Cai a Noite

Cai a noite e caem outras coisas. Às vezes uma mosca na sopa, no tempo em que ainda não tinha mosquiteiros nas janelas. Outras vezes a moeda no parquímetro a que não se pode fugir na voragem da cidade. Também caem as velhas na descida do seminário em dias de chuva e calçada portuguesa escorregadia.
Hoje caiu a Juliette Gréco. Todos caímos, mais dia menos dia.
Cai a noite e eu regresso a mais uma viagem. Mais uma viagem num autocarro expresso que de expresso, lá está , tem pouco. São várias as paragens que irá fazer antes da minha. Continuo apertado numa cadeira que não foi feita para mim.
Tenho fome. Alguém vai a comer um pão com chouriço e o cheiro invade o autocarro e desperta-me a vontade de comer. Comia qualquer coisa. Uma bifana grelhada com dois riscos de mostarda. Uma tosta de atum com tomate. Um hambúrguer de beterraba e lentilhas. Não posso pensar mais em comida que já estou a salivar. Olho para o interior da camioneta à procura da sandes de chouriço. Não vejo nada. É noite. O autocarro tem uma iluminação que me faz lembrar o Rainho em Amor, quando lá ia ver as strips e tinha de fugir dos gajos de revólver no cós das calças de fato-de-treino.
Cai a noite a cai-me também a cabeça. Não tenho luz para ler. Mas acho que também não conseguia ler. Ando preguiçoso. Cai-me a cabeça sobre o peito.
Sonho.
Sonho com uma queda de bicicleta. Uma queda que dei há muitos anos. Caí de um pequeno muro abaixo. Entortei o guiador. Parti o quadro da bicicleta. A corrente soltou-se. Fiz feridas na testa, na palma das mãos e num joelho. O joelho foi o que deitou mais sangue. Um vizinha viu e foi ter comigo. Chupou-me o sangue do joelho. Eu tinha doze anos. Ela tinha dezasseis. Às vezes lembro-me disto. Às vezes lembro-me dela a lamber-me a ferida e a chupar o sangue. Mas já não recordo a cara dela. Já não recordo a voz dela. Tudo o que recordo é ela a chupar-me o sangue do joelho. Está sempre de costas. Vejo-lhe o longo cabelo louro. Mas é tudo. De todas as vezes pergunto-me o que será feito dela?
Cai a noite e eu com ela.
O autocarro chega finalmente à minha paragem. Sou acordado pelo cheiro característico da minha cidade. Pelo silêncio nocturno. O silêncio de uma cidade que maltrata a noite.
Há muitas quedas, à noite.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/23]

Uma História Efémera

Eu tinha dezasseis anos. Ela também. Eu ia de férias para a Zambujeira. Ela também. Eu apanhei o expresso da Rodoviária, na Avenida Heróis de Angola. Ela também. Eu ia sentado ao lado dela. Ela ia sentada ao meu lado.
Chegámos à Zambujeira, os dois ao mesmo tempo. Montámos os dois a canadiana. Depois vesti os calções de banho. Ela vestiu o biquíni. Eu fui para a praia. Ela também. Eu corri de mão dada com ela para o mar. Ela correu de mão dada comigo para o mar. Mergulhámos os dois de mãos dadas. Ela acabou a beber um pirolito. Eu ri-me.
Passámos o resto do dia entre a toalha, estendidos ao sol, e o mar frio do Atlântico. Eu fiquei vermelho. Ela ficou bronzeada. Ela besuntou-se com creme hidratante. E besuntou-me a mim. Eu queixei-me de dores. Ela riu-se.
Na primeira noite jantámos uma tosta-mista. Eu comi metade. Ela comeu a outra metade. Eu bebi uma cerveja. Ela também. Depois fui-me deitar. Ela também. Eu deitei-me com ela na minha canadiana. Ela deitou-se comigo na minha canadiana. Estávamos cansados. Eu dormi. Ela também.
Eu passei uma semana entre o parque de campismo, a praia e uns cafés ao fim da tarde, ao início da noite e, às vezes, ao longo da noite. Ela acompanhou-me sempre.
Eu estava apaixonado. Ela também.
Ao fim de uma semana, eu acordei na canadiana. Ela não acordou na canadiana porque não estava lá.
Ela não estava lá mas deixou um papel no lugar dela. O papel dizia Vou para a Quarteira. Vou ter com a minha tia. X.
Eu olhei o papel. Virei-o. Voltei a lê-lo. Quem era a tia? Porque é que ia ter com a tia? E o que é que queria dizer o X?
No dia seguinte apanhei o expresso de regresso a Leiria. Ela não. Voltei para casa dos meus pais. Ela, acho que ela continuou em casa da tia. Acho que não regressou a casa dos pais. Não naquela altura.
Passei o resto do Verão a ler livros de banda-desenhada e a ir mergulhar ao rio com o meu vizinho. Também fui aos pássaros. Nunca tinha ido aos pássaros. Não gostei. Não voltei a ir os pássaros. Continuei a ler bandas-desenhadas. Continuei a ir mergulhar ao rio.
Parti uma perna ao escorregar na beira do rio.
Quando as aulas recomeçaram, eu estava com a perna engessada. Eu vi-a. Ela viu-me. Ela perguntou-me Partiste a perna? Eu não cheguei a responder. Um tipo, mais velho (já tinha barba), chegou-se ao pé de mim e dela e abraçou-a. Trocaram um xoxo (é assim que se escreve?). Ela não esperou pela minha resposta. Foram-se embora abraçados.
Eu continuava com dezasseis anos. Ela também.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/05]

Às Voltas com o Universo

E todas as vezes que eu tomo uma decisão, não há um outro eu a criar uma nova realidade seguindo a outra hipótese, a hipótese preterida?
E de cada vez que há um sim ou um não, não nasce um outro universo que comporte o não ou o sim que ficam das opções tomadas?
E as pessoas com quem estou? que conheço? Se voltar a encontrá-las mais tarde, ainda que no mesmo sítio, serão as mesmas? Ou já serão versões alternativas de si próprias?
E não será isto tudo uma possibilidade para o mundo se recriar infinitamente?
Ando a ver a série alemã Dark, uma série sobre viagens no tempo, universos alternativos e paradoxos temporais. Nada do que tenho visto na série, que é muito boa, muito bem imaginada, escrita, realizada e interpretada é, na realidade, novo para mim. Não me é novidade a possibilidade de nos movimentarmos no tempo, no espaço e em mundos alternativos nem sequer a hipótese, não levantada na série mas muito utilizada nos universos ficcionais da Marvel e da DC, e que eu tenho vindo a alimentar desde há muitos anos na criação da ideia da perna de fiambre cortada muito fininha, sendo cada fatia, um universo com uma realidade e, todas as outras fatias que se lhe sucedem, realidades alternativas que se vão construindo à medida que vão aparecendo hipóteses diferentes para cada uma das personagens que habita esse mesmo universo primeiro, ou seja, o multiverso.
Imaginemos portanto. Eu dou um beijo numa rapariga e, com esse beijo, inicio uma relação de namoro. Mas posso não dar-lhe o beijo e cada um segue a sua vida. Ou posso dar-lhe um beijo e levar um estalo e, em consequência do estalo, posso tornar-me um psicopata. Ela, em consequência do beijo que não queria e de me ter dado um estalo, entra em depressão. Cada uma destas variações constroem um novo universo, cada universo no mesmo espaço, no mesmo tempo, mas em dimensão diferente. É aqui que nasce o multiverso. Nas camadas alternativas que cada linha da vida tem à sua espera.
Viajar no tempo, ou entre mundos, ou entre dimensões, há-de ser possível um dia, quando se criarem as condições para existirem expressos que nos levem lá, tal como há expressos que nos levam a Lisboa ou a Paris. Claro que primeiro terá de se resolver alguns problemas. Por exemplo, o fluxo de tráfego. Que quantidade de viagens por hora, por minuto, por segundo, são possíveis de fazer sem romper com a estabilidade do espaço-tempo? E como transpor portais dimensionais sem romper com as leis do universo que conhecemos e, mais difícil ainda de resolver, as leis dos universos que não conhecemos? Como serão as outras dimensões para onde vão todas as outras nossas realidades alternativas? Serão uma espécie de compilação de lados b e raridades? Ou serão mais como os bootlegs? Vidas reais mas não oficiais? Sei lá, uma dimensão em que eu sou um travesti por acção de histórias alternativas de outras personagens e não de mim próprio?
Há na série Dark um elemento que me chamou a atenção: Jonas aparece com um casaco impermeável amarelo. Na terceira temporada, é Martha que usa esse casaco. Onde é que houve a troca? É por a Martha ser de outro universo ou fui eu que perdi alguma informação? O multiverso pode destruir o pensamento linear, tal como o Final Cut e o Avid destruíram a montagem linear?
Eu já tive um casaco assim, amarelo, na minha adolescência. Aliás, quase todos os adolescentes de Leiria tiveram. Foi uma moda. Mas não era casaco de moda como o da série. Não era um impermeável com pinta. Era um casaco de plástico que os homens das obras usavam, que não deixava o corpo respirar porque era plástico e, quando chovia, a água escorria toda para as pernas e deixava-nos com as calças encharcadas. Mas em Leiria, adolescente que não o tivesse era um pária.
O casaco fez-me pensar na possibilidade de, ao voltar no tempo, no espaço, noutra dimensão, cruzar-me comigo próprio. Um paradoxo, portanto. Qual deles serei eu? Serei todos eles? Todos eles ao mesmo tempo? E como é que pensarei? Será por camadas? Ou tudo junto? E como é que verei a acção? Através de que olhos? De quais olhos? Através de que cérebro? Haverá um eu principal? Ou será tudo o mesmo? E poder-me-ei tocar? Tocar o outro eu como se fosse outro? Que consequências terá isso para o universo? Posso, através do meu paradoxo, mexer com a vida de toda a gente? ou só a minha? E se o universo explodir (ou implodir) por acções minhas, será todo o universo ou só o meu? E experimentarei sensações com as minhas outras versões temporais como os gémeos? ou como se fosse mesmo eu? e quantos eus poderei ser? e sentir?
Como é que se sai disto?

[escrito directamente no facebook em 2020/08/01]

Quatro Tiros

O homem estava sentado no banco de jardim que não estava propriamente num jardim mas no meio-largo que se formava ali, a meio da rua, do outro lado da estrada, frente à varanda onde eu estava sentado numa cadeira de praia a fumar um cigarro, à espera de almoçar. Olhava a rua e a vida que lhe dava cor.
O homem estava sentado no banco de jardim. Um cão, um cão que era uma cadela, eu sei porque conhecia a cadela, passeava à volta do banco de jardim onde o homem estava sentado e, de vez em quando, chegava-se ao homem e colocava o focinho nas pernas do homem e ele dava-lhe duas palmadas no lombo como que a dizer Gosto de ti!, e a cadela ia dar mais uma volta pela vizinhança. Uma miúda passeava numa bicicleta cor-de-rosa com rodinhas de apoio, sob o olhar atento de uma jovem mulher, talvez a mãe. Dois miúdos davam toques numa bola. Passavam-na um ao outro. Davam uns toques com os pés, sem deixar a bola cair no chão, e depois passavam ao outro. Num outro banco de jardim que estava no passeio que acompanhava a estrada ao longo da rua, uma velha de bengala pousada ao lado, espalhava pedaços de pão aos seus pés para os pombos, que vinham aos magotes para ao pé dela, debicarem os pedaços de pão e eu pensei Não dê de comer aos pombos, minha senhora!, mas não expressei nada sonoro.
Acabei o cigarro. Apaguei-o no vaso com areia e sem flores que estava no cimo do murete da varanda, um vaso cheio de beatas de cigarros que um dia terei de despejar, quando vi passar um miúdo, um adolescente, em cima de um skate, pelo alcatrão da estrada, a fazer slalom entre os carros que circulavam para um lado e para outro. Também estava uma velhota sentada na paragem do autocarro. Está lá sentada todos os dias, quase o dia inteiro, e nunca apanha o autocarro. Está lá sentada para meter conversa com as pessoas que esperam pelo autocarro. Cada um mata a solidão como pode.
Um homem saiu do quiosque mais abaixo com o saco do jornal Expresso. Uma rapariga estava sentada, sozinha, numa mesa da esplanada a fumar um cigarro. Um rapaz veio à porta do restaurante chamar a rapariga e ela largou a beata no chão e entrou no restaurante. Pouco depois saiu um velho. O velho caminhou um pouco na rua e depois parou frente a uma loja a olhar para a cadela. Procurou algo com o olhar e depois voltou a andar. Parou em frente à porta de um prédio, meteu a chave e entrou.
A cadela voltou outra vez para o homem. Colocou, outra vez, o focinho na perna do homem e esperou. Ele voltou a dar-lhe duas palmadas no lombo, a cadela abanou a cauda, contente, e voltou a ir embora.
Uma senhora passou, devagar, a cruzar a estrada pela passadeira, de telemóvel na mão e no ouvido. Ia a falar com alguém. Parecia distraída. Parou a meio da passadeira e manteve-se lá parada por momentos. Depois recomeçou a caminhar para o outro lado. Passou um autocarro mas não parou, não havia ninguém para entrar, a senhora que lá estava sentada já era conhecida de toda a gente e, provavelmente, não havia ninguém para descer. Duas raparigas passeavam, lado a lado, empurrando, cada uma delas, um carrinho de bebé. Os carrinhos eram iguais. As raparigas não. Um homem veio do fundo da rua a correr com uma camisola amarelo-fluorescente e umas sapatilhas verde-alface, passou por trás do banco de jardim que estava naquele meio-largo onde o homem estava sentado, e continuou estrada fora.
O velho saiu do prédio onde tinha entrado e caminhou decidido até ao meio-largo a meio da rua, em frente à varanda onde eu estava sentado numa cadeira de praia, mas já não estava a fumar porque já tinha apagado o cigarro. O velho parou em frente ao homem que estava sentado no banco, apontou-lhe o braço, a mão, e percebi que tinha qualquer coisa na mão, e então ouvi.
Um. Dois. Três. Quatro. Quatro tiros disparados assim, à queima-roupa.
Eu levantei-me da cadeira e debrucei-me sobre a varanda. Toda a vida que despontava ali, naquele pedaço de rua, naquele meio-largo onde estava um banco de jardim mas onde não havia um jardim, parou. Fez-se silêncio. Vi a cadela parar. Olhar para o homem caído ao fundo do banco de jardim, e uma poça de sangue a formar-se à volta do corpo caído. E vi a cadela a fugir dali, enfiar-se numas ruas e desaparecer, assustada.
Aos poucos, a vida regressou àquele espaço. Dois homens correram para o velho, empurraram-no para o chão e deram um pontapé na pistola que tinha caído no chão, para a afastarem do homem. Puxaram os braços do velho para as costas e deixaram-no assim, imobilizado. Uma senhora baixou-se sobre o corpo do homem caído ao fundo do banco e colocou-lhe dois dedos sobre a jugular. Depois levou a mão à boca e começou a chorar.
Eu agarrei no maço de cigarros e acendi outro. E disse Foda-se, pá!
Ao fundo ouvia-se a sirene de um carro da polícia.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/26]

Fastio

Às vezes estou dentro dela e quero sair. Ou melhor, queria já não estar ali, dentro dela. Às vezes estou dentro dela e apetecia-me estar a ler a Parte 1 de A Morte do Pai, o volume 1 de A Minha Luta de Karl Ove Knausgård. E tem 160 páginas. Não por causa dela. Nem por causa do Knausgård. Mas por mim, mesmo. Sofro de fastio.
Não consigo estar a fazer a mesma coisa durante muito tempo. Mesmo que sejam coisas que goste muito de fazer. Como foder, por exemplo. Não é que não goste, que gosto, adoro, mas aborreço-me e preciso de fazer outras coisas. Por vezes começo a salivar à simples possibilidade de fazer outra coisa qualquer quando começa a despontar o aborrecimento pelo que estou a fazer.
Mesmo quando tenho prazos de entrega bastante curtos, tenho de parar várias vezes, durante o trabalho, para fazer outras coisas. E depois retomo o trabalho que estava a fazer anteriormente, na maior parte das vezes com uma vontade duplicada e cheio de novas informações e conhecimento.
Não se julgue que deixo de fazer coisas importantes por causa de outras coisas igualmente importantes. Bom, para mim serão mas, na maior parte das vezes troco o prazer de uma coisa de que gosto e importante pela alienação completa de outra da qual não desgosto também.
Já aconteceu estar a fazer um chili com carne, já com tudo preparado, só faltar fazer o arroz e misturar a carne os pimentos a cenoura as malaguetas num refogado de cebola e alho e juntar o feijão previamente cozido, e ir acabar de ler um capítulo de uma banda-desenhada que tinha deixado por ler quando me levantei para ir dar leite aos gatos. Depois do leite e dos gatos, perdi-me com qualquer outra coisa e esqueci o livro de banda-desenhada que estava a ler.
Também na adolescência acontecia estar a jogar à bola e, depois de uma jogada, que poderia ter sido de golo marcado ou não, acontecia sair de campo e deitar-me ao lado de umas raparigas que lá tinham ido ver o jogo e conversar sobre o próprio jogo e só regressar depois da equipa adversária me chamar.
Não sei se tem alguma coisa a ver com o facto de ser gémeos. Não gémeos no sentido de haver outro igual a mim, valha-nos Deus, mas gémeos de ter nascido no mês de Maria, o melhor mês para se nascer e ser do signo de gémeos. Às vezes sinto que cá dentro somos mais que um e, por vezes, fazemos guerra um ao outro. E um de nós tem de ceder. Acho mesmo que é tudo uma questão de cedências, e é por isso que estou sempre a saltar de coisa em coisa. Às vezes acho que sou um salta-pocinhas.
No sexo é que se nota mais. Estou dentro dela e tento despachar-me. Quer dizer, não preciso assim tanto de tentar, que despacho-me bastante rápido, mas despacho-me, às vezes sem atender às reais necessidades dela, sim, às vezes, muitas vezes, quase todas as vezes, sou egoísta, e despacho-me e logo de seguida pego no iPad e faço um jogo de Solitaire Spider. Acabo o jogo e estou outra vez pronto para as questões sexuais. Regresso aos beijinhos, aos toques, mas às vezes já é tarde. As outras pessoas não têm a mesma capacidade de saltar entre coisas como eu. Claro que, na maior parte das vezes ela já apanhou um táxi de regresso a casa, ou já está a dormir ou, e já aconteceu, acabou por se enfiar na cama do meu colega de casa. Não há problema, não sou ciumento. Só me aborreço com alguma facilidade.
Com os filmes também acontece muito. Se for ao cinema, vejo o filme de seguida, nem tenho necessidade de ir à casa-de-banho. A minha bexiga ainda é a de um jovem. Mas se estou em casa, páro tantas vezes quanto a necessidade de ir à casa-de-banho, e aqui tenho uma bexiga de velho, a vontade de comer pipocas, a necessidade de ver as manchetes de A Bola, do Público e do Expresso (já lá vai o tempo em que também precisava de ver as manchetes da Première e dos Cahiers du Cinéma). Porquê?, porra!
É por isso que tenho sempre cinco ou seis livros na mesa-de-cabeceira. É por isso que vejo dois ou três filmes intercalados. É por isso que começo sempre três ou quatro textos ao mesmo tempo com objectivos diferentes e, já aconteceu, às vezes misturo conteúdos, o que não é mau, porque dá um ar esotérico ao trabalho. É por isso que, às vezes, mas só às vezes, tenho duas e três namoradas na mesma altura. Mas normalmente isso dá mais dor de cabeça que prazer. Troco nomes, ordens e vontades. Já perdi tudo no mesmo dia. E não é por querer tudo. Não. É, simplesmente, por não conseguir saciar este meu fastio que dá, por vezes, comigo em doido.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/03]

Regressar a Casa, parte 03

[continuação]

Volto a olhar a janela da cozinha e a minha mãe já lá não está. Há já muito tempo que deixou de lá ir gritar por mim em diminutivo para voltar para casa, Malandro, que o teu pai já está a jantar.
Chego-me à frente, enfio a chave no fechadura e forço a porta a abrir, para trás, para dentro, e sou invadido por um terrível cheiro a mofo vindo das entranhas de uma casa que não era aberta há tanto tempo quanto o tempo da despedida. Adeus, mãe! Adeus, pai! Encontramos-nos lá, onde quer que seja.
Entro em casa e deixo a porta aberta nas minhas costas. Não há luz. Toco no interruptor mas não acontece nada. Avanço pelo corredor e viro à esquerda, entro no que era a sala e ainda será provavelmente a sala. Procuro as janelas e abro-as. As cortinas, as persianas e os vidros. Deixo entrar a luz. Deixo entrar o ar fresco. Preciso de combater esta humidade que me está a deixar maldisposto.
Viro-me para trás. Há pó por todo o lado. Vejo a televisão. A televisão fininha, lcd, em cima de um móvel comprado em tempos para suportar uma televisão grande com cinescópio. Agora parece-me estranho. A televisão parece perdida na dimensão do móvel. Há um naperon em cima do móvel. A televisão está em cima do naperon. A minha mãe era de uma época em que os napeons eram reis. Eu nunca gostei de naperons nem de bibelots nem de acumuladores de pó que não têm utilidade nem sequer estética e são só acumuladores de pó que é preciso andar a limpar e era o que fazia a minha mãe, sempre na lida da casa, a limpar o pó, a aspirar, a sacudir os tapetes, pôr os edredons e os cobertores a arejar, mudar a disposição dos móveis, de seis em seis meses entrava em casa e pensava se não estaria a entrar em casa dos vizinhos tal as alterações ocorridas e o sofá agora estava de costas para a porta e a poltrona ao canto, perto da janela e com vista para a rua, o sítio onde eu mais gostava de ter a poltrona mas que só podia usufruir quando o meu pai não estava porque aquela poltrona era a cadeira dele, era dali que via a televisão, era ali que lia A Bola quando ainda tinha paciência para ler jornais, ainda A Bola era trissemanal e do tamanho do Expresso.
Vejo ao lado o móvel da aparelhagem, a minha aparelhagem, a aparelhagem de alta-fidelidade que o meu pai comprou para mim e onde eu devorei os meus discos de vinil até à exaustão e que ainda estão, posso vê-los, na prateleira por baixo do amplificador. Aqueles vinis são os que ouvia mais, mas hão-de haver outros, outros mais, que a minha colecção era grande e devem estar numas prateleiras no meu quarto que era onde a aparelhagem estava até eu deixar de vir cá a casa e do meu pai trazer a aparelhagem para aqui, para a sala, para ele poder ouvir o António Variações (foi ele, o meu pai, que comprou os dois discos do António Variações) e a minha mãe poder ouvir os discos da Amália de quem era realmente fã, e reparo também que as colunas, uma em cada canto da sala, colunas grandes como caixotes, também têm um naperon por cima e uns objectos artísticos que tenho dificuldade em identificar, mas acabo por perceber que um deles é uma escultura moçambicana que eu trouxe quando estive lá, em Moçambique, há muitos anos, tantos anos que já não reconhecia uma coisa que tinha sido escolhida por mim para presentear os meus pais.
A cristaleira está toda suja, mas ainda consigo perceber lá dentro os copos de vidro, sim, que lá dentro da cristaleira não sei se há cristais, talvez só mesmo vidro, os copos cá de casa eram de vidro, muitos deles comprados na Marinha Grande, uma colecção, talvez completa de vidros da Ivima, com os seus piquinhos a lembrar a Casa dos Bicos, em tantas cores quanto o arco-íris, copos que durante a vida dos meus pais só viam a luz do dia em épocas excepcionais, no Natal, na Passagem de Ano, na Páscoa, num ou noutro aniversário que calhasse fazer cá em casa. E o mesmo se passava com os pratos das colecções de louça da minha mãe, coisas às quais nunca liguei nenhuma mas que ela entendia serem de valor, como um conjunto de louça inglesa estreada nas vésperas do meu casamento e, tal como o meu casamento, foi usado uma vez e guardado. Mas talvez tivesses razão, mãe, talvez eu não perceba o valor destas coisas que tu valorizavas como tu não entendias o valor das minhas coisas. Talvez tivesses razão, talvez eu gostasse, afinal, de comer as minhas refeições nesses pratos artísticos e com história em vez daqueles pratos brancos e simples e anónimos que estou sempre a partir quando me ponho a lavar a louça à mão, coisa que faço muitas vezes quando estou aborrecido, coisa que me acontece com uma certa regularidade nestes últimos anos, mãe.
Volto ao corredor e cruzo-o para a cozinha. Volto a abrir as persianas e os vidros da janela. Experimento abrir a torneira de água mas nem um fiozinho. Nem o barulho engasgado de um tubo fechado mas ainda com água na sua garganta.

[continua]

[escrito directamente no facebook em 2020/05/21]

A Serra Onde Eu Passeava

Naquela época, quando vim para cá viver, aos fins-de-semana pegava no carro e ia até à serra. Ia de carro até ao sopé da serra. Havia um cafezinho lá mesmo onde começava o trilho para subir a serra. Eu parava o carro debaixo de uma oliveira, para o proteger do sol, bebia um café expresso, queimado, era uma característica daquele cafezinho, tinha sempre o café queimado, fumava um cigarro à entrada, a olhar a subida que me esperava, e depois ia por ali fora, arranjava um cajado, havia sempre uns paus, uns ramos de árvore caídos, e eu aproveitava a ajuda de um qualquer cajado que me impulsionava os passos serra acima.
Levava uma garrafa de água e umas peças de fruta numa mochila às costas, uma máquina fotográfica, uns binóculos, e lá ia eu, trilho acima. Fotografava muito. Procurava identificar as aves. Tentava não me cruzar com os lobos. Sentava-me em enormes pedras a fumar um cigarro e a descansar da subida. Às vezes a minha respiração ressentia-se do esforço. Repousava um pouco. E recomeçava. Às vezes saía dos trilhos e aventurava-me pela serra dentro. Mas nunca achei que a serra fosse muito perigosa. Lá de cima via sempre casas cá em baixo. Nunca me senti isolado. Só. Nunca imaginei que poderia vir a perder-me ou outra coisa qualquer pior. Mais tarde, no entanto, vim a saber de pessoas que tinham desaparecido na serra e nunca chegaram a ser encontradas. Nem nunca apareceu nenhum corpo. É verdade que a serra estava cheia de buracos, entradas para grutas, algumas delas ainda desconhecidas e por explorar. Às vezes as rochas impediam a progressão do caminho e tinha de voltar para trás. Às vezes perdia-me naquela beleza e via a noite tombar comigo fora dos trilhos. Sempre soube regressar ao trilho, ao sopé da montanha, ao carro. Essas pessoas que desapareceram, isso só soube mais tarde. Só soube isso numa altura em que já não podíamos passear assim pela serra.
Nas primeiras décadas do novo milénio, começaram a montar turbinas eólicas ao longo do cume. O cimo da serra, outrora orgulhosamente careca e de horizonte aberto, começava a ser inundado de turbinas eólicas numa tentativa verde de prescindir dos combustíveis fósseis. Não demorou muito para que, o que começou por serem pequenos actos de vandalismo, se tornarem verdadeiros actos de terrorismo.
Logo quando montaram as primeiras turbinas, os postes onde as hélices estavam plantadas foram grafitados. Nada de novo. Tudo o que era passível de ser grafitado, era grafitado. Qualquer muro, parede, superfície em branco era um convite ao grafite selvagem. Mas logo começaram os ataques à próprias hélices. Algumas delas já tinham sido deitadas ao chão antes ainda de estarem a funcionar.
Não tardou que a serra fosse vedada. Começava logo no sopé. Umas redes impediam a progressão de quem queria subir a serra. Mas havia vários níveis de protecção. As primeiras redes ainda se conseguiam ultrapassar. Depois, lá mais para cima, vinha o arame-farpado e mais acima, as cerca electrificadas. Também havia umas guaritas, em vários pontos da serra, com guardas-florestais recuperados por causa das turbinas eólicas.
A serra que tinha sido de toda a gente, um oásis de natureza tão rico, com tantos pássaros (ainda se viam, hoje, inúmeras águias e falcões e milhafres) e alguns animais no seu estado selvagem (lobos e linces), para além de algumas árvores que já só se encontravam ali, estava agora fechada ás pessoas. Só as empresas responsáveis pelas turbinas eólicas e as autoridades florestais lá podiam entrar. No início ainda houve algumas reclamações. Mas não deram em nada. E a serra acabou numa espécie de privatização de estado.
Mesmo assim, não acabaram os atentados terroristas. Diminuíram, mas não terminaram.
Agora eu passava os fins-de-semana no alpendre aqui de casa a olhar a serra à distância e a recordar as belas tardes em que me perdia nos seus trilhos. Tenho saudades desses tempos. Do silêncio que me acompanhava lá em cima. Da solidão que me permitia estar mais em contacto comigo próprio.
E pensava se todas estas coisas valiam a pena. Perder o acesso à beleza natural do mundo para ter acesso à beleza tecnológica do mesmo mundo. É claro que com tudo isto vinha o conforto, o prazer, o descanso. O conhecimento. E isso era bom, claro que era bom. Mas, e eu? O que é que eu podia fazer agora nas minhas tardes de Sábado e Domingo, agora que não podia subir à serra e ver todas as belezas que já só há nos livros de história?

[escrito directamente no facebook em 2020/02/20]

Era Natal e Bateram na Porta dos Fundos

E foi na noite do amor, na noite do amor ao próximo, na noite da família, na noite em que (quase) toda gente se reúne à volta de uma mesa a comer, a beber e a partilhar boas experiências e se enterram machados de guerra, dores e invejas e se anunciam cessar fogos, na noite mais cristã de todas as noites, na noite que se celebra o nascimento do Cristo que morreu para nos salvar, o Cristo que pregava o amor, a dádiva, e a redenção, que cristãos saíram do conforto dos seus lares, do conforto das suas famílias do conforto das suas amizades para executarem uma reles vingança contra um pequeno grupo de comediantes que têm como função fazer rir as pessoas, ilustrando o mundo com o ridículo das nossas vidas, da nossa fé, do nosso amor, das nossas convicções políticas, das nossas crenças, um pequeno grupo de comediantes que não apela ao crime, nem à morte, ou à desgraça alheia, nem à vingança, e não fazem pistolas com os dedos da mão, não garantem estar, temerosos, debaixo das leis de Deus, não matam nem achincalham ninguém, só expõem ao ridículo todos os nossos ridículos e foram atacados pelos filhos da fé, do amor, da paz e da sabedoria.
Mas o pior nem estava na garrafa do cocktail molotov que rebentou na fachada do prédio da Porta dos Fundos, mas nos comentários abjectos que se espalharam pelas redes sociais em defesa do indefensável:

“Toda a merda respeita a merda toda… Que morram, esses porcos…”
João Paulo in Expresso;

“Mas qual violência? Então agora só a esquerdalha é que se pode manifestar pelas artes? Trata-se de liberdade de expressão religiosa e estavam apenas a expressar gratidão pela homenagem.”
Flávio Costa in Expresso;

“És um ignorante de primeira, as cruzadas foram uma resposta dos cristãos a quase 300 anos de agressão muçulmana à Europa, os cruzados foram importantes na formação de Portugal, D. Afonso Henriques sem a ajuda dos cruzados nunca teria conquistado o território nacional. Falas de alianças com os fascistas porque o mundo ocidental estava ameaçado pelos comunistas, ninguém matou mais gente que a religião comunista, em meio século mataram mais que todas as religiões juntas. Falas também na inquisição, há quem fale que foram mortos 300 mil mas documentado não chega aos 30 mil, e a inquisição tem de ser posta no seu contexto histórico, as acusações eram feitas por pessoas normais.
Falas também em pedofilia, caso não saibas há mais professores pedófilos que padres, vês alguém a querer deitar as instituições de ensino abaixo?
Vergonha devias ter tu.
A igreja católica tem defeitos mas não deixa de ser a instituição que mais pessoas ajuda no mundo.”
Vasco Gomes in Observador;

“A paneleiragem que arranje assunto para fazer humor com eles próprios, quando é ao contrário vêm logo a correr feitos histéricos a reclamar com tudo e não venham com comparações, se fosse outra religião se calhar já tinham as cabeças penduradas á porta.”
Rui Santos in Observador;

“Eles se dizem ateus e atacam a religião do próximo por motivos políticos, são militantes comunistas que desejam acabar com símbolos da sociedade ocidental como família e religião…”
Márcio Dinis in Jornal de Notícias;

“Os que atacaram a Porta dos Fundos serão os mesmos que perdoam os padres que procuram introduzir o pénis no intestino grosso de criancinhas?”
Pedro Nuno in Público;

“A liberdade de expressão não é mais sagrada que Deus.
Amor não é deixar que escarneçam de quem amamos.
Se preparem agora, pois os muçulmanos não serão mais os únicos que lhes colocará no lugar.”
Helena de Carvalho in Público;

“Auto atacam-se para gerar pena e alertar as autoridades! Um Charlie Hebdo no Porta dos Fundos, por favor!!!”
Samuel Charrano in Correio da Manhã;

“O que é que vocês pretendem com provocações? Falam em liberdade de expressão, mas pelos vistos é só para vocês que conta. Será que em vez de liberdade vocês queriam dizer Libertinagem? Ora se não simpatizam com a religião católica, só têm é que respeitar para também serem respeitados. Ah, mas pelos vistos olhando bem para vocês, só querem é confusão. Não sabem que a liberdade de cada um termina onde começa a liberdade do outro? Ai não sabem o que é Democracia, Liberdade com Responsabilidade? Olhem, vão para a escola aprender na disciplina de Cidadania os direitos, deveres, tolerância e bom senso comum que cada cidadão deve ter? Vocês querem é carnaval todo ano, porque trabalhar e estudar dá trabalho.”
Maria Marques in Correio da Manhã.

Alguns destes perfis são falsos, criados para defender posições políticas, religiosas e de grupos de influência. Mas outros são bem reais e mostram como nos tornámos tão boçais, intolerantes, estúpidos e mesquinhos.
Mostram também que somos todos muito corajosos escondidos atrás do ecrã do computador e de nomes falsos e fotografias forjadas.
Mostra como estes tempos de prosperidade e crescimento, económico e social, pós-Segunda Grande Guerra, deixou-nos intelectualmente anémicos e desejosos de um caos que, no fundo, não podemos realmente querer.
Enquanto a ciência corre para o futuro, o pensamento tende a fechar-se no passado. Num passado ignorante e obscurecido. De livros censurados. De ideias proibidas. De raças menores. De porcos mais porcos que todos os outros porcos.
E, afinal, devíamos era estar a celebrar o Natal. Lembram-se do Natal, antes de toda esta fúria consumista nos ter atacado?
E fala-se de amor…

[escrito directamente no facebook em 2019/12/25]

Más Memórias de Coimbra

Ir a Coimbra traz-me sempre más memórias.
Nos meus últimos anos, Coimbra tem sido os Covões e o IPO. Com passagens rápidas pelo Fórum para comer junk food.
Nem sempre foi assim. Coimbra já me foi a cena da música, dos festivais de Música Moderna, do States, dos É Mas Foice e dos Tédio Boys. Também já foi do teatro. E dos Caminhos do Cinema Português. Coimbra já me foram as madrugadas a vomitar pelo Quebra Costas e os pequenos-almoços em tascas com história depois de noites loucas no Via Latina. O que Coimbra nunca foi, para mim, foi a cidade dos estudantes e a universidade, se bem que até tenha por lá passado durante uma queima-das-fitas e tenha andado ao murro com uns gajos do rugby por causa de uma gaja.
Esse tempo já lá vai. Envelheci. Deixei de andar ao murro e aprendi a nunca mais me meter com os tipos do rugby. Deixei de ir a discotecas e bares e deixei de vomitar pelas sarjetas nas ruas da cidade. E acho que Coimbra acompanhou este meu envelhecimento. Esta outra Coimbra, pelo menos. A dos médicos e enfermeiras e medicamentos e consultas.
Nestes últimos anos tenho andado a pagar a factura dos anos de irreverência juvenil. Sinto-lhes a culpa.
Começou com os Covões. Ultimamente é o IPO.
Tudo isto seria suportável. O difícil é cá vir. Sair de casa. Sair de casa de manhã, num dia de chuva como o de hoje, fazer a auto-estrada atrás de um camião que mija de chuveiro para cima do pára-brisas. Parar na estação de serviço de Pombal para beber um café queimado e fumar um cigarro, à pressa, como um agarrado necessitado da próxima dose de nicotina, e que me deixa enjoado. Apanhar a hora de ponta de entrada na cidade. Arranjar um lugar, só um!, lugar vago para o carro enquanto vou ao IPO. Procuro em ruas cada vez mais distantes do portão de entrada. Às vezes penso estacionar o carro em Leiria e apanhar o expresso. E depois são as horas de espera em salas fechadas, de janelas seladas, sem ar-condicionado, na companhia de gente tão mais triste que eu. Ouço-lhes as tosses e as respirações pesadas. Vejo-lhes os cabelos rapados. E o cheiro? O cheiro a humidade, mistura de perfumes baratos e transpiração. Em dias como o de hoje é difícil fugir ao cheiro a mofo. No Verão é o chulé de pés enfiados em sandálias de plástico compradas numa loja do chinês onde a grande maioria das pessoas ainda têm carteira. E sempre, sempre, o cheiro a mijo.
Aguardo. Aguardo sentado em cadeiras rijas, impróprias para quem está com problemas de saúde, ao lado de gente a sofrer mais que eu, em frente de gente que tosse e espirra para cima de mim. Estamos todos juntinhos, colados uns aos outros, transpiração colada a transpiração. Quase que ouvimos os pensamentos uns dos outros. As esperanças frustradas. Os futuros hipotecados. A morte no horizonte. A desgraça. A puta da desgraça. A puta da desgraça do outro que é sempre pior que a minha.
Acabo sempre por pensar que, no meio de tudo aquilo, sou um sortudo. Não sou dos piores. Eu ainda tenho futuro. Um futuro de merda quando olho para a conta bancária. Mas um futuro, mesmo assim.
Passam minutos. Que se tornam horas. O rabo fica dormente naquelas cadeiras rijas. Já me coço todo. A cabeça. Os tornozelos. Já não sei como estar. Levo um livro que não leio. O telemóvel que não apanha Wi-Fi. Levanto-me. Dou o lugar porque já não consigo mais estar sentado.
E finalmente lá vou eu. Entro e saio. Temos de controlar, ouço. Tomar atenção, ouço de novo. Olha para uns exames. Analisa. Decifra. Eu não percebo nada do que vejo, do que ele vê. Ouço o que diz e esqueço. Há quem queira saber tudo. Ouça tudo. Tente decifrar. Procurar na net. Eu não. Eu não quero saber. A minha ignorância mata o mal e livra-me da ansiedade. Não quero saber. A minha morte será inesperada. Pelo menos, para mim.
Saio para a rua. Continua a chover. Mas sabe-me bem as gotas de chuva na cara. Sentir aquele frio sobre mim. A água que escorre pelo pescoço abaixo. Vou para o carro com o guarda-chuva fechado. Caminho à chuva. E sinto-me recuperar.
Antes de por o carro a trabalhar penso que é melhor ir comer qualquer coisa antes de ir embora.
É então que vou ao Fórum. Mais uma vez vou comer ao Fórum. Penso que no meio de tanta oferta gastronómica, poderei escolher qualquer coisa de diferente. E acabo, invariavelmente, de cada vez e todas as vezes, a optar por um McRoyal Cheese. Coca-Cola. Batatas fritas. Sozinho numa mesa solitária. Afastado de toda a gente. Grupos de miúdos da escola à galhofa. Rapariguinhas do shopping a contar segredos umas às outras. E eu ali, num canto, solitário, com um hambúrguer na mão, a pensar… Não, não estou a pensar. Naquela altura não estou a pensar em nada. Deixo-me estar em silêncio a enfiar o hambúrguer pelas goelas e a despejar a cola para desembuchar. E vejo a vida dos outros. Se eles soubessem!…
Depois pego na minha solidão e levo-a de novo para casa. Mas volto atrás. Pego no tabuleiro e liberto a mesa.
Faço o caminho de regresso à chuva, outra vez, com a rádio ligada e as notícias do dia em loop. Mas esqueço-me que vou na estrada. Na auto-estrada. A cabeça voa. Vai não sei onde. Perco-me a mim e a ela. Quando desperto, estou parado à porta de casa.
E antes de sair abano a cabeça e tento esquecer Coimbra. Coimbra traz-me más memórias.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/21]

Regresso à Cama

Acordo. Há pouca luz. Já é de manhã mas, o tempo cinzento e a chuva escondem a luz que podia já estar a iluminar o quarto.
Estou de olhos bem abertos. Podia virar-me para o lado e tentar dormir, mas sei que não vou conseguir. Muitos anos a acordar a esta hora. Já conheço a rotina. Sei que não consigo voltar a adormecer.
Ela está aqui ao lado. Dorme. Sinto-lhe a respiração profunda, descansada.
Saio nu da cama. A casa está quente. Foi uma boa ideia, o recuperador de calor.
Vou à cozinha. Ponho café a fazer. Espreito à janela. Chove. Chove muito. Chove tanto que não se vê nada para além de dois ou três metros daqui da janela. Mal vejo o prédio em frente. Deve estar frio na rua. A casa está quente. Estou nu e estou bem. Foi uma boa ideia o recuperador de calor.
Tomo banho.
Visto uma calças. Bebo café. Vou até à janela de novo. Acendo um cigarro. As manhãs de Domingo são difíceis. Nunca sei muito bem o que fazer. Vou à rua. Compro o jornal. Bebo um café expresso. Como um croissant folhado simples. Às vezes com manteiga. Às vezes com doce de morango. Fumo um cigarro. Venho para casa. Faço o almoço. Almoço. À tarde passeio junto ao rio. Vou ao futebol. Leio um livro. Quando dou por mim já é de noite. Vou comer uma bifana às rulotes. Gosto de estar ali assim, ao frio, a comer uma bifana grelhada e a beber uma mini na companhia de gente que não conheço de lado nenhum mas que, como eu, gostam de estar ali assim, ao frio, a comer de pé, encostados ao balcão da rulote. Há noites em que vou a pé até ao McDonald’s. Como um Royal Cheeseburguer. Bebo uma Cola. Desfaço tudo no caminho de regresso a casa. Depois faço um chá e sento-me no sofá a ver o Trio d’Ataque.
Estou cansado deste ritmo.
Acabo o cigarro. Abro a janela e mando-o para a rua. Molho-me na chuva que entra pela janela aberta naquele breve momento em que abro o vidro. Está muito frio na rua. Sinto o corpo arrepiar-se. Mas a casa está quente. Fecho a janela.
Olho para a tempestade lá fora e digo, em silêncio, só na minha cabeça, para me ouvir Não. Hoje não vou à rua.
Largo a chávena de café na mesa da cozinha. Retorno ao quarto. Gosto de sentir o chão de madeira debaixo os meus pés descalços.
Dispo as calças. Ela continua a dormir. Entro outra vez na cama. Ela vira-se para mim e abraça-me. E, sem abrir os olhos, diz Estás frio. E depois continua Cheiras a café. E a tabaco. E a champô. E a sabonete. Gosto destes teus cheiros todos.
Eu sorrio. Abraço-a a deixo-me ficar dentro da cama junto dela. Os dois nus, na cama, numa manhã de Domingo, a ouvir a chuva a cair lá fora.
Sinto a mão dela a percorrer-me o corpo. Ela repete Estás frio.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/17]