Chega a Noite e Fecho-me em Casa

O tempo salta ao pé coxinho. Num dia com chuva. No outro com sol. Agora já não sei. Escureceu. Aproxima-se a noite.
Fechei a casa. As janelas. As portas. Já não saio para o alpendre durante a noite. Tenho medo. Fecho-me em casa.
Há uma semana que ouço passos à volta da casa. O cão a ladrar. Os gatos desaparecem. Já saí várias vezes, à rua, na escuridão da noite, cheio de coragem, com uma moca de Rio Maior e a luz ténue do telemóvel. Não vejo ninguém. Mas sinto. Sinto uma presença.
Tenho medo.
Chega a noite e fecho-me em casa. Tranco as portas e as janelas. Verifico de cinco em cinco minutos se tenho rede wi-fi. Se tenho rede telefónica. Se estou em contacto com o mundo se precisar.
Sento-me no sofá. As pernas cruzadas debaixo do rabo. A televisão ligada, mas sem som. O ouvido atento ao exterior. A dar fé de tudo o que se passa lá fora.
Ouço os cães da vizinhança. Ao longe. Uns ladram à Lua. Outros aos foguetes. Ladram quando ouvem algo fora do normal. Do seu normal. Do meu normal. Ladram aos barulhos que se escondem no escuro.
Ouço o vento a deslizar pelas folhas das árvores. A chocalhar as persianas. Ouço o vento a assobiar canções que não são de embalar.
E eu sentado no sofá. Com as pernas cruzadas debaixo do rabo. Não posso adormecer. Estou atento. Alerta.
Ouço o ribeiro a correr lá ao fundo. Nas traseiras da casa. Não ouço sempre. Só às vezes. Em dias muito frios. Silenciosos. Agora não estou a ouvir. Acho que não chove. Também não faz calor. Mas ainda não percebi em que estação estamos. Demasiado frio para Verão. Demasiado quente para Inverno. Demasiado chuvoso para Outono. Demasiado melancólico para Primavera.
Em casa não há estações do ano. Estou de camisa. Sentado no sofá. Com as pernas cruzadas debaixo do rabo. Em silêncio. Não tenho frio. Nem calor. Estou bem. Com um pouco de medo, contudo. Atento aos ruídos do exterior. Algo se passa lá fora durante a noite.
Ouço o sino da igreja. Quantas badaladas? Uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete… Sete. Sete horas. Sete horas da tarde. Da noite. Já é de noite. Podia ser mais tarde. Parece mais tarde. Não ouço barulhos da vida. Da vida a acontecer. Ouço ruídos. Alguns ruídos. Ruídos na escuridão.
Ouço a minha respiração. Estou ofegante. Chio. A minha bronquite é ruidosa. Acendo um cigarro. Cago na minha bronquite. Fumo. Fumo um cigarro. Invado os pulmões. E acalma-me a respiração.
Ouço um helicóptero. As hélices de um helicóptero a girar. O que é que se passa? Não é normal os helicópteros voarem à noite. O helicóptero aproxima-se. Parece estar aqui mesmo em cima. O barulho cresce. É ensurdecedor. Tapo os ouvidos com as mãos. Mas o som do helicóptero fura tudo. As mãos. Os ouvidos. A cabeça. Está em cima de mim. Dentro da minha cabeça. Viro a cara para a porta da rua e vejo a maçaneta a girar. Como as hélices do helicóptero. Flap, flap, flap…
Está alguém à porta. Não ouço nada. Só as pás do helicóptero. E agora o The End dos Doors. Porra. Isto não é o Apocalypse Now!
Alguém está mesmo lá fora. Não consigo ouvir nada. Só barulho. Está lá gente. Ali. Na porta. Tenho de me esconder. Levo a moca de Rio Maior comigo. Largo o cigarro no chão da sala. Em cima do tapete da sala. Fujo. Escondo-me. Escondo-me no escuro.
Tenho medo.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/25]

E Então, Vindo Lá do Fundo, Comecei a Ouvir os Felt

Estava ali assim, parado, de luvas nas mãos, com o carrinho de mão à minha frente, debaixo do alpendre da arrecadação, a ver a chuva a cair. E que chuva! Uma chuvada! Uma chuvada que vinha na companhia de grossas bolas de granizo.
Tinha uma pilha de lenha cortada, descarregada na eira, e preparava-me para ir arrecadá-la para o Inverno, quando aquela chuvada, não programada, resolveu aparecer.
Senti-me perder as forças. Os braços tombaram e deixaram cair o carrinho de mão. Senti-me frustrado. E depois fiquei ali, assim, a ver a chuva a cair e a pensar quantos dias seriam necessários para a lenha secar.
Acendi um cigarro. Sentei-me na borda do carrinho. Não poderia fazer nada naquela altura. Nem no dia seguinte.
Deixei-me ficar sentado a ver a chuva a cair.
Estava chateado, mas ao mesmo tempo fascinado com a queda de água e das pedras de granizo. Enormes. Pareciam bolas de golfe. O barulho que faziam na placa de zinco por cima do poço era ensurdecedor.
Acabei de fumar o cigarro.
Parou de chover.
Comecei a ouvir uma música.
Uma música que vinha do interior de casa. Felt. Eram os Felt. Ela tinha descoberto os meus vinis de Felt e pô-los a tocar. Há muitos anos que não ouvia a banda do senhor Lawrence. Ainda me lembrava do concerto em Lisboa. Aula Magna. Apaixonadamente. Era assim que estava no cartaz. Apaixonadamente. Apaixonadamente Felt. Era estranho ouvir assim aquela música tão urbana naquele contexto tão rural. Mas encaixava bem. Soava-me bem.
Levantei-me e acendi outro cigarro.
A chuva tinha parado. O sol começava a rasgar o céu. O calor apertava.
Comecei a ver os coelhos selvagens a invadir o terreno em frente.
Sorri.
Ouvir os Felt tinha-me deixado com boa-disposição.
Fui a casa buscar a máquina fotográfica e abalei para o terreno em frente, um terreno pouco tratado e um bocado selvagem, para tirar fotografias.
Deitei-me atrás de uma árvore e esperei. Quieto. Em silêncio. E os coelhos começaram a chegar. Clic. Clic. Um melro. Clic. Ao fundo vi um coelho um pouco maior. Talvez uma lebre. Clic. Clic. Mais ao fundo ainda, um veado. Não sabia que se aventuravam assim tão longe. Para tão próximo das casas. Clic. Clic. Clic.
Os Felt ainda me chegavam de casa, muito suaves, muito lá ao fundo, mas conseguia percebê-los. Como percebi a águia a voar lá em cima. Por cima de mim. Clic. Clic.
Virei-me para o lado e parei. Uma raposa. Uma raposa a beber água da chuva numa pequena poça que se formara ali. Clic. Clic.
Sorri.
Estava um dia fabuloso.
Ao fundo continuava a ouvir os Felt.
O que seria feito do Lawrence?

[escrito directamente no facebook em 2018/09/09]

Os Homens Compram a Cerveja, as Mulheres o Resto

Eles passam invariavelmente sozinhos.
Vem agora ali um. Traz uma caixa de 15 garrafas de Sagres Mini. Lá atrás vem outro. Traz uma caixa mais pesada. Deve ter 25 garrafas de Sagres Média. São caixas de cartão. Já não há grades de plástico.
Agora vem uma mulher. O que é que ela…? Ah, um volume de 10 embalagens de leite. E mais uns pacotes de arroz no regaço. Vem carregada. E vem lá outra. Outra mulher. Esta vem com frescos. Tem vários saquinhos de plástico transparentes. 2 curgetes. 3 pepinos. Acho. São parecidos. Mas deve ser isso. Mais umas cenouras. Não consigo perceber quantas. 3 tomates. 1 caixa de tomate cherry. Mais uns brócolos. Também não consigo perceber quantos. São um monte. Um volume considerável. Tenta abri o porta-bagagens de um Renault Clio. Porra. Deixou cair as cenouras. Já apanhou.
Agora vem ali um tipo com 2 garrafas de vinho. Uma em cada mão.
Um casal. Ele traz uma embalagem de cerveja. É artesanal. Não consigo perceber a marca. Ela traz fruta e umas embalagens de arroz e esparguete.
Estou aqui no parque de estacionamento do Lidl, aqui no final da Avenida 25 de Abril, em Leiria, e reparo que os homens vêm ao Lidl para comprar cerveja. Vá lá, às vezes também compram vinho. Tinto.
As mulheres diversificam mais as suas compras. Leite, verduras, frescos, sumos, massas. Fruta. Detergentes. Sim, ali vem uma com uns garrafões grandes de detergentes. É o quê? Amaciador de roupa, detergente de louça, champô.
As mulheres vêm ao Lidl comprar coisas para a casa. Para elas. Para eles. Para os filhos. Produtos de alimentação. De higiene. Produtos de limpeza.
Os homens vêm comprar cerveja. Às vezes vinho. Muito esporadicamente uns amendoins com casca ou uma embalagem de tremoços.
Eu não.
Eu estou aqui à espera dela.
Estou aqui parado a ver as caixas. Ver as caixas através da vitrine grande. As filas nas caixas. As pessoas a pagarem pelos produtos que compram.
Vem ali mais uma. Aquela traz uma data de embalagens, não-sei-de-quê, nos braços. Olha, olha, deixou cair tudo. E vem ali um carro. Cabrão. O gajo desviou-se para não parar e não ajudou a senhora. Filho da puta. Vou lá eu ajudar… Não, não vale a pena. Ela já está ali na caixa. Estou a vê-la ali na caixa. Está a comprar, o quê? queijos, manteiga, um pão de Rio Maior, vinho tinto, não consigo ver de onde… Também traz uns frescos. Distingo uns brócolos. Umas beringelas. Uma embalagem de cerveja. Uma embalagem de 6 Super Bock Médias. Foda-se! Queijos e vinho? É uma festa?
É agora. Foda-se é agora.
Ligo o carro.
Tenho carro travado e faço aceleração.
O barulho do meu carro ecoa pelo parque de estacionamento do Lidl. Os pneus pintam o asfalto de preto.
Destravo-o.
Vou a direito. Rasgo o parque. Sempre em frente. Passo por uma mulher que carrega um saco grande do Continente e que se assusta com a minha passagem acelerada. Aproximo-me da grande vitrine. Lá dentro ainda ninguém me viu. Estou quase quase lá.
Ela olha para fora. Vê o carro. Vê-me ao volante do carro. Abre a boca de espanto. O carro bate contra o vidro da grande montra. Galga para o interior do Lidl. Sinto os vidros a caírem em cima do carro. Do capô. Do tejadilho. O som do vidro a quebrar é ensurdecedor e ainda ecoa quando o carro entra por ali dentro e rebenta com a caixa e leva à frente a empregada da caixa e ela, ela vai de arrasto, ela e outras como ela que estão na fila. Uns homens conseguem saltar para os lados e fugir. E eu vejo tudo em câmara lenta. Vejo o carro a entrar pelo Lidl dentro e levá-la a ela, a ela e a toda a gente que lá está, menos os homens que se puseram ao fresco, levá-los a todos à frente do carro, enquanto os vidros da montra continuam a cair sobre o carro, a fazer um barulho ensurdecedor e então tudo fica branco, o carro parece parado no vazio, eu olho, olho e não vejo nada, nada nem ninguém, só ouço o barulho dos estilhaços dos vidros a caírem sobre o carro e começo a sentir as dores como se eu fosse o carro, e fosse sobre mim que tudo cai e o meu corpo começa a sangrar, abrem-se buracos, rasgos, feridas nos meus braços, nas minhas pernas, na cabeça, no peito, e é só sangue e já não vejo ninguém e não sei o que é feito do Lidl nem dela nem dos outros todos nem de mim…
Silêncio…
E depois… Depois começo a ouvir o Nessum Dorma. Pavarotti. Que porra…?

[escrito directamente no facebook em 2018/07/05]

O Peixe ao Sal

Era Domingo e deixei-me ficar na cama até mais tarde. Deixaram-me. Afinal, não estava em minha casa.
Pouco barulho. Nada de telemóveis, televisões, música alta, nada.
Descansei.
Até que fui acordado com um barulho ensurdecedor. Um barulho monocórdico. Monótono. Repetitivo. Alto. Era um bum, bum, bum, ritmado. Parecia que a casa vinha abaixo.
Levantei-me ensonado, mas rápido, nu, e fui pela casa à procura de tal barulho infernal.
Cheguei até à cozinha.
Ela estava de volta da máquina de lavar-roupa que não parava de repetir os barulhos. A máquina parecia possessa e batia contra a parede. Ela estava a mexer em todos os botões, mas nenhum resultava. Percebi que estava a ficar assustada. Quando lhe toquei, por trás, para a afastar da frente e tratar do assunto, ela deu um salto, como se não se lembrasse que eu estava ali. Ou então foi só apanhada de surpresa no meio da sua concentração para desligar a máquina. Também pode ter sido por eu aparecer ali assim, nu, mandão, feito herói.
Chegou-se para o lado e eu deitei a mão à ficha e puxei-a da tomada. A máquina parou de trabalhar. O barulho cessou. O silêncio invadiu a casa. Olhámos um para o outro. Ela disse Não sei que raio aconteceu. E eu disse Não percebo nada de máquinas para além de desligá-las. Tens de mandar vir alguém para a arranjar.
Vi a desilusão momentânea na cara dela. Depois disse-me Vai tomar banho que o almoço está quase pronto. E eu fui. Ainda me virei para trás, antes de sair da cozinha, e vi-a a abrir a máquina para tirar a roupa lá de dentro e a água que ainda lá estava sair para fora da máquina e invadir a cozinha. Deixei sair um Foda-se! baixinho, mas voltei atrás e ajudei-a a apanhar a água com uma esfregona, enquanto ela tirava a roupa da máquina, a espremia para uma bacia e a pendurava no estendal da janela da cozinha. E fui tomar banho.
Quando voltei, de banho tomado, a mesa estava posta. Ela tinha feito um peixe ao sal no forno. Tinha aberto uma garrafa de vinho branco. A roupa já estava toda estendida e ela tinha posto um vestido.
Eu peguei na garrafa, verti o vinho nos dois copos e fui oferecer-lhe um. Demos um pequeno toque com os copos, um no outro, e dissemos ambos Tchim-tchim. E bebemos um pequeno gole.
E depois ela disse Vamos com calma. É para irmos com calma.
Eu fiz um pequeno e quase imperceptível sorriso e acenei com a cabeça a concordar.
Sentámo-nos à mesa e ela serviu-nos o peixe. Havia lá em cima da mesa uma salada de tomate para acompanhar.
O peixe estava muito bom. Aquele fora um bom almoço. Nós fomos com calma. Com muita calma. Mas as coisas não deram em nada. Acabámos por nos chatear, como nos tínhamos chateado de todas as outras vezes.
Mas não consigo esquecer aquele peixe ao sal. Estava mesmo muito bom.

[escrito directamente no facebook em 2018/04/29]

Senti-a Deslizar por Mim Abaixo

Íamos abraçados. Eu e ela. Íamos abraçados a atravessar a praça. Ela estava a dar-me um beijo no pescoço, eu sorria, quando ouvi um silvo.
E depois o silêncio. Um silêncio ensurdecedor.
O corpo dela deu um esticão. Bateu no meu. Senti-a tremer. Mais que tremer, abanar, como se fosse uma folha de papel num turbilhão de vento.
O tempo abrandou. Quase que parou. Eu virei a cara para ela e vi-a cair para o chão. Ela deslizava suave, mas pesadamente, ao longo do meu corpo, para o chão.
Eu vi cada milímetro dessa queda. Eu vivi inúmeras vidas enquanto assisti a essa queda.
Eu vi-a escondida, atrás do sofá, a jogar às escondidas em minha casa. Eu vi-a a pular do prédio em obras para um monte de areia, só para fazer o mesmo que eu. Eu vi-a a gritar por mim enquanto eu marcava um golo num jogo de andebol. Eu vi-a, molhada, a sair do mar em São Pedro de Moel. Eu senti-a colada a mim, a dançar uma música xaroposa na Hot Rio, na Rio Mar, na Locopinha, na Stress Less, na Green Hill, na Princess, na Sunset, no Alibi…
E ela ainda não tinha chegado a meio da queda. A minha vida estava toda concentrada ali, naquele nano-segundo enquanto ela caía, deslizava ao longo do meu corpo, e o meu braço não a conseguia amparar. Ainda a vi no hospital, de criança nos braços, a conduzir um carrinho-de-bebé, a conduzir uma carrinha cheia de tralha infantil, na praia a brincar com um cão, de mãos dadas comigo, de braço dado comigo, a beijar-me, a acariciar-me, a sussurrar o meu nome e, finalmente, a bater com o corpo em peso na calçada da praça.
À sua volta começou a formar-se uma poça vermelha. No início não percebi bem o que tinha acontecido. Tropeçara, escorregara, desmaiara. Fugira de mim, do meu abraço. Entrara num buraco de minhoca e fugira para o passado, para uma daquelas discotecas onde dançámos músicas melosas, colados um ao outro, como se fossemos um só.
Mas não. Não fugira. Fora arrancada de mim. E caíra num buraco negro para além da minha compreensão.
Estava tombada no chão rodeada de uma poça de sangue.
À minha volta juntara-se gente. Apontavam os telemóveis e tiravam fotografias. Chamaram os paramédicos. A polícia. Trouxeram um copo de água. Dois. Uma aguardente. Uma manta.
E chegou o barulho. Uma manta de retalhos sonora. A cidade acordara ali. Eu ouvia-me gritar. Ajoelhei-me e agarrei-a. Puxei-a para mim. Puxei-a para o meu colo. Gritei-lhe o nome. Abanei-a. Abanei-a com força. Não faças isso, gritaram-me. Dei-lhe dois estalos na cara. Acorda! Acorda, caralho! Estou aqui. Não te vás embora. Eu não te deixo ir. Olha para mim! Olha para mim, foda-se!
Agarraram-me. Afastaram-me dali. Afastaram-me dela. Os paramédicos debruçaram-se sobre ela. A polícia agarrou-me e afastou-me dali. Outros polícias tentaram afastar as pessoas.
Os telemóveis continuavam no ar. Filmavam. Fotografavam. Gravavam o som das vozes caóticas.
Eu abria e fechava a boca e não conseguia fazer-me ouvir. Queria um cigarro. Eu queria um cigarro. Eu só queria um cigarro e fechar os olhos. E não estar ali.

[escrito directamente no facebook em 2018/03/15]

O Carro que Dominava a Rotunda

Estou a ver a rotunda.
Estou a ver os carros às voltas na rotunda, lá em baixo. Estou sentado aqui em cima, no monte, e vejo a rotunda lá em baixo e os carros que entram e saem. Entram e colocam-se no seu interior, pela esquerda, e saem para fora, para a direita, no momento antes de sair da rotunda. No centro da rotunda uma árvore de Natal enorme, gigante, colorida, luminosa, a piscar como os carros, com os carros, numa solidariedade colorida, numa solidariedade luminosa, com muitos vermelhos, amarelos, laranjas, verdes, azuis, mas muitos vermelhos.
À volta há várias instalações alusivas ao Natal. Decorações a acompanhar as saídas da rotunda, como se abraçassem os carros que saem, com se dissessem adeus aos carros que partem da rotunda sabe-se lá para onde, como se dissesse olá aos carros que escolhem aquela saída, aquela e não outra.
No interior da rotunda há um carro que não pára de dar voltas e mais voltas no seu interior e ainda não saiu, ainda não escolheu a sua saída. E continua nas voltas e há sempre mais uma, e o interior é seu, já mais ninguém consegue entrar na faixa mais dentro da rotunda, a faixa da esquerda, a faixa mais pequena porque mais próxima do meio, que é toda dele, desse carro que não pára de continuar a circular no meio, até que começa a sair para a faixa da direita até ir para a faixa exterior, a maior faixa da rotunda, como se fosse sair, mas não sai, e começa a ameaçar os outros carros, os que querem sair, e os carros começam a apitar, e às luzes e às cores, junta-se-lhes a sinfonia de buzinas que apitam ao carro que circula mais à direita da rotunda e não sai, e o carro começa a bater noutros carros, no início parece que por acaso, ligeiros toques, talvez um engano, um erro, um desleixe, mas logo se percebe que o carro começa à procura dos outros e parece que está numa arena e é um touro à solta e vai enfiando os cornos em tudo o que encontra e os outros carros começam a ser abalroados, são empurrados para fora da rotunda, da estrada, uns de uma forma mais violenta que outros, há carros que capotam, que vão embater noutros, há já fumo, barulho de buzinas e chiar de pneus no asfalto e o som agudo de chapa na chapa, choques violentos, um carro explode, há fogo na rotunda, uns carros tentam fugir do outro e entram para o meio e chocam com a árvore de Natal gigante, e depois deitam-na abaixo e ela cai sobre outros carros, e há gente a fugir de carros tombados, a arder, espetados uns nos outros, há gente a correr rotunda fora e o primeiro carro acelera atrás das pessoas e atropela algumas e há gente a voar sobre chapa, sobre gente, sobre carros, há sangue, e gritos, e luzes e buzinas, e gritos, muitos gritos, há gente tombada debaixo de carros, debaixo de chapa, há pedaços de gente perdida em todo o lado da rotunda e o carro continua a acelerar no asfalto e continua a chocar com outros carros e a atropelar gente até que o carro choca pela última vez num emaranhado de carros espetados uns nos outros em cadeia e que começam a arder como numa grande fogueira de festa, de um Natal nocturno depois da Missa do Galo, e o homem sai do carro e desata a correr pela rotunda, quer sair, procura uma saída mas não consegue encontrá-la porque é atingido antes por um carro desgovernado que circulava cego entre o caos da rotunda…
Estou cá em cima, no alto do monte sobre a rotunda, mas já não estou sentado, estou em pé, assombrado com o que acabei de ver, e lá em baixo, na rotunda, o caos, de carros estampados, chapa perdida por todo o lado, corpos caídos, pedaços de corpos tombados, aqui e ali, corpos fechados dentro de carros fechados, encarcerados, a árvore de Natal gigante caída, e muitas luzes e cores à solta no interior da rotunda.
E, estranhamente, e por momentos, o silêncio. O silêncio completo.
E depois, retoma, ensurdecedor, o barulho do caos e da desordem. O barulho do Natal da morte.

[escrito directamente no facebook em 2017/12/08]