A Primeira Vez que Saí à Rua de Mãos-Dadas

A primeira vez que saímos para a rua de mãos-dadas, eu fiquei com dois metros de altura, peito inchado, percebi a cara ruborizar e senti-me a pessoa mais importante do universo.
Estava em casa dela. Tinha acabado de lhe dar um beijo nos lábios. Ela tinha aberto a boca. Senti a língua húmida dela a procurar a minha. Os nossos dentes bateram uns nos outros, desajeitados. E depois sorrimos um para o outro.
A minha mão procurou a dela. Encontraram-se e não mais se largaram. Foi difícil abrir a porta da rua e fechar a porta à chave sem largarmos as mãos. Depois saímos, de mãos-dadas. Era a primeira vez que saía para a rua de mãos-dadas. Estava nervoso mas sentia-me muito importante. A pessoa com mais sorte do mundo. Sentia-me nas nuvens e olhava as outras pessoas lá em baixo, aos meus pés. Senti vertigens e, por momentos, enjoei e pensei que ia vomitar. Mas agarrei-me à mão dela. O coração batia tanto e tão alto que tinha medo que ela ouvisse. E, de vez em quando, engasgava-me a respirar e tossia. Sentia-me a ficar com a cara vermelha e muito quente. Piorou quando parámos no passeio, junto à passadeira, à espera de cruzarmos a estrada para o outro lado, e ela encostou a boca ao meu ouvido e disse Gosto de ti! e os lábios dela a mexerem-se na construção fonética fizeram-me cócegas na orelha e senti um arrepio pela espinha, a minha mão começou a transpirar, a dela também, e mesmo com a estrada vazia de carros não conseguimos cruzá-la pela passadeira para o outro lado. Ficámos ali presos aquele momento, a tentar recuperar a lucidez mas sem fazer muito por isso, até que fomos acordados pela buzina de um automóvel que parou para nos dar passagem. Eu pus o pé na estrada e esperei que ela viesse comigo mas a minha mão e a dela escorregaram, tão transpiradas que estavam, e desatámos os dois a rir e ela começou a correr para o outro lado da estrada e eu segui-a e, já no passeio, a rir, ela abraçou-me e ou voltei a beijá-la, enquanto a minha mão agarrou a dela, mas com força, como uma tenaz, para não mais a deixar largada num sítio qualquer onde eu já não estivesse e ela se pudesse perder.
Às vezes penso no que é que mais gostava de voltar a sentir pela primeira vez. E nunca é no primeiro beijo, na primeira relação sexual, no primeiro filho, na vez em que recebi a Palma de Ouro em Cannes ou quando acertei no Euromilhões. Não. O que eu penso sempre que gostaria de voltar a sentir outra vez pela primeira vez era sair de mãos-dadas com ela à rua. Voltar a sentir-me um gigante, a pessoa mais importante do universo, mesmo com o nervosismo, o rubor e as borboletas na barriga, afinal, vem tudo no mesmo pacote.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/26]

Para um Diário da Quarentena (Terceiro Andamento)

Hoje foi um dia bizarro. Tudo o que não fiz ontem, fiz hoje.
Levantei-me cedo, seduzido pelo sol matinal. Lancei logo o edredão para os pés da cama. Saí de um salto, vesti uma t-shirt e fui à cozinha pôr o café a fazer. Liguei o iPod à coluna e deixei em modo aleatório. Arrancou com PJ Harvey. Uh Huh Her. Acendi um cigarro e fui fumá-lo para o alpendre. Os gatos vieram roçar-se nos meus pés descalços, dengosos, a ronronar.
Lancei o cigarro para o meio do quintal e entrei em casa para ir tomar um duche.
Sentia-me bem-disposto.
Pensei se eu seria mesmo eu.
Tomei o duche. Vesti-me. Bebi café. Comi uma banana. Lavei os dentes e peguei na chave do carro. Desliguei o iPod antes de sair de casa.
Hoje tinha de sair. Por motivos de trabalho, tinha de sair do meu refúgio. Largar as minhas rotinas. Tinha de ir longe. Não ia estar com muita gente. Nem ia demorar muito tempo. Mas era longe. Tinha de ir encher o depósito do carro. Ia aproveitar para registar o Euromilhões. Comprar pão fresco. Umas garrafas de vinho, que andam a esvaziar-se muito depressa.
Tinha umas máscaras e umas luvas no carro caso precisasse. Algumas moedas. O multibanco. Um lápis com borracha para marcar o código do cartão e fazer os pagamentos. E um frasco aspersor com álcool.
Fui.
Fiz o que tinha a fazer.
E regressei.
Entrei em casa. Despi-me ainda na cozinha. Pus a roupa na máquina e lavei-a a quarenta graus. Depois lavei-me a mim e vesti um fato-de-treino.
Abri uma garrafa de Adega de Pias, das mais baratas. Sentei-me à mesa da cozinha, frente ao computador e comecei a escrever. E escrevi bastante e durante bastante tempo. Tanto tempo que tive tempo de despejar a garrafa de vinho. Só então parei e acendi um cigarro. E reparei que já era de noite.
Este foi um bom dia, pá! pensei.
Lembrei-me que havia o Festival Eu Fico em Casa e liguei o Instagram. E deixei a tocar. Nem sei quem era que estava a tocar. Acho que nem conhecia. Deixei na coluna.
Abri outra garrafa de Adega de Pias. Cortei uns legumes. Desfiei um resto de frango assado que tinha no frigorífico. Salteei tudo no wok. Depois misturei uns bocados de sementes de sésamo e uma azeitonas.
Desliguei o festival e liguei a televisão. Hora do noticiário. Jantei os legumes salteados com o resto de frango desfiado na companhia do vinho tinto a tomar atenção às novidades do Covid-19, aos infectados e aos mortos. Afinal estávamos em emergência, ou não?
As coisas estavam cada vez pior.
Mas eu continuava bem disposto.
Quem seria eu, afinal?
Desliguei a televisão da cozinha. Baixei a tampa do computador. Arrumei a louça suja na máquina. Agarrei num copo e despejei-lhe dois dedos de Bushmills. Sem gelo. Fui para a sala. Liguei a televisão. Ao fim de algum tempo de permanência nos canais de notícias, comecei com o zapping.
Comecei a sentir a melancolia a instalar-se.
Relaxei.
Afina, eu era eu. Sou eu. E aqui estou, de rabo enfiado no fundo do sofá, a ganhar coragem para ir à cozinha buscar mais um bocado de whiskey e trazer para aqui o cinzeiro. Mas não me consigo levantar. Apetece-me, mas não me apetece. Tenho qualquer coisa a tremer dentro de mim.
Sorrio, mas não sei de quê.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/17]

Naquele Tempo Não Havia…

Andava à procura da razão e abri a Crítica de Kant. Há quanto tempo não pegava naquele pequeno volume? Caiu uma fotografia. Caiu ao chão. Vi-a à distância do meu mais que um metro e oitenta. Reconheci-a. A fotografia. Já tinha uns anos. Uns valentes anos. Era uma fotografia a preto e branco.
Naquele tempo não havia fotografias a cores.
Baixei-me e apanhei a fotografia. Sim, reconhecia-a. Reconhecia-me. Eu e ela. Eu e ela numa mesa de restaurante. Eu tinha a carta na mão e lia a ementa. Ela olhava para o fotógrafo. Eu ainda tinha cabelo. Bastante cabelo. Ela ainda tinha vida e sorria.
Naquele tempo havia fotógrafos nos restaurantes.
Ela olhava para a câmara do fotógrafo quando o fotógrafo disparou. Depois o fotógrafo disse No fim do jantar a fotografia estará revelada. E estava. E trouxemo-la connosco, para casa.
Não me lembro como é que foi parar dentro da Crítica da Razão Pura.
Lembro-me que depois do fotógrafo tirar a fotografia ela virou-se para mim e perguntou-me És feliz? E eu ouvi a pergunta e senti a pergunta entrar por mim dentro a semear questões e procurar respostas.
Se eu era feliz?
O que era a felicidade? Se fosse acertar no Euromilhões em dia de acumulado gordo, não, provavelmente não era uma pessoa feliz.
Se fosse poder fazer o que gostava de fazer, talvez fosse mais-ou-menos feliz. Se fosse levar uma vida sem preocupações financeiras e ter uma saúde de ferro e um emprego compensador financeira e filosoficamente falando, não, se calhar não era uma pessoa feliz. Se me sentia amado e amante, se gostava de mim e do que era, mesmo que às vezes não fosse grande merda, talvez fosse um bocadinho feliz. Sim, talvez fosse um bocadinho feliz.
Naquele tempo não havia ninguém que fosse muito feliz.
Onde estava a comparação? Se eu era feliz comparado com quê? Com quem? Se me comparasse com o meu vizinho do lado, vítima de doença ruim que o consumiu durante anos antes que, finalmente, pudesse morrer, sim, sentia-me uma pessoa quase feliz. Se me comparasse com a vizinha de baixo que tinha acabado de ter gémeos e recuperou logo a boa forma física de um corpo que era extremamente desejável, não, se calhar, e olhando para a barriga que já tombava sobre a cintura das calças e obrigava os botões da camisa a ficarem em tensão, se calhar não, não era feliz.
Naquele tempo, se não se pensasse muito, talvez se fosse um bocadinho feliz.
Na verdade lembro-me de não saber exactamente que resposta dar.
O fotógrafo já nos tinha deixado para podermos usufruir, descansados, de um jantar a dois.
Naquele tempo não se jantava muitas vezes fora.
Não havia muitas oportunidades para se jantar fora. Era caro jantar fora de casa. Não só nós os dois. Quase toda a gente. Quase toda a gente almoçava e jantava em casa. Era muito mais barato. Às vezes levava-se o almoço para o trabalho numa marmita. Os jantares fora de casa eram só em dias de festa. Uma comemoração. Um aniversário. Uma promessa.
Naquele tempo não havia Dia dos Namorados.
Também não haviam assim tantos restaurantes como há agora que parece que nascem debaixo das pedras da calçada e há restaurantes para tudo, temáticos, típicos de países, tipos de comida, de comer em pé ou sentado, em cadeiras ou no chão, lights, gourmet, paleo, sem glúten, só peixe, só carne maturada, eu sei lá. Hoje há restaurantes que não acabam mais e para todo o tipo de carteira.
Naquele tempo não havia muita coisa.
As pessoas iam de vez em quando ao cinema. De vez em quando ao teatro. De vez em quando ao futebol. De vez em quando ao baile. De vez em quando a uma boîte. Passeava-se pelos jardins da cidade de mãos-dadas. Nas margens do rio. Comíamos pevides ao longo do rio, em passeio.
Naquele tempo não havia muitas distracções.
Ao olhar agora para a fotografia lembro-me de estar a ler a carta, ter esbarrado no Magret de Pato, ter olhado para ela e ter dito Sim, sou feliz, e de ela ter sorrido, um sorriso sincero e franco, um sorriso que vi esboçar muitas vezes enquanto viveu ao meu lado. Lembro-me do último sorriso que me ofereceu, momentos antes de parar de respirar pela última vez.
Sim, era feliz.
Como é que esta fotografia veio parar dentro da Crítica da Razão Pura? E porque raio andava eu à procura de razão?

Já Sei Mentir Melhor

Fazia um grande esforço para não chorar. Entoava um mantra em silêncio, ecoado na cabeça, para me impedir de chorar. Ficava no meu canto em silêncio. Silêncio que toda a gente interpretava como arrogância. Eu era o tipo que não dava cavaco a ninguém. Estava na minha inacessível torre de arrogância e má-disposição e não falava com ninguém. Na verdade estava cheio de medo, metido no meu canto, à espera que tudo passasse, que tudo passasse e eu pudesse regressar ao meu quarto, à minha cama, ao meu mundo onde não tinha que ser forte nem querer da vida o mesmo que todos os outros e que era o que toda a gente deveria querer e quem não quisesse tinha um qualquer problema dos quais a arrogância era o mais inócuo, não fazia mal a ninguém, só afastava ainda mais as pessoas de mim mas era coisa que também não me importava pois o que eu queria era que não me chateassem, mas tinha amigos de infância que me conheciam antes de todos estes medos e que achavam que eu merecia bem mais do que aquilo que estava disposto a agarrar por, sei lá, desleixe, desinteresse ou falta de empatia.
Hoje sei mentir. E sei mentir bem. Não sou o rei da festa, longe disso. Mas já consigo estar ao pé das pessoas. Beber com elas. Dançar com elas. Desejar coisas que não desejo com elas. Receber desejos com um sorriso e desejar o mesmo ou similar e parecer mesmo que desejo. Bom, é claro que desejo. Desejo toda a sorte e fortuna às pessoas que me são próximas. É a mim que me custa sentir qualquer desejo, principalmente quando sei da impossibilidade de conseguir concretizar esse desejo. Como sair-me o euromilhões, por exemplo. Ou ganhar o Nobel da Literatura. Ou a Palma de Ouro de Cannes. Ou o Grammy Latino. São impossibilidades efectivas. Não sou escritor, nem cineasta, nem músico. Sou só um tipo que tenta sobreviver aos dias, vivendo um dia depois do outro, mesmo que na maior parte das vezes não me apeteça sair da cama nem sobreviver aos dias que nascem nas manhãs seguintes.
Acho que a minha grande ambição na vida é não acordar na manhã seguinte.
Mas não se pode dizer isso. Não se pode dizer isso alto. Não se pode fazer chegar esses desejos aos ouvidos de ninguém. Porque a vida é sagrada. E não aceitar a sagração da vida é de uma grande ingratidão. E eu sou um ingrato. Mas eles não sabem. Ninguém sabe. Porque agora sei mentir. Sei mentir bem. Agora sou uma pessoa feliz e cheia de empatia com toda a gente.
Quando regresso a casa, regresso sozinho. Regresso ao quarto. Regresso à cama. Liberto-me de todas as normas. Deixo a mentira lá fora. Fora da porta da rua da minha casa. E posso voltar a ser o que sou quando estou sozinho. Um tipo sem perspectiva de futuro que se vai arrastando nas vontades dos outros, enquanto se arrasta pelos corredores frios e vazios de uma casa solitária e triste.
Vou à varanda fumar um cigarro e acabo sempre a pensar que a minha casa devia ser mais dois ou três andares acima do que é.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/01]

Que…

Estou à espera. Estou sempre à espera. Não sei bem de quê. De qualquer coisa. Acho que espero qualquer coisa que aconteça. Que chegue. Que se faça anunciar. Mas não acontece nada. Não se passa nada. Não chega nada. Nada de nada.
E eu continuo. Continuo à espera.
Não sei…
Que a minha mulher deixe de ter dores de cabeça.
Que a minha filha me telefone.
Que o meu filho não me ignore.
Que a minha mãe não morra.
Que o meu pai ressuscite.
Que eu tenha trabalho, dinheiro e saúde.
Que me saia o Euromilhões.
Que consiga escapar à Sida, à Hepatite e ao Cancro.
Que esta ferida no lábio não seja Herpes.
Que o Linic funcione e deu deixe de ter caspa.
Que o vinho nunca se me acabe.
Que a bronquite não me impeça de continuar a fumar.
Que eu não perca a capacidade de dançar.
Que eu não deixe nunca de gostar de música. Fazer filmes. Escrever estórias.
Que não perca nunca a capacidade de me surpreender e de me apaixonar.
Que o Benfica ganhe a Liga dos Campeões.
Que alguém, que não eu, chegue a Marte, não sem antes deixar a Terra em condições de funcionamento para os vindouros.
Que parem de usar combustíveis fósseis.
Que utilizem o calor do sol e a força das ondas.
Que a banana da Madeira continue saborosa.
Que nunca se acabe a Tosta de Galinha da Geliz.
Que Bolsonaro tenha chatos e Trump piolhos.
Que desapareçam as caixas de comentários.
Que tenham urticária todos aqueles que vão destilar ódio para as redes sociais.
Que ninguém gaste um tostão na Black Friday. Nem dê prendas no Natal.
Que toda a gente queira um abraço e toda a gente o consiga dar.
Que Amo-te signifique alguma coisa.
Que humanidade também.
Que os cães e os gatos sejam felizes uns com os outros.
Que acabem as mortes no Mediterrâneo. Que acabem os combates parvos e idiotas que só servem a gente mesquinha e gananciosa.
Que o Corto Maltese continue a ter grandes aventuras. E o Tintim também.
Que eu volte a ter paciência para ler Os Cinco e Os Sete.
Que haja sempre alternativa.
Que eu deixe de estar à espera do que nunca vai chegar, do que nunca vai acontecer.
Que eu seja tudo, a Noite e o Dia a Pergunta e a Resposta o Alfa e o Ómega a Vida e a Morte.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/02]

O Falhado

Sou um falhado.
Nunca consegui fazer nada que se visse da minha vida. A única coisa que um falhado faz bem é reconhecer outro falhado.
Cruzei-me com ele à entrada do café. Estendi-lhe a mão. Ele estendeu-me a dele. Apertámos. Sacudimos. Então? Como estás? Tudo bem? e as cabeças a acenar que sim, como a cabeça daqueles cães-bonecos que se abanavam nas traseiras dos carros de antigamente quando a auto-estrada começava no Carregado e antes de lá haver Campera e de podermos comprar roupas de marca a preço de saldo, num ritual sem sentido nenhum. Um ritual falso. Um ritual que é só mesmo isso, um ritual oco e mentiroso que se cumpre porque sim. Um automatismo. Na verdade nem eu nem ele queríamos estar ali. Mas estávamos. É o que acontece aos falhados. Estão lá. Estão sempre lá.
E então, dois falhados entram no café.
O que é que faz de mim um falhado? Talvez o nunca ter feito nada de jeito da minha vida. Pelo menos nada que seja traduzível em euros, honrarias e reconhecimentos.
Acabei um curso superior que não me levou para lado nenhum.
Fui abandonado por todas as mulheres que amei.
Fui despedido de todos os empregos onde trabalhei.
Perdi todos os amigos que fiz ao longo da vida.
Não estive presente na morte dos meus pais.
Não estive presente no nascimento dos meus filhos.
Todos os convites que tenho é para fazer algo à borla. Quando há orçamento não é a mim que chamam.
Tenho uma única conta no banco e, invariavelmente, está a zeros.
O meu cão mordeu-me.
O meu gato arranhou-me.
O preservativo estava roto.
Os números da minha chave para o euromilhões são sempre ao lado. Literalmente ao lado. Um número acima ou um número abaixo dos números vencedores.
Nunca ganhei nenhum prémio. Nunca ganhei nenhum concurso.
Nunca recebi nenhum subsídio.
Nunca plantei uma árvore. Nunca escrevi nenhum livro.
Escrevi poemas de merda adolescentes sobre problemas existenciais.
Antigamente era a mim que saía a fava no Bolo-Rei. O brinde, quando me calhava em sorte, ficava preso na garganta e engasgava-me. Ainda bem que os Bolos-Rei deixaram de trazer favas e brindes. De qualquer forma, não gosto de Bolo-Rei. Nunca gostei.
Aposto sempre no cavalo errado.
Todas as empresas que tentei erguer nunca saíram do chão.
Se o Benfica estiver a perder, num jogo que esteja a ver, é só deixar de ver para dar a volta ao marcador.
A canção que mais gosto na Eurovisão nunca ganha.
Nunca consegui comprar um carro e uma casa com uma cerca branca e uma casota para o cão que agora dorme na varanda.
Não tenho onde cair morto.
Sou mesmo um perdedor. Um falhado.
Mas reconheço os que são como eu. Os falhados.
Cruzei-me com ele à entrada do café. Estendi-lhe a mão. Ele estendeu-me a dele. Apertámos. Sacudimos. Então? Como estás? Tudo bem? e reconheci-me nele. Ele era eu antes de eu ser o que sou. Na altura ainda não sabia que era um falhado. Como ele ainda não sabe. Mas virá a saber. Porque vai aprender. Porque lhe vão dizer. Várias vezes. Alguns até lhe vão cuspir na cara És a merda de um falhado! como se fosse uma gripe e um tipo tivesse culpa de ter gripe.
E então, dois falhados entram no café.
Ele foi beber a sua bica. Eu acabei por voltar para trás e ficar na rua a fumar um cigarro e a pensar como a vida nos trucida. Rimos uns para os outros mas sentimos, cá dentro, o azedume que nos consome. Mentimos para que não nos julguem falhados. Rimos. Está tudo bem! Despenteamos o cabelo. Desalinhamos a roupa. Não fazemos a barba. Fumamos um cigarro. Bebemos um copo de vinho tinto. Está sempre tudo bem! Mesmo que estejamos a morrer de fome, com os bolsos cheios de comprimidos e uma navalha afiada.
Eu sou um falhado porque não consigo ser outra coisa. Eu sou um falhado porque não consigo ser um filho-da-puta.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/15]

O que É que Estás a Pensar?

O que é que eu queria, afinal? Saúde? Uma mulher muito bonita? Boa? O Euromilhões? Na verdade o menu é tão extenso que não sei dar prioridade.
Estava sentado. Estava em calções e chinelos. Lembro-me dos chinelos porque me lembro do triângulo de sombra que cortava o pé direito ao meio. Os dedos para um lado. O calcanhar para outro. Às vezes a sombra desaparecia ou ocupava o pé todo conforme o pé ia ou vinha, de uma perna cruzada sobre a outra, num nervosismo que me é constante e que se agrava quando não sei o que quero.
Tentava dar prioridade à saúde. A verdade é que, nos últimos tempos, tenho andado com um saquinho de comprimidos atrás de mim para tentar minimizar as mazelas. Sim, saúde é prioritário. Lembro-me disso cada vez que sinto as dores provocadas pelo nervo ciático. Pelo músculo do pescoço que me bloqueia os movimentos de cabeça e do braço esquerdo e me faz parecer um robot dos anos ’80 a dançar o Fade to Grey dos Visage. Mas já tenho idade suficiente para saber que vou esquecer as mazelas assim que me livrar de todas elas. A saúde só é um problema quando não a temos. Quando estamos bem, estamos bem! Com excepção dos hipocondríacos. E eu não sou um.
E entre uma saúde que pode ser importante e uma mulher, qual deveria ser a prioridade? É que é difícil decidir. Porque uma boa mulher pode fazer esquecer a falta de ar num ataque de bronquite. Eu sei porque já me fizeram esquecer de tomar o Ventilan num ataque de bronquite. E, depois, não há nada melhor para fazer inveja aos invejosos dos amigos que uma mulher bonita. E se for bonita e boa, é ouro sobre azul. Imagino, então, se para além de bonita e boa, é culta e inteligente? Para todas as outras mulheres, será, com certeza um estafermo. Para os outros homens será, de certeza, motivo de guerra. Mas não quero entrar em disputas com ninguém. Está demasiado calor.
O Euromilhões era sem dúvida a melhor aposta na lista das necessidades. Com o Euromilhões viria o resto. A saúde e a mulher boa e bonita e culta e inteligente. A minha mãe sempre me disse que dinheiro chama dinheiro. Por isso é que as pessoas ricas continuam ricas. Com excepção das que fazem cambalachos e acabam por perder tudo. Mais cedo ou mais tarde. Por vezes até nos sentamos a assistir à queda desses ídolos que, afinal, têm pés de barro. Se fosse religioso diria que Deus escreve direito por linhas tortas, mas como não sou, a melhor definição é mesmo cá se fazem, cá se pagam.
Foi nessa altura que entrou na minha linha de visão uma imperial dentro de um copo de fino, gelado, a borbulhar, com um dedo de espuma branca no topo. O copo foi colocado na mesa. Ao lado, um pequeno pires de tremoços, não daqueles bojudos que as senhoras vendem em pequenas bancas nas praças das pequenas localidades, mas aqueles pequeninos e rijos, com umas pedras de sal grosso polvilhadas por cima e ainda molhados por terem acabado de sair do balde onde estão mergulhados à espera de poderem servir os desejos de um bebedor de cerveja.
Descruzo as pernas. Perco o triângulo de luz e sombra sobre o pé e levanto o olhar. Vejo à minha frente o mar a bater na areia. Miúdos e miúdas mergulham e brincam dentro de água. Vejo, perto, o nadador-salvador. Ao fundo, o pau da bandeira. Está verde, a bandeira. Há gaivotas no mar. Gente em colchões-de-ar. Um casal passeia-se num caiaque. Passa uma velha com uma mala térmica a vender bolas de Berlim com creme. Estamos a meio da tarde. Está sol e calor. O povo desfruta deste feriado religioso a banhos. Ela dá-me um toque com o braço dela no meu e diz Acorda! Está aí a imperial!, enquanto vai chupando um Cornetto de morango.
Eu queria tudo aquilo. Eu já tenho tudo aquilo. Tenho a saúde que os meus cinquenta anos aguentam. A mulher dos meus sonhos quando acordo e abro os olhos. E dinheiro suficiente para pagar esta imperial. Que mais poderia querer?
Pego no copo de imperial e bebo um longo gole que me congela a garganta. No fim digo Ah! em jeito de satisfação. Pego em meia-dúzia de tremoços e vou comendo-os, um de cada vez, com casca e tudo, enquanto vejo o mar a refrescar os corpos do povo, ávido de libertação. Ela olha para mim e pergunta O que é que estavas a pensar? E eu olho para ela e já nem sei.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/15]