Uma Mulher de Burca Passou

Está calor. Abro a janela para ter um bocado de vento em casa. Mas a aragem que corre é tão suave que mal se nota. Tiro a camisola e deixo-a cair no chão. Descalço as sapatilhas. Não me baixo. Com a ponta de uma tiro a outra. Depois é o pé que descalça a segunda sapatilha. Vão ficando pelo caminho. Tiro as calças. Fico em cuecas. Deixo-me cair no sofá. Deito-me. A cabeça num braço do sofá. Os pés no outro. Olho para o tecto. Penso Está um calor do caralho! E ainda não é Agosto. Pois não, ainda não é Agosto e já destilo. Transpiro bastante. Tenho de emagrecer. Tenho de cortar o cabelo. Tenho de fazer a barba. Tenho de comprar roupa mais fresca. Tenho de comprar uma ventoinha.
Estou deitado no sofá a olhar para o tecto. E sinto as costas a colarem-se ao sofá. Sinto as costas a aquecer. Penso em ir buscar um lençol para colocar em cima do sofá. Penso em ir mas não vou. Porra! Está demasiado calor para me mexer.
Olho para o tecto. Tenho os braços cruzados atrás da cabeça. O tecto parece derreter como um gelado sob o sol das três da tarde em pleno Alentejo. Mas deliro. O tecto não está a derreter. Invento estas estórias para me ajudar a passar o tempo e fazer esquecer o calor que me abate.
A vontade de fumar um cigarro é imensa. Finalmente, acabo por me levantar. Vou buscar um cigarro e vou fumar para a janela. Olho a rua. Há pouca gente lá em baixo. Há pouca gente a cruzar estas ruas sob este calor. No entanto, há quem o faça. Dois miúdos. Um tipo de bicicleta. Uma velhota agarrada a uma bengala. Um pé a arrastar o outro. E depois vejo uma mulher de burca. Tento imaginar como é que ela se há-de sentir debaixo de toda aquela roupa. Toda tapada. Imagino que trará calças debaixo do vestido. Imagino aquele corpo transpirado. Cansado. Morto. Imagino aquele corpo de mulher a manter viva uma tradição. Imagino aquele corpo morrer por uma tradição. Mas não consigo. A minha imaginação não vai tão longe.
Ao contrário do que estava à espera, o cigarro sabe-me bem, mesmo com todo este calor. Mas o corpo zanga-se comigo por estar ali em pé. Em pé a receber aquele ar quente que vem da rua. A corrente de ar é quase inexistente.
Penso nas gentes que trabalham sob este sol. Mas logo quero esquecer estes pensamentos. Não quero deprimir. Já me basta o calor. Não preciso de um momento de sociologia.
Acabo o cigarro. Disparo a beata com os dedos como se fosse um berlinde para conseguir chegar à varanda do vizinho em frente. E consigo. A beata assalta-lhe a varanda. Às vezes sou mesmo nojento. Não gosto daquele filho-da-mãe. Há muita gente de quem não gosto. Tenho de parar com estes ódios. Está demasiado calor para odiar. Para amar também.
Entro em casa. Olho para o sofá. Páro. Dou meia volta e vou ao armário. Trago um lençol branco. Abro o lençol sobre o sofá. Agarro no comando da televisão e ligo-a. Deito-me. A cabeça num braço do sofá. Os pés no outro. Ponho num canal nacional. Um programa da tarde sobre conversas de almanaque. Pode ser que adormeça. Quando estou muito cansado e com muito calor não consigo adormecer. Talvez estas conversas me embalem.
Enquanto tento fechar os olhos, penso naquela mulher com burca. Em todas as mulheres com burca. E penso que as tradições só servem para manter uns em cima dos outros. Uns a mandar nos outros. Uns a matar outros. Acho que é por isso que não gosto quase de ninguém. Às vezes, nem de mim.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/02]

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Eu Ia, mas Voltava. Voltava Sempre

Saía a correr da Faculdade, com a mochila cheia de roupa suja. Chegava à Casal Ribeiro a transpirar de tanto correr e ficava nervoso a arrastar o passo, centímetro-a-centímetro, na fila para comprar o bilhete para o quase-expresso. Às vezes já não havia lugar. Tinha de esperar por outro horário. No meio dos cheiros tóxicos do gasóleo, do barulho, das pessoas transpiradas como eu, dos gritos, das conversas tontas e aos berros, dos motores agressivos das camionetas, das sandes secas de fiambre tipo york e queijo de barra e das imperiais mortas.
Na hora de ponta podia demorar-se uma hora a sair de Lisboa.
Em Aveiras acabava a auto-estrada. Parava-se no Pôr-do-Sol. Às vezes no Bigodes. Ou no Dom Abade. Comia uma sandes de panado. Uma mini. Fumava no autocarro. Naquele tempo ainda se podia fumar nos autocarros. Era uma festa de fumo de cortar à navalha. Por vezes nem via o condutor. Por vezes aviava-se um charrito. As janelas abertas. Não havia ar-condicionado.
Vinha pelo país profundo. Passávamos ao lado do Cartaxo. Vínhamos pelas Caldas da Rainha. Por Rio Maior. Horas e horas a fio dentro do autocarro. O nervoso. Nunca mais chego. Estou atrasado.
A chegada a Leiria. Passar pelo Panaceia. Pelo Amadeus. Largar lá o saco da roupa suja que a mãe iria lavar. Mais tarde. Era tempo de beber uma imperial. Comer uns tremoços. Encontrar os amigos. Os que tinham ido para o Porto. Os que tinham ido para Coimbra. Os que não tinham ido para lado nenhum. Todos tínhamos novidades. Novas músicas. Novas bandas. Novos grupos portugueses. Novos concertos. E as notas, pá? Ah, sei lá, meu!…
Jantávamos por lá, pela cidade. Íamos às Cortes. Ao Drácula e ao Pião. Íamos ao Salvador. Ao Pátio das Cantigas. A outros sítios que não me lembro. Comíamos e bebíamos e conversávamos tertúlias culturais. Tínhamos vontade. E desejo. E capacidade.
Criávamos conhecimento. Novos namoros.
Dávamos uma fugida até à Rua Direita. Fumávamos um charro às escondidas. Este veio de Amesterdão, pá!
Ouvíamos à porta É só para clientes habituais. Mas não era para mim. E não era só em Lisboa. Leiria também tinha a sua selecção. Querer entrar era um desejo. Entrar era só para quem podia.
E passava-se o fim-de-semana nisto. Em coisas assim. Numa grande rotação. O que a idade permitia. O que o corpo conseguia. O desejo. A vontade. As coisas novas. O que estávamos a descobrir. E trazíamos tudo para a cidade. Trazíamos a gasolina que alimentava a nossa pequena cidade.
Leiria podia ser provinciana, mas conhecia coisas. As coisas que os leirienses que andavam pelo mundo traziam.
No final de Domingo, às vezes ainda de ressaca, lá ia com a roupa lavada, passada-a-ferro e bem dobrada na mochila, à vezes com um segundo saco com tupperwares e comida congelada. Eram as saudades de casa. Tornadas feijoada. Dobrada. Rancho. Uma morcela de arroz para assar lá na capital.
A semana servia para descansar dos fins-de-semana cheios e intensos. Armazenar conhecimento e estórias para vir depositar na terrinha que, às vezes, te cospe e deita fora. Mas cagas nisso.
É que é de novo Sexta-feira e estás com vontade de regressar e encontrar tudo como tudo era.
Até que tudo muda.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/15]