Um Agente da G.N.R. Tocou a Campainha da Porta da Rua

Fiquei sem gasolina na motorizada. É uma merda ficar sem gasolina na motorizada às sete da manhã, depois de uma noite de trabalho em dia que promete chuva.
Sou o único a fazer as noites aqui na fábrica. O que fica a funcionar à noite é tudo automatizado, mas alguém tem de estar de vigia não vá o diabo tecê-las e alguma das máquinas parar, ou aquecer demasiado. Quando a fábrica acabou com o turno da noite, ninguém se prontificou a continuá-lo. Eu ofereci-me. Gosto de trabalhar à noite. Recebe-se um pouco mais. Não é muito mais. Mas ainda é algum. De qualquer forma, não tenho ninguém à minha espera em casa. Com excepção da minha filha quando cá vem. Ela vem e vai assim, quando lhe dá na telha. Nem diz água vai. Quando se farta da faculdade, dos colegas, do namorado, vem cá passar uns dias a casa. Às vezes mal a vejo. Ela entra e sai. Eu também entro e saio. Às vezes jantamos. Jantamos cedo para eu entrar ao serviço. Mas jantamos. Às vezes também tomamos o pequeno-almoço juntos. Já aconteceu eu estar a chegar a casa e ela ter a mesa posta, torradas feitas e barradas com manteiga e uns ovos mexidos, coisa que nunca como ao pequeno-almoço mas que me agrada que ela faça. Mas não acontece muito. Geralmente está a dormir quando chego a casa. E quando acordo, ela já não está por lá.
Começa a chover. Uma merda nunca vem sem companhia. Gaita.
Logo à noite tenho de vir mais cedo para fazer o caminho a pé e trazer um jerricã com combustível para a motorizada. Até me faz bem andar a pé mas, ao fim de uma noite de trabalho, quero é esticar-me na cama e deixar-me adormecer. Não andar a fazer maratonas. Já não tenho idade para maratonas. E agora chove. E começa a chover com alguma força.
Não vale a pena acelerar o passo. Já estou encharcado. E não consigo andar muito mais depressa com esta perna apanhada pelo reumatismo. Maldita velhice. Maldita vida de pobre.
As luzes dos candeeiros de rua ainda estão acesos. Já há alguns carros na estrada. E ali vai a carreira para Lisboa. Também ia nela para Lisboa. Ia ao Estádio da Luz ver o voo da águia Vitória. Ia a Belém comer um Pastel de Nata, daqueles a sério. Apanhava o comboio no Cais do Sodré e ia até Cascais. Depois voltava. Gosto de viajar ali assim, ao lado do rio que é quase já mar. Há zonas lá que quando as ondas estão mais furiosas quase que atingem o comboio. Gosto de ver isso. Gosto de ver a fúria daquele quase-mar quase em cima de mim. Já uma vez lá fui. E gostei. Prometi que voltava. Nunca mais voltei.
Também gostava de apanhar o Cacilheiro e cruzar o rio até à outra margem. Passear-me ali pelo Cais do Ginjal. Ver aqueles carros que se enfiam por lá, a tentar sair sem cair ao rio. Há gente muito doida. Muito doida mesmo.
Fumava um cigarro, mas molhava-se todo. É melhor não.
Também ia comer um bife à Portugália. Um dia não são dias. E levava a miúda. Se ela quisesse ir comigo. Gosto daqueles bifes com molho. Acho que é um molho de mostarda, não é? E um ovo estrelado por cima do bife. E as batatas fritas. Gosto de molhar as batatas fritas naquele molho. E tenho de pedir o bife mal passado. Quase cru. Senão, torram-no todo. Há quantos anos não vou a Lisboa?
Nem sei porque é que estou a pensar nestas coisas. Sei que não vai acontecer. Eu nem posso sair daqui. Quem é que iria fazer as noites na fábrica? Ninguém quer fazer as noites na fábrica. Só eu.
Tenho de fumar um cigarro antes de entrar em casa. Não fumo em casa com a miúda lá. Ela não gosta do cheiro. Eu percebo-a. E não me custa nada, não é?
Aqui. Aqui na paragem dos autocarros. Sento-me aqui um pouco e fumo um cigarro. A casa é já ali. Fumo um cigarro e depois vou descansado para casa.
Acendo o cigarro. Faço um esquema do meu dia. Tomo um banho. Seco-me. Deito-me. Adormeço. Tenho de me levantar mais cedo, amanhã. Para ir buscar combustível para a motorizada e fazer o caminho a pé até à fábrica. Como qualquer coisa. Arranjo o farnel para a noite. E vou à estação de serviço. E agora, um banho antes de me deitar. Estou encharcado. Encharcado e com frio. Talvez ela tenha feito o pequeno-almoço.
Acabo com o cigarro. Vou até casa. Entro. A casa está às escuras. E em silêncio. Cheira-me a café. Vou até à cozinha. A máquina do café esta ligada. Ela fez café, mas não fez pequeno-almoço.
Está uma folha de papel em cima da mesa da cozinha. Agarro no papel.
Fui-me embora. Não sei quando venho outra vez. Arranja um telemóvel. Xi♥. A tua filha.
Fico ali um bocado em pé com o bilhete na mão. Sei que nos vemos pouco. Que não conversamos muito. Mas agora que sei que ela voltou, de novo, para Lisboa, sinto a casa ainda mais triste. Triste e fria. Tenho um arrepio de frio. Lembro-me que estou molhado. Bebo uma caneca de café que ela deixou feito e vou para a casa-de-banho. Tomo um duche quente. Seco-me. Vou para o quarto. Deito-me na cama. Estou cansado. Ponho o despertador e fecho os olhos. Aguardo que o sono me leve.

Sou acordado com a campainha da porta da rua a tocar. Abro os olhos. Vejo as horas. Ainda é muito cedo. Muito cedo para mim. Levanto-me. Visto umas calças. Calço uns chinelos. Saio do quarto. Percorro o corredor e abro a porta da rua. Está um agente da G.N.R. do outro lado da porta aberta. Conheço-o. Faço uma interrogação com a minha cara. Ele diz Houve um acidente com a carreira que ia para Lisboa.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/14]

Alguém Tem de Fazer Alguma Coisa

Eu vi-as chegar. Chegaram devagar. Foram chegando devagar mas, mal chegaram, instalaram-se e não foram mais embora. Cobriram tudo e trouxeram o medo.
Estava no alpendre a ler, pela enésima vez, O Segredo do Espadão, das Aventuras de Blake e Mortimer, a fabulosa série de banda-desenhada de Edgar P. Jacobs. Bebia um gin. Fumava um cigarro. E, de repente, comecei a perder leitura. A luz a ir embora. Eram três da tarde. Olhei para o céu e, ao fundo, umas nuvens escuras a cobrirem o céu e a taparem o caminho à luz do sol.
Pensei Vem aí temporal.
Pousei o livro. Levantei-me e cheguei-me à frente no alpendre. Olhei com mais atenção. Não pareciam nuvens de tempestade. O ar estava abafado. Sentia-se cheiro a queimado. Como porco no espeto.
Pensei São os chineses. Vêm aí os chineses.
Entrei dentro de casa. Voltei a sair. Agarrei n’ O Segredo do Espadão e levei-o para dentro de casa. Arrumei-o. Fui ao fundo do armário do meu quarto buscar a caçadeira. Agarrei nuns cartuchos e voltei ao alpendre. Liguei o iPad à procura de notícias. Liguei a TSF. Nada. Facebook. Fiz scroll. Comecei a encontrar umas notícias partilhadas de um enorme incêndio a lavrar na Amazónia.
Pensei O que é que isto tem a ver com aquilo?
As nuvens já estavam quase por cima de mim. A cobrir o céu. A cobrir-me a cabeça. Eu estava ali, no alpendre, com a caçadeira nas mãos, à espera dos chineses quando percebi que não eram os chineses.
Pensei São os brasileiros, porra! Como raio é que estas nuvens chegaram aqui?
A luz do dia desaparecera por completo. O dia fez-se noite. O céu coberto por nuvens de fumo pretas. Um cheiro incrível a queimado.
Entrei para dentro de casa. Fechei tudo. Portas e janelas. Liguei a televisão. Nada. A greve às horas-extra. Pedro Pardal no PDR por Lisboa, nas legislativas. Bas Dost e o Sporting. O clássico Benfica – Porto no Sábado. Mais nada. Nada sobre a noite comer o dia. O mundo ter enegrecido. E o Brasil ter ensandecido.
Peguei no iPad. Voltei às redes sociais. Ali, toda a gente comentava. E finalmente percebi. A Amazónia estava toda a arder. Atearam fogo à Amazónia para vender a madeira e aumentar o pasto para o gado. É a economia, estúpido.
Enquanto o mundo corria para o seu apocalipse na mão de idiotas demasiado estúpidos para perceber os erros que estavam a cometer, a outra mão, supostamente mais ponderada e inteligente, não estava a fazer nada. Estava perdida na sua própria inércia, motivada pela ideologia, economia, medo, diplomacia e, acima de tudo, não ingerência num país estrangeiro. Sem perceberem que éramos nós. A Amazónia éramos nós.
Ao fim de três dias de noite escura e cerrada, ninguém parecia ainda ter tomado alguma decisão que fosse para pôr termo ao que parecia a morte da floresta amazónica.
Então, eu peguei na caçadeira. Em várias caixas com cartuchos. Arranjei um farnel. Um naco de pão do Soutocico, Um bocado de queijo da ilha. Um chourição. Três maçãs e quatro laranjas. E uma garrafa da Cooperativa de Reguengos. Enfiei tudo numa mochila. A caçadeira na mão. Peguei no carro e fui até à Nazaré.
Entrei pelo porto dentro. Ninguém me impediu. Encontrei uma traineira. Subi à cabina. Liguei o motor. Saí do porto.
Pensei Em frente é para a América. Para sul, chego ao Brasil. Alguém tem de fazer alguma coisa.
Ando há umas horas no mar. Não vejo grande coisa mas, se continuar a direito, vou lá dar. Alguém tem de fazer alguma coisa.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/21]

Um Céu Azul, em Dégradé

A manhã acordou bonita.
Através da janela da cozinha vejo o céu em dégradé. Desde o azul escuro, quase preto, por cima da casa, até ao amarelo explosivo, quase branco, que paira por trás das montanhas a aguentar a saída do sol. Não é um azul, são vários. Água, bebé, celeste, cobalto, marinho, turquesa, petróleo, tóquio. Nem uma nuvem. Uma ruga. Um céu limpo. Liso.
Ao fundo, no meio daqueles azuis em mutação, lá muito em cima, a Lua. A Lua em forma de unha de criança. Uma curva fininha. Fininha, fininha, fininha. Como a unha do meu filho perdida no chão da cozinha e encontrada quando procurava a lente de contacto caída por desleixo.
Depois vejo um, dois, três riscos de aviões a cruzarem o céu. Os chemtrails. A marca da conspiração mundial. Os químicos que os aviões vão largando nos céus para controlar a população. Basta ler na internet. Basta procurar no Google. Mas eu ia agora ali, num daqueles aviões, destino a onde-quer-que-fosse. Só queria que tivesse um céu assim. Azul. Em dégradé.
É três de Janeiro. A minha mãe dizia que os doze primeiros dias de Janeiro eram uma retrato dos doze meses do ano. Março vai ser um belo mês. Luminoso. Quente. Solar. Um regresso à praia, com certeza. Já houve anos em que fui à praia em Março. À praia para tomar banho no mar. Em pleno Atlântico. Eu e a Malta da Rua. De bicicleta. Estrada fora. Mochilas com farnel. Calções de banho e toalha. E uma mentira piedosa em casa.
Estranho como ao olhar agora estas montanhas me recordo da praia.
Acho que sinto falta do mar. Da água do mar. Da fúria da água do mar.
Os aviões parecem vir para cá. Afinal não vão para lado nenhum. Parece que vêm todos para cá. Para aqui. Os riscos no céu parecem uma chuva de asteróides em pleno dia na minha direcção.
Cada vez há mais.
Não podem ser aviões.
Há um ali que parece cair. Olha, olha, olha! Parece mesmo que vai cair. Está baixo. Muito baixo. Não, não é um avião. Olha! Desapareceu atrás da montanha. Caiu!
Porra! Que estrondo! Caiu, de certeza. Olha!… Olha, olha, olha!… Um cogumelo! Um cogumelo gigante! Atrás das montanhas. Era um míssil. Era a porra de um míssil, de certeza. São mísseis! Todos eles são mísseis!
Foda-se!
Há outros a cair. Há mais cogumelos a levantarem-se para lá do meu horizonte. Os azuis desaparecem debaixo dos cogumelos de fumo e fogo.
Há um míssil que se dirige para aqui. Vem para aqui. Para cima de mim. E ainda não bebi café. Ora, porra! Mais outro cogumelo e este não o vou ver.
Foda-se!…

[escrito directamente no facebook em 2019/01/03]

Fui Defender o Pinhal do Rei e Não o Encontrei

Tínhamos acabado de jantar enquanto víamos as notícias dos incêndios no país. Ouvi que oitenta por cento do Pinhal do Rei tinha ardido. E esta notícia ficou-me na cabeça. A zumbir.
Fui lavar a louça. E quando ela fechou os estores da janela, fiquei irritado. Ainda havia luz no exterior. E gosto de ver as luzes coloridas que vêm lá de fora. Mas ela tem medo dos fantasmas que se aglomeram à entrada da janela para entrar em casa e chateá-la. Eu percebo-a. Mas irrita-me. E com esta história dos oitenta por cento do Pinhal do Rei estava realmente muito sensível. E gritei. Gritei-lhe. E ela foi sentar-se no sofá, sentida comigo que não a percebia.
Acabei de lavar a louça e fui até ao quarto. Sentei-me na cama e pensei no Pinhal do Rei. E nos oitenta por cento que arderam. E nos vinte por cento que restavam. Algo estava a nascer. Uma ideia. Uma vontade.
Fui debaixo da cama e retirei a AK-47 que tinha comprado aos tipos que assaltaram o arsenal de Tancos. Embrulhei-a numa toalha. Fui à cozinha e arranjei um farnel. Um naco de pão. Um bocado de queijo. Meio chouriço. Uma garrafa de vinho tinto das Cortes. Meti tudo numa mochila. E disse-lhe Venho tarde, e ela respondeu Tem cuidado, e eu fui, mas antes apanhei a metralhadora no quarto.
Pus a mota a trabalhar e arranquei. Fui para São Pedro de Moel. Ia procurar os vinte por cento de Pinhal que tinham sobrevivido.
Mas quando cheguei a São Pedro de Moel, percebi que ainda era de noite. Como raio é que ia descobrir os vinte por cento de Pinhal que não tinha ardido?
Parei a mota ao pé do Observatório Astronómico, que estava deserto, e resolvi descansar. Abri a garrafa de vinho tinto das Cortes e depressa dei cabo dela. Tão depressa que nem me lembro de ter acabado a garrafa, de ter adormecido e do dia ter chegado. Do que me lembro é que quando abri os olhos o sol já estava alto. Era tão grande a claridade que tive de colocar os óculos de sol. E foi aí que pensei de novo nos vinte por cento do Pinhal do Rei que tinham sobrevivido. Montei na mota e saí por ali fora à procura desses vinte por cento de Pinhal intacto. Quando o descobri, parei, escondi a mota e preparei a metralhadora. E pus-me a patrulhar a zona a pé.
Já ao final do dia, vi aproximar-se um jipe da GNR. O que raio é que eles aqui estavam a fazer? Deviam ter estado aqui era no dia do incêndio.
Mirei o jipe e disparei. Acertei na chapa. Os guardas assustaram-se e foram embora.
E pensei que ainda bem que eu estava ali. Não tinha de a aturar, a ela, e estava a defender aquilo que era meu. E o próximo que ali chegasse, levava com a mesma conta.
Agora, não há muito tempo, lá ao fundo, muito ao fundo da estrada, comecei a ouvir o barulho de camiões. Vários camiões, parece. O que será?

[escrito directamente no facebook em 2017/10/20]