Onde É que Arranjaste o Dinheiro?

O frio tinha finalmente chegado. Entrou com o último sol de ontem. Um sol mentiroso. Um sol brilhante, lá no céu, mas um frio terrível cá em baixo. Quando o sol se foi, o frio ficou.
Hoje nem houve sol. Só o frio.
Estava deitado dobre o tapete da sala a olhar para uma racha no tecto. A televisão desligada. A lareira apagada. Ela sentada no sofá, com uma manta por cima. Eu deitado no tapete da sala, de casaco vestido, a olhar para o tecto, a ver a racha a meio e o bolor da humidade que se estava a instalar nos cantos e por cima da janela. Pensei que tinha de pintar o tecto. Um dia destes.
Ela perguntou Já não há cigarros, pois não? e eu abanei a cabeça. Não sei se ela viu ou não o meu abanar de cabeça. Tentei responder mas a minha voz não saía. Depois ela perguntou Nem há vinho? e eu voltei a abanar a cabeça.
Levantei a mão para o tecto. Tentei apagar a racha com a minha mão, mas os cantos bolorentos estavam sempre visíveis. O tecto estava mesmo nojento.
Ela perguntou Tens algum dinheiro? e eu voltei a abanar a cabeça e fiz um enorme esforço para falar e disse Não. Não sei se ela ouviu. Também não sei se o meu tom de voz era audível. Eu mesmo não me ouvi. Mas eu já não me ouvia há muito tempo. Mantinha acesa a sensação de que falava, mesmo quando não o fazia, e assim nunca sabia quando falava ou estava calado mesmo quando estava a pensar que o estava a fazer.
Enfim.
Não tinha dinheiro. Nem eu, nem ela. Estávamos sem trabalho há algum tempo. Trabalhos precários dão nisto. A disponibilidade desvaloriza-te e a falta de reverência, digamos que também não abonava muito na hora de contratar alguém. Mas não importavam os motivos. A verdade era que estávamos os dois sem trabalho e sem dinheiro. Nem tínhamos direito ao subsídio de desemprego. Fazíamos parte de um grupo de gente marginal que nunca entra nas contas. Éramos artistas. Passávamos recibos verdes. Fazíamos todo o tipo de trabalhos mal pagos. Nunca conseguíamos juntar dinheiro. Andávamos sempre nas lonas. Éramos miseráveis. Uns indigentes.
Ela levantou-se. Saiu da sala.
À minha volta, sobre o tapete onde eu estava deitado, via uns bichinhos a passearem-se. Não eram formigas. Não sei que bichos eram. Mas andavam de volta das migalhas que estavam lá pelo chão. A casa estava um bocado imunda. Precisava de uma barrela. Mas quanto menos se faz, menos se tem vontade de fazer. Não conseguia levantar-me. Não conseguia ir buscar o aspirador. Ou a vassoura. Sentia-me incapaz. Queria ficar ali deitado no chão e deixar-me morrer assim.
Ela entrou na sala de casaco vestido. Tinha pintado os olhos. E os lábios. Os lábios estavam vermelhos. Um vermelho vivo. Tinha dado um jeito ao cabelo. Escovou-o. Prendeu-lhe uma flor. Perguntei-lhe Vais sair? E ela baixou-se ao pé de mim, deu-me um beijo rápido, leve, sobre os lábios e disse Já volto. E saiu de casa. A porta da rua a bater ficou a ecoar dentro da minha cabeça. Agora estava sozinho em casa e não queria estar sozinho em casa. O silêncio era ainda maior. Tentei dizer algumas palavras alto. Para me acompanharem. Rothko. Batman. Godard. Bife com batatas fritas. Um sonho de menino. Mas não sabia se estava mesmo a falar ou não. Não me ouvia. Mas podia dar-se o caso de estar a dormir. A sonhar. Ou estar afónico. Talvez surdo. Não, surdo não, que a ouvi dizer Já volto. Ou foi Já venho? Não tenho a certeza. Esqueci-me. Ando a esquecer-me das coisas.
Queria ir olhar pela janela. Queria ir olhar para a rua. Ver se a via passar lá em baixo. Mas não conseguia levantar-me do chão. E não sabia se era preguiça ou incapacidade física de fazer esforço para me levantar. Estou fraco, pensei. E devia estar. Não me lembrava da última vez que tinha comido. Nem me lembrava o quê.
O tempo passou. Eu continuei deitado no chão da sala. Deitado em cima do tapete sujo da sala. Devo ter passado várias vezes pelas brasas. Estava sonolento. A luz tinha baixado bastante.
Ouvi a porta da rua. Alguém entrou. Ela, com certeza.
E antes de a ver, ouvi-a Levanta-te, vá. E foi então que a vi com uns sacos de papel do McDonald’s. E com um cigarro aceso ao canto da boca. Já não tinha os lábios pintados. Nem a flor no cabelo. E ela ainda disse E há vinho.
Eu tentei levantar-me mas não consegui. Disse-lhe Ajuda-me a levantar, mas não sabia se ela me tinha ouvido e estiquei-lhe um braço. Ela agarrou-me na mão e levantou-me. Senti umas dores nas costas à medida que me erguia. Vacilei. Mas não caí. Agarrei-me a uma cadeira que estava à volta da mesa da sala. E perguntei-lhe Onde foste arranjar o dinheiro? mas percebi que a minha voz não estava audível. Vi-a colocar os hambúrgueres e as batatas fritas em cima da mesa. Vi-a colocar um volume de cigarros e um cinzeiro na mesa. Vi-a abrir uma garrafa de vinho tinto e a encher dois copos. Estendeu-me um. Batemos levemente com o copo um no outro. Bebemos.
E ela disse Não me perguntes onde é que arranjei o dinheiro.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/16]

Morrer e Voltar a Nascer

Eu já tinha morrido há uns anos, bastantes até, quando fui descoberto. Não eu, eu fisicamente, que eu já estava morto e o que tinha restado de mim tinha sido feito pó e comido pelos bichos, mas o eu que deixou umas coisas escritas pela internet, buraco sem tempo, e que foram descobertas, por puro acaso, por alguém que gostou delas e as partilhou com o mundo.
Eu já tinha morrido. Tinha morrido de fome. Tinha deixado de conseguir trabalho. Tinha-me fechado em mim mesmo e perdido o contacto com um mundo que não espera por ninguém e quem fica para trás fica para trás que o futuro é em frente e o que é preciso é abrir sempre a porta do amanhã, um amanhã glorioso e cheio de vitórias, sucessos pessoais e glórias de equipa, num sempre-eterno crescimento económico e social sem paralelo nos anais da história do mundo.
Eu tinha-me afastado de tudo isso. Não era competidor. Não queria saber de corridas e grandezas. Tinha as minhas dores e não queria que mas tirassem. Era um processo muito pessoal numa época de portas escancaradas nas redes sociais onde toda a gente tinha opinião sobre tudo e sobre todos e quem tivesse mais admiradores e seguidores é que fazia o mundo girar. Oh, e se o mundo girou! Girou tanto que retrocedeu no tempo e o tempo medieval voltou.
Eu já tinha morrido antes de tudo isso acontecer. Tinha-me fechado em casa. Sem trabalho e sem dinheiro, afastei-me de tudo. Fechei-me em casa. Eu e as minhas dores. E comecei a escrever sobre elas e a lançá-las na rede. Para quem quisesse ler. Para que quem tivesse paciência para ler o pudesse fazer. Escrevi durante todos os dias durante todo o tempo que resisti a todas as faltas que começaram a fustigar-me.
Deixei de conseguir pagar a água e a luz. Abri a torneira selada da água. Fiz uma puxada de luz desde o candeeiro da estrada. Deixei de pagar o IMI, mas nunca me vieram chatear por isso. O telefone era coisa que já não usava há muito tempo. Telefonar a quem? Estava toda a gente ocupada. Andava toda a gente a tentar ser feliz, a destilar ódio nas redes sociais para libertar as dores de alma e a serem melhores e maiores uns-que-os-outros.
Fui alimentando-me com o que havia por aqui nas árvores em redor de casa e na pequena horta que fui mantendo enquanto tive paciência e força para tal. Os gatos e o cão desapareceram. Talvez tenham morrido, como eu. Ainda vi por aí um deles morto. Queria tê-lo enterrado, mas o tempo foi passando e eu esqueci-me.
Sentava-me todos os dias no sofá a olhar para a parede branco-ovo em frente, a parede onde esteve pendurado, durante anos, um grande poster da Lolita de Stanley Kubrick que fui obrigado a retirar e a destruir porque era uma pouca-vergonha pedófila. Sentava-me no sofá a olhar para a parede em frente, vazia, e via as estórias. As minhas estórias. Surgiam-me assim. Do nada. Formavam-se na parede, como um filme mudo projectado numa tela, e eu só tinha de escrever o que via e foi o que fui fazendo. Tornou-se esse o meu trabalho. O meu trabalho não remunerado. E durou até eu morrer. Morri de fome. Deixei de conseguir cultivar a horta. As árvores deixaram de dar o que davam. Ainda fui bebendo água durante algum tempo. Emagreci. Emagreci tanto que depois nem água conseguia beber. Fiquei translúcido. Fiquei deitado na cama durante algumas semanas. As semanas finais. Já nem escrevia. Já nem nada.
E um dia, deixei de ser.
Fui enterrado em cova rasa. Comido pelos bichos e mais tarde, quando era já só pó, despejado para dar lugar a outro pobre coitado como eu.
Deixei de ser e depois deixei de estar.
A minha passagem pela Terra não deixara rasto.
Até que um dia…
Um dia alguém encontrou o meu rasto na internet. Encontrou o meu blog e todos os meus contos. Alguém achou que aquilo que ali estava tinha valor. Alguém resolveu retirar os contos do blog e publicá-los. Alguém lucrou muito com o sucesso de um perdedor que tinha morrido de fome muitos anos antes. Antes de ser encontrado. Muito tempo depois do regresso das trevas e, de novo, do regresso da luz e de o humanismo ter regressado, de novo, e outra vez, às agendas políticas do mundo e de o Homem se ter reencontrado consigo próprio
E eu sei que isso aconteceu porque sei tudo. Mesmo depois de morto, desfeito e desaparecido da Terra sem deixar rasto. E estou aqui a contar tudo porque posso. Eu sei. Eu sou. Eu estou.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/03]

Elliott Smith

Acordei bem disposto. Acordei beijado pelo sol que entrava sorrateiro por entre as cortinas mal fechadas da janela. Abri um olho. O outro. Sorri ao sol. Senti o apelo do Verão e pensei É hoje que vou à praia.
Durou pouco esta sensação.
Primeiro porque mal tinha saído do banho, o sol já se tinha escondido atrás de uma nuvem escura como breu a prometer chuva.
Depois porque as redes sociais me recordaram Elliott Smith. Recordaram-me a morte de Elliott Smith pelo seu nascimento. Nasceu a seis de Agosto. Seis de Agosto de Mil Novecentos e Sessenta e Nove. Faria hoje cinquenta anos. Que não chegou a fazer. Já lá vão dezasseis anos. Dezasseis anos de ausência. Morreu em dois mil e três. Em Outubro. Num mês melancólico como convém a quem é melancólico.
Conheci-o com Figure 8. Afinal, o seu último trabalho lançado em vida. Conheci-o no fim. Só depois andei às arrecuas. E fui conhecer o resto. E depois, já depois da morte, conheci o From a Basement on the Hill, o disco em que andava a trabalhar quando morreu. Saiu algum tempo depois. Não sei o que dizer do disco. Claro que gostei. Um disco triste? Melancólico? Ele era sempre melancólico, mesmo quando a música apelava a bater o pé, com ritmo e entusiasmo. Descobrir ali a morte? Algum apelo? Não sei.
Conheci Elliott Smith tarde mas foi logo amor à primeira audição. Ouvi-o por acaso. Acho que gostei da capa do disco. Gostei da figura dele lá na capa. A figura de alguém que estava ali por acaso, porque alguém lhe disse para ficar. Mas sempre vi aquela personagem a querer ir embora para algum buraco com a guitarra na mão. Não o conhecia. Ouvi. Apaixonei-me. Quero mais, pensei.
Fui pôr o CD a tocar. Gosto muito deste disco, o Figure 8. Ainda hoje. Claro que há muito tempo que não o ouvia. Tanta coisa para ouvir nos dias de hoje que acabo por esquecer algumas das melhores coisas que fui colhendo ao longo do tempo.
Fiquei a pensar nisto tudo enquanto ouvia o disco. Fui para a varanda fumar um cigarro quando começou a chover. Não vinha tocada a vento e não me molhou. Estava-se bem na varanda. O som das colunas ainda lá chegava e lutava com o barulho furioso da cidade pela minha atenção. Mas os dois sons foram servindo de embalo. Misturaram-se um no outro. Criaram uma massa de som que servia de banda-sonora ao que não conseguia afastar da cabeça.
O sol incipiente. A chuva no Verão. A música. O prazer da música. O Elliott Smith. O Figure 8. A depressão. A morte.
Eles são sempre assim. Pessoas geniais. Pessoas magníficas. Pessoas capazes de transmitir sol em dias de chuva. Capazes de nos fazer chorar de alegria. Obrigar-nos a guerrear por um pedaço da sua genialidade. Às vezes nem os percebemos. Às vezes não queremos perceber. Às vezes mijamos para cima deles quando os sentimos frágeis. Lembro-me de Amy Winehouse no Rock in Rio Lisboa. A chacota. O riso. O gozo. O prazer de malhar quem está no chão. Eu sei porque também eu fiz o mesmo. E hoje tenho raiva de mim por isso. Por não ter percebido. Porque nunca percebemos. E quando percebemos, geralmente é tarde demais e depois só nos resta lamentar. Que é uma coisa que fazemos muito bem, principalmente em frente dos outros. Olha com eu sofro por ele! Por eles!
Este Verão está uma neura. Eu fui fumando cigarro atrás de cigarro à varanda. A tentar a chuva. Mas a chuva não me chegou a molhar. Mas molhei a cara. A morte é terrível, mas também é um fascínio. O fascínio do abismo.
Depois parou de chover. As nuvens escuras dissiparam-se e o sol regressou. Não tardou muito para estar calor. Mas para mim já era tarde. Entrei para dentro de casa e sentei-me no sofá.
Ainda estou sentado no sofá. Não me apetece ligar a televisão. O disco já chegou ao fim. A casa está em silêncio. Mas a minha cabeça não. Aqui vai uma grande confusão. Uma gritaria. Discussões. Muitos de mim a quererem dar ordens. E eu a perder o controle.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/06]

Há Gente Brilhante a Quem a Vida Vira as Costas

Quando o pai dele morreu, ele passou a estar a maior parte do tempo aqui em casa. Até que se mudou para cá.
Já cá passava bastante tempo. Era a escapatória a que se permitia. Tinha abdicado de tudo por causa do pai. Desistira de uma carreira no cinema por causa do pai. Desistira de ter uma relação amorosa por causa do pai. No início ainda ia tendo uns casos. Nada de muito sério porque ele também não queria. Tinha o pai para cuidar. Mas depois, mais para o fim, isolou-se e deixou de se dar com outras pessoas. Família. Amigos. As namoradas que foi tendo. Desligou-se de tudo. E foi fácil desligar-se de tudo. Deixou de sair. Deixou de ter telemóvel. Desligou-se das redes sociais. Depressa também foi esquecido. Passou a viver em função do pai. Cuidava dele. Dava-lhe banho. Vestia-o. Lavava-lhe a roupa. Cortava-lhe as unhas das mãos e dos pés, o que mais lhe custava fazer, chegou a dizer-me. Cozinhava. Levava-o a passear. Todos os dias o ajudava a dar umas voltas a pé à volta do parque em frente a casa. Aos Domingos pegava no carro e levava-o mais longe. À praia. Às vezes a almoçar fora. Uma vez levou-o a ver um jogo de futebol da União de Leiria, que ele já não via há que tempos. Outra vez foi de propósito a Lisboa para o levar ao Bingo. Mas o pai não gostou. Era tudo demasiado rápido para ele. Atrasava-se a confirmar os números. Uma vez chegou a deixar passar uma linha e, depois do grito de Bingo!, já foi tarde.
Entre os cuidados com o pai, ele vinha cá a casa. Bebíamos um vinho. Fumávamos uns cigarros. Conversávamos. Conversávamos muito. Ele lia bastante e gostava de discutir os livros que lia. Às vezes eu nem sabia do que é que ele estava a falar, mas deixava-o falar. Ele era um bom orador. Um orador entusiasta. E que entusiasmava.
Viviam da pensão do pai. A casa era alugada. O carro era do pai e era a única coisa de valor que ainda tinham. Mas já era um valor residual. Os carros começam a desvalorizar mal saem do stand, não é? Aquele carro tinha sido comprado em segunda mão. O valor já não era muito. Chegaram a ter um cão mas morreu já o pai estava reformado e ele a cuidar do pai. Nunca mais quiseram ter outro cão.
Quando o pai morreu, ele não sabia muito bem o que fazer. Passou ali uns tempos um bocado complicados. Estava há muito tempo afastado do mundo para voltar a ele assim, de chofre. Começou a passar mais tempo cá em casa. Até que se mudou em definitivo para cá. Fui eu que o sugeri.
O pai morreu e acabaram-se os cheques da pensão. Ao fim de algum tempo deixou de ter dinheiro. Ainda procurou trabalho. Mas não conseguia nada. Como é que havia de conseguir? Já estava velho para o mercado de trabalho. Ainda era um tipo novo mas, para qualquer trabalho, nos dias de hoje, havia sempre meia-dúzia de miúdos esfomeados prontos a matar por uma oportunidade. Alguns sujeitavam-se até a trabalhar sem receber na esperança de fazerem bom trabalho e serem convidados a ficar. Ele não se importou muito. Custava-lhe estar com outras pessoas. Cansavam-no.
Teve de deixar a casa. Ficou sem dinheiro para a renda. Para a água, para a luz, para o gás.
Convidei-o a ficar cá em casa. De qualquer forma já cá passava tanto tempo. Foi só trazer as suas poucas coisas. Deitou quase tudo o que tinha em casa para o lixo. Trouxe a roupa. A roupa e alguns livros. E o carro. Ainda andava e já ninguém lhe dava nada por aquilo.
Aqui em casa cozinhava. Limpava. Fazia pequenos arranjos. Mesmo coisas mais complicadas, não desistia enquanto não dava conta do recado. Tratava do jardim. Nunca saía. Passava a maior parte do tempo em que não estava a fazer nada na casa ou a cozinhar, a ler. Lia muito. Leu uma grande parte dos meus livros. Livros que eu nunca li.
E então um dia, cheguei a casa e ele não estava cá. Descobri um papel na cozinha onde estava escrito Desculpa. Só isso. Desculpa.
Depois descobri-o no fundo do poço que está no jardim. Jogou-se no poço.
Acho que a vida nunca o quis. E ele cansou-se de andar para aqui assim. Numa vida sem sentido.
Desculpa, escreveu no papel que deixou na cozinha. E foi só o que deixou. Desculpa.
Gostava de conversar com ele. Era um tipo inteligente. Um tipo que merecia ter mais do que o que teve. Teve azar na vida que teve. Há gente assim. Gente brilhante a quem a vida vira as costas.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/24]

Tenho a Pistola na Mão

Estou a olhar para a pistola. A pistola que tenho na mão. Uma herança do meu pai. A herança do meu pai. A única coisa que me deixou, coitado. A vida não foi muito simpática com ele. Comeu-o até ao osso e depois, no fim, cuspiu-o fora.
A pistola é pesada. Bonita. Não muito grande. Cabe na palma da minha mão. O cano é que sai um pouco para fora. As minhas mãos não são muito grandes.
Acabei de ver a final da Liga dos Campeões. Vi o Liverpool regressar ao convívio dos grandes. Acho que assisti ao mudar de uma época. Acho que acabou, por uns anos, a época de glória do Real Madrid.
Vi gente a gritar de alegria. Vi gente a chorar de tristeza.
A vida é assim. Boa para uns. Má para outros.
Acendi um cigarro. Fui à janela. Abri-a. Fiquei lá debruçado a fumar e a olhar as gentes que chegavam para a noite na cidade.
Não me sentia bem.
Não tinha nada a ver com o jogo. Com a Liga dos Campeões. Com o Liverpool. Nem sequer com a cidade. Acho que tinha a ver comigo. Mas nem sei bem o quê.
Sentia a cabeça pesada. O corpo agitado. Uma certa angústia. A vida também não tem sido muito simpática comigo. Lembrei-me do meu pai. E foi por isso que fui buscar a pistola. Revi-me na vida do meu pai. Prendi um soluço na garganta. Não o deixei ir adiante. E fui buscar a pistola.
A pistola estava num cofre pequenino que tenho no fundo do guarda-fatos. Abri-o. Peguei na pistola. E fui sentar-me no sofá. Com a pistola na mão.
E aqui estou. Sentado no sofá. O jogo já terminou. Gostei que o Liverpool tivesse ganho. A pistola está carregada. A pistola está sempre carregada. Cada vez que a limpo, deixo-a carregada.
A minha mãe não sabe que eu tenho a pistola. Ela tinha-a escondido. E depois, perdeu-se. Foi assim o fim oficial da pistola do meu pai. A minha mãe escondeu-a. Escondeu-a de mim. E depois perdeu-a. Esqueceu-se onde a tinha escondido. Mas eu encontrei-a. E fui eu que a escondi. Fui eu que a encontrei e escondi. Fui eu que acabei por ficar com a pistola que era do meu pai. Foi a minha herança.
Estou com a pistola na mão. Estou sentado no sofá com a pistola na mão. O Liverpool ganhou a Liga dos Campeões. A minha mãe não sabe que eu tenho a pistola que era do meu pai.
Eu tenho a pistola na mão e não sei o que é que hei-de fazer.
Tenho o corpo a tremer. Sinto uma certa ansiedade. A boca seca. A perna a abanar. O pé a bater no chão. Tenho uma vontade enorme de chorar. Tenho a pistola na mão. A pistola que era do meu pai. E que a minha mãe queria esconder de mim.
Tenho a pistola na mão e medo do que possa fazer.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/01]

Voltar a Votar

Por vezes tento recordar como as coisas eram. Mas já se torna cada vez mais difícil. A memória já não é a mesma. E o presente vai matando o passado aos poucos. Nunca houve muita necessidade de o esconder. O passado. Na verdade nunca foi preciso reescrevê-lo. Ele morre de morte natural na memória dos poucos resistentes que ainda não morreram. Tudo se perde. Tudo acaba por se perder. Tudo acaba por se perder se não fizermos nada para manter vivas essas memórias.
Lembro-me da última vez que houve eleições livres. Eleições em que todas as pessoas, homens e mulheres, com mais de dezoito anos, puderam votar. Era Primavera. Uma Primavera especialmente quente. As alterações climáticas estavam a começar a alterar o ritmo dos ciclos climáticos. As estações andavam baralhadas. Estava, portanto, muito calor. As pessoas foram para a praia. Lembro-me porque, em dia de eleições, a abertura dos serviços noticiosos foi com as filas intermináveis de carros para ir para a praia e para vir da praia. Foi um Domingo que entrou por Segunda e Terça-feira dentro. Lembro-me porque tudo isso criou um grande caos. Gente que faltou ao trabalho. Miúdos que faltaram à escola. Até deputados que faltaram à Assembleia. Todos perdidos em filas de trânsito intermináveis. Lembro-me porque essas foram as últimas eleições. As últimas eleições livres. As eleições dos dez por cento. Só dez por cento dos eleitores é que foram votar. Houve mesmo candidatos que não chegaram a ir às urnas. Candidatos que não foram votar. Lembro-me porque foram as eleições ganhas por grupúsculos de bandidos sem ideologia mas com uma fome imensa de poder e capital. Lembro-me porque foi assim que assumiram o poder e nunca mais de lá saíram. Lembro-me porque foi assim que chegámos ao dia de hoje.
Pouca gente se lembra. Mas ainda há quem se lembre.
Quase ninguém quer lembrar. Lembrar é assumir a culpa. O erro. E é difícil dizer que a culpa é nossa. É difícil dizer que a culpa é minha. Minha!
Sim, eu ainda me lembro. E por vezes tenho de contar. Contar a mim. Para me ouvir. Para que não me esqueça. Para que não deixe de saber o caminho que me trouxe aqui onde estou hoje.
Estou à janela. Estou à janela do meu quarto. Agora partilho a casa com mais quatro pessoas. Agora as pessoas vivem em quartos. As casas são divididas em quartos. Uma pessoa, um quarto. Uma família, um quarto. É a divisão equitativa para evitar a miséria dos sem-abrigo. É um estado-protector. É assim que contam a história. Mas eu sei dos condomínios onde vive a elite. Os condomínios. Os parques. Os jardins. Os lagos. Longe das cidades. Longe da miséria das grandes cidades.
Enrolo um cigarro. É difícil arranjar cigarros. Fazem mal à saúde, disseram. Foram proibidos. Mas arranjo barba-de-milho e consigo enrolar uns nas folhas de uma Bíblia que encontrei no mercado. Custou-me dez LP’s de vinil. Voltaram a estar na moda. O povo ouve música em MP3. O som flat, sem perspectiva, sem dimensão, sem ondas dos MP3. A elite redescobriu a qualidade de vinil. Os meus antigos discos têm muito valor. Dez deles valeram-me esta Bíblia que me permite continuar a fumar aqui, assim, à janela, enquanto olho as pessoas que continuam iguais, a correrem para sítios, a irem para trabalhos sem sentido mas ocupacionais. Sem tempo para nada. Sem tempo para olharem umas para as outras. Sem tempo para pensarem no tempo que ficou. Sem tempo para olharem para trás.
Eu não.
Eu gosto de pensar naquilo que perdi. Eu obrigo-me a pensar naquilo que perdi. Porque tenho esperança de um dia conseguir recuperar a vontade de ser mais que um grupo. Porque tenho esperança de um dia ser mais que um número num conjunto de gente igual. Porque tenho a esperança de um dia conseguir voltar a ser um indivíduo. E voltar a votar. Voltar a ter a possibilidade de votar. Voltar a ter o direito e o dever de escrever a minha própria história.
Tenho uns livros do Philip K. Dick. Do Stanislaw Lem. Do Philip Roth. Livros que vou passando a algumas pessoas. A pessoas que ainda não perderam a esperança. A pessoas que ainda questionam. A pessoas que ainda não perderam a capacidade de pensar, mesmo que seja cada vez mais difícil fazê-lo. E quando regressam, esses livros, vêm com algumas memórias. Vêm com algumas ideias. Alguns deles vêm com relatos de vidas escondidas. As boas e as más. É assim que eu sei dos condomínios. E de outras coisas que um dia contarei.
Agora só quero fumar esta cigarro feito com barba-e-milho e uma folha da Bíblia. Agora só quero parar esta lágrima que teima em tombar cada vez que penso nestas coisas em que penso. Agora só quero olhar lá para fora e imaginar que estas pessoas, que vejo ali a passar autómatas, um dia, ainda podem voltar a ser livres. Livres e felizes.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/24]

A Minha Mãe

Fui a casa da minha mãe. Fui dar-lhe banho. Aspirar a casa. Repôr frescos no frigorífico. Fornecer a despensa. Regar as plantas. Fazer a cama de lavado. Ligar a máquina de lavar roupa. Lavar uma ou outra peça de louça mais difícil de ser lavada à mão. Como um tacho. Uma panela. Uma frigideira.
Ela é autónoma. Mas precisa de alguma ajuda. Principalmente com coisas mais difíceis. Principalmente com coisas mais pesadas. Principalmente com coisas mais complicadas e minuciosas. Às vezes vou lá mesmo só para dizer que estou ali. Não só no outro lado do telefone, mas também ali, em casa. Ao vivo em casa dela. Ao lado dela. Para a ajudar. Para a ajudar quando for preciso.
Cheguei. Toquei a campainha e abri a porta com a minha chave. Toco sempre à campainha para ela não se assustar com a minha entrada de rompante em casa. Para não ser uma surpresa. Para não olhar para o lado e descobrir-me lá, feito parvo.
Estava sentada na mesa da cozinha a comer um iogurte. Viu-me e disse Olha! Estás aqui? e eu acenei a cabeça. Percebi que já me tinha esquecido. Às vezes esquece-me. Baralha os dias. Acha que vou no dia seguinte que é sempre o seguinte. Às vezes até eu me baralho.
Continuou a comer o iogurte. Eu arrumei no frigorífico os legumes que levei. Arrumei as mercearias na despensa. Por ordem. Mostrei-lhe umas conservas novas que lhe trouxe. Perguntou do que era. Filetes de cavala com tomate. Ela gosta de petiscar estas conservas. Às vezes acompanha com espinafres. Com rúcula. Às vezes até usa maionese. E eu pergunto-lhe Maionese, mãe? e ela responde Que é que queres? Sabe-me bem!
Acabou de comer o iogurte. Levantou-se e foi para a casa-de-banho. Eu dei-lhe tempo para se despir e segui-a. Molhei-lhe o corpo. A cabeça. Depois passei-lhe o chuveiro para as mãos e abri o champô. Saltou-me todo para cima. O que restava. Eu devia ter percebido que o frasco parecia muito leve. A embalagem estava no fim. Ela meteu água lá para dentro, para aproveitar tudo ao máximo. Quando abri a embalagem, estava à espera de uma massa pastosa e saiu um esguicho colorido para cima da minha camisola, das minhas calças e sobre as minhas sapatilhas. Que porra, pá!
Lavei-a. Sequei-a. Esfreguei-lhe o cabelo como uma toalha e ela disse que lhe estava a pôr a cabeça tonta. Depois fartou-se de rir com as cócegas que lhe fiz ao limpar-lhe os pés. Oh, mãe! Tantos anos e ainda tens cócegas nos pés? O que é que queres? Não mas tiraram! E riu-se mais ainda. Deixei-a na casa-de-banho a acabar de se arranjar sozinha e fui aspirar a casa.
Não é muito grande, a casa. Aspiro-a num instante. Mas frente ao sofá, tenho de aspirar com cuidado e atenção. Há por lá muitas migalhas. Às vezes come sentada no sofá enquanto vê televisão. Especialmente o pão. Ela que lhe ralhava a mim quando, em criança, me esquecia de levar um prato para comer uma sanduíche na sala, hoje diz que não precisa de prato. Que não faz migalhas. Não as vê! Não vê as que lhe mostro. Zanga-se comigo quando insisto. Às vezes preciso de muita paciência.
Fiz a cama de lavado. Pus a máquina a lavar.
Coloquei os comprimidos na caixinha. Pela ordem. Não anda a tomar os da manhã. Diz que lhe fazem fazer muito chichi e quando vai sair de manhã não os toma para não andar a correr para as casas-de-banho dos cafés. Algumas são muito porcas! As pessoas são muito porcas e sujam tudo! diz-me para me fazer entender porque deixa os comprimidos na caixinha.
Ela saiu da casa-de-banho e foi para o quarto vestir-se. Eu aproveitei para arrumar a casa-de-banho. Depois fui à varanda e fumei um cigarro. Ela foi lá ter comigo e perguntou-me Queres ir beber um café?
E eu sei que ela gosta de ir ao café comigo. Gosta que as pessoas me vejam com ela. Diz às raparigas do café que eu sou o namorado dela. Enfia a mão no meu braço e entra assim comigo no café.
Ela pede uma meia-de-leite com café, Mas mesmo café! Café de uma bica! Um pão-de-leite com fiambre e Um bocadinho de manteiga, mas mesmo manteiga, não margarina, e só um bocadinho, se faz favor, senão faz-me mal ao estômago, mas eu gosto muito de manteiga, mas tem de ser mesmo manteiga. Eu peço um café. Ela refila comigo. Que estou magro. Que não como. Só um café? pergunta. E eu acabo por pedir um rissol, como quase sempre.
Depois levanto-me para ir pagar. E vejo-a, pelo espelho, a dizer às miúdas do café para não receberem o meu dinheiro que é ela que vai pagar.
Volto à mesa. Dou-lhe dois beijos e digo Tenho de me ir embora. E ela responde Vai lá! Vai lá! Tens de ir trabalhar!
E eu vou embora, mas vou sempre com a sensação que devia ter ficado lá mais tempo. Que todo o tempo que estou com ela é pouco para ela. Mesmo que seja muito para mim. E penso no dia em que já não possa ficar mais tempo nenhum com ela. E sinto um nó na garganta. Acendo um cigarro. Abano a cabeça e tento esquecer.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/14]