Dos Fracos Não Reza a História

A história é contada pelos vencedores. Pelos fortes. Dos fracos não reza a história. Os fracos não têm história. Os fracos não existem. Só existem os vencedores. Os fortes.
Eu sou um fraco. Quebrado. Destruído. Mas eu conto a minha história. Vou contando a minha história. Vou contado a história de um falhado, perdido na voragem gananciosa da cidade, mas que está aqui, vergado, mas está aqui, a dizer que está aqui. Porque, afinal, os vencedores precisam dos vencidos para existirem. E eu estou aqui. Só existem por mim. Porque eu vos garanto existência pela minha derrota.
Acendo um cigarro. Puxo o fumo para os pulmões. Travo o fumo. Mas não aguento muito tempo. Tempo nenhum. Também os meus pulmões estão falhos. Tudo em mim falha. Mas sigo em frente. Continuo a fumar. Indiferente aos gritos da minha fraca respiração. Não importa que eles parem. Não tenho porque continuar a respirar. Eles vão funcionando até deixarem de funcionar. Não é assim com tudo?
Arrasto-me pela rua escura. Os prédios altos não deixam cá chegar a luz do dia. Não deixam cá chegar o calor do sol. Cheira a mofo. A humidade. Cheira a mijo. Vejo passar uns ratos junto à parede. Uma velha mija num canto, abaixada, coberta pelo pano largo da saia rodada. Não a olho e ela agradece. Conhecemos os códigos.
Vejo um puto a cheirar cola. Apetecia-me gritar com ele. Arrancar-lhe o saco de plástico das mãos. Dar-lhe um par de estalos e depois levá-lo a comer um Happy Meal. Mas sigo em frente. Não faço nada do que devia fazer. Baixo a cabeça. Uns rapazes novos, ainda com esperança na vida, descarregam um camião nas traseiras do Centro Comercial. Mais tarde irão lá gastar o dinheiro que ganharam a descarregar o que lá irão consumir. Que mundo de merda.
Olho mais à frente. O tipo está cá fora a fumar um cigarro. Eu deito fora o meu. Aproximo-me dele. Silencioso. O silêncio dos que não existem. O silêncio de quem não tem história. Na mão uma navalha. Levanto a mão. Levanto a navalha. Faço-a deslizar ao longo do pescoço. Abro-lhe um rasgão. Apanhado de surpresa leva a mão ao pescoço mas não lhe serve de nada. Já é tarde. Tarde para tudo. O cigarro cai-lhe da mão. O sangue jorra às golfadas e ele também deixa de existir enquanto desliza para o chão. Eu tiro-lhe o telemóvel do bolso das calças. Coloco-lhe o dedo, que limpo às suas calças, no telemóvel e ligo-o. Aproximo o telemóvel da fechadura electrónica e entro no Banco pelas traseiras. Faço a visita completa a todos os gabinetes do Banco. Sou invisível. Ninguém me vê. Não existo. Vou apanhando todas as poucas notas que vou encontrando. Nas gavetas. Nas carteiras dos funcionários. Nas caixas. Mesmo debaixo do nariz de toda esta gente que não me vê. E saio. Saio com os bolsos forrados com algumas notas que não são muito, mas irão dar para alguma coisa. Para ir vivendo no meu canto.
A história é contada pelos vencedores. Pelos fortes. Dos fracos não reza a história. Os fracos não têm história. Os fracos não existem. Só existem os vencedores. Os fortes.
Eu sou fraco. Mas vou contando a minha história para que a história dos vencedores não seja a única história a ser aprendida. Porque os fracos também têm história. Uma história que quer ser escutada.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/29]

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No Vale Furado

Desci ao Vale Furado. Era Domingo. Dia de descanso. Estava calor. Fui à praia. Ao Vale Furado.
Cá de cima olhei lá para baixo e suspirei. A praia é muito boa mas, o que tenho de descer e, mais tarde, subir, é um drama. A praia do Vale Furado fica lá em baixo, a meio caminho do Inferno. A descer pequenos degraus feitos na encosta. Alguns em cimento. Passamos por casas construídas, sabe-se lá como, naquelas encostas íngremes que o fogo já beijou há dois anos. Mas ainda por lá se vêm os restos do incêndio. Um verde que não regressou. Árvores carbonizadas nunca cortadas. Mas o que impressiona mais são mesmo as falésias. O Vale Furado fica lá em baixo. Espreito do pequeno e arcaico miradouro para a quantidade de gente que se espalha ao longo de uma praia que é pequena junto às arribas, junto ao caminho vencido ao penhasco para acesso, mas que depois ganha toda a dimensão até à Praia do Norte onde os surfistas arriscam a vida a desafiar Deus.
Suspirei fundo. Suspiro fundo sempre que desço ao Vale Furado ao pensar no que vou ter de subir no regresso. Dou uma olhada ao Mad e penso que, no regresso, irei lá beber uma cerveja, comer uns tremoços e recuperar as forças gastas a subir desde lá do fundo.
Desci. Estendi a toalha. Fui ao mar. Mergulhei. A água estava boa. Fria como sempre. A costa Atlântica nunca me deixa ficar mal. A água do mar está sempre fria. Sinto-a nos ossos, mas gosto. Gosto de a sentir a fustigar-me. Regressei à toalha. Estendi-me ao sol. Primeiro de costas. Depois de frente. E, cada vez que secava, repetia a operação. Mergulho. Duas ou três braçadas. Regresso ao bronze. Por vezes dormito. Ouço as vozes da praia muito ao longe, quase um embalo. Ali nunca há muita confusão. Mesmo quando está cheia, como hoje. Para ali vai gente que procura algum recato. Alguma calma. Alguma tranquilidade. Mas há famílias. Às vezes até cães. Mas não há música. Ali consegue-se ouvir o barulho das ondas a bater na areia. E sinto-as subir, lentamente, até me baterem nos pés e obrigarem-me a chegar um pouco mais para cima na areia.
Era já final de dia. Estava na hora de ir embora. A cerveja estava à minha espera no Mad. Deitado de costas, encolhi o corpo para despir os calções molhados, com que tinha ido ao banho, para vestir uns calções secos. E senti. Quando encolhi as pernas para despir os calções e ficar nu, ali no momento imediatamente antes de conseguir enfiar os calções secos, senti o estalo. Parecia uma pancada seca. Algo acontecera nas minhas costas. Uma dor horrível fez-me gritar Foda-se! em altos berros. Fiquei assim encolhido, nu, com os calções secos na mão, sem me conseguir mexer.
Fui esticando, devagar, as pernas até ficar estendido na toalha. Mas estava cheio de dores. Pedi ajuda, ao lado, para vestir os calções. Voltei a pedir ajuda para me levantar. Foi muito difícil, levantar-me da toalha. Não me consegui baixar para a apanhar e sacudir. Tive de voltar a pedir ajuda. Não conseguia apanhar a toalha nem os chinelos.
Comecei a caminhar devagar ao longo da areia para junto do sopé da encosta. Mas as dores eram imensas. Eu estava vergado sobre mim. Levava uma mão nos ombros dela. O meu peso sobre os ombros frágeis dela. E disse Não posso continuar. E deixei-me cair devagar na areia. Fiquei de joelhos. Dobrado. Não conseguia virar-me. Não conseguia sentar-me.
Ela foi pedir ajuda aos nadadores-salvadores da praia. Eles vieram, solícitos. Tentaram levantar-me. Um de cada lado. Mas eu não conseguia erguer o corpo. Voltaram a deixar-me no chão. De novo de joelhos. Dobrado sobre mim. Os nadadores-salvadores chamaram os bombeiros. Estavam numa praia ali perto e não demoraram a chegar. Mas não conseguiram melhor. Era impossível levarem-me de maca a subir aquele penhasco do Vale Furado. Demasiado íngreme. Demasiado longo. Demasiadas voltas e curvas e curvinhas. Troços muito estreitos.
Os bombeiros sugeriram um helicóptero.
A noite estava a chegar. Eu sentia-me nervoso. Cheio de dores. Queria fumar um cigarro. Queria beber uma cerveja no Mad. Queria ir para casa tomar um banho de água doce e quente. Queria sentar-me no sofá a ver o Trio de Ataque. Queria não estar ali.
A verdade é que não havia grandes soluções. Ainda pensaram fazer-me subir de maca por um guindaste. Um bombeiro sugeriu subir comigo às costas. Mas todas as soluções não eram de facto solução. Era impossível levarem-me lá para cima da maneira como eu estava. E como é que eu estava? Nem sei bem. Estava cheio de dores nas costas, mas ela passava as mãos nas minhas costas e eu não sentia nada. Não conseguia sentir onde é que me doía. Como se fosse uma dor interior. À qual não se conseguia ter acesso. Nem conseguia perceber se era uma dor nos ossos ou nos músculos. Era ali, naquela zona, e doía-me horrores. E eu continuava de joelhos na areia, dobrado sobre mim.
O sol já tinha morrido no horizonte, há já algum tempo, quando, finalmente, se arranjou um helicóptero disponível. Estavam todos a combater os incêndios na zona de Vila do Rei, mas um helicóptero teve de ir a Lisboa e fez um desvio para me acudir.
Fui levantado numa maca para dentro do helicóptero que ficou a pairar lá em cima, por cima da praia do Vale Furado.
Enquanto era puxado só pensava na dor de costas e nem aproveitei para apreciar a paisagem. Mais tarde, depois de tudo passado, iria com certeza ficar irritado comigo por não ter olhado o mar, o horizonte quase a desaparecer na escuridão da noite, o manto das estrelas, as poucas casas nas arribas do Vale Furado e o Mad visto do ar, naquela que seria uma ocasião única. Não, naquele momento só conseguia estar de olhos fechados a pensar no quanto me doíam as costas e que não tinha posição confortável. Até deitado estava desconfortável. E ia amarrado. Detesto sentir-me amarrado. Detesto sentir-me com dores e amarrado e não poder mexer-me e tentar descobrir uma posição mais confortável.
Dentro do helicóptero senti-o a deslocar-se no ar. Ouvi o barulho das hélices a girar com toda a força. Aquilo é uma máquina impressionante.
Fui trazido ao hospital de Santo André.
Lembro-me ainda de ter aterrado no heliporto do hospital de Leiria. Depois devo ter adormecido. Não sei o que se passou. Está tudo em branco.
Acordei horas mais tarde.
Estou deitado numa cama especial de barriga para baixo. Há um buraco onde tenho enfiada a cara. A cabeça está presa. Não me mexo. Ao fundo, à frente da minha cara, tenho o iPad. Falo com a SIRI. E começo a ditar-lhe uma história para publicar no Facebook e, mais tarde, no blog Estórias da Violência. E começo assim Desci ao Vale Furado. Era Domingo. Dia de descanso. Estava calor. Fui à praia. Ao Vale Furado.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/21]

O Telheiro

Um pouco mais acima na rua onde eu vivo há um antigo telheiro abandonado. É um telheiro em que metade do tecto já desabou. Duas paredes de madeira ainda se conservam em pé. O mato cresce à volta e lá por dentro, sem que alguém cuide dele. Não sei de quem é o telheiro ou o terreno onde está. Nem sei se é terreno baldio ou da junta. A verdade é que nunca vi ninguém cuidar do telheiro ou do terreno. Morre ao Deus-dará.
Mas é um telheiro com muita frequência.
Durante o dia são os miúdos das escolas das redondezas. Faltam às aulas e vão para lá fumar umas ganzas. Jogar à Verdade ou Consequência. Trocar beijos. Mexer uns nos outros por cima das camisolas.
Durante a noite são os namorados. Os amantes. Já vi ir para lá muito filho-de-família aqui da terra. Até os pais deles. E as moças aqui da terra. Tudo muito em segredo. Tudo muito secreto. Por vezes tombam uns nos outros. Os que chegam e os que partem. Fingem que não se vêm. Que não se conhecem. Que não estão lá. Acabam por se encontrar todos na igreja, na missa de Domingo. Eu sei porque os vejo a sair da igreja. Vejo-os a sair da igreja quando vou comprar um frango assado na churrasqueira frente ao adro.
De madrugada são os dealers. Vende-se de tudo. Compra-se de tudo.
O mais maravilhoso nisto é que, no meio de tanta actividade, diária e nocturna, não se dá por nada. Não fazem barulho. São discretos. Silenciosos.
Mas não é nada comigo.
Ou não era.
Não era até à noite passada.
Ontem à noite estava no alpendre a fumar um cigarro. Vi chegar um carro. Vi sair um homem do carro. Vi sair uma mulher do carro. Vi-os subir até ao telheiro. E pensei Com um carro desses e vais foder para o telheiro?
Segui-os com o olhar até perdê-los de vista. Fiquei à escuta. O silêncio da noite. Um cão ao longe. Uma motorizada. Um ou outro carro na estrada lá mais ao fundo.
Apaguei o cigarro.
Desci do alpendre. Saí do quintal. Subi a estrada. Depois subi o terreno até ao telheiro. Em silêncio. Dei a volta ao telheiro. Com cuidado. O luar era pouco. Não via onde punha os pés. Então, punha-os com cuidado. Um após o outro. Espreitei várias vezes. Espreitei várias vezes por entre as ripas de madeira. Por entre as ervas selvagens. Por entre o mato crescido. Até que os vi. Ela de costas, em pé, agarrada a um barrote. Ele por trás dela. Ela com a saia levantada. Ele com as calças em baixo. Ouvi o silêncio tornar-se sonoro. Pequenos gritinhos primeiro. Depois em crescendo. Pequenos gritinhos tornados gritos. Numa mecânica própria. Ritmada. Encostei-me à parede de madeira ainda erguida. Sentei-me à escuta. De costas para eles. A ouvir os ritmos. Reconheci-o. Reconheci-a. O meio é pequeno. Não há muita gente. E as pessoas são sempre as mesmas. E repetem-se. Ele era frequentador habitual do telheiro. Ela era a primeira vez que a via ali. Tinha-a como mulher recatada.
E estava eu nestes pensamentos quando percebi que o som estava já demasiado alto. Já não eram gritinhos, nem gritos. Era uma discussão. Ele discutia com ela. Refilava. Injuriava-a. Ela chorava. Tentava refutar o que ele dizia. Eu não percebia os contornos da discussão, mas percebia os Mas… O Não é assim… O Não tenho culpa… E os Não quero!… dela.
E ouvi o primeiro estalo. E o segundo. E o silêncio que se lhes seguiu. Levantei-me e voltei a espreitar. Estavam os dois em pé. Ele estava a ajeitar as calças. Era o que me parecia. Afinal estava a tirar o cinto. Vi a cara que ela fez. Uma cara de medo. E vi quando ele lhe deu com o cinto. Uma vez. Duas vezes. Eu fiquei nervoso. Pensei Vou lá!… E estava para lá ir quando a vi fugir, tropeçar, e bater com a cabeça num pedaço de ripa de madeira que estava solta. Mas presa o suficiente para aguentar um choque. E vi-a espetar-se na madeira. A cabeça dela a espetar-se na ripa de madeira. E ela ficar espetada. Mas não caiu porque a ripa aguentou-lhe o peso do corpo morto. Ele ficou parado por momentos. A olhar para ela ali de pé, de pernas um pouco dobradas, com uma ripa de madeira a entrar pela cara dentro, e quieta. Quieta e em silêncio. E o sangue a escorrer. A escorrer por ela abaixo.
Eu fiquei parado. Já não consegui lá ir. Fiquei ali em silêncio a vê-lo. A vê-la. A vê-los aos dois.
E vi quando ele voltou a colocar o cinto nas calças e olhou em volta e saiu do telheiro. E vi quando ela ficou lá sozinha, pendurada numa ripa de madeira a deitar sangue.
Voltei a sentar-me. As costas de encontro à parede de madeira. Ouvi o carro dele a arrancar. Acendi um cigarro. Fumei um bom bocado. Depois agarrei no telefone. Marquei o 112.
Isto aconteceu ontem.
A polícia já lá esteve. Os bombeiros também. E a polícia forense. Parecia um episódio do CSI.
Agora a polícia está a tocar à minha campainha. Eu estou a hesitar em abrir a porta. Não que eu não queira abrir a porta. Estou a tentar pensar se vou contar o que vi ou não. Não gosto de me envolver. E ele é uma pessoa importante. Estou a pensar. A polícia continua a tocar a campainha. Eu tenho de atender. Abrir-lhes a porta. O que é que eu lhes digo?

[escrito directamente no facebook em 2019/05/13]

Às Vezes Penso em C.

Às vezes ainda penso em C. Em como foi a minha vida e como poderia ter sido.
C. foi a minha primeira namorada. A primeira namorada a sério. A namorada com quem passeava de mãos dadas. A quem dava um beijo de língua logo de manhã, quando nos encontrávamos na escola, mesmo em dias em que me tinha esquecido de lavar os dentes e ela sem se queixar. Foi a namorada com quem tive as primeiras relações sexuais de uma forma mais ou menos constante. Foi também com ela que apanhei os primeiros sustos do atraso do período. Mas nunca chegou a não vir.
Durante os anos em que namorámos fomos inseparáveis. Éramos amigos. Talvez os melhores amigos um do outro. Gostávamos das mesmas coisas. Sem obrigação. É que acabámos por ir adquirindo os mesmo gostos. Líamos os mesmos livros. Ouvíamos os mesmos discos. Íamos juntos ao cinema. Ainda não havia pipocas nem tinha chegado o VLC. Íamos juntos a concertos. Os poucos que existiam. Ainda não havia festivais de Verão. O Vilar de Mouros passou sem darmos por isso e o Artlântico acabou por nos deixar em Lisboa sem sabermos o que fazer na ausência de um festival que acabou por não acontecer. Gostávamos de exposições. Fumámos as mesmas marcas de cigarros. Foram várias ao longo dos anos. Quando nos separámos eu fugi para o CT. Ela deixou de fumar. Bebíamos em conjunto. Eu mais que ela. Eu embebedava-me. Ela aturava-me a bebedeira e os vomitados. Eu era do Benfica. Ela do Sporting. Mas não ligava muito. Ela era de direita. Eu também, mas refilava muito. Ela era mais conciliadora.
Tudo começou por nos detestarmos. Éramos da mesma turma no secundário. Ela era uma miúda de nariz arrebitado e pêlo na venta. Eu era um gajo teimoso e com a mania que sabia sempre tudo. Tivemos muitas discussões nas aulas. Discussões sobre a matéria. Sobre os pontos de vista. A última discussão que tivemos, antes de anos e anos de mãos transpiradas juntas a percorrer as ruas da cidade, terminou com eu a dar-lhe um beijo nos lábios, provocador, e ela, primeiro a ficar corada, depois envergonhada, acabou por sair da sala de aula a correr e a deixar a discussão sem final. A professora deu-me um pequeno ralhete. Que me entrou por um lado e saiu pelo outro.
Fui à procura de C. pela escola. Quando a encontrei foi porque ela veio ter comigo. Eu estava a rir, gozão. Ele chegou ao pé de mim e mandou-me um estalo. Um estalo valente. Sonoro. Fiquei com os dedos dela marcados na cara. Ainda não tinha barba para disfarçar. Mas depois de me dar o estalo, abraçou-me e beijou-me. Beijei-a. Beijámos-nos. Depois perguntei-lhe Queres namorar comigo? e ela disse Sim! Foi a primeira e última vez que pedi namoro a alguém, assim mesmo, com as letras todas. E ela disse sim. E lembro-me de ficar de sorriso enorme, de orelha a orelha, e nunca mais tive um sorriso desses.
Nesse dia, nos final das aulas, fomos lanchar juntos. Foi o primeiro de muitos lanches que partilhámos durante os anos seguintes.
Foi quando fomos para a Universidade que a nossa relação terminou. Fomos para a mesma cidade grande. Mas fomos para Faculdades diferentes. Cursar cursos diferentes. Viver em zonas diferentes da cidade. Fomos com expectativas diferentes. Começámos a ser diferentes. A desejar coisas diferentes. A fazer coisas diferentes. A crescer de forma diferente. Ela a crescer. Eu a manter a adolescência. E quando demos por nós já não éramos nós. Eu já era outro. Ela também. Acabámos por morrer. E renascemos diferentes. Eu e ela. E já não éramos nós.
Depois disso nunca mais a vi.
Soube, há uns anos, que tinha casado. Tinha duas filhas.
Às vezes penso nela. Penso nela como parte de uma época da minha vida em que também penso bastante. E agora, mais velho, é com maior regularidade que regresso lá atrás. E também com muita saudade.
Às vezes pergunto como seria a minha vida se tivesse continuado a namorar com C.
Às vezes sinto uma certa emoção quando penso nessa época e em C.
Às vezes penso se eu ainda seria eu e que versão de mim seria. E se seria melhor ou pior. Diferente, com certeza.
Às vezes gostava de poder voltar atrás no tempo e poder voltar ao mesmo momento. Àquele momento. Não sei qual seria a minha escolha. Mas gostava de poder voltar a escolher. Só para ver. Só para lembrar como é que era. E como é que sou.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/17]

Ela Deu-me um Estalo e Eu Fui-me Embora

Ela deu-me um estalo.
Deu-me um estalo e depois ficou ali assim, parada, muito direita na cadeira, sem dizer nada, só a olhar.
Eu senti a cara a ficar vermelha. Não só do estalo. Forte. Sonoro. Mas também de vergonha. Vergonha das pessoas que, no café, viraram a cara para o que estava a acontecer e aguardavam uma resposta de minha parte. E olhavam para mim. Ostensivamente. Nem disfarçavam.
Eu não sabia muito bem o que fazer.
Ela continuava parada, muito quieta, à minha frente. Mas as feições da cara estavam a mudar. Estava com uma expressão dura. Como se estivesse para rebentar. Ou me quisesse rebentar a mim. Olhava-me mas entrava dentro de mim.
Eu estava bastante incomodado. Não queria estar ali. Mas estava.
Algumas pessoas tinham retomado as suas conversas. Mas ainda havia algumas a olhar de esguelha. Outras a espreitar por cima do jornal. Havia mesmo um miúdo que tinha o telemóvel virado na minha direcção. Estava a gravar, o cabrão.
Ela não dizia nada. Se calhar não tinha nada para dizer. Tudo ficara já dito quando me dera o estalo.
Eu olhei para baixo. Para a mesa. O café ainda estava na chávena. Um café queimado. A espuma era da cor da ferrugem. E já devia estar frio. Bebo-o ou não? Eu gosto muito de café. De todo o tipo de café. Expresso, americano, de saco, da avó… Aquele já tinha mau aspecto quando veio para a mesa, lembro-me bem mas, naquela altura, parecia mesmo intragável.
Não voltei a subir o olhar, mas senti os olhos dela em mim. Espetados em mim. Olhos agressivos. Frios. Facas disparadas à velocidade da luz.
Peguei na chávena e bebi o café de um gole. Travei um solavanco de vómito. O café sabia mal. Mas aguentei-o no estômago. Não queria mais vergonhas. Já bastava.
Coloquei a chávena sobre o pires. E contei Um… Dois… Dois e meio… Três!…
Coloquei as mãos na mesa e ajudei ao impulso para me levantar da cadeira. Virei costas e saí dali.
Não disse nada.
Enquanto percorria o café sentia o olhar desanimado das outras pessoas em mim. Não tinha havido sangue. Eu não tinha respondido. Aquele estalo não tinha tido consequências violentas. Que desatino. Que frustração.
Já estava a sair para a rua e a colocar as mãos nos bolsos das calças quando ouvi atrás de mim Espera! Espera aí! Onde vais?
Não me virei. Continuei em frente. Ia-me embora. Havia uma sessão de cinema no Miguel Franco e era para lá que ia. Nem sabia que filme era. Não importava. Uma sala de cinema vazia e escura era o que eu estava a precisar.
Atrás de mim continuava Ouve! Espera aí! Desculpa!

[escrito directamente no facebook em 2018/09/25]

Como É que Chegámos Aqui?

Ela mandou-me um estalo. Com força. Desequilibrei-me. Mas aguentei.
Tínhamos estado a discutir. Coisa normal nestes últimos tempos. Qualquer coisa servia para nos agredirmos. Para nos odiarmos. Para nos fazermos mal.
Tínhamos estado a discutir. E eu mandei-a à merda. E ela bateu-me com a mão na cara. Um estalo dado com força. Parecia uma cena de um filme francês. Desequilibrei-me momentaneamente, levantei a mão e estive quase quase a responder com um estalo, também. Mas não o fiz.
Virei costas, agarrei no casaco e saí de casa.
Fui dar uma volta até às margens do rio.
Estava frio. Tinha estado a chover, mas depois saiu, lá detrás das nuvens, um solzinho muito amarelo que não aquecia nada, mas trazia luz e fazia brilhar a água do rio.
Sentei-me num banco daqueles públicos, de madeira, com ripas, a olhar o rio a correr lá em baixo. Acendi um cigarro. Reparei que o banco estava molhado. Ainda havia gotas da chuva agarradas à madeira. Mas não sentia o rabo molhado.
O cigarro estava a acalmar-me.
Não sabia como lidar com aquela situação.
Mas a maneira mais fácil era sair dela. Acabar de vez. Aquilo já era doentio. As discussões eram diárias. O sexo perdia-se lá para trás, no tempo. A intimidade já não existia. As novas conversas terminavam sempre em discussão. E, ultimamente, ela a dar-me um estalo. E estava a aprimorar o gesto. Cada vez me doía mais.
Era a saída mais lógica, mas não estava preparado para ela. Não queria deitar a toalha ao chão. Admitir mais um fracasso. Achava que ainda havia salvação.
Achava mesmo? Estava convencido disso?
O telemóvel tocou. Olhei-o. Era ela. Não atendi.
O cigarro terminou e acendi outro. Dar cabo dos pulmões libertava-me a cabeça.
Ouvi o sinal de mensagem. Abri-a. Era dela. A chamar-me nomes por não ter atendido o telefone. A refilar pela discussão. A mandar-me à merda. E, no fim, a pedir desculpa por tudo e que ainda gostava de mim.
Como raio é que chegámos aqui?
Somos todos tão inteligentes e cultos e urbanos e adultos e, de repente, nas relações, retrocedemos à infância e não passamos de umas crianças mimadas.
Fiquei ali sentado no banco a fumar o cigarro e a olhar a água do rio a passar.
Começou a chover. Poucochinho, mas a chover.
Fiquei ainda um bocado sob a chuva e depois resolvi ir embora. Mas não fui para casa.
Pus-me a pensar qual dos meus amigos tinha o sofá mais fixe. E qual deles tinha paciência para me aturar.

[escrito directamente no facebook em 2018/01/13]