Há Gente Brilhante a Quem a Vida Vira as Costas

Quando o pai dele morreu, ele passou a estar a maior parte do tempo aqui em casa. Até que se mudou para cá.
Já cá passava bastante tempo. Era a escapatória a que se permitia. Tinha abdicado de tudo por causa do pai. Desistira de uma carreira no cinema por causa do pai. Desistira de ter uma relação amorosa por causa do pai. No início ainda ia tendo uns casos. Nada de muito sério porque ele também não queria. Tinha o pai para cuidar. Mas depois, mais para o fim, isolou-se e deixou de se dar com outras pessoas. Família. Amigos. As namoradas que foi tendo. Desligou-se de tudo. E foi fácil desligar-se de tudo. Deixou de sair. Deixou de ter telemóvel. Desligou-se das redes sociais. Depressa também foi esquecido. Passou a viver em função do pai. Cuidava dele. Dava-lhe banho. Vestia-o. Lavava-lhe a roupa. Cortava-lhe as unhas das mãos e dos pés, o que mais lhe custava fazer, chegou a dizer-me. Cozinhava. Levava-o a passear. Todos os dias o ajudava a dar umas voltas a pé à volta do parque em frente a casa. Aos Domingos pegava no carro e levava-o mais longe. À praia. Às vezes a almoçar fora. Uma vez levou-o a ver um jogo de futebol da União de Leiria, que ele já não via há que tempos. Outra vez foi de propósito a Lisboa para o levar ao Bingo. Mas o pai não gostou. Era tudo demasiado rápido para ele. Atrasava-se a confirmar os números. Uma vez chegou a deixar passar uma linha e, depois do grito de Bingo!, já foi tarde.
Entre os cuidados com o pai, ele vinha cá a casa. Bebíamos um vinho. Fumávamos uns cigarros. Conversávamos. Conversávamos muito. Ele lia bastante e gostava de discutir os livros que lia. Às vezes eu nem sabia do que é que ele estava a falar, mas deixava-o falar. Ele era um bom orador. Um orador entusiasta. E que entusiasmava.
Viviam da pensão do pai. A casa era alugada. O carro era do pai e era a única coisa de valor que ainda tinham. Mas já era um valor residual. Os carros começam a desvalorizar mal saem do stand, não é? Aquele carro tinha sido comprado em segunda mão. O valor já não era muito. Chegaram a ter um cão mas morreu já o pai estava reformado e ele a cuidar do pai. Nunca mais quiseram ter outro cão.
Quando o pai morreu, ele não sabia muito bem o que fazer. Passou ali uns tempos um bocado complicados. Estava há muito tempo afastado do mundo para voltar a ele assim, de chofre. Começou a passar mais tempo cá em casa. Até que se mudou em definitivo para cá. Fui eu que o sugeri.
O pai morreu e acabaram-se os cheques da pensão. Ao fim de algum tempo deixou de ter dinheiro. Ainda procurou trabalho. Mas não conseguia nada. Como é que havia de conseguir? Já estava velho para o mercado de trabalho. Ainda era um tipo novo mas, para qualquer trabalho, nos dias de hoje, havia sempre meia-dúzia de miúdos esfomeados prontos a matar por uma oportunidade. Alguns sujeitavam-se até a trabalhar sem receber na esperança de fazerem bom trabalho e serem convidados a ficar. Ele não se importou muito. Custava-lhe estar com outras pessoas. Cansavam-no.
Teve de deixar a casa. Ficou sem dinheiro para a renda. Para a água, para a luz, para o gás.
Convidei-o a ficar cá em casa. De qualquer forma já cá passava tanto tempo. Foi só trazer as suas poucas coisas. Deitou quase tudo o que tinha em casa para o lixo. Trouxe a roupa. A roupa e alguns livros. E o carro. Ainda andava e já ninguém lhe dava nada por aquilo.
Aqui em casa cozinhava. Limpava. Fazia pequenos arranjos. Mesmo coisas mais complicadas, não desistia enquanto não dava conta do recado. Tratava do jardim. Nunca saía. Passava a maior parte do tempo em que não estava a fazer nada na casa ou a cozinhar, a ler. Lia muito. Leu uma grande parte dos meus livros. Livros que eu nunca li.
E então um dia, cheguei a casa e ele não estava cá. Descobri um papel na cozinha onde estava escrito Desculpa. Só isso. Desculpa.
Depois descobri-o no fundo do poço que está no jardim. Jogou-se no poço.
Acho que a vida nunca o quis. E ele cansou-se de andar para aqui assim. Numa vida sem sentido.
Desculpa, escreveu no papel que deixou na cozinha. E foi só o que deixou. Desculpa.
Gostava de conversar com ele. Era um tipo inteligente. Um tipo que merecia ter mais do que o que teve. Teve azar na vida que teve. Há gente assim. Gente brilhante a quem a vida vira as costas.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/24]

Abandonado numa Estrada Deserta

Está um calor de abrasar. Vejo, à frente, lá ao fundo da estrada, através do pára-brisas do carro, as ondas de calor que sobem da estrada.
Ela vai a conduzir. Eu vou ao lado. Vamos em silêncio. O rádio do carro está desligado. Não me lembro quem é que o desligou. Terei sido eu? Ela? Ela vai concentrada a olhar a estrada. Mas não precisa de muita concentração. Estamos numa recta infindável. Estamos numa estrada deserta. E não se ouve o barulho de outro carro. Só este. O barulho rouco do motor em sobre-aquecimento. E os pneus de borracha a descolar do asfalto mole, quase derretido, um quase-pântano que tenta prender o movimentos das rodas a circular.
Vou com o braço pousado na janela aberta. Vão as quatro janelas abertas. Mas não se sente quase nenhuma aragem. Estamos mesmo no reino do calor extremo.
Ela também leva o braço esquerdo fora do carro. Conduz só com uma mão. Não há muito para conduzir. Não há ultrapassagens. Não há que acelerar, travar, desviar.
Ela podia deixar-se dormir que o carro iria sozinho lá para onde vamos – e para onde é que vamos? Ela pegou no carro, mandou-me entrar, e arrancou. Arrancámos e aqui estamos.
Olho para o pulso, à procura do relógio e vejo as horas. Marca oito horas. Mas não pode ser. Oito horas, da manhã ou da tarde? Nenhuma das oito horas tem o sol tão alto. Levo o relógio ao ouvido. Está parado. Não lhe dei corda. Tiro-o do pulso e dou-lhe corda. Quero acertá-lo. Olho para o tablier do carro. Olho para os manómetros. Olho para o espelho retrovisor interior. Não há relógio em lado algum. Não há horas.
Levo a mão ao bolso das calças. Procuro o telemóvel. Não o encontro. Viro-me para ela e pergunto-lhe Viste o meu telemóvel? Ela olha para mim – e eu não sei se gosto daquele olhar. Com um gesto da cara, aponta o queixo para os meus pés. Eu olho para baixo e vejo o telemóvel partido. Pego-lhe. Pego-lhe nas peças. Nas pequenas e nas grandes peças partidas do que já foi o meu telemóvel. Sem a olhar pergunto-lhe O que é que aconteceu? e ela não me responde. Continua a conduzir o carro e atenta ao deserto que se abre perante nós.
Largo os pedaços do telemóvel na estrada. Vou deixando cair através da janela ao longo da estrada. O que é que terá acontecido ao telemóvel?
Depois, ela pára o carro. Pára o carro num descampado. Estamos parados numa estrada deserta no meio de um deserto. Não se vê ninguém. Ela diz Paragem para a mijinha. Ela abre a porta do carro mas não sai. Eu abro e saio. Dou três passos, agarro na pila e começo a mijar. E digo Foda-se! que me sabe tão bem.
E depois ouço.
Ouço o motor do carro a trabalhar. O carro a arrancar. Viro-me para trás e vejo o carro a acelerar na estrada deserta e a mão dela fora da janela, a fazer-me um pirete.
Meto a pila dentro das calças. Sinto alguns pingos a caírem nas cuecas. Mas logo secam. Corro para a estrada mas já é tarde. Como o pó que as rodas do carro fizeram ao arrancar. Vejo-o fugir de mim. Ouço-o fugir de mim.
Estou parado na estrada. Estou a transpirar. Ainda vejo o carro lá muito ao fundo, transformado numa onda de calor, a tremer. Mas já não o ouço. Só ouço a minha respiração. O cantar das cigarras. Penso nas cobras. Olho para o chão à minha volta. Pergunto-me O que é que aconteceu?
Olho para a frente, para onde o carro foi, para onde o carro desapareceu. Olho para trás, para de onde viemos. E penso Onde caralho é que estou?
Começo a andar na direcção do carro. Começo a andar na direcção do carro na esperança que ela volte atrás e me apanhe.
Mas não tenho grandes esperanças.
Acho que deve ter havido merda. Porque é que vínhamos em silêncio? O que é que eu fiz? O que é que eu lhe fiz? Devo ter feito alguma, de certeza. Mas o quê? O que é que eu lhe fiz para ela me largar aqui, assim, debaixo deste calor tórrido? E daqui a umas horas é noite. Há por aqui cobras. Não sei onde estou. Tenho a cabeça a ferver. Tenho sede.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/10]

O Grito

Acordei com um grito. Um lamento de dor. Acordei com uma queixa. Abri os olhos. A escuridão. Tudo o que via era a escuridão.
Estava quieto na minha posição na cama. Deitado direito. Debaixo do edredão. A cabeça na almofada. A olhar para o tecto. Mas não o via. O tecto. Só escuridão.
Parei a respiração. Apurei os ouvidos. Tentei perceber os barulhos. Mas não ouvia nada. Nem o vento se anunciava lá fora. Nem os passos do gato. Nem os do cão. Dormiam, provavelmente.
Mas alguém gritou. Fui acordado por um grito. Um grito de dor.
Posso ter sonhado. Posso ter sonhado com um grito a pensar que era verdade. Posso ter imaginado que acordava com um grito real. Mas não costumo sonhar.
Não consegui perceber nenhum som.
Virei-me de lado. Os olhos fechados. Uma escuridão por outra. Tentei adormecer. E então, outra vez, um grito. Um grito de medo. Agora ouvi. Estou acordado e ouvi.
Levanto-me da cama. Abro as cortinas da janela do quarto. Olho lá para fora. Não há luar. A escuridão sai do quarto para a rua. Não vejo nada. Percebo uns contornos. As árvores. A casota do cão. O baloiço.
Dou a volta à casa. Espreito por todas as janelas. E em todas elas a mesma paisagem. Uma escuridão a deixar adivinhar algum contorno que decifro por conhecer a casa. Sei o que está e onde está. Mas não vejo nada. Quase nada.
E no instante da renúncia, no momento de regressar à cama, no espreitar já sem esperança de ver o que quer que fosse que conseguisse ver naquela escuridão, vejo, através da janela da cozinha, uma mulher em camisa de dormir no jardim. Está parada. De costas para mim. Virada para o fundo. Os braços esticados. Os punhos fechados. Como se estivesse a fazer força. A gerir a raiva. Saio pela porta da rua e percebo que estou nu. Corro ao quarto. Visto uns boxers. Regresso à cozinha. Olho de novo pela janela a confirmar. A mulher continua lá. De costas para mim. E eu saio da cozinha e aproximo-me dela. Agarro-a pelo braço e faço-a virar-se. Faço-a virar-se para mim. A mulher está a chorar. Parece uma mulher velha. Mas percebo que tem a cara enrugada pelo choro. Parece mais velha do que realmente é. Não a conheço. Não sei quem é. Não a posso deixar ali. Não a posso deixar na rua. Puxo-a pelo braço e trago-a para dentro de casa. Quem será?
Entro em casa, mas entro sozinho. Entro em casa e ela fica na rua. Agarro-a pelo braço e puxo-a. Puxo-a para dentro de casa. Mas ela não entra. Não consegue entrar. Não a consigo fazer entrar em casa. Sempre que transponho a entrada de casa a minha mão larga-a e ela fica lá, do lado de fora. Não consegue entrar. Não a consigo fazer entrar. Olho a cara dela. Está assustada. Eu também estou assustado. Porque é que não consigo fazê-la entrar em casa?
E então começa a chover. Começa a chover na rua. Começa a chover sobre ela. E ela começa a dissolver-se na chuva. Começa a desaparecer. A desintegrar-se. Eu corro para fora de casa. Tento agarrá-la. O pouco dela que ainda resta. E acordo aos pulos na cama. Sozinho. Na escuridão.
Eu não sonho. Nunca sonho. Terei mesmo ouvido um grito?

[escrito directamente no facebook em 2019/06/06]

Voltar a Votar

Por vezes tento recordar como as coisas eram. Mas já se torna cada vez mais difícil. A memória já não é a mesma. E o presente vai matando o passado aos poucos. Nunca houve muita necessidade de o esconder. O passado. Na verdade nunca foi preciso reescrevê-lo. Ele morre de morte natural na memória dos poucos resistentes que ainda não morreram. Tudo se perde. Tudo acaba por se perder. Tudo acaba por se perder se não fizermos nada para manter vivas essas memórias.
Lembro-me da última vez que houve eleições livres. Eleições em que todas as pessoas, homens e mulheres, com mais de dezoito anos, puderam votar. Era Primavera. Uma Primavera especialmente quente. As alterações climáticas estavam a começar a alterar o ritmo dos ciclos climáticos. As estações andavam baralhadas. Estava, portanto, muito calor. As pessoas foram para a praia. Lembro-me porque, em dia de eleições, a abertura dos serviços noticiosos foi com as filas intermináveis de carros para ir para a praia e para vir da praia. Foi um Domingo que entrou por Segunda e Terça-feira dentro. Lembro-me porque tudo isso criou um grande caos. Gente que faltou ao trabalho. Miúdos que faltaram à escola. Até deputados que faltaram à Assembleia. Todos perdidos em filas de trânsito intermináveis. Lembro-me porque essas foram as últimas eleições. As últimas eleições livres. As eleições dos dez por cento. Só dez por cento dos eleitores é que foram votar. Houve mesmo candidatos que não chegaram a ir às urnas. Candidatos que não foram votar. Lembro-me porque foram as eleições ganhas por grupúsculos de bandidos sem ideologia mas com uma fome imensa de poder e capital. Lembro-me porque foi assim que assumiram o poder e nunca mais de lá saíram. Lembro-me porque foi assim que chegámos ao dia de hoje.
Pouca gente se lembra. Mas ainda há quem se lembre.
Quase ninguém quer lembrar. Lembrar é assumir a culpa. O erro. E é difícil dizer que a culpa é nossa. É difícil dizer que a culpa é minha. Minha!
Sim, eu ainda me lembro. E por vezes tenho de contar. Contar a mim. Para me ouvir. Para que não me esqueça. Para que não deixe de saber o caminho que me trouxe aqui onde estou hoje.
Estou à janela. Estou à janela do meu quarto. Agora partilho a casa com mais quatro pessoas. Agora as pessoas vivem em quartos. As casas são divididas em quartos. Uma pessoa, um quarto. Uma família, um quarto. É a divisão equitativa para evitar a miséria dos sem-abrigo. É um estado-protector. É assim que contam a história. Mas eu sei dos condomínios onde vive a elite. Os condomínios. Os parques. Os jardins. Os lagos. Longe das cidades. Longe da miséria das grandes cidades.
Enrolo um cigarro. É difícil arranjar cigarros. Fazem mal à saúde, disseram. Foram proibidos. Mas arranjo barba-de-milho e consigo enrolar uns nas folhas de uma Bíblia que encontrei no mercado. Custou-me dez LP’s de vinil. Voltaram a estar na moda. O povo ouve música em MP3. O som flat, sem perspectiva, sem dimensão, sem ondas dos MP3. A elite redescobriu a qualidade de vinil. Os meus antigos discos têm muito valor. Dez deles valeram-me esta Bíblia que me permite continuar a fumar aqui, assim, à janela, enquanto olho as pessoas que continuam iguais, a correrem para sítios, a irem para trabalhos sem sentido mas ocupacionais. Sem tempo para nada. Sem tempo para olharem umas para as outras. Sem tempo para pensarem no tempo que ficou. Sem tempo para olharem para trás.
Eu não.
Eu gosto de pensar naquilo que perdi. Eu obrigo-me a pensar naquilo que perdi. Porque tenho esperança de um dia conseguir recuperar a vontade de ser mais que um grupo. Porque tenho esperança de um dia ser mais que um número num conjunto de gente igual. Porque tenho a esperança de um dia conseguir voltar a ser um indivíduo. E voltar a votar. Voltar a ter a possibilidade de votar. Voltar a ter o direito e o dever de escrever a minha própria história.
Tenho uns livros do Philip K. Dick. Do Stanislaw Lem. Do Philip Roth. Livros que vou passando a algumas pessoas. A pessoas que ainda não perderam a esperança. A pessoas que ainda questionam. A pessoas que ainda não perderam a capacidade de pensar, mesmo que seja cada vez mais difícil fazê-lo. E quando regressam, esses livros, vêm com algumas memórias. Vêm com algumas ideias. Alguns deles vêm com relatos de vidas escondidas. As boas e as más. É assim que eu sei dos condomínios. E de outras coisas que um dia contarei.
Agora só quero fumar esta cigarro feito com barba-e-milho e uma folha da Bíblia. Agora só quero parar esta lágrima que teima em tombar cada vez que penso nestas coisas em que penso. Agora só quero olhar lá para fora e imaginar que estas pessoas, que vejo ali a passar autómatas, um dia, ainda podem voltar a ser livres. Livres e felizes.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/24]

Não Tenho uma Casa a Lembrar com Nostalgia

Acompanhei-o num regresso ao passado. Já tinham passado tantos anos. Já tinha passado tanta história. Já tinha passado tanta vida. Ele mesmo já era outro, embora nunca tivesse deixado de ser, também, aquele que tinha sido naquela altura. E, no entanto, aquele regresso, quase cinquenta anos depois, ali, àquele lugar, àquele lugar específico, estava tão carregado de emoção que até eu a podia sentir ali, perto mas distante, ao lado dele.
O lugar, bem entendido, já não existia. Já não existia como ele o tinha conhecido. A casa onde viveu aqueles oito intensos meses, já não existia. Agora era um condomínio fechado. Janelas enormes. Linhas direitas. Tudo muito rectangular e sóbrio. Provavelmente abrigava gente com dinheiro. Com muito dinheiro. Também tinha sido assim, naquela altura, pelo menos até eles lá chegarem e tomarem conta do espaço naquele Verão onde tudo parecia possível. Mas as coisas eram diferentes. É sempre tudo muito diferente ao longo da cronologia do tempo. E o passado tem essa capacidade de nos embelezar o que ficou lá para trás, principalmente quando fomos jovens, idealistas e uns idiotas cheios de esperança no futuro.
Ele encostou-se ao muro do outro lado da estrada e ficou ali a olhar, para aquele prédio que não lhe dizia nada, mas que lhe tinha aberto uma auto-estrada para a época em que lá viveu.
Eu encostei-me ao lado dele. Como ele. E também olhei para o prédio. Achava o prédio bonito. Mas era só. Ao contrário dele eu não tinha empatia com casas.
E fiquei a pensar nisso enquanto olhava para uma das janelas do prédio. Eu não tenho para onde voltar. Não tenho um sítio para onde ir rejuvenescer memórias preciosas de épocas fantásticas. Não tenho uma casa de família. Não tenho uma casa-mundo. Não tenho um espaço de importância. Claro que houve momentos. Momentos bastante importantes na minha vida. Mas foi tudo disperso por casas sem história. Eu nasci numa casa. A minha irmã nasceu noutra. Nenhuma delas existe mais. O meu pai morreu noutra casa. Os meus filhos nasceram noutra. Cada um deles numa casa diferente. Quando casei fui viver para outro sítio. Quando me divorciei, despachei-me para uma kitchenette com um divã. Hoje… Hoje já nem sei bem por onde ando. Vou com o vento.
Apareceu um homem, já de uma certa idade, numa das janelas do prédio. Pôs-se a olhar para nós. Devia estar a pensar Quem serão estes tipos? A olhar aqui para casa?
Virei-me para ele e percebi que não estava ali ao pé de mim.
Eu gostava de ter uma casa da avó com sótão onde ir vasculhar o passado. Uma arrumação onde encontrar a minha infância. A minha adolescência. A minha formação. Não sei onde param as minhas bicicletas. O skate. Os jogos de tabuleiro. O Monopólio. O Risco. As bolas de futebol. Nem a PlayStation, a primeira que saiu e que tive já em adulto, não sei onde pára. Mas a verdade é que também não penso nisso. É importante? Se calhar não. Ou então estou a fazer mal as contas.
Não tenho um rio. Uma rua. Uma aldeia. Uma cidade.
Tenho um Verão. Ou dois. Uma viagem. Ou duas. Mas as estórias perdem-se nos espaços. Onde aconteceram? Algures por aí. Nem sei.
A cara dele mexeu-se. Vi porquê. Uma lágrima deslizava pela cara. E fez-lhe um risco brilhante naquela cara tão marcada.
Acendi um cigarro.
O homem continuava à janela, protegido pelos seus vidros duplos, ou triplos, a olhar para nós.
E pensei que se um dia quisesse contar histórias da minha vida iria ter muita pouca coisa para contar. Pelo menos coisas emotivas. Daquelas que trazem um nó agarrado ao estômago. Talvez eu seja desligado. Talvez não seja pessoa para me prender a coisas tão insignificantes como casas. Mas isto também não demonstra a minha falta de afectividade? A minha falta de amor?
Ele limpou a face com as costas de uma mão. Virou-se para mim e disse Vamos! E fomos.
O homem já não estava à janela.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/03]

Ainda Aqui Estou à Espera, a Salivar

Era novo.
Tinha dezasseis anos. Dezoito. Vinte. Finquei os pés no chão. Queria o que queria. E ia fazer tudo pelo que queria.
Fartei de correr. Agarrei com unhas e dentes. Parti dedos. Feri a boca. Sangrei o coração. Desloquei o maxilar. Insisti.
Entre o tempo, os dias magros de chuva miudinha e as noites negras, de lâmpadas fundidas, passei muito tempo no Estádio. Sentado solitário a uma mesa cheia de gente no meio de outras mesas. Outras mesas todas cheias de gente. Sempre muita gente.
A cabeça pendente sobre o peito. A enrolar um cigarro. A enrolar um charro. A agarrar uma média Sagres. A beber pela garrafa. Nunca beber imperial no Estádio. Nunca.
Entrava lá sossegado. Silencioso. Na companhia das mulheres do bairro que ainda restavam por ali, àquelas horas vespertinas. Ainda tão cedo e vazio que ouvia o eco da minha voz quando pedia, de forma sonora, uma cerveja. Um brandy Croft quando mais abonado de dinheiro. Macieira quando as coisas corriam mal. E tanto que elas corriam mal.
De tempos-em-tempo, um renovar de esperança. Um recomeço. O corpo a perder a postura do falhanço. Re-crescia centímetros. Os que tinha perdido. Voltava a ser gente. Voltava a ser grande. Enorme. O mundo era meu e estava pronto para o devorar.
Mas…
Estou velho.
Já tenho… Já nem sei quantos anos tenho. Muitos, com certeza. Perdi-lhes a conta.
O Estádio já não existe. Já não se fuma nos sítios onde perdemos as horas da nossa vida. Nem eu fumo já. Nem cigarros, nem charros. Troquei a cerveja, o brandy Croft e a Macieira pelo copo de vinho. Copo de vinho tinto. Que pode ser de pacote. Capataz. Cinco euros a caixa de cinco litros.
Já não corro. A bronquite não mo permite. Já não tenho dedos. Parti-os todos a tentar subir a parede do El Capitán. Os dentes comi-os. Tinha fome.
Já não quero ir a lado nenhum. Já não quero ser nada. Já não ambiciono ser nada.
Quero só estar por aqui enquanto por aqui estiver.
E quero estar sossegado. A ver a morte avançar, sorrateira, disfarçada. Cheia de lantejoulas. A ouvir canções em streaming. A ver filmes pirateados. A ler PDF’s de livros cheios de direitos de autor e de herdeiros. A olhar de esguelha para as notícias na televisão. As notícias banais de gente banal a morrer de forma tão banal. E eu com a língua de fora. Como os cães. A salivar.
E ainda aqui estou. À espera. A salivar.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/22]

Na Minha Primeira Casa-Só-Minha

Meto a chave à porta e escancaro-a para trás. Entro triunfal, qual Heliogábalo, na minha primeira casa-só-minha. Depois da casa-dos-pais. Depois da casa-com-os-amigos. Depois da casa-com-as-namoradas. A minha casa-só-minha. Entro solitário na casa onde vou viver sozinho pela primeira vez na minha vida. Inspiro fundo. Aguento a respiração. Deito o ar todo fora. Estico a perna direita. É importante começar bem!, digo alto para mim. Começar com o pé direito. Não é isto que se diz? Que dizem? As pessoas que sabem o que dizer quando se deve dizer? Os que percebem de tudo isto?
Entro com o pé direito na minha casa-só-minha.
Está vazia. Ainda não trouxe nada. Não tenho grandes coisas para trazer. Roupa. Alguns livros. Alguns discos. Dois ou três quadros que amigos pintaram. Umas fotografias que tirei e que tenho a mania que merecem ser vistas e expostas para prazer meu e de quem me visitar.
A casa está vazia e não tenho móveis para a encher. Tudo o que comprei fui deixando por onde passei. Hoje vou dormir no chão. Enrolado em mim. Amanhã compro um colchão. Vou continuar a dormir no chão, mas em cima de um colchão. Quero um colchão rijo. Daqueles com placas de madeira. Por causa das costas. Dói-me sempre muito as costas.
Amanhã também vou buscar os caixotes com os livros. Não os quero perder mais uma vez. Não quero ter de comprar pela enésima vez todos os livros do Philip Roth. E do Philip K. Dick. É uma cena que eu tenho com os Philip.
A casa está vazia e em silêncio. Não tenho uma televisão para me fazer companhia. Penso em colocar uma música no telemóvel, mas decido que já não tenho dezasseis anos e já não me martirizo a ouvir música fanhosa saída pelos buraquinhos pequeninos de um aparelho que, por melhor que seja, não é hi-fi.
A casa tem vidros duplos. É à prova de som. Não ouço nada da rua. A porta fechou-se nas minhas costas e, o único som que me persegue é a minha respiração pesada de bronquite. Ouço-me a pieira nos pulmões. Apetece-me fumar um cigarro. Mas não tenho cinzeiro. Não me apetece abrir as janelas. Não estou preparado para descobrir os vizinhos. Continuo a não querer ver ninguém.
Sento-me no chão da sala. Encostado à parede de frente para a janela. Os estores estão levantados. Vejo, como numa tela de cinema, o telhado do prédio em frente. Vejo um casal de miúdos. Adolescentes. Acho que são adolescentes. A esta distância é o que me parece. Estão abraçados. Um em frente do outro. Beijam-se. Sinto uma pontinha de ciúme. Como é bom ser adolescente. Jovem. Novo. Ainda cheio de esperança no futuro. Na vida. Ainda não fomos esmurrados. Ainda acreditamos. Eles param de se beijar. Olham para a rua. Olham para a rua aos seus pés. Eu vejo-os a olhar. Imagino a felicidade naqueles olhares. Sentem-se nas nuvens. Acima dos meros mortais que não sabem nada do amor. Não como eles. Do amor deles. Do amor que descobriram um no outro. No amor que consomem um ao outro. A puta da felicidade antes de crescerem e descobrirem que afinal não há amor. É tudo economia. Finanças. Dinheiro. Responsabilidade. Produtividade. Lucro.
Ouço-me dizer alto Vivam até ao limite, pá! e sinto-me envergonhado. Olho em volta mas percebo que estou sozinho. Sozinho em casa. Uma casa à prova de som. Ninguém me ouve. Ninguém me vê.
E depois vejo. Como que desperto. Na minha tela de cinema na janela em frente vejo o jovem casal. Já não estão a beijar-se. Estão em cima do parapeito do telhado. De mãos dadas. Não falam. Não olham um para o outro. Olham para baixo. Para o mundo que está a seus pés.
Tremo. Temo o pior.
E o pior acontece.
De mãos dadas dão um passo em frente. Lançam-se no vazio. Eu levanto-me do chão da sala. Corro para a janela. Tento abri-la. Mas não consigo. É nova. Tem um sistema diferente de abertura. Estou nervoso. Não consigo pensar. Grito Não!, um grito alto e desesperado, mas ninguém me ouve. Ninguém me vai ouvir. E já não os vejo. E não os ouvi. Não os ouvi aqui do meu mundo insonoro.
Não quero espreitar o chão da rua lá em baixo. Não quero ver o que não quero ver.
Deixo-me escorregar pela parede abaixo e volto a sentar-me no chão da sala.
Penso Não gosto de viver sozinho.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/20]