No Silêncio de uma Tarde de Domingo em Agosto

Estou no quarto, sentado na cama, com o iPad nas mãos. Estou farto das mesmas notícias. Farto dos incêndios no Brasil e na Sibéria. Farto do degelo no Árctico e na Gronelândia. Farto das birras de um idiota. Farto da estupidez do outro idiota. Farto das palhaçadas de mais um idiota. Farto do autoritarismo do mesmo idiota de sempre. Farto de Hong Kong. Da greve. Do mar frio no Algarve e quente na Nazaré. Farto da derrota do Benfica. E das petições no Facebook. Fecho o iPad e saio do quarto.
Passo na casa-de-banho e desligo o rádio. A hi-fi na sala. A televisão na cozinha, que está a transmitir para o boneco. Abro a porta para a rua e deixo-me envolver por aquele bafo quente que vem lá de fora.
Respiro fundo e saio para o alpendre. Desço as escadas e vou à pereira. Apanho uma pêra da árvore. Está madura. Rija mas madura. Limpo-a à camisola. Trinco-a. Volto para o alpendre.
Sento-me na cadeira a olhar lá para longe, para as montanhas.
É Domingo.
A casa está agora no silêncio. Ou quase. Ainda ouço o barulho do frigorífico a trabalhar. Ouço a minha boca a triturar a pêra.
Apuro os ouvidos para os sons que me cercam.
Ouço as galinhas nas traseiras da casa. Anda o cocó a querer saltar-lhes para cima. Por isso é que as ouço. Estão a fugir dele. Toda a gente foge do cocó. Até eu. O cocó só quer foder as galinhas.
Ao fundo, vindo de uma quinta lá de baixo, o latido de um cão. Algum estranho que passa do outro lado da vedação.
As cigarras em coro.
Não ouço os gatos. Um deles está deitado aqui ao meu lado. Nem lhe ouço a respiração. Não vejo o cão. Não responde ao outro que ainda ouço a latir.
Agora, percebo o moinho de vento do vizinho. Tac-tac-tac-tac. O moinho de vento no alto da chaminé.
Acabo de comer a pêra. Lanço o caroço para o meio do jardim. Acendo um cigarro.
Hoje não há morteiros. Se calhar não há festas. Já acabaram as festas de Agosto?
Há uns anos eram os anos do Sasha Summer Fest. O que lhe terá acontecido?
Hoje também há umas festas de Verão, mas diferentes. São festas de fim-de-dia, do lusco-fusco, disto e daquilo. Felizmente, longe daqui. Aqui não ouço essas músicas lúdicas à procura de criar um ambiente zen.
Será que acabaram as festas de Agosto?
Passa um carro lá em baixo, na estrada. É o primeiro carro que ouço passar em muito tempo. Está calor. As pessoas devem estar na praia. Debaixo de alguma árvore a piquenicar. A dormir a sesta. A fumar uma ganza. Gosto de árvores. Gosto da minha pereira.
E, então, ela chega. Traz uma pequena bandeja com uma tigela de fisális, uma garrafa de Alvarinho e dois copos de vidro.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/25]

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Alguém Tem de Fazer Alguma Coisa

Eu vi-as chegar. Chegaram devagar. Foram chegando devagar mas, mal chegaram, instalaram-se e não foram mais embora. Cobriram tudo e trouxeram o medo.
Estava no alpendre a ler, pela enésima vez, O Segredo do Espadão, das Aventuras de Blake e Mortimer, a fabulosa série de banda-desenhada de Edgar P. Jacobs. Bebia um gin. Fumava um cigarro. E, de repente, comecei a perder leitura. A luz a ir embora. Eram três da tarde. Olhei para o céu e, ao fundo, umas nuvens escuras a cobrirem o céu e a taparem o caminho à luz do sol.
Pensei Vem aí temporal.
Pousei o livro. Levantei-me e cheguei-me à frente no alpendre. Olhei com mais atenção. Não pareciam nuvens de tempestade. O ar estava abafado. Sentia-se cheiro a queimado. Como porco no espeto.
Pensei São os chineses. Vêm aí os chineses.
Entrei dentro de casa. Voltei a sair. Agarrei n’ O Segredo do Espadão e levei-o para dentro de casa. Arrumei-o. Fui ao fundo do armário do meu quarto buscar a caçadeira. Agarrei nuns cartuchos e voltei ao alpendre. Liguei o iPad à procura de notícias. Liguei a TSF. Nada. Facebook. Fiz scroll. Comecei a encontrar umas notícias partilhadas de um enorme incêndio a lavrar na Amazónia.
Pensei O que é que isto tem a ver com aquilo?
As nuvens já estavam quase por cima de mim. A cobrir o céu. A cobrir-me a cabeça. Eu estava ali, no alpendre, com a caçadeira nas mãos, à espera dos chineses quando percebi que não eram os chineses.
Pensei São os brasileiros, porra! Como raio é que estas nuvens chegaram aqui?
A luz do dia desaparecera por completo. O dia fez-se noite. O céu coberto por nuvens de fumo pretas. Um cheiro incrível a queimado.
Entrei para dentro de casa. Fechei tudo. Portas e janelas. Liguei a televisão. Nada. A greve às horas-extra. Pedro Pardal no PDR por Lisboa, nas legislativas. Bas Dost e o Sporting. O clássico Benfica – Porto no Sábado. Mais nada. Nada sobre a noite comer o dia. O mundo ter enegrecido. E o Brasil ter ensandecido.
Peguei no iPad. Voltei às redes sociais. Ali, toda a gente comentava. E finalmente percebi. A Amazónia estava toda a arder. Atearam fogo à Amazónia para vender a madeira e aumentar o pasto para o gado. É a economia, estúpido.
Enquanto o mundo corria para o seu apocalipse na mão de idiotas demasiado estúpidos para perceber os erros que estavam a cometer, a outra mão, supostamente mais ponderada e inteligente, não estava a fazer nada. Estava perdida na sua própria inércia, motivada pela ideologia, economia, medo, diplomacia e, acima de tudo, não ingerência num país estrangeiro. Sem perceberem que éramos nós. A Amazónia éramos nós.
Ao fim de três dias de noite escura e cerrada, ninguém parecia ainda ter tomado alguma decisão que fosse para pôr termo ao que parecia a morte da floresta amazónica.
Então, eu peguei na caçadeira. Em várias caixas com cartuchos. Arranjei um farnel. Um naco de pão do Soutocico, Um bocado de queijo da ilha. Um chourição. Três maçãs e quatro laranjas. E uma garrafa da Cooperativa de Reguengos. Enfiei tudo numa mochila. A caçadeira na mão. Peguei no carro e fui até à Nazaré.
Entrei pelo porto dentro. Ninguém me impediu. Encontrei uma traineira. Subi à cabina. Liguei o motor. Saí do porto.
Pensei Em frente é para a América. Para sul, chego ao Brasil. Alguém tem de fazer alguma coisa.
Ando há umas horas no mar. Não vejo grande coisa mas, se continuar a direito, vou lá dar. Alguém tem de fazer alguma coisa.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/21]

No Vale Furado

Desci ao Vale Furado. Era Domingo. Dia de descanso. Estava calor. Fui à praia. Ao Vale Furado.
Cá de cima olhei lá para baixo e suspirei. A praia é muito boa mas, o que tenho de descer e, mais tarde, subir, é um drama. A praia do Vale Furado fica lá em baixo, a meio caminho do Inferno. A descer pequenos degraus feitos na encosta. Alguns em cimento. Passamos por casas construídas, sabe-se lá como, naquelas encostas íngremes que o fogo já beijou há dois anos. Mas ainda por lá se vêm os restos do incêndio. Um verde que não regressou. Árvores carbonizadas nunca cortadas. Mas o que impressiona mais são mesmo as falésias. O Vale Furado fica lá em baixo. Espreito do pequeno e arcaico miradouro para a quantidade de gente que se espalha ao longo de uma praia que é pequena junto às arribas, junto ao caminho vencido ao penhasco para acesso, mas que depois ganha toda a dimensão até à Praia do Norte onde os surfistas arriscam a vida a desafiar Deus.
Suspirei fundo. Suspiro fundo sempre que desço ao Vale Furado ao pensar no que vou ter de subir no regresso. Dou uma olhada ao Mad e penso que, no regresso, irei lá beber uma cerveja, comer uns tremoços e recuperar as forças gastas a subir desde lá do fundo.
Desci. Estendi a toalha. Fui ao mar. Mergulhei. A água estava boa. Fria como sempre. A costa Atlântica nunca me deixa ficar mal. A água do mar está sempre fria. Sinto-a nos ossos, mas gosto. Gosto de a sentir a fustigar-me. Regressei à toalha. Estendi-me ao sol. Primeiro de costas. Depois de frente. E, cada vez que secava, repetia a operação. Mergulho. Duas ou três braçadas. Regresso ao bronze. Por vezes dormito. Ouço as vozes da praia muito ao longe, quase um embalo. Ali nunca há muita confusão. Mesmo quando está cheia, como hoje. Para ali vai gente que procura algum recato. Alguma calma. Alguma tranquilidade. Mas há famílias. Às vezes até cães. Mas não há música. Ali consegue-se ouvir o barulho das ondas a bater na areia. E sinto-as subir, lentamente, até me baterem nos pés e obrigarem-me a chegar um pouco mais para cima na areia.
Era já final de dia. Estava na hora de ir embora. A cerveja estava à minha espera no Mad. Deitado de costas, encolhi o corpo para despir os calções molhados, com que tinha ido ao banho, para vestir uns calções secos. E senti. Quando encolhi as pernas para despir os calções e ficar nu, ali no momento imediatamente antes de conseguir enfiar os calções secos, senti o estalo. Parecia uma pancada seca. Algo acontecera nas minhas costas. Uma dor horrível fez-me gritar Foda-se! em altos berros. Fiquei assim encolhido, nu, com os calções secos na mão, sem me conseguir mexer.
Fui esticando, devagar, as pernas até ficar estendido na toalha. Mas estava cheio de dores. Pedi ajuda, ao lado, para vestir os calções. Voltei a pedir ajuda para me levantar. Foi muito difícil, levantar-me da toalha. Não me consegui baixar para a apanhar e sacudir. Tive de voltar a pedir ajuda. Não conseguia apanhar a toalha nem os chinelos.
Comecei a caminhar devagar ao longo da areia para junto do sopé da encosta. Mas as dores eram imensas. Eu estava vergado sobre mim. Levava uma mão nos ombros dela. O meu peso sobre os ombros frágeis dela. E disse Não posso continuar. E deixei-me cair devagar na areia. Fiquei de joelhos. Dobrado. Não conseguia virar-me. Não conseguia sentar-me.
Ela foi pedir ajuda aos nadadores-salvadores da praia. Eles vieram, solícitos. Tentaram levantar-me. Um de cada lado. Mas eu não conseguia erguer o corpo. Voltaram a deixar-me no chão. De novo de joelhos. Dobrado sobre mim. Os nadadores-salvadores chamaram os bombeiros. Estavam numa praia ali perto e não demoraram a chegar. Mas não conseguiram melhor. Era impossível levarem-me de maca a subir aquele penhasco do Vale Furado. Demasiado íngreme. Demasiado longo. Demasiadas voltas e curvas e curvinhas. Troços muito estreitos.
Os bombeiros sugeriram um helicóptero.
A noite estava a chegar. Eu sentia-me nervoso. Cheio de dores. Queria fumar um cigarro. Queria beber uma cerveja no Mad. Queria ir para casa tomar um banho de água doce e quente. Queria sentar-me no sofá a ver o Trio de Ataque. Queria não estar ali.
A verdade é que não havia grandes soluções. Ainda pensaram fazer-me subir de maca por um guindaste. Um bombeiro sugeriu subir comigo às costas. Mas todas as soluções não eram de facto solução. Era impossível levarem-me lá para cima da maneira como eu estava. E como é que eu estava? Nem sei bem. Estava cheio de dores nas costas, mas ela passava as mãos nas minhas costas e eu não sentia nada. Não conseguia sentir onde é que me doía. Como se fosse uma dor interior. À qual não se conseguia ter acesso. Nem conseguia perceber se era uma dor nos ossos ou nos músculos. Era ali, naquela zona, e doía-me horrores. E eu continuava de joelhos na areia, dobrado sobre mim.
O sol já tinha morrido no horizonte, há já algum tempo, quando, finalmente, se arranjou um helicóptero disponível. Estavam todos a combater os incêndios na zona de Vila do Rei, mas um helicóptero teve de ir a Lisboa e fez um desvio para me acudir.
Fui levantado numa maca para dentro do helicóptero que ficou a pairar lá em cima, por cima da praia do Vale Furado.
Enquanto era puxado só pensava na dor de costas e nem aproveitei para apreciar a paisagem. Mais tarde, depois de tudo passado, iria com certeza ficar irritado comigo por não ter olhado o mar, o horizonte quase a desaparecer na escuridão da noite, o manto das estrelas, as poucas casas nas arribas do Vale Furado e o Mad visto do ar, naquela que seria uma ocasião única. Não, naquele momento só conseguia estar de olhos fechados a pensar no quanto me doíam as costas e que não tinha posição confortável. Até deitado estava desconfortável. E ia amarrado. Detesto sentir-me amarrado. Detesto sentir-me com dores e amarrado e não poder mexer-me e tentar descobrir uma posição mais confortável.
Dentro do helicóptero senti-o a deslocar-se no ar. Ouvi o barulho das hélices a girar com toda a força. Aquilo é uma máquina impressionante.
Fui trazido ao hospital de Santo André.
Lembro-me ainda de ter aterrado no heliporto do hospital de Leiria. Depois devo ter adormecido. Não sei o que se passou. Está tudo em branco.
Acordei horas mais tarde.
Estou deitado numa cama especial de barriga para baixo. Há um buraco onde tenho enfiada a cara. A cabeça está presa. Não me mexo. Ao fundo, à frente da minha cara, tenho o iPad. Falo com a SIRI. E começo a ditar-lhe uma história para publicar no Facebook e, mais tarde, no blog Estórias da Violência. E começo assim Desci ao Vale Furado. Era Domingo. Dia de descanso. Estava calor. Fui à praia. Ao Vale Furado.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/21]

Sentei-me no Sofá e Deixei-me Ir

Era um dia cinzento e chuvoso de Verão, o dia em que morri.
Não tive uma morte gloriosa, simplesmente deixei-me ir.
O dia tinha amanhecido cinzento. A meio da manhã começou a chover. Uma chuva miudinha, chata.
Levantei-me, sem vontade, da cama. Arrastei-me até ao sofá. Sentia-me cansado.
Ouvia, ao fundo da rua, os cães a rosnar. Estavam de volta dos caixotes de lixo do supermercado. Lutavam por comida. Andavam magros, os cães aqui da rua. Sentia-os nervosos. Agora ouvia-os a rosnar.
Sentei-me no sofá.
Tentei pensar em qualquer coisa. Tinha a cabeça em branco. Melhor, em cinzento. Não conseguia pensar em nada. Fiz um esforço. Precisava de despertar. Sentia que precisava de me afirmar vivo. Com gana.
Os cães continuavam a rosnar. Lá ao fundo da rua.
Hoje, toda a gente é história. Nos livros do futuro virão loas às equipas de futebol. Às equipas inteiras. Do treinador ao responsável pelo guarda-roupa. Porque a parte faz o todo. E são todos vencedores e especiais. Com destaque para os destaques. Os craques terão uma caixa especial. Debruada a ouro. Nos livros do futuro virão os políticos. Os bons e os maus. Especialmente os maus que as más decisões terão maiores consequências nas vidas de todos os dias e irão ter efeitos bem mais duradouros. Nos livros do futuro virão também os artistas todos. Os cineastas. Os músicos. Os escritores. Os influenciadores. Os instagramers. Os youtubers. As personalidades da televisão, da rádio e da internet. Os actores de cinema, de teatro e de televisão. Os declamadores e os comediantes. Os entrevistadores. Os entrevistados. Os turistas. Os agentes do Alojamento Local, a grande democratização das viagens. Os taxistas e os uberistas. Os pais e as mães. Todos eles especiais. E os príncipes e as princesas desses pais e dessas mães. Todos os filhos príncipes e filhas princesas que poderão ser o que quiserem, basta quererem, que a história há-de tratar de os reverenciar.
Ainda bem que a memória RAM veio ocupar o espaço da massa cinzenta tão em desuso. Já não será preciso decorar tudo isto para os exames escolares, para a vida social-digital do Facebook e do Tinder, para a vida de todos os dias. Bastará googlar e a informação pertinente estará ali, na palma da mão, à beira da vista. Será só colher. Como uma verruga na ponta do nariz de uma bruxa de Salém.
Toda a gente fará parte da história. Da história moderna do Homem. Toda a gente menos eu.
Eu deixei-me ficar parado. Deixei-me ficar parado em casa. Agoniado com tanta e tão grande conta do Homem especial.
Os cães aproximavam-se de casa. Agora lutavam entre eles. Percebia-se bem. O rosnar era outro. Percebia-se que havia bocas ferradas em carne viva que estrebuchava. Havia cães a ganir. Ouvia inúmeros passos a correr no asfalto. Fugiam uns dos outros.
Eu não era ninguém. Nem queria ser ninguém. Nunca fui especial. Nem nunca o desejei ser. Queria só estar ali. Colocar um pé a seguir ao outro. Tonificar com o sol. Florir com a chuva. Mergulhar no mar. Rebolar na relva. Beijar as mulheres e os homens. Passear no Outono. Dormir no Inverno. Cantar na Primavera. Dançar no Verão.
Mas não. Tinha de ter uma casa. Um carro. Um cão. Um emprego. Uma conta no banco. Seguros vários. Estar inscrito na Segurança Social. Ter um nome e um número de identificação pessoal. Tirar férias. Comprar coisas. Muitas coisas. Coisas várias. Ter mulher. Ter mulheres. Várias. E filhos. Muitos. E acreditar em Deus. Ter uma religião e orar. Votar.
E achar que a vida era uma dádiva.
Parei.
Morri.
Não foi uma morte glamorosa nem com honra. Não fui morto na ponta de uma baioneta. Nem a defender ninguém. Nem a lutar por nada. Nem sequer a defender os cães esganados de fome que tentavam sobreviver lá em baixo na rua.
Só morri. Num dia cinzento e chuvoso de Verão. Estava calor. Um pouco abafado. Comecei a ouvir tiros. Os cães ganiam. Ganiam todos. Até deixarem de ganir. E já não haver cães. Agora não havia cães vencedores. Agora os cães estavam a sucumbir aos tiros de espingarda disparados das janelas altas dos prédios urbanos. Os cães mais raivosos matam os cães mais inocentes.
Eu sentei-me no sofá e deixei-me ir.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/02]

Estou à Espera

Estou à espera.
Estou de cigarro na mão à espera.
Estou sentado no sofá. Ouve-se o som fanhoso vindo do rádio FM que está na cozinha. É o rádio do pequeno-almoço. O rádio que utilizo quando estou a tomar o pequeno-almoço, de manhãzinha, para ir sabendo das notícias do dia.
Chego-me à frente e deposito a cinza no cinzeiro.
Ela está ao meu lado, no sofá. Está de telemóvel na mão. Provavelmente a navegar no Facebook.
Estamos calados. Não estamos chateados. Estamos só calados. Estamos bem os dois, em silêncio. Não temos de estar sempre a conversar. Conversamos quando temos o que dizer.
Estamos os dois em silêncio. Eu, estou à espera de cigarro na mão. Ela espera comigo, enquanto navega pelas redes sociais. Pelo menos é o que me parece. Não vou espreitar. Eu não tenho necessidade de ir espreitar. E ela não tem necessidade de me mostrar. Temos confiança um no outro. Aliás, mais que confiança. Nem sequer equacionamos isso.
Ouço, por cima do som fanhoso que sai do rádio FM, o som de um carro que se aproxima da casa. Tomo atenção. Procuro perceber se vem para cá. Mas não. Segue em frente. Desaparece. Fica só o som solitário do rádio FM.
Acabo o cigarro. Chego-me outra vez à frente e apago-o no cinzeiro.
Acendo outro.
Ela olha para mim. Coloca a mão na minha perna. Percebe que estou um pouco impaciente e tenta acalmar-me. Eu olho para ela. Ela sorri-me.
Recosto-me no sofá. Olho para a televisão desligada. Olho para o crucifixo com um Jesus loiro, com uma coroa de espinhos, que está pendurado na parede por cima da televisão. Eram restos da vida da minha mãe. Restos que deixei que entrassem pela minha vida dentro. Não me incomodam. Ou incomodava-me mais alterar estes restos da sua passagem.
Olho lá mais em cima, para o tecto, para as sancas. Olho para a esquina do tecto. E vejo uma aranha. Uma aranha que está a construir uma teia. Aquela aranha está por ali há já bastante tempo. Nunca a tirei de lá. Ela também não. E vai continuar por lá.
Vejo o jarro em cima da mesa. Tem o resto de umas flores. Não sei que flores são. Nunca soube o nome das flores. Só das Rosas. E estas não são Rosas. Mas devem estar a morrer. Há pétalas caídas à volta do jarro. As flores já não têm quase pétalas. Já não têm folhas. Mas o jarro ainda tem água. Acho que morreram, as flores.
Há um livro caído na mesa. Ao lado do jarro. Tento ver que livro é aquele. Não é meu. Não sou eu que o ando a ler. Deve ser dela. Que livro é? Tento focar as letras da lombada, mas tudo o que vejo é um borrão. Ainda me viro para ela para lhe perguntar o que é que anda a ler. Mas já não vou a tempo.
A campainha da porta toca.
Nem me apercebi que vinha lá alguém. Nem me apercebi da chegada de algum carro. Mas há alguém à porta. Alguém que toca a campainha. Eu não me mexo. Ela olha para mim. Sabe que sou eu que tenho de ir à porta. Sabe que é a mim que procuram. Sabe que é a mim que vêm buscar.
Eu olho para ela. Há uma despedida neste olhar. Sei que ela o vê.
Apago o cigarro no cinzeiro. Levanto-me. Caminho para a porta. Ouço-a levantar-se atrás de mim. Ouço-a caminhar atrás de mim. Abro a porta. Estão dois polícias à entrada de casa. Viro-me para ela. Ela abraça-me. Dá-me um beijo. Eu não consigo evitar um soluço.
Um dos polícias tem umas algemas nas mãos. Eu largo-a e estendo as mãos ao polícia. E deixo-me ser conduzido por eles.
E enquanto vamos pelo caminho até ao carro da polícia, ouço a porta de casa a fechar-se nas minhas costas.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/04]

Em Estágio

Entrei em estágio. Estou a vinte e quatro horas do último jogo do campeonato e entrei em estágio. Estou preparado para o que aí vem.
Sentei-me no sofá. Estou em frente à televisão. Agora está desligada porque não quero desconcentrar-me. Estou focado no jogo. No último jogo do campeonato. No jogo que pode definir o título.
Fui à Nazaré comprar tremoços. Subi a São Pedro de Moel para comprar pevides. Fui ainda um pouco mais acima, à Figueira da Foz, para comprar uns camarõezinhos. No regresso a casa passei pelo Modelo-Continente e comprei uma grade de minis Sagres. Um volume de Marlboro Soft Pack. E gasolina para o Zippo.
Vesti a minha camisola imitação dos anos ’60. Encarnada. Debruada, na gola e nas mangas, a branco. De algodão. Com o emblema cosido à esquerda, sobre o coração.
Estou sentado no sofá. A televisão desligada à minha frente. Bebo um copo de vinho. A cerveja é para amanhã. Fumo um cigarro.
Penso que ainda faltam vinte e três horas para o jogo. Queria ligar a televisão, para ver o que se passa. Mas não quero condicionar a vontade. Não quero ouvir as especulações. Não quero perceber o nojo. Mas estou a ficar cansado de estar aqui fechado dentro de casa. A olhar para nada. Penso em ir até à rua, mas tenho medo que me aconteça alguma coisa. Pode cair-me um raio em cima. Uma marquise pode despenhar-se sobre mim. Um cão pode morder-me. E pode estar com raiva. Pode chegar uma nave extraterrestre e levar-me para fazerem experiências.
Não!
Fico aqui. Se calhar ainda faço uma cafeteira de café. Para ajudar a passar a noite. É isso! Vou fazer café! Não posso adormecer. Posso não acordar. Não posso correr o risco de não acordar. Pode dar-me o badagaio durante o sono. Um ataque cardíaco. Um AVC. Não posso correr o risco. Tenho de estar acordado. Para chamar um médico. Ou o INEM. Se fôr caso disso. Espero que não. Mas tenho de estar atento. Acordado.
Desligo o telemóvel para não me interromperem. Se liga alguém de um Call Center? Para mudar a rede do telemóvel? Para mudar o cabo? Não, o cabo não que não tenho cabo. Para mudar a rede de internet? A internet! Tenho de desligar a internet para não me pôr a interagir no Facebook, no Twitter, no Intagram, no Tinder. Não quero desconcentrar-me. Quero estar atento. Quero estar atento ao último jogo do campeonato.
Faltam pouco mais de vinte e duas horas. Estou em pulgas. Estou nervoso.
Porra! Não posso desligar a internet. A minha televisão só funciona com internet. Não tenho cabo. Só internet. Vou voltar a ligar.
Estes dias são muito complicados. Demasiadas exigências.
Bebo outro copo de vinho. Fumo outro cigarro.
Apetecia-me ler um livro. Mas não consigo. Estou demasiado excitado. Não conseguia focar-me nas letras. Abro a boca. Bocejo. Mau! Estou com sono. Ora bolas!…

Abro um olho. Depois o outro. Lá fora é dia. Foda-se! Deixei-me adormecer. Que horas são? Olho para o telemóvel. Está desligado. Olho para a televisão. Não tem horas. Levanto-me. O corpo estala. Parece que os ossos se desmontam. Vou à cozinha. Olho para a porta do forno. Faltam pouco mais de dez horas. Aproveito para beber um café. Ponho uma caneca a aquecer no micro-ondas. Levo a caneca de regresso para a sala. Sento-me de novo frente à televisão desligada. Tenho de decidir a que horas a ligo. Mas ainda há tempo. Ainda é cedo. Acendo um cigarro. Levanto-me a abro a janela da sala. Olho para a rua. É incrível como as pessoas continuam nas suas vidas sem se aperceber da importância deste dia. Sem se aperceberem que o último jogo do campeonato está quase a começar. Com o podem ser tão alheadas?
Mando a beata do cigarro para a rua. Regresso ao sofá. Olho as pevides e os tremoços na mesa de apoio. Pergunto E os camarõezinhos da Figueira? E de repente lembro-me Ah! Estão no frigorífico. Com as minis. A minha perna começa a bater no chão. Com um ritmo rápido. Estou nervoso. O estágio deixa-me nervoso.
Nunca mais começa o jogo?

[escrito directamente no facebook em 2019/05/17]

O Meu Andreas Gursky na Nazaré

Fui à Nazaré. Fui à Batel. Queria uma sardinha. Não havia.
Foda-se!
Ir de propósito à Nazaré para comer uma sardinha na Batel e não haver, é como ir à Praia do Norte e não ver surfistas enrolados nas ondas.
Sentei-me na esplanada da nova Batel, ali na marginal, junto à praia – acabaram com as duas outras antigas e abriram agora esta, num espaço que já existia e que era outra pastelaria, mas não era Batel. Sentei-me a olhar a praia. A calçada da marginal, a areia, o mar, o céu cinzento. Parecia estar frente a uma fotografia de Andreas Gursky, mas em real, não em papel. Não em revista. Não pendurada numa parede qualquer de um tipo com dinheiro suficiente para poder pagar estas fotografias com grife. Tirei a máquina. Apontei. Registei. Esta não seria do Gursky. Esta era minha. Lanceia-a para o Facebook. Para garantir autoria. Para ser real.
Ao lado, na esplanada ao lado, na esplanada do Irish Pub, um gajo não se calava. Nem me deixava saborear aquele fim-de-tarde de um Inverno cinzento e chuvoso na praia. Era um daqueles gajos que falava para a plateia. Falava para impressionar a miúda com quem estava. Queria concentrar-me na paisagem que se me abria e não conseguia bloquear a voz do tipo. Nem sei o que dizia. Era daquelas vozes que se impunham pelo timbre e pelo volume, bloqueavam tudo o resto, mas depois não deixavam nada. Nada. Mesmo que eu quisesse explicar sobre o que versava aquela conversa de engate com a miúda na mesa da esplanada do Irish Pub, não me lembrava. Era uma conversa sem história. Mas perturbava o momento.
Ainda cheguei a pensar levantar-me, dirigir-me à esplanada onde o tipo estava, à mesa onde dançava obscenamente palavras para a miúda e despejar-lhe a pint para cima das calças. E depois lembrei-me Estamos a entrar na semana Santa!
Recordei as aulas de Religião e Moral do colégio. Lembrei-me da Semana Santa que antecedia a Páscoa. Lembrei-me da Sexta-feira Santa, a morte de Cristo e o dia em que a minha mãe não nos deixava comer carne. Lembrei-me de todas as vezes em que comi sandes de fiambre sem pensar que o fiambre também é carne. E pensei É por isso que a minha vida é tão merdosa! É esta a vingança de Deus? Sacana!
E não me levantei. Não despejei a pint sobre o tipo de voz teatral a engatar miúdas impressionáveis. A minha foto não é tão boa quanto a do Andreas Gursky. Mas a Nazaré ainda é a Nazaré. E ainda tenho muito tempo até à asneira de Sexta-feira Santa, vésperas da ressurreição.
E pus-me a contar o dinheiro que tinha no bolso para ver se conseguia ir jantar à Celeste.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/13]