Um Cogumelo no Céu de Beirute

A minha mãe dizia que aqui (aqui onde vivíamos) Vivemos num cantinho do céu. Tudo o resto é sempre lá longe. Lá longe onde existem os acidentes. Onde existem as guerras. Onde existem as centrais nucleares que explodem. Onde existem os democratas que implodem a democracia. Onde existe a semente do diabo. É sempre lá longe. Longe da vista. Longe do coração. Longe do paraíso que é este Cantinho do céu guardado por Deus, dizia a minha mãe.
O telemóvel deu sinal. Um alerta da TSF. Notícia importante. Uma enorme explosão em Beirute, no Líbano. O que é uma enorme explosão?
Liguei a televisão da sala. Na SIC Notícias estava uma imagem em loop. A imagem da explosão. Primeiro um cogumelo branco, enorme, que depressa se desintegra, depois um cogumelo mais pequeno, escuro, e o sopro de ar que arrasta o telemóvel que gravava o acontecimento. Sou impressionável.
Acendi um cigarro. Sentei-me no sofá. Estava a tremer.
Revi. Revi tudo. Primeiro um enorme cogumelo branco que se desfez depressa, e deixou caminho a um cogumelo mais pequeno e escuro. Depois o sopro da explosão, a onda de repercussão, que fazia rodopiar o telemóvel e quem o estava a agarrar para gravar a explosão.
Que explosão era aquela? Ninguém sabia. Talvez um acidente. Talvez um ataque. Os especialistas falavam. Cristãos e muçulmanos. Judeus e muçulmanos. O Hezbollah. O Irão. Israel. A crise económica. Há sempre uma crise económica. Oh, a puta da crise económica que nunca deixou de existir desde que eu conto as moedas no bolso das calças. Mas os ricos cada vez mais ricos. É para o que servem as crises económicas. Para os ricos ficarem mais ricos. As crises são sempre uma oportunidade.
A explosão era uma grande explosão. Afinal, haviam várias explosões. Vários mortos. No meio da cidade. Depois das imagens da explosão, as imagens de Beirute depois das explosões. E, de repente, parece que estou a olhar para Aleppo. A explosão destruiu aquela zona da cidade. Destruição, mesmo. Edifícios destruídos. Carros destruídos. Estradas destruídas. Janelas rebentadas numa área de cinco quilómetros. O som ouviu-se no sul do Líbano. Ouviu-se no norte de Israel.
Acabo o cigarro e acendo outro. Encho um copo com Jameson. Sem gelo.
Chegam novas imagens da explosão. Mas o ritmo é sempre o mesmo. O cogumelo grande. O cogumelo pequeno. O sopro da deslocação de ar que parece arrastar tudo à sua frente, tudo ali à volta. Parece um ataque nuclear em miniatura. Efeitos especiais de Hollywood.
A explosão impressiona-me.
Aqui vivemos num cantinho do céu, não é?
Mas lá longe!… Oh, foda-se! Lá longe…
A noite começa a cair em Beirute. Vê-se, melhor, as sirenes dos bombeiros e da polícia. Há muita gente na rua. Gente com telemóveis na mão.
Depois aparecem as imagens da destruição. As imagens depois da explosão. Depois do cogumelo. E é devastador. À volta do porto, a destruição. Uma terraplanagem. Um sopro transformou o centro de Beirute. Mas já lá anda gente. Há sempre gente em todo o lado. As pessoas são como as baratas. Mesmo no coração da destruição não pára de aparecer gente.
Há mortos. Dez mortos, parece. Para já. Centenas de feridos. Para já.
Há terras condenadas ao horror. A viverem o Inferno na Terra.
Nós aqui, vivemos num cantinho do céu. Dizia a minha mãe.
Apago o cigarro. Despejo o copo de whiskey. Acendo outro cigarro. Despejo mais Jameson no copo.
Parece que foi um acidente num armazém de pirotecnia. Mas também pode ter sido outra coisa. Ninguém sabe. Nunca se sabe. No Líbano pode haver sempre mais qualquer coisa. Há-de haver sempre outra explicação. Afinal, estamos no médio-oriente. No Líbano. Em Beirute. Há sempre um problema. Há sempre uma explosão. Há sempre uma morte. Há sempre um Deus. Há sempre a porra de um Deus a justificar tudo. Para o bem e para o mal. É tão bom sacudir a responsabilidade dos ombros.
Entretanto há o Covid-19. Os hospitais de Beirute lotados. Para onde irá esta gente? Estes feridos?
Na televisão, os comentadores não param de falar na crise económica. Na devastação económica. Nos problemas económicos libaneses. Problemas crónicos. Não são sempre crónicos, os problemas económicos?
Uma última notícia no oráculo televisivo afirma Líbano diz que Israel nada tem a ver com explosões.
Há países nascidos para sofrer. Há gente nascida para sofrer.
Apago a beata do cigarro. Bebo o último gole de whiskey. Volto a encher o copo. Volto a acender um novo cigarro.
É noite em Beirute.
No oráculo do canal noticioso, assim como não quer a coisa, a notícia passa em rodapé Israel ataca posições no sul da Síria. Nunca nada é só aquilo que parece.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/04]

O Bar no Centro da Cidade Onde Me Sentava ao Balcão

Foi nos anos oitenta. Mais ou menos a meio dos anos oitenta. Apareceu um bar onde não existia nenhum. Onde não existia nada. Ou quase nada. Apareceu um bar num largo bem no meio da cidade. No centro da cidade. Era um bar com balcão. Uma balcão em U, com o bar no centro de uma das salas, a sala principal (o bar tinha mais que uma sala, o que constituía outra novidade).
Eu chegava cedo ao bar e sentava-me ao balcão. Primeiro bebia um café. Ainda o bar estava vazio. Havia alguma gente, gente sozinha, como eu, que bebia café ao balcão. Depois começava a chegar mais gente e eu começava a beber cerveja. No início bebia média. Depois, com o passar do tempo comecei a beber minis, que dava mais jeito para agarrar com a mão, mas isso foi quando larguei o balcão e comecei a encostar-me às paredes do bar. Mas no início, no início eu sentava-me ao balcão, sempre gostei muito de me sentar ao balcão, primeiro bebia um café e depois ia bebendo cervejas médias, Sagres, até ficar enjoado e passar para o gin tónico. Naquela altura o único gin que havia no bar era o Bosford. E, ao terceiro, quando conseguia chegar ao terceiro, acabava na rua, a vomitar as botas, às vezes a mijar-me pelas calças abaixo, quase sempre no chão, deitado no chão, encostado a uma parede à espera que o mundo parasse de girar ou alguém me levasse até casa. Às vezes havia quem me levasse a casa. Houve quem me levasse para a cama. Houve ainda quem se deitasse comigo. Mas nem me lembro dessas noites. Só sei que aconteceram. Porque me contaram.
Eu chegava cedo ao bar, bebia um café, lia um jornal qualquer que estava por lá, normalmente um jornal de véspera, folheava-o, às vezes lia um ou outro fanzine que algum puto largava por lá para mostrar às pessoas, roubei alguns deles que levei para casa, mas não sei o que lhes fiz, não sei deles, não sei que caminho levaram. Alguns eram muito bons. Com boas ilustrações. Textos interessantes sobre música. Pelo menos é a ideia que tenho. Pode não ter sido bem assim. Se calhar nem foi lá que vi os fanzines. Se calhar nem roubei nenhum. Se calhar nem sequer eram grande merda.
Nessa altura, depois de me sentar ao balcão e beber café e folhear os jornais dos dias anteriores, começava a beber cerveja. Às vezes ofereciam-me tremoços ou milho tufado. Depois apareciam algumas pessoas que conhecia. Sentavam-se lá ao lado. Tínhamos dois ou três dedos de conversa, bebíamos outra cerveja, e eles continuavam a ronda. Mudavam de cadeira, de sala ou iam embora, à procura de outras pessoas noutros lados.
Eu ficava sempre por lá. Ao balcão. Antes de me começar a encostar às paredes. Gosto de rotinas. Ficava sempre lá na mesma cadeira do balcão. Fumava cigarro atrás de cigarro. Às vezes aparecia lá alguém com um charro. Fumávamos mesmo ali, ao balcão. Por vezes o empregado chegava-se e dava umas baforadas no charro. E aquilo rodava. Às vezes deixavam-me lá uns selos. Chegaram-me a dar uns cogumelos. Há partes desse período no bar, nesse bar no largo no centro da cidade, que não recordo. Há noites que foram apagadas. Há noites que não existiram de todo.
Depois de enjoar a cerveja, depois de já estar cheio até ao esófago e a transbordar pela faringe, virava-me então para o gin horroroso que me fodia o fígado e me deixava de rastos, mas não havia outra solução. Não gostava de whiskey e o vodka era só para beber de penálti como se fosse um copo de três.
Quando chegava à fase do gin, geralmente perdia-me. Deixava de saber onde estava, com quem estava ou para que estava. Às vezes não tinha dinheiro para pagar o resto da despesa. Avisavam-me no dia seguinte mal lá punha o pé direito, o pé com que entrava todos os dias pelo bar adentro ao som do People Are People dos Depeche Mode.
Tudo terminou numa noite. Numa noite dessas em que já estava na rua, o bar já estava a fechar, eu não estava caído no chão mas estava encostado à parede, com uma perna flectida e uma mini na mão na conversa com uma miúda, lembro-me dessa miúda porque foi a última vez que a vi, assim como foi a última vez que entrei naquele bar, nesse fim de noite eu estava à conversa com a miúda, uma miúda lindíssima, assim a recordo, as luzes do bar já estavam desligadas, havia mais gente por ali, quando ouvi uns gritos, gritos de gente a correr, gente alarmada, gente em pânico a correr de um lado para o outro e a gritar, aos berros, e ouvi o aproximar de um carro, o som do motor de um carro, um motor em alta rotação, umas luzes muito fortes a encandearem-me e, de repente, uma explosão que me projectou dali para fora e acabei por despertar caído em cima de um banco de jardim, daqueles com ripas de madeira, cheio de dores nas costas e sangue na cara, com vários rasgos na cara e nas mãos. Acordei e olhei o caos instalado à minha volta. Acho que curei a bebedeira e a ressaca imediatamente.
Um carro tinha entrado ali pelo largo a acelerar, perdeu o controle e foi contra a parede do bar, que deitou abaixo, enquanto levava, à frente, a miúda com quem eu estava a conversar. A miúda foi desintegrada. Pouco restou dela. O bar, nunca mais reabriu. O prédio foi deitado abaixo e construíram outro, agora de habitações de luxo. Eu tive uma sorte dos diabos. O carro passou mesmo ao meu lado. Podia ter sido eu, na vez da miúda. Nunca mais bebi gin nem cerveja.
Agora só bebo vinho e, geralmente, em casa, o sítio onde estou mais vezes. Perdi a vontade de ir a bares. Mas continuo a gostar de balcões. Fiz um na cozinha de casa para matar saudades.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/14]

Às Vezes, Vomito

Almocei pataniscas de bacalhau e fiquei maldisposto. Já vomitei. Lavei os dentes e saí de casa. Fui ao café da aldeia. Ainda não está a funcionar a cem por cento mas, lá vai servindo uns copos e a malta fica lá por fora, sentada no lancil do passeio, a beber e a conversar.
Pedi uma aguardente para me compor o estômago. Acendi um cigarro e encostei-me à montra do café. O lancil estava quase todo ocupado e ao sol. Estava demasiado calor para me sentar ao sol. Fiquei em pé encostado à montra do café. O dono devia lavar o vidro da montra. Aliás, o café todo devia levar uma barrela. Agora é que se nota. Quando metemos a cabeça no interior para fazer o pedido, cheira ao chão do Lagoa dos anos setenta depois de uma vitória da União de Leiria.
Encostado à montra suja do café, de cigarro numa mão e uma aguardente noutra, ouço a conversa alheia.
E alguém diz O Ventura tem razão, os ciganos têm a mania que isto é tudo deles.
E outro alguém responde Tu também tens a mania que isto é tudo teu.
E o primeiro alguém remata Mas eu não sou cigano.
E o segundo alguém pontua Pois!
Ao lado vejo os sorrisos dos outros que não se meteram na conversa. Sorrisos que variavam entre o cínico e o condescendente. Alguns abanavam a cabeça. Concordavam. Mas concordavam com o quê? Com quem?
Eu empinei o copo de aguardente. Larguei-o no beiral da montra e, antes de sair dali disse Vocês vão mas é para o caralho!, conas de merda!
Passei em frente aos tipos sentados no lancil e ainda ouvi alguém perguntar Então, pá? e outro acentuar Xó?!, mas ninguém me disse mais nada. Enquanto ia indo embora, a descer a rua para sair do centro da aldeia, não voltei a ouvir a voz de nenhum deles. Devem ter lá ficado ensimesmados com a explosão de um gajo que normalmente entra mudo e sai calado e não mete conversa com quase ninguém e só o ouvem gritar Golo! quando se dá o caso de assistir por lá a algum jogo do Benfica, coisa que não tem acontecido vai para dois meses.
No caminho para casa senti-me irritado. Não devia ter dito o que disse. Não me devia ter metido numa conversa que não era comigo. Esta mania que eu tenho!
A mão onde levava o cigarro começou a tremer. O cigarro caiu. Enfiei a mão dentro do bolso das calças e desejei que a mão não estivesse a tremer e que tivesse sido só um espasmo muscular. Mas não voltei a tirar a mão do bolso para não ter de me confrontar com a evidência do que não queria.
Ainda antes de chegar a casa voltei a ter de vomitar. Encostei-me a uma árvore e vomitei o pouco que ainda tinha em mim. Eram quase só espasmos. Já não havia quase nada para deitar fora.
E foi então que percebi: As pessoas enjoam-me e fazem-me vomitar. Tenho de começar a vomitar em cima delas. Talvez isso me alivie mais depressa.
O sol batia-me na cabeça. Ergui-me e voltei à estrada. A caminho de casa. E ainda pensei Tenho de lavar os dentes. Odeio o sabor a vomitado na boca.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/07]

Ericeira

A última vez que fui à Ericeira, a vila ainda existia. Estávamos em dois mil e dezanove. Fui de passagem. Ia de Lisboa até à Figueira da Foz, em trabalho, e resolvi subir o país pelo Litoral Oeste de carro. Primeiro pensei em ir de comboio, mas depressa percebi que a Linha do Oeste não existia. Era uma linha-de-comboio fantasma. A linha estava lá, passavam por lá comboios, mas não serviam a ninguém. Nem às populações nem à própria CP. A quem serviria aquele montículo ferroviário de estações abandonadas, horários perdidos e viagens eternas? Ainda me lembrava de uma viagem de Lisboa a Leiria que me tinha levado cinco horas. Mas naquela altura andava apaixonado e a viagem serviu para o namoro. Entretanto acabou-se a paixão e cinco horas de comboio por cento e vinte quilómetros é demasiado.
Adiante.
Cheguei cedo. Fui à Praia do Sul. Estive deitado ao sol. Mergulhei nas águas calmas e frias da praia. Bebi uma cerveja no Quiosque da Praia do Sul. Passeei pelos Foles. Ouvi o mar a gritar. Senti aquele cheiro a iodo, a maresia. Almocei na Marisqueira das Furnas. A entidade patronal patrocinou o almoço e soube-me bem.
Depois de almoço dei uma volta higiénica e subi até à Praça da República para beber um café e comer um Ouriço no Pão da Vila. Escolhi precisamente o único café que não tinha o doce típico da terra. Acabei por não comer doces. Fumei um cigarro. Acabei por fumar outro cigarro enquanto bebia um segundo café e reparava nas moças de prancha de surf debaixo do braço com o buço aloirado, penugem mal aparada nas pernas e rastas no cabelo. Eram giras as miúdas, estavam queimadas do sol e do sal, mas um pouco peludas demais para os meus gostos.
Retomei viagem. Antes ainda comprei uma lata com Ouriços e outra com Areias. Para oferecer. Pequenas lembranças de um país cheio de pequenas particularidades.
Nunca mais lá voltei.
Entretanto, aconteceu o tsunami.
A Ericeira foi varrida do mapa.
Lembro-me das notícias. Lembro-me de ver algumas imagens do tsunami a atingir a Ericeira. Não houve uma destruição imediata. A enorme onda que atingiu a vila destruiu algumas casas, mas o facto de uma grande parte estar muito acima do nível do mar, só sofreu com a queda de água da explosão da onda contra as arribas. Uma espécie de chuva que, não vinda do céu, vinha do mar. De baixo para cima. E depois, em furiosa queda. O problema foram mesmo as arribas. O mar entrou pelos foles. Forçou o interior das rochas. Bateu nas arribas e provocou ondas de choque que fizeram tremer a terra e provocou sismos superficiais que levaram ao deslizamento das arribas e ao arrastamento da vila da Ericeira e das outras terras que já lhes viviam coladas como se fosse já só uma.
A Ericeira desapareceu do mapa. Ficaram uma dúzia de casas para contar a história. Com os anos essas mesmas casas foram preservadas e tornadas uma espécie de museus da memória do que tinha existido ali, desde o tempo dos fenícios, e deixado de existir devido à acção terrorista da natureza.
É a primeira vez que aqui regresso depois da minha viagem em dois mil e dezanove. Como isto era e como isto é. Agora, o que era a Ericeira é um penhasco vazio e deserto sobre o mar agitado do Atlântico. O que era a Reserva Mundial de Surf é hoje só uma placa numa das novas arribas onde grassam placas alusivas à história da vila, ao lado de outras que avisam para a possível queda dessas mesmas arribas.
Ainda me lembro das imagens que vi na televisão. Uma onda gigantesca que se deslocava em câmara lenta no mar e se aproximava ameaçadora de terra. O confronto da onda com as arribas. O choque. A explosão de água como uma nuvem líquida que termina em chuveiro sobre o alto das arribas. O silêncio. A calma. As pessoas surpresas a saírem das suas casas. E depois o barulho ensurdecedor, vindo das tripas da terra. E as arribas a deslizarem para o mar, como um pequeno monte de areia no estaleiro de uma casa em obras, e a vila inteira a ser arrastada pelas arribas abaixo. E as pessoas. As pessoas que se viam no meio da enxurrada. O pó que se levantou. E depois, o nada. As águas acalmaram e a terra tinha recuado. A Ericeira já não existia. E tudo tinha sido gravado. E eu tinha visto. E nunca mais cá tinha voltado.
Até hoje.
E depois de tantos anos, ainda parece que ouço os gritos das pessoas que foram arrastadas pelo deslizamento das arribas para dentro dos foles. E ainda as imagino vivas, a viverem em bolhas de ar, a comerem os moluscos agarrados às rochas, à espera de um outro tsunami que os traga de volta à terra e reerga a antiga vila da Ericeira. Mas isto é só um sonho desesperado. Na verdade, a Ericeira foi-se e nunca mais irá voltar.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/15]

Perdi a Mochila que Levava às Costas

Atravessava a cidade quando ouvi o primeiro trovão. Fui apanhado desprevenido. Eu e todas as outras pessoas que se deslocavam na baixa da cidade em final de dia cheio de um calor tórrido e sufocante. Estava de calções e chinelos. Uma pequena mochila às costas, com o iPad, a Moleskine, a Kaweco, o Ventilan, as chaves de casa, um pacote de lenços de papel, um canivete-suíço e o livro que andava a ler. Já não sei qual era o livro porque, quando tudo se precipitou, perdi a mochila com tudo o que lá estava dentro.
Quando rebentou o primeiro trovão, toda a gente se assustou. Foi um grande estrondo. E apanhou toda a gente de surpresa. As pessoas pararam a olhar para o céu, a tentar perceber o que estava a acontecer. E foi por pararem a olhar para o céu, que toda a gente viu, e eu também, os relâmpagos que se precipitaram sobre a terra, vindos de um céu que escurecera tão rápido que nem tivemos tempo de processar o que estava acontecer. Eu vi os relâmpagos a riscar o céu. E achei lindo. Fantásticas obras de arte. Uns riscos tortos, descendentes, luminosos, decididos e assustadores. Parecia que cortavam o céu, de cima abaixo. Como se criassem portais para outra dimensão, outro universo. E caíram assim vários relâmpagos antes ainda de se ouvir o primeiro som. E quando começou a ribombar, parecia um concerto celestial diabólico que se abatia sobre a terra, sobre a cidade, sobre mim. Uma percussão em ritmo cadente. Com os baixos a acompanhar.
Começou a chover. Uma chuva copiosa, de gotas grossas que magoavam quando me caíam na cabeça.
Olhei em volta. Desatei a correr até uma esplanada coberta do outro lado do rio. Cruzei a ponte. Olhei, pelo canto do olho, enquanto corria, a água do rio agitada, sovada por milhares de pingos agressivos que faziam subir estilhaços de água até à plataforma da ponte. Entrei dentro da esplanada coberta. O barulho era ensurdecedor. Os pingos da chuva caíam na cobertura da esplanada, que não sei de que era feita, e eram amplificados a ponto de não me conseguir ouvir a pensar.
Sentei-me, molhado, a uma mesa. Sacudi-me. Esperei que me perguntassem o que queria. Nem sabia o que queria. Mas ninguém veio ter comigo. Os empregados do café estavam todos a olhar a chuva a cair e ignoraram os clientes acabados de entrar, clientes assim como eu, fruto do acaso, clientes que se refugiaram ali da chuva e dos relâmpagos, mas que não deixavam de ser clientes. Eu queria qualquer coisa. Um chá, um café, uma cerveja, um bagaço. O que quer que fosse que saísse primeiro da boca no momento de fazer o pedido.
E foi então que um raio caiu no prédio em frente à esplanada. O prédio rebentou como se tivesse sido bombardeado e a deslocação de ar fez rebentar as janelas da esplanada e soprou toda a gente para o fundo do café.
O prédio em frente começou a arder. O café também. Houve máquinas a rebentar. O ar condicionado explodiu. Eu levantei-me. Corri para a rua. Estava a chover torrencialmente. Mas corri feito louco. Descobri que tinha perdido os chinelos e corria descalço. Cruzei de novo a ponte. Nem olhei para a água. Procurei a entrada de um prédio aberta. Não via nenhuma. As lojas estavam fechadas. Outras rebentadas. Os vidros partidos. Havia gente a roubar embalagens, camisas, calças de ganga, t-shirts, cintos dos prontos-a-vestir de montras escancaradas. E vi uma entrada de Multibanco com gente lá dentro. Corri para lá. Abriram-me a porta. Entrei.
Percebi que estava cansado. Com bronquite. Encharcado. Descalço. Com os braços cheios de sangue. Os pés pretos, sujos. Tinha perdido a minha pequena mochila.
Encostei-me a um bocado de parede livre e deixei-me escorregar para o chão. Sentei-me. Lá fora continuava a chover torrencialmente. Continuavam a cair relâmpagos que estavam a deixar a cidade a ferro e fogo. Os trovões não se calavam. E eu não sabia se ali estaríamos em segurança. Mas estava cansado. E senti-me a adormecer.
Sinto-me a adormecer.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/12]

No Dia da Morte de Agustina

No dia da morte de Agustina e da sua passagem ao panteão da imortalidade, onde se firmam os pequenos deuses da história do Homem, penso na minha própria imortalidade.
Mas a minha não é figurada. Eu não sou construtor de vidas. De obras. Eu não deixo legado. Não preciso.
Eu sou mesmo imortal. Num certo sentido, sou Deus.
Sou eu que concebo o mundo e todas as coisas que ele contém. Todas as coisas que existem acima do céu. Todas as coisas que existem abaixo da terra no cemitério e abaixo do fundo do mar. Todas as coisas tão longínquas que não consigo ver nem imaginar que lá estão. Mesmo as coisas que não percebo. Mesmo as coisas de que ignoro a existência. Tudo isso faz parte do meu processo criador. Tudo isso faz parte da parte criada por mim.
No dia da minha morte, se por ventura a minha morte, a morte de um imortal, fosse possível, o mundo deixaria de existir. Deixaria de existir num piscar de olhos. Se eu largasse o último suspiro o mundo extinguir-se-ia, não como com uma explosão, abalo ou agitação em jeito de apocalipse, mas como o sinal de televisão a morrer no cinescópio, reduzido a um ponto branco que diminui de tamanho até ao micro-qualquer-coisa e, por fim, deixar de ser. E ser nada. Sem dramas. Nem dor. Inexistir.
Penso nisso enquanto movimento o aspirador aqui por casa.
Lembrei-me que já tinha o aspirador arranjado. E lembrei-me que há já algum tempo que não aspirava a casa. Já via acumular-se o cotão pelos cantos não habitados da casa. Vi começar a aparecer algum verdete. Algum bolor. A casa é húmida. E eu não tenho muita paciência para tratar dela.
Peguei no aspirador e comecei a aspirar a casa. Comecei pelo quarto. Percebi que estou a perder cabelo. Não que me sinta careca. Mas percebi que anda a cair. A cair nas almofadas que me amparam o sono. A cair pelo chão do quarto. Na casa-de-banho reparei no mesmo. Mas também havia uns pêlos mais curtos. Presumo que da barba que aparo de vez em quando. Os pêlos haviam de ter de ir para algum lado. Vão para o chão, afinal. E eu tendo a não os ver. Mas vi agora. Agora que estou a aspirar a casa e vejo o soalho a mudar de cor, a ganhar brilho, outra luminosidade. Os tapetes a recuperarem os motivos originais.
Parece que tenho uma casa nova. Uma casa digna de um imortal.
Preciso de mudar as lentes dos óculos de ver.
A Agustina viveu uma vida cheia. Cheia e comprida. A minha vai ser ainda mais comprida. Tão comprida quanto eu quiser. Vou manter este mundo enquanto tiver paciência para o aturar.
Na sala descubro que ando a deixar cair cinza. Cinza dos cigarros. Isso desperta-me a vontade de fumar um. Desligo o aspirador. Acendo um cigarro. Vou até à janela. Abro-a. Debruço-me sobre a rua. E penso se tenho vontade de estender a minha imortalidade para além da Agustina. Para além de Matusalém. Penso se não começo já a ficar cansado deste rame-rame que se repete sempre da mesma maneira todos os dias, todas as semanas, todos os meses, todos os anos, todas as vezes nas minhas vidas numa só.
Às vezes estou cansado. Às vezes estou tão cansado de conceber um mundo tão imperfeito que me apetece terminá-lo. Deixo cair um bocado de cinza no chão da sala. E penso que a minha vida é uma sucessão de repetições. E penso que começo já a sentir-me farto.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/03]

A Mina

Ouvia o assobio, o Hey! soprado, alto, para o burro, e o burro a rodar à volta de uma espécie de nora a puxar, a puxar, a puxar a corda, o balde, o minério das profundezas da terra cá para cima, para a terra de Deus.
Lá em baixo, no Inferno, ouvia-se as picaretas a perfurarem as paredes do subsolo. As pás a apanharem os detritos, e tudo a tombar nos carros de metal que circulavam em linha de comboio miniatura, mas não de brincar, que levavam o minério, os detritos, tudo aquilo que tinha de ir embora do estômago da terra cá para cima, para a luz solar, fazer brilhar o seu dourado, o brilho do luxo nas costas de um burro, a toque de caixa de um chicote. Arre! Arre! Hey!
Não sei as horas. Lá em baixo é sempre noite. Não há janelas. Não vejo a luz do sol. Também não vejo a da Lua. Mas percebo-lhe o ambiente. A escuridão. A solidão. O ar é pouco. Pesado. Por vezes ganham-se vertigens. Embebedam-se com a falta de ar. Eu sinto-me levado. Para onde não estou. E esqueço que não estou lá. Sou sugestionado. Mas não estou lá. Percebo como é lá, com é estar lá, como é ser parte integrante de lá.
Vejo o balde a subir, puxado numa corda pelo burro, às voltas, à volta de uma espécie de nora, até lá acima. Os detritos. O lixo. O luxo.
Daquela vez dois acontecimentos tiveram lugar. Acontecimentos vulgares. Mas não em conjunto. Vulgares solitariamente. Daquele vez foi um a seguir ao outro. Primeiro o miúdo que tinha de apanhar o balde do poço, o balde que o burro puxava naquele seu ritmo cadente à volta de uma espécie de nora caiu dentro do poço. Desequilibrou-se e caiu ao fundo. Não conseguiu agarrar o balde. Não conseguiu agarrar-se ao balde. Não conseguiu agarrar-se à corda. Caiu. Até às profundezas do Inferno. Não sei em que parte do trajecto morreu. Nem como morreu. Nem se morreu na queda. Ou da queda. Já estava morto quando o encontraram. Pedaços dele. Do pouco que encontraram dele. Depois foi a explosão. Uma picareta perfurou uma bolsa de gás. Explodiu. A bolsa. A picareta. O homem da picareta. O túnel. O poço. A mina. Morreram vários homens. Não só o homem da picareta. Mas todos os outros que lá estavam. Morreram na explosão. Ou morreram no bloqueio provocado pela explosão. Ou morreram de fome e de sede presos dentro de túneis bloqueados pela queda das paredes que os sustentavam.
O burro continuava cá em cima. À espera das ordens. Arre! Arre! Hey! Estava parado. Depois viu o resto de uma maçã. Comeu uma maçã. Uma maçã encontrada ali pelo chão. Uma maçã tombada da lancheira de um qualquer trabalhador da mina. Talvez um dos mortos. Desmembrados. Desaparecidos.
Mais tarde vi uma ambulância parada na rua. Um homem. Duas miúdas novas. Olhavam a ambulância com nervosismo. Um paramédico saiu da ambulância e falou com o homem. As miúdas ouviram. Começaram a chorar. Uma delas caiu, sem forças, ao chão. A outra ajudou-a a levantar-se. O homem ficou petrificado. Sem reação. Alheado das miúdas a chorar.
Não é só nas minas que morre gente.
Lá em cima o burro tinha recomeçado a girar à volta do poço. A fazer girar uma espécie de nora. Um gajo dizia Arre! Arre! Hey!, enquanto assobiava ao burro.
Life goes on. E a mina não podia parar. A vida não se compadece da morte.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/06]

Ainda Aqui Estou…

À minha frente, lá para os lados do mar, onde o dia morre, o Sol estava encarnado. Vivo. Encarnado vivo. O céu, à volta, estava cor-de-rosa.
Mas não era um encarnado vivo e um cor-de-rosa daqueles que antecipa um dia seguinte de pleno Verão.
O encarnado do Sol era mesmo vermelho. Um vermelho sangue.
Eu ouvia um barulho. Não sabia bem que barulho. Era assim uma coisa metálica que entrava pelos ouvidos mas ficava na cabeça. Não saía. Era assim como as televisões quando não estão sintonizadas. Aquela estática, como chuva miudinha. Tzzzzzzzzzzzz. Uma coisa assim. Só que não ia embora.
Pensei que tinha ficado com água nos ouvidos no banho. Ou que era cansaço. Sentia-me cansado. Sentia-me com se tivesse acabado de correr a maratona. Acabei por pegar num cigarro. Para relaxar. E relaxei. Fumei o cigarro enquanto via aquela toranja fixa no céu, lá ao fundo. Como se estivesse a olhar para mim. Um olho pineal.
E foi então que aconteceu.
Primeiro foram os pássaros. Começaram a cair do céu. Como pedras. Não sei se estavam mortos. Não me aproximei de nenhum. Mas pareciam. Provavelmente estavam. Pareciam tiros, ao cair. Entravam em mim, por cima daquele barulho que já lá estava, mais baixo mas persistente.
Depois foram os cães e os gatos. Eu vi o cão cá de casa meter o rabo entre as pernas, entrar na casota e ficar de costas para a entrada. Ele que dava mil-e-uma voltas antes de deitar-se com o focinho virado para a rua. E o gato enfiou-se atrás do sofá. Nunca mais o vi.
Em seguida foi-se a energia. Todos os aparelhos eléctricos aqui de casa perderam a luzinha encarnada de stand-by. Vi dois carros a pararem lá em baixo, na estrada. Lá ao fundo, nas montanhas, caiu uma avioneta. Em silêncio. A queda em silêncio. Só se ouviu a explosão do choque. Quando caiu na terra. E explodiu.
A ventoinha de vento que tenho aqui no quintal, parou de girar. Não havia uma aragem.
Ouvia os homens dos carros, lá ao fundo na estrada, a perguntarem o que é que se estava a passar. Não se ouvia mais som nenhum. Parecia que estávamos sozinhos no mundo.
Finalmente aquele sol encarnado pôs-se, lá no horizonte. O cor-de-rosa deu lugar ao negro. Nunca tinha visto uma noite assim. Não se via nada. Nem as estrelas. Nem as minhas mãos. Nem a ponta do meu nariz. Fiquei quieto. Não me mexi. Fiquei à espera. Não sabia do quê. Mas fiquei à espera.
Aos poucos comecei a ver contornos. Contornos de mim. Depois contornos das coisas. Era como um desenho bidimensional feito em negativo, riscando branco sobre uma folha preta. Era assim que estava o mundo.
Os homens dos carros lá do fundo começaram a subir a ladeira para vir ter comigo. Estavam assustados. Como eu.
E foi então que o preto se tornou branco. E, novamente não via nada. Não via as minhas mãos. Não via a ponta do meu nariz. Só via branco. Como se tivesse mergulhado num copo de leite, só que de ar.
Deixei de ouvir os homens.
Sentei-me no chão debaixo de mim. Cruzei as pernas. Fiquei em posição de lótus. À espera. À espera de qualquer coisa.

Ainda aqui estou.

Não sei há quanto tempo aqui estou, mas ainda aqui estou.

Ainda.

Ainda…

[escrito directamente no facebook em 2018/09/17]

Quando É que Estávamos?

A rádio transmitia o I Could Be Happy dos Altered Images. Acho que era a TSF.
Nós vínhamos de carro, pela nacional, ali entre Águeda e Anadia.
I would like to climb
High in a tree
I Could Be Happy
E lembrei-me Queres ir comer uma sandes de leitão ali na Mealhada?, Sim, pode ser, respondeu.
Continuámos estrada fora. Eu ia a bater os dedos no volante. E chegámos à Mealhada. Onde queres ir?, perguntei. Um qualquer, respondeu.
E eu ia a virar no primeiro e ela disse Aí não que há muitos autocarros de turistas, e desviei o carro de regresso à estrada e no seguinte, Esse não que está muito cheio, e depois, Esse não que está muito vazio, e continuou, Fui a esse uma vez com os meus pais e foi muito mau, e a seguir estava fechado e o seguinte também e depois acabou-se e disse-lhe Acabaram-se os restaurantes, o leitão e a Mealhada. Não me respondeu. Mas percebi a cara fechada dela. Ainda ia sobrar para mim.
All of these things I do
All of these things I do
To get away from you
Fomos andando. Acabei por apanhar a A1.
Viemos calados o tempo todo.
Saímos em Leiria.
Perguntei-lhe Queres ir ao Mac?, Sim, pode ser, resmungou baixinho, assim num sussurro para que ninguém ouvisse que ela até ia ao McDonalds.
Chegámos à rotunda, e a fila de carros para o McDonalds era enorme e ela disse Caga nisso, vamos para casa, e eu até a compreendi, percebi a frustração, eu também estava assim e então acelerei o carro, acelerei prego a fundo Avenida da Comunidade Europeia acima, acelerei tanto e com tanta raiva que desapareci, melhor, a estrada desapareceu, houve uma explosão a branco como se nos tivessem tirado uma fotografia com um flash gigantesco e, quando regressámos, ou a estrada regressou, não havia estrada, estávamos no campo, num caminho de terra batida entre videiras pontuadas com algumas oliveiras, com uma carroça a ser puxada por uma parelha de bois conduzida por um moço de barrete na cabeça e duas moças roliças e coradinhas sentadas em cima de um monte de roupa branca em cima da carroça.
Já não ouvia o rádio. Não havia rádio. Nem estática.
Mas continuava a ouvir na minha cabeça:
Get away
Runaway
Far away
How do I
Get away
Runaway
Far away
How do I escape from you
Olhei para o lado e vi que ela estava assustada.
Eu também estava assustado.
Onde raio é que estávamos?
Ou melhor, Quando é que estávamos?

[escrito directamente no facebook em 2018/07/08]

Estou e Vejo

Acabei de acabar…

Estou no alto das ameias do castelo e vejo o rio a serpentear lá em baixo, lá em baixo ao fundo. Vejo uma criança a afogar-se nas águas do rio, com os patos à sua volta a fugirem do gesticular agitado da criança. Um homem mergulha, vestido, na água, e nada, desesperado, em direcção à criança.

E como continuar? e para onde? e para quê?…

Estou na avenida, junto ao terreno baldio que serve de parque automóvel, e vejo, do outro lado da estrada, a miúda, tímida, que olha, intensa, os condutores, e se aproxima dos carros que abrandam perto dela. Um deles pára. Um homem puxa de uma pistola e dispara à queima-roupa sobre a rapariga que é projectada para trás, com um buraco mortal no peito. E o carro arranca, deixando a morte lá atrás.

E o que fazer agora com isto?…

Estou numa casa abandonada, destruída, de janelas rasgadas ao longo de paredes sujas da patina do tempo, sem luz, sem vida, e vejo, muito sumido, no canto da sala, muito escondido, o rapaz a espetar uma seringa. A deixar-se cair para trás, amparado pela parede que o deixa cair docemente para o chão. Depois o rapaz começa com convulsões, e espuma-se pela boca…
Da rua ouve-se a voz de um homem, um homem mais velho, que chama por ele, entra casa dentro, encontra o corpo tombado no chão no canto da sala, ajoelha-se e agarra o corpo inerte ao colo, e chora.

Eu queria voltar atrás. Lá mais atrás. Arrepiar caminho.

Estou numa estrada na periferia da cidade. Dois carros aceleram lado-a-lado, numa estrada de dois sentidos. Um deles acaba por se cruzar com um carro em sentido contrário, e o choque é iminente. Mas o carro desvia-se. E o outro também. E desviam-se ambos para o mesmo lado e chocam um com o outro, de frente, com força, com força bruta, e vê-se e ouve-se uma explosão, e os carros destroem-se e ao que levam lá dentro, no seu interior. Tudo morre. Tudo se destrói.

Já é tarde. Já é tarde demais. É sempre tarde demais.
Eu só observo. É só o que me resta. Observar.

[escrito directamente no facebook em 2018/01/31]