As Peças de Xadrez na Caixa das All Star Pretas

No dia em que decidi vir morar para esta casa, guardei as peças de xadrez numa caixa de sapatilhas All Star que durou mais, a caixa, que as sapatilhas, sempre presas nos pés desde o dia em que as comprei até ao dia em que, todas rotas, as enfiei no caixote do lixo. Eram umas All Star pretas, de costura a preto e uma estrela branca na lateral exterior das sapatilhas.
Mas não é das sapatilhas All Star que quero aqui falar. Nem sequer das peças de xadrez que meti dentro da caixa dessas sapatilhas, caixa essa que guardei na arrecadação daqui de casa e nunca mais as fui buscar. Não é que não goste de jogar xadrez, que gosto, mas não gosto de jogar xadrez sozinho e, no momento em que escolhi vir viver para aqui, para esta casa, perdida no campo, perto de uma aldeia que acho que nem vem no mapa, que eu sabia que estava a desistir de ter adversário para o jogo ou companhia para o resto que fosse da minha vida.
Escolhi isolar-me por deixar de gostar das pessoas. Por deixar de acreditar nelas. Claro que podem acusar-me de soberba. Claro que podem achar que me sinto superior a toda a gente e por isso não tenho paciência para aturar pessoas. Mas não, não é por me considerar superior. Também não me considero inferior. Não. Deixei foi de ter paciência para as pequenas guerrilhas diárias. Teorias da conspiração. Políticas manhosas. Falsas. Terrorismo de língua. As palavras começaram a matar. Mudaram-lhes o sentido. Chegámos à novilíngua. E tudo está mal. Tudo está sempre mal. Tudo é horrível. Nós somos maus. A culpa é deles. A culpa é nossa. A culpa é de quem a agarrar. Que importa a culpa, porra? Não é encontrar o culpado que me motiva. É resolver o problema. Superá-lo. Conseguir viver para além dele.
É preciso parar.
É preciso reaprender a respirar.
Peguei em mim. Arrumei as peças de xadrez. O tabuleiro enfeita uma das paredes que estava muito vazia. Demasiado vazia. Eu olhava para aquela parede vazia e via mais do que queria ver. Coloquei lá o tabuleiro de xadrez e o que passei a ver nessa parede foi o tabuleiro de xadrez cujas peças arrumei porque não gosto de jogar sozinho e não tenho adversário para jogar.
Quem sabe onde é que este sítio, onde vivo, fica?
Uso um prato. Um copo. Um talher. Um individual.
As garrafas de gin e as cervejas duram muito mais tempo porque não vem cá ninguém para as beber. O vinho gasto o mesmo. Afinal, já era eu sozinho que dava cabo dele. Como hoje. Bebo o mesmo que bebia. Fumo o mesmo que fumava. Mas tenho os dentes mais brancos. Os dedos não tão amarelos. Cheiro bem menos a tabaco. Passei a ter mais tempo para comigo. Lavo mais vezes os dentes. Lavo mais vezes as mãos. Tomo mais vezes banho. Arejo mais vezes a roupa. Ando mais pela rua. Gosto do alpendre. É a minha divisão preferida da casa. Passo a maior parte do tempo aqui. Posso olhar as montanhas ao fundo. Sei com antecedência quando vai chover ou fazer sol. Vejo quem está ao portão, lá em baixo, na estrada. Posso não abrir. Não fazer barulho. Não estar em casa. Morrer para as pessoas.
Deixei de comprar Ventilan. Deixei de comprar Zolpidem. Respiro melhor. Durmo melhor. Não me zango tanto. Sorrio mais.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/06]

Eu Não Sou Cobarde, Ele É

Eu sou uma personagem de ficção. Sou criado por mim, quer dizer, por ele, ele que é real. Eu não sou real. Sou uma ficção que eu inventei. Ele.
Mas há dias em que vivo as minhas estórias e pergunto-me se as estórias são inventadas para mim ou se foram vividas por ele. Às vezes penso que não passo de uma desculpa para as sua confissões.
Eu percebo-o. Ao escrever, julga-se Deus. Vive estórias que nunca viveria como Juliete Binoche aproximou-se de mim, colocou a mão entre as minhas pernas e sentiu-me o peso, aproximou os seus lábios dos meus e beijou-me. Trincou-me de leve o lábio e chupou o sangue que escorria devagar pelo queixo abaixo.
Eu gosto quando ele me cruza com a Juliete Binoche. As minhas possibilidades são infinitas. As dele. Mas nem todas as estórias são assim, de sexo e desejo, com personagens de sonho. Também há as estórias sombrias. Estórias de morte. E por vezes pergunto-me se sirvo para lhe dar largas à imaginação ou se não estou só a servir de catarse. Eu já matei. Já morri. Já morri inúmeras vezes. Já me matei. Voltei a nascer. Renascer. Voltei a morrer. Às vezes de forma violenta. Às vezes por inércia.
É um desejo que ele tem? Eu tenho?
Às vezes penso que sou só uma desculpa para falar dele próprio e do que o atormenta. Às vezes penso que sou uma terapia. Através de mim, ele pode falar dele. Como se fosse um espelho, reflexo mas outro, uma projecção tornada personagem falsa, uma sombra. Através de mim ele fala da pila. A pila dele? Através de mim ele fala da barriga. Ele é gordo? Ele fuma? Eu passo a vida com um cigarro nas mãos. Um cigarro e um copo de vinho tinto. Ele bebe?
Outras vezes penso que sou uma experiência. Sou uma libertação para ele próprio. Comigo ele experimenta o que não pode experimentar na vida real. Aqui não tem de ser politicamente correcto porque eu sou uma personagem de ficção, reflexo de alguém que não necessariamente ele. Aqui, eu posso ser racista, homossexual, mulher, rico, preto, mau, Deus. Aqui ele pode ser o que ele próprio não pode, não consegue, não quer ser. Aqui ele pode ser o assassino. A vítima. Através de mim ele pode sentir o metal frio a rasgar as entranhas. E podem ser as minhas entranhas. Através de mim ele pode sobreviver às pragas do Egipto. Ou morrer.
Mas divago.
Não lhe conheço a imaginação. Nem a vida dele para além destas páginas.
Acho que afinal era eu que queria ser ele e não o contrário. Acho que eu, personagem de ficção é que gostava de ser ele, personagem real a viver num mundo real. Mundo real talvez bem mais interessante do que os mundos que ele cria.
Acho que podia contar bem melhor que ele algumas das estórias que escreve. Sinto que podia ir bem mais longe. Eu não tenho as amarras dele. Se alguém me perguntasse se era verdade ou mentira o que eu estava a contar, eu podia responder sem me preocupar com reacções. Acho que ele não fala com as pessoas por causa disso. Tem medo de dizer Sim, é verdade! Tem medo de dizer Não, é mentira! É por isso que ele foge das pessoas. No fundo, ele criou-me porque é um cobarde. Eu não. Eu não sou um cobarde. Ele é. Ele é um cobarde.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/05]

O Falhado

Sou um falhado.
Nunca consegui fazer nada que se visse da minha vida. A única coisa que um falhado faz bem é reconhecer outro falhado.
Cruzei-me com ele à entrada do café. Estendi-lhe a mão. Ele estendeu-me a dele. Apertámos. Sacudimos. Então? Como estás? Tudo bem? e as cabeças a acenar que sim, como a cabeça daqueles cães-bonecos que se abanavam nas traseiras dos carros de antigamente quando a auto-estrada começava no Carregado e antes de lá haver Campera e de podermos comprar roupas de marca a preço de saldo, num ritual sem sentido nenhum. Um ritual falso. Um ritual que é só mesmo isso, um ritual oco e mentiroso que se cumpre porque sim. Um automatismo. Na verdade nem eu nem ele queríamos estar ali. Mas estávamos. É o que acontece aos falhados. Estão lá. Estão sempre lá.
E então, dois falhados entram no café.
O que é que faz de mim um falhado? Talvez o nunca ter feito nada de jeito da minha vida. Pelo menos nada que seja traduzível em euros, honrarias e reconhecimentos.
Acabei um curso superior que não me levou para lado nenhum.
Fui abandonado por todas as mulheres que amei.
Fui despedido de todos os empregos onde trabalhei.
Perdi todos os amigos que fiz ao longo da vida.
Não estive presente na morte dos meus pais.
Não estive presente no nascimento dos meus filhos.
Todos os convites que tenho é para fazer algo à borla. Quando há orçamento não é a mim que chamam.
Tenho uma única conta no banco e, invariavelmente, está a zeros.
O meu cão mordeu-me.
O meu gato arranhou-me.
O preservativo estava roto.
Os números da minha chave para o euromilhões são sempre ao lado. Literalmente ao lado. Um número acima ou um número abaixo dos números vencedores.
Nunca ganhei nenhum prémio. Nunca ganhei nenhum concurso.
Nunca recebi nenhum subsídio.
Nunca plantei uma árvore. Nunca escrevi nenhum livro.
Escrevi poemas de merda adolescentes sobre problemas existenciais.
Antigamente era a mim que saía a fava no Bolo-Rei. O brinde, quando me calhava em sorte, ficava preso na garganta e engasgava-me. Ainda bem que os Bolos-Rei deixaram de trazer favas e brindes. De qualquer forma, não gosto de Bolo-Rei. Nunca gostei.
Aposto sempre no cavalo errado.
Todas as empresas que tentei erguer nunca saíram do chão.
Se o Benfica estiver a perder, num jogo que esteja a ver, é só deixar de ver para dar a volta ao marcador.
A canção que mais gosto na Eurovisão nunca ganha.
Nunca consegui comprar um carro e uma casa com uma cerca branca e uma casota para o cão que agora dorme na varanda.
Não tenho onde cair morto.
Sou mesmo um perdedor. Um falhado.
Mas reconheço os que são como eu. Os falhados.
Cruzei-me com ele à entrada do café. Estendi-lhe a mão. Ele estendeu-me a dele. Apertámos. Sacudimos. Então? Como estás? Tudo bem? e reconheci-me nele. Ele era eu antes de eu ser o que sou. Na altura ainda não sabia que era um falhado. Como ele ainda não sabe. Mas virá a saber. Porque vai aprender. Porque lhe vão dizer. Várias vezes. Alguns até lhe vão cuspir na cara És a merda de um falhado! como se fosse uma gripe e um tipo tivesse culpa de ter gripe.
E então, dois falhados entram no café.
Ele foi beber a sua bica. Eu acabei por voltar para trás e ficar na rua a fumar um cigarro e a pensar como a vida nos trucida. Rimos uns para os outros mas sentimos, cá dentro, o azedume que nos consome. Mentimos para que não nos julguem falhados. Rimos. Está tudo bem! Despenteamos o cabelo. Desalinhamos a roupa. Não fazemos a barba. Fumamos um cigarro. Bebemos um copo de vinho tinto. Está sempre tudo bem! Mesmo que estejamos a morrer de fome, com os bolsos cheios de comprimidos e uma navalha afiada.
Eu sou um falhado porque não consigo ser outra coisa. Eu sou um falhado porque não consigo ser um filho-da-puta.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/15]

Companheiros de Armas

Ela andava lá por cima. Em círculos. A planar.
Eu estava cá em baixo. Estava ao fundo da ribanceira, junto à estrada, a fumar um cigarro.
O cão andava comigo. Quer dizer, andava por ali a cirandar. A levantar a perna em tudo o que era sítio e largar uns pingos de mijo. Não sei onde vai arranjar tanto mijo. É que era mesmo em todo o lado. Nas árvores. Nas pedras grandes. No muro. No poste de electricidade. Até nos pneus da motorizada que estava parada lá mais à frente e no reboque que trazia atrelado.
O gato estava em cima do muro. Fingia que não era nada com ele, mas estava atento a tudo. As orelhas estavam sempre levantadas. Olhei para ele, deitado no cimo do muro, como o Humpty-Dumpty, a apanhar aquele sol quente de um falso Inverno. Sempre me fascinou o equilíbrio felino. Conseguem dormir nos sítios mais improváveis em alturas vertiginosas sem temer cair. Melhor ainda, sem cair de facto.
A águia continuava lá em cima no céu incrivelmente azul. Nem uma nuvem. Ela bateu as asas umas duas ou três vezes, naquele fundo croma, e lá continuou. Asas estendidas. Enormes asas estendidas a planar sobre mim.
Baixei a cabeça. Dei uma última passa no cigarro e deixei-o cair no chão. Pisei-o com a ponta da bota.
Senti um ligeiro movimento pelo canto do olho. Vi um vulto a deslocar-se rápido. Levantei a caçadeira. Fechei um olho. Foquei o outro na linha com a mira da arma. Vi o coelho. Tinha parado. Estava a roer qualquer coisa. Uma maçã, talvez. Deitei fora o ar dos pulmões. Fiquei leve. Ouvia o ranger dos dentes do coelho a roer, a roer. Estava focado, pelo meu olhar, na ponta da caçadeira. Puxei o dedo. Disparei. Ouvi o Pam do tiro ecoar à minha volta. O coelho foi projectado um pouco para a frente. Não se mexia. Fui buscá-lo. Fui buscá-lo rápido, antes que aparecesse a polícia. Não era época de caça.
Apanhei-o. Agarrei-o pelas patas traseiras. A caçadeira aberta, pendurada no meu ombro. Voltei para casa. Comecei a subir a ribanceira. O gato saiu do muro e começou a acompanhar-me mas do lado de dentro do mato. À distância. A olhar para mim disfarçadamente, como se eu lhe fosse indiferente. Mas eu sabia que não era. Esbocei um sorriso. Os cabrões dos gatos, pensei.
Virei-me para procurar o cão e vi a águia a descer lá do seu alto majestoso e cair picada sobre a terra, como um foguete, em aceleração e desaparecer entre as árvores.
O cão apareceu ao fundo da ribanceira e começou a correr para me apanhar.
A águia voltou a surgir do meio das árvores. Levava qualquer coisa na boca. Provavelmente um coelho.
Voltei a olhar o gato. Também tinha qualquer coisa na boca. Devia ser um rato.
Companheiros de armas. Vamos todos ter um belo jantar.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/16]

O Pão-de-Alho do Lidl Tem de Ser Aquecido no Forno

Estou a olhar para o forno e estou furioso. Estou a olhar para aquele buraco negro debaixo do fogão que não funciona. Gasto dinheiro a adquirir coisas que depois avariam-se e requerem reparações onerosas. Gasto para as ter e para as manter. A vida é uma bola imparável de gastos. Quantos deles desnecessários?
Estou furioso.
Tinha regressado ao Lidl. Há muito que não ia ao Lidl. Não gosto daquela apresentação em caixotes, tudo aparentemente fora de ordem, coisas misturadas, separadas, sem lógica, sem razão, sem nenhum sentido. Os produtos não estão alinhados. Não sei como é que as pessoas se orientam. Eu não consigo. Aquilo mexe-me com os nervos.
Regressei lá numa tentativa de reviver um certo passado. Fui procurar o pão-de-alho congelado que fizeram as minhas noites de aconchego e felicidade quando chegava tarde e esfomeado a casa depois das loucuras dos fins-de-semana. Também ia à procura de vinho tinto chileno a um euro e meio. O pão encontrei. Ainda existia. O vinho não. E o que havia a um euro e meio tinha um ar tão triste e melancólico, enfiado em rótulos multicoloridos e festivos medonhos que acabaram por me empurrar para a cerveja. E foi o que fiz. Uma embalagem de quinze minis Sagres em promoção – há sempre cerveja em promoção. Não percebo porque é que não é logo objectivamente mais barata.
Cheguei a casa. Um jantar simples. Uma ideia simples. Arrefecer as minis no congelador. Aquecer o pão no forno. E degustar o pão-de-alho frente à televisão a ver as últimas notícias sobre as medidas de coação aplicadas ao antigo presidente do Sporting e ao líder da principal claque do clube.
Coloquei cinco minis no congelador e as outras no frigorífico.
Liguei o forno. Mas o forno não ligou. Liguei e desliguei várias vezes. Nada. Insisti. Continuou tudo morto. Experimentei tirar o manípulo. Abri o forno. Liguei a luz do telemóvel e olhei lá para dentro. Não percebo nada daquilo. Não estava a funcionar.
Fiquei furioso.
Estou furioso.
Acabei por aquecer o pão-de-alho no micro-ondas. Abri uma mini. Bebi-a. Bebi uma segunda. Trinquei o pão-de-alho. Era borracha. Plástico. Rijo. Mole, mas rijo. Sem sabor. Falso. Uma espécie de sucedâneo. Aquele pão não foi feito para o micro-ondas. Foi feito para o forno. Mas tenho o forno avariado
Que porra! Estou furioso.
Bebo mais uma mini. E vai ser este o meu jantar. Minis. O pão-de-alho foi para o caixote de lixo. Tenho saudades do vinho tinto chileno a um euro e meio. Também comia um queijinho.
Esqueci as notícias. Estou a olhar para o forno morto.
Foda-se! Que vida triste.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/15]

Lá Vão os Meus Amores

O dia acorda amargo. A noite adormece azeda.
Entre uma coisa e outra mal tenho tempo para chorar a perda.
Abro a janela e está um sol tímido. Não está frio. Mas não está calor. Há um ligeiro vento que abana as ramagens aqui em frente e produz sombras que me assombram a casa. Não está cá ninguém. Mas parece. Parece que quem falta anda por cá à solta, a fazer cabriolices. As cabriolices que não vi. Que nunca vi.
A casa está vazia. Sinto-a desconfortável. Demasiado grande para quem está sozinho. Mas tenho muitos fantasmas para abrigar. Deixo-os por lá. Eu saio. Eu saio sempre. Saio a correr antes que fique lá preso a memórias que já não sei se são reais ou inventadas.
Podemos inventar um passado?
Pego no carro e vou até à praia. No caminho telefono para o trabalho. O que digo? A verdade? A verdade não interessa. Não importa. Estou doente. Dói-me a barriga. Vomitei. É suficiente. Plausível. Falso, mas verosímil.
Que importa as dores da alma? Que importa o vazio que se instala cá por dentro e não me deixa respirar. E me obriga a dobrar o corpo à procura de força. Eu perdi. Eu perdi-os lá para trás. E é já tarde.
Não está ninguém na praia. Só eu e as gaivotas.
O mar está calmo. Não fosse o frio e deixava-me mergulhar.
Que se foda o frio.
Arranco as sapatilhas. Puxo a camisola pela cabeça. Largo as calças na areia. Os boxers ficam a meio caminho. Não sei o que fiz às meias, mas tinha umas calçadas. Os óculos ficaram dentro das sapatilhas. O telemóvel também. O relógio vai aqui comigo. Preso no pulso onde o meu pai o prendeu. Um dia terá outro destinatário. Um dia também o irei colocar num outro pulso. Mas agora mergulha comigo. Agora leva-me debaixo das ondas frias de Outubro como se fosse o meu Agosto particular sem mais ninguém a não ser eu. Dou cinquenta braçadas em frente. Regresso noutras cinquenta.
Cá fora está vento. Um vento frio.
Agarro na roupa e entro nu no carro. Ligo o ar-condicionado e deixo-me secar. Aquecer. Visto-me.
Regresso a casa.
Não me apetece ir trabalhar. Não tenho fome.
Agarro em Life? or Theatre? – A Selection of 450 Gouaches de Charlotte Salomon. Abro ao acaso. Uma pintura de uma mulher (ou um homem?) à janela, de costas para mim, a olhar ao fundo, o quê?, duas crianças, e diz qualquer coisa de intraduzivelmente alemão. Mas a tradução em inglês ajuda-me There goes my loved ones, and no one cares about me.
There goes my loved ones.
There goes my loved ones.
There goes my loved ones, and no one cares about me.
E sei que a culpa é minha. E sinto-me azedo. E já é noite. E deito-me. E espero que a noite dure a eternidade e eu esqueça tudo o que sei e não quero mais saber e quero é esquecer e já não ser mais eu nem mais nada e nem pensar nem saber nem escrever nem nada nem…

[escrito directamente no facebook em 2018/10/10]