No Weapons

Há uns anos atravessei a fronteira entre Moçambique e a Suazilândia (acho que a Suazilândia agora tem outro nome). Saí de Maputo, cruzei a Matola em direcção à Namaacha, de passagem por Boane, até à fronteira. Estivemos parados algum tempo na fronteira à espera de sermos atendidos. Aquilo andava devagar. Numa rede separatória, do lado de cá era Moçambique e do lado de lá era a Suazilândia, uma rede que nos conduzia a um pequeno gabinete onde seríamos atendidos e os passaportes carimbados, estava uma folha a4, enfiada dentro de uma mica de plástico, com o desenho colorido de um revólver e os dizeres No Weapons escrito em Comic Sans e preso à rede com uns pequenos arames enfiados pelos buracos da mica.
Estranhei porque os moçambicanos, normalmente, andavam com catanas para desbastar o mato e cortar a cabeça às serpentes que se atravessassem no caminho (e é por isso que, no mato, as mulheres vão sempre atrás). Não costumam andar com revólveres. Com excepção das autoridades (e nem todas porque às vezes não há dinheiro para todas as autoridades terem armas) e dos corpos de segurança.
Cruzei a fronteira sem problemas e não vi nenhuma arma nem ninguém me perguntou se eu levava alguma arma (e eu não levava).
Pensei quão longe ficava aquele mundo do meu.
Hoje, em Leiria, todos andamos com um revólver à cintura. Aprendemos uns com os outros que o nosso pior inimigo não é um vírus mas o vizinho do lado.
Isto tudo começou nos Estado Unidos. Perante a propagação do novo coronavírus, e o caos que se adivinhava, as pessoas de todo o mundo começaram a armazenar papel-higiénico e latas de atum. Os norte-americanos começaram a comprar armas. No início todos nos rimos a pensar como é que os norte-americanos iam limpar o cu com o cano de uma espingarda. Depressa percebemos que, com uma arma, as pessoas conseguiam todo o papel-higiénico e todas as latas de atum que quisessem. A ideia demorou a chegar à Europa e a Portugal. Mas quando chegou, instalou-se. Em Leiria não foi diferente. Toda a gente se armou. Primeiro foram os caçadores a irem às compras na cidade com as espingardas de caça na mão para evitar serem roubados. Mas depressa começou a haver um mercado-negro de armamento pessoal. Chegaram as pistolas e os revólveres. Toda a gente se armou. Eu também.
Não gosto de armas. Nem sei se consigo disparar sobre alguém.
Lembrei-me deste pequeno episódio vivido na fronteira entre Moçambique e a Suazilândia quando ouvi, há pouco, o disparo de uma pistola e o baque de um corpo a cair no chão. As pessoas andam nervosas e, ter uma arma nas mãos, não as ajudam nada.
Ouvi o tiro e virei a cabeça. Ia a caminho de casa depois de ter ido às compras ao Pingo Doce quando ouvi o tiro. Virei a cabeça. Era numa fila para entrar no supermercado Pingo Doce no centro da cidade donde eu tinha acabado de sair. Um homem estava com uma pistola na mão e, à sua frente, aos seus pés, um corpo caído numa poça de sangue. O homem com a pistola na mão dizia sonoro Não mantinha a distância de segurança… Não mantinha a distância de segurança…
Ninguém ligou nenhuma. Só eu virei a cabeça. As pessoas continuaram a entrar no Pingo Doce. As que estavam atrás dele, foram-no ultrapassando. O homem ficou lá parado, com a pistola na mão e o corpo caído aos seus pés a dizer sem parar Não mantinha a distância de segurança…
Eu fui-me embora para casa. Deixei-os ficar para trás. A cidade estava a ficar perigosa. As pessoas não deviam ter acesso a armas e muito menos andar com elas na cidade. As pessoas não estão preparadas para ter uma arma nas mãos. Deviam haver cartazes a avisar No Weapons. Porque somos demasiado impulsivos. Demasiado nervosos. Explodimos por tudo e por nada. E disparamos ao menor problema ou contrariedade. No Weapons era a melhor maneira de não fazermos asneira.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/30]

Uma Noite no Jardim Enquanto a Alemanha Invadia a Polónia

Andava a ver os filmes em corrida para os Prémios da Academia Americana de Cinema. Sim, fica lá longe, mas é o mais perto que chegamos do cinema. A América está aqui. No meio de nós. Entra pela televisão. Pelos canais de cabo. Pela internet. Pelas salas de cinema. Ensinaram-nos a ler os códigos do cinema norte-americano. Levaram-nos a estranhar outras linguagens. Pode bem o Jean-Luc Godard bramar pela linguagem! Em vão! A corrida é sempre à volta do que já se sabe. Mesmo quando já se sabe que acaba mal. Sabemos mas agarramos a amnésia. E entramos na mesma.
Se calhar, por medo. Ou cobardia. Gostamos de estar em número, é o que é!
Portanto, sentei-me no sofá.
Ia ver uma curta-metragem. Uma curta-metragem documental. Uma coisa pequenina. Tinha sete minutos. Feita com imagens de arquivo. A preto e branco. Chamava-se A Night at the Garden e era realizado por Marshall Curry.
Carreguei no Play.
O filme abriu com uma multidão. Uma multidão num pavilhão. Um bruá de excitação. Depois o título A Night at the Garden. E um subtítulo, localizador de espaço e tempo, New York City, February 20, 1939. Estávamos no domínio da memória.
No plano seguinte descubro que o Garden do título é o Madison Square Garden. Em pleno coração do mundo. Um local onde se alberga tudo, do hóquei ao basquetebol, passando, naquela noite, em especial, por um evento chamado Pro American Rally.
Vê-se muita gente nas imediações. Polícia a cavalo. Pessoas que se manifestam. Uns contra. Outros pró.
Ao primeiro minuto voltamos a entrar no Garden e vemos, pela primeira vez, ao que vamos: um fila de jovens a transportar bandeiras americanas e bandeiras nazis cruzam a plateia saudados pelos braços esticados no ar. Em saudação. No palco, um grupo de jovens milicianos de fato militar, fazem rufar os tambores. Agora o pavilhão inteiro aplaude. Aplaude a chegada de inúmeros jovens milicianos, meninos e meninas, eles de calções e bivaque, elas de caracóis, camisa branca de manga-curta e gravata, numa espécie de Mocidade Portuguesa formada de jovens e esbeltos americanos, da Land of the Free. À cabeceira de tudo isto, a figura paternal e gigante de George Washington.
Quase a chegar aos dois minutos de filme, o primeiro discurso, onde se promete lealdade incondicional à bandeira dos E.U.A., um país com liberdade e justiça para todos, numa voz alemã vertendo em inglês o discurso da pátria.
Muda o orador. Os braços estendidos a César invadem o Madison Square Garden. Parece que não estamos em Nova Iorque, mas em Berlim.
Ao minuto três chega o apelo aos verdadeiros americanos, aos patriotas, porque são sempre eles os patriotas e representantes do povo e exigem a devolução do país àqueles que são sempre os verdadeiros americanos: O povo! O Povo!. Começam a zurzir nos judeus. A chaga social. A boca da mentira.
Eles? Os verdadeiros americanos de mão esticada? Eles clamam por um país socialmente mais justo, branco e gentio. Eles clamam por sindicatos de trabalhadores gentios livres do domínio judaico e soviético.
Estamos a chegar ao minuto quatro e alguém salta para cima do palco. Alguém que quer parar a besta, ali. Mas é logo apanhado por elementos das milícias que o sovam ali mesmo, em cima do palco, à frente da plateia que ulula em êxtase. Chega a polícia e encarrega-se do intruso. Leva-o para fora do palco. O orador, impávido e sereno, assiste a tudo com um enorme bocejo e uma calma desarmante, continuando, logo de seguida, o discurso. A juventude miliciana no palco está excitada. Contente. Dá pulinhos. Ri. Gargalha. Enquanto o invasor é levado, pela polícia, para fora do palco com as roupas rasgadas, a multidão brama e o orador ri, bonacheirão, daquele fait divers.
Uma voz de mulher entoa o hino americano na companhia de uma orquestra e o povo, aquele povo que está no Madison Square Garden, está de pé, respeitosamente, a homenagear o país, o hino, a bandeira. Mas e os outros? Os que não cabem debaixo de todo aquele folclore?
No fim do filme, uma informação: Vinte mil americanos estiveram no Madison Square Garden na noite de vinte de Fevereiro de mil novecentos e trinta e nove. Enquanto isso, na Europa, Hitler terminava a construção do seu sexto Campo de Concentração. Sete meses mais tarde, o exército Nazi invadia a Polónia e dava início à guerra mais sangrenta da História.
Passa o genérico. Aperto no Stop.
Agarro num cigarro. Acendo-o. E penso que nada disto é novo. Nada que não soubéssemos já. Nem era preciso saber História. É do senso comum. Já faz parte da cultura ocidental saber o que aconteceu na Europa entre mil novecentos e trinta e nove e mil novecentos e quarenta e cinco. As consequências ainda as sentimos, hoje. Saber que houve um Partido Nazi Americano também não é novidade. Também houve um Partido Comunista, que existe ainda hoje. Uma das bases de A Conspiração Contra a América de Philip Roth está nesta América nazi. Numa América que glorificava Hitler. Na estória, a Alemanha era a vencedora da guerra. Os americanos-arianos cumpriam a sua vingança contra os judeus.
Mas então, o que é que se passa? O que é que se passa hoje que parece que estamos todos esquecidos? O que é que se passa hoje que parece que não se passou nada?
Cortámos a cabeça à serpente. Mas ela deixou ovos. Eles estão aí. Por todo o lado. A nascer. A crescer sob a nossa amnésia. Na Polónia. Na Hungria. Em França. Em Itália. Mesmo em Espanha. No Brasil e nos Estados Unidos. Em nome de falsos profetas e falsas profecias. Em nome da sacrossanta economia. Contra a corrupção. Contra os emigrantes. Contra os outros. Contra! Contra! Contra! Foda-se!…
Apaguei, furioso, o cigarro no cinzeiro. Levantei-me. Fui ao quarto. Ao armário do quarto. Ao fundo do armário do quarto. Agarrei na caçadeira. Carreguei-a. E voltei para a sala. Desliguei as luzes. E pus-me à espreita. A olhar pela janela. E disse baixinho Os filhos-da-puta andam aí. Mas desta vez vou estar à espera deles. E desta vez não vou ser complacente.
Ao fundo vi umas carrinhas de caixa aberta cheias de gente. Jovens cheios de testosterona. À cata de problemas. Eles que venham cá, pensei.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/11]

Não Há Natal nas Fronteiras

O que é que faz de mim uma boa ou má pessoa? Uma percepção exterior? Uma percepção exterior baseado em códigos pré-estabelecidos? Um sorriso na cara? A distância que separa o Sim do Não? A maneira como recebo o outro?
É noite de Natal. Estou em casa. Estou sozinho em casa. É uma noite banal. Não! Seria uma noite banal não se desse o caso de ser Natal. Eu estou em casa. Sozinho. Tento sobreviver à descarga de pensamentos que me consome. Pensamentos que são diários. Mas pensamentos que ganham outra dimensão neste dia. Porque sou bombardeado constantemente por toda a gente. Pelo mundo. Natal é amor. Carinho. Felicidade. Família. Dizem-me.
É noite de Natal. Estou em casa sozinho. Acabei de comer uma sandes de presunto com manteiga e de beber uma garrafa de vinho. Acabei de arrotar. E é mesmo no final do arroto que começam a chegar as mensagens do telemóvel. Ainda vejo a primeira, a segunda, a terceira… Depois desligo o telemóvel. São filmes. Pequenos filmes que alguém fez e toda a gente dispara para toda a gente. Os mesmos filmes. O mesmo filme. Sem nenhuma nota pessoal. Sem nada que diferencie essa mensagem de um pequeno clip de vídeo do Youtube feito por alguém e que toda a gente partilha. Como se fosse uma coisa pessoal. Sem o ser. Sem nenhum Beijo-te. Ou Abraço-te. Ou Amo-te. Não. O filme que alguém fez é mais um algoritmo. Alguém dispara as emoções por nós. E todos esperamos ver / sentir, a emoção nos outros. Nos olhos dos outros. Na cara dos outros. Na aproximação dos outros. Nas prendas dos outros.
Estou sozinho em casa. Já comi. Já bebi. Levanto-me e vou buscar mais uma garrafa. Preciso de um copo de vinho. De mais um copo de vinho. Tenho medo de estar demasiado agarrado ao vinho. Mas não consigo não estar. É uma companhia. E então apetece-me um cigarro. Lembro-me que são um par. Um copo de vinho e um cigarro. De regresso à sala, ouço Um tsunami na Indonésia. Um sismo em Moçambique. Um vulcão em Itália. Mortos. Muitos mortos. Feridos. Desaparecidos. É Natal. Nalguns pontos do globo não. Não é Natal.
Apercebo-me que deixei de ouvir falar na caravana que ia / vai a caminho dos Estados Unidos. Que se aproximava da fronteira do México com os Estados Unidos. Apercebo-me que deixei de ouvir falar nas famílias separadas. Pais para um lado. Crianças para outro. Não há Natal nas fronteiras. Não há Natal para refugiados. Não há Natal para quem foge.
O noticiário segue o seu alinhamento. Este Natal vendeu-se mais. Comprou-se muito mais. A SIBS garante que houve movimentos nos terminais sem comparação com os últimos anos. Vive-se a loucura, neste Natal. Há greve no comércio, nas grandes superfícies. Ninguém nota. Tudo compra. Aqui ninguém morre. Aqui consome-se.
Eu estou sentado no sofá a tentar acabar com a segunda garrafa. A deixar cair a cinza do cigarro no chão. Eu não fiz nada por ninguém. Não fiz nada pela caravana de emigrantes. Não fiz nada pelas vítimas das calamidades. Não fiz nada pelos comerciantes globais. Não fui à mercearia. Não fui à Amazon. O meu reino não é deste mundo. E nem por mim fiz alguma coisa.
Sou uma boa pessoa? Sou uma má pessoa? Sou ao menos uma pessoa?
Sou, pelo menos, alguém que está sentado no sofá. Sozinho. A beber uma segunda garrafa de vinho. A fumar um cigarro. E com vontade de vomitar.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/24]

E se Eu Fosse?…

E se eu fosse preto? Devia ser maltratado por isso?
E se eu fosse branco? Devia ser glorificado?
E se eu fosse homossexual? Gay? Paneleiro? Maricas? Bicha? Sapatona? Lésbica? Lambedora de velcro? Fessureira? Fufa? Estaria fora da lei de Deus?
E se eu fosse Bispo católico? Devia ser pedófilo?
E se eu fosse Bispo evangélico? Devia receber dízimo?
E se eu fosse Pastor protestante? Devia foder?
E se eu fosse ateu? Devia não ter direito a viver em paz?
E se eu fosse mulher? Devia acusar um homem de assédio?
E se eu fosse homem? Devia assediar uma mulher?
E se eu fosse deputado português? Devia ir a Serralves ver as pilas do Mapplethorpe?
E se eu fosse deputado português? Devia legislar em causa própria?
E se eu fosse deputado português? Devia ser leal ao partido? Devia ser fiel ao povo que me elegeu?
E se eu fosse Santana? Devia fazer mais um partido igual aos outros a fingir que é diferente?
E se eu fosse Aníbal? Não, eu não podia ser Aníbal!
E se eu fosse professor? Devia gostar do Mário Nogueira?
E se eu fosse PSP? Devia pagar a farda?
E se eu fosse GNR? Devia pagar a farda?
E se eu fosse Comando? Devia morrer na recruta?
E se eu fosse parvo? Devia levar um par de estalos?
E se eu fosse Índio norte-americano? Devia pôr o Donald Trump fora dos Estados Unidos?
E se eu fosse o Donald Trump? Devia assediar mulheres? E homens? E gabar-me de ser único? E grande? E enorme? E espectacular? E devia levar dois pares de estalos?
E se eu fosse Alexandre Frota? Devia fazer anal técnico?
E se eu fosse Jair Bolsonaro? Devia dar um tiro nos cornos?
E se eu fosse Povo? Devia ser estúpido?

[escrito directamente no facebook em 2018/10/05]