Cheira a Homem, Aqui Dentro

A minha mãe entrava pelo quarto dentro a barafustar e dizia-me Abre a janela, rapaz! Cheira a homem, aqui dentro. E cheirava. Cheirava à transpiração de um adolescente que dormia enfiado debaixo de dois cobertores em pleno Verão porque gostava de se sentir aconchegado. Cheirava às pívias batidas durante a noite, debaixo dos lençóis, enquanto olhava as fotografias já gastas de um número qualquer da revista Gina.
Depois ela abria as cortinas, a janela de vidro toda para trás, para deixar entrar o ar fresco e lavar os odores impuros que se sentiam ali dentro no quarto onde eu nidificava, virava-se para mim e dizia Vá, vamos a levantar! e eu que remédio tinha senão levantar-me e manter o respeito pela minha mãe, pelo menos até à hora do almoço, à espera que fizesse algo que fosse do meu agrado, o que quase nunca era um problema porque sempre fui uma boa boca, graças a Deus, e a cozinha dela era santa.
Mais tarde, continuava a entrar pelo quarto dentro a barafustar e dizia-me Abre a janela, rapaz! Cheira a homem, aqui dentro. E cheirava. Cheirava ao álcool ingerido de véspera a destilar pelo poros do corpo. Cheirava a tabaco frio fumado e entranhado na roupa que jazia no chão, ao fundo da cama, numa massa disforme. Cheirava a vomitado, pelos excessos da noite.
Depois ela abria as cortinas, a janela de vidro toda para trás, para deixar entrar o ar fresco e lavar os odores impuros que se sentiam ali no quarto onde eu nidificava, virava-se para mim e dizia Vá, vamos a levantar! e eu não me mexia à espera que ela saísse do quarto sem me puxar os cobertores para trás e não me ver de pau feito, tesão de mijo à espera de se sentir, enfim, aliviado.
E depois, continuava assim a entrar pelo quarto dentro a barafustar e dizia-me Abre a janela, rapaz! Cheira a homem, aqui dentro. E cheirava. Cheirava mal. Cheirava a cama. A corpo de homem deprimido sem vontade de se levantar, tomar banho e sair de casa. Cheirava a noites e dias do mesmo pijama caído sobre um corpo que não se lavava e mal se alimentava. Um corpo que se arrastava pelas sombras do corredor para ir à casa-de-banho quando não estava ninguém em casa.
Depois ela abria as cortinas, a janela de vidro toda para trás, para deixar entrar o ar fresco e mostrar-me como a vida corria bonita lá fora, virava-se para mim e dizia Vá, vamos a levantar!, mas eu não me levantava, não via nada lá de fora, encolhido na cama, cabeça coberta pelos cobertores a ansiar que ela saísse do quarto e me deixasse sozinho ali, na cama.
E mais tarde, muito mais tarde, ela continuava assim a entrar pelo quarto dentro, mas mais devagar, a barafustar, mas a barafustar baixinho, e dizia Abre a janela, rapaz! Cheira a homem, aqui dentro. Mas não era verdade. Já não cheirava mais a homem ali dentro. Ali já só cheirava a memórias de um dia, um outro dia…
Depois ela abria as cortinas, a janela de vidro toda para trás, para deixar entrar o ar fresco e apoiava-se na janela e respirava o ar fresco que agora era para ela, todo para ela, e já não se virava para trás nem dizia Vá, vamos a levantar!

[escrito directamente no facebook em 2019/08/23]

Um Corpo Flácido e Enfraquecido

Convivo mal com a decadência do meu corpo. Os anos passam por mim, na sua cadência segura, e vão deixando um rasto de velhice que se aproxima perigosamente da morte.
Sinto-me dividir em dois. Os anos passam, a cabeça continua arrogante e lúcida mas o corpo está flácido e enfraquecido. Sou dois homens num corpo só. E o que me entristece é que sinto a decadência do corpo a ganhar vantagem sobre a lucidez da cabeça.
Levanto o braço para agradecer os parabéns e sinto os músculos dos braços a abanar, descaídos, sem forma, sem força.
Urino na casa-de-banho e começa a ser normal pingar os pés, as calças. Às vezes sinto vergonha quando saio da casa-de-banho todo pingado. Por vezes sinto que não deitei fora tudo o que devia deitar e percebo que o perigo se alastra pelo algodão suave das cuecas. Trago uma mancha colorida. Sinto vergonha pelo cheiro que devo arrastar comigo. Sinto vergonha por aquilo que me estou a tornar.
Descobri um quisto sebáceo nas costas. Não lhe conseguia chegar. Foi crescendo. Mas cresceu tanto que foi alargando a pele e a pele tornou-se mais fraca. Rebentou sozinho. Um cheiro fétido saiu-me pelas costas, junto com uma massa pastosa. Só o consegui expurgar debaixo do duche. Não sei quantas horas lá estive. Com a água a lavar o meu nojo. E depois… E depois o buraco nunca mais se fechou. O meu corpo já não se regenera. O que perco, fica perdido. Já não recupero nada do que fui perdendo. Foram-se os dentes. Foi-se o cabelo. Foi-se a vista. Tenho de actualizar constantemente as lentes. As unhas partem-se. A barba está branca. Tenho manchas no corpo. Saem-me pêlos por todos os buracos. Ouço mal. Coxeio.
Hoje o meu corpo já mal reage a estímulos. Fujo ao contacto físico com outros corpos para não me envergonhar. Tenho medo do que possa acontecer. Ou melhor, do que possa não acontecer.
É um cansaço constante. E de físico também passa a intelectual.
A preocupação com a perca das qualidades do corpo começa a tomar conta da minha cabeça. Não consigo não pensar nisso.
Evito ir à praia. Vestir calções. Despir a camisola. Tenho vergonha da barriga que tomba sobre os calções. Das veias que ganham dimensão nas pernas. São as varizes. Já nem o moreno do sol as esconde. Agora tenho de usar um factor pelo corpo. Senão, queima. Faz-me mal. Perigo dos melanomas, diz o médico. Sim, agora passo a vida no médico. Colecciono mazelas. Algumas vêm dos excessos da juventude. Outras, porque sim.
Doem-me as costas. Doem-me sempre as costas na cama, por causa do colchão. Doem-me as costas a caminhar porque tenho o vício da postura. O vício de anos com as costas tombadas sobre os pés. Não posso acartar pesos. Não consigo dobrar-me. Não posso fumar. Não devo beber vinho. Nem cerveja. Muito menos café. Tenho de ter cuidado com o açúcar. Fugir dos fritos. E das gorduras. Carne vermelha só muito raramente. Mas não é difícil que não a posso pagar. Devia comer mais peixe cozido. E enfardo cavala, o mais barato. Mas já estou enjoado.
Chega uma altura em que o corpo começa a dizer à cabeça que já chega. Já chega de aventuras. A cabeça resiste. Mas sente-se a ser perfurada. Aos poucos a cabeça começa a ceder ao corpo. Aos poucos começa a perceber que, se calhar, já não vale a pena continuar a lutar por algo que já não regressa. A juventude do corpo ficou no passado. Hoje é só uma memória. E a cabeça começa a cansar-se de memórias. Começa a sentir que isso é viver por procuração.
Tomo vários comprimidos repartidos ao longo do dia. Há dias em que não os tomo. Há dias em que quero parar a marcha inevitável do tempo. E regressar ao passado.
Mas esta não é uma história de ficção.
Sinto o meu corpo a morrer. E a cabeça com ele.
E é nessa altura que regresso à varanda. Com um copo de vinho numa mão e um cigarro aceso na outra. E digo baixinho, para mim É sempre inevitável.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/26]

Queria Ter Mais Tempo

Queria ter tempo para recomeçar tudo. Recomeçar de novo. Mas agora a sério. Desta vez, de vez.
Queria ter tempo para voltar a dormir numa cama rija, com um bom colchão que não se desfaça debaixo do meu corpo, que se move cada vez com mais dificuldade, todas as vezes que me viro. Voltar a ter os meus livros, deixados um pouco ao Deus-dará, arrumados em prateleiras, em estantes, com as cotas limpas, ordenadas e viradas para mim e eu poder saber que livros ali tenho, que livros já li, e lembrar-me o que contam só por reler os seus títulos, como fazia quando criança, na minha casa que era a casa dos meus pais, e os livros eram poucos, mas eram lidos e relidos, com a mesma avidez do início, e voltava a vivê-los ao ler-lhes as cotas. Voltar a andar de bicicleta ao longa da Costa Atlântica e deixar-me inebriar com a maresia fresca da madrugada. Voltar às festas de Agosto e bailar aquelas músicas pirosas cujas letras conheço de cor. Voltar a ter a primeira bebedeira. O primeiro beijo. A primeira noite de amor.
Queria ter tempo para experimentar uma vida como a dos outros. Uma casa com cerca de madeira pintada de branco; umas laranjeiras a espalhar o perfume ácido que entra pelas janelas abertas da casa; um baloiço para me embalar; um tanque para mergulhar nos dias quentes de Agosto; um labrador castanho a correr livremente na relva cortada por mim ao Domingo; um gato sonolento deitado no muro do alpendre e a olhar o mundo com desdém; uma família grande, enorme, reunida nas férias grandes, no Natal, na Passagem de Ano, no Carnaval, na Páscoa, no dia dos meus anos, a contar histórias, representar pequenas peças de teatro, a correr pela praia em pleno Outono e mergulhar nas ondas do mar frio antes da chegada das marés vivas.
Queria ter tempo para ter tempo. Queria que fosse tudo outra vez como era, mas agora como devia ter sido. Explicado por quem soubesse como devia ser, se quisesse e não obrigado a ser por ter que ser. Que a vida era assim, mas podia ser diferente, devia ser diferente. Deixar os excessos no começo da idade. Recuperar outro caminho.
Queria ter tempo. Mas não tenho.
Seis meses. Talvez um pouco mais. Talvez um pouco menos. Mas certo como destino.
Queria ter tempo para poder despedir-me de toda a gente que foi gente comigo. Todos os amigos que fui perdendo na voragem dos anos. Todos os amigos que fui perdendo nas razões que já esqueci. Todos os amigos que afastei, que me afastaram. Todos os amigos que deixaram de o ser. Todos os amigos por vir. Todas as amantes que foram trituradas na velocidade dos dias, dos anos. As que deixei de amar. As que deixaram de me amar. As que ainda amo. As que ainda me amam. Todos os filhos que fui semeando. Todas as mortes que me roubaram.
Somos jovens durante toda a vida. Até que um dia acordamos velhos, na antecâmara da partida e sem tempo. Sem tempo para poder cheirar mais uma vez as torradas queimadas esquecidas entre uma conversa, dois beijos, um golo. O cheiro do café acabado de fazer numa manhã de Inverno com a chuva a cair lá fora. O sabor do chá de hibisco em tardes monótonas de Domingo. Talvez com uns scones. Barrados com manteiga e um pouco de geleia.
Seis meses não são nada mas são o que me resta. E o que me resta é um mundo. É este o meu mundo, agora, e vou vivê-lo de punhos cerrados para não ser parado por ninguém que só queira o meu bem.
E no dia, no dia que for o último, só quero que chova e eu possa sentir, uma última vez, o cheiro acre da terra molhada. E levá-la com lembrança de uma vida de onde não posso levar mais nada.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/28]

Os Mangalhos em Serralves

O tamanho do meu pénis erecto é de quase 15cm. E digo quase porque é melhor que dizer que tem mais de 14. Acho que já foi maior. A idade tem-no feito minguar.
Tenho tido, ao longo dos tempos, uma boa relação com o meu pénis. E com os pénis dos outros. Nunca me senti diminuído.
No fundo, tenho-me sentido satisfeito com o pénis que me calhou e não queria ter tido outro. Este tem respondido bem às solicitações. E já criei muita afinidade com ele. Tem-me acompanhado aos longo dos anos e nunca me deixou ficar mal. Mesmo daquela vez…
Quando entrei em Serralves e vi aqueles mangalhos, poderia ter ficado escandalizado, talvez até ciumento, mas não fiquei. Tenho resolvido a vida com o que tenho. Já fui casado. Mais que uma vez. Tive namoradas. Bastantes. Amantes. Amigas coloridas. Umas raparigas com quem fiz amor. Outras com com fodi. Fui à putas. Tive algumas experiências. Brincadeiras. Liberdades. Excessos. Tive filhos. E filhas. Até tive cunhadas e irmãs. Algumas mães. E uma avó. Mas era nova.
Quando entrei em Serralves, não vi nada que já não conhecesse do trabalho de Robert Mapplethorpe. E que não tivesse já visto na vida. Tenho amigos africanos. Cresci a ver A Garganta Funda, Por Detrás da Porta Verde e A História de Joana, para além de outras alarvidades. Mas é como tudo. Umas coisas são assim, outras são assado. Uma vez uma amiga perguntou-me o que é que achava das mamas dela. Eu acho bem, respondi. E ela Então?! Então, tu é que tens que achar. Eu gosto de mamas, ponto disse-lhe. E continuei, mostrando a mão aberta, dizendo Desde as que cabem aqui, até às que têm dificuldade em entrar aqui, disse mostrando então já a mão em concha. Nós somos como somos e temos é de gostar de nós, disse-lhe armado em Deepak Chopra ou outro guru da auto-ajuda.
Antes de ter entrado em Serralves, já tinha visto o Jeff Koons a foder com a Ilona Staller em fotografias ampliadas a tamanho de parede. Não me senti intimidado. Gosto do Jeff Koons. Gosto das fodas de Jeff Koons. Gosto dos cães floridos de Jeff Koons. Gosto da lagosta do Jeff Koons. Gosto, de uma maneira geral, das merdices pop-pindéricas de Jeff Koons. E isso é que me importa.
E também gosto das fotografias do Robert Mapplethore. Das pilas gigantes do Robert Mapplethorpe. Dos rabos do Robert Mapplethorpe. Das Patti Smith do Robert Mapplethorpe. Dos auto-retratos do Robert Mapplethorpe.
Gosto do fetichismo de Robert Mapplethorpe e, ao contrário do Henrique Monteiro, não teria problemas em ir ver a exposição com os meus filhos e falar-lhes sobre o que estavam a ver. Mais dificuldade teria em tentar explicar como é que o Expresso teve o Arquitecto tantos anos como director.
Mas já chega de arte. Hoje é Sábado e quero ver se consigo dar trabalho aos meus quase 15cm.
E fumar um cigarro, enquanto ainda se pode.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/29]

Eu Vi o Mangkhut Matá-la

Eu vi aquilo a acontecer. Os vidros a estilhaçarem e a espetarem-se nela. A janela a partir-se e os vidros a rebentarem em mil-e-um pedaços mortais que se espetaram na cara, no corpo, na cabeça.
Era só sangue. Sangue e água da chuva. E pedacinhos cortantes de vidro.
Eu sabia que o Mangkhut estava a chegar lá, a Macau. Chamei-a pelo skype. Queria saber com é que ela estava. Ela atendeu e vi, atrás dela, a janela com fita-adesiva em X, a proteger os vidros do vento e da chuva. Dos excessos de vento e chuva do Mangkhut.
Não estávamos há muito tempo à conversa quando vejo, atrás dela, as janelas a rebentarem, os vidros a estilhaçarem, ela a virar-se para trás e a ser alvejada pelos mil-e-um pedaços de vidros cortantes.
Vi-a virar-se, levantar-se e ser projectada através da sala. Vi riscos de sangue a cruzar o espaço e a deixarem marcas de Pollock por todo o lado. Vi pedaços de vidros, como balas, a espetarem-se nas paredes da sala, a baterem no ecrã do computador, como se me quisessem atacar a mim, à distância de milhares de quilómetros tornados ali-mesmo-ao-lado através da magia da comunicação. Vi o Mangkhut entrar dentro de casa através da água da chuva e do vento e destruir tudo.
Enquanto ela estava agonizante caída no chão da sala e a tempestade destruía tudo lá dentro, eu sentia-me privilegiado pela distância segura de meio mundo e, ao mesmo tempo, de estar no olho-do-tufão através de um computador que sobrevivia, milagrosamente, à intempérie e uma ligação via skype que se mantinha contra todas as adversidades e expectativas.
Gritei. Gritei muito para o meu computador aqui, deste lado do mundo. Para fazer eco lá. Para que ela me ouvisse. E dissesse que estava bem. Que não me preocupasse. Que nos voltaríamos a encontrar pelo Natal.
Mas tudo o que vi foi o corpo dela tombado no chão, repleto de manchas vermelhas que se tornavam cor-de-rosa com a força da água. E o silêncio dela em contraste com o barulho da tempestade. E a quietude dela em contraste com a agitação daquele furacão ou lá o que era.
Baixei a tampa do meu computador e deixei-me morrer.
Enfiei-me na cama e cobri a cabeça. E comecei a enumerar os jogadores do Benfica.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/16]

O Happening

E depois da subida aos céus de uma festa, a descida aos infernos de uma ressaca.
Não falo por mim que não sou adepto de festas. Não faço comemorações, não assisto a efemérides, não festejo vitórias. Não me aproximo de grupos de gente em apoteose. Refugio-me na pacatez da casa e, se as coisas começam a descambar, se a minha rua se torna a rua deles, da turba, enfio-me na cama, tomo um zolpidem e vou directo para o dia seguinte.
Mas não me interpretem mal. Também bebo e, geralmente, de mais. Também ressaco. Mas ressaco sozinho. Vomito sozinho.
Estava na varanda a fumar um cigarro e a largar os borrões de cinza e vê-los serem levados pelo vento até tombarem na cabeça de alguém, quando olhei para a varanda do prédio em frente e vejo um tipo, nu, a vomitar para a rua.
Havia uma festa lá em casa. Eu fui vendo, assim discretamente, como quem não quer saber de nada, as miúdas a despirem-se, o pó a ser espalhado por cima da mesa de vidro, o álcool a despejar-se à velocidade da luz, as danças, as intimidades, os excessos.
Ainda fechei as janelas e as persianas de casa. Mas a curiosidade falou mais alto. Não gosto de pessoas mas gosto de espreitar pelo buraco da fechadura das pessoas. E fui olhando pelos buracos das persianas.
Aquilo era um happening.
A determinada altura acho que começaram a jogar ao quarto escuro, mas em toda a casa e com as janelas abertas.
Para ver melhor, fui para a varanda fumar um cigarro e largar borrões de cinza sobre as pessoas lá em baixo na rua. E foi aí que aconteceu. Alguém foi nu para a varanda vomitar para a rua.
Lá de baixo, da rua, chegou o barulho de alguém que não gostou da chuva que lhe caiu em cima.
Não demorou muito a ouvir-se a sirene da polícia. Lá em frente ninguém ligou nenhuma. A música estava alto. O tipo que tinha vomitado já tinha voltado para dentro de casa. A brincadeira continuava.
Fui à cozinha buscar um copo de vinho tinto. Acendi novo cigarro e sentei-me na varanda a apreciar.
O carro da polícia parou lá em baixo. Senti-os sair do carro, entrar no prédio e tocar à campainha da casa. Ninguém ouviu a campainha.
Estou curioso para ver o que é que se vai passar. Espero que alguém acenda a luz.

[escrito directamente no facebook em 2018/05/27]

Pelo Buraco da Fechadura

É véspera de feriado. Fim-de-semana grande.
Uma grande parte dos meus vizinhos já partiu para umas mini-férias de Inverno. Foram para o Algarve. Alguns deles têm time-sharing. Outros, casas de família, compradas pelos pais em bom tempo. Uns ficam-se aqui por São Pedro de Moel. Embora lhes doa passar pelo desaparecido Pinhal do Rei. Há ainda alguns que lá vão e voltam ao fim do dia, porque não são abençoados com famílias com poses, mas gostam da maresia e das pevides.
Mas quem não vai para a praia, vai sair hoje à noite. Os cabeleireiros aqui do bairro estiveram a trabalhar sem parar desde as nove da manhã a esticar, encaracolar, cortar, pintar cabelos das jovens secretárias aqui da zona. Notei isso quando fui ao café, à hora de almoço, e reparei como algumas das moças estavam tão bem arranjadas e bonitas.
Eu fico por casa.
Já não tenho paciência para a confusão destes dias. Já lá vai o tempo.
Agora prefiro ficar no quentinho da casa sem ninguém me chatear. Uma pizza por telefone. Um filme. Um livro. E está a noite arrumada.
Mas não.
Os restaurantes aqui do bairro estão à pinha de gente histérica, bêbada e surda. Berram uns com os outros. Mas não estão zangados. Falam assim para se sobreporem uns aos outros e fazerem-se ouvir. Alguns vomitam nos canteiros de flores que os jardineiros da câmara andaram a arranjar para o Natal. Outros encostam-se por aí aos beijos e apalpões e, do alto da minha varanda, percebo que irão mais longe. Vejo pedaços de roupa caídos por aí, braços e pernas que se confundem. Sons que não enganam.
Não saí, mas é como se tivesse saído. A noite e os seus excessos vieram ter comigo. E eu gosto do buraco da fechadura.
Acabei por comer a pizza na varanda enrolado no edredão que fui buscar à cama. Não me consegui concentrar no livro e o filme, só o comecei a ver por volta das quatro da manhã, e mesmo assim, com muitas pausas para fumar um cigarro à varanda e ver como é que estava o casal que há duas horas tentava fazer não sei muito bem o quê e que terminou com ele deitado no chão, a vomitar, e ela a chamar um táxi para o levar ao hospital. Ser jovem é ter estômago.
E eu penso que ainda faltam duas semanas para o Natal. Mas sereno ao pensar que me basta entrar em casa para ter silêncio e a única pessoa que tenho para aturar sou eu mesmo. E depois de pensar nisso, não sei se ria, se chore.
Devia ter comprado um time-sharing.

[escrito directamente no facebook em 2017/12/07]