Naquela Altura os Dias Eram Luminosos

Já não quero mais escrever estas coisas que tenho vindo a escrever. Cada dia se torna mais difícil. Já não consigo utilizar canetas nem lápis. Não as consigo agarrar. Tenho dificuldades com as mãos. Arranjei uma máquina de escrever, daquelas antigas, daquelas da minha infância, onde uma letra na ponta de um pequeno ferro era projectada numa folha pelo martelar dos dedos num plástico quadrado com o mesmo símbolo. Já parti um dedo no martelar constante. Parti as unhas dos dedos indicador e do meio de ambas as mãos. Os quadrados de plástico estão com sangue seco. Por vezes já não se vê a letra correspondente. Mas eu sei de cor o sítio de todas as letras e continuo infatigável a escrever o que eu tenho de escrever para que fique registado no papel antes de partir. E esperar que o papel se preserve. Que não arda nem se molhe. Que resista mais que eu.
Os dias estão muito mais curtos. Já são poucas as horas em que há luz do dia. Aproveito essas poucas horas. Preciso deixar escrito que as coisas não foram sempre assim. Que já houve uma época em que o sol brilhava de manhã à noite. Em que havia um tempo em que chovia, outro em que fazia frio e outro ainda em que fazia calor. E passeávamos na praia, à beira-mar e subíamos às montanhas e escorregávamos sobre a neve.
Preciso deixar escrito que já houve uma altura em que as pessoas riam e ouviam-se gargalhadas, e havia mesmo quem achasse que era feliz. Preciso deixar escrito que o mundo não foi sempre assim. Assim como é agora. Cinzento. Triste. Húmido. Um mundo de fim do mundo.
No entanto, começo a estar fatigado. Fatigado do esforço que faço para martelar nas letras e escrever as palavras que, umas a seguir às outras, vão fazer sentido e contar histórias, histórias reais, histórias que eu vivi quando a vida ainda não era assim como é hoje. Mas também estou fatigado de reviver estas memórias e o peso que elas carregam. Farto de perceber que estragámos tudo, estraguei tudo, e agora não há nada que nos valha. Depois de mim, o quê? O que é que irá restar quando as últimas memórias se extinguirem? Quem é que ficará? O que é que ficará por cá? Que forma de vida pode sobreviver a este Inferno na Terra?
Enrolo um bocado de barba-de-milho numa folha que rasguei da Bíblia. Toco-lhe fogo. Deixo o fumo invadir-me os pulmões. Acalma-me. Aquece-me. Ajuda-me a lembrar. Fazia-me jeito um copo de vinho tinto.
Sento-me à frente da máquina onde vou martelar a história. Junto à janela. Preciso do máximo de luz para ver o que faço, o que escrevo. Antes que o dia se vá embora outra vez.
E começo:
Ela tinha nascido há pouco tempo. Ainda era quase uma boneca de trapos a que eu e a mãe tínhamos de prover tudo. E se ela ralhava se não lhe fizéssemos o que queria! Abria a boca e libertava os pulmões. Um barulho ensurdecedor entrava de rompante pelos ouvidos e, ao início, ficávamos sem saber o que fazer. Depois habituámos-nos. Havia choro para tudo. Fome. Fralda molhada. Dor de barriga. Ausência de sono. Necessidade de atenção. Calhandrice. Rabo tremido. Ah, o que ela gostava de estar aos solavancos no colo.
Ainda tinha semanas de vida e começámos a levá-la à piscina. Saíamos de casa ao fim do dia. Ainda era de dia. Naquela altura os dias, os fins de dia, eram luminosos. O sol ainda andava pendurado lá por cima. O céu era azul. Fazia calor. Eu levava-a num carrinho. Passávamos a estrada para o outro lado da rua, entrávamos pelo jardim dentro e percorríamos os caminhos até ao outro lado e, enquanto caminhávamos, ouvíamos os pássaros (sim, naquela altura ainda haviam pássaros, milhões deles), cheirávamos os odores das várias flores que se espalhavam por todo o lado, entre as árvores, à volta do coreto, a sublinhar a esplanada onde algumas pessoas liam livros, jornais, bebiam uma cerveja, fumavam um cigarro, trocavam um beijo, e desviávamos-nos das outras crianças que andavam por ali a brincar aos índios e aos cowboys, aos polícias e aos ladrões, alguns passavam de bicicleta, outros de trotineta, outros ainda de skate mas esses só nas zonas em asfalto que as rodinhas não rolavam na terra batida.
Saíamos do outro lado do jardim e entrávamos no complexo. Íamos directos às piscinas. Entrava nos balneários dos homens com ela. Despia-me, vestia os calções, despia-a a ela, vestia-lhe um fato de banho pequenino, e o colete por cima e entrávamos dentro do pavilhão da piscina aquecida. Ela começava logo aos pulos mal via os tanques cheios de água. Queria ir lá para dentro. Então eu entrava, com ela ao colo, e depois largava-a. E ela punha-se a nadar. Sozinha. E eu sempre ali à volta, atento, a ver se era preciso alguma coisa.
A maior parte das vezes a mãe também ia. Íamos os dois. Esses dias eram mais fáceis. Ora um, ora outro, conseguíamos ter tempo para mergulhar e dar umas braçadas. Fazer umas piscinas. Gastar energia. Alongar o corpo. Nadar de um lado ao outro. Às vezes mais que uma vez. Ainda tinha forças.
Quando cresceu ainda andou na natação. Ainda ganhou umas provas. Levou umas medalhas para casa. Estiveram penduradas no quarto dela. Até acontecer o que aconteceu. E o que aconteceu foi o fim de todas estas memórias.
Não sei durante quanto tempo mais vou conseguir continuar a escrever. Dói-me reviver estas lembranças. Ela foi um dos milhões de crianças que morreram naquelas primeiras horas. Aqueles dias foram muito duros.
Já há muitos meses que não vejo uma criança. E também se torna difícil cruzar-me com outras pessoas. Os tempos estão perigosos. As pessoas afastam-se. Vivem isoladas. Saem somente para procurar alguma coisa para comer, o que se torna cada vez mais difícil de encontrar. Os stocks das lojas e dos supermercados já foram quase todos pilhados há muito. Agora, resta-nos a respiga. A segunda volta aos mesmo sítios para ver se sobrou alguma coisa. Eu já pus umas sementes na banheira. Enchi a banheira de terra e enfiei lá umas sementes que encontrei. Mas ainda não nasceu nada. Não sei se ainda vai a tempo de nascer. Não sei se ainda irei ver alguma coisa a brotar da banheira.
Já não tenho mais luz para continuar. Vou ficar por aqui. Vou embrulhar-me na minha manta e tentar fechar os olhos. Estou cansado. Se amanhã ainda estiver por cá, vou tentar contar outra história. Para verem como éramos antes. Como fomos felizes. E como estragámos tudo.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/22]

O Caminho Até ao Esquecimento

Eu passava pelo corredor, a porta do quarto dela estava encostada, tinha medo de estar fechada no quarto, era muito medricas, mas ao mesmo tempo queria estar sozinha, isolada do resto da casa, do resto da família.
Em silêncio, espreitava para dentro do quarto pela frincha da porta encostada e via-a sentada na cama, as costas apoiadas na parede fria e a almofada a aparar a cabeça, os pés, os pés dentro das sapatilhas sujas, acho que nunca tinham sido lavadas, espojados em cima da coberta da cama. A cama estava por fazer, claro. Ela pegava nas orelhas do edredão e da coberta e puxava para cima, mas não fazia a cama. Deitava-se todos os dias assim, naquela espécie de enxerga mal parida de panos enrodilhados neles próprios, dia-após-dia, durante uma semana, até ao dia em que a mãe lhe mudava a roupa da cama e então sim, a cama era feita, bem feita, e ela conseguia dormir, pelo menos uma vez por semana, numa cama lavada, de lençóis esticados e frescos, e um edredão sacudido de lixos e cheiros que ela acumulava ao longo da semana até ser novamente Sábado e a mãe entrar pelo quarto a dentro, a ralhar, mais uma vez, com ela, mas as conversas a entrarem e a saírem à mesma velocidade, a velocidade de quem não quer saber nada disso e consegue viver assim sem estas merdas pequeno-burguesas de limpeza e respeito pelos pais.
Ela estava então com as sapatilhas em cima da coberta, uma coberta que só não parecia tão nojenta porque era escura, os auscultadores nos ouvidos e o telemóvel na mão, a ler não-sei-o-quê, a escrever não-sei-o-quê, a ouvir não-sei-o-quê e, se calhar, na conversa com sei-lá-quem.
Os dias repetiam-se mecanicamente. Eram sempre iguais. Ela estava sempre em cima da cama agarrada ao telemóvel. Nunca a via estudar. As notas, embora não tivesse negativas, eram de um suficiente que me exasperava. Para mim aquilo era medíocre. Não estudava. Se estudasse… Se estudasse podia ter boas notas e escolher, afinada, o curso que mais lhe agradasse. Assim, com aquelas notas de cábula, aspirava a quê? Balconista de Centro Comercial sem consciência sindical?
Eu percebia que o mundo dela era tecnológico. Eu próprio chegava a pedir-lhe ajuda em momentos mais complicados quando o telemóvel se armava em teimoso. Ou o computador encontrava alguma incompatibilidade entre os programas oficiais e os pirateados. Mas não ia além disso. Numa conversa estava sempre calada. A falta de cultura geral deixava-me apreensivo. Não seguia as notícias. Não reconhecia nomes. E, no entanto, tentava fazer-me passar vergonhas com os nomes dos youtubers que seguia. Mas o que é que aqueles programas de merda contribuíam para a felicidade de qualquer um de nós? Que coisas é que aqueles programas nos ensinavam? Que caminho lhe ofereciam? O futuro não iria passar por ali, também.
Eu entrava no quarto, ela levantava a cabeça do telemóvel e revirava os olhos como se dissesse O que é que este quer agora? O este era eu, o chato do pai. E o que eu queria era duas ou três palavras. As palavras que abafava durante o jantar silencioso que fazia connosco, comigo e com a mãe. Comia, quando comia, com a cara fechada sobre o prato. Às vezes até parecia que sorvia a comida. Como se tudo fosse sopa. Outras vezes comia assim de boca aberta. Eu a chamar-lhe a atenção e ela a fazer de propósito, a mastigar sonoramente, a abrir ainda mais a boca cheia de comida e a mostrar-me a pasta em que a estava a transformar. E eu não conseguia não rir. Eu e a mãe. Ainda lhe dizia Não sejas parva!, mas ela insistia naquelas parvoíces e eu e a mãe achávamos piada. Mas logo se levantava. Nunca queria sobremesa. Nem doces nem fruta. Comia o que comia, não esperava por ninguém, e depois saía da mesa. Às vezes regressava à cozinha para fazer crepes ou panquecas, procurar uns biscoitos, um iogurte, e a mãe perguntava-lhe se não tinha jantado ao que ela respondia sempre Estou a crescer! Estava sempre a crescer. Estava sempre a crescer mas acabou por nunca crescer.
Então abri a porta e vi a cama bem feita. Edredão e coberta bem esticadas. Várias almofadas organizadas em cima da cama. Há quantos anos não se sentava ninguém naquela cama? Já tinha dificuldade em lhe sentir o cheiro. Só não me esquecia da cara porque uma fotografia numa moldura em cima da secretária mo lembrava de cada vez que entrava lá dentro.
Agora já não havia pés em cima da cama. Agora não havia auscultadores nos ouvidos a ignorar mundo em troca de uma qualquer musiqueta de dança parva. Agora era somente uma memória. Uma memória que estava a fazer o seu caminho até ao esquecimento. O meu esquecimento. E será que isso era possível? Será que eu alguma vez a poderia esquecer?

[escrito directamente no facebook em 2019/12/26]

A Noite em Dia

É de novo Domingo. Ainda não saí do anterior já estou no próximo. Já não sei qual deles é. Já não sei em qual deles estou. O tempo confunde-me. Joga comigo entre o passado e o futuro e o presente dilui-se. Como é que é Domingo? Outra vez? Ou ainda?
Está a chover, lá fora. Está a chover desde manhã. Tive dificuldade em me levantar da cama. E agora que o consegui já é de noite. Ainda são horas de dia, mas a luz, lá fora, não quer saber disso. Está escuro. É de noite. São cinco e meia da tarde e já é de noite.
Esta escuridão vespertina deprime-me.
Olho para a rua e não vejo nada. Só escuridão. Ouço a chuva a cair. Vejo um pequeno chuveirinho a passar frente às poucas luzes dos candeeiros da cidade que me chegam aqui à janela. É um tempo irreal. Sinto-me no limbo. Entre tempos. Entre luzes. Entre coisas.
Viro-me para trás, para o interior de casa. Não vejo nada. As luzes estão desligadas e não vejo nada. A escuridão está lá fora na rua e aqui em casa.
O que é que vou fazer?
Almoçar? Fumar um cigarro? Beber um café? Um copo de vinho?
Não me apetece nada. Não me apetece nada disto.
Talvez uma filhós.
Talvez uma rabanada.
Talvez um coscorão.
Talvez um sonho. Oh, fodam-se os sonhos.
Não tenho nada disto em casa. A minha casa já não é a minha casa que era a casa da minha mãe. A minha casa é vazia. Em minha casa não há cá nada destas coisas.
Tenho pão. Manteiga. Chicória.
Não me apetece nada.
Nem me apetece fumar um cigarro.
A noite em dia, faz-me mal.
A aproximação do Natal, faz-me mal.
Toda esta felicidade alheia, faz-me mal.
Sinto um vómito azedo subir pela garganta acima. Páro-o na boca. Não o deixo sair. Forço-o a voltar a descer para de onde veio.
Volto para a cama. Amanhã é, talvez, outro dia.
Talvez um dia melhor.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/08]

O Miúdo em Cima da Prancha

Faço a estrada toda até ao fundo. Até ao bairro dos pescadores. Estaciono o carro à sombra. Há sempre lugares vagos no bairro dos pescadores. As pessoas nunca vêm até aqui. Andam às voltas lá à frente, à procura de lugar. Nunca vêm para aqui. Eu encontrei vários lugares vagos. E à sombra. Num dia de sol e calor como o de hoje, é um luxo encontrar um lugar vago à sombra. E sem parquímetro.
Saio do carro. Mijo ali ao lado do pneu traseiro. Olho em volta. Não há ninguém. Não há ninguém a olhar para mim. Não há ninguém para me repreender.
Cruzo a estrada. Vejo os barcos parados na areia. Os barcos estão como estavam antigamente. Parados na areia. Arrastados até cá acima para que a praia-mar não os arraste lá para dentro do mar. Estes pescadores não podem pagar as docas. Puxam-nos cá para cima. Puxam-nos pela areia acima. E largam-nos por aí. Quando voltam ao mar, arrastam-nos de volta lá para baixo. É uma vida de cão.
Acendo um cigarro.
Vejo o mar lá em baixo. O sol bate-lhe nas águas e torna-o prata. Cega-me. Mesmo com óculos de sol, tenho de desviar o olhar.
Ponho-me a caminho. Caminho ao longo do passeio que contorna a marginal. À esquerda os automóveis em velocidade de passeio à procura de lugar vago. Andam às voltas para não irem para o bairro dos pescadores. É uma mania. Uma mania como qualquer outra. À direita, a praia, o mar. E à medida que me adianto ao longo da marginal, a praia vai ficando mais cheia. Cheia de gente. Cheia de corpos plantados ao sol. Corpos em luta no mar. Em luta por um pedaço de fresco das águas frias do Atlântico.
Aparecem as primeiras esplanadas na areia. Esplanadas que tapam a vista sobre a praia. Que tampam a vista sobre os corpos ao sol na praia.
Eu continuo pela marginal fora. Acabo o cigarro. Largo-o no chão. Acendo outro. Gosto de sentir o fumo a invadir-me os pulmões. Mesmo quando está calor. Mesmo quando tenho a boca seca. Gosto de ter um cigarro a queimar preso nos dedos. Gosto de ver o fumo que vou deixando atrás de mim. Gosto de puxar o fumo. Inalá-lo. Deixá-lo à solta dentro dos meus pulmões. Gosto de me intoxicar. Gosto do primeiro cigarro da manhã. O cigarro que me dá vertigem. Gosto mesmo de fumar. Gosto de fumar e de ver os corpos femininos estendidos na areia da praia. E sorrio. Sorrio de mim. Sorrio, de cigarro na mão e a olhar os corpos femininos, despidos, plantados ao sol, a queimarem-se, a bronzearem-se e a chamarem por mim.
Mas não foi por isto que vim aqui.
E continuo pela marginal fora.
Está calor. Um sol quente e muito brilhante. Mesmo com os óculos escuros franzo os olhos. Tenho dificuldade em abrir os olhos com todo este brilho.
Chego finalmente à zona onde estão os miúdos do surf. Abrando o passo. Olho lá para baixo. Para a beira-mar. Procuro-o. Olho para todos os miúdos. Quase todos, invariavelmente, de cabelo loiro. Um loiro moldado pelo sol a queimar.
E vejo-o.
Sento-me ali no paredão da marginal. Debaixo do sol. Olho para ele. Dezasseis anos de vida. Tem um corpo esguio. Musculado, mas não muito. Um corpo seco. Um corpo que vai ao mar de Verão e de Inverno. Um corpo que vai ao mar sempre que quer. Em cima de uma prancha. E eu vejo-o. Vejo-o cá de cima. Vejo-o a pegar na prancha e correr para a água. E pular para cima da prancha. E nadar. Levar a prancha para lá da rebentação. Para ao pé de outros como ele. E miúdas. Há uma miúda que se aproxima dele. Ele sentado na prancha. A ondular em comunhão com o mar.
Eu acendo outro cigarro. E vejo uma onda que se forma. Uma onda que se aproxima. E vejo-o a preparar-se para a apanhar. E vejo-o deitado na prancha. Virado para mim. A dar aos braços. A seguir na onda. A saltar de pés para cima da prancha. E a cavalgar a onda. E vejo-o a aguentar-se bastante. Percorrer um grande troço de mar. Na crista da onda. E aproveitar tudo até ela morrer e ele tombar, finalmente, da prancha abaixo.
Ele não me viu. Não me vê. Nunca me vê. Mas eu estou aqui a vê-lo. E vou ficar aqui até ser quase de noite. Ou até ele ir embora.
Gosto de o ver assim. Incógnito. Sem ele dar por mim. É um bálsamo. Uma felicidade que me inunda os dias.
Um dia também gostaria de saber andar em cima de uma prancha. Talvez ele me ensine.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/29]

Na Minha Primeira Casa-Só-Minha

Meto a chave à porta e escancaro-a para trás. Entro triunfal, qual Heliogábalo, na minha primeira casa-só-minha. Depois da casa-dos-pais. Depois da casa-com-os-amigos. Depois da casa-com-as-namoradas. A minha casa-só-minha. Entro solitário na casa onde vou viver sozinho pela primeira vez na minha vida. Inspiro fundo. Aguento a respiração. Deito o ar todo fora. Estico a perna direita. É importante começar bem!, digo alto para mim. Começar com o pé direito. Não é isto que se diz? Que dizem? As pessoas que sabem o que dizer quando se deve dizer? Os que percebem de tudo isto?
Entro com o pé direito na minha casa-só-minha.
Está vazia. Ainda não trouxe nada. Não tenho grandes coisas para trazer. Roupa. Alguns livros. Alguns discos. Dois ou três quadros que amigos pintaram. Umas fotografias que tirei e que tenho a mania que merecem ser vistas e expostas para prazer meu e de quem me visitar.
A casa está vazia e não tenho móveis para a encher. Tudo o que comprei fui deixando por onde passei. Hoje vou dormir no chão. Enrolado em mim. Amanhã compro um colchão. Vou continuar a dormir no chão, mas em cima de um colchão. Quero um colchão rijo. Daqueles com placas de madeira. Por causa das costas. Dói-me sempre muito as costas.
Amanhã também vou buscar os caixotes com os livros. Não os quero perder mais uma vez. Não quero ter de comprar pela enésima vez todos os livros do Philip Roth. E do Philip K. Dick. É uma cena que eu tenho com os Philip.
A casa está vazia e em silêncio. Não tenho uma televisão para me fazer companhia. Penso em colocar uma música no telemóvel, mas decido que já não tenho dezasseis anos e já não me martirizo a ouvir música fanhosa saída pelos buraquinhos pequeninos de um aparelho que, por melhor que seja, não é hi-fi.
A casa tem vidros duplos. É à prova de som. Não ouço nada da rua. A porta fechou-se nas minhas costas e, o único som que me persegue é a minha respiração pesada de bronquite. Ouço-me a pieira nos pulmões. Apetece-me fumar um cigarro. Mas não tenho cinzeiro. Não me apetece abrir as janelas. Não estou preparado para descobrir os vizinhos. Continuo a não querer ver ninguém.
Sento-me no chão da sala. Encostado à parede de frente para a janela. Os estores estão levantados. Vejo, como numa tela de cinema, o telhado do prédio em frente. Vejo um casal de miúdos. Adolescentes. Acho que são adolescentes. A esta distância é o que me parece. Estão abraçados. Um em frente do outro. Beijam-se. Sinto uma pontinha de ciúme. Como é bom ser adolescente. Jovem. Novo. Ainda cheio de esperança no futuro. Na vida. Ainda não fomos esmurrados. Ainda acreditamos. Eles param de se beijar. Olham para a rua. Olham para a rua aos seus pés. Eu vejo-os a olhar. Imagino a felicidade naqueles olhares. Sentem-se nas nuvens. Acima dos meros mortais que não sabem nada do amor. Não como eles. Do amor deles. Do amor que descobriram um no outro. No amor que consomem um ao outro. A puta da felicidade antes de crescerem e descobrirem que afinal não há amor. É tudo economia. Finanças. Dinheiro. Responsabilidade. Produtividade. Lucro.
Ouço-me dizer alto Vivam até ao limite, pá! e sinto-me envergonhado. Olho em volta mas percebo que estou sozinho. Sozinho em casa. Uma casa à prova de som. Ninguém me ouve. Ninguém me vê.
E depois vejo. Como que desperto. Na minha tela de cinema na janela em frente vejo o jovem casal. Já não estão a beijar-se. Estão em cima do parapeito do telhado. De mãos dadas. Não falam. Não olham um para o outro. Olham para baixo. Para o mundo que está a seus pés.
Tremo. Temo o pior.
E o pior acontece.
De mãos dadas dão um passo em frente. Lançam-se no vazio. Eu levanto-me do chão da sala. Corro para a janela. Tento abri-la. Mas não consigo. É nova. Tem um sistema diferente de abertura. Estou nervoso. Não consigo pensar. Grito Não!, um grito alto e desesperado, mas ninguém me ouve. Ninguém me vai ouvir. E já não os vejo. E não os ouvi. Não os ouvi aqui do meu mundo insonoro.
Não quero espreitar o chão da rua lá em baixo. Não quero ver o que não quero ver.
Deixo-me escorregar pela parede abaixo e volto a sentar-me no chão da sala.
Penso Não gosto de viver sozinho.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/20]

O Miúdo

A primeira vez que vi o miúdo foi dentro da sala. Da sala de exposições. Era uma exposição digital interactiva com projeções pelas várias paredes que se alteravam com a participação das pessoas. Ele andava lá dentro a correr de um lado para o outro. Já sabia o que fazer e onde e quando. Parecia que fazia parte do quadro e, no entanto, parecia deslocado. Estava sujo. Cabelo desgrenhado. O ranho a cair pelo nariz e a entrar na boca. As calças, grandes demais para ele, arrastavam-se. Tentavam cair pelo rabo abaixo. Não tinha cinto. Via-se as cuecas e ele tinha de estar sempre a puxar as calças. As sapatilhas estavam rotas. O dedo grande do pé, sem meia, teimava em pôr a cabeça de fora. Colocava uma mão na parede e formava-se uma onda gigante. Um tsunami. E ele corria para outra parede e baixava-se, arrastava a mão junto ao solo, e a onda transformava-se num mar calmo sem ondas nem marés, uma praia em Torremolinos, sempre com o mesmo caudal, a mesma ondulação, a mesma suavidade.
Enquanto o vi por lá, não consegui interagir com a exposição. Via-o a ele a interagir. Deixava-me ser arrastado por ele. Via-lhe as brincadeiras. As pequenas loucuras de quem é criança e está em casa. De quem se sente em casa. E que me levava assim com ele. Guiava-me. Levava-me pela mão através da modernidade tecnológica. Que raio! Quem seria este miúdo?
E, de repente, sumiu-se.
Deixei de o ver.
Segui o caminho da exposição. Experimentei a interactividade. Achei alguma piada. Mas não deixava de pensar no miúdo. No miúdo que parecia estar em casa. Para quem aquela acção parecia uma naturalidade. E que, para mim, não passava de uma mera experiência para a qual nem tinha muito jeito. Aquele mundo digital foi feito para ele. Não para mim.
Acabei por despachar a exposição. Não estava com grande vontade de fazer o que tinha de fazer. Comecei a sentir uma certa insuportabilidade. Sentia chegar-me a neura. Às vezes não sei porque faço o que faço. Talvez por desfastio. Uma resposta que utilizo muito mas que, na realidade, não significa nada. Porque raio o desfastio? Desfastio de quê? E porque raio tinha eu vindo aqui? Este mundo nem é o meu. Gosto de universos mais orgânicos. Pegar num livro. Riscar-lhes as páginas. Absorver as suas letras, palavras, frases. Os seus sentidos ou a ausência deles. Cheirá-los. Largá-los num sítio qualquer. Agarrar num, ou noutro, ao acaso. À sorte.
Mas não parava de pensar no miúdo.
E foi então que o vi pela segunda vez.
Eu já tinha saído da exposição. Já estava na rua. E através da confusão de um monte de gente que caminhava para uma mesma direcção, vi-o. Vi-o sentado no chão. Sentado em cima de um bocado de cartão. No chão. Na rua. Na rua movimentada por gente que caminhava toda na mesma direcção. De telemóveis apontados. A cartografarem as férias. A vida. E ele ali.
Estava ao lado um velho. Sujo como ele. De barba selvagem. De cabelo comprido e desgrenhado. Os pés descalços. Azuis. Não percebi se de surro se gangrenados. À frente do velho, uma caixa de cartão, de sapatos, com umas moedas. O miúdo escolhia as de um euro, ou dois, e colocava numa caixa pequena que dava ao velho. Este guardava a caixa pequena dentro da camisa suja e rota. Depois o miúdo deitou-se com a cabeça no colo do velho e este fez-lhe umas festas no cabelo seboso. E o miúdo acabou por adormecer debaixo das festas do velho.
Tirei uma nota de cinco euros e fui colocar na caixa em frente ao velho. O miúdo despertou. Agarrou na nota. Dobrou-a. Entregou-a ao velho que a guardou na caixa pequena. Depois continuou a fazer festas no cabelo do miúdo. E o miúdo pareceu abandonar-se e adormecer debaixo dos mimos do velho. Dos mimos de dedos grossos e sujos. De unhas pretas. Algumas feridas. Duas ou três verrugas. Mas carinhosos.
Enquanto me afastava continuava a pensar no miúdo. E nos dedos grossos e sujos cheios de ternura. E perguntava, para mim próprio, O que é a felicidade? E respondia-me que podia ser tanta coisa, mas que não era nada que se procurasse. Era algo que nos encontrava. Estivéssemos lá onde estivéssemos.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/07]

Uma Viagem pelo Douro

Levava com o vento na cara e sabia-me bem. Era um vento frio. Mas sabia-me bem receber esse vento na cara. Entrou algum pó, se calhar mosquitos, pelos olhos dentro. Chorei. Do pó, dos mosquitos ou do vento. Senti as lágrimas geladas escorrerem pela cara abaixo. Mas estava feliz.
Punha a mão de fora da janela e fazia-a navegar no vento. Para cima. Para baixo. Numa espécie de bailado.
Vinha de comboio a descer o Douro. Vinha do Pinhão. Ia para a Régua.
Mas isso é para onde vou quando quero esquecer onde estou.
E estou na sala. Sentado no sofá. A olhar para a televisão. Olho para a televisão para não ter de olhar para ela. A televisão está à minha frente. Desligada. Ela está no sofá ao lado. Acho que está à espera. À espera de qualquer coisa. E então ouço Então?
Então? Então nada! O rio a correr veloz, lá em baixo. Mas não tão veloz quanto eu e o comboio. Também não era assim muito veloz, o comboio. Não era o TGV. Nem o Intercidades. Mas o vento dava-me essa sensação de velocidade. Que voava sobre as vinhas. Sobre o rio. Sobre o casario que se avistava sempre lá ao fundo, a passar, a ficar para trás, mas sempre outra vez mais à frente. E de novo lá para trás. A passar como as folhas de um livro que eu folheava. E sorria.
Tinha acabado de comer uma costeleta grelhada. Antes, tinha aberto as hostilidades com uns peixinhos da horta. E terminado com um bolo de noz com doce de ovos. Vinha feliz. Claro que sim. E aquela paisagem. Aquele verde. Aquele buraco fundo provocador de vertigens. E magia. Por vezes estava por cima das nuvens. Depois via-as lá em cima. Branquinhas contra um céu azul.
E então?
Então era outro tempo. Éramos outras pessoas. Ainda acreditávamos. Ainda tínhamos esperança no futuro. Tudo nos era devido. O mundo era nosso e nós estávamos aqui para o agarrar.
E depois… E depois os anos passaram. As coisas não foram como eram. O mundo, afinal, não era nosso.
Mas bem que pareceu, durante aqueles breves momentos. O pôr-do-sol de copo de branco na mão. A ver o sol morrer. Imaginámos que era no Porto que morria. O sol. Na Foz do Porto. Lá no longínquo horizonte. Nós bebemos a ele. Ao sol. À Foz. Ao Porto. A tudo. Tchin-tchin.
E então?
E então levanto-me. A televisão continua desligada. Ela continua a olhar para mim e a perguntar E então? E eu não sei o que lhe responder. Desde o momento em que coloquei o pé no apeadeiro que perdi o sorriso. O brilho do futuro.
Acho que deixei a felicidade no Douro. Perdida num daqueles socalcos. Entre os copos de vinho que fui bebendo sempre que podia. Um copo de vinho nunca se nega.
Ainda a ouço perguntar outra vez E então?
E então saio de casa.
Deixo-a sentada no sofá da sala.
Saio de casa.
E o que eu dava para voltar ao Pinhão e voltar a descer à Régua de comboio sem saber como o futuro iria matar todos os sonhos.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/13]