Bang Bang, parte 01

Naqueles dias, as coisas eram mesmo assim. Olhámos um para o outro e percebemos o que é que iríamos fazer sem precisar de o dizer. Eu estava sem trabalho. Ela ligou para o dela e disse Meto uma licença sem vencimento por… digamos, um ano. Desligou o telefone, riu-se e abraçou-me.
Saímos de casa nessa mesma noite.
Íamos de janelas abertas, cigarros ao canto da boca a ouvir uma mixtape com as músicas que tínhamos escolhido para a viagem. Naquele tempo não tinha problemas de visão. Conduzia bem durante a noite. As luzes dos outros carros não me faziam impressão. E não precisávamos de um quarto de hotel para passar a noite.
Parámos à borda da estrada, um pouco dentro de um pequeno bosque, com algumas árvores raquíticas, em nenhures, já na Andaluzia, em Espanha. O luar de uma Lua envergonhada e a ausência de som de carros a deslocarem-se por aqueles lados àquelas horas. Ela sentou-se em cima de mim, com o volante a forçar-lhe as costas e fizemos amor ali mesmo, assim, ela sentada em cima de mim e eu sentado ao volante da carrinha Peugeot que o meu pai me tinha dado. A carrinha era grande. Mais tarde haveríamos de dormir nas traseiras da carrinha onde, baixando o bando traseiro, conseguíamos dormir esticados. Mas naquela primeira noite dormimos nos bancos da frente, sentados, depois de eu me vir dentro dela.
Saí do carro para mijar. Ela também. Eu mijei contra a leve aragem que se tinha levantado, a tentar fugir dos pingos, ela abaixou-se e mijou junto à porta do carro a fazer-lhe de biombo. Mas não havia carros a passar.
Eu acendi um cigarro. Ela juntou-se a mim. Abraçamo-nos e olhámos as estrelas. Eu disse O Mediterrâneo é lá para baixo. Ela apertou-me e disse Quero mergulhar em Torremolinos.
Adormecemos sentados no carro. Acordámos da mesma maneira. Eu acordei. Acordei com o sol a bater-me nos olhos. Ainda era muito cedo. Ela ainda dormia. Arranquei com o carro em direcção à Costa del Sol. Queria levá-la a mergulhar em Torremolinos.
Quando ela acordou, já rodávamos no meio de uma planície desértica e muito quente. Ela tirou a camisola e ficou só com a parte de cima do biquíni. Chegou-se a mim, deu-me um beijo e disse Tenho fome. E preciso de lavar os dentes.
Acendeu um cigarro e passou-mo. Acendeu outro para ela. Ao fundo uma Estação de Serviço. Ao lado uma tasca. Parei. Saímos do carro. Ela foi à casa-de-banho. Pedi duas tostadas com tomate e dois americanos. Ela regressou e fui eu à casa-de-banho. Matámos a fome. Lavámos os dentes. Voltámos ao carro.
Ela perguntou Qual é a próxima paragem? e eu respondi-lhe Torremolinos, não? Ela sorriu um sorriso rasgado mas depois disse Temos pouco dinheiro.
Eu pensei. Devia ter pensado antes, voltei a pensar. E depois disse-lhe Fazemos um desvio.
Ao acabar de dizer o que disse, guinei o carro e saí da estrada principal que nos estava a levar até Torremolinos. Até lá havia muita casa perdida naquelas planícies e nas pequenas colinas que se avistavam ao longe.
E eu pensei que, até Torremolinos, podíamos encher a carteira. E disse-lhe Até Torremolinos, podemos encher a carteira. Ela sorriu para mim, aproximou-se, virou a minha cara para ela, com as suas mãos pequenas e suaves e deu-me um beijo de língua. Eu deixei de ver a estrada, mas não tive medo. Já estava no céu.
Ela depois abriu o porta-luvas e agarrou no revólver. Apontou-o para a frente dela, para o pára-brisas, para a estrada, e disse Bang Bang. E eu respondi My baby shoot me down. Ah! não, foda-se! e rimo-nos os dois que nem parvos. Depois parei o carro na berma da estrada e ela saltou para cima de mim. E fizemos amor ali mesmo, outra vez, à borda da estrada, perdidos algures nas planícies da Andaluzia, e ela com um revólver nas mãos, enquanto gritava o seu prazer ao vento que não se fazia sentir naquela terra seca e árida.
Depois voltámos à estrada e fomos andando até avistarmos, ao cimo de uma colina, uma casa solitária.

[continua amanhã]

[escrito directamente no facebook em 2020/09/06]

Ao Passar a Ponte Sobre o Tejo

Íamos de carro a atravessar a ponte sobre o Tejo. Eu e ela. Ainda não estávamos bem no tabuleiro da ponte. Estávamos a caminho do tabuleiro, naquela parte em que todos os acessos já deram acesso e é tempo de continuar em frente, passar a ponte, e escolher a A2 e ir para o Algarve ou virar à direita e ir para a Costa da Caparica. Também se pode virar à direita e ir para Almada, Cacilhas e Cova da Piedade, mas não era esse o caso. Íamos seguir em frente, pela A2, e virar à direita mais à frente para irmos para o Meco.
Eu ia de calções. Uma t-shirt velha e muito coçada, de um material que fazia lembrar os pólos, mas não era um pólo, era uma t-shirt. Não tinha botões.
Ela ia de vestido leve e esvoaçante. Um vestido transparente que deixava ver o biquíni por baixo.
Ainda não tínhamos chegado ao tabuleiro da ponte, eu estava a mexer nos botões do rádio à procura de uma música que me agradasse, quando senti a mão dela a pousar na minha perna, na minha perna cá em cima, já na coxa, mesmo na pele, a fugir à perneira curta dos calções, e senti-me excitado, os pêlos eriçaram-se, fiz girar o botão do volume que largou o rádio num berreiro e eu tirei, por momentos, o olhar da estrada para ver o que é que estava a acontecer com o rádio e a retirar a mão dela de cima de mim, pelo menos enquanto eu estivesse assim, tão susceptível, quando senti o carro a dar uma pequena guinada, senti uma pancada seca, seca mas não muito forte e, logo de seguida, a buzina de um automóvel que, vim a perceber, me era dirigida.
Levantei a cabeça, procurei de onde vinha a buzina que não se calava e vi um sujeito a esbracejar dentro de um carro. Ao lado dele, uma mulher também esbracejava. Continuava a apitar e a agitar os braços, as mãos, os dedos e apontava, apontava para mim, parecia-me, e apontava para o rio e continuava a apitar.
Ela estava sentada no banco, afundada no banco, assustada. E disse Acho que batemos no carro. E eu pensei Se calhar batemos. Mas foi um pequeno toque sem consequências. E ela continuou Se calhar é melhor pararmos. E eu pensei Parar, onde? Estamos na ponte. E como se tivesse ouvido a minha pergunta, ela disse Vira à direita, como se fôssemos para a Costa. Há aí uma estação de serviço.
Fiz o resto da ponte com o outro carro a seguir-me e a buzinar, depois virei à direita e acabei por parar na estação de serviço a caminho da Costa da Caparica.
O outro carro seguiu-nos e parou atrás de nós. Finalmente a buzina calou-se e senti alívio.
Saí do carro mas ainda nem tinha os dois pés fora do carro, o tipo já me estava a agarrar pela t-shirt e a puxar-me para fora. Rasgou-me a t-shirt. Não era preciso muita força para rasgar a t-shirt. Estava coçada. Tinha muitos anos. Já tinha viajado muito comigo. Estava cansada. Como eu fiquei quando o tipo me puxou para fora do carro, rasgou-me a t-shirt e empurrou-me contra o capot. Senti-me cansado. Ao lado dele a mulher. Os dois estavam aos berros comigo. Não sei o que diziam. Não conseguia ouvir. Berravam. As bocas abriam-se e pareciam querer engolir-me. A ele faltavam-lhe dois ou três dentes à frente, na boca, a mulher tinha os lábios pintados de cor-de-rosa, mas com um batom muito pastoso.
Eu olhei dentro do carro e vi-a cheia de medo, afundada no banco. Levantei os braços a dizer ao tipo que estava tudo bem. Íamos falar. Íamos ver o que tinha acontecido e íamos falar. E ouvi-o dizer Cem euros! Cem euros!
Olhei para o carro deles à procura de estragos e o carro era um chaço todo batido e cheio de ferrugem. Se lhe bati, nem se notava.
Perguntei-lhe Queres cem euros? Porquê?
E o tipo e a mulher dele recomeçaram a cuspir-me palavras para cima, muito irritados, muito próximos de mim, sentia-lhes o bafo, o bafo azedo e a cheirar a tabaco frio, e levei as mãos aos bolsos e vi que não tinha nem a carteira nem dinheiro, nada.
Ainda disse Podemos chamar a polícia, e ai foi ela que me agarrou a t-shirt e ainda ma rasgou mais. Pensei que era nessa altura que me iriam mesmo bater. Os tipos estavam furiosos. Se calhar até tinham razão para estarem furiosos. Se calhar bati-lhes mesmo com o carro. E eles não tinham culpa de terem um carro tão velho e estragado e sem tinta e não se perceber o que é que eu tinha estragado, quando olhei para dentro do carro e vi que ela já não estava lá, olhei em volta, por entre as cabeças e os braços e as mãos dos outros dois e vi-a vir do interior da estação de serviço, e vinha com duas notas de cinquenta euros na mão e aproximou-se deles e deu-lhes o dinheiro.
Foi a mulher que agarrou no dinheiro. Pôs o dinheiro dentro do soutien e cuspiu para o chão. O tipo largou-me e ainda disse Para a próxima toma mais atenção. E foram os dois embora para o carro deles.
Ela acendeu um cigarro e passou-mo. Eu levei o cigarro à boca. Foi então que percebi que estava nervoso. O cigarro começou a acalmar-me e eu percebi, então, que estava mesmo muito nervoso.
O carro dos tipos passou por nós para voltar à estrada e vi que no banco de trás estava uma alcofa com uma criança de colo. A alcofa ia solta sobre o banco de trás. A criança ia solta na alcofa e a agitar os braços e as pernas. A mulher fez-me um pirete e o carro voltou à estrada.
Respirei fundo.
Ela veio encostar-se ao meu lado a fumar um cigarro também.
E disse-me Acho que batemos mesmo no carro deles. Mas não temos nada estragado no carro. Eu acenei, em silêncio.
Acabámos de fumar os cigarros. Apagámos as beatas no chão.
Eu perguntei Vamos?
Ela disse Estás todo rasgado. Ergueu-se um pouco e deu-me um beijo. Senti-me de novo excitado.
Antes de entrarmos para o carro disse-lhe Não me voltes a tocar até chegarmos à praia. E ela riu-se.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/01]

Sair de Casa

Tínhamos saído de carro, eu e ela, para ir à cidade. Há três meses que não íamos à cidade. Há três meses que não passávamos do Pingo Doce para baixo. Saíamos de casa para ir ao Pingo Doce e voltávamos. Não chegávamos a ir à cidade. Então naquele dia, resolvemos ir à cidade.
Levámos as máscaras, os frascos com álcool, as luvas. Circulámos pela cidade de carro. De repente, a cidade parecia estar como a conhecíamos antes. Muita gente na rua. Muita gente a entrar e a sair de lojas. Muita gente com ar atarefado. Quase toda a gente com máscaras. Algumas esplanadas com gente. Não muita, mas alguma. Outras esplanadas fechadas.
Perguntei-lhe Vamos beber uma cerveja? e ela olhou para mim e não respondeu. Olhou só. Ficámos assim um bocado de tempo. Fomos despertados pela buzina de um automóvel atrás de nós na estrada. O semáforo estava verde. Arranquei. Arranquei devagar. A pensar no olhar dela, no olhar que ela me fez e na reposta que não me deu.
Dei uma guinada no volante, mudei de estrada, e disse-lhe Ok!
Ela descalçou as sapatilhas, levantou as pernas e colocou os pés em cima do tablier. Eu saí da cidade e apanhei a auto-estrada.
Havia movimento na auto-estrada. Não muito, mas algum. Estávamos na A1. Acelerei. Saí para apanhar a A13. Fizemos a A13 até apanharmos a A6. Na A6, acelerámos até ao fim da auto-estrada. Aqui acho que não ultrapassámos ninguém e não me lembro de nos termos cruzado com qualquer outro carro. O Alentejo estava deserto. A auto-estrada que cruza o Alentejo até Espanha estava vazia. Entrámos em Espanha e não parámos. Ainda pensei nos caramelos de Badajoz. Nas inúmeras vezes que tinha ido a Badajoz com os meus pais. No pão com calamares e na Coca-Cola que em Portugal não havia. Nos jogos que o meu pai me comprava. Na dificuldade em escolher qual o jogo a trazer de uma loja repleta de jogos até ao tecto. Houve um ano que trouxe umas bolas penduradas por uma corda, ligadas a uma argola que enfiava no dedo e fazia batê-las uma na outra, em cima e em baixo da mão. Fazia um barulho deliciosamente irritante. Desapareceram de casa de forma misteriosa. Sempre achei que fora a minha mãe a dar-lhes o sumiço em nome da sua sanidade.
Ela perguntou Onde vamos? e eu respondi Por aí!
Fomos comendo as placas que nos indicavam Madrid. Íamos ouvindo a música em shuffle da pen. Uma boa selecção (a selecção era minha). Mas havia por lá coisas que já não ouvia há muito tempo. Soube bem ouvir.
Parámos numa estação de serviço à beira da estrada. Colocámos as máscaras. Eu estiquei o corpo. Tinha as costas doridas. Entrámos na estação de serviço. Ia pedir um café mas lembrei-me que o café em Espanha era uma merda. Optei por uma Coca-Cola que partilhei com ela. Partilhámos também um bocadillo de lomo. Comprámos duas garrafas de água de litro e meio. Uma fresca e outra natural. A fresca para mim. A natural para ela. Assim, toda a gente fica contente. Pagámos. Saímos. Encostei-me ao carro a fumar um cigarro. A máscara pendurada no bolso de trás das calças. Ela encostou-se ao meu lado e roubou-me o cigarro das mãos. E disse-me A máscara está a limpar o pó ao carro. Eu encolhi os ombros, mas tirei a máscara do bolso, abri a porta do carro e coloquei-a no porta-luvas.
Ficámos ainda um bocado por ali mesmo já depois de termos acabado de fumar o cigarro.
E ela perguntou Vamos?
Eu entrei no carro. Ela também. E arrancámos.
Estávamos a chegar aos arredores de Madrid e eu perguntei Madrid? e ela virou-se para mim e abanou a cabeça. Continuámos estrada fora. Contornámos Madrid.
Quando o dia começou a cair pensei que o melhor seria parar para descansar o corpo e dormir um pouco. Apontei para Saragoça. Chegámos já noite. Procurámos um hotel a funcionar. Ficámos no primeiro que encontrámos. Entrámos e já não saímos. Não comemos nada. Estávamos cansados. Tomámos um duche e dormimos. Nem força tínhamos para foder.
No dia seguinte acordámos cedo. Saímos do hotel e fomos procurar um café para beber um americano e comer uma tostada com tomate. Depois de fumarmos um cigarro na rua, pegámos no carro e partimos de Saragoça.
Primeiro pensei em Barcelona, mas imaginei que haveria por lá gente a mais. Depois passou-me Andorra pela cabeça, para matar saudades do sítio de onde o meu pai me trouxe o meu primeiro walkman, mas pensei que se calhar havia alfandega para passar e achei melhor nem pensar nisso. Cruzar os Pirenéus, isso era certo. Mas por outro lado. Sem passar por Andorra. E seguir para Toulouse. Depois, talvez Montpellier. Marselha. Até Cannes. Sim, seria bom ir até Cannes. E depois? Depois haveríamos de continuar por ali fora enquanto tivéssemos dinheiro, com a pen a dar-nos uma boa selecção musical (a selecção era minha).
E depois? Quando o dinheiro se acabasse?
Quando o dinheiro se acabasse, vendíamos o carro e comprávamos dois bilhetes de autocarro ou comboio ou avião para regressar. Se regressássemos. Logo haveria de se ver.
Olhei para ela e sorri. Ela sorriu-me. Não precisava de a consultar a pedir opinião. Não queríamos voltar já para casa. Estávamos fartos de casa. E ela iria comigo até onde fôssemos. E foi.
E ao ver aquele sorriso só pensava que, nesse dia à noite, não iria estar cansado. Não podia estar cansado. Aquele sorriso matava-me. E ri-me satisfeito e contente enquanto cruzávamos a fronteira e entrávamos em França.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/15]

Estou Nu e Ela Desata a Rir

O sol tirou-me de casa. Peguei numa manta e fui até à espécie de relva que tenho à volta das laranjeiras, à frente de casa. Estendi a manta. Deitei-me. Fechei os olhos e deixei-me levar por Morfeu. O cabrão não me quis. Mantive-me de olhos fechados mas não conseguia abstrair-me de todo aquele barulho campestre. Pássaros, grilos, cigarras. Até a Zundapp do filho do dono da Estação de Serviço, que fica já depois da saída da aldeia, se ouve aqui, a espremer-se toda a caminho da serra.
Os gatos vieram fazer-me companhia. Deitaram-se encostados a mim. Suspirei. O silêncio e a solidão são uma impossibilidade na minha vida. Irra! gritei alto.
Levantei-me e fui ao interior de casa buscar o maço de cigarros e um isqueiro. Passei ao lado da mangueira. Puxei-a e pendurei-a num ramo de uma laranjeira virada para o céu. Despi-me. Liguei a água e deixei a água fria tombar sobre o meu corpo quente. Arrepiei-me. Ri-me. Ri-me sozinho como só os loucos fazem. Os gatos olhavam para mim como se eu fosse parvo. Se calhar sou. Desliguei a mangueira e fui deitar-me de costas na manta a olhar para o céu azul carregado de nuvens brancas com formas variadas a requerer histórias.
Ali vai um hipopótamo. Sabem que o hipopótamo é o grande responsável pelo maior número de mortes no mundo atribuído a ataques de animais? Este foi o momento National Geographic e o programa segue dentro de segundos.
Saboreei o momento pastoral que me cercava. Parecia Agosto. A Zundapp calara-se. Os barulhos da bicheza actuavam como baladas e, de cigarro na mão, senti a moleza tomar conta de mim. Ainda tive tempo para ver o fumo do cigarro subir e misturar-se às nuvens. Senti o cheiro das sardinhadas que os meus pais faziam ao fim-de-semana, o meu pai a atiçar as brasas e a colocar a grelha com as sardinhas e dois carapaus para a minha irmã, que não gostava de sardinhas, sobre o lume e a minha mãe a fazer a salada de pimentos que me faria arrotar durante toda a tarde. Depois percebi que me estava a ir. Senti a pálpebras pesadas a fecharem-me os olhos. Perdi os meus pais e as sardinhas. Os sons afastaram-se para longe e era lá ao longe que os ouvia. Senti o cigarro escorregar-me dos dedos e cair e ainda pensei que devia ter cuidado para não provocar nenhum incêndio, mas nada fiz para o evitar. A minha mãe toma conta de tudo isso. O meu pai arranja qualquer coisa. E devo ter mesmo adormecido porque tudo se esvaneceu e o mundo entrou no vácuo. Entrou? Afinal não dei por nada de nada. Estava a dormir e, a dormir, não percebo nada. O tempo passa, passa todo, e só regressa quando acordamos. Nunca sabemos em que momento da vida é que retomamos a vida. É ali, é sempre ali, naquele momento, mas que momento é esse na linha do tempo? Foda-se! os tormentos que me assaltam quando desperto.
E então, ouço Ó vizinho! E ergo-me sonolento na manta. Pisco os olhos a tentar adaptar-me à luminosidade. E volto a ouvir Ó vizinho! e percebo que está alguém ao portão a chamar-me e levanto-me e vou descalço, cruzo o quintal, os gatos à minha volta, começo a descer a alameda até ao portão e vejo a minha vizinha com algo nas mãos. Talvez um bolo, ela costuma oferecer-me uns bolos caseiros. E depois leva a mão à cara e desata a rir. A rir como uma desalmada. E eu então percebo que estou nu. Estou a descer a alameda nu. Mas já é tarde. Estou junto ao portão e abro-o para ela entrar.
E ela entra.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/05]

O que É que Terá Acontecido?

Vinha a atravessar os Pirinéus. Estava ainda nos Pirinéus franceses. Vinha cansado. Era fim-de-dia e estava uma luz bonita, tinha estado sol, mas não estava de óculos escuros porque havia muita densidade negra nas sombras da floresta e já via mal nalgumas zonas mais fechadas, onde as árvores quase que formavam um túnel à volta da estrada, e o carro acendia automaticamente os faróis para eu ver melhor o que estava à minha frente. O sol adormecia para além do horizonte, depois das montanhas. Eu vinha a conduzir há muitas horas. Só com paragens para fazer xixi, beber Red Bull e café. De vez em quando passava a mão pela cara. Para acordar. E sentia a barba a cortar-me as mãos.
Tinha ido até Budapeste, na Hungria. Alguém tinha-me pedido para ir lá entregar um pacote. Em mãos. Achei estranho. Ainda perguntei pelos CTT e a DHL, mas frisaram Em mãos! O dinheiro era bom. Precisava de dinheiro, na altura. Ainda pensei que me estava a meter numa merda de onde não sairia vivo, mas o dinheiro que me ofereciam era o suficiente para me aguentar uns meses.
Aceitei. Passaram-me um Hyundai Santa Fe para as mãos. Fui a casa buscar o iPod e um cabo. Uma mochila com umas cuecas e umas meias. Um livro. Não sei bem porque levei um livro, mas ando sempre com um livro atrás, mesmo que não leia nada. Acho que é um apoio psicológico. Com um livro nunca me sinto só. Deve ser esse o princípio, não sei.
Mais de três mil quilómetros para lá chegar. E depois o regresso. Fui sempre a andar. Demorei três dias. Três dias sem ir à cama. Algumas pausas para passar pelas brasas. Mas nunca dormi mesmo. Dormitei no carro. Com o volante à minha frente e as colunas a passarem a selecção musical do iPod. Acordava. Dava uma volta pelo parque de estacionamento da Estação de Serviço, fumava um cigarro, bebia um café e levava um Red Bull para a viagem. Fui alimentando-me a sandes, hambúrgueres e pizzas.
Sempre estrada fora. Sempre a cumprir as regras de trânsito. Sempre dentro da velocidade permitida. A pagar as auto-estradas com dinheiro. Durante este tempo ninguém me telefonou. Não postei nada no Facebook nem no Instagram. Não vi nenhum filme. Ouvi música. Alguns noticiários. Comecei a ler o livro que tinha levado três ou quatro vezes. Nunca passei da primeira página.
Em Budapeste fiz um telefonema de uma cabina telefónica pública. Deram-me uma morada de um sítio público. Nas margens do Danúbio. Não foi difícil dar com o local. Parecia uma cena de um filme de espionagem. Sentei-me num banco de jardim a olhar o rio. Alguém chegou de bicicleta. Parou à minha frente. Disse qualquer coisa que não percebi. Mas percebi o meu nome. Acenei coma cabeça. Estendeu-me um envelope. Eu agarrei no envelope. Ele continuou com o braço estendido e estalou os dedos. Estendi-lhe o pacote. Ele voltou a dizer qualquer coisa que não percebi e arrancou na bicicleta.
Percebi que a minha viagem tinha terminado. Simples. Olhei dentro do envelope. Várias notas de cinquenta euros. O combinado. Dei uma volta ao longo do Danúbio. Estiquei as costas. Estavam doridas. Estalavam quando eu me endireitava. Percebi que tinha fome.
Entrei num restaurante e fui comer um goulash. Comi tudo o que me puseram à frente. Acompanhei com um copo de vinho tinto. Bebi dois cafés. E arranquei de regresso.
Eram duas viagens sem história. Para lá e para cá. Duas viagens solitárias. À velocidade legal. A música como companhia. Mas no regresso cheguei a vir algum tempo em silêncio, só a ouvir o motor do carro a galgar asfalto, um cigarro aceso entre os dedos da mão direita e o olhar à espera de ver Portugal. Mas ainda faltavam muitos quilómetros.
Cheguei aos Pirinéus franceses.
Estava cansado. O dia estava a chegar ao fim. Tinha estado um belo dia de sol mas, agora, estava a entrar no lusco-fusco. Tinha pensado parar numa Estação de Serviço e descansar um pouco antes de entrar em Espanha, quando aconteceu.
Estava numa recta em planalto, rodeado de árvores frondosas de um lado e de outro da estrada. À frente, pareceu-me ver alguém na berma da estrada. Mantive a velocidade e foquei-me no que estava a ver. Era uma criança. Uma menina, mais concretamente. De vestido rodado. Cabelo loiro. Apanhado em tranças. Tinha qualquer coisa ao colo. Talvez uma boneca. Talvez um gato. E achei a situação bastante peculiar. E pensei O que é que faz uma criança aqui à beira da estrada? E quando me estava a aproximar da criança, ela virou a cara para mim. Eu vi-a a olhar-me directamente nos olhos. Uns olhos sem expressão. Olhos frios. Mortos. E precisamente quando estou quase a passar à frente da criança, ela dá dois passos para dentro da estrada e eu bato-lhe com o carro, ouço o impacto, um Pam terrível e doloroso, ainda travei a fundo, espetei os pés no travão, levei a mão direita ao travão-de-mão e puxei-o, senti o carro a deslizar, pareceu-me perder o controle do carro, mas acabei por conseguir imobilizá-lo e pará-lo um pouco mais à frente do sítio do impacto.
O carro estava parado junto à berma, mas ainda na estrada. Eu estava com as duas mãos agarradas ao volante, como duas garras. Paralisado. Estava a transpirar. Estava muito nervoso. Olhei pelo espelho retrovisor e tentei ver para trás de mim. Mas não conseguia ver nada. Estava tudo desfocado. Tirei o cinto de segurança, abri a porta do carro e deixei-me tombar para o lado e vomitei no chão. Limpei a boca às mangas da camisola. Levantei-me a custo e voltei atrás. Vi as marcas dos pneus no asfalto. As marcas da travagem. Fiz o trajecto a pé, a olhar à volta. À procura da criança. E continuei um bom bocado. Entrei pela floresta. Chamei por alguém em francês. Em inglês. Em português. Não havia ninguém. Eu não via ninguém.
Voltei ao carro. Passei pelo vomitado e fui até à frente. Não havia nada amolgado nem partido. Não parecia que tivesse batido em nada nem em ninguém. Encostei-me ao carro e deixei-me descair para o chão. Acendi um cigarro. Fumei-o. E neste tempo todo não passou nenhum outro carro.
Depois de ter fumado o cigarro voltei a levantar-me e dei outra volta à volta do carro. Entrei. Liguei-o. Arranquei.
Durante o resto da viagem até Lisboa não voltei a pôr música. Fui fumando uns cigarros atrás dos outros. E só pensava O que é que teria acontecido?
Ainda hoje pergunto O que é que terá acontecido?

[escrito directamente no facebook em 2020/04/29]

Boca Doce

Aproximava-se o aniversário da minha filha e eu tinha de fazer alguma coisa. Alguma coisa que compensasse estes dias de chumbo que temos vivido. Procurava uma pequena alegria. Procurava colocar-lhe um pequeno sorriso nos lábios e que esse sorriso a fizesse esquecer estes últimos meses.
Levantei-me de manhã cedo. Não a acordei. Deixei-a dormir. Não havia tele-escola e podia dormir um pouco mais. Lavei as mãos. Lavei a cara. Lavei os dentes. Os boxers estavam já demasiado rotos. Nem dava mais para remendar. Tomei nota mental para tentar arranjar mais um ou dois boxers. Vesti umas calças. Calcei as botas com biqueira de aço. Uma camisola. Uma casaco com bolsos. Uma mochila às costas. O cartão multibanco, um lápis com borracha na ponta, algumas moedas e umas notas. Depois calcei umas luvas. Coloquei uma máscara cirúrgica na cara, sobre a boca e o nariz. Apertei a mola sobre a cana do nariz. Agarrei no revólver e coloquei-o preso no cós das calças, nas minhas costas, e uma faca de mato, afiada, dentro das botas. Antes de sair de casa pus os óculos escuros. Não me benzi porque não sou religioso mas, no momento mesmo antes de sair de casa virei-me para trás e olhei para a casa silenciosa e quase na penumbra, os estores estavam corridos até baixo, deixando somente os buracos abertos para passar alguma luz mas não deixar entrar mais nada, para deixar a casa em segurança, e esse momento foi como se me tivesse benzido e rezado uma Avé Maria e um Padre Nosso. Depois saí e fechei a porta à chave nas minhas costas.
Nunca gostei de usar as máscaras. Dificultam-me a respiração, fazem-me comichão e muito calor. Mas sei que tenho de as usar. Se quero sair à rua, tenho de ir protegido. Protegido de todas as formas.
Tinha o carro na garagem. O carro atestado. Mas achei melhor ir a pé. Nem sequer levar bicicleta. Provavelmente teria de ir a vários sítios. O melhor era não estar preocupado que me roubassem o carro, a gasolina, a bicicleta. Ir a pé era a melhor escolha. Mesmo que uma escolha perigosa. E assim fiz.
Cheguei à rua e olhei para um lado e para outro. A rua estava vazia. Aquele era um bairro essencialmente residencial. Era muito raro encontrar alguém na rua. Mesmo nos quintais, quem os tinha, já era difícil encontrar alguém. As pessoas barricavam-se em casa. As que podiam trabalhar em casa trabalhavam. As outras tentavam sobreviver. Ficavam fechadas em casa o dia inteiro. A noite inteira. A semana quase toda. Mas às vezes, às vezes faziam pequenas saídas para procurar alimentos e remédios. Vasculhar os caixotes do lixo. Tentar algum assalto e evitar ser assaltado.
Ainda havia algum comércio durante o dia. A maior parte das lojas já só funcionava no mercado-negro. Eram protegidas por milícias. E continuavam a ser os sítios onde ainda se podia encontrar algumas coisas. Ainda se aceitava cartões multibanco e MBWay. Já ninguém aceitava cartões de crédito. O dinheiro em género era a forma mais imediata de se fazer compras mas, a troca de uns produtos por outros, estava a ganhar o seu espaço. Principalmente porque a maior parte das pessoas já não trabalhava e já não tinha dinheiro.
Eu ainda era um dos poucos sortudos com algum trabalho e algum dinheiro. Mas até para pessoas como eu as coisas estavam a ficar complicadas porque os próprios governos estavam a desintegrar-se. A perder as ruas. O Estado ainda tinha os militares e alguma polícia. Mas as milícias, os grupos armados, os grupos de piratas começavam a estender as suas malhas por todo o lado. Os Mercados já não existiam. Pelo menos, não como eram entendidos antes de tudo isto começar. Agora tudo se comprava e vendia directamente. Troca por troca. Mão havia mercados futuros. Fundos de investimento. Compra e venda de acções. Nada dessas coisas. Agora o que tinha valor era o real. Uma alface. Uma vaca. Um par de sapatilhas Adidas. Uma Glock.
Havia ainda produção no campo. E gente a garantir essa produção. A maior parte eram já protegidos por estes mesmos grupos de piratas. Quem tinha as armas é que mandava. Quem tinha as armas e os homens e a coragem. Os outros todos, obedeciam.
Eu ainda trabalhava para o Estado. Todos os meses ainda recebia o meu dinheiro através do banco. Os bancos ainda funcionavam. Afinal, era lá que os grupos de piratas guardavam o dinheiro. Na verdade, os piratas já tomavam conta dos bancos. Mas eles ainda funcionavam. Funcionavam era já de uma maneira diferente. Com outros objectivos. Agora eram essencialmente cofres-fortes. Guardavam ouro e outros metais preciosos. Pagavam-se entre eles para trocas entre clientes. Era assim que se fazia chegar um carregamento de uvas da Beira-Alta até Lisboa, por exemplo.
Mas enfim, saí de casa, cheguei à rua e virei à esquerda e fiz a rua toda até ao fim, até ao fim do bairro e depois continuei por ali fora, quase uma hora a caminhar pela estrada até chegar ao baldio, um antigo e enorme parque de estacionamento do estádio de futebol abandonado, terreno perigoso quando é noite, mas que se faz relativamente bem durante o dia. Depois faria mais cinco ou seis quilómetros em frente e estaria na periferia da cidade mas numa zona comercial onde, eventualmente, poderia encontrar alguma coisa do que procurava.
Fazer a rua do bairro foi muito penoso. A rua estava deserta. Alguns carros parados nas bermas junto aos passeios, mas já só umas carcaças metálicas. Esqueletos de antigos carros, despojados dos seus acessórios, desmontados e vendidos individualmente para renderem mais no mercado negro.
Havia gente dentro das casas. Via algumas caras à janela. Um homem saiu e disse Vais à cidade? Espera por mim que vou contigo! e voltou a entrar dentro de casa. Eu não esperei. Prefiro ir sozinho. Não levantar ondas. Passar despercebido. Manter-me invisível como sempre tinha sido toda a minha vida. Alguns quintais estavam abandonados. As casas ainda tinham gente mas as pessoas já não vinham à rua. Por medo do vírus. Por medo dos grupos armados. Por medo dos piratas. Por medo de tudo. Até da própria sombra. A vida, por estes dias, não vale um chavo.
Cheguei ao fim do bairro e fiz a estrada. Cerca de dez quilómetros até ao baldio do parque de estacionamento. Estrada deserta. Não passou um carro. Uma antiga estação de serviço abandonada e destruída. Cheguei ao antigo parque de estacionamento. Ao longe já se avistavam outras pessoas como eu, a ir para a cidade, a vir da cidade, atentos. Olhávamos uns para os outros a tentar perceber se éramos um perigo ou não. Agora ninguém sabe com quem se cruza. Há histórias de gente morta por amigos por causa de uma lamela de paracetamol. A vida tinha desvalorizado bastante na bolsa de valores. E a amizade mais ainda. Já não havia amigos. Era difícil encontrar gente em quem confiar. É por isso que precisava de encontrar qualquer coisa de especial. Para um dia especial de uma miúda especial.
Passei ao lado do antigo Estádio. Conta-se que lá dentro é o quartel-general de um dos grupos de piratas mais terríveis da zona. Mas pode ser só um mito urbano. As portas estão fechadas. Não se vê ninguém a entrar nem a sair do Estádio. Mas também se fala que existem túneis secretos. Na verdade não sabemos muito bem o que pensar de tudo isto.
Ao passar ao pé de uma das portas, levei a mão ao bolso onde tinha o revólver. Agarrei-o. Agarrei-o para o sentir. Vi qualquer coisa caída no chão por entre as ervas que cresciam no meio do asfalto rachado do antigo parque de estacionamento. Continuei a andar mas foquei melhor o olhar. Era um corpo. Um corpo de homem. Um cadáver ainda recente, provavelmente. Cuspi para o chão. Continuei em frente. Cruzei a estrada que vinha do norte e continuei até ao limite da cidade. Um quilómetro mais à frente começavam as primeiras lojas. Uns antigos supermercados adaptados aos novos tempos. Agora vendia-se de tudo, de tudo o que houvesse.
Lembro-me há muitos anos, em Luanda, ter ido ao Roque Santeiro, o maior mercado a céu aberto de África. Lá encontrava-se de tudo. Desde uma agulha para coser os meus boxers, quando eles ainda tinham salvação, até um míssil para disparar sobre a cidade vizinha. Agora, por aqui, era mais ou menos assim. Mas havia especializações nas lojas.
Cheguei ao primeiro supermercado logo à entrada da cidade. Era um antigo Minipreço. Mostrei o cartão multibanco ao segurança armado à entrada e entrei dentro do Minipreço. Dei uma volta pelo interior mas não havia nada que me interessasse. O antigo Minipreço era pequeno e não tinha muita variedade de coisas. Era essencialmente um entreposto de lacticínios e enchidos, tudo vindo directamente do produtor, algumas embalagens antigas, já tudo fora de prazo, mas muita coisa a granel. Só se leva o que se pode pagar. E não se pode levar tudo que as coisas são geridas de maneira a haver sempre quase tudo quase sempre.
Saí e entrei num antigo Pingo Doce. Fiz o mesmo ritual. Mostrei o cartão multibanco ao segurança e entrei. O Pingo Doce tinha muitas conservas. Era, essencialmente, um entreposto de latas de comida e bebida. Dei uma volta. Era bom se encontrasse uns pacotes de gelatina. Ela gostava de gelatina quando era miúda. Há quantos anos não comia gelatina? Mas não conseguia dar com nenhuma embalagem de gelatina. Até que, de repente, vejo-a a olhar para mim. Perdida numa prateleira. Fora de sítio, provavelmente, porque não havia ali mais nada daquilo. Uma embalagem de Boca Doce. Boca Doce! Uma embalagem de Boca Doce de Morango. O Boca Doce era uma espécie de pudim gelatinoso instantâneo. Agarrei logo na embalagem. Não precisava de procurar mais. Tinha encontrado o que procurava.
Paguei. Era caro. Paguei com o multibanco. Marquei o código com a parte de borracha do lápis. Depois desinfectei-a com um pouco de álcool e guardei o lápis no bolso do casaco. Pus a embalagem de Boca Doce na mochila. Podia voltar para casa. Não precisava de mais nada.
Saí.
Não tinha andado quinhentos metros, ainda estava dentro dos limites da cidade, quando fui abordado por um homem. Sem máscara. Afasta-te!, pedi. O tipo continuou a avançar para mim, mostrou-me uma faca na mão, uma faca grande, e disse O cartão! e tentou agarrar-me o braço. Eu levei a mão ao bolso do casaco e agarrei no revólver. Disse ao tipo Afasta-te, se fazes favor! Ele voltou a tentar agarrar-me. Deitou-me a mão ao braço e agarrou-me o braço e puxou-me para ele. Eu dei-lhe um pontapé com a biqueira de aço numa canela que o fez tropeçar. Enquanto ele se baixava cambaleante, eu tirei a mão do bolso com o revólver e disparei à queima-roupa. Disparei sobre o tipo. O tiro acertou-lhe em cheio na cara. Senti alguns salpicos a caírem sobre mim. Foda-se! disse. A mão do tipo largou-me o braço e ele caiu no chão. Dei-lhe um pontapé na mão e vi-a voar e cair quieta ao lado do corpo. Eu pequei no frasquinho de álcool e aspergi um pouco sobre mim.
Fui-me embora e deixei o corpo lá caído.
Enquanto passava ao lado do Estádio, enquanto caminhava pelo antigo parque de estacionamento, pensava que tinha de tomar um banho quando chegasse a casa e tinha de pôr a roupa para lavar e tudo isso antes da miúda acordar. E mais ainda pensava que à noite iria fazer o pudim-gelatinoso de Morango para o aniversário dela no dia seguinte. Achava que ela iria gostar de um Boca Doce. E sorri. Depois ainda pensei Não procurei os boxers para mim. E não pensei mais no tipo a quem tinha acabado de matar.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/06]

Um Agente da G.N.R. Tocou a Campainha da Porta da Rua

Fiquei sem gasolina na motorizada. É uma merda ficar sem gasolina na motorizada às sete da manhã, depois de uma noite de trabalho em dia que promete chuva.
Sou o único a fazer as noites aqui na fábrica. O que fica a funcionar à noite é tudo automatizado, mas alguém tem de estar de vigia não vá o diabo tecê-las e alguma das máquinas parar, ou aquecer demasiado. Quando a fábrica acabou com o turno da noite, ninguém se prontificou a continuá-lo. Eu ofereci-me. Gosto de trabalhar à noite. Recebe-se um pouco mais. Não é muito mais. Mas ainda é algum. De qualquer forma, não tenho ninguém à minha espera em casa. Com excepção da minha filha quando cá vem. Ela vem e vai assim, quando lhe dá na telha. Nem diz água vai. Quando se farta da faculdade, dos colegas, do namorado, vem cá passar uns dias a casa. Às vezes mal a vejo. Ela entra e sai. Eu também entro e saio. Às vezes jantamos. Jantamos cedo para eu entrar ao serviço. Mas jantamos. Às vezes também tomamos o pequeno-almoço juntos. Já aconteceu eu estar a chegar a casa e ela ter a mesa posta, torradas feitas e barradas com manteiga e uns ovos mexidos, coisa que nunca como ao pequeno-almoço mas que me agrada que ela faça. Mas não acontece muito. Geralmente está a dormir quando chego a casa. E quando acordo, ela já não está por lá.
Começa a chover. Uma merda nunca vem sem companhia. Gaita.
Logo à noite tenho de vir mais cedo para fazer o caminho a pé e trazer um jerricã com combustível para a motorizada. Até me faz bem andar a pé mas, ao fim de uma noite de trabalho, quero é esticar-me na cama e deixar-me adormecer. Não andar a fazer maratonas. Já não tenho idade para maratonas. E agora chove. E começa a chover com alguma força.
Não vale a pena acelerar o passo. Já estou encharcado. E não consigo andar muito mais depressa com esta perna apanhada pelo reumatismo. Maldita velhice. Maldita vida de pobre.
As luzes dos candeeiros de rua ainda estão acesos. Já há alguns carros na estrada. E ali vai a carreira para Lisboa. Também ia nela para Lisboa. Ia ao Estádio da Luz ver o voo da águia Vitória. Ia a Belém comer um Pastel de Nata, daqueles a sério. Apanhava o comboio no Cais do Sodré e ia até Cascais. Depois voltava. Gosto de viajar ali assim, ao lado do rio que é quase já mar. Há zonas lá que quando as ondas estão mais furiosas quase que atingem o comboio. Gosto de ver isso. Gosto de ver a fúria daquele quase-mar quase em cima de mim. Já uma vez lá fui. E gostei. Prometi que voltava. Nunca mais voltei.
Também gostava de apanhar o Cacilheiro e cruzar o rio até à outra margem. Passear-me ali pelo Cais do Ginjal. Ver aqueles carros que se enfiam por lá, a tentar sair sem cair ao rio. Há gente muito doida. Muito doida mesmo.
Fumava um cigarro, mas molhava-se todo. É melhor não.
Também ia comer um bife à Portugália. Um dia não são dias. E levava a miúda. Se ela quisesse ir comigo. Gosto daqueles bifes com molho. Acho que é um molho de mostarda, não é? E um ovo estrelado por cima do bife. E as batatas fritas. Gosto de molhar as batatas fritas naquele molho. E tenho de pedir o bife mal passado. Quase cru. Senão, torram-no todo. Há quantos anos não vou a Lisboa?
Nem sei porque é que estou a pensar nestas coisas. Sei que não vai acontecer. Eu nem posso sair daqui. Quem é que iria fazer as noites na fábrica? Ninguém quer fazer as noites na fábrica. Só eu.
Tenho de fumar um cigarro antes de entrar em casa. Não fumo em casa com a miúda lá. Ela não gosta do cheiro. Eu percebo-a. E não me custa nada, não é?
Aqui. Aqui na paragem dos autocarros. Sento-me aqui um pouco e fumo um cigarro. A casa é já ali. Fumo um cigarro e depois vou descansado para casa.
Acendo o cigarro. Faço um esquema do meu dia. Tomo um banho. Seco-me. Deito-me. Adormeço. Tenho de me levantar mais cedo, amanhã. Para ir buscar combustível para a motorizada e fazer o caminho a pé até à fábrica. Como qualquer coisa. Arranjo o farnel para a noite. E vou à estação de serviço. E agora, um banho antes de me deitar. Estou encharcado. Encharcado e com frio. Talvez ela tenha feito o pequeno-almoço.
Acabo com o cigarro. Vou até casa. Entro. A casa está às escuras. E em silêncio. Cheira-me a café. Vou até à cozinha. A máquina do café esta ligada. Ela fez café, mas não fez pequeno-almoço.
Está uma folha de papel em cima da mesa da cozinha. Agarro no papel.
Fui-me embora. Não sei quando venho outra vez. Arranja um telemóvel. Xi♥. A tua filha.
Fico ali um bocado em pé com o bilhete na mão. Sei que nos vemos pouco. Que não conversamos muito. Mas agora que sei que ela voltou, de novo, para Lisboa, sinto a casa ainda mais triste. Triste e fria. Tenho um arrepio de frio. Lembro-me que estou molhado. Bebo uma caneca de café que ela deixou feito e vou para a casa-de-banho. Tomo um duche quente. Seco-me. Vou para o quarto. Deito-me na cama. Estou cansado. Ponho o despertador e fecho os olhos. Aguardo que o sono me leve.

Sou acordado com a campainha da porta da rua a tocar. Abro os olhos. Vejo as horas. Ainda é muito cedo. Muito cedo para mim. Levanto-me. Visto umas calças. Calço uns chinelos. Saio do quarto. Percorro o corredor e abro a porta da rua. Está um agente da G.N.R. do outro lado da porta aberta. Conheço-o. Faço uma interrogação com a minha cara. Ele diz Houve um acidente com a carreira que ia para Lisboa.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/14]

Ano Novo, Vida Nova

Já fiz quase dois dias inteirinhos deste novo ano que estreei ontem. Nada de novo debaixo do sol nem dentro de casa.
Queria acreditar que as coisas seriam diferentes. Não são.
Regressei ao trabalho. Entrei às oito da manhã. Estava ainda escuro. Frio. Mesmo em sistema self-service, as pessoas ainda me pedem para ser eu a encher os depósitos. A agarrar a mangueira de combustível e enfiar a agulheta dentro da entrada do depósito do carro. O cheiro. O óleo nas mãos. Tudo igual. Pagam em plástico. No final já nem espero uma moeda de gorjeta. Já lá vai o tempo. Agora é como se eu fizesse parte do preço do litro. O meu trabalho. Um trabalho de merda, mal pago e mal tratado.
Foi um dia de muito movimento. Os carros chegavam quase vazios e queriam voltar a partir cheios. Andou-se muito durante as festividades. Fez-se fila. Eu sozinho. Para encher os depósitos. Para receber os pagamentos. Para os trocos para a máquina de tabaco. Pediram-me para passar uma escova no pára-brisas. Para calibrar os pneus. Pediram-me duas latas de óleo. Uma embalagem de detergente para os vidros. Os que esperavam para o combustível, buzinavam. Eu olhava, mas não podia fazer nada. Estava sozinho. E assim continuei. Sozinho a servir toda a gente. Uma gente bem cheirosa, sabonete, champô, after-shave, perfume. A quererem agradar ao novo ano. Eu também vim de banho tomado. Durou até ao segundo carro.
Pude fazer uma breve pausa a meio da manhã. Bebi um café na máquina de venda automática e fumei um cigarro. Cheguei a imaginar pegar fogo à estação de serviço e ver tudo a arder. Eu sentava-me no lancil do passeio do outro lado da estrada a ver os depósitos de combustível a explodirem e a queimar tudo ali à volta. Eu sentado no passeio, a fumar um cigarro e a contar os minutos que os bombeiros demorariam a chegar ali à estação. O quartel dos bombeiros fica a cerca de quinhentos metros de distância da estação de serviço mas, o camião tem de dar a volta pelo outro lado, que a estrada é de sentido único. A sirene tocaria. A chamar os bombeiros que estariam ainda de cama. Agarrados às mulheres de penteado novo pela festa de Passagem de Ano. Alguns ainda de ressaca. Demorariam a responder ao apelo. Quanto tempo até chegarem ali à estação?
Cheira-me bem. Não é o cheiro a queimado. Não é o cheiro a gasolina. É um cheiro a dinheiro fresco.
A buzina a tocar. A buzina a tocar e ninguém a responder ao apelo. A buzina afinal era do carro de um cliente que me chamava. Um Mercedes. Um homem de fato e gravata. Senti-lhe o cheiro de perfume do outro lado da estrada antes de perceber que a buzina era para mim. Apago o cigarro na estrada. Levanto-me. E lá vou eu.
Claro que sim. Claro que atesto o carro. Sim, sim, eu. Eu agarro na agulheta. Puxo a mangueira. Fico ali a agarrar na agulheta até encher o depósito. Café só na máquina. Eu tenho moedas. Sim. Olhe aqui. Sim. Já sai com açúcar. Pode escolher a quantidade. Sim, tem colher. É de plástico. Infelizmente. Mas irá mudar, sim. Quem sabe quando?
Ano novo? Vida nova? Não nestas latitudes. Não na minha vida. Aqui continua tudo igual. Tudo velho.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/02]

Más Memórias de Coimbra

Ir a Coimbra traz-me sempre más memórias.
Nos meus últimos anos, Coimbra tem sido os Covões e o IPO. Com passagens rápidas pelo Fórum para comer junk food.
Nem sempre foi assim. Coimbra já me foi a cena da música, dos festivais de Música Moderna, do States, dos É Mas Foice e dos Tédio Boys. Também já foi do teatro. E dos Caminhos do Cinema Português. Coimbra já me foram as madrugadas a vomitar pelo Quebra Costas e os pequenos-almoços em tascas com história depois de noites loucas no Via Latina. O que Coimbra nunca foi, para mim, foi a cidade dos estudantes e a universidade, se bem que até tenha por lá passado durante uma queima-das-fitas e tenha andado ao murro com uns gajos do rugby por causa de uma gaja.
Esse tempo já lá vai. Envelheci. Deixei de andar ao murro e aprendi a nunca mais me meter com os tipos do rugby. Deixei de ir a discotecas e bares e deixei de vomitar pelas sarjetas nas ruas da cidade. E acho que Coimbra acompanhou este meu envelhecimento. Esta outra Coimbra, pelo menos. A dos médicos e enfermeiras e medicamentos e consultas.
Nestes últimos anos tenho andado a pagar a factura dos anos de irreverência juvenil. Sinto-lhes a culpa.
Começou com os Covões. Ultimamente é o IPO.
Tudo isto seria suportável. O difícil é cá vir. Sair de casa. Sair de casa de manhã, num dia de chuva como o de hoje, fazer a auto-estrada atrás de um camião que mija de chuveiro para cima do pára-brisas. Parar na estação de serviço de Pombal para beber um café queimado e fumar um cigarro, à pressa, como um agarrado necessitado da próxima dose de nicotina, e que me deixa enjoado. Apanhar a hora de ponta de entrada na cidade. Arranjar um lugar, só um!, lugar vago para o carro enquanto vou ao IPO. Procuro em ruas cada vez mais distantes do portão de entrada. Às vezes penso estacionar o carro em Leiria e apanhar o expresso. E depois são as horas de espera em salas fechadas, de janelas seladas, sem ar-condicionado, na companhia de gente tão mais triste que eu. Ouço-lhes as tosses e as respirações pesadas. Vejo-lhes os cabelos rapados. E o cheiro? O cheiro a humidade, mistura de perfumes baratos e transpiração. Em dias como o de hoje é difícil fugir ao cheiro a mofo. No Verão é o chulé de pés enfiados em sandálias de plástico compradas numa loja do chinês onde a grande maioria das pessoas ainda têm carteira. E sempre, sempre, o cheiro a mijo.
Aguardo. Aguardo sentado em cadeiras rijas, impróprias para quem está com problemas de saúde, ao lado de gente a sofrer mais que eu, em frente de gente que tosse e espirra para cima de mim. Estamos todos juntinhos, colados uns aos outros, transpiração colada a transpiração. Quase que ouvimos os pensamentos uns dos outros. As esperanças frustradas. Os futuros hipotecados. A morte no horizonte. A desgraça. A puta da desgraça. A puta da desgraça do outro que é sempre pior que a minha.
Acabo sempre por pensar que, no meio de tudo aquilo, sou um sortudo. Não sou dos piores. Eu ainda tenho futuro. Um futuro de merda quando olho para a conta bancária. Mas um futuro, mesmo assim.
Passam minutos. Que se tornam horas. O rabo fica dormente naquelas cadeiras rijas. Já me coço todo. A cabeça. Os tornozelos. Já não sei como estar. Levo um livro que não leio. O telemóvel que não apanha Wi-Fi. Levanto-me. Dou o lugar porque já não consigo mais estar sentado.
E finalmente lá vou eu. Entro e saio. Temos de controlar, ouço. Tomar atenção, ouço de novo. Olha para uns exames. Analisa. Decifra. Eu não percebo nada do que vejo, do que ele vê. Ouço o que diz e esqueço. Há quem queira saber tudo. Ouça tudo. Tente decifrar. Procurar na net. Eu não. Eu não quero saber. A minha ignorância mata o mal e livra-me da ansiedade. Não quero saber. A minha morte será inesperada. Pelo menos, para mim.
Saio para a rua. Continua a chover. Mas sabe-me bem as gotas de chuva na cara. Sentir aquele frio sobre mim. A água que escorre pelo pescoço abaixo. Vou para o carro com o guarda-chuva fechado. Caminho à chuva. E sinto-me recuperar.
Antes de por o carro a trabalhar penso que é melhor ir comer qualquer coisa antes de ir embora.
É então que vou ao Fórum. Mais uma vez vou comer ao Fórum. Penso que no meio de tanta oferta gastronómica, poderei escolher qualquer coisa de diferente. E acabo, invariavelmente, de cada vez e todas as vezes, a optar por um McRoyal Cheese. Coca-Cola. Batatas fritas. Sozinho numa mesa solitária. Afastado de toda a gente. Grupos de miúdos da escola à galhofa. Rapariguinhas do shopping a contar segredos umas às outras. E eu ali, num canto, solitário, com um hambúrguer na mão, a pensar… Não, não estou a pensar. Naquela altura não estou a pensar em nada. Deixo-me estar em silêncio a enfiar o hambúrguer pelas goelas e a despejar a cola para desembuchar. E vejo a vida dos outros. Se eles soubessem!…
Depois pego na minha solidão e levo-a de novo para casa. Mas volto atrás. Pego no tabuleiro e liberto a mesa.
Faço o caminho de regresso à chuva, outra vez, com a rádio ligada e as notícias do dia em loop. Mas esqueço-me que vou na estrada. Na auto-estrada. A cabeça voa. Vai não sei onde. Perco-me a mim e a ela. Quando desperto, estou parado à porta de casa.
E antes de sair abano a cabeça e tento esquecer Coimbra. Coimbra traz-me más memórias.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/21]

Uns Petiscos em Famalicão

Lembro-me de irmos no carro. Éramos quatro. Dois à frente. Dois a trás. Em altos berros, nas colunas fanhosas do carro, o Black Room, o primeiro álbum dos Editors. Uma surpresa. Uma boa surpresa.
Tínhamos estado nos petiscos em Famalicão, ali para os lados da Nazaré. Queijinhos frescos. Salada de polvo. Orelha de porco. Moelas estufadas. Duas imperiais cada um, só para matar a sede, e depois o vinho tinto do jarro a acompanhar os petiscos.
Uma tarde. Era tão só uma tarde de passeio. De mesa. De conversa entre amigos. Era uma tarde a passear de carro. Ouvir música. Viver.
Enchemos o depósito na Estação de Serviço da Galp na rotunda para a Guimarota. E saímos da cidade. Para onde? alguém perguntou. Em frente, alguém respondeu.
E fomos em frente, para fora da cidade.
Alguém tinha comprado o Black Room. Foi posto no leitor. Primeiro, ouvimos o disco todo. Uma novidade já conhecida. Nada de novo. Bom como são as coisas já conhecidas.
Janelas do carro abertas. O vento a despentear os cabelos. Alguém berrou Fechem as janelas. E todos fechámos as janelas. Depois um charro chegou-me as mãos. Veio do lado. Fumei. Passei à frente. Ainda deu mais uma volta. Duas. E alguém disse Vamos à Praia dos Salgados tomar banho. E todos dissemos Sim!
E fomos à Praia dos Salgados.
Chegámos. Largámos o carro e fomos a correr até junto da água. A rir. A rir que nem uns parvos. Um despiu-se. E mergulhou na água fria. Os outros, nós todos, fomos atrás. Nus. Mergulho rápido para fugir ao frio. Um gelo, a água. Umas braçadas para aquecer. Mas logo a desistência. Todos a fugir. Não havia toalhas. Eu sequei-me com a t-shirt. E vesti-a molhada.
Depois chegou a fome. E foi aí que alguém sugeriu uma tasca em Famalicão. E partimos. Estávamos todos com fome. Fome e sede. E uma vontade de cantar. E foi assim que começámos a cantar o disco dos Editors. À frente, alguém batia no tablier a marcar o ritmo. Alguém abriu o vidro e sentou-se à janela a cantar aos berros para os pinheiros que iam passando. Não era eu. Não era o condutor. Não era o marcador de ritmo que ia à frente. Só podia ser o tipo que ia sentado comigo atrás. Sim, provavelmente era ele. Ou, se calhar, era o condutor. Já não sei. Já não me recordo de alguns pormenores.
Chegámos a Famalicão esfaimados. Sequiosos. Saímos do carros e bebemos logo duas imperiais enquanto esperávamos pelos petiscos. Depois migrámos para o vinho. O vinho do jarro de barro. Se calhar saído de uma caixa de cartão de dez litros. Mas não importava. O que os olhos não vêm o coração não sente, não é o que diz o corno?
Então, bebemos. Comemos. Conversámos. Conversámos muito. Sobre tudo e sobre nada. Atropelámos-nos uns aos outros na ânsia de nos fazermos ouvir. Eu atropelei-me a mim próprio, com uma língua que parecia ter ganho vida própria. Fumámos na sala. Estávamos sozinhos. Foi-nos permitido. Ou fomos nós que nos permitimos.
Saciados, voltámos a partir. De regresso ao carro. A fazer as estradas do pinhal. Os Editors em altos berros na companhia das nossas vozes, e risos, e alegria e bebedeira e estupidez. Muita estupidez.
Chegou-me novo charro às mãos.
Não cheguei a desfazer-me dele. Foi naquela curva. Naquela curva na estrada ladeada de pinhal já depois de sairmos de Famalicão. Eu levei o charro à boca. Ouvia, aos gritos, People ar fragile things / You should know by now / You’ll speak when you’re spoken to… E ainda estava a puxar o fumo para os pulmões quando senti o carro a fugir da estrada, rodopiar, vi os braços do condutor no ar e senti uma pancada muito forte no carro, senti o charro a ser cuspido da minha boca com o impacto. Lembro-me do meu corpo aos trambolhões dentro do carro, e depois tudo começou a rebolar, andei eu a rebolar dentro do carro, estive agarrado a alguém e perdi-o, senti vidros a partirem-se e algo a espetar-se em mim e depois, não sei, acho que senti o carro a deslizar durante algum tempo até parar no meio de um ribeiro.
Devo ter adormecido momentaneamente. Acordei com água do ribeiro a passar-me pela cara e a cara começar a arder. Acordei de um pulo, mas sem ter pulado, que estava preso e não me conseguia mexer, muito menos pular. E a primeira coisa que lembro de ter pensado, no meio de todo aquele silêncio, foi Onde está a música?
Depois devo ter desmaiado de novo.
Voltei a acordar numa cama de hospital. Havia gente a chorar à minha volta. Perguntei pelos outros. Ninguém me respondeu. Uma rapariga saiu do meu quarto, rápida. Outra foi atrás dela. Acho que iam a chorar.
Este foi o início da luta que me esperava. Quatro anos de terapia. Vivo numa cadeira de rodas. Mas mexo os braços. Consegui criar músculo. Adaptei-me. A vida adaptou-se. Tenho lido. Tenho lido muito. É o que mais faço.
Às vezes penso naquele dia. Eu fui o que teve azar. Eu fui o que ficou vivo. Vivo nesta cadeira de rodas. Às vezes gostaria de ter tido um pouco mais de sorte. E ter ido na companhia daqueles que eram os meus amigos.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/21]