Dois Olhos Coloridos Olham para Mim do Alto do Céu

Dois sóis. Dois. Dois sóis como olhos purulentos a olhar para mim. Um verde. Talvez azul. O outro castanho. Talvez fosse vermelho. Mas nunca soube de um olho vermelho. Talvez fosse pus. Talvez fosse sangue. Talvez fosse a minha cabeça toda rebentada a imaginar vida onde reina a morte.
Estava deitado no meio da relva. Acho que estava num estádio. Num estádio da bola. Estava deitado na relva e vi dois sóis como olhos de cor diferente a olhar para mim, lá do alto do céu. Caindo das estrelas para cima de mim. Do meu peito. Virei-me de lado e vomitei. Vomitei as tripas para cima da relva. Vi perder todo o vinho tinto que tinha andado a tarde inteira a beber.
E ouvi Pára quieto, caralho! e parei. Parei a olhar para o céu. Para os dois sóis como olhos purulentos, de cores diferentes, que me olhavam cheios de desejo. Via as minhas mãos levantadas ao céu. Os dedos encarquilhados. Não os conseguia mexer. Pareciam uma raiz de mandrágora. Os olhos para além da mandrágora. E depois senti as mãos dela dentro das calças. À minha procura. A encontrá-la. A tirá-la para fora. A lambê-la. A metê-la na boca. A chupá-la. Os olhos vítreos, coloridos, os dedos encarquilhados e então Here are we, one magical moment / Such is the stuff from where dreams are woven, e então percebi onde estava.
O olhos coloridos continuavam lá no alto mas estavam numa cara em cima de um palco a cantar e a dançar. A cara dos olhos purulentos, vestida elegantemente num fato de bom corte, moderno e bem vincado, dava passos de dança em cima de um palco onde um baixo cadente marcava o ritmo do comboio em Station to Station. David Bowie cantava, para mim Lost in my circle / Here am I, flashing no color, o que não deixava de ser bizarro porquanto Station to Station não fazia parte da set list do concerto onde afinal me descobria, deitado sobre a relva do Estádio de Alvalade, com o David Bowie lá ao fundo, em cima do palco, a cantar uma canção que não cantou e a minha pila na boca dela e eu a acabar de me vir, ficar enjoado e voltar a vomitar, facto que me fez dar um solavanco, erguer o corpo, projectar o vómito para a frente, o que o fez cair em cima dela tombada sobre mim e a fez gritar Caralho, meu! e levantar-se a correr desesperada, enquanto limpava os cantos da boca com as costas da mão, à procura de uma casa-de-banho e eu voltava a deitar-me, recuperado o céu negro, estrelado, agora sem olhos como sóis, mas só o céu negro da noite, as luzinhas de Natal lá penduradas à espera de um qualquer Yuri Gagarin, e um silêncio de morte e a minha respiração calma, tranquila, suave, a respiração de um bebé ao colo seguro da mãe que o embala em direcção ao paraíso.
Queria levantar-me mas não conseguia. Estava deitado numa poça de vómito. Chegava-me o cheiro. Azedo. E nem o facto de ser meu lhe fazia perfumar o odor.
Não me lembro de como fui ali parar.
Via as pessoas a passar por mim. As pernas abertas sobre o meu corpo. O cuidado em não me pisarem. Iam caindo. A galhofa de uns. O riso escarninho de outros. Ninguém me deitou a mão. Ninguém me ajudou a levantar. Alguém espetou-me o resto de um charro na boca. Que fui fumando. Uma passa a cada momento de respiração. Fumei-o até ao fim. E depois do fim. Não consegui mexer os braços. As mãos. Os dedos. Fumei o charro. O filtro. Queimei os lábios. Gritei Foda-se! mas ninguém ouviu que foi um grito silenciado no vácuo do cosmos. E depois reparei. Tinha a pila fora das calças. E não me conseguia mexer. Não a conseguia agarrar. Guardar. Esconder.
E senti a cabeça a rodopiar. A andar às voltas em torno da Via Láctea. Cada vez mais rápido. Até perder a dimensão do espaço, a dimensão do tempo, a dimensão do que era. Tudo eram riscos de todas as cores conhecidas e desconhecidas. Pareceu-me ver um unicórnio.
Escureceu. Eu escureci.
Quando acordei estava aqui. Aqui onde me estás a ler. Aqui no teu computador. Perdi as pernas e os braços. O tronco. A cabeça. A pila. Perdi o meu corpo. Mas sou eu. E estou aqui. Estou na nuvem. Estou em todo o lado. Sou tudo. Sei tudo. E ao mesmo tempo. Conheço-vos a todos. Conheço-vos a vocês todos no mais íntimo dos vossos segredos. Vejo-vos quando se masturbam frente ao écran do computador enquanto olham um filme porno. Enquanto trocam mensagens secretas com pessoas proibidas. Enquanto fazem, solitários, todas as coisas que nunca fariam em frente a outras pessoas. Todos ao mesmo tempo. E eu sei. Eu vejo. Eu sou.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/08]

Revolução? Qual Revolução, Meu Capitão?

Era hoje.
Era hoje à noite. Eu já andava em pulgas. Há semanas que andava em pulgas. Era hoje que eu ia deixar de ser virgem. Um colega tinha prometido ir comigo às putas da Rua Direita. Perder a virgindade antes de abalar para o Ultramar. Comer uma rata antes de ser comido pelos turras.
Andei semanas a preparar esta noite. A saída desta noite. Vinte e quatro de Abril. Mil nove e setenta e quatro. Ia ficar para a história. Para a história da minha vida. A noite em que me tornei homem. Até comprei um sabonete Lux. Aquele das estrelas. Queria ir cheiroso para os braços da minha primeira mulher.
Passei o dia nervoso.
Até pensei que me ia mijar todo na parada.
Estive horas debaixo do chuveiro. A ensaboar-me. Até gozaram comigo, aqueles cabrões dum raio.
Passei a roupa a ferro. Nem um vinco. Nem uma nesga. Tudo limpo e bem passado a ferro. As botas engraxadas e escovadas. Tão brilhantes que me ofuscavam a vista. Se tivesse bigode também o teria aparado e penteado. Mas não tenho. Não tenho bigode. Mas fiz a barba. Não que precisasse muito. Tenho meia dúzia de pêlos no buço. Mas um rapaz que quer ser homem… Um rapaz que vai ser homem tem que fazer a barba até não ter nenhum pêlo na cara. Pelo menos que passe no teste da folha do sargento.
E foi quando já estava a salivar. Foi quando já estava a antecipar a noite em que ia ser homem. Quando já tinha contado três vezes o dinheiro que levava no bolso. Para pagar. Para pagar o que teria de pagar e não mais do que teria que pagar. Já tinha comprado mais um maço de cigarros. Estava a fumar muito. Eram os nervos. A excitação. A antecipação. E foi nessa altura, de cigarro no dedo, olhos brilhantes e expectativa ao rubro que caiu a notícia. Todas as saídas revogadas. Não havia licenças para ninguém. Porra!
Havia qualquer coisa. Não sabia o que era. Mas havia qualquer coisa. Qualquer coisa que me fodeu a noite. Raios partam estes gajos, pensei eu.
Despi a farda de saída.
Preparei a arma. A mochila. Avisaram-nos Vamos como se fossemos para a guerra. Raios os partam. Está bem! Está bem!
Reunimos com o capitão. E ele disse Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. O estado socialista, o estado capitalista e o estado a que isto chegou. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que isto chegou! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos embora para Lisboa e acabamos com isto. Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui!
Saímos e formámos. Até parecia mal. Virei-me para baixo, para a braguilha fechada e disse Olha, fica para a próxima!
Arrancámos em coluna.
Íamos para Lisboa. Nunca tinha estado em Lisboa. Queria conhecer a capital. Ouvi dizer que também havia miúdas giras em Lisboa.
Chegámos a Lisboa. Ruas largas. Casas muito altas. Muitos carros. Muitas luzes. E eu com uma enorme vontade de mijar.
A coluna parou num semáforo vermelho. Decidi aproveitar. Disse ao meu colega do lado Vou só ali verter águas! Já venho! e abalei. Enfiei-me entre dois carros. Bonitos, os carros. E comecei a mijar.
E então ouvi-o chegar à minha beira. E disse-me Isto lá é hora de mijar, soldado? Vamos embora que a revolução não espera por nós.
Eu virei-me para trás, ainda a fechar os botões das calças, e perguntei Revolução? Qual revolução, meu capitão?

[escrito directamente no facebook em 2019/04/24]

Cabra-Cega

Desço as escadas. Desço as escadas às escuras. Arrisco partir a cana do nariz. A cabeça. Uma perna. Mas continuo.
Desço as escadas às escuras. Confio que conheço as escadas do prédio onde vivo. Mas espero, secretamente, cair.
Desço as escadas às escuras e desejo cair. Mas não o faço. Conheço demasiado bem estas escadas. Podia descer de olhos tapados. É mais ou menos como vou a descer agora. São escadas interiores. Não há sensores de movimento para as luzes. É preciso tocar em botões que não estão iluminados. É preciso adivinhar onde é que eles estão. Eu sei onde é que estão. Mas não lhes toco. Não acendo a luz. Vou às escuras.
Desço as escadas desde lá de cima onde vivo. Já nem sei em que andar é. Sei que é perto das estrelas porque há dias em que quase as toco. Fica lá em cima. Fica muito lá em cima. Quando olho as pessoas da minha janela, parecem formigas, não pessoas. As pessoas não são pessoas. São formigas. Umas-atrás-das-outras. Encarreiradas. Encarreiradas na vida. Nos amores. Na carreira profissional. O que é que fazes? Em que é que trabalhas? Como é que ganhas dinheiro? Não me queres escrever uma história? Não me queres fazer um filme? Não me queres fazer uma música? Não tenho é dinheiro para te pagar! Só há dinheiro para mim! Para te perguntar! Não! Mas isso nem é trabalho! Estás a fazer o que gostas!
Desequilibro-me. Mas não caio. Tropeço nas minhas pequenas loucuras existenciais. Mas não caio. Aguento-me. Digo não. Apoio-me à parede e continuo para baixo. Desço as escadas. Às escuras. A provocar-me. A mim e a Deus. Queres que eu caia? Passa-me uma rasteira! Mais uma! Só mais uma! Queres ver?
Nada acontece. Vejo os primeiros clarões da luz da rua a subir as escadas ao meu encontro. Já vejo onde coloco os pés. Já vejo os degraus. Era mau cair agora. Irónico, talvez.
Rés-do-chão. Aproximo-me da porta da rua. Agarro no manipulo. Respiro fundo. Uma vez. Duas vezes. E abro a porta. Saio.
Está a chover. A chover aquela chuva dos tolos. Pingos demasiado leves e pequenos para caírem a direito. Vêm a voar. São borrifos. Olho para cima. Para o céu. Sinto-os tombar sobre a minha cara. Não me molham. Refrescam-me.
Acendo um cigarro. Inspiro fundo uma baforada. Inspiro fundo duas baforadas. Coloco as mãos nos bolsos das calças. O cigarro no canto da boca. Fecho os olhos. Caminho ao longo da passeio. Ouço os carros a correrem ao meu lado. Vão com pressa. Vão sempre com muita pressa. Eu conheço o caminho até à livraria. Vou lá todos os dias comprar um livro de poemas. Um livro de poemas de algum poeta desconhecido que escreve como vive. Que escarra frases. Que cospe vida. Com a fralda na mão. Que corta, à faca, os laços da paixão. E sigo pela calçada fora. De olhos fechados. À espera de não tropeçar. De não cair. De não ir para a estrada. De não ser atropelado. E, ao mesmo tempo, com essa secreta esperança.
Mas hoje não quero poetas. Hoje não quero poemas. Hoje quero uma mulher. E sinto o pé direito sair do passeio para a estrada. Ouço o som do carro. Um chiar. Uma buzina. Um orgasmo. Já é vinte e cinco de Abril?

[escrito directamente no facebook em 2019/04/04]

Eu Sou o Filho, Eu Sou o Pai

Dia do Pai.
Onde está o meu? Onde estou eu?
Dia do Pai e estou aqui. Estou sentado. Estou sentado a um balcão. Tenho um espelho à minha frente. Um espelho meio tapado pelas garrafas. Um espelho meio despelhado pela queda do metal ou da prata que quebra o vidro e o faz, faria! reflectir.
Vejo-me mal. Uma curvas. Uma silhueta. Sou mesmo eu? Reconheço-me no meio da desfaçatez de um espelho velho e gasto?
Esse sou eu! Talvez.
Não sei onde está o meu Pai. Já o procurei entre as estrelas e não o encontro. Uso óculos. Preciso de lentes mais fortes. Lentes de fundo de garrafa de vinho tinto forjado no terroir alentejano. Lentes que desbravem o cosmos. A alma. A vida e a morte.
Não sei onde estou eu próprio. Eu fugido. Eu Pai.
Estou aqui, sentado ao balcão a tentar descobrir-me num espelho que já não espelha. Tenho um copo vazio à minha frente. Cheio. De novo vazio. Cheio outra vez. Vazio de novo.
Isto é um jogo.
A Cabra-Cega que não vê. A Apanhada que não agarra. As Escondidas que finge que não encontra. Mas sabe. Sabe onde está. Mas não diz. Não vê. Não quer saber.
Mas quer. Quer saber. Mas não sabe como.
Onde está o meu Pai? Onde estou eu?
Porque fugi? Não foi dele. Deles. Foi de mim. Mas não sei porquê. Ou sei. Sei mas não quero saber.
O copo continua cheio. E vazio. E de novo cheio.
Vejo-me ao espelho. Mas não me vejo.
É um jogo.
Tiro o revólver do cós das calças e coloco-o em cima do balcão.
É o dia do Pai.
Onde está o meu?
Onde estou eu?
Bebo do copo cheio. Fica vazio.
Estou ao balcão. Não sei quanto tempo vou ficar aqui. Não sei se quero ficar aqui. Nem sei se quero ir embora. Não sei nada. Não quero saber nada.
Só queria não ser nada. Não ser Pai. Nem ser Filho. Nem Irmão. Nem ser Eu.
Pego no revólver. Pego no revólver e faço girar o tambor. Tem balas, o revólver?
Olho o revólver na minha mão. O tambor a girar. E penso que tenho na minha mão a minha vida; E penso que tenho na minha mão o disco dos Beatles.
Tomorrow Never Knows. E é isto. Amanhã logo se vê. Porque não agora?
E o tambor do revólver gira. Gira no revólver. Não sei se o tambor tem balas. Não sei já o que tenho na mão. Se a minha vida. O amanhã. Todo o lado.
Onde é que está o meu Pai?
Onde é que estou eu?
E tu? E vocês?
Pode isto acabar bem?

[escrito directamente no facebook em 2019/03/19]

Ainda Aqui Estou…

À minha frente, lá para os lados do mar, onde o dia morre, o Sol estava encarnado. Vivo. Encarnado vivo. O céu, à volta, estava cor-de-rosa.
Mas não era um encarnado vivo e um cor-de-rosa daqueles que antecipa um dia seguinte de pleno Verão.
O encarnado do Sol era mesmo vermelho. Um vermelho sangue.
Eu ouvia um barulho. Não sabia bem que barulho. Era assim uma coisa metálica que entrava pelos ouvidos mas ficava na cabeça. Não saía. Era assim como as televisões quando não estão sintonizadas. Aquela estática, como chuva miudinha. Tzzzzzzzzzzzz. Uma coisa assim. Só que não ia embora.
Pensei que tinha ficado com água nos ouvidos no banho. Ou que era cansaço. Sentia-me cansado. Sentia-me com se tivesse acabado de correr a maratona. Acabei por pegar num cigarro. Para relaxar. E relaxei. Fumei o cigarro enquanto via aquela toranja fixa no céu, lá ao fundo. Como se estivesse a olhar para mim. Um olho pineal.
E foi então que aconteceu.
Primeiro foram os pássaros. Começaram a cair do céu. Como pedras. Não sei se estavam mortos. Não me aproximei de nenhum. Mas pareciam. Provavelmente estavam. Pareciam tiros, ao cair. Entravam em mim, por cima daquele barulho que já lá estava, mais baixo mas persistente.
Depois foram os cães e os gatos. Eu vi o cão cá de casa meter o rabo entre as pernas, entrar na casota e ficar de costas para a entrada. Ele que dava mil-e-uma voltas antes de deitar-se com o focinho virado para a rua. E o gato enfiou-se atrás do sofá. Nunca mais o vi.
Em seguida foi-se a energia. Todos os aparelhos eléctricos aqui de casa perderam a luzinha encarnada de stand-by. Vi dois carros a pararem lá em baixo, na estrada. Lá ao fundo, nas montanhas, caiu uma avioneta. Em silêncio. A queda em silêncio. Só se ouviu a explosão do choque. Quando caiu na terra. E explodiu.
A ventoinha de vento que tenho aqui no quintal, parou de girar. Não havia uma aragem.
Ouvia os homens dos carros, lá ao fundo na estrada, a perguntarem o que é que se estava a passar. Não se ouvia mais som nenhum. Parecia que estávamos sozinhos no mundo.
Finalmente aquele sol encarnado pôs-se, lá no horizonte. O cor-de-rosa deu lugar ao negro. Nunca tinha visto uma noite assim. Não se via nada. Nem as estrelas. Nem as minhas mãos. Nem a ponta do meu nariz. Fiquei quieto. Não me mexi. Fiquei à espera. Não sabia do quê. Mas fiquei à espera.
Aos poucos comecei a ver contornos. Contornos de mim. Depois contornos das coisas. Era como um desenho bidimensional feito em negativo, riscando branco sobre uma folha preta. Era assim que estava o mundo.
Os homens dos carros lá do fundo começaram a subir a ladeira para vir ter comigo. Estavam assustados. Como eu.
E foi então que o preto se tornou branco. E, novamente não via nada. Não via as minhas mãos. Não via a ponta do meu nariz. Só via branco. Como se tivesse mergulhado num copo de leite, só que de ar.
Deixei de ouvir os homens.
Sentei-me no chão debaixo de mim. Cruzei as pernas. Fiquei em posição de lótus. À espera. À espera de qualquer coisa.

Ainda aqui estou.

Não sei há quanto tempo aqui estou, mas ainda aqui estou.

Ainda.

Ainda…

[escrito directamente no facebook em 2018/09/17]

Não Tenho Tempo!

O raio do cão que não se cala.
Está tudo nervoso.
O céu está vermelho. Principalmente a Oeste. Vermelho. Quase púrpura. Com uns pedaços de nuvens rasgadas e espalhadas por lá a torto-e-a-direito, sem ordem nem lógica nenhuma a não ser estarem por lá, assim, aos pedaços, espalhadas.
Mas chove. Chove muito. Chove aqui e para Leste. Como se Deus tivesse penteado o mundo de risco ao meio e decidido que ali iria haver um céu cheio de restos de Sol queimante e aqui um céu diluviano cheio de grossas gotas de chuva a tombarem na terra.
Não chove em cima do cão, que tem uma espécie de telheiro por cima da casota e está lá abrigado. Mas não se cala, o filho-da-mãe, chato-como-o-raio.
A mim já me custava o barulho infernal da chuva a cair. O cão está a tornar tudo muito mais doloroso.
Vejo as poças que se formam. As terras começam a alagar-se.
Olho o cão através da janela da cozinha e fulmino-o com o olhar. Disparo-lhe vários tiros imaginados. Acerto-lhe no coração como convém ao amor que, apesar de tudo, lhe tenho. E ele tomba no meu desejo sombrio e estúpido.
A verdade é que acaba por se enfiar no fundo da casota. O focinho recolhido. Olhar assustado. E deixa de ladrar.
Olho lá para fora. Outra vez.
Para o céu.
O mundo parece ter parado.
Não se ouve nada. Vivalma.
Só uma pequena pieira que sai do fundo dos meus alvéolos pulmonares. A asma a dizer que ainda existe. E que estas alterações de tempo, de temperatura, de clima me são fatais.
Abro a porta da rua e saio para o alpendre. Parou de chover. O céu vermelho, quase púrpura, com pedaços de nuvens espalhadas ao acaso, dissolveu-se. Tudo tende para o cinzento. Um cinzento uniforme e final. Desapareceu o Sol, a Lua e as Estrelas. Não há nada lá em cima. Não se ouve nada aqui em baixo.
Estamos no vácuo.
E nesse momento, neste preciso momento, rebenta o mundo num trovão saído do Martelo de Thor. Pareço ter os tímpanos a rebentar. Os vidros da casa estilhaçam. Levo com alguns pedaços em cima. Corto-me. Faço sangue. Mas nem sinto dor. Olho para a casota e vejo o cão com as patas em cima do focinho. O chão treme. Abana. Agita-se como gelatina. Vejo à frente a montanha a abrir-se em duas e um enorme rasgo a seguir encosta abaixo.
Penso que não tenho tempo. Assim: Não tenho tempo! E continuo a pensar Tempo para quê? Não há nada que possa fazer.
Sinto a vida a abandonar-me. O corpo tende para baixo. Os ombros descaídos. As mãos a quererem ir ter com os pés. Tudo me pesa e empurra-me para baixo.
Vejo a terra a rasgar em várias direcções. Um dos rasgos vem para aqui. Aqui para casa. Para mim. À velocidade de um piscar de olhos.
Acendo um cigarro. Deixo o fumo entrar-me nos pulmões. Aproveito-o ao máximo. E digo Que merda!