A Mãe

Ela acordava todos os dias às sete da manhã. Mesmo aos fim-de-semana, dias em que podia descansar um pouco mais. Mas habituara-se. Levantava-se às sete. Casa-de-banho. Duche. Vestia-se. Secava o cabelo, mas nem sempre, à vezes gostava de ir com ele molhado, tombado sobre a cara, a arrefecê-la. Passava pelo quarto do filho mais novo Acorda, vá! Está na hora! Vá, vamos! E ia preparar o pequeno-almoço. Quando o filho mais velho estava de regresso a casa, para lavar roupa e buscar comida, levava-lhe uma caneca de leite com chocolate, que ele adorava. Mas era raro vir a casa. Estava lá para a universidade. A estudar. A estudar o que ela não pode estudar. Ou não quis? Às vezes já nem sabia bem os contornos da sua própria vida. Sentia-se cansada.
Depois de preparar o pequeno-almoço, preparava também o almoço, caso o filho mais novo viesse almoçar a casa. Ela vinha também. Tomar conta dele. Garantir que ele se alimentava. Que nada lhe faltava. Mas era chegar, comer e partir de regresso ao trabalho. Se não viesse a casa almoçar, arranjava uma sandes e umas peças de fruta, que colocava num tupperware, e comia lá no trabalho. Mas não gostava de comer no trabalho. À frente dos outros. Ela até gostava de beber um copinho de vinho à refeição. Mas não à frente dos colegas. Não no trabalho. Não lá.
Antes de sair, e ela era sempre a primeira a sair de casa, ainda ia ver se o filho já estava levantado. Dava comida aos gatos. Dava comida ao cão. Limpava os cocós do cão. Às vezes mudava a areia aos gatos. De Inverno ainda tinha de limpar a geada no vidro do carro. E então, lá ia. Trabalho. Um trabalho sem chama, que não a motivava, mas que lhe pagava as contas de mãe solteira.
Regressava ao fim da tarde. Cansada. O filho mais novo no quarto. Talvez a estudar. Talvez a jogar. Talvez na internet. Aspirava a casa. Limpava o pó. Em certos dias fazia máquinas de roupa. Havia sempre muita roupa para lavar. E para secar. De Inverno era sempre uma chatice para secar a roupa. Não tinha máquina de secar (e onde é que a ia pôr?) e tinha de andar sempre a improvisar estendais lá por casa. Às vezes parecia-lhe que a casa era uma barraca de circo. Ficava envergonhada quando o filho mais novo levava um colega lá a casa e havia roupa estendida. Por isso estava sempre a perguntar Vem alguém contigo cá a casa, hoje? Mas o filho nunca sabia. Ou não respondia. Era adolescente.
À noite, jantava ela e o filho mais novo. Ela ainda tentava saber como tinha corrido o dia do filho. Ele respondia-lhe por monossílabos. Às vezes sentava-se e levantava-se sem abrir a boca. Mas mesmo assim, era melhor companhia que o mais velho. O mais velho quando vinha a casa, era raro jantar. Tinha sempre jantares com os amigos. Mas quando jantava, as poucas vezes que jantava, enfardava qualquer coisa rápido por estava sempre com pressa, sem tempo, atrasado.
Ela estava sempre adiantada nas refeições. Sempre a pensar o que fazer para o jantar de amanhã, para o almoço de depois de amanhã. Era boa cozinheira. Com boa mão. Com olho para os temperos. Mas era raro o dia em que o filho gostava. Não queria. Não tinha fome. Estava cheio. E depois ela ia descobrir papelinhos de chocolates e embalagens de gomas vazias no quarto dele.
Quando, no fim do enorme dia, e depois do filho estar na cama, ela se sentava, finalmente, no sofá, em frente à televisão, adormecia.
Estava cansada.
Já não via nada. Era embalada pelo som baixo da televisão e, normalmente, adormecia por ali, pelo sofá. Às vezes, a meio da noite, acordava para ir à casa-de-banho e então sim, ia para a cama, dormir duas ou três horas mais aconchegada.
Às vezes dava consigo a pensar se não devia ter casado de novo. Ou pelo menos arranjado um namorado. Ou alguém para mandar uns amassos. Corava quando se imaginava na cama com um homem. Não!, pensava. Estou bem assim. Aceitava a sua solidão. Vivia para os filhos. Para a casa. Para ir seguindo a vida. Um dia após o outro. Ainda houve uma altura em que chegou a juntar dinheiro para ir passar uns dias de férias ao Algarve. Talvez ao sul de Espanha. Parece que é mais barato, dizia a si própria. Mas depois… O carro, o seguro do carro, os constantes aumentos do preço da gasolina, alguns arranjos necessários lá em casa, umas sapatilhas para o filho mais novo, umas calças para o filho mais velho e acabou por desbaratar tudo o que tinha guardado.
A sua única tristeza era a falta de afecto dos filhos. Não que fossem maus, que a tratassem mal, que lhe faltassem ao respeito. Não! Nada disso! Mas sentia-lhes a falta de um abraço. Um aconchego. Um beijo. Um pouco de ternura. Não que fossem pessoas frias. Ela é que era, simplesmente, a mãe.
Um dia o filho mais novo acordou já passava da hora de ir para a escola. A mãe esquecera-se de o acordar? Ou fora-se embora e deixara-o na cama? Levantou-se rápido e vestiu-se. Nem tomou banho. Passou pela casa-de-banho para urinar e depois deu um pulo à cozinha, antes de sair de casa, para beber um copo de leite rápido. Foi ao chegar à cozinha que viu a mãe, sentada à mesa, com uma chávena de café, já fria, à frente. Mãe! Estou atrasado! Não me acordaste!, mas a mãe não respondeu. Nem se mexeu. Mãe! Mãe!, insistiu. Aproximou-se da mãe. Colocou-lhe a mão no ombro. Ela não se virou. Agarrou-lhe no braço. E ele caiu, inerte.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/18]

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Olha, Vai à Merda!

Estou à janela e fumo um cigarro. Vou mandando a cinza lá para fora, pela janela aberta. Reparei que a vizinha de baixo tem roupa pendurada no estendal, mas não me preocupo. E continuo a lançar a cinza do cigarro queimado pela janela fora. Provavelmente vai cair em cima da roupa lavada. Com um pouco de azar, vai fazer um ou outro buraco numa peça de roupa lavada. Mas não quero saber. Não me preocupa.
Mal acabo um cigarro, acendo outro na beata do primeiro.
Estou nervoso. Acho que furioso mesmo. Estou a conter-me. Mas a libertação da tensão está nas cinzas que vou fazendo tombar sobre a roupa estendida da vizinha de baixo.
Lá ao fundo, na rua, vejo passar uma rapariga com um carrinho de dois bebés. E pergunto-me como é possível sobreviver à invasão de dois pequenos ditadores a exigirem, ao mesmo tempo, atenção por fome, cocó, sono, bronquiolites, colo ou rabuje mesmo. E isto constantemente. Saio mais para fora da janela para ver a rapariga a empurrar o duplo carrinho até desaparecer, e reparo que a vizinha de baixo está a retirar a roupa do estendal enquanto vai refilando mais ou menos alto, e eu acho que é para mim. Mas não quero saber.
Quando estou a acender outro cigarro, vejo passar a voar, a um dedo de distância do meu nariz, um pano de cozinha, encharcado, que vai embater num pedaço do vidro da janela fazendo um som obsceno quando embate. E é aí, e só aí, que percebo porque é que estou nervoso e a fumar tantos cigarros. Ela está ali, no meio da cozinha, aos berros para comigo, com os olhos cheios de lágrimas, toda babada do choro, com um ar desesperado e ao mesmo tempo furioso porque não estou a ligar nenhuma ao que me está a dizer.
Foi como que um despertar para um pesadelo.
Acabo de acender o cigarro e passo por ela, ignorando a sua fúria, de que desconheço o motivo, para sair de casa, enquanto lhe digo Vai à merda!, coisa que ela nem ouviu com os berros que disparava na minha direcção e que eu também não conseguia ouvir.
É quando estou já no elevador a descer o prédio que penso que somos todos muito inteligentes e pensantes e adultos e socialmente responsáveis e correctos e, ultimamente, muito politicamente correctos, defendendo os mais fracos e as mulheres e as crianças e os mais pobres e depois, no meio de uma relação, tornamos-nos os animais que afinal nunca deixámos de ser.
Entretanto o elevador começa a apitar por eu ir a fumar. E eu digo-lhe Vai à merda tu também.

[escrito directamente no facebook em 2017/10/23]