Ainda Aqui Estou à Espera, a Salivar

Era novo.
Tinha dezasseis anos. Dezoito. Vinte. Finquei os pés no chão. Queria o que queria. E ia fazer tudo pelo que queria.
Fartei de correr. Agarrei com unhas e dentes. Parti dedos. Feri a boca. Sangrei o coração. Desloquei o maxilar. Insisti.
Entre o tempo, os dias magros de chuva miudinha e as noites negras, de lâmpadas fundidas, passei muito tempo no Estádio. Sentado solitário a uma mesa cheia de gente no meio de outras mesas. Outras mesas todas cheias de gente. Sempre muita gente.
A cabeça pendente sobre o peito. A enrolar um cigarro. A enrolar um charro. A agarrar uma média Sagres. A beber pela garrafa. Nunca beber imperial no Estádio. Nunca.
Entrava lá sossegado. Silencioso. Na companhia das mulheres do bairro que ainda restavam por ali, àquelas horas vespertinas. Ainda tão cedo e vazio que ouvia o eco da minha voz quando pedia, de forma sonora, uma cerveja. Um brandy Croft quando mais abonado de dinheiro. Macieira quando as coisas corriam mal. E tanto que elas corriam mal.
De tempos-em-tempo, um renovar de esperança. Um recomeço. O corpo a perder a postura do falhanço. Re-crescia centímetros. Os que tinha perdido. Voltava a ser gente. Voltava a ser grande. Enorme. O mundo era meu e estava pronto para o devorar.
Mas…
Estou velho.
Já tenho… Já nem sei quantos anos tenho. Muitos, com certeza. Perdi-lhes a conta.
O Estádio já não existe. Já não se fuma nos sítios onde perdemos as horas da nossa vida. Nem eu fumo já. Nem cigarros, nem charros. Troquei a cerveja, o brandy Croft e a Macieira pelo copo de vinho. Copo de vinho tinto. Que pode ser de pacote. Capataz. Cinco euros a caixa de cinco litros.
Já não corro. A bronquite não mo permite. Já não tenho dedos. Parti-os todos a tentar subir a parede do El Capitán. Os dentes comi-os. Tinha fome.
Já não quero ir a lado nenhum. Já não quero ser nada. Já não ambiciono ser nada.
Quero só estar por aqui enquanto por aqui estiver.
E quero estar sossegado. A ver a morte avançar, sorrateira, disfarçada. Cheia de lantejoulas. A ouvir canções em streaming. A ver filmes pirateados. A ler PDF’s de livros cheios de direitos de autor e de herdeiros. A olhar de esguelha para as notícias na televisão. As notícias banais de gente banal a morrer de forma tão banal. E eu com a língua de fora. Como os cães. A salivar.
E ainda aqui estou. À espera. A salivar.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/22]

O Homem que Vivia Duas Vidas

Naquele tempo eu vivia num pequeno quarto acanhado na Estrada de Benfica, ali para os lados do Arabesco.
Era um quarto assim mais para o comprido e muito estreito. Na verdade, o quarto era metade de uma antiga sala que o senhorio dividiu para poder alugar quartos a estudantes. A gajos assim como eu sem dinheiro para grandes mordomias.
A cama, que na verdade era um divã, ficava num canto sobre o comprido do quarto, com a cabeceira encostada à parede da rua. Isto era num rés-do-chão. Às vezes parecia que as pessoas que passavam na rua estavam dentro do meu quarto, dentro da minha cama, dentro de mim.
Aos pés da cama tinha uma pequena secretária com um banco que enfiava todos os dias debaixo da secretária. Ao lado da secretária, a caminho da porta do quarto, um pequeno baú onde guardava as cuecas e as meias. O resto da roupa estava empilhada em cima da secretária e encostada à parede do outro lado do quarto. As pilhas de roupa faziam companhia às pilhas de livros. Debaixo da cama tinha um cinzeiro. Estava sempre a limpar o cinzeiro. Não gostava do cheiro do tabaco frio. Fumava na cama. E não gostava de fumar na cama. Mas o meu quarto também era a minha sala. A alternativa era ir fumar para a cozinha. Mas aí tinha de partilhar espaço e conversa com os outros inquilinos da casa e o senhorio que, durante a semana, vivia lá. Ao fim-de-semana ia não-sei-para-onde. Mas nunca estava lá. Ia embora à Sexta-feira. Voltava no Domingo à noite. Às vezes à Segunda-feira de manhã.
Foi na minha última semana lá em casa que a conheci.
Tinha saído na Sexta-feira à noite. Andei pelo Bairro Alto. Fui ao Estádio. Ninguém conhecido. Agarrei-me aos flippers. Fui gastando as moedas que tinha no bolso. Na última moeda fiz tilt. Fiquei furioso. Dei uma pancada com força na máquina. Esticaram-me um charro e disseram Acalma-te aí, man! Uma voz de rapariga. Era ela. Passei o resto da noite a entrar e sair de portas no Bairro Alto. A bebedeira ainda nos levou ao Cais do Sodré. Mas durámos pouco por lá. Perguntei-lhe Queres vir lá a casa? E ela disse Yeah!.
Subimos a Rua do Alecrim à procura de táxi. Chegámos a casa. Entrámos no quarto. Entrámos na cama que era um divã. Ela ficou com os pés fora da cama. Foi então que me apercebi que ela era grande. Maior que eu.
Adormecemos os dois agarrados um-ao-outro para não tombarmos no chão. Passámos assim o Sábado. Passámos assim o Domingo. Não comemos. Fumámos cigarros e virámos uma garrafa de Brandy Croft que tinha lá debaixo da secretária. Só saíamos do quarto para ir à casa-de-banho.
Eu acabei por arranjar uma vela que acendi para camuflar o cheiro do tabaco. Não era uma vela de cheiro. Acho que nem havia velas de cheiro naquela altura. Ou eu não as conhecia. Era uma vela daquelas para iluminar a casa quando faltava energia. Estava em cima da secretária.
Foi no princípio da noite de Domingo que aconteceu. Estávamos na cama. No divã. Eu estava em cima dela. Dentro dela. Ela estava com os pés fora da cama. Era grande. Maior que eu. E num momento de maior emoção, deu um esticão com as pernas e bateu na secretária. A secretária abanou. Deitou a vela abaixo. Mas a vela não se apagou. Só demos por ela quando nos cheirou a queimado. Eu ergui a cabeça e vi umas pequenas chamas. A secretária estava a arder. Eu levantei-me. Ela levantou-se. Ela saiu pela porta do quarto. Nua. Foi a correr à cozinha. Eu, nu, pus-me a mijar para cima da secretária. Para apagar as chamas. Quando ela voltou para o quarto, nua, com uma tigela com água para despejar na secretária, cruzou-se com o senhorio, que já tinha regressado a casa.
Ela parou à frente dele.
Ele olhou-a admirado.
Eu tinha acabado de mijar sobre as chamas da secretária e olhei para eles os dois.
Ela disse Olá, pai.
Ele disse Olá.
Eu sacudi-me. Ela entrou no quarto e começou a vestir-se. O senhorio virou-se para mim e disse Vais-te embora. Hoje, e voltou para o quarto dele.
Eu senti-me um bocado perdido. Acabei por me vestir, também. Acabei por sair com ela. Entrámos no Viriato, um pequeno restaurante que havia lá ao pé de casa. Sentia-me com muita fome. Ela também. Pedi um bitoque. Ela também. Mas o dela sem ovo. Bebemos cerveja. E, então, ela contou-me.
Aquele homem, o meu senhorio, era o pai dela. Era o pai dela durante os fins-de-semana. Os fins-de-semana que passava lá em casa. Com a mãe. Com o irmão. Durante a semana era suposto andar a viajar. Caixeiro viajante. O pai era representante de uma marca de tintas e passava a vida na estrada a mostrar o produto que vendia. Atender clientes. Dar apoio. Logística. Afinal, era mentira. Afinal durante a semana era senhorio de uma casa onde alugava quartos a jovens estudantes.
Eu saí de casa ainda durante aquela noite. Subi três andares e fui para casa de um vizinho que conhecia. Duas semanas depois fui dividir um apartamento com mais três amigos da Faculdade.
Ainda andei alguns meses com ela. Depois fui passar uma Queima-das-Fitas a Coimbra e nunca mais regressei a Lisboa. Desisti do curso. Tornei-me DJ em Coimbra, e por lá fiquei.
Lembrei-me hoje desta minha aventura ao ler na revista Visão a história de um homem que tinha duas famílias. Duas famílias simétricas. Duas mulheres. Uma loura. Outra morena. Um casal de filhos de cada mulher. De idades similares.
O pai dela não tinha duas famílias. Mas vivia duas vidas. Não sei como é que elas terminaram. Nem se terminaram. Nunca mais a vi. Nem a ela nem o pai dela.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/21]

Ir a Lisboa Comprar o Concert dos Cure

Apanhámos a camioneta para Lisboa. Os dois. Eu e ela.
Era Sábado. Almoçámos e apanhámos a camioneta. Na Rodoviária. Ali na Heróis de Angola. Demorámos várias horas a chegar a Lisboa. A camioneta passou por Rio Maior. Parou no Pôr do Sol 2. Bebemos uma cerveja. Comprámos outras para a viagem. Fumámos uns cigarros. Em Aveiras entrámos na auto-estrada. Na camioneta continuámos a fumar. Bebemos as cervejas. Largámos as latas no chão da camioneta. Ficámos a ouvi-las a dançar pelo chão até chegarmos a Lisboa. Saímos na Casal Ribeiro. Subimos ao Saldanha. Apanhámos o metro para os Restauradores. Entrámos na Bimotor. Comprei o Concert dos Cure. Era chato andar com o saco do disco. Mas valia a pena.
Ainda era cedo. Fomos ao Pirata beber um. Um Pirata. Ir a Lisboa e não beber um Pirata no Pirata, não era ir a Lisboa. Acabámos por beber dois. Fomos até ao Rossio. Passeámos pela baixa. Vimos as montras na Rua Augusta.
Anoiteceu. Fomos às Portas de Santo Antão comer um bitoque. Comemos o bitoque. Molhámos bocados de pão na gema do ovo. Bebemos umas cervejas. Comemos as batatas fritas todas. Eu comi as minhas e as dela. O resto das dela. Fumámos uns cigarros. Bebemos café. Partilhámos uma Ponte de Amarante. Eu bebi. Ela ajudou.
Cruzámos os Restauradores. Subimos a Calçada da Glória a pé. Eu com o saco na mão. Fomos ultrapassados pelo Elevador. Chegámos lá cima cansados. A deitar os bofes pela boca. Ela sentou-se nos degraus da escada. Eu encostei-me à parede. Fumámos um cigarro. Eu e ela. Cada um de nós fumou um cigarro. Depois fomos ao Gingão. Íamos encontrar um amigo que nos dava guarida para a noite.
Entrámos no Gingão. Estava gente mas ainda não estava cheio de gente. O tipo que eu conhecia estava sentado a uma mesa. Caído sobre a mesa. Os braços na mesa e a cabeça tombada sobre os braços. Ela sentou-se na mesa dele. Eu fui ao balcão buscar três minis. Acabei por beber a dele que o tipo não despertava. Mas estava a respirar. Continuou a dormir. Eu e ela olhámos um para o outro. Ela encolheu os ombros. Eu levantei-me. Dei-lhe a mão e disse Vamos dar uma volta. Passamos aqui mais tarde. E fomos. Fomos dar uma volta. Fomos ao Estádio. Depois ao Esteves. Passámos pelas Primas. E ainda fomos às Catacumbas.
E eu com o saco do disco sempre atrás.
Foi nas Primas que nos cruzámos com o tipo. Tinha despertado e tinha ido dar uma volta. Demos de caras um com o outro. Lembrou-se de mim. De nós. Deu-me as chaves de casa. Da casa do quintal. Na Estrela. Eu lembrava-me onde era. Ele ficou nas Primas. Nós fomos às Catacumbas.
Já era madrugada quando passámos na Juke Box. Estava cheia de skins. Acabámos por ir embora e terminámos no Ocarina. Dançámos. Ficámos lá até fechar. Fechou. Saímos. Subimos a Rua da Rosa. Fomos a pé até à Estrela.
Estávamos cansados.
Chegámos a casa do tipo, galgámos o muro e nas traseiras da casa, lá estava o barracão. Abri a porta. Entrámos. Cheirava a mofo. Abrimos a janela. Fumámos uns cigarros. Depois ela começou a ficar com frio. Fechei a janela. Deitei-me na cama. Com ela. Encostei-me. Ela encostou-se. Eu toquei-lhe. Toquei-lhe no corpo nu. Ela adormeceu.
Que merda!
Eu não consegui dormir. Andei sempre às voltas na cama. Ouvi todos os barulhos da Estrela. De Lisboa. Vi alguém a espreitar pela janela. Pareceu-me. Senti umas patinhas pequeninas a caminhar pelo chão do barracão. Talvez ratos. Talvez baratas. Talvez outra coisa qualquer.
Deitei-me e levantei-me sem ter pregado olho. Ela dormiu que nem um anjinho.
Fumámos o primeiro cigarro da manhã. Vesti-me. Ela perguntou-me Onde é a casa-de-banho? Eu fiquei a olhar para ela. E disse Ali fora! Ela ficou a olhar para mim. Desatou a rir. Ri com ela. Rimos com vontade. Fomos os dois à rua mijar. Estávamos nas traseiras das casas de uma rua na Estrela. Ela baixou-se junto a umas couves. Eu mijei para as rodas de uma bicicleta. Deixámos as chaves dentro do barracão e fomos embora.
Descemos até ao Rato. Depois apanhámos um autocarro até à Casal Ribeiro. Esperámos umas horas até termos uma camioneta de regresso a Leiria. Quando entrámos, adormecemos. Eu e ela. De mãos dadas. Eu com a cabeça no vidro da camioneta. Ela com a cabeça no meu ombro. E fomos o caminho todo a dormir.
Quando acordámos já tínhamos passado o nosso destino. Estávamos em Coimbra. Porra! Agora tínhamos de voltar para trás. Mas só havia camionetas mais tarde. Bem mais tarde. Passeámos um pouco por Coimbra e acabámos no jardim da Sereia. Eu adormeci. Ela não. Eu constipei-me. Ela só ficou irritada por eu ter adormecido no jardim. E eu sempre com o saco com o disco dos Cure na mão.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/27]

Ir à Bola com o Meu Pai

Era miúdo e ia ao futebol com o meu pai.
Pegava na bandeira, com ripa de madeira que ninguém proibia de entrar no Estádio que ainda era Campo da Bola, numa almofada para sentar o rabo suavemente nas bancadas de cimento, passávamos na senhora dos tremoços e comprávamos um saquinho de tremoços e outro de pevides e, em dias de festa, uma fiada de pinhões que eram caras como o raio.
Antes de entrar no Estádio passávamos no Lagoa. O meu pai bebia um copo de três ou uma mini e eu bebia uma Superfresco de laranja ou um Canada Dry. Isto foi antes das imperiais e do bagaço. Agora já ninguém me deixa ir com o bagaço para a bola.
Lembro-me de uma época no Estádio da Luz, em jogos da UEFA, jogos que eram à noite mas em que entrávamos no Estádio a meio da tarde, armados de Tupperwares com rissóis e croquetes e pastéis de bacalhau e torresmos que depois embebíamos em cerveja adquirida nas bancadas que havia sempre gente a vender as coisas necessárias à nossa satisfação.
Nessa altura não havia claques de futebol. Os adeptos eram toda uma claque que incentivava os jogadores, chamava ladrão ao árbitro e cabrão ao jogador adversário.
Havia sítios onde as coisas eram mais perigosas. Acompanhar a União de Leiria aos Marrazes, à Marinha Grande, à Nazaré ou à Vieira de Leiria poderia ser perigoso. Especialmente se fôssemos uns adeptos daqueles que nunca se calam. E éramos. As Caldas também era grande rival mas nunca rivalizou grande coisa.
Nessa altura A Bola saía três vezes por semana, havia dois canais de televisão e só um tinha um programa sobre bola e o indicativo do Domingo Desportivo era o Blue Monday dos New Order.
Era normal encontrar nas imediações dos Estádios vários carros onde as senhoras esperavam os seus maridos fazendo renda ou tricot.
Tudo mudou com a chegada da morte.
Com a chegada da morte do meu pai, deixei de ter companhia para os jogos e deixei de ir com tanta frequência. Com a morte de um adepto no Estádio e depois a ascensão das claques de futebol, deixei mesmo de ir.
O futebol é somente a porra de um jogo. Gosto de me empolgar, mas é só um jogo. Não quero que a minha vida seja posta em causa por causa de um jogo. Gosto de me sentir livre.
Continuo a gostar de futebol, mas o futebol para mim é já um jogo de televisão. Um jogo de televisão e em casa. Em casa posso comer e beber o que quiser. Em casa posso ter bandeiras com paus, ripas ou o que for. Em casa posso ver o jogo nu. Em casa posso desligar a televisão quando as coisas não correm de feição. Em casa posso mandar toda a gente para o caralho que ninguém se sente ofendido. Em casa mando eu. Em casa mando eu quando a minha mulher me deixa mandar.
Mas tenho saudades. Saudades de ir livre a um Estádio ver um jogo de futebol.
Acho que é isto a velhice. A saudade de um tempo que já não é.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/11]

A Neura

Os americanos desceram à cidade. A equipa norte-americana de soccer veio jogar futebol com a equipa B da selecção portuguesa. O Cristiano Ronaldo não foi convocado para este jogo amigável porque ia receber, na maternidade, a chegada da Alana Martina.
Não fui ao estádio. Mas peguei numas cervejas, nuns tremoços e numas pevides e sentei-me no sofá, em casa, disposto a ver o jogo, sem grande paixão, diga-se.
E as coisas iam decorrendo assim, sem grande história, e sem grande vontade, quando os norte-americanos marcaram um golo e Portugal desatou a perder em casa.
Olhei à minha volta. Estava sozinho. Sozinho a ver um jogo de futebol. Um jogo de futebol da selecção nacional. Nem era o Benfica. Nenhuma alegria. Ninguém com quem discutir, comentar, gritar, partilhar uma cerveja…
Desliguei a televisão.
A neura tomava conta de mim. Tentava combatê-la com umas cervejas, mas não estava a dar resultado.
Levantei-me.
Voltei a sentar-me.
Levantei-me de novo e fui até à cozinha fumar um cigarro. Abri a janela e deixei entrar o ar frio da noite de Outono. No fim, mandei a beata pela janela fora.
Peguei no casaco e saí de casa. Decidi ir até ao estádio. Fui andando a pé. Não é longe.
No caminho parei numas rulotes e bebi umas minis. Comi uma maminha grelhada numa carcaça.
Quando cheguei ao estádio, o jogo ainda decorria.
Quando finalmente terminou, e as pessoas começaram a sair, misturei-me com elas. Queria fazer parte de um grupo. Queria ser um número que contasse nas estatísticas. Queria ser relevante. E gritava Por-tu-gal!-Por-tu-gal! para quem quisesse ouvir e duvidasse da minha encenação.
Uma equipa da televisão correu na minha direcção. Queriam saber a minha opinião sobre o jogo. O que eu tinha sentido ao saber que o jogo também era solidário para com as vítimas dos incêndios.
Eu não sabia o resultado. Nem sabia que o jogo era solidário com quem quer que fosse, e respondi Vim aqui para ver o Cristiano Ronaldo e o Rui Patrício e senti-me defraudado. E depois lembrei-me e disse Beijinhos para a Alana Martina, que é bem-vinda a este mundo. E sorri para a câmara que me estava a gravar pensando que tinha dito algo de muito relevante. Depois, a equipa de televisão foi a correr para outro lado, falar com outras pessoas. E eu pensei cá para mim As rulotes são já ali. E que bem me sabia uma cervejinha.

[escrito directamente no facebook em 2017/11/14]