Um Certo Tédio

Sentei-me à mesa. À minha frente um prato com meio frango assado e umas batatas fritas de pacote, com sabor a presunto. Ao lado um frasco com maionese. À frente um jarro com vinho tinto e um copo já devidamente servido. Lá mais ao fundo a televisão ligada passava um filme sobre a Gata Borralheira. Depois haveria de vir o telejornal. Eram as minhas companhias de Natal.
Bebi o copo e mais outro antes ainda de tocar no frango. Estava com sede. Sentia a garganta seca.
Comecei a comer o frango com as mãos. Primeiro a perna, depois a asa e, por fim, comecei a depenicar os outros pedaços que ia acompanhando com as batatas fritas que enchia com maionese.
Despejei o jarro de vinho num abrir e fechar de olhos.
O telemóvel apitou o sinal de mensagem.
Levantei-me e fui buscar mais vinho. Tive de abrir outra garrafa que despejei para o jarro.
Voltei a sentar-me e a depenicar pedaços de frango.
Estava sozinho. Mas porque não haveria de estar? Esta noite era só mais uma noite. Uma noite como todas as outras. Como todas as outras noites que passo sozinho. Porque haveria esta de ser diferente?
Ouço os barulhos nos apartamentos por cima e por baixo de mim. Imagino a quantidade de família ou amigos lá enfiados. A barulheira, a música, as conversas, algumas em altos berros. As crianças a correr ao longo dos corredores. A abrir presentes. Os adultos a gostarem mais que as crianças. Umas recebem mais que outras.
Penso naquilo que não devia pensar. Penso em parvoíces. Penso no porquê de estar sozinho. Penso…
Vou à varanda fumar um cigarro. Vejo pessoas nas outras varandas. Alguns fumam. Outros conversam. Um casal beija-se às escondidas. Algumas pessoas fumam sozinhas um cigarro e olham para mim como eu olho para elas.
Volto a entrar na sala. Ouço o sinal de mensagem a chegar ao telemóvel.
Sento-me no sofá a olhar para a televisão. Não sei o que é que está a dar. E adormeço.
Quando volto a acordar a televisão continua ligada, numa eterna companhia. Acabou-se a barulheira nos outros apartamentos. Volto à janela para fumar um cigarro, e antes de sair para fora, volto a ouvir a chegada de uma mensagem ao telemóvel. Mas não vou ver o que é. E saio. Já não há ninguém nas outras varandas. É tarde. Parece que estou sozinho no mundo. E não sinto nada. Nem medo nem tristeza. Talvez um certo tédio. E alguma impaciência.
Volto a entrar em casa.
Entro no quarto, dispo-me e entro na cama, nu.
Ouço, outra vez, o sinal das mensagens. Puxo o edredão para cima da cabeça e espero voltar a adormecer. E não voltar a acordar tão cedo.

[escrito directamente no facebook em 2017/12/24]

Estou Sozinho no Mundo

Está calor neste início de noite. O Verão teima em não ir embora. O Outono está assim um pouco para o choninhas, sem força para se impor. Mesmo a chuva que se anunciava foi quase uma amostra gratuita em revista de moda, só para não perdermos o norte e sabermos como ela é. Até a temida Ophelia não passou de uma mera miragem anunciada, mas nunca vista.
Fui até à beira-rio. Há algum tempo que não passava por lá. As comportas foram abertas e o rio é agora quase só um fio-de-água que escorre por ali abaixo.
Subi a ponte e deixei-me lá estar a observar um pouco. A luz a cair. Os miúdos que vêm da escola em grupos enormes e muito barulhentos. Tão barulhentos que abafam o barulho do parque de skate, logo ali, ao lado do rio.
Casais de namorados de mãos dadas. Senhoras com carrinhos de bebé. Duas crianças aos chutos numa bola. Alguém que passa de bicicleta e faz slalom para se desviar das crianças, da bola e dos carrinhos de bebé.
Uma rapariga está sentada no muro sobre o rio a comer um gelado. No fim, manda o papel do gelado para o rio. A pouca água leva-o leito fora. E eu, cá de cima da ponte, fico a vê-lo aproximar-se e a desaparecer debaixo de mim.
De repente, sinto um calafrio pela coluna acima. Sinto chegar uma certa angústia. Aparecem algumas lágrimas nos olhos que tento parar a custo. E penso Mas o que é isto? Porque estou assim? E percebo. Tanta gente e ninguém. Em todo este tempo que tenho estado aqui na ponte sobre o rio, tenho visto tanta gente passar e não conheço ninguém. Ainda não abri a boca. Ainda não falei. E penso que estou sozinho no mundo. E tenho medo. E, aqui, nesta altura em que sinto o medo, uma lágrima consegue escapar e cai pela face abaixo. Mas deixo-a ir sossegada.
A luz já caiu.
Pego no telemóvel. Olho para o ecrã. Mas não está lá nada que me interesse. Nenhuma chamada não atendida. Nenhuma mensagem. Também não tenho nenhuma chamada para fazer. Ponho o telemóvel no bolso das calças e saio de cima da ponte. E penso Quando é que virá a merda do Inverno?

[escrito directamente no facebook em 2017/10/26]