Uma Co-Produção

Já conhecia Z. há muitos anos. Já tínhamos trilhado muitos caminhos juntos muitas vezes. Alguns deles eu já nem me lembrava. Apareciam assim, por acaso, quando alguém referia algo e isso despoletava uma memória, um regresso, e então fazia-se luz e percebia que já tinha lá estado, já lá tinha feito alguma coisa. Com algumas pessoas. Nomeadamente, com Z.
Daquela vez, estávamos num país africano. Num país africano que já não me lembro qual, tal a quantidade de África que fomos conhecendo ao longo de tantos anos.
Lembro-me que estávamos numa esplanada. Numa espécie de esplanada. Bebíamos umas cervejas. Quer dizer, eu bebia uma cerveja. Ele bebia uma Fanta. Estava calor. Estávamos de calções e chinelos. Sem carteira. Sem mala ou mochila. Sem relógio. Só o telemóvel enfiado no bolso dos calções e algum dinheiro dividido em vários bolsos. Não era por medo. Era só para não criar a ocasião.
Já tínhamos bebido várias garrafas, e fumado vários cigarros, quando ele disse Anda! Temos uma reunião. E eu pensei Reunião? Afinal estávamos de calções e chinelos. Ainda lhe perguntei com um gesto de cabeça o que é que se passava. Ele respondeu-me também com um gesto de cabeça para o seguir. E segui. Às vezes é melhor não fazer muitas perguntas. Às vezes a comunicação em silêncio é suficiente. Mesmo que eu não soubesse onde íamos e fazer o quê nessa reunião, onde podia ir de calções e chinelos, o melhor mesmo era ir. E fui.
Fomos a pé, com os chinelos tipo havaianas a bater nos pés, schlap-schlap, a passar por estradas quase sem asfalto, com muita terra batida pelo meio, a saltar por cima de esgotos a correr a céu-aberto, a transpirar, a percorrer quase metade da cidade até chegarmos a uma zona de prédios muito altos, com muitos andares e muitas janelas.
Entrámos num desses prédios. O confronto com o ar-condicionado do prédio deixou-me com frio. Z. não. Z. nunca tinha frio ou calor. Z. estava sempre preparado para tudo. Cruzámos a cidade sem que lhe caísse uma gota de transpiração pela fronte. Entrámos no prédio e não lhe vi nenhum arrepio ao choque com o ar fresco, demasiado fresco para quem vem das ruas da cidade.
Subimos umas escadas. Umas escadas sem fim. Quando parámos, eu já deitava os bofes pela boca. Z. olhava para mim e perguntava Então? Então o caralho!, pensava eu. Então o quê? Se estou cansado? Estou. Acabei de subir não-sei-quantos degraus. É normal que esteja cansado. Mas ele também os tinha subido. Também fumava como eu. Talvez mais que eu. E não o via assim. Cansado como eu. E não disse nada. Segui-o.
Entrámos por um corredor. Batemos a uma porta. Ouvi um clic de abertura. Entrámos. Disse quem éramos. Ao que íamos. Esperámos. Esperámos em pé, frente a uma janela aberta sobre a cidade africana aos nossos pés. E vista dali, do alto daquela janela, a cidade era bonita. Lindíssima. Claro que, ao pormenor, quando descíamos à rua, encontrávamos os problemas. Mas, dali, dali era realmente muito bonita.
Franquearam-nos a porta. Entrámos. Estava um saco de plástico em cima de uma mesa. Z. cumprimentou alguém. Agarrou no saco de plástico e fomos embora.
Voltámos às escadas. Começámos a descer. A meio parou. Abriu o saco. Retirou uns maços de notas e disse para os distribuirmos pelos bolsos. Eu ainda fiquei boquiaberto a olhar para aquelas notas todas. Mas depois ele disse Despacha-te. E eu despachei-me. Distribuímos várias notas pelos bolsos dos calções dos dois. O resto foi mesmo no saco de plástico, a dar-a-dar na mão de Z. enquanto regressávamos à mesma esplanada do outro lado da cidade. Fomos a pé. A bater chinelo pelos restos de asfalto e terra batido. A saltar por pequenos ribeiros de esgoto a céu-aberto. Eu a transpirar. Ele não.
Chegámos à esplanada. À espécie de esplanada. Acendemos um cigarro cada um. Era preciso recuperar os níveis de nicotina no corpo. Pedimos uma cerveja para mim e uma Fanta para Z.
Apareceu um miúdo. Pediu dinheiro. Z. disse para se sentar na mesa connosco. Perguntou-lhe se tinha fome. O miúdo acenou a cabeça. Um fio de ranho caía para a boca. O miúdo limpou-o com as costas da mão. Z. pediu um hambúrguer e uma Fanta para o miúdo.
E assim estávamos nós. Eu a beber uma cerveja. O miúdo a comer um hambúrguer. E eles os dois a beberem uma Fanta de uma cor tão fluorescente que parecia radioactiva.
Em cima da mesa o saco de plástico com os maços de dinheiro. Eu, de vez em quando, levava as mãos aos bolsos dos calções para ver se o dinheiro que lá estava ainda lá estava. Z. continuava a fumar sem se preocupar com nada disto.
No dia seguinte íamos começar a filmar.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/05]

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A Mulher, parte 04 e final

[continuação de ontem]

Ela ia no autocarro a caminho de casa. Ia no caminho inverso ao que fazia todos os dias a esta hora. A esta hora estava a caminho do trabalho. Hoje estava a caminho de casa. Normalmente ia em pé porque o autocarro já ia cheio quando parava ao pé de casa. Hoje ia em pé, mesmo com muitos lugares vagos, porque estava nervosa. Ansiosa por chegar a casa. Queria ver o filho. Queria saber se estava bem.
Ia em pé, agarrada ao varão perto da porta de saída do autocarro. Contrariava as curvas da estrada com posições do corpo. Voltou a telefonar. Ninguém atendia.
O autocarro parou na sua paragem. Ela saiu. Ela saiu a correr e foi a correr, o correr possível que o seu corpo cansado e já muito gasto pelas amarguras da vida lhe permitia. Cruzou a estrada depressa. Sem olhar. O seu foco era a casa. Subiu a rua. Subiu a rua até ao cimo. Depois virou à direita e entrou dentro do bairro. E depois foi andando em passo rápido, rua-a-rua, lá no interior do bairro. Ruas pequenas e estreitas. Casas baixas como se quisessem passar despercebidas aos olhos da lei, da ordem e das finanças. Saltou por cima de uns esgotos que corriam a céu aberto. Sim, ainda havia disso ali, naquele bairro. Naquele bairro de emigrantes. Naquele bairro de onde vinham os braços para limpar as casas douradas da cidade. Da capital. Uma capital de luxo ancorada nos braços da precariedade.
Chegou a casa. Enfiou a chave na fechadura. Abriu a porta. Correu para o cubículo que era o quarto do filho. A cama estava vazia. Ela levou a mão à boca para sufocar um grito de desespero. Os olhos largaram lágrimas que corriam desalmadas sem pedir licença. E então ela ouviu Mãe?! O que é que estás aqui a fazer?
Ela virou-se para trás e viu, sentado à mesa, à entrada de casa, a tomar o pequeno-almoço na forma de uma tigela com cereais e leite, o seu filho. O filho que era dela. Só dela. Ela largou o saco de cartão com a bata para lavar e a carteira no chão e lançou-se sobre ele estendendo-lhe os braços como tentáculos sobre ele e sufocando-o no seu amor de mãe-pai que julgava que o seu mundo tinha desabado mas afinal não. Afinal ele estava ali. Estava sentado à mesa a tomar o pequeno-almoço antes de sair para a escola. Camisa branca. Calças de ganga limpinhas. A mochila arrumada com tudo o necessário.
Mãe?!… Sai… Deixa-me acabar de comer para ir embora, disse o filho. E ela sorriu. Limpou as lágrimas às costas da mão a sorrir. E retirou suavemente as mãos-tenaz de cima do filho. E disse-lhe Desculpa. Desculpa não ter vindo ontem à noite. Eu logo explico. Agora vou tomar um banho rápido que estou atrasada.
Ela deu-lhe um beijo na face. Entrou naquele pequeno polibã e deixou que a água fria lhe lavasse o medo. Foi uma lavagem rápida que estava atrasada. Mais passar o corpo por água. Vestiu uma roupa limpa. Meteu uma bata lavada no saco de cartão e deixou a suja numa bacia. Despachou-se mais depressa que o filho. Ela era aquilo. Rápida. Decidida. Não perdia tempo com preâmbulos. Ela conhecia as exigências da vida. Deu um beijo rápido na face do filho e saiu de casa a correr. Aquele correr dela, que era um andar assim mais depressa. Até porque os anos e o cansaço não a deixavam ser mais rápida. Ainda ouviu um Até logo, mãe! Adoro-te que o filho lhe gritou. Sorriu. Ruborizou. E continuou a sua caminhada, agora em sentido inverso, pelas mesmas ruas pequenas e estreitas do bairro de emigrantes.
Saiu do bairro. Virou à esquerda. Desceu a rua embalada que para baixo todos os santos ajudam.
O autocarro que queria apanhar estava a chegar à paragem.
Ela viu-o. Viu-o e decidiu que tinha de o apanhar. Estava já atrasada.
Ela pôs o pé na estrada para a atravessar, para a atravessar a correr para não deixar fugir o autocarro, pôs o pé na estrada, sem olhar para um lado, nem para o outro, a correr, naquela sua correria que era mais um andar depressa, o mais depressa que os anos e o cansaço lhe permitiam e foi então que apareceu um táxi, que não a viu, e lhe bateu, a ela que não o viu, e a levantou pelo capot acima até ao pára-brisas que rachou com o impacto e a projectou uns metros à frente, mandando-a de rojo pelo chão de asfalto, até ela parar, quieta, silenciosa, com o corpo dobrado em dobras impossíveis, no chão sujo e triste.
O táxi parou. O taxista saiu do carro e levou as mãos à cara. Os autocarros pararam. O autocarro dela não arrancou. As pessoas começaram a aproximar-se do corpo inanimado.
Ao fundo, o filho dela cruzou a estrada, olhou para aquela confusão mas seguiu em frente. Ia para a escola. Tinha de ir para a escola. Era a única coisa que a mãe lhe exigia. Que fosse para a escola. Que estudasse. Que fosse alguém na vida. Alguém que ela nunca tinha sido.

[escrito directamente no facebook em 2018/10/16]