A Minha Aldeia Parece Twin Peaks

Às vezes sinto-me em Twin Peaks.
Ao fundo da estrada, numa paragem de autocarro em cimento, antiga, onde já não param autocarros, está sempre um velho, bêbado que nem um cacho, que a mulher vai buscar já noite fora quando dá por falta dele em casa.
Em frente à paragem do autocarro, está uma senhora à janela, está todos os dias à janela, com os peitos amparados no beiral da janela, em sutiã. Cheguei a pensar que o velho ia para a paragem do autocarro para ver as mamas da senhora mas não, vai mesmo para estar sentado a curar a bebedeira. Quando eu lá passo, na minha caminhada de final de dia, acorda e pede-me um cigarro. Pede-me sempre um cigarro e lume. Às vezes volta a adormecer com o cigarro acabado de acender no canto da boca.
Há um miúdo que passa várias vezes ao dia pelas ruas da aldeia a puxar um pequeno cão de peluche que, com o tempo, foi perdendo o pêlo e agora já nem parece um cão. Às vezes estou na esplanada do café da aldeia e ofereço uma Coca-Cola ou um Cornetto de Morango ao miúdo. Ele gosta muito de Coca-Cola, mas diz que as borbulhas fazem-lhe comichão no nariz e passa aqueles cinco minutos, que está ali sentado comigo na esplanada do café, a esfregar o nariz.
Há um anão que pede cinquenta cêntimos a toda a gente para beber uma bica. Nunca o vi beber uma bica e, ali, no café da aldeia, a bica custa setenta cêntimos.
Há uma rapariga, bonita por sinal, que habita numa casa já fora da aldeia mas do outro lado, na saída norte, e que vive sozinha, ela e um pastor alemão. Ao balcão do café, nos intervalos dos jogos do Benfica, os homens comentam que a rapariga já foi apanhada a ter relações sexuais com o cão. Não sei se é verdade mas, acho que faz confusão aos homens da aldeia a rapariga viver sozinha, sem um homem em casa, e convidar muitas amigas para lá irem.
Ultimamente têm desaparecido gatos na aldeia e, os mesmos homens, encostados ao balcão do café, comentam que são os chineses da loja (há uma loja de chineses na aldeia) que os apanham para comer.
Perto da aldeia há uma pedreira, grande, profunda, com vários charcos de água onde esta é verde e faz lembrar as minas de lítio do Chile. Já lá desapareceram alguns miúdos.
O ano passado apareceu uma rapariga morta encostada ao muro no adro da igreja. Tinha feridas abertas no corpo, mas não havia sangue espalhado por ali. Diz-se que terá sido morta noutro lado e levada para lá. A judiciária ainda não desvendou o crime.
Conta-se também uma história, na aldeia, sobre um homem com cabeça de burro que aparece em certas noites de Inverno a pedir boleia. Há quem garanta já o ter visto. Eu nunca vi.
No ano passado, um vizinho apanhou duas abóboras com mais ou menos quinhentos quilos cada. Mas afinal, parece que há abóboras maiores e mais pesadas a nascer noutros sítios.
Em dias de chuva, quando eu estou fechado em casa, a tentar trabalhar agarrado ao computador, tenho a sensação que alguém bate à porta e ouço chamar o meu nome. Nunca encontro ninguém à porta. Mas já lá descobri alguns presentes, maçãs, laranjas, uma melancia e, às vezes, um odor a perfume que não descubro de onde poderá ter vindo.
Ah, e na rotunda da aldeia, a aldeia também tem uma rotunda, mandada executar em ano de eleições pelo presidente de Câmara do concelho, acontece um acidente todos os meses. Não é a dia certo, às vezes é de dia, outras vezes é de noite, às vezes é com carros, outras vezes com camiões (há muitos camiões por aqui) e já meteu peões ao barulho. Houve um mês que não tinha havido nenhum acidente e, às vinte e três e cinquenta e sete minutos do dia trinta e um, no mês de Outubro, um miúdo espetou-se de motorizada contra a estátua que estava no centro da rotunda. A estátua foi mandada retirar. O miúdo ficou paraplégico.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/28]

Persisto ou Desisto?

Persisto ou desisto?
Estou aqui no alto das escadas, acima da cidade. Ao fundo, na linha do horizonte, elevado e a roçar as nuvens que se atravessam neste céu azul de um Verão que está para durar, o castelo. Vista daqui, Leiria até é uma bonita cidade. O problema é quando nos aproximamos dela.
Acendo um cigarro. Sinto o fumo encher-me os pulmões.
Faço uma panorâmica sobre os telhados da cidade. Uma cidade envelhecida. Mesmo a sua modernidade é velha. Uma mancha verde que diminuiu. Assim, vista daqui, não parece uma cidade velha e triste.
Começo a descer as escadas de pedra. Degrau a degrau. Escavadas pelo anos. Pelos pés ao longo dos anos. Enquanto tento pensar. Enquanto tento tomar decisões. Temos sempre de tomar decisões.
O meu corpo chocalha enquanto desço. Pequenos saltinhos agitam o meu corpo já pouco musculado e com excesso de gordura. Cada passada abana-me a barriga, o peito, as peles dos braços. Muita comida de merda. Muito pão. Muitos fritos. Muita gordura. Muita comida barata. Comida para encher a barriga, não para alimentar o corpo.
Desisto?
Sinto um soluço bloquear-me a voz interior. Acaba-se o monólogo. Continuo a descer as escadas com a angústia a apertar-me a garganta e tento recuperar a calma, a lucidez. Não, não devo desistir. Não posso desistir.
Desço o último degrau. Coloco o pé na baixa da cidade. Entro pelas traseiras da esplanada do Liz Bar. Umas mesas por levantar. Há restos de marisco. Deixaram as cabeças do camarão. As pessoas não comem as cabeças do camarão. É a melhor parte. A mais saborosa. Onde todo o sabor se fixa.
Sento-me numa das mesas e começo a comer as cabeças dos camarões ali deixadas por quem não sabe apreciar. Bebo o resto da cerveja dos copos abandonados. Chupo as cabeças. Lambo os dedos sujos. Limpo as mãos às calças rotas e sujas. Limpo o nariz à toalha da mesa, à toalha de pano branca que está sobre a mesa, sob as taças com as cabeças de camarão que acabei por chupar e comer. Assoo-me. Há quantos anos não como uns camarões?
Vale a pena persistir?
Vindo lá de dentro, de camisa branca e calças pretas, a abanar um guardanapo branco, o empregado enxota-me. Se calhar tem medo que eu lhe roube a gorjeta. Mas não há dinheiro nas mesas. Nem notas nem moedas. Só as cabeças de camarão destruídas que eu já devorei.
Levanto-me da mesa e continuo pela cidade fora. Ou será pela cidade dentro?
Acendo outro cigarro. Soube-me bem, as cabeças dos camarões. Mas lembra-me outros tempos. Tempos em que eu também era outro. Em que eu podia pagar os camarões. E já nessa altura comia as cabeças. Sempre gostei das cabeças dos camarões.
Páro junto ao lancil do passeio. Há muitos carros a cruzarem a cidade. Passam depressa. Grandes carros. Boas marcas. Há dinheiro, em Leiria. Eu não tenho pressa. Mas pergunto-me se vale a pena. Desisto? Persisto? Tenho um pé em suspenso sobre a estrada. A estrada cheia de carros que voam com pressa para qualquer sítio. E eu? para onde é que quero ir?

[escrito directamente no facebook em 2020/09/13]

Bang Bang, parte 03 e última

[continuação de ontem]

O dia estava a cair. Havia gente a ir embora da praia. Ela continuava deitada na cama de borracha a ondular ao sabor da maré. Eu, farto de mergulhar naquele mar chão, saí da água e fui sentar-me na esplanada de uma casa de pasto espetada no meio da praia. Pedi Una cerveza e calamares. E assim foi. Veio uma imperial e uma caixinha de latão com calamares.
Ela levantou a cabeça à minha procura. Eu acenei-lhe da praia, da esplanada da praia. Ela viu-me e sossegou. E deixou-se estar a baloiçar naquelas águas quase paradas.
Eu fiquei ali a apreciar o que parecia o paraíso. Tínhamos dinheiro. Estávamos apaixonados. Fazia bom tempo. A água do mar estava quente. A cerveja fria e os calamares eram saborosos. Precisava de guardar aquele tempo o máximo que me fosse possível. Sorvi tudo gulosamente como se o fim do mundo estivesse a espreitar. Os bons tempos estavam prestes a terminar. Eu sentia-o.
Naquela noite haveríamos de alugar um quarto de hotel com varanda e vista sobre o mar. Aquele mar. Faríamos amor na varanda. Faríamos amor a olhar a Lua reflectida no mar. Depois ainda fumaríamos uns cigarros e haveríamos de ter uma grande conversa. Uma conversa onde falaríamos de tudo. De nós e do nosso futuro. Haveríamos de falar do nosso futuro, do nosso fabuloso futuro, um futuro partilhado a dois, com filhos, dois, talvez três, duas raparigas e um rapaz, talvez ao contrário, mas antes iríamos conhecer a Europa, conhecer o Mundo, abrir os olhos e a mente, olhar para além dos horizontes e perceber que não éramos as únicas pessoas neste planeta, um planeta espectacular à espera de coisas espectaculares feitas por pessoas como eu e ela, pessoas espectaculares.
No dia seguinte iríamos passear por Torremolinos, os dois, os dois de mãos dadas, felizes com o que a vida nos estava a proporcionar, e ela haveria de sofrer um acidente. Seria atropelada numa passadeira por um grupo de miúdos ingleses, bêbados, a conduzir um carocha cor-de-rosa, que não conseguiam perceber o conceito de conduzir à direita. Ela iria morrer antes mesmo de chegar ao hospital para onde seria levada e eu acabaria por andar perdido pela Costa del Sol, solitário, de calções e chinelos nos pés, sem tomar banho nem lavar os dentes, à procura dela, à procura de uma ideia dela, a tentar perceber a minha vida sem ela.
Haveria uma pergunta que me iria acompanhar nesses dias que se aproximavam: O que é que irei fazer sem ela? O quê?
Acabaria por voltar para casa. Pegaria no Peugeot que o meu pai me tinha dado e regressaria a Leiria, mas ainda demoraria algum tempo. Iria fazer toda a costa sul. Entraria por Vila Real de Santo António e iria fazer o Algarve e depois começaria a subir o litoral alentejano e demoraria dois meses a chegar a casa, dois meses que demoraria o meu luto por ela e durante todo esse tempo iria deitar-me com todas as miúdas que se quiseram deitar comigo, sem escolha, aberto a tudo e a todas, e choraria no regaço de muitas delas, que me tratariam sempre bem, com carinho, dar-me-iam colo, e muito amor, até que finalmente haveria de chegar a Leiria, fechar-me-ia em casa e começaria a escrever, a escrever muito, a escrever estórias que tinha vivido, ou não, já não sabia o que era verdade ou mentira, o que tinha realmente vivido ou imaginado, mas escreveria tudo, tudo o que me lembrasse, tudo o que pensasse que era vagamente verdade, e depois iria depositar tudo numa gaveta e iria esquecer tudo outra vez, até que pudesse nascer de novo e ser outra vez uma pessoa, alguém completo a quem as estórias já não magoariam, o que me iria trazer até aos dias de hoje.
Mas então, naquele tempo, iria procurar trabalho e o primeiro trabalho que encontraria seria o primeiro trabalho que aceitaria, iria trabalhar por turnos numa fábrica de rações na periferia da cidade, fábrica onde ainda hoje trabalho, trabalho que me embruteceu a alma e as mãos, ásperas, grossas, grosseiras, mãos que nunca mais tocaram a seda de uma pele como a dela, mas que me foi aguentando a vontade de estar vivo e o poder pagar o preço desta vida que já não é querida, só suportada.
Ainda hoje trabalho na mesma fábrica de rações a fazer as mesmas coisas que comecei a fazer há quarenta anos. O meu olfacto não detecta mais nada que o cheiro daquelas rações para alimentar animais. Quando chego a casa escrevo estórias que ninguém me paga. Escrevo histórias que ninguém lê. Escrevo estórias que aconteceram ou não mas, escrevo estórias que são o legado da minha passagem por cá. Publico estas estórias nos redes sociais, não à espera de reconhecimento, mas à espera que fiquem aqui para sempre e que, de qualquer forma, me deem a imortalidade que não consegui de outra maneira. E evitaram o Bang Bang.
Mas isso ainda não aconteceu. Ainda está para acontecer. E neste momento, estou com uma imperial nas mãos e alguns calamares à espera para serem comido por mim. E ali ao fundo, no mar, no mar onde a noite já começa a cair, está o amor da minha vida com quem irei fazer amor esta noite. A nossa última noite. Mas eu ainda não sei disso e, por isso, deixem-me ser feliz mais umas horas, se fazem favor.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/08]

Saio Cada Vez Menos de Casa

Saio cada vez menos de casa. As pessoas andam radicalizadas. Sem paciência. Explodem por qualquer coisa. Refilam por tudo e por nada. Optam por posições extremadas. Estão sempre uns contra os outros. Já não aceitam que os outros também possam ter razão. Ou que há mais verdades para além da verdade de cada um. Eu também. Eu também expludo com facilidade. Não é um acaso. Os últimos capítulos da minha vida, encaminharam-me para aí. Acho que as coisas estão a ser feitas para isso. Estamos a ser canalizado. Alguém quer pôr o mundo a arder. Eu sei que isto parece mais uma teoria da conspiração, mas a verdade é que há cada vez mais lógica na ilógica de tudo isto. É por isso que fico cada vez mais por casa. Para não fazer merda. Para não me meter por caminhos de onde não consiga sair. Para não ter de me arrepender. Para não ter de me arrepender tarde demais.
Hoje saí.
Fui à Nazaré beber café. Acabei a beber duas imperiais porque estava calor e fiquei cheio de sede. Sentei-me numa esplanada. Numa esplanada onde não havia espaço para as distâncias de segurança. As pessoas estavam ao monte. Fui também para o monte. Sentei-me. Percebi que tinha de ir ao balcão buscar o que queria. Não havia serviço de mesas, o que não deixa de ser uma contradição nos dias que correm. Entrei no café e percebi que só havia uma pessoa a trabalhar. É essa pessoa que atende os pedidos. Que coloca os pedidos em pequenas bandejas. Recebe o pagamento. Mais tarde também percebi que era essa mesma pessoa que depois ia levantar a louça usada que se acumulava nas mesas da esplanada e disparava um spray, provavelmente desinfectante, sobre as mesas e passava, rápido, um pano sobre as mesas desinfectadas e depressa regressava ao interior para atender mais gente. Há gente a ser despedida nestes dias. Há gente em lay-off nestes dias. E há gente a fazer um trabalho de cão, muitas vezes pelo preço de um salário mínimo. Há muita gente a sofrer nestes dias. Mas também há muita gente a aproveitar estes tempos para encher os bolsos à custa dos outros. A riqueza é criada quase sempre à custa dos outros.
Acho que é ver este tipo de situações que me deixa da maneira que ando.
As pessoas estão egoístas. Gananciosas. Más. As pessoas são filhas-da-puta e se se apanham com um bocado de poder, por mais pequeno que seja, são filhas-da-puta em todo o seu esplendor.
Estava já na segunda imperial quando me apercebi de um burburinho no outro lado da esplanada. Várias pessoas estavam em pé a olhar para o alto. Para o cimo do prédio onde ficava o café. Para as varandas estendidas sobre a esplanada.
Também olhei. Mas não vi nada. Só gente agitada. Vi pessoas a sacudirem-se. O bruá das vozes em crescendo. Alguém erguia um punho fechado, ameaçador, lá para cima. Depois, aos poucos, apanhando uma conversa aqui e outra ali, lá percebi. Alguém lá de cima despejou lixívia sobre as pessoas na esplanada. Havia gente a tirar as camisolas. Miúdos a chorar. Mulheres a gritar. Homens indignados. Eu próprio acabei por ver camisolas com pintas descoloridas. E depois, ouvi a pessoa que estava a trabalhar sozinha, parada à entrada do café a dizer, Já não é a primeira vez.
Um homem, um homem forte, com tatuagens a cobrir os braços e uma barba enorme que saía para fora da máscara social, disse Aí não? e levantou a cadeira de madeira onde estava sentado, mandou-a contra o chão, partiu-a em vários pedaços, pôs-se a escolher um pedaço e acabou por se decidir por uma perna, comprida e forte, arrancou em direcção à entrada do prédio, deu um pontapé na porta de vidro que se estilhaçou em mil-e-um pedaços e desapareceu dentro do prédio.
Na esplanada, e à minha volta, caiu um manto de silêncio. Sentia-se a ansiedade a bater nos corações de muitas daquelas pessoas. Outras continuavam a conversar como se não fosse nada com elas. Eu queria ir-me embora. Regressar ao sossego de casa. Mas, ao mesmo tempo, ao mesmo tempo queria saber como é que aquilo iria terminar.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/05]

Meio-Frango Assado

Andava para trás e para a frente na avenida. Não fazia a avenida toda porque não conseguia. Mas ia até meio, e depois voltava para trás. Fazia esta caminhada de manhã e ao fim da tarde pela fresquinha. Duas vezes por dia.
De manhã, acordava cedo, ficava uns bons dez minutos na cama a espreguiçar-me e a deixar que os barulhos da rua furassem os vidros da janela e viessem soprar-me ao ouvido. Depois vestia-me e saía. Fazia metade da avenida para lá e regressava. A meio da avenida já me cheirava ao frango assado da loja de take away do Rei dos Frangos. Sempre gostei de frango assado e, mesmo não gostando muito do frango assado do Rei dos Frangos, que é, contudo, bem melhor que o frango assado do Pingo Doce, mas que não cheiro na rua quando lá passo porque esse não chega à rua, gostava de sentir-lhe o cheiro. Ao final do dia, quando voltava a fazer o mesmo caminho, quando ia até meio da avenida, e quando lá chegava sentia outra vez o cheiro do frango assado e, acontecia muitas vezes, acabava por comprar meio-frango assado, que por vezes era uma metade que estava para lá esquecida, que a maior parte das pessoas levava um frango inteiro, e trazia um meio-frango seco, que acabava por não comer e, no dia seguinte, desfiava-o e fazia uma tosta com frango assado e maionese ou misturava o frango com pasta cozida, requentada no wok com um pouco de legumes salteados e tomate seco. Às vezes espalhava um pouco de lascas de queijo da ilha por cima. Depois, um dia, o médico disse-me que não era boa ideia comer coisas no wok e salteadas, e queijo da ilha, porque me fazia mal. Não liguei muito mas reduzi. Todas as vezes que ia até meio da avenida, no meu passo lento e tremido, sentia o cheiro do frango assado e tinha vontade de o voltar a comer, ali mesmo, no meio da rua, à mão, à guloso, como dizia a minha mãe, sem pão nem batatas nem arroz nem couves nem mais nada a acompanhar.
O frango assado, e pensava muito nisso enquanto caminhava ao longo da rua, lembrava-me muito os Domingos com os meus pais, Deus os tenha, depois de um dia de praia e sem tempo para cozinhar, optava-se pelo frango assado com batatas pála-pála semi-caseiras. Também nos Domingos de jogos de futebol, principalmente quando jogava o Benfica, o frango assado era ementa. Comíamos à mão, e lambíamos os dedos. Primeiro o frango era pincelado com molho de limão, depois começou a levar piri-piri. Primeiro também acompanhava com Sumol ou Coca-Cola e, mais tarde, uma litrosa de cerveja. Às vezes bebia um copo de vinho tinto mas, o ideal mesmo era a cerveja. Uma Sagres em garrafa de litro.
Agora já não passo daqui. Fico-me pela esplanada, aqui debaixo de casa. Já me canso ao descer o prédio de elevador. Sento-me logo numa mesa e deixo-me ficar. Às vezes trago uma revista e fico por cá a folheá-la, às vezes adormeço com a revista aberta à minha frente, sentado aqui na esplanada, e acordo ao ouvir Está tudo bem?, e eu abro os olhos, faço um pequeno sorriso simpático e digo Sim, menina, está tudo bem.
Às vezes peço às miúdas do café para me irem comprar um meio-frango lá à frente, ao Rei dos Frangos, e elas fazem-me esse favor. Já não cheiro o frango assado a meio da avenida, mas ainda tenho o prazer de comer um bocado de frango assado à mão, sem mais nada a não ser o frango assado, às vezes demasiado seco, paciência, a acompanhar com um pequeno copo de vinho, que o médico disse-me que cerveja é que nem pensar.
Sinto saudades das minhas caminhadas pela avenida. Agora fico a ver as miúdas a irem lá buscar-me o meio-frango. Mas depressa as perco de vista. Deixo de as ver. Precisava de mudar as lentes do óculos de ver ao longe. Mas não chega para tudo, não é?

[escrito directamente no facebook em 2020/07/27]

Quatro Tiros

O homem estava sentado no banco de jardim que não estava propriamente num jardim mas no meio-largo que se formava ali, a meio da rua, do outro lado da estrada, frente à varanda onde eu estava sentado numa cadeira de praia a fumar um cigarro, à espera de almoçar. Olhava a rua e a vida que lhe dava cor.
O homem estava sentado no banco de jardim. Um cão, um cão que era uma cadela, eu sei porque conhecia a cadela, passeava à volta do banco de jardim onde o homem estava sentado e, de vez em quando, chegava-se ao homem e colocava o focinho nas pernas do homem e ele dava-lhe duas palmadas no lombo como que a dizer Gosto de ti!, e a cadela ia dar mais uma volta pela vizinhança. Uma miúda passeava numa bicicleta cor-de-rosa com rodinhas de apoio, sob o olhar atento de uma jovem mulher, talvez a mãe. Dois miúdos davam toques numa bola. Passavam-na um ao outro. Davam uns toques com os pés, sem deixar a bola cair no chão, e depois passavam ao outro. Num outro banco de jardim que estava no passeio que acompanhava a estrada ao longo da rua, uma velha de bengala pousada ao lado, espalhava pedaços de pão aos seus pés para os pombos, que vinham aos magotes para ao pé dela, debicarem os pedaços de pão e eu pensei Não dê de comer aos pombos, minha senhora!, mas não expressei nada sonoro.
Acabei o cigarro. Apaguei-o no vaso com areia e sem flores que estava no cimo do murete da varanda, um vaso cheio de beatas de cigarros que um dia terei de despejar, quando vi passar um miúdo, um adolescente, em cima de um skate, pelo alcatrão da estrada, a fazer slalom entre os carros que circulavam para um lado e para outro. Também estava uma velhota sentada na paragem do autocarro. Está lá sentada todos os dias, quase o dia inteiro, e nunca apanha o autocarro. Está lá sentada para meter conversa com as pessoas que esperam pelo autocarro. Cada um mata a solidão como pode.
Um homem saiu do quiosque mais abaixo com o saco do jornal Expresso. Uma rapariga estava sentada, sozinha, numa mesa da esplanada a fumar um cigarro. Um rapaz veio à porta do restaurante chamar a rapariga e ela largou a beata no chão e entrou no restaurante. Pouco depois saiu um velho. O velho caminhou um pouco na rua e depois parou frente a uma loja a olhar para a cadela. Procurou algo com o olhar e depois voltou a andar. Parou em frente à porta de um prédio, meteu a chave e entrou.
A cadela voltou outra vez para o homem. Colocou, outra vez, o focinho na perna do homem e esperou. Ele voltou a dar-lhe duas palmadas no lombo, a cadela abanou a cauda, contente, e voltou a ir embora.
Uma senhora passou, devagar, a cruzar a estrada pela passadeira, de telemóvel na mão e no ouvido. Ia a falar com alguém. Parecia distraída. Parou a meio da passadeira e manteve-se lá parada por momentos. Depois recomeçou a caminhar para o outro lado. Passou um autocarro mas não parou, não havia ninguém para entrar, a senhora que lá estava sentada já era conhecida de toda a gente e, provavelmente, não havia ninguém para descer. Duas raparigas passeavam, lado a lado, empurrando, cada uma delas, um carrinho de bebé. Os carrinhos eram iguais. As raparigas não. Um homem veio do fundo da rua a correr com uma camisola amarelo-fluorescente e umas sapatilhas verde-alface, passou por trás do banco de jardim que estava naquele meio-largo onde o homem estava sentado, e continuou estrada fora.
O velho saiu do prédio onde tinha entrado e caminhou decidido até ao meio-largo a meio da rua, em frente à varanda onde eu estava sentado numa cadeira de praia, mas já não estava a fumar porque já tinha apagado o cigarro. O velho parou em frente ao homem que estava sentado no banco, apontou-lhe o braço, a mão, e percebi que tinha qualquer coisa na mão, e então ouvi.
Um. Dois. Três. Quatro. Quatro tiros disparados assim, à queima-roupa.
Eu levantei-me da cadeira e debrucei-me sobre a varanda. Toda a vida que despontava ali, naquele pedaço de rua, naquele meio-largo onde estava um banco de jardim mas onde não havia um jardim, parou. Fez-se silêncio. Vi a cadela parar. Olhar para o homem caído ao fundo do banco de jardim, e uma poça de sangue a formar-se à volta do corpo caído. E vi a cadela a fugir dali, enfiar-se numas ruas e desaparecer, assustada.
Aos poucos, a vida regressou àquele espaço. Dois homens correram para o velho, empurraram-no para o chão e deram um pontapé na pistola que tinha caído no chão, para a afastarem do homem. Puxaram os braços do velho para as costas e deixaram-no assim, imobilizado. Uma senhora baixou-se sobre o corpo do homem caído ao fundo do banco e colocou-lhe dois dedos sobre a jugular. Depois levou a mão à boca e começou a chorar.
Eu agarrei no maço de cigarros e acendi outro. E disse Foda-se, pá!
Ao fundo ouvia-se a sirene de um carro da polícia.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/26]

Escondido

Tínhamos ido todos juntos. Amigos, amigos de amigos, conhecidos. Era uma manifestação em jeito de festa. Tínhamos pintado os cartazes em casa. Uns em português. Outros em inglês. Uns a preto e branco. Outros muito coloridos. Ensaiámos palavras de ordem. Uns amigos, com uma banda de música, iam dar um concerto na manifestação, ali no meio dos manifestantes, sem palco, sem som de retorno, em jeito acústico. A girar entre as pessoas que tinham saído dos seus buracos de segurança, dos seus sofás, das suas redes sociais, para irem para a rua gritar, lutar, contestar, chamar a atenção. Afinal, toda a gente pensava da mesma maneira.
Anti-racistas. Anti-xenófobos. Anti-homofóbicos. Pela liberdade.
Era uma manifestação que era também uma festa. Depois de tanto tempo em reclusão por causa do contágio, sabia bem voltar à rua, voltar a ver amigos, e sentirmos-nos úteis por estarmos a lutar por aquilo em que acreditávamos.
De início, parecia mesmo uma festa.
Vivíamos numa bolha. Todos os amigos e os amigos dos amigos e os conhecidos, todos eles eram assim, pensavam assim, manifestavam-se por esses valores.
Depois, acabámos todos por perceber que o mundo não é a nossa bolha.
Eu tinha marcado encontro na esplanada do Jardim Luís de Camões, em Leiria. A concentração era na Praça Rodrigues Lobo e depois subiríamos até aos paços do concelho para entregar um manifesto na Câmara Municipal.
Bebi um café na esplanada do jardim. Estava muita gente. O ambiente era de franca euforia. Era Verão, estava sol e muito calor, e as pessoas estavam contentes com os reencontros. Depois começámos a ir para a Praça Rodrigues Lobo.
Alguém fazia um discurso com megafone. Parecia vir do lado dos arcos, onde estão os cafés. Pelo menos era para lá que estava toda a gente virada. Encontrei amigos. Cumprimentei-os acenando a cabeça. Ainda não estava preparado para tocar em ninguém. Sem vacina, eu fazia o meu papel. Máscara na cara, uma certa distância das outras pessoas e sem tocar nos outros. No bolso, um pequeno frasco com álcool.
Alguém tentava dizer alguma coisa, mas não se percebia. O som do megafone e o bruá de toda aquela gente não permitiam grandes conversas mais íntimas entre as pessoas sem que elas se aproximassem. Eu não me aproximava.
Foi então que veio uma carrinha de caixa aberta vinda do Largo Cinco de Outubro. Primeiro não percebi muito bem o que estava a acontecer, embora tivesse percebido alguma agitação. Uns tipos carecas, com farda para-militar e uma braçadeira vermelha no braço esquerdo, saltaram de cima da carrinha para o meio dos manifestantes, com tacos de baseball, e começaram a bater em toda a gente com quem se cruzassem. Batiam a torto e a direito. Primeiro, fiquei bloqueado. Deixei de ouvir o megafone. O bruá elevou-se. Agora ouviam-se mais gritos. Havia gente a correr. As pessoas corriam para uma qualquer das ruas que saem da Praça Rodrigues Lobo. Levado pelo pânico, também eu despertei do meu torpor e acabei a correr pela Rua Rodrigues Cordeiro, passei em frente ao restaurante Porto Artur e vi as pessoas que estavam na esplanada a olharem espantadas para toda aquela gente em fuga. Ao chegar à Rua Direita, virei à esquerda para subir ao Terreiro, quando reparei que estava uma outra carrinha de caixa aberta com outros carecas fardados munidos de tacos de baseball à espera, ao fundo da rua, à entrada do Terreiro. Voltei para trás. Enfiei-me numa das ruas da zona histórica que sobe até ao castelo. Perdi os meus conhecidos. Mas ia no meio de um mar de gente. Gente que fugia como eu. Gente que fugia não sabia bem de quê. Quer dizer, saber sabíamos, mas não queríamos acreditar que essas coisas acontecessem ali, exactamente ali, em Leiria, uma cidade pacata onde nunca acontece nada. O que é que se estava a passar na cidade? Quem eram aqueles tipos fardados, com fardas a lembrar os militares, que estavam a bater em toda a gente, sem olhar a quem? E a polícia? Onde é que estava a polícia?

[continua]

[escrito directamente no facebook em 2020/07/18]

Avalanche

A vida é feita de avalanches. Umas seguem-se às outras. E nós, as nossas vidas, seguem enrodilhadas nessas avalanches que nos levam pelo tempo. Quando estamos bafejados pela sorte, as coisas boas sucedem-se umas às outras e, por vezes, é comum ouvir-se falar em maré de sorte. Quando estamos amaldiçoados pelo azar, não há nada que possamos fazer que altere o nosso estado de alma: a única coisa que conseguimos atrair é o azar. Raios nos partam, dizemos.
Chego ao fim-de-semana. É Sábado mas podia ser qualquer outro dia. Mesmo dia da semana. Sei que é fim-de-semana porque o telemóvel informa-me. Mas tudo na minha vida se mantém igual desde há cerca de três meses.
Comecei por ficar em casa porque me aconselharam a tal. Um conselho prudente. E fui ficando. Fui percebendo que, se por um lado a vida não pode parar, porque se não morremos da doença morremos da fome, por outro lado, não precisamos de saltar da frigideira para o lume. Acelerar as coisas? Talvez seja mesmo isso que algumas pessoas andam a fazer.
Tenho ficado por casa. O meu azar é também a minha sorte, pelo menos aqui, nesta falta de necessidade de ter de sair de casa para trabalhar. Saio quando tenho de sair. Quando sou obrigado a sair. Com responsabilidade. Com cuidado. Em segurança. Levo luvas. Máscara. Uma garrafinha de álcool. Mantenho distâncias. E não me deixo influenciar pela ocorrência. Deixei de ouvir as pessoas. As pessoas normais, pelo menos. As pessoas como eu. Pessoas que não sabendo nada julgam que sabem tudo. Já ouvi todo o tipo de teorias. Já ouvi pessoas aconselharem uma coisa e o seu contrário. Chega. Não serve para nada usar álcool nas mãos? Também não fará muito mal. O álcool provoca problemas dermatológicos? Quando tiver um problema de pele, vou tentar resolvê-lo. Para já, uso. Chega de teorias e ultimatos de sabedoria.
Há três meses que deixei de frequentar o café. Gostava de me sentar numa esplanada a beber uma bica, uma água tónica, uma cerveja, um gin, a ler um livro, uma revista, o jornal do dia. Conversar com este e com aquele. Petiscar um rissol de camarão. Um pastel de nata queimado. Ver quem passava. Imaginar estórias. Há três meses que deixei de frequentar o café. Agora entro, bebo uma bica ao balcão e vou embora.
Ao princípio pensei sentir falta disto. Falta de pessoas. Falta de conversa. De discussões. Falta da amizade. Falta de jantares com companhia. Falta de toque. De beijos. De sussurros no ouvido.
Afinal, três meses passados e sim, sinto falta de estar sentado numa esplanada a ler um livro e sentir a aragem fresca do fim-de-tarde, mas não sinto falta das pessoas. Talvez a deficiência seja minha. Talvez seja um erro de programação. Talvez esteja somente numa maré de azar com as pessoas. Talvez eu me seja suficiente. Talvez a distância das redes sociais seja o meu conforto que impede de me magoar.
A vida é feita de avalanches. Umas a seguir às outras. Nada é definitivo. No final de uma, começa sempre outra. Depois do azar, a sorte. Agora estou numa avalanche solitária. Solitária mas responsável. Talvez amanhã regresse aos meus dezasseis anos e arranque eu mesmo com a minha própria avalanche sem me preocupar com as consequências. Afinal, amanhã é sempre outro dia.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/04]

O Mundo É do Tamanho de um Penico

O meu mundo já não é a minha rua. O meu mundo agora é mesmo o mundo. E não se limita à Terra e às coisas visíveis sobre ela.
Estou sentado no alpendre com as montanhas lá à frente. Hoje estão visíveis. Gosto de ver as montanhas. O céu está azul e não há uma única nuvem branca a pontuá-lo. Estou sentado no alpendre e tenho o computador à minha frente, sobre as minhas pernas, e dou a volta ao mundo e navego pelo cosmos. O meu mundo agora é mesmo o mundo.
Chegam-me as notícias que fazem o dia. A extrema-direita diminuiu nas eleições municipais em França. A direita-musculada polaca não ganhou à primeira volta e é possível que seja derrotada na segunda. A Nova-Zelândia parece que não é deste mundo. É uma outra espécie de Noruega mas mais humana. Também apareceram umas notícias sobre a Zelândia, um mítico continente que terá existido há muitos milhares de anos onde é hoje a Nova-Zelândia. Uma espécie de Atlântida do hemisfério sul.
Aqui neste país onde estou, e onde é a minha casa, vive-se um ataque de esquizofrenia. Depois de sermos os melhores do mundo passámos a ser os piores e já ninguém gosta de nós e está toda a gente a ver se nos lixa a vida e nos rouba a clientela turística. Nem quero saber o que é que isto quer dizer, mas deve ter algo a ver com os pastéis de bacalhau com queijo da serra.
Uns polícias de serviço em Lisboa foram apanhados a beber cerveja numa esplanada. Desconfio que a minha internet esteja ligada umbilicalmente ao Correio da Manhã.
Passo pela live stream do Benfica e vejo que continua tudo a zeros. Está na segunda parte. O que é que se passa com o meu Benfica?
Acendo um cigarro. Levanto o olhar e vejo cão a cagar no meio do quintal. Cabrão! penso. Agarro no maço de cigarros e mando-o ao cão. Acerto-lhe na cabeça mas o cão não parece ter notado. Nem se virou para ver o que era. Espero que não me cague no maço de cigarros que não tenho mais nenhum. Percebo que estou a ficar mal-disposto por causa do Benfica. O futebol faz-me mal.
Reparo que as bancadas estão vazias. As bancadas do estádio. Claro. Claro que estão vazias. Já sabia. Mas não deixa de ser estranho ver as bancadas vazias com faixas alusivas ao clube da casa e aos seus patrocinadores. O futebol é isto agora. Patrocinadores. Ainda é o meu Benfica, este?
O Marítimo marca golo. Fico estupefacto. Largo um sorriso que é um esgar. Se a minha avó, a mãe da minha mãe, fosse viva, teria dito Têm de ir à bruxa! Mas não me parece que seja coisa de bruxas. As bruxas preferem dançar que meterem-se com as coisas da bola.
O mundo é o meu mundo, mas o meu mundo ainda é um caixote. Dou várias voltas ao globo num abrir e fechar de olhos e acabo por prender o meu coração aqui ao pé de casa.
O Marítimo volta a marcar outro golo. E só me apetece dizer Oh Benfica, vai para o caralho!
Desligo o live stream. Não quero ver mais desgraças da bola. Volto às desgraças da vida. O aumento de infectados pelo Coronavírus na área metropolitana de Lisboa e, segundo parece, alguém diz que este vírus se combate com antibióticos, as mentiras de Donald Trump, a fuga para frente de Jair Bolsonaro. Acho que este vai ser o primeiro a pagar caro a sua arrogância intolerante e bruta.
Apago o cigarro no cinzeiro e olho para as montanhas lá em frente. Por cima das montanhas, a Lua, meia-Lua, pendurada no céu azul, e penso, em voz alta Oh, Elon Musk, leva-me contigo para Marte!

[escrito directamente no facebook em 2020/06/29]

Duas Horas de Trabalho por Dia

Arranjei trabalho numa empresa de limpezas. Faço limpeza a dois bancos em Leiria, na zona da Nova Leiria, entre as seis e as oito da manhã. Levanto-me todos os dias às quatro e meia da manhã e, às seis, estou, eu e uma miúda, brasileira, a fazer a limpeza em dois bancos na zona da Nova Leiria. Às oito horas já fiz o meu dia. Eu queria mais horas, porque recebo à hora e, quanto mais horas fizer, mais dinheiro recebo mas, todos os outros horários estão preenchidos. Restavam as horas da madrugada que ninguém quer. Só eu e outros assim como eu. Como a brasileira que trabalha comigo. Aliás, sou eu que trabalho com ela. Ela já lá estava quando eu comecei. Ela é uma espécie de chefe para mim. É ela que me diz o que fazer e como fazer. Quando tenho alguma dúvida, é com ela que vou ter. Às vezes páro o que estou a fazer para olhar para ela. É toda desenvencilhada. E gira. É nova. Tem um filho pequeno, com dez anos. Tem umas ancas generosas. Uns seios pequenos. Já a apanhei a olhar, mas sei que aquilo é demais para mim. Já estou demasiado velho para estas aventuras com raparigas novas a precisarem de uma atenção que eu já não posso dar.
Enfim.
Às oito da manhã estou despachado. Demasiado tarde, ou talvez demasiado cedo, para regressar a casa. Passeio-me um pouco pela cidade. Ainda são de graça, os passeios a pé pela cidade.
Vou até ao Maringá. Sento-me na esplanada sobre os degraus do passeio, com as mesas à distância regulamentar, as mesmas mesas de sempre, agora espalhadas por uma área maior. Peço um café. Acendo um cigarro. Olho as pessoas que chegam. Chegam cheias de pressa. Algumas vão a entrar no café sem a máscara posta e são barradas à entrada. Colocam a máscara e, lá dentro, ao balcão, voltam a tirar a máscara para beberem o café e comerem um rissol, tudo muito rápido, estão com pressa.
A miúda coloca-me a chávena de café à frente. Dou-lhe uma moeda para pagar a bica e poder ir embora quando quiser.
Os carros voltaram a circular. Sinto o cheiro do gasóleo queimado dos carros em fila, à espera que o semáforo lhes liberte a passagem. Uma senhora, dentro de um dos carros, olha para mim. Mas é um olhar fortuito. De quem precisa de fazer passar o tempo antes de carregar no acelerador e passar o carro da frente depois da curva à direita e antes do próximo semáforo por causa do estrangulamento na rua a seguir. Se calha um nabo à frente, há-de ir a pisar ovos até à Loja de Cidadão, que já foi da Zara. Mudam-se os tempos, mudam-se as entidades capitalistas.
Vejo uma velha a passar com um saco de plástico preto, daqueles do lixo, carregado de coisas, às costas. A velha vê que estou a olhar para ela e muda de rumo. Vem ter comigo. Foda-se! Abeira-se de mim e pede-me um cigarro. Eu dou-lhe um cigarro. Ela coloca o cigarro na boca e fica a olhar para mim, de cigarro na boca. Eu percebo e acendo o isqueiro. Aproximo o isqueiro do cigarro. Ela curva-se e coloca o cigarro sobre a chama do isqueiro. Dá umas passas e acende o cigarro. Olha para mim. Olha para mim e diz Moro aqui perto. Queres vir comigo?
E eu olho para ela e penso nas peles, penso que o corpo dela já não terá carne, só peles tombadas, as mamas tombadas, o rabo descaído, as ancas moles, as rugas, as estrias.
E eu olho para ela e penso na brasileira com quem trabalho duas horas por dia e que já vi a olhar para mim, de ancas generosas.
E eu olho para ela e vejo-a a fumar o cigarro, altiva, consciente de ser uma mulher que não dá parte fraca a nada nem a ninguém.
E eu olho para ela e digo E eu? Que porra sou eu? e a velha faz uma expressão inquisidora e pergunta O quê?
Eu abano a cabeça e digo Nada. Deito o meu cigarro fora, levanto-me da cadeira e digo para a velha Vamos.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/18]