Estão no Meu Simulador

Não estou preocupado com o estado das coisas. Isto é uma simulação que estou a jogar. Uma espécie de RPG. É por isso que não me vejo – só ao espelho. Mas vejo as minhas mãos. As pernas. Todo o corpo do pescoço para baixo e a parte da frente. Até a pila.
Claro que há variáveis inerentes ao jogo que não posso dominar. São variáveis da matriz do jogo e que respondem às minhas escolhas. As minhas opções políticas produzem uma determinada construção social, económica e política à minha volta. As minhas opções clubísticas, sexuais, ambientais e de género condicionam o mundo que se monta à volta de mim.
Eu sei que têm dificuldade em acompanhar o meu raciocínio. Mas entendam, se eu morresse, e eu não sei quantas vidas tenho para jogar porque nunca perdi nenhuma, por enquanto, mas se eu morresse definitivamente para o jogo, o jogo parava. Ele só existe porque eu o jogo. Dito de outra maneira, o mundo só existe porque eu o concebo. Sou uma espécie de Deus deste mundo onde vocês se movimentam para minha glória.
Eu poderia ter optado por outro tipo de personagem. Se calhar de maior predominância social e cultural. Mas isso também requeria maior conhecimento do jogo do que aquele que eu tenho. É a primeira vez que o jogo, acho. Sou uma personagem relativamente secundária por opção. Quando se é secundário as exigências do jogo são menores. E é maior a possibilidade de seguir em frente. Não é uma questão de qualidade de jogo, só ao alcance dos grandes jogadores, mas de quantidade de jogo. Eu tento manter-me em jogo o máximo tempo possível. Encarnei a ideia de simulação mais que de jogo. Eu quero mais simular que jogar. Uma espécie de Sims. Ou Civilization. Eu espero construir-me.
O fantástico desta simulação é que o mundo é constituído por coisas boas e coisas más. E são as minhas opções que as vão despoletar. E eu gosto disto. Mesmo sendo secundário, acabo por ter responsabilidades nos caminhos que a simulação enceta.
Mas isto não me livra de alguns sustos. Mesmo sabendo que estou a jogar um jogo, a viver digitalmente uma vida simulada, alguns dos problemas da época e do mundo que eu escolhi acabam por me assustar quando tendo a esquecer-me que estou numa simulação. Lembram-se quando apareceu pela primeira vez o reality show Big Brother? Uma das questões mais debatidas era o facto de, a partir de certa altura, e por ser uma constante, os participantes no jogo esqueciam-se das câmaras e que estavam a ser filmados e num jogo. A simulação em que eu estou também me faz esquecer, por vezes, onde estou. Quando surgiu a SIDA, tive medo de a contrair. Porque pensava que era real. E, na verdade, poderia terminar a simulação ao morrer de uma intervenção inerente ao próprio jogo. Hoje já não me assusto, mas evito. Sei que posso contrair cancro. E que perderia o jogo se o contraísse. Mas na verdade não morria. Porque a minha vida é fora daqui. A minha vida é real num mundo real. Não nesta simulação.
Eu sei que têm uma certa dificuldade em acompanhar o meu raciocínio. Afinal, todos vocês são variáveis do jogo. Julgam que existem mas, na verdade, são só 0’s e 1’s. Sujeitos aos algoritmos que baralham as cartas e as distribuem. Mas eu também não escrevo estas coisas para vocês. Já sei que não entendem. Escrevo isto para mim. Para não me esquecer. Para não me esquecer que estou num jogo. Num jogo que quero ganhar.
Mas farto-me de rir comigo próprio. É que nem numa porra de jogo eu consigo fazer batota ou ser um filho-da-puta com as variáveis que me acompanham. Acho que nunca irei chegar ao fim desta simulação. Nunca irei ganhar o jogo.
E, daí…

[escrito directamente no facebook em 2018/10/19]

Vai Passar, Tudo Vai Passar

Olhei-me ao espelho e assustei-me.
Tinha o olho direito quase fechado, tal o inchaço. O olho esquerdo, aberto, límpido, estava com um enorme papo negro, bem escuro, como se fosse feito de sangue pisado. O cabelo estava em desalinho. Tinha sangue na camisola e, mais tarde, vim a descobrir ter sangue nas calças. E sim, era meu, o sangue. Mas não era de nenhuma ferida que tivesse no corpo. Tinha um pouco de sangue a escorrer da testa, se calhar devido a uma queda, teria lá levado a mão e teria espalhado o sangue por todo o lado. Nada de grave, portanto. Ou assim parecia.
Ao telefone ela dissera que me esperava. Estou à tua espera. Não quero saber de onde vens. Não quero saber onde estavas. Mas quero que venhas ter comigo.
Eu olhava o espelho e não sabia o que fazer. Iria assustá-la. E eu não queria isso. Ela não merecia isso. Não sabia o que fazer. Mas a verdade acaba sempre por ser a mais pequena recta entre dois pontos. Que assim fosse.
Saí de onde estava. E não, não disse a ninguém onde tinha estado. Entrei no carro dela e estivemos meia-hora a olhar um para o outro sem nos falarmos. Até que ela disse Vamos até minha casa. Não disse vamos ao hospital, ou ao Centro de Saúde, ou a uma clínica. Não. Disse Vamos até minha casa. E eu fui.
Levou-me para a casa-de-banho. Despiu-me com muito cuidado. Deu-me banho. Teve atenção aos hematomas. Secou-me devagar e aos pequenos toques. Vestiu-me uma roupa velha de um ex-namorado que estava ainda lá por casa. E depois colocou betadine nas feridas e alguns pensos, principalmente em zonas escondidas do corpo.
No fim olhou para mim e disse Vais ficar cá por casa uns dias. E não quero ouvir não. Não quero saber o que fizeste nem porque o fizeste. Deves ter tido as tuas razões. Ou pelo menos pensaste que tinhas essas razões. Por isso ficas cá em casa uns dias e não quero discussões.
E foi então que comecei a chorar. A chorar desalmadamente. E contei-lhe tudo o que fiz, e porque fiz, e porque o faria outra vez, e porque me sentia assim como me sentia naquele momento, e agora, e porque me achava um falhado, mesmo achando que era uma pessoa inteligente, culta, conhecedora, e no entanto de nada valia numa porra de mundo onde essas coisas cada vez valem menos.
E foi nessa altura que ela se aproximou de mim, agarrou-me, e me afagou os cabelos molhados e disse Vai passar. Tudo vai passar.

[2018/04/05]

Não Me Arranjas Nada para Comer?

Ela acordou serena, com um sorriso nos lábios e a luz do dia a bater-lhe leve nos cabelos espalhados pela almofada. Estendeu a mão para a mesa-de-cabeceira e puxou o telemóvel para si. Viu as horas e o sorriso desapareceu. Levantou-se rapidamente e enfiou-se na casa-de-banho. Um duche rápido, um salto para as roupas enquanto trincava uma maçã, que comeu enquanto preparava a mala para sair, e uma última ida à casa-de-banho para lavar os dentes. Depois olhou-se ao espelho. Puxou a camisa para baixo, para a alisar. Lambeu o dedo com a língua e passou-o pelas sobrancelhas. Gostou-se e sorriu-se. Vestiu o casaco. Estava pronta para sair. E então, tocou a campainha da rua.
Com o casaco vestido e a mala na mão, ela abriu a porta e viu um rapaz parado frente à entrada de casa que lhe perguntou Não me arranjas nada para comer?, e ela, apanhada de surpresa, sabendo que não tinha pão, respondeu sem pensar Queres bifinhos de peru com arroz de passas do jantar de ontem?, e o rapaz, tão ou mais admirado que ela voltou a perguntar, Não tens um pão com manteiga?, e ela, Desculpa, mas não tenho pão. Queres os bifinhos?, e ele aceitou, e ela franqueou a porta da rua e fê-lo entrar em casa. Levou-o para a cozinha, colocou um bocado generoso de arroz com passas e dois bifinhos de peru num prato e levou-o ao micro-ondas. Ele sentou-se à mesa da cozinha. Ela colocou-lhe um copo com coca-cola à frente.
Tocou a campainha do micro-ondas, ela retirou o prato lá de dentro e colocou-o à frente do rapaz que começou logo a comer, sofregamente, mal conseguindo respirar. Não falaram nada um com o outro. Estavam ambos incomodados com o silêncio, mas a vergonha e a timidez impedia-os de falar.
Quando ele acabou de comer, ela estendeu-lhe uma maçã e disse-lhe que tinha de se ir embora que estava muito atrasada. E ele foi embora. Ela ficou, por momentos, parada em frente à porta da rua a olhar, não sabia bem para onde, pois não havia nada para olhar para além da madeira da porta, e acabou por abri-la e sair também.
Esteve o dia todo a trabalhar e, mais tarde, ao final do dia, voltou para casa.
Quando entrou em casa, o marido estava a preparar um risotto de cogumelos. Disse-lhe que estava quase pronto. Ela foi à casa-de-banho, lavou as mãos e a cara e voltou para a cozinha enquanto o marido lhe colocava um copo de vinho branco à frente. Sentou-se e foi servida de risotto. O marido sentou-se à sua frente e começaram a comer devagar, enquanto falavam do dia de um e do outro, até que ela lhe ia contar o estranho acontecimento de manhã e a campainha da rua tocou. E a campainha da rua voltou a tocar.
Olharam-se admirados e pensaram Quem é que será a estas horas?, e ela levantou-se e foi à porta da rua e abriu-a e, do outro lado, um rapaz parado frente à entrada de casa perguntou-lhe, Não me arranjas nada para comer?

[escrito directamente no facebook em 2017/11/05]

Ir à Foz do Rio Através das Ruas da Cidade

Olho-me ao espelho. Descubro as olheiras. A barba já grande e cheia de brancas. Mas estou mais magro. Bem mais magro. E não estou careca.
São três da manhã e não consigo dormir. Na casa-de-banho, tento decidir o que fazer. Visto-me e saio de casa.
Gosto de passear pelas ruas vazias da cidade à noite. Entra-se num outro mundo que obriga à disponibilidade de outros sentidos.
Vou pela zona do Marachão, junto ao rio. Está escuro. Junto a umas árvores vejo dois homens, de barba, a trocar carícias. Acelero o passo. Ao pé da Rodoviária, desço as escadas e vou pelo que resta do Jardim Camões. Uma mulher está lá sentada num dos bancos e lança-me um apelo, Tens vinte euros? Eu finjo que não ouço nem vejo, e penso que já ali namorei, naqueles bancos, naquele jardim, há muitos anos.
Chego à Fonte Luminosa, e contorno-a pela esquerda. Passo pelo Feio e levo comigo o cheiro das bifanas. Mas não me apetece comer. Estou enjoado.
Subo a Fonte das Três Bicas até à Escola Branca, e descubro que alguém está a pintar palavras de ordem nas suas paredes. Continuo até à Escola Amarela, que continua da mesma cor e, na Avenida Marquês de Pombal, viro à direita, para subir até ao Hotel Euro-Sol. Mas a meio ouço uma grande explosão. Alguém está a tentar assaltar a caixa multibanco. Não me sinto herói e arrepio caminho. Começo a descer a Avenida, um pouco mais depressa, enquanto que atrás de mim os barulhos aumentam, tornam-se mais confusos, mas ainda distingo as persianas a serem abertas pelos moradores para ver o que se está a passar.
Quase no fim da Avenida Marquês de Pombal viro à direita para a Avenida Nossa Senhora de Fátima, que me leva até à Rotunda do McDonald’s que tem uns azulejos no meio que sempre pensei que fossem os pastorinhos de Fátima, mas que afinal parece que são os aldeões que vinham vender os seus produtos ao mercado de Leiria. Não tenho certeza disto. Acho que foi o que ouvi dizer. Aí, na rotunda, vou à Estação de Serviço da Galp comprar cigarros. Saio da estação e desço até ao Skate Park, vazio, em silêncio, com uma iluminação expressionista que o torna um pouco assustador até.
Sento-me num banco e fumo um cigarro. E descanso.
Demorei uma hora desde que saí de casa. E continuo na mesma. Sem sono. Sem saber o que fazer. Sem me apetecer nada.
Aos poucos começo a distinguir o barulho da água do rio que passa por ali. E decido. Finalmente tomo uma decisão. Quero ir ver a foz do Liz à Vieira.
Deixo-me cair no rio e espero que ele me leve até lá, à foz do Rio Liz, na Praia da Vieira.

[2017/09/28]