Às Vezes Falo Comigo em Voz Alta para Ouvir uma Voz e Escutar uma Conversa

Às vezes penso que não devia ter feito o que fiz.
Às vezes penso que as decisões que tomei talvez não tenham sido as mais acertadas. Foram correctas. Mas impulsivas. Talvez não tenham sido as mais acertadas.
Às vezes sinto-me enlouquecer no meio de todo este silêncio. Estou na cozinha. Olho a rua através dos vidros duplos e não ouço nada da vida que corre lá fora. Acendo um cigarro, o meu último cigarro, para ouvir o raspar da roda-lixa na pedra do isqueiro e a chama acender, flush, entre as grades de alumínio que me protegem do pavio que se incendeia. Aproximo o cigarro e ouço o tabaco queimar na chama do isqueiro. Puxo o fumo e sinto-o a invadir-me os pulmões. E a bronquite? Que se lixe a bronquite. Gosto de sentir o fumo dos cigarros a entrar rápido por mim dentro. Abro a janela para que o fumo fuja para a rua e levo um estalo do barulho exterior que entra quando o fumo sai.
É isto que estou a perder?
Às vezes sinto forte, no fundo do estômago, esta solidão a que me votei.
Às vezes gostava de abrir a porta da rua e voltar ao convívio de quem abandonei. Coloco a mão transpirada sobre a maçaneta da porta e é tão pesada, tão forte, que não consigo abrir a porta.
Às vezes esqueço-me. Depois lembro-me.
Agarro no Ventilan. Dou duas bombadas. Acabo o cigarro. Mando a beata pela janela para irritar a vizinha de baixo. Fecho a janela. Regressa o silêncio ensurdecedor.
Sei que tenho de ir à rua. Não tenho aqui nada para comer. Podia mandar vir uma pizza. Mas decido sair. Compro uma pizza e cigarros. E uma garrafa de vinho tinto.
Falo comigo. Falo alto comigo para não me sentir tão só. E vou sublinhando os meus passos em jeito de conversa de amigos.
Saio da cozinha. Cruzo o corredor. Agarro na carteira. Nos óculos escuros. Tiro a chave da fechadura e saio. Olho para a porta do elevador. Escolho as escadas. Vou descendo as escadas. Chego à rua. Caminho ao longo do passeio. Junto à estrada. O barulho dos carros abafa-me um pouco a voz. Já quase não me ouço. Alô! Alô! Sou eu. Ainda aqui estou. Chego à pizzaria. Escolho uma Siciliana. Uma Siciliana, se faz favor. Demora vinte minutos. Pago. Recebo troco. Conto as moedas. Vou ao quiosque. Peço um maço de cigarros. Cigarros, se faz favor. Aqueles ali. Pago com dinheiro certo. Saio para a rua. Abro o maço. Acendo um cigarro. Encosto-me à montra do quiosque, em frente às notícias do dia. Marega. O que é o Marega? Fumo o cigarro. Largo a ponta incandescente no chão. Piso-a. Vou ao supermercado e compro uma garrafa de vinho. Escolho uma garrafa barata. Regresso à pizzaria. Está pronta. Regresso a casa pelo mesmo caminho mas agora com uma caixa achatada e quente nas mãos e uma garrafa de vinho debaixo do braço. Entro no prédio. Olho para o elevador. Opto pelas escadas. Subo. Chego ao meu andar. Estou cansado. Preciso de outra bombada de Ventilan. Ou de mais um cigarro. Entro em casa. Coloco a chave na fechadura da porta. Largo os óculos e a carteira no aparador à entrada. Cruzo o corredor. Entro na cozinha. Largo a caixa achatada e a garrafa de vinho na mesa. Abro a gaveta. Tiro o saca-rolhas. O cortador de pizzas. Tiro um copo do armário. Um copo de vidro. Abro a garrafa. Deito vinho no copo. Bebo um gole. Abro a caixa achatada. Corto a pizza em triângulos. Sento-me à mesa. Pego numa fatia triangular de pizza. E calo-me.
Finalmente calado, frente a um copo de vinho e uma pizza, volto a pensar na minha vida e nas opções que tenho tomado.
Às vezes penso que gostava de não ter de falar comigo para poder ouvir uma voz.
A pizza está boa. O vinho aquece.
Tento projectar o que virá depois da pizza. Vou ler um livro? Talvez o Berta Isla do Javier Marías que anda para aí ao deus-dará à espera de ser lido. Talvez um bocado de televisão. Passar pela CMTV. Ouvir uns berros. Gosto de ver gente irritada e aos berros na televisão. Às vezes gosto de me irritar. De me irritar um pouco. Lembrar-me porquê.
Vou guardar o resto da pizza para amanhã. O vinho não vai resistir até lá.
Às vezes penso que só queria ouvir dizer o meu nome em voz alta e que não fosse dito por mim.
Às vezes penso que só queria poder tocar, levemente, numa mão que não fosse a minha.
Às vezes penso que, para desenfastiar, eu não devia ser eu.
Às vezes penso que devia livrar-me de mim.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/17]

Sinto-me Vazio

Estamos sentados em frente um do outro. Ela no sofá. Eu numa cadeira da mesa virada para ela. Eu estou a falar mas não me ouço. Na verdade já nem sei o que estou a dizer. Estou surdo. Ela parece não compreender nada do que eu digo.
O que é que estás a dizer? pareço ver perguntado na testa enrugada dela.
E depois ela responde. Está zangada. Percebo que está zangada mas não consigo ouvir o que diz. Estou surdo. Mas sinto-me atacado. Se calhar imagino, mas não tenho tempo nem paciência para pensar nisso e estico o braço sobre a mesa e mando a fruteira ao chão e vejo as pêras e as maçãs a saírem disparadas para o chão e rebolarem para debaixo dos móveis. A banana, já escura, fica pesada e solitária em cima da mesa. Há mosquitos à volta da banana.
Agarro a t-shirt com as mãos e sinto-a destruir-se pela fúria. Rasgo-me. E grito Merda, pá!
Levanto-me da cadeira e ouço-a cair com força no chão. Ela pára de falar. Está a chorar mas eu não quero saber. Sinto-me farto. Farto e cansado. Viro-lhe as costas e saio de casa. Bato a porta da rua com força. E é quando já vou a descer as escadas do prédio que penso que não queria ter saído assim de casa, não queria ter batido com a porta da rua, não queria ter rasgado a t-shirt nem mandado a fruta ao chão, não queria ter gritado com ela…
À medida que vou descendo as escadas do prédio vou sentindo-me mais vazio. Cada vez mais vazio. E com falta de ar.
A meio da descida as luzes apagam-se e fico às escuras. Mas continuo a descer, agarrado ao corrimão, sem me lembrar que posso acender a luz das escadas num qualquer interruptor com led de aviso vermelho que vou vendo a tremeluzir enquanto desço as escadas até chegar à rua.
Ar. Respiro.
Encosto-me à parede do prédio. Recupero a respiração. Acendo um cigarro. Vejo a t-shirt rasgada. Penso que não posso andar assim na rua.
Corro até ao carro. Abro a porta. Entro. Acabo o cigarro dentro do carro. Esqueço de abrir o vidro e encho o carro de fumo. Pareço estar numa boîte pré-lei anti-fumo em locais fechados.
Abro o vidro. Começa a doer-me um dente. Ultimamente tem-me doído este dente aqui atrás, em baixo, que está partido. Está partido há anos e nunca me doeu. Começou agora a chatear-me. Foda-se! Tudo para me chatear.
Bato no volante. Com força. Magoo-me. Mas esqueço o dente.
Apetecia-me voltar atrás. Pedir desculpa. Dizer que não queria nada daquilo. Não queria ter mandado a fruteira ao chão nem rasgado a t-shirt nem ter gritado. Mas já tudo aconteceu e não pode não ter acontecido. Olho para fora. Vejo tudo embaciado. Devo estar a chorar. Nem me apercebi.
Saio do carro. Entro no snack-bar em frente. Sento-me ao balcão. Peço um bagaço. Despejo-o. Peço outro. E despejo-o. Um terceiro. E volto a despejá-lo de um golo. Sinto-me maldisposto. Vomito em cima do balcão. Alguém pega em mim e manda-me para fora do snack-bar. Tento ir até ao carro mas não consigo. Não sei onde está. Sinto-me cambalear e caio. Bato com os queixos no chão. Acho que parti qualquer coisa. Senti qualquer coisa a partir. Está tudo escuro. Sinto-me triste. Dói-me tudo. Mas respiro. Acho que ainda respiro. Sim, ainda respiro.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/24]

Uma Vida a Fugir a Sete Pés

Lembro-me.
Fugi a sete pés.
O meu pai tinha-me largado nas mãos da freira e ido embora. Eu, a chorar baba-e-ranho, desesperado pelo abandono, deixado abandonada nas mãos de uma freira desconhecida, desatei aos pontapés à freira, que imediatamente me largou, e corri desalmado atrás do meu pai. Passei o portão do colégio e tentei entrar para o banco de trás do carro. Mas os carros não eram como são hoje. O meu pai já tinha aberto a porta dele, mas não havia sistema centralizado para abrir e fechar as portas dos carros. Cada porta um mundo. Corri para a porta dele a chorar. Não conseguia falar. Só um choro sofrido. A minha vida estava a acabar. Sentia-o. Os meus pais estavam a abandonar-me. Ali. Num sítio desconhecido. Mas eu não estava pelos ajustes. A mim, não! A mim ninguém me abandonava. Implorei. E o meu pai deixou-me entrar no carro. Para o banco de trás do carro.

Lembro-me.
Fugi a sete pés.
Vi a cara sorridente da enfermeira demasiado próxima da minha. Senti-lhe o cheiro. O odor ácido. Os dentes escurecidos. A seringa na mão. A agulha preparada para me picar. A minha mãe a agarrar-me. O meu braço despido. A enfermeira a sorrir e a garantir que não ia doer nada. Mas eu não quis saber. Dei um pontapé na mão da enfermeira e vi a seringa a voar, cair e espetar-se no chão. Partiu-se. Saltei da cadeira. Fugi das mãos da minha mãe. Fugi da enfermeira. Fugi da seringa, da sala, daquele terror. Desci as escadas a correr e na rua cruzei-me com o meu pai que fumava um cigarro. E queixei-me. Queixei-me da minha mãe. Queixei-me da enfermeira. Queixei-me das pessoas que eram más e me queriam fazer mal. E o meu pai deitou o cigarro fora. Pegou-me por um braço e levou-me de volta à sala. À cadeira. Às mãos da minha mãe. Ao sorriso da enfermeira. À seringa de agulha apontada ao meu braço. Desejosa da minha veia.

Lembro-me.
Fugi a sete pés.
Estava sentado no sofá, de Sagres na mão, à espera de ver a final da Liga das Nações entre Portugal e a Holanda, quando ouvi bater a porta da rua. Senti alguém entrar. Ouvi passos a dirigirem-se para a cozinha. Percebi sacos de plástico a serem mexidos. Portas e gavetas a abrir e fechar. Alguém arrumava coisas. Ouvi a porta do frigorífico. Garrafas a bater. Água a sair pela torneira do lava-loiça. Um pano a ser sacudido. E depois, alguém, lá de dentro, disse Temos de conversar!
Estremeci. Senti um calafrio pelas costas. Bebi o resto da Sagres de um gole. Despejei a garrafa. Peguei no maço de cigarros e saí de casa em silêncio. Desci as escadas a correr. Cheguei à rua e recuperei o fôlego. Cruzei a rua e entrei no café em frente. Estava mesmo a começar o jogo. Só era pena ter que vir à rua para fumar.

E se Fui Eu?

Acordei numa cama que não era a minha.
Não sei como é que vim aqui parar. Não me lembro da noite de ontem. A memória mais recente leva-me ao balcão do restaurante onde jantei uma omeleta de queijo. Acho que bebi um copo de vinho. E depois, está tudo em branco.
Até hoje de manhã.
Acordei numa cama que não era a minha. Estava sozinho, mas a cama estava remexida. Não estive aqui sozinho. Levantei-me. Fui à casa-de-banho urinar, lavar as mãos, a cara e os dentes. Não encontrei escova nova e usei o dedo.
Depois voltei ao quarto. Vesti os boxers e fui à aventura, descobrir onde estava. E com quem.
Desci umas escadas. Encontrei a cozinha. Fiz café. Duas torradas. Enquanto esperava, fui olhando lá para fora pela janela, para um pequeno quintal nas traseiras. Tinha três árvores, um roseiral e uma mesa de madeira com várias cadeiras. Abri a porta da rua e fiquei ali, à entrada, a beber o café e a comer as torradas.
Sai da cozinha e aventurei-me pelo resto da casa. Quando cheguei à sala fiquei petrificado. À minha frente, caída no chão, uma mulher nova, nua, com as tripas fora do corpo e um mar de sangue à sua volta. Não me contive e vomitei ali mesmo, sobre o corpo morto. Perdi as forças. As pernas cederam e caí no chão. Voltei a vomitar.
Com dificuldade, consegui arrastar-me para fora da sala e fugir daquela visão.
Voltei à cozinha. Abri a torneira do lava-loiças e enfiei lá a boca. E lavei-a. Lavei as mãos. A cara. A cabeça.
Subi ao primeiro andar e peguei no telemóvel. Comecei a marcar o número das emergências. Mas parei. O que é que estou a fazer?, pensei.
Vesti-me rapidamente e saí da casa a correr.
Quando estava a sair pelo portão de entrada pensei que não valia a pena fugir. Eu estava por toda a casa. Nunca conseguiria não ter estado ali. O medo e o desespero transformaram-se em frustração. Um peso enorme tombou-me sobre os ombros, deixei-me cair e sentei-me no lancil do passeio frente ao portão de entrada. E se fui eu?, pensei. As minhas mão tremiam.
Peguei outra vez no telemóvel e, com alguma dificuldade, telefonei para as emergências.
Acendi um cigarro e fiquei ali sentado, a fumar e à espera da polícia. Fumei os cigarros todos que ainda tinha. E pus-me a rezar para que não tivesse sido eu. E foi com alguma admiração que descobri que ainda sabia rezar.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/16]