Arrasto-me

É Domingo e arrasto-me por casa. Vejo o sol muito amarelo a brilhar pouco na rua. Não sinto o calor que estava à espera de sentir. Já não sei se o Verão acabou se está para durar. O ano passado levei o Verão quase até Dezembro. Agora estou em Setembro e arrasto-me por casa com calças de fato-de-treino e camisola de mangas compridas. Não sinto o conforto que costumo sentir.
Acabei de comer umas torradas com pão de sementes, do Pingo Doce, e beber um chá frio de ibisco. Fiquei enjoado. Agora até o chá me enjoa. Pode ter sido o pão. A manteiga. A geleia. O frango assado que comi ao almoço com couve-coração regada com um fio de azeite.
Pensei em descer à rua e ir beber um café à pastelaria. Mas não me apetece sair de casa. Parece que o elevador avariou. Ouvi a campainha tocar bastante. Vozes zangadas. Tenho ouvido passos a subir e a descer as escadas ao longo do dia. Não me apetece descer à rua pelas escadas. Depois vou ter de as subir. Sinto-me demasiado cansado. A minha mãe, se fosse viva, haveria de perguntar Mas cansado de quê? Ao que eu haveria de responder Nem sei, mãe! Nem sei!
Vou à janela. Acendo um cigarro. Sabe-me mal. Mas continuo a fumar. Tusso um bocado. Mas aguento. Um homem aguenta tudo.
Acho que ando a perder cabelo. Tinha a almofada cheia de cabelos, hoje de manhã. E só podem ser meus. Ninguém mais lá tem dormido.
Fui mordido no braço. Talvez um mosquito. Tenho uma bolha que me provoca comichão. Tenho de pôr Fenistil gel. Tenho de ir ao quarto. Mas primeiro acabo de fumar o cigarro.
Ontem vi um bailado fantástico na RTP2. Foi por puro acaso. Giselle. Giselle de Akram Khan. Uma actualização da peça. Uma música assustadora. Doentia. Mas no bom sentido. A peça fez-me enervar, o que foi bom. Geralmente dá-me tédio. Ontem enervou-me. A música fez-me acelerar as batidas do coração. Demorei a adormecer. Revi a peça toda na cabeça. Acabei por adormecer no meio daquelas mulheres em pontas. A tremelicar. No meio daquele ambiente cinzento e muito triste. Gosto da tristeza. Acordei com a vontade de fumar um cigarro. E foi o que fiz. Vim para aqui onde estou agora. A fazer exactamente o que estou a fazer agora. A olhar triste para a rua a espreguiçar-se no seu Domingo.
Há muitos anos, neste dia, estaria, com o meu pai a ver um jogo de futebol da União de Leiria. Gostaria de voltar a esses tempos. Onde tudo era tão mais simples. Eu não me sentia cansado. Nem enjoado. O cabelo não estava a cair. E gostava dos Domingos.
Devia ir ler um bocado. Ir buscar o Fenistil e ir ler um bocado. Não sei o quê. Ler alguma coisa. Talvez os Cinco. Os Sete. Talvez um livro do Tio Patinhas em português do Brasil.
Mando o resto do cigarro para a rua. Sento-me no sofá e ligo a televisão. E deixo-me ficar por aqui. Já vou buscar o Fenistil. E o livro. Vou só descansar um bocadinho em frente à televisão. O que é que estará a dar na CMTV? Os Domingos são dias de gala televisiva, não?

[escrito directamente no facebook em 2019/09/22]

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Tenho a Vontade, mas Já Não Tenho a Idade

Sou muito bom a saltar à corda. Quando era miúdo, as miúdas invejavam-me o jeito para saltar à corda. Saltava com duas cordas movimentadas em sentido contrário uma da outra. Era raro perder. Quase nunca era a minha vez de dar à corda. Eu saltava. Se houvesse um campeonato de saltar à corda, eu ganhava. Não ganhei porque não havia. Mas ganhei duas medalhas em futebol de salão (na altura não havia futsal, isto foi num outro tempo, um tempo antigo e de expressões diferentes para falar do mesmo). A piada das medalhas é que as ganhei como guarda-redes da equipa que venceu, em dois anos consecutivos, o campeonato do colégio. Eu, guarda-redes! Até a mim me custa a engolir, mas foi verdade. É verdade. Na rua, nunca joguei à baliza. Ninguém da Malta da Rua conheceu esta minha faceta. Na rua, eu era um nove. Um descendente de Nené. Nunca sujava os calções. Não corria muito. Andava por ali à mama, como se dizia. Mas estava sempre no sítio certo para colocar o pé e marcar golo. Golos. E dar vitória às minhas equipas. Às minhas equipas construídas na rua. Dois gajos saltavam para a frente um do outro e depois iam andando, um pé de cada vez, um pé à frente do outro, e o tipo que pisasse o pé do adversário era o primeiro a escolher os jogadores para a sua equipa, um de cada vez em escolhas alternadas. Primeiro um, depois o outro. E repetia-se até se acabarem os jogadores disponíveis. Às vezes colocava-se o pé atravessado, como se fosse só metade, para lixar o adversário. Isso não vale, diziam uns. Vale, vale! Sempre valeu, ora!, diziam outros.
Agora, num tentativa estúpida de parar o tempo, tento regressar ao passado através da repetição de coisas em que era bom. Ao Stop. Ao King. À corda. Agarro numa corda que tenho aqui por casa e vou para a rua saltar. Imaginava a glória. Os meus treze anos. Os quinze. As miúdas à volta a gritar por mim. E eu, aos saltos entre as voltas de uma corda, a correr para a glória. E então faço a corda passar por cima da minha cabeça, dou um ligeiro pulo, insuficiente, a corda entrelaça-se nos pés, desequilibra-me, tropeço e caio atabalhoadamente no chão de brita. Coloco as mãos à frente para me aparar a queda e magoo os pulsos. Deslizo na brita e esfacelo os joelhos e os cotovelos. Rasgo as calças. Tenho sangue no corpo. Caiu-me uma das lentes para o chão. Bati com os lábios. Já incharam. Estou cheio de pó. Dói-me a anca. Espero que não me tenha acontecido nada na anca.
Deixo a corda lá, onde está caída. Não quero saber dela. Sacudo-me. Perco a esperança de encontrar a lente. Entro em casa. Penso que os tempos de glória já se foram. E a idade passa por mim a galope.
Entro na casa-de-banho. Dispo-me. Tomo banho. Limpo com cuidado as feridas. Dói-me a alma. Faço uns curativos. Visto um fato-de-treino.
Sento-me no sofá. Estou macambúzio. Acendo um cigarro. Ligo o iPad e acedo ao link para ver o jogo entre a União Desportiva Vilafranquense e a União Desportiva de Leiria para decidir quem sobe à Segunda Liga.
Este é o jogo que jogo melhor. Sentado no sofá. Um cigarro nos dedos. E um copo de vinho na mão. Porra! Falta-me o vinho. Levanto-me e vou buscar um copo.
Empate a uma bola no final da partida. Empate a uma bola no final do prolongamento. O Vilafranquense vence nas grandes penalidades. Foda-se! Despejo o vinho de um gole. Acabo o cigarro. Dói-me o corpo. Dói-me a alma.

Como Vim Parar Aqui

Estou no passeio. Na borda do passeio. Tenho o pé já um pouco fora do lancil. Quase a tombar sobre a estrada. Sobre a passadeira. Espero o semáforo verde para colocar o pé em baixo. Na passadeira que me vai levar ao outro lado. E quando passa a verde, quando o semáforo passa a verde e me liberta, o meu pé não se mexe. Já não sei se quero ir para o outro lado. Já não sei se quero ficar aqui. Já não sei nada e isso dá-me uma grande dor de cabeça.
Estou indeciso.
E digo indeciso para não ter que dizer que estou inerte. Não quero voltar a pensar em mim assim, dessa maneira.
Não estou inerte.
Levantei-me da cama, hoje de manhã. Tomei banho. Calcei os chinelos para tomar banho numa casa-de-banho pública. E isso foi uma grande decisão. Tomei banho. Vesti-me. Saí de casa. Cruzei-me com pessoas. Ouvi os carros a correr no asfalto. Ouvi as buzinas dos impacientes. Cheirei os vapores dos combustíveis. Senti o embate de um possível acidente.
E aqui estou eu.
Na rua. Com o pé suspenso e sem conseguir pensar o que é que quero fazer.
Apetece-me dizer que não me apetece nada a não ser ir a correr para casa, fechar a porta à chave, sentar-me no sofá munido de um volume de cigarros, um pacote de cinco litros de vinho tinto e uma vontade enorme de não fazer nada.
Mas não posso dizer. Na verdade não posso dizer porque, realmente, não sei o que quero fazer.
O pé está suspenso no vácuo entre as pedras do passeio e o asfalto da estrada. E não tomo a decisão final. O pé não cai. E eu nem sei se quero que o pé caia.
Lá está. Não sei o que quero fazer, o que deva fazer, o que pretendem que eu faça.
Todos estes anos que levo por aqui só para terminar assim, de pé no ar sem saber o que fazer?
O que me trouxe para aqui?
Estou sentado numa mesa do McDonald’s. Como um McRoyal Cheese e sinto o corpo a aumentar a cada dentada. Sinto o peso do hambúrguer a cair no estômago. O hambúrguer é pesado. Empurro batatas fritas pela boca aberta. Bebo uma cerveja de lata morna, vertida para um copo de plástico onde, em letras garrafais, diz que é Reciclável. Trinco o hambúrguer enquanto olho. Um grupo de jovens atletas. Rapazes. São uns dez ou quinze. Adolescentes. Cada um leva quatro hambúrgueres, batatas fritas e uma bebida grande que não descortino o que é. Devoram tudo num instante. Eu ainda estou de volta do meu e já eles terminaram. Deixam os tabuleiros nas mesas. Há uns homens mais velhos, de fato-de-treino, que não lhes ensinam a levarem os tabuleiros para os carros-depósito e libertarem as mesas para os outros. Duas raparigas partilham uma salada. Há um rapaz que devora um Sunday, enquanto uma rapariga o olha a comer. Um miúdo brinca com um boneco-brinde. Depois larga-o. Agarra num tablet. Tem um pequeno pacote de Nuggets, batatas fritas e um sumo de laranja e ainda não tocou em nada. Os pais, suponho que sejam os pais, comem cada um o seu hambúrguer em silêncio. Toda a gente come em silêncio. Não se partilham palavras. Mas alguém conversa. Não sei onde, mas alguém conversa. Não há picos de som. Há um bruá constante. Como um ruído. Que me embala. Acabo de comer o hambúrguer. E as batatas fritas. A cerveja despejo-a de uma só vez. No fim arroto. Sinto o estômago pesado. E penso Porque raio vim comer aqui? E penso que é porque estou sozinho. Sozinho no meio de gente sozinha. Famílias sozinhas. Namorados sozinhos. Há pouca comunicação. Cada um está fechado no seu mundo. Estou sozinho mas acompanhado. Uma triste alegria que vamos cimentando nos dias que correm. É o progresso!, dizem-me.
E saio do restaurante. Caminho pela cidade. Sem saber para onde vou. Para onde quero ir. Estou sem destino. Sem vontade. Sinto-me personagem de um filme de Antonioni, mas sem a Monica Viti. Estou sem rumo. Morto-vivo. Caminho. Calcorreio ruas, estradas. Passo de um passeio a outro. Subo ladeiras. Volto a descê-las. Vou ver uma montra mas perco o interesse. Entro numa pastelaria e percebo que acabei de comer um hambúrguer. Volto a sair. O que é que vim aqui fazer? Rodo sobre mim. Onde estou?
Estou na borda do passeio. Tenho o pé já um pouco fora do lancil. Quase a tombar sobre a estrada. Sobre a passadeira. Mal coloco o pé na passadeira. Passa um carro. Passa um carro a grande velocidade e bate-me na perna. Com força. Com tanta força que me leva o pé e me deixa a dançar entre o passeio e a passadeira e, enquanto caio, vejo o meu pé voar por cima das pessoas que olham assustadas para mim e para o meu pé voador.
Caio. Vejo, à frente, as luzes vermelhas de travão de um carro. Um carro parado. E vejo o carro a arrancar. Ouço ainda os pneus a chiarem no asfalto. As luzes vermelhas desaparecem. Sinto alguém aproximar-se de mim. Ouço alguém dizer Não lhe toquem! Mas não sei de quem falam. Sinto-me cansado. Acho que estou todo fodido mas não tenho a certeza. Não sei nada. Mas não estou inerte.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/01]

Não Desci a Avenida por Causa do Jackie Chan

Era vinte e cinco de Abril e eu queria ir à manifestação. Queria descer a Avenida de cravo-na-mão. Porque se pode descer a Avenida de cravo-na-mão em dias certos. Ou no vinte e cinco de Abril ou na festa do Continente. Não vou à festa do Continente. Mas vou no vinte e cinco de Abril.
Levantei-me cedo. Tomei o pequeno-almoço. Mudei os lençóis à cama. Aspirei a casa. Reguei as flores da varanda. Pus uma máquina de roupa a lavar.
Depois fui tomar banho. Lavei o corpo com sabonete Patti. Lavei o cabelo com Linic. Desodorizei os sovacos com Basic Homme da Vichi. Olhei pela janela da casa-de-banho para a rua e estava a chover.
Merda!
Chovia que Deus-a-dava. O céu cinzento. Carregado de nuvens escuras.
Desanimei.
Vesti o fato-de-treino. Fui fumar um cigarro para a varanda. Com cuidado para não me molhar. Podia ser que parasse. Sim, talvez parasse.
Mas não parou.
Acabei o cigarro. Deitei a beata fora. Voltei para dentro de casa. Sentei-me no sofá. Liguei a televisão. Apanhei com um filme do Jackie Chan. Fiquei a ver.
Afundei-me no sofá. Eu e o Jackie Chan.
Quando voltei a olhar pela janela, descobri o sol. Tinha parado de chover. Veio o sol. São Pedro queria que eu fosse à manifestação. Boa. Ia levantar-me. Ia levantar-me mas não me levantei. Continuei enfiado no sofá. A olhar para o Jackie Chan. Ainda espreitei várias vezes para o sol através da janela. Mas não consegui levantar-me.
O Jackie Chan fazia das suas no filme que passava na televisão. Mas eu já nem conseguia rir. Sentia um peso na consciência. Mas não me serviu de nada. Devia ter-me levantado. Devia. Mas não levantei.
O dia correu.
Perdi o interesse no Jackie Chan.
Acabei por adormecer deitado no sofá.
Quando acordei já era noite. Sentia-me um pouco mal-disposto. Tinha o estômago às voltas. Doía-me a cabeça. Apetecia-me vomitar.
Acabei por me levantar. Com muito esforço. Pensei em ir à casa-de-banho vomitar. Mas fui antes para a varanda fumar um cigarro. Achei ser mais urgente.
E depois, enquanto fumava um cigarro na varanda e via passar gente contente com cravos na mão, pensei A vinte e cinco de Abril não fui à Avenida por causa do Jackie Chan. Mas em Maio, em Maio tenho de ir ao Marquês comemorar a vitória do Benfica.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/25]

Acordado às Cinco da Manhã

Está a tornar-se um hábito.
Um dia destes deixo os contos pós-jantar e passo a escrevê-los antes do pequeno-almoço.
São cinco e trinta da manhã. Estou às voltas na cama desde as cinco, se bem me lembro, para ver se voltava a pegar no sono. Não funcionou.
Tudo começou ontem à noite.
Eu sou das pessoas que mais tarde se deitava e mais cedo se levantava – sempre achei ser da família do Presidente. Lia livros, via filmes, séries, discutia, às vezes comigo mesmo, lia A Bola de há três dias… Mas ultimamente umas alterações químicas no meu corpo têm-me obrigado a adormecer mais cedo que o normal. Isto quando não é mesmo durante o dia.
Ontem à noite estava a assistir ao Governo Sombra quando ouvi uma vozinha lá muito ao fundo dizer-me Vai deitar-te! e lembro-me de responder Estou a ver o Governo do Rui Rio. Lembro-me de ouvir uma gargalhada geral lá muito ao fundo, outra vez, mas já não tenho a certeza disso, porque acho que já perdi as certezas de tudo desde que passei a despertar às cinco da manhã.
Às vezes penso que ainda estou a sonhar.
Mais tarde reparo que está tudo escrito no Facebook. Não sei quem o faz. Posso não ser eu. O algoritmo é capaz de tudo. E o Elon Musk também.
Voltei a ter vontade de me levantar, vestir o fato-de-treino (sim, também tenho um, não lhe dou muito uso, é verdade, mas também tenho um), e ir outra vez, a correr, até ao InterMarché só para comprar um pão de Rio Maior já fatiado e depois comê-lo todo barradinho de Milhafre ou Primor.
Mas faltou-me coragem. Mais uma vez.
No entanto, e como acabei por me levantar para ir à casa-de-banho, agora que já estava acordado, não é?, acabei por sentir o cheiro do resto do bolo de chocolate que estava cá por casa.
Não fui ao InterMarché comprar o pão de Rio Maior, mas acabei a devorar o resto do bolo de chocolate.
E eu nem gosto de chocolate. A sério.
E o resto nem era assim um pequeno restinho. Também a sério.
E a casa, que não é minha, é uma boa casa que me trata com bolinhos de chocolate (de que eu nem gosto) às cinco da manhã. Obrigado, casa.
Bom, agora já são seis horas.

[escrito directamente no facebook em 2018/04/14]

Um Grito de Dor

Estava na esplanada a ler o jornal. A ler o jornal e a beber um café. Podia também estar a fumar um cigarro, mas não, já não fumo. Mas sinto saudades de agarrar no cigarro fumegante. De ver aquilo a queimar quando os meus pulmões puxavam o fumo. Mas não sinto falta dos dedos amarelos nem dos dentes escuros e muito menos ainda da pieira com que os meus pulmões se expressavam.
Estava a ler o jornal quando vi uma série de pessoas a levantarem-se e correrem para o outro lado da esplanada. Olhei na direcção. Também sou curioso. Mas não vi nada. E voltei à leitura.
As pessoas, contudo, não arredavam pé e, cada vez mais, chegava mais gente. Lá ao fundo, nos limites da esplanada, aglomeravam-se outras pessoas, muitas pessoas, de diferentes idades, vestidas de muitas cores, algumas de fato-de-treino, outras ainda de bicicleta, todas a olharem para o mesmo sítio.
E, então, ouvi. Ouvi barulho. Barulho de confusão. Alguém gritava. Alguém gritava muito alto e sobrepunha-se ao bruá das pessoas atentas da esplanada. Não consegui perceber o que a voz gritava. Mas era um grito lancinante. Um grito de dor.
Levantei-me e aproximei-me da confusão. E de repente vi. Um homem curvado para baixo, com um braço preso na boca de um pitbull estático, que estava preso ao chão, não mexia um músculo e não largava o que tinha na boca.
O homem estava parado frente ao cão a tentar falar com ele. Mas as palavras não eram perceptíveis. Ele balbuciava consoantes. Onomatopeias. E babava-se. Mas o cão continuava ali, fixo, sem mexer um músculo.
Olhei em volta e vi uma quantidade de gente a olhar o espectáculo. Alguns telemóveis em riste registavam o acontecimento. Alguém disse Chamem a polícia. Outro alguém também disse Chamem os bombeiros.
À volta disto tudo, crianças, crianças pequenas. Crianças pequenas a brincar alheadas disto tudo. Crianças pequenas paradas a olhar para o confronto. Crianças pequenas que os pais lá foram resgatar ao momento.
Eu larguei uma moeda em cima da mesa. Deixei lá o jornal e fui-me embora. Tinha o coração acelerado. Estava assustado. Ansioso. Pensava E se o cão larga o braço do homem e investe sobre toda aquela gente curiosa? Sobre todas aquelas crianças inocentes?
Eu fui-me embora mas fui lançando o olhar para trás. O cão continuava a morder o braço do homem. Ele continuava a gritar. As pessoas continuavam a olhar. As crianças continuavam a brincar. E depois ainda pensei Não vi sangue.
A nossa inconsciência manifesta-se assim. Não sei de quem era o cão. Não sei quem era o homem. Mas um estava a guerrear o outro e o resto do mundo olhava hipnotizado, fascinado, mas aliviado, porque não era com eles.
Ao fundo ouvi uma sirene.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/25]

À Espera dos Homens do Gás

Entrei no duche cheio de entusiasmo pelo quentinho em dia de grande frio e acabei por sair de lá a bater o dente. Fiquei sem gás. Fiquei sem gás precisamente quando estava a ensaboar o cabelo. E tive de tirar o champô com água fria e o sabonete do corpo com a água já quase gelada. Mas tive de o fazer. Hoje era dia de descontar o cheque e gosto de ir arranjadinho ao posto dos correios.
Vesti uma camisola de lã e acabei por calçar sapatilhas porque a dor na perna não me permitiu usar as botas.
Saí de casa de chapéu de chuva aberto na mão e ainda não tinha feito cem metros já tinha os pés encharcados e já me imaginava de cama, cheio de gripe, a espirrar os pulmões e sem conseguir abrir os olhos.
Ao atravessar a estrada para o outro lado, uma carrinha passou junto a mim e levantou água que me caiu em cima. Acabei por tomar banho de novo. E fiquei encharcado.
Quando cheguei ao posto dos correios, deparei-me com a sala cheia de gente à espera. Tinha vinte números à minha frente. Resolvi ir tomar um café na pastelaria ao lado. Para aquecer.
Quando voltei já tinha passado o meu número. Ainda tentei que me atendessem. Sem resultado. Nova senha. Dez pessoas à minha frente. Encostei-me a uma estante de livros disposto a esperar e reparei num destaque: Pedro Chagas Freitas. Foda-se, pensei. E mudei de sítio.
Lá acabei por ser atendido.
Já com dinheiro no bolso, fui pagar a conta do gás. Mas não me disseram quando é que o iam ligar.
Voltei para casa. Despi a roupa ainda molhada e vesti um fato de treino. Embrulhei-me num cobertor e pus-me à espera que me fossem ligar o gás. Queria tomar um banho de água quente. Precisava de aquecer.
Espirrei e assustei-me.
E os homens do gás não apareciam.
Estava com fome. Comi umas bolachas de água e sal. Peguei no telefone e liguei para a companhia. Esperei. Ninguém me atendeu.
Fui à vizinha da frente e pedi-lhe para me deixar tomar um duche rápido. Sorriu e disse que sim. Acho que teve pena de mim. Ou achou a situação ridícula.
Estava eu já debaixo da água quente a cair sobre mim quando ela entrou pelo poliban dentro, nua, e começou a ensaboar-me o corpo. Pediu-me que lhe fizesse o mesmo. Pensei que estas coisas só acontecessem nos filmes. Comecei a ouvir uma campainha a tocar. Ela não ouvia nada. Mas eu continuava a ouvir. E havia uma certa insistência. Ainda lhe perguntei se estava à espera de alguém, mas ela colou-se toda a mim, enfiou-me a língua na orelha e não me respondeu.
Acordei sobressaltado no sofá de casa, embrulhado num cobertor e com uma bolacha de água e sal na mão. A campainha da porta estava a tocar.
Eram os homens do gás.

[escrito directamente no facebook em 2018/01/09]