Tentar Focar, Tentar Não Perder Atenção

Tento focar. Tento não perder atenção. Tento não me dispersar por interesses vários só para não fazer o que tenho de fazer.
Começa tudo mal.
Levanto-me e faço a cama. É mau prenúncio. Normalmente levanto-me e deixo a cama aberta, com o edredão puxado para trás. Digo que é para a cama arejar. Na verdade é por não ter paciência para fazer logo a cama.
Hoje levantei-me e fiz a cama. Puxei o lençol e o edredão para cima. Estiquei o edredão. Não deixei um único vinco. Alisei as almofadas. Parecia uma cama de hotel num quarto de hotel.
Depois lavei toda a louça suja acumulada na cozinha. E só depois de ter a louça lavada, à mão, é que fiz café e duas torradas. E lavei a louça utilizada logo de seguida.
Fiz uma máquina de roupa. Não tinha roupa suficiente para fazer uma máquina e fui buscar roupa que não tenho usado. Para lhe dar uma limpeza. Matar o pó. E os ácaros.
Olhei à volta. Vi o trabalho a espreitar para mim de cima da secretária. Já vou!, respondi.
Fui organizar a dúzia de livros que estavam fora das prateleiras.
Sentei-me frente ao computador. Espreitei os jornais online.
Abri um dos livros que precisava para o meu trabalho. Folheei-o. Fiz o mesmo a outro. Folheei-o. Deixei-os de lado. Não estava com grande vontade.
Peguei no telemóvel. Marquei um número. Ninguém.
Lembrei-me que tinha contas para pagar.
Fui ao móvel da entrada. Luz e água. Duas contas.
Desci à rua. Fui à caixa do multibanco. Paguei a conta da luz. Não consegui pagar a conta da água. Tinha de ir ao SMAS.
Arranquei rua fora. Fui ao SMAS. Enquanto caminhava pela cidade solarenga pensei que devia estar a fazer o trabalho. Pensei que estava a ficar sem tempo. Mas parecia-me ser isso que queria. Ficar sem tempo. Ou pelo menos, ficar sem muito tempo para não poder fugir mais ou evitar o trabalho e ser, finalmente, obrigado a fazê-lo.
Cheguei ao SMAS. Tirei um número. Dez pessoas à minha frente. Esperei. Olhei em volta. Vi o número de caixas a funcionar. Não disse nada. Nem pensei nada. Não queria chatear-me. Estive tranquilo.
Finalmente a minha vez. Paguei. Demorei dois minutos. Dois minutos para os quais tive de esperar meia-hora.
Regressei a casa.
Sentei-me de novo frente ao computador. Abri uns livros. Procurei os assuntos que me interessam. Comecei finalmente a mergulhar no trabalho.
Tocou o telemóvel. Era a minha mãe. Perguntou se podia ir ao supermercado por ela. É claro que sim, mãe! respondi. Não podia responder de outro modo.
Voltei a sair de casa. Fui a casa da minha mãe. Deu-me uma lista de compras para fazer no supermercado. Descobri que tinha, também, uma conta de água por pagar. Já fora de prazo. Estava esquecida. A minha mãe não é de deixar passar prazos. Esqueceu-se. Peguei na conta da água e na lista de supermercado e saí de casa dela. Voltei ao SMAS. Sete pessoas à frente. Mais ou menos meia-hora de novo em espera. Joguei Snake no telemóvel enquanto esperei. O meu telemóvel é antigo.
Paguei. Fui ao supermercado. Passei em casa da minha mãe. Voltei para minha casa. Mas antes passei no café. Bebi uma bica. Comi um pastel de feijão miniatura. Descobri que é só invólucro. Não tinha recheio. Regressei a casa desconsolado.
Sentei-me, outra vez, frente ao computador. Lá fora o dia estava a ir embora. Aproximava-se a noite. Já estava atrasado. Já não sabia se tinha tempo para fazer o trabalho.
Tento focar. Tento não perder atenção.
Pergunto-me Onde raio gastei o meu tempo?, e fico ali, frente ao computador, a pensar no meu dia e no tempo que gastei sem fazer nada de jeito a arrastar-me para evitar começar a fazer uma coisa que tenho absolutamente de fazer mas que não consigo começar. E tudo começou quando resolvi fazer a cama.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/18]

O Relógio Não Pára

O relógio não pára.
Há dois meses que deixei de comprar o medicamento para a asma. Há uma semana fiquei sem telemóvel. Ontem cortaram a luz. Amanhã, provavelmente, irão cortar a água. No final do mês não vou conseguir pagar a renda da casa.
E o relógio não pára.
Tenho um rim para vender. Metade de um fígado. Acho que também posso dispensar um pulmão. Tenho cabelo para quem dele precisar. E ainda posso engravidar esposas de maridos inférteis.
Mas o relógio não pára.
Tenho pressa.
Não preciso de trabalho. Trabalho tenho bastante. Entre uma coisa e outra, entre a ajuda e o pro bono, entre o prestígio e o correr por gosto, entre o saber fazer e o conhecer, entre a obrigação e o prazer, tenho trabalho.
Preciso é de dinheiro. Preciso de dinheiro para viver. É preciso dinheiro para viver.
Porque o relógio não pára.
Mas já não sei as horas.
Acendo uma vela e procuro no fundos dos bolsos das calças e dos casacos qualquer moeda esquecida. Procuro nos cantos das gavetas todas cá de casa uma qualquer moeda perdida. Enfio a mão nas nesgas do sofá à procura de uma moeda caída.
Olho para as garrafas de vinho vazias no canto da cozinha e compreendo que já não se paga vasilhame.
Olho para os livros, para os cd’s, para os dvd’s, para o iPhone, para o iPad, para o iPod, para o Mac, para a Playstation, para o Wii, para a XBox e penso Amanhã têm de ir.
O relógio não pára, mas já não sei onde anda. Olho para o pulso e vejo-o vazio. O que é feito do meu Omega Speedmaster?
Conto as moedas encontradas.
Saio de casa. Entro no primeiro café e compro um maço de cigarros. Sem filtro são mais baratos. Vou ao supermercado e compro um pacote de vinho tinto.
O relógio não pára. Mas não sei as horas. Sei que já é de noite.
Sento-me nas escadas do teatro. Abro o pacote e bebo um grande gole de vinho. Tiro um cigarro do maço, acendo o isqueiro e olho admirado para a minha mão Olha, ainda tenho o Zippo, acendo o cigarro e penso Amanhã já não.
Olho à volta e estou sozinho e penso Ainda bem. Encosto-me à parede e deixo-me ir.
Já não há tempo.
Um passo… Outro passo… E depois?

[escrito directamente no facebook em 2018/03/12]