Eu Vou para Onde For

As janelas do carro abertas. O vento a enrolar-nos o cabelo. A transpiração a escorrer pelas têmporas. Ela com os pés descalços sobre o tablier. A mão a fazer ondinhas fora da janela. A cabeça não-sei-onde. Eu ia com o braço esquerdo pousado na janela aberta e dois dedos a aparar o volante. A mão direita sobre a alavanca de velocidades.
Estávamos a chegar à Praia da Vieira. Os campos desertos. Nem uma árvore. Nem uma sombra. Estava sol. Sol e muito calor.
À entrada da Praia da Vieira, o parque de campismo. Árido. Agreste. Há uns anos ardeu. Agora não há uma árvore. Não há uma sombra. As tendas estão debaixo do sol torrencial.
Entrámos da Praia da Vieira. Eu disse Há muito tempo que não vinha cá. Ela não disse nada. Na realidade, da última vez que cá vim, vim com ela. E a impressão tinha sido a mesma. A Praia da Vieira parece uma feira. Uma feira muito popular. Uma feira cheia de tralhas para venda. Com cartazes a anunciar os preços em desconto. Já parecia e continua a parecer. Passo ao lado do auditório António Campos. Está decadente. Falta manutenção. Passamos de carro junto à marginal. A praia é lá no fundo. Num fundão. O mar é agressivo. Não é nada convidativo. Nem lhe pergunto se quer parar. Passamos em frente ao que fora outrora a Riomar, uma discoteca da minha adolescência quando as discotecas ainda eram as rainhas da noite e casa dos jovens com cio. Quando as discotecas ainda tinham espectáculo de abertura com gelo seco para os efeitos dramáticos. Depois começaram a aparecer as festas da espuma e acabaram com o glamour.
Seguimos para o Pedrogão. À saída da Praia da Vieira ainda dá para ver um parque para auto-caravanas, árido, sem uma árvore, seco, triste. Como é que as pessoas conseguem estar ali? Porque é que os municípios não plantam umas árvores? Não refrescam as terras? O que vemos não deixa antever melhorias. Nem futuro.
Fazemos a estrada Atlântica até ao Pedrogão.
Passamos no que já foi o Pinhal do Rei. Tudo isto ardeu. Nada mudou. Há pilhas de troncos à espera de qualquer coisa. Há árvores carbonizadas em pé, que não sei se estão mortas ou vivas. Há uma tristeza no ar. Faltam pinheiros.
Chego ao Pedrogão. Passei aqui alguns anos de férias na minha juventude. Vomitei em muitas esquinas. Fumei muita droga nas rochas da praia velha. Está melhor que a Vieira. Mas também não está grande coisa. Também aqui não há uma árvore. E as casas estão velhas. Estragadas. Parece que o tempo passou por elas e carregou-lhes nos anos. E há algumas casas que parecem não serem utilizadas há décadas. Há muitas marquises. Por momentos pareço estar no Cacém. Maldita sorte, a minha.
Há gente na praia, aqui no Pedrogão. Também já havia na Vieira. Os chapéus estão espalhadas ao longo do areal. Respeita-se a distância social. Mas depois há grupos de miúdos. Grupos de miúdos a brincar. Enquanto algumas pessoas percebem que estamos no meio de uma pandemia, há outras que acham que é tudo uma fantasia.
Quero parar o carro mas, ao mesmo tempo, acho que estou sem paciência. Ela desperta do seu torpor. Pede para eu encostar o carro. Sai. Vai comprar tremoços e pevides a umas senhoras que parecem vestidas para o Inverno. Traz também um bolo da festa. Eu digo-lhe que não é bem bolo da festa. Que é parecido mas não é. Ela vira-se para mim e diz Vai para o caralho! Eu rio-me. Ela também.
Arranco com o carro. Para onde vamos? pergunto-me em silêncio. Decido seguir em frente. Talvez até à Figueira da Foz. Estamos sem destino. Não temos obrigações. Podíamos ir até ao fim do mundo. Vamos andando e depois logo se vê. Ela já está outra vez com os pés descalços no tablier. Ela vai para onde eu a levar. Eu vou para onde for.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/08]

Cavalgar na Onda

Cheguei cedo de manhã ao Sítio. Dei umas voltas à procura de lugar para o carro. Todos os cantos estavam cheios de carros. Não havia um lugar vago. Era dia de semana e o Sítio da Nazaré estava cheio de gente de fora que tinha ido à caça das ondas gigantes.
Acabei por arranjar lugar já fora da localidade. A caminho do Pinhal do Rei, ao longo da Estrada Atlântica que faz toda a costa junto ao mar.
Voltei a pé até ao Sítio. Mochila às costas. Máquina fotográfica na mão. Desci em direcção ao forte. Mas acabei por não ir até lá abaixo. Estava muita gente. Muita confusão. Odeio confusão.
Optei por um cabeço acima do forte. Via as carecas dos mirones ao longo da estrada até ao forte e noutros cabeços mais abaixo. Mas ali estava bem. Sozinho e com uma boa vista para o mar. Estava toda a gente à espera. Ver as ondas gigantes e as pranchas a cavalgá-las requer tempo e paciência.
Sentei-me numa pedra. Estava sozinho ali naquele cabeço. Como companhia, o som das ondas que rebentavam nas rochas. Tirei uma sanduíche de paio com manteiga da mochila e pus-me a comer enquanto ia olhando as ondas, já grandes e imponentes, para mim, mas ainda não gigantes.
As pessoas continuavam a chegar. Muitas raparigas novas. Muitos rapazes em calções. Estava frio e vento. Mas havia muitos rapazes em calções. Eram estrangeiros. Toda a gente com máquinas fotográficas com objectivas muito melhores que a minha. Senti uma certa inveja. E pensei Sou igual a toda a gente. Inveja. Ciúme. Azedume. Sou um gajo como os outros.
Depois via os casais que circulavam por ali. Os grupos de amigos. E percebia o acentuar da minha solidão. Estava ali sozinho. Gosto de estar sozinho. Mas às vezes não.
No mar andavam as motos de água de um lado para o outro com os surfistas atrás. Estavam à procura da onda perfeita. Ou de aproximações. Mas nada. O mar estava bravo. Revolto. Com muita rebentação. As ondas não eram as ideais para montarem e deixarem-se levar.
Acabei a sanduíche de paio. Guardei a prata na mochila. Limpei a boca as mangas do casaco e acendi um cigarro.
Às vezes penso que fazer surf é como ir à pesca. É preciso tempo. Ter paciência. Esperar. Não sou muito de esperar. Não tenho muita paciência. Mas às vezes tenho que ter.
Passaram duas miúdas pelo meu cabeço. Eram estrangeiras. Há muitos estrangeiros por aqui, agora. Vinham de mãos dadas. Acenaram-me, simpáticas. Olharam o mar dali. Acharam longe. Continuaram em frente.
Caiu-me um pingo na cara. Olhei para cima. Para o céu. Vi cair pingos. Começou a chover. Puxei as golas do casaco para cima. Pus a câmara dentro do casaco. Ao fundo abriram-se alguns chapéus-de-chuva. Mas ninguém arredou pé. Toda a gente ficou onde estava. Iam para onde? Não havia sítio para onde fugirem. Não havia beirais. Árvores. Carros. Ou iam embora, de regresso ao Sítio e aos carros estacionados lá, algures, ou entravam em algum café, ou aguentavam a chuva que aí vinha. Foi o que eu fiz. Aguentei a chuva. Encolhido sobre mim. O cigarro molhou-se e apagou-se. Mandei-o fora. Mandei-o ao mar.
Estranhamente estava a gostar de estar ali. Estava frio. Fazia vento. Chovia. As ondas ainda não eram as melhores para ver uma corrida. Mas o estar ali, sentir o cheiro a maresia, ver o céu cinzento, muito escuro, um céu de fim-de-mundo, e um mar agitado e com muita rebentação que provocava um lençol de espuma junto à Praia do Norte, fazia sentir-me bem como há muito não sentia.
Estes últimos meses tinham sido complicados. Não conseguia trabalho. Estava a entrar na fase de gastar os últimos tostões que tinha escondidos em casa para uma emergência quando caiu este pedido para fotografar as ondas gigantes que se esperava que viessem a acontecer na Praia do Norte.
E ali estava eu. Na Praia do Norte. À espera. À espera debaixo de uma chuvada que, passado pouco tempo, parou como tinha começado.
As nuvens fugiram. O céu cinzento e escuro deu lugar a um céu azul, não muito limpo, mas o suficiente para tornar o dia mais alegre. E pensei que era uma premonição. Aquele dia era um retrato da minha vida. Depois da tempestade, a bonança. E assim ia passando o tempo. A ver se agarrava a esperança.
Entretanto, as ondas começaram a crescer e a vir mais redondas.
As motos de água voltaram a galgá-las.
Agarrei na câmara. Tirei uma fotos. Uma fotos soltas. Do forte cheio de gente. Da Praia do Norte. Da frente urbana da Nazaré brilhante com o sol que despontava.
E então, alguém agarrou uma onda. Comecei a disparar a máquina. Vi a moto a descer a onda para trás e alguém, solitário, a cavalgar a onda. Uma onda grande. Não gigante, mas grande. Grande o suficiente para causar medo. E dar umas grandes fotos. A rebentação perseguia a prancha e o rapaz que lá ia em cima e que se mantinha, sempre, à frente da onda destruidora. A fugir. E eu a disparar a máquina. Estava a tirar boas fotos. E o rapaz mantinha-se na prancha, sem cair, a deslizar pela onda abaixo e para o lado, a manter-se paralelo à terra, a ganhar terreno, a voar nas asas da prancha. A tentar ganhar tempo. E espaço. A fugir à crista da onda e da sua rebentação que começava agora, a ser mais forte. E eu a fotografar. E então, a rebentação apanhou o rapaz e a prancha, envolveu-o e chicoteou-o. Ele fora apanhado. Enrolado na confusão da rebentação que vinha onda abaixo. Eu deixei de fotografar. Olhei para o mar. Para a onda. Para a rebentação. Procurava um ponto negro. Procurava o rapaz. Procurava a prancha. Procurava qualquer coisa que me garantisse a segurança daquele surfista. Olhei. Procurei. Esperei.
Depois vi muita gente a correr para a Praia do Norte. A correr ao longo das arribas. A descer para a areia da praia. Eu agarrei na mochila. Desliguei a máquina. E virei costas ao mar. Não ia tirar mais fotografias naquele dia.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/16]

Um Grito Molhado

Ela vem a conduzir o carro, devagar, pela estrada atlântica, ali entre o Pedrogão e a Praia da Vieira, na Beira Litoral. É Verão. Está calor, mas o tempo está cinzento e a estrada não tem movimento algum.
Acompanha-a o barulho do motor e do movimento do carro a bater naquela estrada rugosa, cheia de veios de raízes de árvores que a atravessa de lado a lado.
Não vê o mar, só pinheiros e dunas de areia, mas imagina-o, sabe que está ali, do outro lado. Sente-o.
A dada altura pára o carro na berma da estrada e sai, rápida. Ampara-se com uma mão ao capot e vomita. Quando limpa a boca com as mangas da camisa, limpa também as lágrimas. Olha para a duna e corre para lá e começa a subi-la. Ao chegar ao alto vê o mar e deixa-se ir a correr para ele. Senta-se à sua beira. A ondas aproximam-se mas não lhe tocam.
É então que começa a chover. Primeiro uma chuvinha miudinha, molha-tolos. Mas depois uma bátega, uma chuva furiosa, violenta. As ondas do mar crescem e tornam-se mais agressivas.
Mas ela continua ali sentada, sob a chuva, a ouvir o mar a gritar-lhe.

[escrito directamente no facebook em 2017/08/22]