O Hotel

Não o conhecia de lado nenhum. Mas, aparentemente, o homem conhecia-me. Pelo menos conhecia as coisas que eu escrevo. E tanto conhecia que me convidou para passar uma semana no seu hotel, à conta da minha escrita, para depois, ou durante a estadia, escrever uma pequena estória que lá se passasse.
Ele era dono de um hotel à beira-mar. Um bom hotel, diga-se. Hotel sobre o Atlântico, zona centro, a subir para norte. Mar agitado, portanto. O convite era para uma semana, dormida, comida, bebida, mini-bar cheio e utilização de todos os espaços do hotel (que ainda tem piscina, ginásio e SPA) à borla e, no fim, só tinha de escrever uma pequena estória localizada no hotel. Nem pensei muito. Claro que aceitei.
Mudei-me logo no dia seguinte ao convite. Um quarto grande, espaçoso. Num dos últimos andares. Uma vista deslumbrante sobre o mar. A casa-de-banho, enorme, com banheira de hidromassagem, chinelos e roupão de turco.
Os primeiros dois dias deixei-os ir ao sabor da maré, a apreciar os luxos que me tinham destinado. Refeições à la carte como se fossem buffet livre. Massagens com final feliz. Cocktails de todas as cores do arco-íris. Braçadas na piscina. Corridas na passadeira.
Experimentei de tudo o que havia para experimentar.
Observei os clientes. Os homens. As mulheres. Os filhos de algumas destas pessoas. Alguns solitários. Dois casais homossexuais. Quase todos com bastante dinheiro. Alguns, aparentemente, bastante felizes. Gente sem dramas. E, ao contrário do que estava à espera, não descortinava por ali nenhuma estória suculenta. Nem um caso de amantes a arrastar a sua traição palas salas do SPA. Nem uma filha adolescente, rebelde, ávida de atrair o desejo sexual dos velhotes agarrados à bengala mas de mente perversa. Ninguém fugido e procurado pela Interpol. Nenhum mercenário em semana de descanso. Nem um único caso de utilização de drogas pesadas ou de excesso de álcool.
Nada.
Ainda me tentei aproximar do grupo de trabalhadores para tentar vislumbrar algo pérfido. Queixas. Lutas. Mas nada.
Aquele hotel era a coisa mais tranquila do mundo, cheio de clientes calmos e empregados satisfeitos com o seu trabalho e os seus honorários.
Se estava contente pelo convite para usufruto do hotel por uma semana e pelo convite para a escrita de uma estória, por outro lado sentia-me desiludido pela vida demasiado tranquila que observava e pela minha incapacidade de sugar, dali, alguma coisa de útil.
Ao quinto dia de estadia decidi ter de tomar algumas providências. Algo teria de acontecer. Algo de estranho e bizarro teria de acontecer naquele hotel para que eu pudesse executar a segunda parte do acordo: escrever uma estória.
No dia seguinte, uma das camareiras, de origem brasileira, foi encontrada morta na sala de conferências do hotel. Estava sem roupa, tombada no chão, mesmo em frente ao quadro do Power Point. Tinha uma faca espetada na barriga, uma morte horrível, mas não havia sangue na sala. Nem a roupa da camareira. Fora morta noutro lado e levada para ali.
A minha estadia foi prolongada.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/18]

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A Elipse de Richard Serra

Estou ali parado a olhar para o cão de Jeff Koons. Um enorme West Highland Terrier, florido e cheio de cor.
Devia estar com medo, mas não estou.
Acho que não me vai morder. Tem um ar doce. Doce, cheiroso e brincalhão. Puppy!, digo, alto. Puppy!, chamo-o. Puppy! Mas o Puppy não me liga nenhuma. Continua lá no seu poiso, a olhar Bilbao como se fosse o seu quintal, sem me passar cartão.
Ignora-me.
Ignoro-o.
Desço as escadas e entro dentro da casota de Puppy.
Ainda me viro para trás. Ninguém me segue. Estou incógnito. Isolado. Só.
Encontro a Elipse e sou sugado para o seu maelstrom. Desato a correr. Corro, corro, corro ao longo das suas curvas elípticas. Corro à procura do seu deus. Richard Serra é a santíssima trindade da Elipse. É o pai, o filho e o espírito santo da sua criação.
E continuo a correr. E não páro. Não tenho fim. Não há fim. Não consigo chegar ao seu fim. As curvas sucedem-se umas às outras num eterno devir.
Olho para a parede que me serve de baliza, que me marca o caminho, que me afunila a a existência e vejo uma linha, uma linha que é uma escrita, uma frase, uma texto, uma ideia, uma ordem. É uma bíblia. São aforismos de Yoko Ono, mas não os consigo ler. Estou em movimento perpétuo, não trago os óculos comigo e já não consigo fazer parar as letras que disparam perante a minha vã tentativa de as bloquear. Fogem perante mim como piolhos.
Continuo ali preso, na Elipse de Richard Serra, a correr, a correr e não consigo parar.
Para onde vou?
Bilbao? Adopta-me!

[escrito directamente no facebook em 2018/07/11]