Alergias

Tenho a casa cheia de pó amarelo.
Já aspirei. Varri. Limpei com um pano húmido. Mas o pó acaba sempre por regressar. Eu vejo-o a voar pelos feixes de luz que passam pelos buracos das persianas. Vêm lá de fora. Das árvores. Das malditas árvores.
Odeio árvores.
Chega a esta altura do ano e o pó amarelo invade-me a casa. Preâmbulo para me invadir os pulmões. E depois, só à cacetada. Xoterna. Brisomax. Ventilan. Zyrtec. Aerius. Chá Erva de Príncipe. Aguardente aquecida e bochechada antes de engolir. Tudo o que vagamente me afaste destas árvores da morte.
Odeio árvores.
Houve uma época em que alguém disse aos meus pais que respirar merda de vaca fazia bem à bronquite. Passei a frequentar, todas as Terças e Quintas-feiras, o estábulo da dona Albertina, a senhora que nos vendia o leite. Ia para lá depois das aulas. Levava um livro e sentava-me lá, ao lado das vacas, no meio do estrume, a respirar aquela mistura de merda com feno, na companhia das moscas e do rabo da vaca que por vezes me abanava o cabelo. Li muito Júlio Verne na companhia das vacas leiteiras da dona Albertina. Não resolveu os meus ataques de bronquite. A falta de ar. O vício da postura. O polegar preso na presilha das calças para aguentar o corpo cansado de tanto respirar. Mas conseguiu fazer-me ler bastante.
Tenho a casa cheia deste pó amarelo.
Abro as janelas. Vejo o sol a brilhar lá em cima. Em frente à janela do quarto o campo está verde, pontilhado de amarelo das azedas. Gosto de chupar as azedas. Gosto de como fica o interior da minha boca depois de chupar uma azeda. Vejo o cabrão do gato da vizinha que vem, sorrateiro, por entre as ervas, tentar saltar para cima da minha gata. Vem cá, vem!que te despejo um balde de água em cima!, digo, mais para mim que para ele.
No outro dia apanhei-o debaixo do alpendre a fazer olhinhos à gata. Levou com uma tigela de água em cima. Fugiu. Fugiu que parecia um foguete. Esteve um tempo sem voltar. Agora está aí outra vez. Vem atrás da Primavera, o cabrão.
Odeio os gatos que me querem comer a gata.
Também odeio as árvores que largam este pó amarelo.
E algumas pessoas.
Tenho saudades do Óscar. Ele costuma aparecer por esta altura. Talvez tratasse da saúde ao gato da vizinha. E já agora da vizinha, chata do caralho que não prende o gato, tantas vezes que a avisei.
Começo a coçar o corpo. Começo a ficar com umas borbulhas que aprecem bolhas de água. Dão-me comichão. Tomo outro Zyrtec. Sinto dificuldade em respirar. Como se não houvesse oxigénio suficiente no mundo. Mando duas bombadas de Ventilan. Sinto-me inchar. Maldita cortisona.
Odeio a cortisona. Odeio o gato da vizinha e a vizinha. Odeio as árvores. E algumas pessoas.
Fecho as janelas. Baixo os estores. Puxo as cortinas. Deixo a casa na penumbra. Se não vir o pó amarelo, ele não existe.
Prendo a respiração. Conto até trinta. É difícil. Depois deixo sair o ar. E volto a engolir ar de novo. Um ar renovado.
Vou sobrevivendo. Às árvores. Ao pó. A Deus.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/22]

Espírito Natalício

Sinto-me azedo. Chega esta altura do ano e começo com as irritações. Não gosto do espírito natalício. Não o espírito natalício em si, que não tenho nada contra, antes pelo contrário, e até era gajo para gostar do Natal, não tanto do aniversário mas, de tudo aquilo que o Natal podia representar. Amizade. Amor. Humildade. Bem estar.
Mas é tudo muita mentira.
O trânsito na cidade anda caótico. As pessoas estão agressivas.
Parei na senhora das castanhas, a eterna senhora das castanhas que está ali, naquela curva da cidade, desde antes do princípio dos tempos, a vender castanhas assadas, e assisti. O carro parou antes da passadeira para dar passagem a um casal de namorados. Eles passaram lentos, apaixonados, arrogantes, sozinhos no mundo. Só eles e o seu desejo. A meio da passadeira pararam para dar um beijo. Um beijo terno e apaixonado. Um beijo cheio de tesão. O homem do carro começou a apitar. Colou a mão à buzina. Vi a boca dele a abrir e fechar. Senti os gritos. A baba que caía pelo ódio abaixo. E depois, pé no acelerador, arrancou num foguete, queimando borracha no asfalto e deixando cheiro de borracha queimada a sobrepor-se ao cheiro das castanhas assadas, quase atropelando o par. Fiquei parado a olhar o carro a arrancar, doido, e a ter de parar uns metros mais à frente para dar passagem ao autocarro que saía da garagem. Karma.
Pedi uma dúzia de castanhas. Havia duas estragadas. Não me importei. Mas elas são pagas quase ao preço do ouro. Fui andando pela cidade. As luzes. As músicas. Os sacos. As cores. Tudo em excesso. Tudo demasiado. Tudo em promoção.
A cidade de lantejoulas mas em saldo. O brilho é falso. É tudo mentira.
Compras aqui e eles oferecem X a uma instituição de caridade. Compras ali e uma % das tuas compras vai para uma IPSS. Mais ao fundo são mais baratos. Mais ao lado são melhores. Na loja a seguir são os presentes ideais. Mas o melhor de tudo é que nem precisas de pensar muito no que é que vais oferecer à pessoa a quem queres oferecer. Compras um cheque. Um vale. Um valor. Compras um valor para oferecer. E depois, a pessoa troca o valor por algo que queira ou, não querendo, qualquer coisa porque já está pago. Não interessa o que se dá. Interessa é dar.
É o espírito natalício.
As pessoas oferecem presentes porque podem. Para mostrar que podem. Coisas caras. Únicas. Exclusivas. A minha carteira não tem fundo.
As pessoas oferecem presentes à família, aos amigos, conhecidos, colegas de trabalho, amigos-secretos. É obrigação. Oferece-se porque sim. Fica mal se não se oferecer. Mas ninguém gosta do que recebe. Quase nunca. Às vezes gostam. São uns simplórios, estes.
As pessoas oferecem presentes, muitos presentes para pagar as ausências, as faltas, as falhas, os erros, os enganos, as mentiras. As pessoas compram-se umas às outras.
Houve um tempo de meias. Houve um tempo de Ferrero-Rocher. Agora é o cheque-qualquer-coisa.
É o espírito natalício.
Em Outubro comecei a armazenar comida em casa. Enchi a despensa. Tudo para evitar entrar agora, nesta época, nos supermercados, hipermercados, megamercados, centros comerciais e todas as outras catedrais de consumo. Quero distância.
A cidade está iluminada. Há barracas. Barraquinhas. Presépios. A vaquinha. O burro. O menino Jesus nu, deitado numas palhinhas. Ao lado o carpinteiro José. E a mãe Maria. Uma árvore cheia de fitas e fitinhas e bolas e neve, de muitas cores, cores muito bonitas e apelativas. Um velho gordo, barbudo, com um saco enorme com presentes, meninos sentados ao colo e que só diz Ho-ho-ho.
Era uma vez um casal pobre, refugiado, emigrante, que não conseguiu um quarto para albergar a mulher grávida. Era uma vez uma mãe que teve de dar à luz num estábulo porque ninguém lhe abriu as portas. Era uma vez uns miseráveis escorraçados por toda a gente. Era uma vez uma estória de amizade, amor, bondade, humildade e bem-estar. Mas não era esta. Era uma vez uma estória que não tem nada a ver com esta que se conta todos os dias de Dezembro nas nossas cidades.
Se eu tivesse dinheiro, comprava-te um frasco anti-rugas ou anti-envelhecimento da La Prairie. Mas estou a brincar contigo. Gosto das tuas rugas. Das histórias que elas me contam. Preferia gastar esse dinheiro numa garrafa de vinho e sentar-me contigo a beber e a conversar.
Estou azedo. Amargo.
Mas estou mais ainda é triste.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/30]