionamento da fábrica.
Merda.
Acabei de mudar o pneu. Limpei as mãos às calças de ganga, que ficaram sujas, mas as mãos também, também continuaram sujas, encardidas, e as unhas pretas, cheias de merda enfiada debaixo da unhas.
Enquanto mudava o pneu era tal a irritação que não pensei mais na Síria. No fim acabei a pensar que é assim que as pessoas passam ao lado destes dramas: têm os seus próprios problemas, mais dramáticos porque são os seus. E a Síria fica lá longe. Onde é que fica a Síria, afinal? Fica lá no sítio onde ainda se consegue destruir o que já está destruído.
Uma merda, é o que é.
Entrei no carro. Liguei a ignição e pensei Vou beber uma cerveja. E arranquei com o carro. Mas à medida que galgava o asfalto, percebia que não estava a ir para a cidade, para uma esplanada, para um bar beber uma cerveja. Estava a ir para casa.
Cheguei a casa. Larguei o carro. Entrei e fui directo para a sala. Acendi um cigarro e comecei a chorar. A chorar convulsivamente. A chorar baba e ranho. A chorar alto. Aos berros. A chorar tanto que às vezes me parava a respiração. E eram tantas as lágrimas que me turvaram a vista que eu já não via o cinzeiro na mesa-de-apoio à minha frente. Mais tarde vim a perceber a quantidade de beatas caídas sobre o tapete da sala. Mais tarde vim a saber a quantidade de buracos que fiz no tapete da sala. Mais tarde vi as asneiras cometidas. Acabei com os cigarros. Mas continuei a chorar.
Ainda estou a chorar. Tenho que deixar de ver estes filmes idiotas. Para a merda de vida devia bastar-me a minha.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/26]

Naquele Tempo Não Havia…

Andava à procura da razão e abri a Crítica de Kant. Há quanto tempo não pegava naquele pequeno volume? Caiu uma fotografia. Caiu ao chão. Vi-a à distância do meu mais que um metro e oitenta. Reconheci-a. A fotografia. Já tinha uns anos. Uns valentes anos. Era uma fotografia a preto e branco.
Naquele tempo não havia fotografias a cores.
Baixei-me e apanhei a fotografia. Sim, reconhecia-a. Reconhecia-me. Eu e ela. Eu e ela numa mesa de restaurante. Eu tinha a carta na mão e lia a ementa. Ela olhava para o fotógrafo. Eu ainda tinha cabelo. Bastante cabelo. Ela ainda tinha vida e sorria.
Naquele tempo havia fotógrafos nos restaurantes.
Ela olhava para a câmara do fotógrafo quando o fotógrafo disparou. Depois o fotógrafo disse No fim do jantar a fotografia estará revelada. E estava. E trouxemo-la connosco, para casa.
Não me lembro como é que foi parar dentro da Crítica da Razão Pura.
Lembro-me que depois do fotógrafo tirar a fotografia ela virou-se para mim e perguntou-me És feliz? E eu ouvi a pergunta e senti a pergunta entrar por mim dentro a semear questões e procurar respostas.
Se eu era feliz?
O que era a felicidade? Se fosse acertar no Euromilhões em dia de acumulado gordo, não, provavelmente não era uma pessoa feliz.
Se fosse poder fazer o que gostava de fazer, talvez fosse mais-ou-menos feliz. Se fosse levar uma vida sem preocupações financeiras e ter uma saúde de ferro e um emprego compensador financeira e filosoficamente falando, não, se calhar não era uma pessoa feliz. Se me sentia amado e amante, se gostava de mim e do que era, mesmo que às vezes não fosse grande merda, talvez fosse um bocadinho feliz. Sim, talvez fosse um bocadinho feliz.
Naquele tempo não havia ninguém que fosse muito feliz.
Onde estava a comparação? Se eu era feliz comparado com quê? Com quem? Se me comparasse com o meu vizinho do lado, vítima de doença ruim que o consumiu durante anos antes que, finalmente, pudesse morrer, sim, sentia-me uma pessoa quase feliz. Se me comparasse com a vizinha de baixo que tinha acabado de ter gémeos e recuperou logo a boa forma física de um corpo que era extremamente desejável, não, se calhar, e olhando para a barriga que já tombava sobre a cintura das calças e obrigava os botões da camisa a ficarem em tensão, se calhar não, não era feliz.
Naquele tempo, se não se pensasse muito, talvez se fosse um bocadinho feliz.
Na verdade lembro-me de não saber exactamente que resposta dar.
O fotógrafo já nos tinha deixado para podermos usufruir, descansados, de um jantar a dois.
Naquele tempo não se jantava muitas vezes fora.
Não havia muitas oportunidades para se jantar fora. Era caro jantar fora de casa. Não só nós os dois. Quase toda a gente. Quase toda a gente almoçava e jantava em casa. Era muito mais barato. Às vezes levava-se o almoço para o trabalho numa marmita. Os jantares fora de casa eram só em dias de festa. Uma comemoração. Um aniversário. Uma promessa.
Naquele tempo não havia Dia dos Namorados.
Também não haviam assim tantos restaurantes como há agora que parece que nascem debaixo das pedras da calçada e há restaurantes para tudo, temáticos, típicos de países, tipos de comida, de comer em pé ou sentado, em cadeiras ou no chão, lights, gourmet, paleo, sem glúten, só peixe, só carne maturada, eu sei lá. Hoje há restaurantes que não acabam mais e para todo o tipo de carteira.
Naquele tempo não havia muita coisa.
As pessoas iam de vez em quando ao cinema. De vez em quando ao teatro. De vez em quando ao futebol. De vez em quando ao baile. De vez em quando a uma boîte. Passeava-se pelos jardins da cidade de mãos-dadas. Nas margens do rio. Comíamos pevides ao longo do rio, em passeio.
Naquele tempo não havia muitas distracções.
Ao olhar agora para a fotografia lembro-me de estar a ler a carta, ter esbarrado no Magret de Pato, ter olhado para ela e ter dito Sim, sou feliz, e de ela ter sorrido, um sorriso sincero e franco, um sorriso que vi esboçar muitas vezes enquanto viveu ao meu lado. Lembro-me do último sorriso que me ofereceu, momentos antes de parar de respirar pela última vez.
Sim, era feliz.
Como é que esta fotografia veio parar dentro da Crítica da Razão Pura? E porque raio andava eu à procura de razão?

Uma História de Amor

Conheci-a no dia em que o pai morreu. Entrei no bar. Sentei-me ao balcão. Pedi um gin tónico, Pode ser Bombay, disse, e ouvi uma fungadela ao meu lado. Era ela. Estava a chorar. Ofereci-lhe um lenço. Aceitou. Depois de ter bebido o meu gin, ofereceu-me ela outro. Aceitei. Conversou comigo. Foi aí que soube que o pai tinha acabado de morrer. Estava no hospital e tinha acabado de morrer. Ela largou toda a gente no hospital o pai, a família, os amigos, o namorado e foi dar uma volta a pé pela cidade. Começou a chover. Entrou naquele bar. Bebeu um whiskey. Começou a pensar no pai. Na ausência do pai. Na falta que já sentia. Começou a chorar. E eu ofereci-lhe um lenço.
Foi nessa altura que vi como era bonita. Cabelos castanhos, nem muito escuros nem muito claros. Um pouco abaixo do ombros. Tapava-lhe o pescoço quando vista por trás, e eu sei porque vi quando fui à casa-de-banho e, ao regressar, regressei pelas costas dela.
Tinha uma voz doce, embora naquela altura estivesse um bocado amargurada. Mas percebia-se a doçura que lá estava. Era calma a falar. Mesmo no meio de toda aquela tristeza. Tinha os dedos esguios, compridos e finos, numas mãos elegantes, nem muito grandes nem muito pequenas. Eu reparei quando ela colocou a mão em cima da minha e me convidou para ir à casa dela. Eu lembrei-me dela ter mencionado um namorado. Hesitei por momentos. Mas momentos tão curtos que acho que ela nem se apercebeu da minha hesitação.
Entrei em casa dela nessa noite e nunca mais saí de lá. A partir desse dia aconteceu uma história de amor. Uma verdadeira história de amor. Como a dos romances de cordel. Eu gostava dela, ela gostava de mim e vivemos felizes para sempre. E foi mesmo isso que aconteceu. Vivemos felizes para sempre.
Estou a falar disto agora porque se acabou o Para sempre. Ela morreu. Morreu de morte natural, ao contrário do pai dela. Já estávamos velhotes. Ela e eu. Ela já foi e eu hei-de ir. Já não falta muito. Eu devia ter ido primeiro. O que é que estou aqui a fazer sem ela?
Acho que fiquei por cá para contar esta pequena história.
A nossa história começou com uma morte e acabou com outra. Primeiro o pai dela, agora ela. No meio, uma história de amor com final feliz. Mas o que ela não sabia, nunca soube, nem ninguém mais soube, foi que houve outra morte nesta história. Uma morte que só eu é que soube que acontecera. Quer dizer, toda a gente soube da morte, mas ninguém nunca soube como é que verdadeiramente morreu. Só eu. E sei porque estava lá. E fui o responsável pela morte. Pela morte do namorado dela. Para toda a gente foi um suicídio. Mas não foi.
Estávamos, eu e ela, a viver juntos já quase há um mês. O pai tinha morrido, tinham feito o funeral e a missa de sétimo dia quando, uma noite, depois de ter ido jantar um prego no pão ao balcão de uma tasca no centro da cidade, perto do sítio onde estava a trabalhar, era já tarde e resolvi comer um prego no pão antes de ir para casa, quando fui abordado por um tipo. Não o conhecia de lado nenhum. Mas ele conhecia-me. E apresentou-se. Era o namorado. O ex-namorado dela. Então primeiro apresentou-se e em seguida ameaçou-me. Que eu não sabia quem ele era, mas que não era flor que se cheirasse (palavras dele), e que sabia que ela ainda gostava dele só que estava desnorteada pela morte do pai e eu tinha ajudado a esse desnorte. O melhor a fazer era afastar-me. Eu ouvi-o. Mais por educação que por respeito. Eu nunca disse nada. Limitei-me a ouvir. No fim, quando percebi que já tinha debitado todas as ameaças para que eu enfiasse o rabo entre as pernas e saísse de casa dela, da vida dela e do amor dela, virei costas e fui para o carro. Estava ao volante do carro quando o vejo virado para mim, levar a mão à cabeça a formar um pistola e fazer um gesto com a boca que, na minha cabeça, ressoou como Bang!
Pus o carro a trabalhar. Fiquei ali uns momentos a olhar para ele com a mão em pistola na cabeça, até que começou a rir, a rir à gargalhada. Cínico. Eu meti a primeira, pisei o acelerador e arranquei com o carro para cima dele. Ao aproximar-me, guinei o volante para a direita mas, ele já se tinha assustado e tinha mandado um salto para a esquerda e acabou a pular o muro que dava para a linha do comboio que ali, naquela zona da cidade, passava desnivelado da estrada, e caiu no meio da linha no momento em que o comboio ia a passar.
Eu ainda parei o carro. Olhei para o muro. Percebi o comboio a passar. Ouvi o comboio a apitar. Percebi o comboio a travar. E fui embora. Não queria saber mais do que tinha acontecido. Talvez não tivesse acontecido nada. Talvez tivesse acontecido alguma coisa. Mas não queria saber. Queria apagar aqueles últimos minutos da minha cabeça. Queria esquecer. E esqueci.
Vivi… Quantos anos?… Mais de trinta anos com ela. Vivi… Vivemos uma verdadeira história de amor. Um com o outro. Eu esqueci o que tinha acontecido. O ex-namorado tinha realmente morrido na linha do comboio. Atropelado pelo comboio. Foi considerado suicídio. Por algum tempo, ela culpou-se por o ter deixado da forma que deixou. Mas passou. Tudo passa, não é?
Foi depois da morte dela que me lembrei daquela noite. Foi depois da morte que me lembrei onde estava ancorada a nossa felicidade.
É por isso que eu tenho de fazer o que vou fazer. Tenho de fechar o círculo. Espero conseguir levantar as pernas por cima do muro. É que o corpo já não me obedece como dantes.
Já vou ter contigo, meu amor.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/08]

Naquela Altura os Dias Eram Luminosos

Já não quero mais escrever estas coisas que tenho vindo a escrever. Cada dia se torna mais difícil. Já não consigo utilizar canetas nem lápis. Não as consigo agarrar. Tenho dificuldades com as mãos. Arranjei uma máquina de escrever, daquelas antigas, daquelas da minha infância, onde uma letra na ponta de um pequeno ferro era projectada numa folha pelo martelar dos dedos num plástico quadrado com o mesmo símbolo. Já parti um dedo no martelar constante. Parti as unhas dos dedos indicador e do meio de ambas as mãos. Os quadrados de plástico estão com sangue seco. Por vezes já não se vê a letra correspondente. Mas eu sei de cor o sítio de todas as letras e continuo infatigável a escrever o que eu tenho de escrever para que fique registado no papel antes de partir. E esperar que o papel se preserve. Que não arda nem se molhe. Que resista mais que eu.
Os dias estão muito mais curtos. Já são poucas as horas em que há luz do dia. Aproveito essas poucas horas. Preciso deixar escrito que as coisas não foram sempre assim. Que já houve uma época em que o sol brilhava de manhã à noite. Em que havia um tempo em que chovia, outro em que fazia frio e outro ainda em que fazia calor. E passeávamos na praia, à beira-mar e subíamos às montanhas e escorregávamos sobre a neve.
Preciso deixar escrito que já houve uma altura em que as pessoas riam e ouviam-se gargalhadas, e havia mesmo quem achasse que era feliz. Preciso deixar escrito que o mundo não foi sempre assim. Assim como é agora. Cinzento. Triste. Húmido. Um mundo de fim do mundo.
No entanto, começo a estar fatigado. Fatigado do esforço que faço para martelar nas letras e escrever as palavras que, umas a seguir às outras, vão fazer sentido e contar histórias, histórias reais, histórias que eu vivi quando a vida ainda não era assim como é hoje. Mas também estou fatigado de reviver estas memórias e o peso que elas carregam. Farto de perceber que estragámos tudo, estraguei tudo, e agora não há nada que nos valha. Depois de mim, o quê? O que é que irá restar quando as últimas memórias se extinguirem? Quem é que ficará? O que é que ficará por cá? Que forma de vida pode sobreviver a este Inferno na Terra?
Enrolo um bocado de barba-de-milho numa folha que rasguei da Bíblia. Toco-lhe fogo. Deixo o fumo invadir-me os pulmões. Acalma-me. Aquece-me. Ajuda-me a lembrar. Fazia-me jeito um copo de vinho tinto.
Sento-me à frente da máquina onde vou martelar a história. Junto à janela. Preciso do máximo de luz para ver o que faço, o que escrevo. Antes que o dia se vá embora outra vez.
E começo:
Ela tinha nascido há pouco tempo. Ainda era quase uma boneca de trapos a que eu e a mãe tínhamos de prover tudo. E se ela ralhava se não lhe fizéssemos o que queria! Abria a boca e libertava os pulmões. Um barulho ensurdecedor entrava de rompante pelos ouvidos e, ao início, ficávamos sem saber o que fazer. Depois habituámos-nos. Havia choro para tudo. Fome. Fralda molhada. Dor de barriga. Ausência de sono. Necessidade de atenção. Calhandrice. Rabo tremido. Ah, o que ela gostava de estar aos solavancos no colo.
Ainda tinha semanas de vida e começámos a levá-la à piscina. Saíamos de casa ao fim do dia. Ainda era de dia. Naquela altura os dias, os fins de dia, eram luminosos. O sol ainda andava pendurado lá por cima. O céu era azul. Fazia calor. Eu levava-a num carrinho. Passávamos a estrada para o outro lado da rua, entrávamos pelo jardim dentro e percorríamos os caminhos até ao outro lado e, enquanto caminhávamos, ouvíamos os pássaros (sim, naquela altura ainda haviam pássaros, milhões deles), cheirávamos os odores das várias flores que se espalhavam por todo o lado, entre as árvores, à volta do coreto, a sublinhar a esplanada onde algumas pessoas liam livros, jornais, bebiam uma cerveja, fumavam um cigarro, trocavam um beijo, e desviávamos-nos das outras crianças que andavam por ali a brincar aos índios e aos cowboys, aos polícias e aos ladrões, alguns passavam de bicicleta, outros de trotineta, outros ainda de skate mas esses só nas zonas em asfalto que as rodinhas não rolavam na terra batida.
Saíamos do outro lado do jardim e entrávamos no complexo. Íamos directos às piscinas. Entrava nos balneários dos homens com ela. Despia-me, vestia os calções, despia-a a ela, vestia-lhe um fato de banho pequenino, e o colete por cima e entrávamos dentro do pavilhão da piscina aquecida. Ela começava logo aos pulos mal via os tanques cheios de água. Queria ir lá para dentro. Então eu entrava, com ela ao colo, e depois largava-a. E ela punha-se a nadar. Sozinha. E eu sempre ali à volta, atento, a ver se era preciso alguma coisa.
A maior parte das vezes a mãe também ia. Íamos os dois. Esses dias eram mais fáceis. Ora um, ora outro, conseguíamos ter tempo para mergulhar e dar umas braçadas. Fazer umas piscinas. Gastar energia. Alongar o corpo. Nadar de um lado ao outro. Às vezes mais que uma vez. Ainda tinha forças.
Quando cresceu ainda andou na natação. Ainda ganhou umas provas. Levou umas medalhas para casa. Estiveram penduradas no quarto dela. Até acontecer o que aconteceu. E o que aconteceu foi o fim de todas estas memórias.
Não sei durante quanto tempo mais vou conseguir continuar a escrever. Dói-me reviver estas lembranças. Ela foi um dos milhões de crianças que morreram naquelas primeiras horas. Aqueles dias foram muito duros.
Já há muitos meses que não vejo uma criança. E também se torna difícil cruzar-me com outras pessoas. Os tempos estão perigosos. As pessoas afastam-se. Vivem isoladas. Saem somente para procurar alguma coisa para comer, o que se torna cada vez mais difícil de encontrar. Os stocks das lojas e dos supermercados já foram quase todos pilhados há muito. Agora, resta-nos a respiga. A segunda volta aos mesmo sítios para ver se sobrou alguma coisa. Eu já pus umas sementes na banheira. Enchi a banheira de terra e enfiei lá umas sementes que encontrei. Mas ainda não nasceu nada. Não sei se ainda vai a tempo de nascer. Não sei se ainda irei ver alguma coisa a brotar da banheira.
Já não tenho mais luz para continuar. Vou ficar por aqui. Vou embrulhar-me na minha manta e tentar fechar os olhos. Estou cansado. Se amanhã ainda estiver por cá, vou tentar contar outra história. Para verem como éramos antes. Como fomos felizes. E como estragámos tudo.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/22]

O Caminho Até ao Esquecimento

Eu passava pelo corredor, a porta do quarto dela estava encostada, tinha medo de estar fechada no quarto, era muito medricas, mas ao mesmo tempo queria estar sozinha, isolada do resto da casa, do resto da família.
Em silêncio, espreitava para dentro do quarto pela frincha da porta encostada e via-a sentada na cama, as costas apoiadas na parede fria e a almofada a aparar a cabeça, os pés, os pés dentro das sapatilhas sujas, acho que nunca tinham sido lavadas, espojados em cima da coberta da cama. A cama estava por fazer, claro. Ela pegava nas orelhas do edredão e da coberta e puxava para cima, mas não fazia a cama. Deitava-se todos os dias assim, naquela espécie de enxerga mal parida de panos enrodilhados neles próprios, dia-após-dia, durante uma semana, até ao dia em que a mãe lhe mudava a roupa da cama e então sim, a cama era feita, bem feita, e ela conseguia dormir, pelo menos uma vez por semana, numa cama lavada, de lençóis esticados e frescos, e um edredão sacudido de lixos e cheiros que ela acumulava ao longo da semana até ser novamente Sábado e a mãe entrar pelo quarto a dentro, a ralhar, mais uma vez, com ela, mas as conversas a entrarem e a saírem à mesma velocidade, a velocidade de quem não quer saber nada disso e consegue viver assim sem estas merdas pequeno-burguesas de limpeza e respeito pelos pais.
Ela estava então com as sapatilhas em cima da coberta, uma coberta que só não parecia tão nojenta porque era escura, os auscultadores nos ouvidos e o telemóvel na mão, a ler não-sei-o-quê, a escrever não-sei-o-quê, a ouvir não-sei-o-quê e, se calhar, na conversa com sei-lá-quem.
Os dias repetiam-se mecanicamente. Eram sempre iguais. Ela estava sempre em cima da cama agarrada ao telemóvel. Nunca a via estudar. As notas, embora não tivesse negativas, eram de um suficiente que me exasperava. Para mim aquilo era medíocre. Não estudava. Se estudasse… Se estudasse podia ter boas notas e escolher, afinada, o curso que mais lhe agradasse. Assim, com aquelas notas de cábula, aspirava a quê? Balconista de Centro Comercial sem consciência sindical?
Eu percebia que o mundo dela era tecnológico. Eu próprio chegava a pedir-lhe ajuda em momentos mais complicados quando o telemóvel se armava em teimoso. Ou o computador encontrava alguma incompatibilidade entre os programas oficiais e os pirateados. Mas não ia além disso. Numa conversa estava sempre calada. A falta de cultura geral deixava-me apreensivo. Não seguia as notícias. Não reconhecia nomes. E, no entanto, tentava fazer-me passar vergonhas com os nomes dos youtubers que seguia. Mas o que é que aqueles programas de merda contribuíam para a felicidade de qualquer um de nós? Que coisas é que aqueles programas nos ensinavam? Que caminho lhe ofereciam? O futuro não iria passar por ali, também.
Eu entrava no quarto, ela levantava a cabeça do telemóvel e revirava os olhos como se dissesse O que é que este quer agora? O este era eu, o chato do pai. E o que eu queria era duas ou três palavras. As palavras que abafava durante o jantar silencioso que fazia connosco, comigo e com a mãe. Comia, quando comia, com a cara fechada sobre o prato. Às vezes até parecia que sorvia a comida. Como se tudo fosse sopa. Outras vezes comia assim de boca aberta. Eu a chamar-lhe a atenção e ela a fazer de propósito, a mastigar sonoramente, a abrir ainda mais a boca cheia de comida e a mostrar-me a pasta em que a estava a transformar. E eu não conseguia não rir. Eu e a mãe. Ainda lhe dizia Não sejas parva!, mas ela insistia naquelas parvoíces e eu e a mãe achávamos piada. Mas logo se levantava. Nunca queria sobremesa. Nem doces nem fruta. Comia o que comia, não esperava por ninguém, e depois saía da mesa. Às vezes regressava à cozinha para fazer crepes ou panquecas, procurar uns biscoitos, um iogurte, e a mãe perguntava-lhe se não tinha jantado ao que ela respondia sempre Estou a crescer! Estava sempre a crescer. Estava sempre a crescer mas acabou por nunca crescer.
Então abri a porta e vi a cama bem feita. Edredão e coberta bem esticadas. Várias almofadas organizadas em cima da cama. Há quantos anos não se sentava ninguém naquela cama? Já tinha dificuldade em lhe sentir o cheiro. Só não me esquecia da cara porque uma fotografia numa moldura em cima da secretária mo lembrava de cada vez que entrava lá dentro.
Agora já não havia pés em cima da cama. Agora não havia auscultadores nos ouvidos a ignorar mundo em troca de uma qualquer musiqueta de dança parva. Agora era somente uma memória. Uma memória que estava a fazer o seu caminho até ao esquecimento. O meu esquecimento. E será que isso era possível? Será que eu alguma vez a poderia esquecer?

[escrito directamente no facebook em 2019/12/26]

A Noite em Dia

É de novo Domingo. Ainda não saí do anterior já estou no próximo. Já não sei qual deles é. Já não sei em qual deles estou. O tempo confunde-me. Joga comigo entre o passado e o futuro e o presente dilui-se. Como é que é Domingo? Outra vez? Ou ainda?
Está a chover, lá fora. Está a chover desde manhã. Tive dificuldade em me levantar da cama. E agora que o consegui já é de noite. Ainda são horas de dia, mas a luz, lá fora, não quer saber disso. Está escuro. É de noite. São cinco e meia da tarde e já é de noite.
Esta escuridão vespertina deprime-me.
Olho para a rua e não vejo nada. Só escuridão. Ouço a chuva a cair. Vejo um pequeno chuveirinho a passar frente às poucas luzes dos candeeiros da cidade que me chegam aqui à janela. É um tempo irreal. Sinto-me no limbo. Entre tempos. Entre luzes. Entre coisas.
Viro-me para trás, para o interior de casa. Não vejo nada. As luzes estão desligadas e não vejo nada. A escuridão está lá fora na rua e aqui em casa.
O que é que vou fazer?
Almoçar? Fumar um cigarro? Beber um café? Um copo de vinho?
Não me apetece nada. Não me apetece nada disto.
Talvez uma filhós.
Talvez uma rabanada.
Talvez um coscorão.
Talvez um sonho. Oh, fodam-se os sonhos.
Não tenho nada disto em casa. A minha casa já não é a minha casa que era a casa da minha mãe. A minha casa é vazia. Em minha casa não há cá nada destas coisas.
Tenho pão. Manteiga. Chicória.
Não me apetece nada.
Nem me apetece fumar um cigarro.
A noite em dia, faz-me mal.
A aproximação do Natal, faz-me mal.
Toda esta felicidade alheia, faz-me mal.
Sinto um vómito azedo subir pela garganta acima. Páro-o na boca. Não o deixo sair. Forço-o a voltar a descer para de onde veio.
Volto para a cama. Amanhã é, talvez, outro dia.
Talvez um dia melhor.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/08]

O Miúdo em Cima da Prancha

Faço a estrada toda até ao fundo. Até ao bairro dos pescadores. Estaciono o carro à sombra. Há sempre lugares vagos no bairro dos pescadores. As pessoas nunca vêm até aqui. Andam às voltas lá à frente, à procura de lugar. Nunca vêm para aqui. Eu encontrei vários lugares vagos. E à sombra. Num dia de sol e calor como o de hoje, é um luxo encontrar um lugar vago à sombra. E sem parquímetro.
Saio do carro. Mijo ali ao lado do pneu traseiro. Olho em volta. Não há ninguém. Não há ninguém a olhar para mim. Não há ninguém para me repreender.
Cruzo a estrada. Vejo os barcos parados na areia. Os barcos estão como estavam antigamente. Parados na areia. Arrastados até cá acima para que a praia-mar não os arraste lá para dentro do mar. Estes pescadores não podem pagar as docas. Puxam-nos cá para cima. Puxam-nos pela areia acima. E largam-nos por aí. Quando voltam ao mar, arrastam-nos de volta lá para baixo. É uma vida de cão.
Acendo um cigarro.
Vejo o mar lá em baixo. O sol bate-lhe nas águas e torna-o prata. Cega-me. Mesmo com óculos de sol, tenho de desviar o olhar.
Ponho-me a caminho. Caminho ao longo do passeio que contorna a marginal. À esquerda os automóveis em velocidade de passeio à procura de lugar vago. Andam às voltas para não irem para o bairro dos pescadores. É uma mania. Uma mania como qualquer outra. À direita, a praia, o mar. E à medida que me adianto ao longo da marginal, a praia vai ficando mais cheia. Cheia de gente. Cheia de corpos plantados ao sol. Corpos em luta no mar. Em luta por um pedaço de fresco das águas frias do Atlântico.
Aparecem as primeiras esplanadas na areia. Esplanadas que tapam a vista sobre a praia. Que tampam a vista sobre os corpos ao sol na praia.
Eu continuo pela marginal fora. Acabo o cigarro. Largo-o no chão. Acendo outro. Gosto de sentir o fumo a invadir-me os pulmões. Mesmo quando está calor. Mesmo quando tenho a boca seca. Gosto de ter um cigarro a queimar preso nos dedos. Gosto de ver o fumo que vou deixando atrás de mim. Gosto de puxar o fumo. Inalá-lo. Deixá-lo à solta dentro dos meus pulmões. Gosto de me intoxicar. Gosto do primeiro cigarro da manhã. O cigarro que me dá vertigem. Gosto mesmo de fumar. Gosto de fumar e de ver os corpos femininos estendidos na areia da praia. E sorrio. Sorrio de mim. Sorrio, de cigarro na mão e a olhar os corpos femininos, despidos, plantados ao sol, a queimarem-se, a bronzearem-se e a chamarem por mim.
Mas não foi por isto que vim aqui.
E continuo pela marginal fora.
Está calor. Um sol quente e muito brilhante. Mesmo com os óculos escuros franzo os olhos. Tenho dificuldade em abrir os olhos com todo este brilho.
Chego finalmente à zona onde estão os miúdos do surf. Abrando o passo. Olho lá para baixo. Para a beira-mar. Procuro-o. Olho para todos os miúdos. Quase todos, invariavelmente, de cabelo loiro. Um loiro moldado pelo sol a queimar.
E vejo-o.
Sento-me ali no paredão da marginal. Debaixo do sol. Olho para ele. Dezasseis anos de vida. Tem um corpo esguio. Musculado, mas não muito. Um corpo seco. Um corpo que vai ao mar de Verão e de Inverno. Um corpo que vai ao mar sempre que quer. Em cima de uma prancha. E eu vejo-o. Vejo-o cá de cima. Vejo-o a pegar na prancha e correr para a água. E pular para cima da prancha. E nadar. Levar a prancha para lá da rebentação. Para ao pé de outros como ele. E miúdas. Há uma miúda que se aproxima dele. Ele sentado na prancha. A ondular em comunhão com o mar.
Eu acendo outro cigarro. E vejo uma onda que se forma. Uma onda que se aproxima. E vejo-o a preparar-se para a apanhar. E vejo-o deitado na prancha. Virado para mim. A dar aos braços. A seguir na onda. A saltar de pés para cima da prancha. E a cavalgar a onda. E vejo-o a aguentar-se bastante. Percorrer um grande troço de mar. Na crista da onda. E aproveitar tudo até ela morrer e ele tombar, finalmente, da prancha abaixo.
Ele não me viu. Não me vê. Nunca me vê. Mas eu estou aqui a vê-lo. E vou ficar aqui até ser quase de noite. Ou até ele ir embora.
Gosto de o ver assim. Incógnito. Sem ele dar por mim. É um bálsamo. Uma felicidade que me inunda os dias.
Um dia também gostaria de saber andar em cima de uma prancha. Talvez ele me ensine.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/29]

Na Minha Primeira Casa-Só-Minha

Meto a chave à porta e escancaro-a para trás. Entro triunfal, qual Heliogábalo, na minha primeira casa-só-minha. Depois da casa-dos-pais. Depois da casa-com-os-amigos. Depois da casa-com-as-namoradas. A minha casa-só-minha. Entro solitário na casa onde vou viver sozinho pela primeira vez na minha vida. Inspiro fundo. Aguento a respiração. Deito o ar todo fora. Estico a perna direita. É importante começar bem!, digo alto para mim. Começar com o pé direito. Não é isto que se diz? Que dizem? As pessoas que sabem o que dizer quando se deve dizer? Os que percebem de tudo isto?
Entro com o pé direito na minha casa-só-minha.
Está vazia. Ainda não trouxe nada. Não tenho grandes coisas para trazer. Roupa. Alguns livros. Alguns discos. Dois ou três quadros que amigos pintaram. Umas fotografias que tirei e que tenho a mania que merecem ser vistas e expostas para prazer meu e de quem me visitar.
A casa está vazia e não tenho móveis para a encher. Tudo o que comprei fui deixando por onde passei. Hoje vou dormir no chão. Enrolado em mim. Amanhã compro um colchão. Vou continuar a dormir no chão, mas em cima de um colchão. Quero um colchão rijo. Daqueles com placas de madeira. Por causa das costas. Dói-me sempre muito as costas.
Amanhã também vou buscar os caixotes com os livros. Não os quero perder mais uma vez. Não quero ter de comprar pela enésima vez todos os livros do Philip Roth. E do Philip K. Dick. É uma cena que eu tenho com os Philip.
A casa está vazia e em silêncio. Não tenho uma televisão para me fazer companhia. Penso em colocar uma música no telemóvel, mas decido que já não tenho dezasseis anos e já não me martirizo a ouvir música fanhosa saída pelos buraquinhos pequeninos de um aparelho que, por melhor que seja, não é hi-fi.
A casa tem vidros duplos. É à prova de som. Não ouço nada da rua. A porta fechou-se nas minhas costas e, o único som que me persegue é a minha respiração pesada de bronquite. Ouço-me a pieira nos pulmões. Apetece-me fumar um cigarro. Mas não tenho cinzeiro. Não me apetece abrir as janelas. Não estou preparado para descobrir os vizinhos. Continuo a não querer ver ninguém.
Sento-me no chão da sala. Encostado à parede de frente para a janela. Os estores estão levantados. Vejo, como numa tela de cinema, o telhado do prédio em frente. Vejo um casal de miúdos. Adolescentes. Acho que são adolescentes. A esta distância é o que me parece. Estão abraçados. Um em frente do outro. Beijam-se. Sinto uma pontinha de ciúme. Como é bom ser adolescente. Jovem. Novo. Ainda cheio de esperança no futuro. Na vida. Ainda não fomos esmurrados. Ainda acreditamos. Eles param de se beijar. Olham para a rua. Olham para a rua aos seus pés. Eu vejo-os a olhar. Imagino a felicidade naqueles olhares. Sentem-se nas nuvens. Acima dos meros mortais que não sabem nada do amor. Não como eles. Do amor deles. Do amor que descobriram um no outro. No amor que consomem um ao outro. A puta da felicidade antes de crescerem e descobrirem que afinal não há amor. É tudo economia. Finanças. Dinheiro. Responsabilidade. Produtividade. Lucro.
Ouço-me dizer alto Vivam até ao limite, pá! e sinto-me envergonhado. Olho em volta mas percebo que estou sozinho. Sozinho em casa. Uma casa à prova de som. Ninguém me ouve. Ninguém me vê.
E depois vejo. Como que desperto. Na minha tela de cinema na janela em frente vejo o jovem casal. Já não estão a beijar-se. Estão em cima do parapeito do telhado. De mãos dadas. Não falam. Não olham um para o outro. Olham para baixo. Para o mundo que está a seus pés.
Tremo. Temo o pior.
E o pior acontece.
De mãos dadas dão um passo em frente. Lançam-se no vazio. Eu levanto-me do chão da sala. Corro para a janela. Tento abri-la. Mas não consigo. É nova. Tem um sistema diferente de abertura. Estou nervoso. Não consigo pensar. Grito Não!, um grito alto e desesperado, mas ninguém me ouve. Ninguém me vai ouvir. E já não os vejo. E não os ouvi. Não os ouvi aqui do meu mundo insonoro.
Não quero espreitar o chão da rua lá em baixo. Não quero ver o que não quero ver.
Deixo-me escorregar pela parede abaixo e volto a sentar-me no chão da sala.
Penso Não gosto de viver sozinho.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/20]

O Miúdo

A primeira vez que vi o miúdo foi dentro da sala. Da sala de exposições. Era uma exposição digital interactiva com projeções pelas várias paredes que se alteravam com a participação das pessoas. Ele andava lá dentro a correr de um lado para o outro. Já sabia o que fazer e onde e quando. Parecia que fazia parte do quadro e, no entanto, parecia deslocado. Estava sujo. Cabelo desgrenhado. O ranho a cair pelo nariz e a entrar na boca. As calças, grandes demais para ele, arrastavam-se. Tentavam cair pelo rabo abaixo. Não tinha cinto. Via-se as cuecas e ele tinha de estar sempre a puxar as calças. As sapatilhas estavam rotas. O dedo grande do pé, sem meia, teimava em pôr a cabeça de fora. Colocava uma mão na parede e formava-se uma onda gigante. Um tsunami. E ele corria para outra parede e baixava-se, arrastava a mão junto ao solo, e a onda transformava-se num mar calmo sem ondas nem marés, uma praia em Torremolinos, sempre com o mesmo caudal, a mesma ondulação, a mesma suavidade.
Enquanto o vi por lá, não consegui interagir com a exposição. Via-o a ele a interagir. Deixava-me ser arrastado por ele. Via-lhe as brincadeiras. As pequenas loucuras de quem é criança e está em casa. De quem se sente em casa. E que me levava assim com ele. Guiava-me. Levava-me pela mão através da modernidade tecnológica. Que raio! Quem seria este miúdo?
E, de repente, sumiu-se.
Deixei de o ver.
Segui o caminho da exposição. Experimentei a interactividade. Achei alguma piada. Mas não deixava de pensar no miúdo. No miúdo que parecia estar em casa. Para quem aquela acção parecia uma naturalidade. E que, para mim, não passava de uma mera experiência para a qual nem tinha muito jeito. Aquele mundo digital foi feito para ele. Não para mim.
Acabei por despachar a exposição. Não estava com grande vontade de fazer o que tinha de fazer. Comecei a sentir uma certa insuportabilidade. Sentia chegar-me a neura. Às vezes não sei porque faço o que faço. Talvez por desfastio. Uma resposta que utilizo muito mas que, na realidade, não significa nada. Porque raio o desfastio? Desfastio de quê? E porque raio tinha eu vindo aqui? Este mundo nem é o meu. Gosto de universos mais orgânicos. Pegar num livro. Riscar-lhes as páginas. Absorver as suas letras, palavras, frases. Os seus sentidos ou a ausência deles. Cheirá-los. Largá-los num sítio qualquer. Agarrar num, ou noutro, ao acaso. À sorte.
Mas não parava de pensar no miúdo.
E foi então que o vi pela segunda vez.
Eu já tinha saído da exposição. Já estava na rua. E através da confusão de um monte de gente que caminhava para uma mesma direcção, vi-o. Vi-o sentado no chão. Sentado em cima de um bocado de cartão. No chão. Na rua. Na rua movimentada por gente que caminhava toda na mesma direcção. De telemóveis apontados. A cartografarem as férias. A vida. E ele ali.
Estava ao lado um velho. Sujo como ele. De barba selvagem. De cabelo comprido e desgrenhado. Os pés descalços. Azuis. Não percebi se de surro se gangrenados. À frente do velho, uma caixa de cartão, de sapatos, com umas moedas. O miúdo escolhia as de um euro, ou dois, e colocava numa caixa pequena que dava ao velho. Este guardava a caixa pequena dentro da camisa suja e rota. Depois o miúdo deitou-se com a cabeça no colo do velho e este fez-lhe umas festas no cabelo seboso. E o miúdo acabou por adormecer debaixo das festas do velho.
Tirei uma nota de cinco euros e fui colocar na caixa em frente ao velho. O miúdo despertou. Agarrou na nota. Dobrou-a. Entregou-a ao velho que a guardou na caixa pequena. Depois continuou a fazer festas no cabelo do miúdo. E o miúdo pareceu abandonar-se e adormecer debaixo dos mimos do velho. Dos mimos de dedos grossos e sujos. De unhas pretas. Algumas feridas. Duas ou três verrugas. Mas carinhosos.
Enquanto me afastava continuava a pensar no miúdo. E nos dedos grossos e sujos cheios de ternura. E perguntava, para mim próprio, O que é a felicidade? E respondia-me que podia ser tanta coisa, mas que não era nada que se procurasse. Era algo que nos encontrava. Estivéssemos lá onde estivéssemos.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/07]