Os Passos por Cima de Mim

Há dias em que ouço os passos no apartamento por cima de mim. Há dias em que ouço os gritos na cave por baixo de mim.
Nada disto seria preocupante se vivesse num apartamento na cidade, como já vivi, e onde a convivência com os sons da vida da vizinhança é uma companhia constante. Mas não. Vivo numa casa térrea, sem cave, e com um pequeno sótão que não utilizo e onde nunca entrei.
Há dias em que estou deitado no sofá, a olhar para a televisão num correr de zapping tão rápido que não fixo nenhuma imagem e os sons que me ficam são umas onomatopeias sem sentido, quando sinto, sobre mim, passos a caminhar. Pequenos passos a caminhar. Já pensei se não serão ratos. Mas os gatos aqui da casa já trataram de todos os ratos que por aqui havia. Agora, o que caçam, são os coelhos selvagens que passam aqui pelo quintal ou que eles vão caçar ao terreno lá do outro lado da estrada. Que barulho será esse que passa por cima de mim? De quem serão os passos? E serão passos?
Há dias em que estou na cama, às vezes a dormir, e sou despertado por gritos de pânico que parecem vir de baixo, debaixo de terra, porque não há outro baixo de mim que não seja terra, não há cave, nem nenhum bunker nem túnel. Mas ouço os gritos e sinto como são aflitos e aflitivos.
Acordo e fico ali assim, em silêncio, na cama, a evitar mexer-me para não fazer nenhum barulho, e apuro os ouvidos e fico quieto, atento, à espera de novo grito. Geralmente, o grito não volta. Nem o grito nem nada que se lhe assemelhe. Mas, algumas vezes, sinto os passos que se passeiam por cima de mim como quando estou na sala deitado sobre o sofá, a passarem aqui, sobre mim, sobre mim aqui no quarto, deitado na cama. Ouço-os. Serão as patas de algum rato?
Ou será que há fantasmas aqui em casa?
Eu não sou de ter medo nem tendo a levar a sério estas coisas sobrenaturais de fantasmas e almas do outro mundo mas, nos dias em que ouço estes barulhos, descubro-me mais sensível e fico com algum receio, não de coisas transcendentes, mas de coisas terrenas, como um bandido, um assassino, alguém que vai entrar aqui em minha casa, no meu quarto, na minha cama e me vai espetar a lâmina fria de um punhal vinte vezes, trinta vezes, no peito, por todo o ódio que o punhal terá às pessoas e de quem eu serei fiel depositário.
Outras vezes descubro-me no sonho, no sonho de alguém que não eu, que eu não sonho, e percebo-me a ser perseguido por seres alienígenas que me querem raptar para me levarem para planetas distantes e analisarem-me.
Há ainda umas vezes em que me encontro num sonho em que sonho que estou no sonho de outra pessoa e pergunto-me como raio é que sei isto tudo e não me perco e depois fico com uma grande dor de cabeça, vomito e acabo por acordar em casa, no chão da cozinha, a ouvir o cão da vizinha a ladrar, coisa que faz só quando se lançam foguetes a anunciar as festas das aldeias vizinhas e umas baratas a passearem-se por cima de mim.
Hoje ainda não ouvi passos nem gritos. Mas descobri uma aranha peluda ali na parede em frente a olhar para mim.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/15]

Assaltos

Naqueles anos andava com ela, de carro, a percorrer o país de lés-a-lés, a fazer pequenos assaltos para podermos comer e ficarmos a dormir em pensões. Às vezes ficávamos a dormir no carro. Na rua. Queríamos conhecer o país. Nós que não conhecíamos mais que a nossa pequena cidade, de repente percebemos que o país era muito maior e bem mais interessante que a casa, a rua, a cidade pequena e aquelas pessoas todas iguais, pequenas e sem mistério.
Aqueles anos foram anos de muita confusão. Confusão no país e nas pessoas. Não se sabia muito bem para onde é que o país caminhava. Que país era aquele que estava à nossa espera. E nós não quisemos ficar à espera das decisões finais tomadas pela força popular ou pelas jogadas de bastidores nos gabinetes do poder. Eu e ela.
Peguei no carro do meu pai, um Morris Mini azul bebé, e fomos embora da cidade.
Primeiro fomos para o norte. Assaltámos algumas bombas de gasolina. Chegámos a dormir dentro do carro, cheios de frio, no alto das montanhas. Dormimos na praia, em Moledo. À beira da Portela do Homem, no Gerês. Numa casa de passe, na raia. Chegámos a trabalhar como empregados de bar numa dessas casas de meninas na zona de fronteira, sem saber em que país estávamos, afinal. Quando andámos por São Pedro do Sul foi um pouco assustador, um país deserto, escuro, víamos fantasmas em todo o lado, mas, ao mesmo tempo, foi uma zona que nos deu liberdade para andarmos a correr nus pelos pinhais e mergulhar nos riachos de águas geladas e fazermos banquetes com os frutos que íamos apanhar às árvores. Fazíamos amor ao ar livre. Musgo por cama, as estrelas por tecto. Às vezes era mesmo em cima do Morris, do capot do Morris e, quando vi o filme do António-Pedro Vasconcelos, fartei-me de rir. Tivemos de deixar São Pedro do Sul porque não havia nada para assaltar. Numa terra desértica, não há onde ir buscar dinheiro. Foi então que acabámos por ir para o sul.
Ficámos algum tempo em Tróia. Tróia parecia um oásis na confusão do país. Havia dinheiro a circular. Nem parecia o mesmo país que estava caído na depressão revolucionária. Havia gente em férias. Havia oferta para gente em férias. Aquele oásis não iria durar muito tempo mas, enquanto durou, pareceu qualquer coisa bem diferente do que estávamos habituados a ver, talvez só parecido nalguns, poucos sítios, e que nós ainda não conhecíamos, no Algarve.
Ao fim de dois meses em Tróia, com idas a Setúbal para comer choco frito, arrancámos para o Algarve.
Aquele quase ano inteiro que levámos a andar de um lado para o outro no Algarve foram as melhores férias da minha vida. Deixámos escritos pelas portas das casas-de-banho de todos os cafés do Algarve.
Foi no Algarve que nos aventurámos a assaltar bancos pela primeira vez. Chegámos a ser quase apanhados. Não fomos. Eu tive de disparar a pistola várias vezes. Ela nunca. E nunca disparei sobre ninguém. Nunca matei ninguém. Eram tiros de aviso. Para impressionar. Para pressionar. E dava resultado.
No Algarve chegámos a alugar uma pequena quinta na zona da serra por seis meses. Acho que foi o melhor período daquela aventura. Durante aqueles seis meses não precisámos de fazer nenhum assalto porque tínhamos dinheiro suficiente para vivermos. Mas começamos a dar nas vistas porque não trabalhávamos, tínhamos dinheiro e éramos boémios e ociosos. Chegaram a chamar-nos fascistas! Fascistas! A nós!
Ela começou a assustar-se com o rumo das coisas. Entretanto o país parecia estar a endireitar-se. Ela decidiu voltar para casa. Voltar para a escola. Tirar medicina. Decidiu sem mim. E foi. Voltou para casa. Foi estudar medicina. Tornou-se médica oncológica. Ainda trabalha no hospital Santa Maria.
Eu?
Eu fiquei pelo Algarve. Comprei uma barraca na praia. Fiz um bar. Ganhei uma concessão de praia que ainda mantenho. Não casei. Não tive filhos. Gastei tudo o que ganhei.
Agora descobri que tenho cancro no duodeno.
Ironia, não é?
Nunca mais falei com ela e também não é agora que vou falar. Já decidi que não vou fazer tratamento. O cancro no duodeno é fatal. Fatal e rápido. Vi o meu pai morrer assim, com um cancro no duodeno. Não quero fazer tratamento.
Enquanto conseguir, vou escrever estas memórias dos mais belos anos da minha vida.
E depois… E depois há-de-ser como Deus quiser.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/07]

Dor-de-Dentes

Acordo com dor-de-dentes.
Fico quieto na cama, debaixo do edredão, na vã-esperança que ela se vá embora. Mas sei que não vai. Quando chega, instala-se. E sei exactamente qual dos dentes é que me dói. É este aqui de cima, este aqui, oh, este que sai da enfiada dos dentes e entra para dentro do céu-da-boca. Ainda por cima estou sempre a tocar-lhe com a língua. Não lhe consigo fugir. É como o destino. É o meu destino.
Tenho de tomar um clonix.
Não me queria levantar da cama, mas não posso não me levantar. A dor-de-dentes não se vai embora. Vou ter de a empurrar.
Levanto-me da cama. Está frio em casa. Vou à cozinha e como um bocado de pão duro para o estômago não estar vazio. O pão acaba sempre por ir parar debaixo do dente que me dói. Magoa-me. Apetece-me gritar. Mas não adianta. Não há ninguém para ouvir os meus gritos.
Engulo o pão embebido na minha própria saliva. Bebo um gole de água. Meto o clonix na boca e despacho-o para o estômago com mais um ou dois goles de água.
Regresso à cama. A dor-de-dentes regressa comigo. Penso que vai demorar a ir embora. Eu deito-me e apago a luz da mesa-de-cabeceira. Sinto-me desperto. Não vou conseguir voltar a adormecer tão cedo. Não consigo fechar os olhos.
Fico virado para o mesmo sítio para não me deitar sobre a face que me dói. E sinto uma vontade enorme de me virar para esse lado. Sei que não posso pensar muito sobre o que não devo fazer porque passa a ser o que me apetece fazer.
Materializo a dor-de-dentes. O dente que me dói parece crescer e tornar-se grande demais para a minha boca. Não a consigo fechar. Respiro pela boca. E canso-me. Estou sempre a tocar no dente. Estou sempre a levar lá a língua para perceber se está mesmo maior ou se é impressão minha. E percebo como estou a ser estúpido. Mas mesmo quando não me pergunto se o dente está maior que os outros, a língua tende a lá ir lamber o dente, lamber a dor.
Tento que a boca fique quieta como o resto de mim. Mas isso só me deixa mais inquieto. Começo a salivar. Tenho a boca cheia de saliva. Pareço ter uma nascente na boca. Deve ser do clonix. Penso em levantar-me, mas está frio na casa. Engulo a saliva. Enjoo. Por momentos sinto um vómito.
Estou há tanto tempo com os olhos abertos na escuridão do quarto que já consigo ver todos os fantasmas que cá estão instalados. Puxo o edredão mais para cima de mim. Para me esconder. O silêncio é ensurdecedor. Ouço pequenos ruídos ampliados pela ausência de outros ruídos. O mundo está todo em silêncio. E eu ouço alguns barulhos na rua. Anda aí alguém. Ou é só a minha imaginação?
O clonix demora a fazer efeito. Passam as horas. Vejo-as a passar no relógio digital e luminoso na mesa-de-cabeceira. As horas transformam-se em dias. A minha dor-de-dentes é mortal. Penso no Dr. House e que devia magoar-me noutro lado de mim para esquecer esta dor. Mas não esqueço. Nem consigo magoar-me. Sou um cobarde.
Vai-te embora! Vai! digo. Mas já não me ouço. Talvez esteja já a dormir. Talvez já seja tudo um sonho. Talvez esteja a sonhar com uma dor-de-dentes e não me esteja a doer de verdade. Talvez o barulho que ouço na rua não seja de alguém a rondar a casa. Talvez esse vidro a partir-se não esteja mesmo a partir-se. Talvez essa luz que vejo a entrar pelo quarto não esteja mesmo aqui mas sim no meu sonho. Enfio-me mais dentro da cama e puxo o edredão mais para cima da cabeça. Tento pensar em qual foi o meu disco do ano. Qual foi o meu disco do ano?

[escrito directamente no facebook em 2019/12/13]

A Feira de Maio e o Futuro Tecnológico

Há uns anos fui ver um filme pornográfico ao Animatógrafo do Rossio. A alegria espontânea de quem se divertia com as façanhas sexuais alheias que via expostas no ecrã só era comparável à inveja com que se ouvia ranger a porta da casa-de-banho, a abrir e fechar, de cada vez que alguém, já excitado com a estória projectada no ecrã cumpria a sua função de aliviar o desejo acumulado. Havia também quem não precisasse. Havia também quem não conseguisse. Havia/Há sempre gente para tudo. É como na farmácia, dizia-se. É como nas feiras, diz-se.
Cá por Leiria também temos uma feira. Chama-se Feira de Maio e, para algumas pessoas, também é uma montra onde alguns tentam vender e outros tentam comprar o que querem, gostam e precisam. O presidente da câmara, ou algum representante seu (se calhar algum vereador) também abre a feira e profere algumas palavras de circunstância. Não consta que alguma vez tenha tido de pedir desculpas. Aliás, desculpa não é algo que abunde nas edilidades.
Não nego o valor e a importância de uma montra/feira como a Web Summit. Mas gostava de conhecer o real valor desta feira para o país e para os núcleos portugueses que se dedicam à tecnologia. O que é que sobra deste evento? O que é que fica cá? O que é que a própria feira motiva no país durante o resto do ano que medeia duas feiras?
A notícia mais falada foi a venda da camisola igual à do promotor a 700€ a unidade. E que esgotou.
Neste país o Salário Mínimo, que é auferido por 1/4 da população activa, fica à distância de 100€ dessa camisola. Obviamente, a questão não está no valor da camisola.
Poderiam pensar, os tantos empreendedores deste país, que maiores salários talvez equivalesse a um maior consumo. Quantas mais camisolas poderiam então ter sido vendidas? Parece-me que o capitalismo tem uma ideia muito limitada de produtividade e de lucro. Talvez essa ambição do capitalismo, o crescimento infinito, pudesse passar a ser um objectivo menos utópico. Mais pessoas com mais dinheiro nos bolsos dá um maior consumo. (o que fazer depois a todo o lixo aumentado é uma história para outra análise) Mas a verdade é que uma grande parte do patronato é um miserável ganancioso capaz de matar a galinha dos ovos de ouro. Não é por acaso que tem de haver um Salário Mínimo que sirva de base aos salários praticados no país porque uma grande parte do patronato continua a querer pagar o mínimo que puder para poder capitalizar o máximo. Claro que há desvios. Claro que há patrões que pagam acima do Mínimo e até do Médio. Seja porque podem, seja porque dão, à força de trabalho, um outro valor, mais próximo do real.
Mas é de reparar: se o Salário Mínimo se aproxima do Salário Médio, o que é que diz deste país em termos salariais?
Já há professores a desistir de colocações em escolas onde não podem pagar uma renda de casa. Há queixas da indústria hoteleira, principalmente em zonas como o Algarve, por não conseguirem trabalhadores. Porque é impossível pagar casa, e todas as despesas inerentes, com os salários oferecidos. Mas o estúpido é o trabalhador que não quer trabalhar!
Regresso à Web Summit. Parece que a grande ambição do capitalista é conseguir não precisar de trabalhadores e automatizar tudo. Esquece-se, o capitalista, que quando não houver trabalhadores e, portanto, não houver salários, também não haverá consumidores. E sem consumidores não haverá capitalismo.
Não me interpretem mal. Eu sou a favor do capitalismo. Acho, no entanto, que o Estado tem de ser um regulador interventivo. Porque o Homem é ganancioso. Faz parte dele. De nós. Não de todos. Mas de alguns. E na maior parte dos casos, o capitalista, não pensa no amanhã nem nas consequências dos seus actos hoje.
Claro que, economistas encartados poderão vir justificar determinados comportamentos devido a… e a… e que eu não sei que… por causa de… e o investimento… e o custo da produtividade é…
Mas nessas justificações falta sempre a variável da dignidade humana. Um homem devia poder viver em dignidade. Ter um tecto para se abrigar. Comida para saciar a sua fome. Cultura para apaziguar os seus fantasmas.
Afinal, quando morremos, e esse é, para já, o nosso destino, vamos todos da mesma maneira. Sem nada. Parece que nem as memórias nos restam. Já as lembranças que deixamos por cá, podem atormentar, aí sim, aquilo que poderia ser o nosso legado.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/07]

Uma Vida Arrumada em Caixotes

Tenho a vida toda arrumada em caixotes. Em caixotes grandes e em caixotes pequenos. Cada memória tem o seu caixote. Tenho os caixotes numerados. Identificados. E depois arrumo-os todos na despensa, no roupeiro do corredor, por cima do guarda-fatos do quarto. Quando tenho necessidades, vou à procura dos caixotes. Há sempre um caixote para mim. Para aquele momento. Para aquele momento específico. Normalmente esta necessidade acontece-me quando estou bêbado, deprimido ou demasiado só. Mas às vezes é só mesmo saudades do passado.
Hoje abri um caixote. Um caixote à sorte. Um caixote que não me lembrava que tinha. E quando o abri, libertei uma série de fantasmas que contribuíram para ter chegado aqui, coxo, onde cheguei. Mas o mais importante foi mesmo a memória desses fantasmas. Não sabia que eles existiam. Que ainda os tinha. Descobri um caixote com bilhetes dos concertos da minha juventude. Bilhetes de uma época em que a bilhética era também uma forma de arte. Os bilhetes eram personalizados. Remetiam para épocas e para as tournées que as bandas estavam a produzir ou para os álbuns que andavam a promover. Descobri, com alguma surpresa, como a parte de trás dos bilhetes era um mundo cheio de informação numa altura em que ainda não havia Google, a internet ainda era um bicho de sete cabeças e eram ainda poucas as pessoas que tinham computador e sabiam o que era o Windows.
Coloquei o primeiro disco das 69 Love Songs dos Magnetic Fields, em época de vinte anos de aniversário, na alta-fidelidade. Abri a janela. Sentei-me no chão da sala. O caixote aberto. Acendi um cigarro. Meti a mão. E trouxe um monte de bilhetes.
Os meus olhos brilharam. Vários bilhetes dos Mão Morta. Naked City. Miles Davis. Vários do Nick Cave. Pogues. Lords of the New Church. R.E.M. Sundays. Durutti Column. Varios dos Metallica. Até Manowar e outras coisas assim, mais bizarras.
À medida que ia passando os bilhetes, ia-me lembrando de pequenas histórias que os acompanhavam. Coisas que me aconteceram. Pequenas estórias que vivi. Desatinos com amigos. Nascimento de amizades. Morte de outras. E o sexo! A quantidade de sexo que os concertos traziam. O que é feito desta minha vida?
Lanço a beata para a rua através da janela aberta.
Fecho os olhos.
Volto atrás no tempo. Regresso aos meus vinte anos. Que se foda o futuro. Este futuro. O meu futuro. Quem quer saber deste futuro de merda com um passado tão cheio? Volto à escola. Não, não à escola. À universidade. Ao Bairro Alto dos anos ‘80. Ao Cais do Sodré das putas e dos marinheiros. A uma Lisboa que me fascinava. Uma Lisboa provinciana, feia, malcheirosa, de prédios abandonados e a cair, mas cheia de vida e de gente com vida. Uma Lisboa de padarias abertas às cinco da manhã. Uma Lisboa de arrufadas e sardinhas assadas. De gente que falava alto e mijava nos cantos da cidade. Dos charros fumados às escondidas e dos selos passados de língua em língua. De namorados a correr de mãos dadas pelas ruas esconsas e de asfalto esburacado.
Volto atrás no tempo e não quero regressar mais. Fecho-me no caixote com os meus bilhetes e as minhas estórias. Que se foda o futuro que não é meu. Que se foda esta Lisboa impessoal, fria e gananciosa. Eu quero o meu mundo de paixões.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/10]

Subir o Tejo

Decidi subir o Tejo. À procura de… À procura de quê? Na verdade à procura de nada. Subir o Tejo e deixar-me levar contra-corrente. Ele desce. Eu subo. Mas há momentos em que nos encontramos. E nos amamos.
Passo a ponte. Deixo Lisboa e rumo à margem sul. Direcção Almada. Mas vou até Cacilhas. Vejo o que restou da Lisnave. Respiro a História. Muito do PREC passou-se ali. Agora morreu. A Lisnave está vazia. Cheia de fantasmas. Mas vazia. O rio continua lá. Vejo-lhe as ondinhas a bater nos ferrys que se resguardam nas docas abandonadas. Um dia há-de lá nascer algum empreendimento imobiliário. Qualquer coisa de luxo. À beira-rio. Talvez com um Espelho-de-Água. Lisboa em frente. Quem inveja quem? Definitivamente os operários já não moram ali. A margem sul já não é a mesma. A cintura industrial estrebucha. Ainda restam bolsas. Mas tendem todas a morrer.
Volto para trás. Deixo Cacilhas nas costas. Passo pela Cova da Piedade. Amora. É difícil voltar ao Tejo. Por onde vão as estradas? Quero subir o Tejo pela margem esquerda mas não é fácil.
Chego ao Seixal. Não sei onde é a Academia do Benfica. Não passo por lá. Vou ao rio. Vou directo ao rio. Vejo o estuário do Tejo. Garças. Muito trânsito. O Seixal parece a rotunda do Marquês de Pombal em noite de campeonato do Benfica. Tanto carro. Em fila. Gente. Muita gente. Motores a trabalhar. Tubos de escape a deitarem bufadas de gasóleo. Cheira muito a gasolina. Gasóleo. Combustível. Mas ninguém refila. Ninguém buzina. Há uma calma que estranho. Eu fico nervoso e, logo que posso, fujo dali e rumo a Alcochete.
Chego a Alcochete e vejo o rio ferroso. Não sei se aquela água tem ferro mas, a cor, sugere-me isso. Lembra-me o café-com-leite de Manaus, quando o Rio Negro se mistura com o Rio Amazonas. Alcochete parece uma terra-montra. Limpa. Arranjada. Pintada. Caiada. Restaurantes chiques com esplanadas cheias de gente com criancinhas. Há calma. Silêncio. Ouvem-se vozes. Límpidas. Claras como a localidade.
Sigo mais para cima. Perco o nome das terras. Umas misturam-se com outras. Eu misturo nomes. Esqueço outros. Invento ainda outros. Há uma grande confusão de terras, locais, gentes. Laranjeiro. Corroios. Paio Pires. Fogueteiro. Baixa da Banheira. Matosinhos. Não, Matosinhos acho que não é por aqui. Sinto-me baralhado. Ao Tejo é mais difícil de se chegar. Vejo-o. Sei que está lá. Ali. Corre-me paralelo. Mas tenho dificuldade em chegar até ele. Caído do nada, uma placa indica-me uma Praia Fluvial. Outra, um Miradouro. Uma outra ainda um Passeio Fluvial. De repente o Tejo está rico e puxa-me até ele. Afinal, não foge de mim.
Vejo. Observo. Respiro. Registo. E sigo.
Chego a Almourol. Estou na margem esquerda e chego a Almourol. Estou em frente ao castelo. Por cima dele. Num Miradouro abandonado. Uma estátua que me parece do Cutileiro, está altaneira, de guarda ao castelo. É a única coisa que se mantém de pé. Um bar fechado. Vidros partidos. Um vandalismo serôdio em paisagem de cortar a respiração.
Dou a volta. Vila Nova da Barquinha. E vejo Almourol por trás. É diferente. É outra coisa. Igualmente bonito. Tiro fotografias. Talvez as venda a turistas em Lisboa.
Apetecia-me mergulhar nas águas do Tejo. Aqui há muitos bancos de areia. Provavelmente conseguia cruzar o rio a pé. Pondero dar um mergulho. Mas vejo a água suja. Muitos mosquitos. Nuvens de mosquitos. Desisto. Vou comer um gelado num café de apoio ao visitante.
Volto à estrada.
Aproxima-se a noite.
Passo em Constância. Vejo o Zêzere beijar o Tejo. Sigo até Abrantes. Procuro onde ficar. Procuro onde comer. Estou cego. Não encontro nada. Se calhar a falha é minha. Provavelmente é. Por vezes tenho dificuldade em ver coisas que não estejam absurdamente plantadas à minha frente.
Zango-me.
Decido avançar mais uns quilómetros até ao Sardoal.
Vejo luzes. Luzes a convidarem-me. Encontro um sítio onde comer.
Páro o carro. Sento-me a uma mesa. Como uma bifana. Bebo um copo de vinho tinto. Antes de chegar o café, adormeço. Adormeço à mesa. Os braços tombados ao lado do corpo. Durmo ali mesmo. Sentado. À mesa. O café a arrefecer.
Irei acordar no dia seguinte e continuar a subir o Tejo. Prevejo subir até Vila Velha de Ródão. Prevejo avistar Espanha. Talvez vá até Almaraz. Olhar pela última vez para a Central Nuclear. E acreditar que vai fechar em 2020.
Gosto do Tejo. Da vida no Tejo. Mas há morte a rondar.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/11]

Os Cães Pressentem Sempre

Encostei-me ao beiral da janela a fumar um cigarro e a ver a chuva a cair.
Estava a chover tanto que já não via as montanhas. Mesmo as oliveiras do terreno em frente eram uns fantasmas a surgir por trás da forte queda de água.
Era Domingo e não sabia o que fazer.
Não havia internet. Sempre que chovia um bocadinho, a rede tremia. Com uma chuvada forte, desaparecia. Ficava isolado. Isolado não que o telemóvel tinha rede. Mas não me apetecia falar com ninguém. Portanto, acho que ficava isolado, sim.
Na televisão teimavam as canções pimba em programas populares feitos num país profundo que descubro feio através da televisão. Mas não é, que eu conheço-o. O país não é feio. A televisão é que tende a desfigurar tudo. É uma coleccionadora de erros, enganos e logros. O playback na aparelhagem, os bailarinos de pasodoble travestidos em techno-regional e umas apresentadoras perdidas na multidão a querer saber as impressões do povo.
No canal ao lado passavam filmes de família, dizia o locutor, que já não é da continuidade, mas que informa, para quem não sabe, as maravilhas que o esperam se continuar sentado por ali, num Domingo de chuva que convida ao sofá. Filmes requentados já vistos mil-e-uma vez.
Eu fui para a janela fumar um cigarro e olhar para a rua. Procurava alguma coisa com que entreter o olhar. Não havia luz suficiente para ler um livro. E era ainda cedo para acender as luzes. A conta ao final do mês não o permite.
Recebi uma mensagem no telemóvel. O antigo presidente do Sporting, Bruno de Carvalho, tinha sido detido. Não sei porque me mandaram a mensagem. Nem sou do Sporting.
Apetecia-me umas filhoses. Uns coscorões. Umas fatias douradas. Uns sonhos. Porra! Não conseguia pensar em mais nada que em comida?
Não tinha almoçado. Nem tinha lanchado. Tinha comido uma torrada de manhãzinha. Ia comer outra mais logo, à noite. Tinha de aguentar.
Lá fora continuava a chover. Mas conseguia ouvir o latir dos cães da vizinhança por cima do barulho da chuva. Pressentiam qualquer coisa. Talvez um tremor-de-terra. Talvez trovoada. Uma enchente. Há um ribeiro aqui perto.
Lá em baixo na estrada nem um carro. Nem uma motorizada. Ninguém.
Mandei o cigarro para a rua. Vi a água violenta a desfazê-lo.
Pensei no sardão. Há muito tempo que não o via. Onde andaria? Estaria ainda vivo? Voltaria cá?
E então, os cães calaram-se. Por trás da chuva, o silêncio. O céu escureceu ainda mais. Não havia nuvens. Era tudo uma massa cinzenta escura a mandar chuva cá para baixo. E vi um risco de luz muito brilhante a cruzar o céu até à Terra. O silêncio mantinha-se. Eu não via as montanhas que deviam estar lá à frente. Já nem via as oliveiras fantasma. Só uma névoa de chuva. E, depois, o estrondoso trovão gutural, e prolongado, saído das entranhas de Thor. Assustou-me, aquela porra. E o estar sozinho, ampliou aquele susto.
Fui acender outro cigarro para acalmar. Voltei para a janela para continuar a ver a chuva a cair. Copiosamente.
E então tremi. Tremi como gelatina. Os meus pés abanaram. Senti a casa a mexer-se. Os pratos a caírem. Os copos a caírem. O barulho de coisas a cair e a partirem-se. A casa abanava. E começou também ela a partir-se. A desfazer-se. A deixar cair pedaços enquanto eu parecia ver tudo desfocado.
Larguei o cigarro e corri para o vão da porta da rua. E a casa veio abaixo. Veio abaixo sobre mim. Mas eu resisti. Resisti debaixo do vão da porta da rua enquanto a casa tombava, como um baralho de cartas, sobre mim.
Continua a chover. Eu ainda estou debaixo do vão da porta da rua. Estou preso. Não consigo sair daqui. E não vejo nada. É de noite. Não há luzes. Está tudo escuro. Não ouço barulhos a não ser o som da chuva que ainda não parou. Sinto os pés molhados. As pernas húmidas. Não sei o que me vai acontecer. Mas estou com medo. Estou com medo e com fome. Só comi uma torrada de manhãzinha.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/11]

Lá Vão os Meus Amores

O dia acorda amargo. A noite adormece azeda.
Entre uma coisa e outra mal tenho tempo para chorar a perda.
Abro a janela e está um sol tímido. Não está frio. Mas não está calor. Há um ligeiro vento que abana as ramagens aqui em frente e produz sombras que me assombram a casa. Não está cá ninguém. Mas parece. Parece que quem falta anda por cá à solta, a fazer cabriolices. As cabriolices que não vi. Que nunca vi.
A casa está vazia. Sinto-a desconfortável. Demasiado grande para quem está sozinho. Mas tenho muitos fantasmas para abrigar. Deixo-os por lá. Eu saio. Eu saio sempre. Saio a correr antes que fique lá preso a memórias que já não sei se são reais ou inventadas.
Podemos inventar um passado?
Pego no carro e vou até à praia. No caminho telefono para o trabalho. O que digo? A verdade? A verdade não interessa. Não importa. Estou doente. Dói-me a barriga. Vomitei. É suficiente. Plausível. Falso, mas verosímil.
Que importa as dores da alma? Que importa o vazio que se instala cá por dentro e não me deixa respirar. E me obriga a dobrar o corpo à procura de força. Eu perdi. Eu perdi-os lá para trás. E é já tarde.
Não está ninguém na praia. Só eu e as gaivotas.
O mar está calmo. Não fosse o frio e deixava-me mergulhar.
Que se foda o frio.
Arranco as sapatilhas. Puxo a camisola pela cabeça. Largo as calças na areia. Os boxers ficam a meio caminho. Não sei o que fiz às meias, mas tinha umas calçadas. Os óculos ficaram dentro das sapatilhas. O telemóvel também. O relógio vai aqui comigo. Preso no pulso onde o meu pai o prendeu. Um dia terá outro destinatário. Um dia também o irei colocar num outro pulso. Mas agora mergulha comigo. Agora leva-me debaixo das ondas frias de Outubro como se fosse o meu Agosto particular sem mais ninguém a não ser eu. Dou cinquenta braçadas em frente. Regresso noutras cinquenta.
Cá fora está vento. Um vento frio.
Agarro na roupa e entro nu no carro. Ligo o ar-condicionado e deixo-me secar. Aquecer. Visto-me.
Regresso a casa.
Não me apetece ir trabalhar. Não tenho fome.
Agarro em Life? or Theatre? – A Selection of 450 Gouaches de Charlotte Salomon. Abro ao acaso. Uma pintura de uma mulher (ou um homem?) à janela, de costas para mim, a olhar ao fundo, o quê?, duas crianças, e diz qualquer coisa de intraduzivelmente alemão. Mas a tradução em inglês ajuda-me There goes my loved ones, and no one cares about me.
There goes my loved ones.
There goes my loved ones.
There goes my loved ones, and no one cares about me.
E sei que a culpa é minha. E sinto-me azedo. E já é noite. E deito-me. E espero que a noite dure a eternidade e eu esqueça tudo o que sei e não quero mais saber e quero é esquecer e já não ser mais eu nem mais nada e nem pensar nem saber nem escrever nem nada nem…

[escrito directamente no facebook em 2018/10/10]

A Despedida

Estava sentado à mesa.
Estava sentado à mesa com o copo de vinho tinto na mão a desejar-lhe as maiores felicidades.
Fazia agora três anos. Três anos de ausência e saudade.
Três anos tristes em que vivi preso no lamaçal. Três anos em que as lágrimas me alimentaram a alma.
Agora estava ali sentado, a mesa posta para duas pessoas, a encetar um jantar que queria brilhante.
Costeletas de borrego grelhadas no carvão acompanhadas de esparregado de espinafres. Era o seu prato de eleição. Ela que nem gostava de borrego, mas as costeletinhas assadas eram um mimo que devorava à mão e lambia os dedos.
Acompanhava com um Mouchão tinto. Caro mas merecido.
Servi-me. Comi as costeletas à mão e fui falando, fui contando as estórias, as várias estórias que fomos vivendo nos anos todos que nos acompanhámos vida fora. Lambi os dedos. Um a um. Como se fossem os dela.
Cada copo de vinho rendido em homenagem. À tua. À tua que tanta falta me fazes. Tchim-tchim.
Mas acabou.
Tinha de acabar.
Queria seguir em frente.
Precisava de seguir em frente com a minha vida.
Aquele foi o adeus, o encontro de despedida. O encontro em que lhe repeti o quanto a amava, sim, a amava ainda, mesmo depois de três anos de ausência, mas precisava de seguir em frente.
Juntei todas as coisas dela num caixote. Fui até à praia e deitei-lhe fogo. Vi as cinzas serem levadas pelo vento mar adentro e gritei-lhes Vão ter com ela. Encontrem-na.
Acabei as costeletas de borrego. Acabei o esparregado. Despejei a garrafa. Comi e bebi por mim e por ela.
Dei uma volta pela casa. Cheirei. Vasculhei. Olhei a toda a volta, em todo lado. E descobri que já nada ali restava dela. Nem o cheiro. Nem a imagem. Nem os despojos.
Nunca a visitei no cemitério. Para mim ela tinha continuado por aqui. Comigo. Durante estes últimos três anos.
Mas hoje despedi-me.
Não queria mais lágrimas.
Hoje decidi renascer.
Mantenho aqui, neste cantinho, um bocado dela que não irá nunca desaparecer. Mas vou em frente. Estou cansado de viver com fantasmas. Preciso de pessoas. Preciso de sentir. Tocar. Ser tocado. Preciso de voltar a amar. E ser amado.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/16]

O Passeio da Barata na Sala da Psiquiatria

Hoje fui ao hospital.
Tive uma consulta de psiquiatria. Já nem me lembrava da marcação. Foi através do médico de família e já há cerca de seis meses.
A consulta foi logo de manhãzinha. O médico atrasou dez minutos. Nada de extraordinário. Cumprimentou-me, perguntou-me o que me levava ali e eu fui sincero Já não me lembro, senhor doutor!, e era verdade.
Ele olhou para o computador que lhe escondia metade da cara do sítio onde eu estava sentado e lá se inteirou dos meus problemas.
Voltámos aos fantasmas. Às pessoas que vivem comigo cá em casa. Gente que eu nunca vi, não conheço, mas vêm ter comigo e falam-me com um à vontade que me irrita. Há noites que desespero, principalmente quando fazem do meu quarto uma discoteca onde toda a gente fuma, e não consigo pregar olho. Agora já me habituei. Já não ligo tanto. Por isso não me lembrava porque é que estava ali.
O médico começou por me fazer umas perguntas, somar números, subtrair, dizer o abecedário para trás, desenhar um relógio e marcar dez e dez, qual o nome do país e da cidade em que vivo…
E foi então que a vi. Pequenina, mas grande o suficiente para a ver. No meio de toda aquela brancura asséptica, aquela coisinha escura a deslocar-se chamou-me a atenção. E nunca mais a perdi de vista. Esqueci-me do médico, mas devo ter continuado a responder-lhe porque não fui interrompido na minha observação do longo caminhar da barata ao longo do chão da sala de consulta psiquiátrica do hospital, até chegar ao pé do lavatório que subiu sem nunca cair. Perdi-a de vista por duas vezes, quando caminhou para as traseiras do pé do lavatório, mas voltou sempre ao meu convívio. Chegou à parte de cima e percorreu-a toda, de uma ponta a outra, passando por baixo do sabonete líquido e desinfectante. Depois mergulhou uma pequena ranhura atrás do lavatório e foi nessa altura que, finalmente, deixei mesmo de a ver.
Virei-me para o médico que estava a escrever numa folha com um pequeno pedaço de lápis e, percebendo a minha admiração, disse Agora com os computadores, as canetas desapareceram todas. Este restinho de lápis que apareceu aqui no outro dia é que me tem safado, e eu sorri, solidário com ele.
Depois estendeu-me um papel com a receita. Perguntei-lhe o que era e ele disse Um anti-psicótico e um anti-depressivo, que vai tomar todas as noites durante algum tempo, e depois vai cá voltar. Despedi-me dele, e ao sair olhei para o lavatório e ela lá estava outra vez, a espreitar para mim, à espera que eu saísse.
Eu só queria era que não aparecesse na festa que, obviamente, iria acontecer outra vez no meu quarto. Com luzes psicadélicas e charros, e raparigas com cabelos coloridos e assim.

[escrito directamente no facebook em 2017/11/02]