Para uma Biografia, que Pode ou Não Ser Auto (capítulo um)

Já tinha acabado o recreio dos anos oitenta e os noventa já davam os primeiros passos. Foi nessa altura que me casei. Que me casei pela primeira vez. Foi um casamento em que tentei prolongar a festa que tinham sido os anos oitenta. E durante algum tempo, foi o que aconteceu.
Alugámos umas águas-furtadas num bairro típico da capital. Era um inferno de Verão. Um gelo de Inverno. Mas era uma boa casa, acolhedora, de desenho bizarro, cheio de corredores e tectos baixos e janelas levantadas sobre o telhado, e divisões amplas. Dissemos que era uma casa fantástica para convidar pessoas e fazermos festas. O facto é que nunca tivemos ninguém lá em casa. Houve festas sim, mas só nós é que éramos os convidados. Só nós os dois. Nós os dois sozinhos até às duas últimas semanas em que lá vivemos, quando nasceu o nosso filho. Duas semanas depois de ter nascido mudámos para uma casa normal, num prédio normal, para tentar ter uma vida normal. Quarto andar com elevador num prédio de oito andares. Um prédio onde não chegámos sequer a conhecer os vizinhos de andar. Nem mesmo os que tinham a porta ao lado da nossa. Um prédio de onde saímos quando nos divorciámos algum tempo depois. Não chegámos a lá estar um ano. Foi nesse prédio que percebemos, mais ela que eu, que os anos oitenta tinham realmente acabado e era preciso crescer. E ela achava que eu não crescia.
A verdade é que na nossa primeira casa, nas águas-furtadas de um prédio de um bairro típico da capital, também não chegámos a conhecer ninguém do prédio, prédio pequeno, de escadas em madeira e íngremes, que em determinadas noites subíamos de gatas, a rir, perdidos de bêbados, onde vomitámos algumas vezes e de onde caímos outras e onde eu fiz esta cicatriz que tenho na testa. Ainda se vê bem a cicatriz quando tenho o cabelo curto, que é quase sempre, agora.
Estes anos nas águas-furtadas foram anos muito intensos. Duraram pouco mas, o que duraram, duraram quase por uma vida.
Nos meses de Verão andávamos sempre nus lá por casa. Eu e ela. As janelas abertas à espera de um pouco de corrente-de-ar que nunca vinha. Janelas abertas numa casa sem cortinas. Janelas abertas à discrição da vizinhança. Às vezes ficávamos horas a fumar cigarros e a ver a ponte sobre o Tejo lá ao fundo, ancas encostadas uma à outra. Às vezes fazíamos amor ali mesmo. À janela. Ela contra a balaustrada. Víamos as luzes dos carros a passar na ponte, as luzes vermelhas dos que iam, as luzes amarelas dos que vinham. Ao lado o Cristo-Rei, acho que envolvido numa luz azul. Por vezes também apanhávamos por ali o pôr-do-sol. O Tejo em tons prata. Os telhados que se estendiam como tapetes multicor. Tanta ganza fumada naquela janela. Algumas pastilhas. Muita loucura.
Vivíamos uma vida simples. Simples, mas intensa.
Em casa tínhamos um colchão no chão, onde dormíamos, e uma mesa com quatro cadeiras onde comíamos e trabalhávamos. Nos primeiros tempos nem prateleiras para os livros que se empilhavam no chão. Depois, alguns meses depois, comprámos umas prateleiras no Continente que montei sozinho, eu e uma chave-de-fendas, e por causa da qual fiquei com um calo na mão direita durante meses. Foi também nessa altura que comprámos uma televisão, pequena, a cores.
Tínhamos uns vasos à janela onde cultivávamos algumas especiarias que utilizávamos nas nossas festas gastronómicas. Nestes anos engordei bastante. Uma dieta à base de experiências gastronómicas exóticas, muito vinho e cocktails e charros que nos obrigavam a terminar as noites em volta de torradas banhadas em manteiga e pacotes de bolachas tartelletes de morango que devorávamos umas a seguir às outras, de boca cheia e onde enfiávamos sempre mais outra bolacha e quando falávamos cuspíamos migalhas sobre o outro e ríamos muito, ríamos que nem parvos.
Tínhamos fogão, frigorífico e esquentador que tinham vindo com a casa. Foi muito útil no início da nossa vida. Nos primeiros tempos nem sentimos a falta da televisão.
No Inverno deitávamos-nos com as galinhas da província. Eu agarrava-me a ela. Ela deixava-se agarrar por mim e dormíamos assim, agarrados e quentes, aquecidos um no outro, sem televisão, a ouvir o barulho da rua que nos embalava, com excepção dos eléctricos que, em dias de chuva, eram um inferno de barulho.
E durante uns tempos, durante alguns anos, o tempo que durou a nossa vida naquela casa de águas-furtadas, parecia que a nossa vida era um compêndio de felicidade. Como se os anos oitenta não tivessem nunca acabado e durassem para sempre. No tijolo que tinha ido connosco no primeiro dia, não parava de tocar uma cassete com os Echo and The Bunnymen e os Chameleons. Tínhamos trabalho, os dois. Um trabalho bem pago. Vivíamos em festa constante. Mas uma festa caseira. Muito sexo. Só os dois. Sem necessidade de mais gente. De outra gente. Às vezes íamos ver um filme ou outro ao cinema. Às vezes saíamos a meio do filme para irmos para casa foder. Às vezes íamos a um concerto ou outro. Mas perdíamos os concertos em enormes filas para conseguir beber cerveja. Às vezes íamos jantar fora. Mas preferíamos os balcões das churrasqueiras que, na década seguinte, entrariam em desuso, ultrapassadas pelos restaurantes-lounge de decoração minimal e preços astronómicos.
Este estado de festa durou até ela engravidar.
Depois ela mudou.
Depois ela quis que eu mudasse.
Depois mudámos de casa.
E acabámos por mudar de vida. E mudámos cada um para seu lado.
Acabou-se a festa e o casamento.
Às vezes penso que os anos oitenta foi uma década com muitos mais anos que os dez que a classifica.
Às vezes acho que regresso lá, mas descubro uma década fechada e vazia e onde já não consigo estar sozinho.
Quando finalmente descobri os anos noventa, já estávamos com medo do milénio.
Mas isso é outra estória.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/09]

Um Beijo e o Chá de Hibisco

Ela baixou-se e deu-me um beijo. Baixou-se ao pé de mim. Eu senti-a chegar antes de a ver. Senti-lhe o cheiro. Uma mistura de várias especiarias que tinha estado a utilizar na preparação do jantar, mas por cima, por cima de tudo isso, o perfume, o perfume floral que costuma utilizar e que já conheço. Cheirei-a e percebi que ela vinha lá. Depois baixou-se e deu-me um beijo.
Deixou-me um chávena de chá juntamente com o beijo. Uma chávena com chá de hibisco a fumegar. Deu-me primeiro o beijo. Os lábios dela nos meus. Ainda senti a língua atrevida a sair por momentos da sua boca e tocar, levemente, nos meus lábios. Depois largou a chávena com o chá na mesa. Ao lado do computador. Sorriu-me e voltou para os seus afazeres. Eu estava nos meus.
Eu estava na cozinha. Sentado à mesa da cozinha. Via-a a cirandar em volta do fogão. Ia à despensa. Voltava com coisas. E eu sei lá que coisas! Coisas! Caixas de plástico. Saquinhos. Embrulhos. Depois continuava de costas para mim. Em volta do fogão. Às vezes ficava uns tempos na bancada ao lado do fogão. A fazer coisas. Sentia os gestos. Os braços a mexer. Sempre de costas para mim. Abria uma gaveta. Outra. Uma porta do armário. Abriu o forno e vi sair de lá uma nuvem de fumo. E pensei Está tudo estragado! Deixou queimar! Mas, estranhamente, ela continuava na sua normalidade de um lado para o outro. Calma. Não sentia cheiro de queimado. Afinal, não se passava nada. Eu é que me precipitei. É claro que ela tinha tudo sobre controle. Sabia o que fazer. Ela era mesmo um mestre na cozinha. Mesmo quando era eu a cozinhar, nunca se afastava muito. A dada altura sabia que eu ia pedir isto. Ou aquilo. Perguntar se não tinha. Se ainda tinha. Se por acaso. Ou então. E uma sugestão? E ela estava sempre pronta para ajudar. Cobrir as necessidades. Completar. E sabia sempre como.
Olhava-a nessa azáfama e não conseguia fazer o que tinha de fazer. Eu.
Os dedos estavam em cima do teclado do computador. Procuravam letras. Queriam escrever palavras. Formar raciocínios. Mas os dedos não se mexiam. Não havia letras nem palavras nem raciocínios que me fizessem mover. E ia olhando para ela. Ela não tinha os mesmo bloqueios que eu. Estava sempre à frente das suas necessidades. Nunca ficava um minuto parada a pensar E agora?! O que faço agora?! Não! Ela antecipava sempre as suas necessidades. E também as dos outros. As minhas.
Foi assim que eu a cheirei a aproximar-se de mim quando estava entretido a olhar o site de A Bola à procura de inspiração. Ela chegou e deu-me um beijo. E depois largou-me uma chávena de chá de hibisco em cima da mesa, ao lado do computador. E eu fiquei a apreciá-la a afastar-se, de regresso à bancada onde terminava de fazer o jantar, mas onde ainda tinha tido tempo para me fazer um chá. E eu vi-a ir. E apreciei-a. O corpo. Olhei-lhe as ancas a ondular enquanto se distanciava. O rabo. Ela tinha um belo rabo! E dava gosto olhá-lo. Olhá-la.
Bebi um pouco de chá de hibisco. Soprei a fumarada da água a ferver e bebi um pouco do chá.
Depois estalei os dedos das mãos e comecei a escrever por ali fora. Sem parar.
Não dei pelo tempo passar.
Só dei por mim quando a ouvi dizer Anda jantar. E fui.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/06]

De Regresso a Lisboa

Há muito que não descia a Lisboa. Desci. Sinto-me perdido. Onde está a cidade?
Descubro-me num parque de diversões em jeito do Mundo Disney. Papás e mamãs de calções e sapatilhas leves, super-leves, de rede respiratória para aguentar sem chulé todos os quilómetros acima e abaixo à procura da nova sensação-oferta criada por mais um destes empreendedores que transformam a cidade, carregam as mochilas com garrafas de água e sanduíches feitas nas kitchenettes porque a cidade está cara mesmo para quem a visita vindo de países mais ricos que este, enquanto empurram carrinhos-de-bebé e se passeiam de mãos dadas com crianças pequenas. Lisboa é uma cidade familiar. Uma feira. Uma diversão.
Pareço-me velho e rezingão. A culpa é minha por não acompanhar os tempos? Ou tenho de aceitar tudo o que é novo?
Não tenho direito a gostar do que gostava? Ou do que gosto? Não tenho direito a ter opinião negativa sobre o sucesso turístico de uma cidade que também era, foi, minha?
Ora porra!
Passo no Martim Moniz. Não reconheço a Praça. Ainda lá estão os indestrutíveis centros comerciais multi-étnicos. Mas não é isso que chama a minha atenção. O que me chama a atenção é a fila, filas?, tenho dificuldade em distinguir, enorme de gente para apanhar o 28, o Eléctrico dos carteiristas. De repente Lisboa parece Madrid, o Martim Moniz parece o Paseo do Prado e o 28 o Museu do dito com a exposição do Bosch. Cada um dá a cultura que consegue.
Lisboa está uma feira.
Há uma Padaria Portuguesa a cada esquina. Refugio-me na Mouraria. Como um velho e saboroso kebab. Nada como reencontrar velhos amigos. Sei que vou arrotar azia. Mas sei já com o que conto. Sei como a tratar. Passo na farmácia e compro uma embalagem de Kompensan. Não vá o Diabo tecê-las. Estou prevenido.
Ponho-me a subir a rua. Vou atrás dos cheiros. As especiarias. Cruzo-me com gente a carregar malas e malinhas com rodinhas. O barulho característico prolonga-se ao longo da Mouraria. Vêm de Alojamentos Locais. Vão para Alojamentos Locais. Vêem-se placas se acrílico um pouco por todo o lado. É epidémico. Entre indianos e vizinhos asiáticos, e turistas de mala com rodinhas, câmara fotográfica pendurada ao peito, camisas havaianas, calções, sapatilhas, mas também chinelos, pergunto Onde estão os portugueses?
Viro à direita. Perco-me por ruas pequenas. Vazias. Alguns restaurantes étnicos às moscas. Não há turistas por aqui. O circuito turístico tem os seus próprios mapas. Há silêncio. Ouço os meus passos. A minha respiração. Subo. Depois desço. Aqui ainda resiste uma pequena Lisboa-cidade-do-mundo. Regresso ao Martim Moniz pelo outro lado.
Vejo um monte de gente. Estrangeiros. Trabalhadores das redondezas. Gritam. Aproximo-me. Sou curioso. Vejo um homem sentado no chão. Três polícias municipais em volta dele. Respiram com dificuldade. Percebo que estiveram a correr atrás do homem. As pessoas que observam gritam. Gritam para o homem. O homem está algemado. Tem um casaco caído pelas costas abaixo. Está descomposto. Dois polícias agarram nele e levantam-no. O povo grita. Um burburinho que vai crescendo. Os turistas olham, curiosos. Como eu. Sinto-me um turista. O homem diz qualquer coisa a um dos polícias. Ele leva a mão atrás e dispara uma estalada na cara do homem algemado. Rebenta-lhe o sangue do nariz. E dos lábios. O povo exulta. Está na arena. Vejo-lhes as bocas a espumar. Raiva. Ódio.
A polícia leva o homem para a estrada, junto ao carro da polícia municipal. Sentam o homem no chão. Algemado.
Eu viro costas. Penso que Lisboa, afinal, não mudou assim tanto. Não é uma cidade perigosa. Nunca foi. Mas é uma cidade grande. Uma cidade grande como todas as cidades grandes. Um cidade pulsante. Às vezes também precisa de respirar. Respirar fundo. E fazer asneiras. Para aliviar.
Vejo chegar um carro da PSP. Vem à ocorrência. Vem buscar o homem algemado. Vão levá-lo para alguma esquadra. Depois apresentado a um juiz. Depois eu já não olho para trás. Sigo em frente. Tento encontrar um cantinho em Lisboa livre de turistas. Tento encontrar um cantinho em Lisboa que me recorde a Lisboa que conheci. Mas acho que não tenho sorte.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/27]