Dia Um de Setembro

Dia um de Setembro. Acabaram-se as férias. Os emigrantes regressam a França. À Suíça. Ao Luxemburgo. Os parques de campismo ganham clareiras. As unidades hoteleiras deixam de estar lotadas. Deixa de haver festas nas aldeias. Os Santos já foram todos homenageados. Os camiões TIR, que se transformam em palcos de luz e cor, voltam para as suas garagens à espera da rentrée, que não tardará. Deixo de ouvir os morteiros que me anunciavam as festas aqui à volta. Os pais pegam no dinheiro que esconderam nas férias, por causa das tentações, e avançam para a compra do material escolar dos filhos. A escola está aí ao virar da esquina. Alguns pais andam desesperados com o site Mega. Não funciona. Ou funciona mal. Aos bochechos. Os pais não conseguem os vouchers para adquirirem os livros gratuitos. As secretarias das escolas vão estar a meio-gás e não vão ter as informações necessárias. Haverá gente que irá parecer não ter ido de férias. Ou ainda não ter voltado. As cidades, amanhã, vão ter mais gente, mais carros, mais confusão.
Dia um de Setembro. Acabaram-se as férias. É altura de eu ir até à praia. Ter espaço para estender a toalha sem ter de deitar a cabeça nos pés do vizinho. Mergulhar na água do mar e não no chichi da velha. Poder dormir na areia e não ter de levar com o tijolo musical do jovem adolescente. Com a bola do atleta. Com a estória interminável da tagarela que não se cala, nem com o choro da criancinha que quer um gelado, uma Bola de Berlim, uma Bolacha Americana, ir ao mar ou, tão só, chatear toda a gente só porque sim.
Dia um de Setembro. Saio de casa de manhã. Levo chinelos nos pés. Calções de banho vestidos e outros para vestir mais tarde. Uma toalha. Um boné. Uma garrafa de água que deixei no congelador de véspera. Um Tupperware com uvas. Os óculos escuros que impedem os raios UV de me estragarem os olhos e uma vontade de mergulhar no Atlântico.
Dia um de Setembro. Cruzo-me com poucos carros na estrada. Pareço estar num filme pós-apocalíptico. Rodo sozinho. Fumo um cigarro enquanto faço o pinhal de Leiria que ainda não ardeu, a caminho da Nazaré. Deito a cinza no cinzeiro. Aproximo-me do primeiro carro que vejo desde que saí de casa. Vejo sair um pacote de batatas fritas pela janela do lado direito do carro. Apito. Ele responde com outra apitadela. Depois vejo um braço a sair pelo vidro esquerdo e fazer-me um pirete. Filho-da-puta!, penso.
Acelero. Ultrapasso o carro. Ponho-me ao lado dele. Olho para o homem que vai a conduzir através dos meus óculos escuros. São Ray-Ban. Não faço nenhum gesto. Só olho. O homem evita olhar para mim. Não estava à espera que eu me chegasse à frente. Guino o volante para a direita. O tipo assusta-se. Guina também para a direita e sai da estrada, entrando pelo pinhal de Leiria dentro. Eu continuo em frente, indiferente ao carro, ao tipo e a quem mandou o pacote de batatas-fritas janela fora.
Estou a chegar à Nazaré. No Calhau vejo uma quantidade enorme de cartazes a anunciar Quartos, Rooms, Zimmers, Habitaciones.
É bom sinal. Quer dizer que já toda a gente foi mesmo embora. Só espero que já não hajam Caravelas Portuguesas a impedir-me de ir ao mar.
Quando começo a descer para Nazaré, percebo que, afinal, ainda não acabaram as férias de toda a gente. É Domingo. É a porra de Domingo. Há fila compacta para chegar lá abaixo, à praia da Nazaré. Na rotunda, vejo que também há fila para ir para o Sítio.
Foda-se!
Contorno a rotunda e volto para trás. Volto para casa. Ainda não estou preparado para multidões. Afinal, ao fim-de-semana, Setembro ainda não é Setembro.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/01]

O Chão Parecia Querer Fugir de Mim

Desde de manhã que se ouvem os morteiros. Desde há seis dias que sou acordado, de manhã, pelos morteiros. Há uma semana que anda tudo em festa. A aldeia engalanou-se para a festa do Santo e bem-receber os seus filhos emigrados de retorno. Eu sou acordado, todos os dias, com os morteiros.
Hoje havia uma missa campal. Numa pequena capela que a aldeia construiu fora de portas, ao lado de um riacho que, no Verão, serve de praia fluvial aos mais encalorados.
Desde manhã que ouvia a passagem de carros e motas e vozes de gente a pé, lá em baixo, ao pé do portão. Iam preparar a missa. Depois da missa, havia sempre uma pequena festa com comes e bebes que os paroquianos levavam e dividiam por toda a gente. Mas havia gente que ia para lá só para encher o bandulho e não levava nada. Não que eu soubesse quem era. Eu nem conheço ninguém! Mas contaram-me. Contaram-me ao balcão do café para onde eu fui para ver a festa mais de perto.
Farto de acordar cedo com os morteiros, e de andar a rebolar na cama, hoje levantei-me e fui até ao café da aldeia. Encostei-me ao balcão e deixei-me estar. Comecei por pagar umas ginginhas a uns tipos que já lá estavam e, depois, eu também passei a ser um daqueles a quem se paga um copo, seja lá do que for, porque já lá estava.
Fui para lá ainda não eram nove da manhã. Vim embora quase eram quase duas da tarde. E eu sem almoçar. Ainda não tinha comido nada. Mas tinha bebido bem. A missa devia estar a acabar. Depois iam todos piquenicar. Toda a aldeia. Toda a aldeia, menos os que estavam lá, no café, comigo e, tal como eu, encostados ao balcão e sem se conseguirem levantar.
Eu mudei de bebida. Passei para o Martini Rosso com cerveja. Uma casca de limão e é imbatível.
Um pouco depois apareceu lá uma velha para ir buscar o marido e levou-o puxado por uma orelha. Eu não tinha ninguém que me fosse buscar. Eu não passo vergonhas.
A mulher do dono do café esteve a guisar um pouco de bochechas de porco para levar para o piquenique e o marido colocou uns pires no balcão. Para nós. Mais uns bocados de pão saloio, cortado às tiras grossas. Eu peguei num palito e fui picando e comendo todos os bocados de carne que fui encontrando. Descobri que estava com fome. Uma fome dos diabos. Rasguei pedaços de pão e embebi-os no molho. Uma delícia.
Passei para a imperial. Sem mais nada. Só cerveja, mesmo. Estava com sede. E foi de um golo.
Estava calor. Estava com calor.
Fui até à entrada do café. Tirei a camisola. Abri o primeiro botão das calças. Libertei a barriga. A aldeia estava deserta. Devia estar tudo no piquenique.
Decidi ir para casa. Comecei a andar, mas parecia difícil. O chão estava torto. E parecia querer fugir de baixo de mim. Senti uma mão no ombro. Virei-me. Era o dono do café. Aparentemente, esquecera-me de pagar. Tirei uma nota que tinha no bolso dos calções. Dei-lha para a mão. Acho que a nota caiu ao chão. Mas fui embora e ninguém foi atrás de mim.
Passei o largo da igreja. Desci a rua que sai da aldeia até à rotunda. Penso que ia muito depressa. Porque tudo estava a passar muito rápido por mim e eu não conseguia focar nada. Mas, ao mesmo tempo, parecia-me que estava a demorar muito tempo a chegar a casa.
Cheguei à rotunda. Tentei acender um cigarro. O cigarro caiu ao chão. Tentei acender outro. Voltou a cair. Deixei de lado a vontade e continuei estrada fora até casa. Encontrei o portão. Abri-o e entrei.
Senti-me mal disposto. A cabeça às voltas. Vómitos. O estômago a refilar comigo. Peidei-me.
Caí na alameda. Vomitei. Adormeci.

Acordo com vozes. Vozes em conversas várias. Vozes em gritos de brincadeira. Motores. O barulho vem de baixo. Do outro lado do portão. Estou caído na alameda. A cabeça no chão de terra batida. A boca aberta a aspirar pó e o que me parece uma formiga passeia-se pelos meus lábios. Ergo-me. Dói-me a cabeça. As ancas. Magoei-me. Deve ter sido da queda. Tenho a cara presa. É vomitado seco.
Agarro um cigarro. Acendo-o. Agora consigo acendê-lo. Levanto-me. Sacudo os calções. Vejo que tenho sangue nos joelhos. Agarro a camisola do chão. Também tenho o corpo com vomitado.
Olho para o portão. Imagino as pessoas do outro lado a virem em grupo, alegres e contentes, em grupo, da missa e do piquenique. Provavelmente alguns mandaram-se ao ribeiro e tomaram banho. Num ribeiro benzido por Deus.
Eu viro as costas ao portão e começo a subir a alameda. O cigarro aceso ao canto da boca. Mas o fumo começa a incomodar-me os olhos.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/19]

Sobre uma Crónica do Vasco Pulido Valente

E, de repente, assim quase do nada, passei a ódio de estimação de um país, e saco de pancada de todos os haters que circulam pelas redes sociais.
Era Sábado. Um calor danado. Eu estava no alpendre a beber uma sangria de frutos vermelhos que escorria como um refresco. Um tempo sonolento. Eu era embalado pelo pouco ruído constante das cigarras e da festa de Verão da aldeia mais próxima e que se ouvia lá muito ao fundo, depois das várias camadas de cigarras.
Já tinha sido acordado, de manhã, com o rebentar dos morteiros a anunciar a festa. Uma festa de Agosto dedicada a um santo qualquer e aos emigrantes que vêm de França para arejar as maisons que foram construindo ao longo dos anos de muito trabalho. Depois, chegam cá, e guerreiam-se entre eles para verem quem põe mais oferendas no andor. Eu ouvia tudo isto à distância de quilómetros, mas que o calor e o silêncio traziam até mim.
Entre a sonolência e os copos de sangria, ia fazendo scroll no iPad, agarrado à frente dos olhos, aumentados pelos óculos para conseguir ver melhor as letras pequeninas no ecrã, quando li a caixa a publicitar a crónica de Vasco Pulido Valente no jornal Público. E rezava assim Não se deve tolerar que um sindicato, ou um conjunto de sindicatos, imponha as suas condições a uma sociedade inteira. É só isso que importa saber sobre a greve dos motoristas de matérias perigosas.
E reli.
E voltei a ler outra vez. Não a crónica de Vasco Pulido Valente, que é de Conteúdo Exclusivo e está fechado ao público geral, mas este excerto retirado para promoção. E pensei O Vasco Pulido Valente está mais tonto que nunca. Ele que já fora contundente, está irrelevante. E comentei o anúncio da caixa de promoção com a seguinte nota Não, não se deve tolerar. Mas deve-se tolerar que uma associação de patrões possa impor as suas condições a um país inteiro, mesmo que daí resultem fugas a tributações.
E mal tinha postado o meu comentário já estavam a chover comentários ao comentário.
Primeiro senti-me uma pessoa muito importante, sentada à sombra do meu alpendre, a beber a minha sangria de frutos vermelhos, longe do reboliço das festas sagradas e das crónicas do Vasco Pulido Valente, mas no meio das preocupações de gente anónima que tinha lido o meu comentário como um excerto do apocalipse relatado pelo próprio Diabo do fundo do seu império de chamas na cave dos Infernos.
Depois comecei a pensar que nem eu era uma pessoa importante nem o que escrevera tinha alguma importância digna de nota maior que o desabafo sobre um artigo de alguém a quem me habituei a ver destilar fel. Foi só o que quis fazer. Fel ao fel. E porque achei que Vasco Pulido Valente estava a ser parvo. Quer dizer, mais parvo que o normal quando está a ser parvo. E que não tinha razão no que estava a dizer.
Afinal, e depois de ler alguns dos comentários ao meu comentário, descobri que Vasco Pulido Valente não era mais que uma caixa de ressonância de um grupo de gente que, afinal, sente mesmo aquilo. Gente com fel no coração e na cabeça. Gente irritada. Gente cheia de ódio. Gente que não consegue pensar para além do seu próprio egoísmo. Nada que fosse novo, não! Já há uns dias tinha assistido a algo parecido numa notícia sobre Salvini e a sua luta contra os refugiados. Salvini teria chão para caminhar em Portugal. Este país não viveu quarenta e oito anos em ditadura porque foi castrado nas suas liberdades por uma polícia de Estado muito eficaz. Este país viveu quarenta e oito anos em ditadura porque uma grande maioria das pessoas deste país foi conivente com a ditadura.
É claro que era fácil para mim pensar estas coisas sentado ali, na sombra do alpendre, com o jarro de sangria de frutos vermelhos vazio ao meu lado. Não amarrado numa cadeira de metal com um foco de luz a incidir sobre os olhos e uns cabos eléctricos a aproximarem-se, perigosamente, dos meus mamilos. Mas acabei por aceitar que os comentários ao meu comentário, provavelmente também teriam saído de personagens de cu no sofá, a barriga proeminente cheia de cerveja e ódio a vidas mais interessantes que as delas próprias.
Eu não era o centro do ódio deles. Na verdade, estas pessoas odiavam-se a si próprias por terem umas vidas tão pequenas e merdosas, solitárias, fechadas em frente aos ecrãs das redes sociais.
O número dos comentários ia aumentando. Já não conseguia dar vazão a tudo o que me era destinado. A certa altura, desisti de querer saber o que me queriam todos aqueles anónimos que me prometiam ir ao focinho.
Desliguei o iPad. Acendi um cigarro. As cigarras ainda estavam em cantoria. A festa continuava, lá ao fundo.
E eu pensei Tenho de ir fazer outra sangria de frutos vermelhos.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/17]

 

Sonhos Pop

Estou sentado num banco de tábua corrida frente a uma mesa de madeira numa espécie de esplanada, improvisada, na aldeia de Cem Soldos. A aldeia está sitiada e, para cá entrar, é necessário uma pulseira neo-hippie a caminho do Senhor-do-Bonfim-da-Bahia com um chip a fazer de medalhão. É o chip que permite beber cerveja e comprar o pão com chouriço e caldo verde. Faz lembrar, ainda que vagamente, as famosas senhas comunistas que já estavam preparadas, ali para os lados de Alcobaça, durante o Verão Quente de ‘75 (é possível que a historia não seja assim, mas é assim que a minha memória se lembra destas histórias dos anos ‘70).
Aqui em Cem Soldos, o último reduto dos homens com rabo de cavalo – não sabia que havia ainda tanto resistente da moda mais pirosa dos anos ‘80 do século passado – o Festival não é um Festival. É um sítio de boa disposição e tranquilidade onde os concertos se sucedem mas as pessoas dirigem-se para eles tranquilamente sem o histerismo de querer correr para a barreira da frente para junto dos seus ídolos. Aqui ouve-se a música, os berros das criancinhas mais chatas e as conversas pueris de jovens adolescentes que se enganaram no Festival mas riem, à perdição, dos gajos com rabo de cavalo.
A faixa etária é muito heterogénea. Adolescentes e velhotes. Criancinhas ao colo dos pais e bebés em carrinho. Pais divorciados de fim-de-semana com os filhos. Adolescentes. Namorados. Amantes. Músicos. Emigrantes. Há de tudo, aqui.
Estou sentado a beber uma cerveja e a fumar um cigarro. Pego no livro que trouxe, Blow Up e Outras Histórias de Julio Cortázar, edição de bolso da Europa-America, mas não consigo chegar a ler uma linha. Pariu a galega mais a norte. Deve ter acabado algum concerto a que não fui e que acabou agora. Vem gente em magotes. As raparigas vêm vaporosas. De costas despidas e queimadas. Não nas praias do Oeste, com certeza, que o Verão ainda não chegou a estes lados. Os rapazes vêm de calções. Muita gente a fumar. Sinto-me acompanhado.
Começo a pensar o que aconteceria se começasse a chover. O tempo está instável. Sol mas com nuvens muito escuras. Vento forte. Se começasse a chover o que é que aconteceria? Para onde iria toda esta gente? Estamos longe de tudo o que seja cobertura. Aqui não há centros comerciais.
Penso em mim. Na minha bronquite. Nas dores de costas. Na dor de cabeça. Na minha má-disposição crónica. Não podia ficar à chuva. Para onde iria?
Já é tarde. O dia já se foi. A noite instalou-se. Já ocorreram vários concertos. Os Pop dell’Arte são agora já a seguir. Vim cá para isso. Vim cá para ver o João Peste e os Pop dell’Arte. Esqueço as miúdas giras e os rapazes com pinta e arranco para o concerto que fica lá em baixo, na vala. Não há Wi-Fi na vala. Vou ficar fora da vida. Não sei como vou suportar este afastamento digital.
Passa um puto com não mais de dezoito anos a fumar um charro. O cheiro entra-me pelas narinas. Viro-me para ele e digo Oh, pá! Dás-me uma passa? e o puto vira-se para mim, faz aquele ar de seca o-que-é-que-quer-o-velho?, mas passa-me o charro para a mão. Ponho as mãos em concha e o charro espetado nos dedos, para o puto não ficar com nojo de mim, e mando duas ou três baforadas bem fortes. Devolvo o charro. Agradeço com um sorriso enorme e sinto-me pronto para os meus Sonhos Pop.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/10]

São Valentim

Conheço-o desde sempre. Toda a minha vida ele andou por aqui. Aliás, já por cá andava quando nasci. Ele já andava na rua aos pontapés na bola quando eu dei o primeiro berro pendurado pelos pés nas mão ásperas da parteira.
Ele era o filho da porteira. Foi o meu primeiro amigo. Eu descia as escadas do prédio e ia para casa dele. O quarto dele era um mundo de bizarrias. Cheio de tralha. Tudo a que pudesse deitar a mão e que sugerisse retorno. Nem que fosse no futuro. A primeira colecção de latas de bebidas que vi na vida, foi em cima do guarda-fatos do quarto dele, em exposição. Até tinha algumas de Espanha. E de França. Eram latas que os primos, emigrados, lhes traziam nas férias.
Foi com ele que fumei o primeiro cigarro. O primeiro charro.
Foi com ele que aprendi os primeiros rudimentos do sexo. Ele era mais velho. Mais sabido. Já tinha ido com umas miúdas. Até já tinha um pequeno bigode (um pequeno bigode?! uma penugem!) quando, uma vez, me disse O que elas gostam é disto!, e apalpou o próprio sexo, por cima das calças de ganga apertadas e com remendos entre-pernas.
Eu saí dali. Da casa dos meus pais. Da cidade. Cresci. Fui estudar para outra cidade. Uma cidade maior. Deixei de vir a casa tantas vezes. Foi um processo gradual. E, aos poucos, acabei por me afastar.
A morte dos meus pais trouxe-me de volta. Cansei-me da cidade grande. Voltei à cidade pequena. Ocupei a casa dos meus pais. Agora minha. Minha e da minha mulher. E da minha filha. Sim, casei, tive uma bela menina que, graças a Deus, sai à mãe, e regressei à casa onde nasci.
Ele continuava lá. Na casa da porteira. Agora era a casa do porteiro. A mãe já tinha falecida há uns anos. Ele ficou com o lugar que era da mãe. Agora era ele que cuidava das casas. Do prédio. De nós.
A primeira vez que o vi, quando regressei, apresentei-lhe a minha família. Mas tudo o que tinha tido com ele, tinha-se esvaído. Já não o conhecia. Não sabia o que conversar com ele.
Agora, quando me cruzava com ele nas escadas, era Olá! Bom-dia! Boa-noite! Até logo! e encerrava ali o assunto. Às vezes percebia que ele queria encetar alguma espécie de conversa cúmplice. Mas a cumplicidade já não existia. Já não existia nada entre nós. O tempo tinha tratado de a assassinar.
A verdade é que me incomodava cruzar com ele nas escadas. Ou no pequeno jardim de entrada do prédio, onde ele estava quase sempre a tratar de qualquer coisa. E sim, aquele pequeno jardim era uma preciosidade dele, mas que elevava o nosso prédio, no contexto dos prédios cinzentos daquela rua cinzenta, a outro nível. Dava prazer chegar a casa. Mas o facto de ter que lhe dirigir uma palavra, como se o conhecesse, e conhecia, de facto, deixava-me um pouco deprimido.
Hoje, quando cheguei a casa, voltei a cruzar-me com ele nas escadas. Parecia que, às vezes, me fazia uma espera. Agora estava a arranjar uma caixa do correio. Eu entrei no prédio. Levava um ramo de flores na mão. Um ramo com treze rosas vermelhas. Uma por cada ano da relação que tinha com a minha mulher. E ele viu-me chegar com o ramo de rosas e largou um rasgado sorriso e disse Dia dos Namorados, hein? e eu anui.
Preparava-me para pôr o pé no primeiro degrau, para subir as escadas e ir para casa quando ele me colocou a mão no braço e me fez parar. Chegou-se ao pé de mim, com a boca próxima do meu ouvido e disse Eu cá é mais putas e vinho verde! e fez um pequeno sorriso.
Eu não me manifestei. Ou acenei levemente a cabeça, já não me recordo, e foi aí que ele começou Nunca tive sorte com as mulheres, sabes? A maior parte das que tive, foi a pagar. E isto, hoje, está difícil. Ser porteiro não dá muito. Não dá nada! Dá para ir vivendo, assim, aos poucos de cada vez. Uma vez ou outra vou à bola. Em Maio vou à feira. Mas não tenho férias. Também, para onde é que ia? Sozinho?
Ele já tinha largado o meu braço. Mas eu não conseguia ir embora. Queria ir. Mas não podia. Não podia deixá-lo ali sozinho. A necessidade de falar. De contar algo. Algo que eu não queria ouvir. Mas tinha de ouvir. Tinha de lhe dar tempo. Um pouco do meu tempo. Em nome do passado. Afinal, tínhamos sido amigos.
Disse Putas e vinho verde? Mais o YouPorn e uma garrafa de Seven-Up. A vida está complicada, pá…
Senti-o ficar mais pequeno. Os ombros descaíram para a frente. O pescoço enterrou-se pelo corpo. Os olhos encovaram num buraco negro. De repente descobri-lhe o cabelo grisalho. A barba rala, com peladas, e muitos pêlos brancos. Vi as mãos a tremer.
Baixei a mão com que agarrava o ramo de flores. Aproximei-me dele. Dei-lhe um abraço. Dei-lhe um abraço sentido. Éramos crianças e estávamos na rua a brincar. Eu e ele. À bola. Com os carrinhos de rolamentos com que caí e esfacelei os joelhos. Aos índios, com arcos e flechas feitos de varetas de chapéus-de-chuva velhos e com o qual lhe ia vazando um olho. Felizmente não aconteceu nada.
E disse-lhe baixinho Estou aqui! Se precisares de alguma coisa, estou aqui, pá.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/14]

Uma Noite no Jardim Enquanto a Alemanha Invadia a Polónia

Andava a ver os filmes em corrida para os Prémios da Academia Americana de Cinema. Sim, fica lá longe, mas é o mais perto que chegamos do cinema. A América está aqui. No meio de nós. Entra pela televisão. Pelos canais de cabo. Pela internet. Pelas salas de cinema. Ensinaram-nos a ler os códigos do cinema norte-americano. Levaram-nos a estranhar outras linguagens. Pode bem o Jean-Luc Godard bramar pela linguagem! Em vão! A corrida é sempre à volta do que já se sabe. Mesmo quando já se sabe que acaba mal. Sabemos mas agarramos a amnésia. E entramos na mesma.
Se calhar, por medo. Ou cobardia. Gostamos de estar em número, é o que é!
Portanto, sentei-me no sofá.
Ia ver uma curta-metragem. Uma curta-metragem documental. Uma coisa pequenina. Tinha sete minutos. Feita com imagens de arquivo. A preto e branco. Chamava-se A Night at the Garden e era realizado por Marshall Curry.
Carreguei no Play.
O filme abriu com uma multidão. Uma multidão num pavilhão. Um bruá de excitação. Depois o título A Night at the Garden. E um subtítulo, localizador de espaço e tempo, New York City, February 20, 1939. Estávamos no domínio da memória.
No plano seguinte descubro que o Garden do título é o Madison Square Garden. Em pleno coração do mundo. Um local onde se alberga tudo, do hóquei ao basquetebol, passando, naquela noite, em especial, por um evento chamado Pro American Rally.
Vê-se muita gente nas imediações. Polícia a cavalo. Pessoas que se manifestam. Uns contra. Outros pró.
Ao primeiro minuto voltamos a entrar no Garden e vemos, pela primeira vez, ao que vamos: um fila de jovens a transportar bandeiras americanas e bandeiras nazis cruzam a plateia saudados pelos braços esticados no ar. Em saudação. No palco, um grupo de jovens milicianos de fato militar, fazem rufar os tambores. Agora o pavilhão inteiro aplaude. Aplaude a chegada de inúmeros jovens milicianos, meninos e meninas, eles de calções e bivaque, elas de caracóis, camisa branca de manga-curta e gravata, numa espécie de Mocidade Portuguesa formada de jovens e esbeltos americanos, da Land of the Free. À cabeceira de tudo isto, a figura paternal e gigante de George Washington.
Quase a chegar aos dois minutos de filme, o primeiro discurso, onde se promete lealdade incondicional à bandeira dos E.U.A., um país com liberdade e justiça para todos, numa voz alemã vertendo em inglês o discurso da pátria.
Muda o orador. Os braços estendidos a César invadem o Madison Square Garden. Parece que não estamos em Nova Iorque, mas em Berlim.
Ao minuto três chega o apelo aos verdadeiros americanos, aos patriotas, porque são sempre eles os patriotas e representantes do povo e exigem a devolução do país àqueles que são sempre os verdadeiros americanos: O povo! O Povo!. Começam a zurzir nos judeus. A chaga social. A boca da mentira.
Eles? Os verdadeiros americanos de mão esticada? Eles clamam por um país socialmente mais justo, branco e gentio. Eles clamam por sindicatos de trabalhadores gentios livres do domínio judaico e soviético.
Estamos a chegar ao minuto quatro e alguém salta para cima do palco. Alguém que quer parar a besta, ali. Mas é logo apanhado por elementos das milícias que o sovam ali mesmo, em cima do palco, à frente da plateia que ulula em êxtase. Chega a polícia e encarrega-se do intruso. Leva-o para fora do palco. O orador, impávido e sereno, assiste a tudo com um enorme bocejo e uma calma desarmante, continuando, logo de seguida, o discurso. A juventude miliciana no palco está excitada. Contente. Dá pulinhos. Ri. Gargalha. Enquanto o invasor é levado, pela polícia, para fora do palco com as roupas rasgadas, a multidão brama e o orador ri, bonacheirão, daquele fait divers.
Uma voz de mulher entoa o hino americano na companhia de uma orquestra e o povo, aquele povo que está no Madison Square Garden, está de pé, respeitosamente, a homenagear o país, o hino, a bandeira. Mas e os outros? Os que não cabem debaixo de todo aquele folclore?
No fim do filme, uma informação: Vinte mil americanos estiveram no Madison Square Garden na noite de vinte de Fevereiro de mil novecentos e trinta e nove. Enquanto isso, na Europa, Hitler terminava a construção do seu sexto Campo de Concentração. Sete meses mais tarde, o exército Nazi invadia a Polónia e dava início à guerra mais sangrenta da História.
Passa o genérico. Aperto no Stop.
Agarro num cigarro. Acendo-o. E penso que nada disto é novo. Nada que não soubéssemos já. Nem era preciso saber História. É do senso comum. Já faz parte da cultura ocidental saber o que aconteceu na Europa entre mil novecentos e trinta e nove e mil novecentos e quarenta e cinco. As consequências ainda as sentimos, hoje. Saber que houve um Partido Nazi Americano também não é novidade. Também houve um Partido Comunista, que existe ainda hoje. Uma das bases de A Conspiração Contra a América de Philip Roth está nesta América nazi. Numa América que glorificava Hitler. Na estória, a Alemanha era a vencedora da guerra. Os americanos-arianos cumpriam a sua vingança contra os judeus.
Mas então, o que é que se passa? O que é que se passa hoje que parece que estamos todos esquecidos? O que é que se passa hoje que parece que não se passou nada?
Cortámos a cabeça à serpente. Mas ela deixou ovos. Eles estão aí. Por todo o lado. A nascer. A crescer sob a nossa amnésia. Na Polónia. Na Hungria. Em França. Em Itália. Mesmo em Espanha. No Brasil e nos Estados Unidos. Em nome de falsos profetas e falsas profecias. Em nome da sacrossanta economia. Contra a corrupção. Contra os emigrantes. Contra os outros. Contra! Contra! Contra! Foda-se!…
Apaguei, furioso, o cigarro no cinzeiro. Levantei-me. Fui ao quarto. Ao armário do quarto. Ao fundo do armário do quarto. Agarrei na caçadeira. Carreguei-a. E voltei para a sala. Desliguei as luzes. E pus-me à espreita. A olhar pela janela. E disse baixinho Os filhos-da-puta andam aí. Mas desta vez vou estar à espera deles. E desta vez não vou ser complacente.
Ao fundo vi umas carrinhas de caixa aberta cheias de gente. Jovens cheios de testosterona. À cata de problemas. Eles que venham cá, pensei.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/11]

O Verão que Passei Sentado no Banco Corrido do Café

Passei aquele Verão quase todo sentado num banco corrido encostado à parede do café. Ia para lá de manhã. E passava lá o dia. Via chegar os clientes habituais. Pessoas que precisam de uma bica para funcionar. Bebia café com eles. Fumávamos um cigarro juntos. Contavam-me coisas. Algumas sem interesse. Outras fantásticas. Umas poucas diabólicas. Eu ouvia.
Bom-dia! Bom-dia! E isto repetia-se.
Às vezes lia o Correio da Manhã. Quase todos os dias A Bola.
Às vezes levava a máquina fotográfica e fotografava as caras das pessoas que por ali passavam. Os velhos cheios de rugas e cara curtida do sol. As crianças à procura de um gelado, ou de um chupa-chupa. As mães para três dedos de conversa entre elas e saberem as novidades do dia.
Às vezes passava um turista. Alguém que se perdia a caminho da praia. Alguém a pedir uma informação. Alguém que precisava de uma garrafa de água. Geladinha.
Depois de almoço, geralmente petiscava qualquer coisa, dava-me a moleza. Dormitava por ali um pouco. Encostava-me à parede. Fechava os olhos. Um chapéu-de-sol da Olá protegia-me do sol. Depois acordava. Bebia uma imperial. Lia um bocado de um livro que se arrastava. Escrevia notas para um futuro livro. Via chegar os vespertinos.
Boa-tarde! Boa-tarde! E isto repetia-se.
Ao final da tarde começavam a chegar os homens. Vinham beber um bagaço. Uma mini. Um copo de tinto. Comiam um pastel de bacalhau. Discutiam. Discutiam muito. Sobre futebol. Diziam mal da Junta de Freguesia. Aliás, do Presidente da Junta. Maldiziam a vida. Depois diziam bem dos filhos. Das mulheres, variava. Às vezes esqueciam o tempo. Às vezes as mulheres iam lá buscá-los. Às vezes mandavam os filhos mais novos. Às vezes havia barulho. Zangas. Desconcertos entre eles. Eles, marido e mulher. Mas também eles, amigos. Vizinhos. O álcool fazia-os irritar. Falar alto. Odiarem-se ódios velhos que morriam rapidamente. Mas às vezes aqueciam as nozes dos dedos nas caras uns dos outros. Nada de muito grave.
Às vezes puxavam uma mesa cá para fora e jogavam Dominó comigo. À Bisca Lambida. À Lerpa. Ao Sete e Meio.
Sentavam-se muitas vezes lá comigo. A beber cerveja. Um vinho. A fumar um cigarro. À espera que a noite chegasse. A noite que os arrastava para casa. Às vezes iam a contra-gosto. E eu? Eu também partia com a noite.
Boa-noite! Boa-noite!
Depois, mais tarde, em Agosto, chegaram os emigrantes. Regressavam à terra. Vinham abrir as janelas das casas fechadas. Vinham arejar o bafio das casas. Vinham mostrar os carros potentes e vistosos. As roupas coloridas que não há cá. As sapatilhas de marca. Mas então? Agora a época era outra. Estava já tudo desfasado no tempo. Quem não vinha de fora ia ao Continente e tinha as mesmas coisas. As mesmas marcas. Os filhos confundiam-se já todos. Mas era bom estar ali sentado. Estar sentado e ouvir falar aquele francês, às vezes mal arranhado, mas sempre com sotaque. Como uma música velha num tijolo fanhoso. O sotaque dali. Um sotaque que eu já reconhecia.
Essa era também a época das festas. O banco estava sempre cheio de gente. Mas o meu lugar estava sempre reservado. Fotografei caras. Filmei a procissão. Escrevi estórias. Descrevi o baile. Gravei sons de conversas. De discussões. De namoros. Nesse Verão fiz uma bela recolha da vida que se cruzava ali, frente ao café.
Chegou o Outono. As pessoas foram embora. Ficaram as que ficam sempre. Passei a estar mais vezes sozinho. A apreciar mais a chegada solitária de um ou de outro. Aproveitava o pouco sol. Evitava a chuva. Enfrentava o frio.
Um dia, já perto do Natal, o café não abriu. O dono, já velhote, tinha morrido. Durante a noite. Sossegado. Em paz. O banco nunca mais voltou à rua.
Alguém comprou o café. Transformou-o em alojamento local. Anunciou-o no Airbnb. Eu deixei de lá ir. Deixei de ver pessoas. Deixei de ver a vida a acontecer por ali.
Agora não passo do alpendre de casa.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/05]

A Mulher, parte 04 e final

[continuação de ontem]

Ela ia no autocarro a caminho de casa. Ia no caminho inverso ao que fazia todos os dias a esta hora. A esta hora estava a caminho do trabalho. Hoje estava a caminho de casa. Normalmente ia em pé porque o autocarro já ia cheio quando parava ao pé de casa. Hoje ia em pé, mesmo com muitos lugares vagos, porque estava nervosa. Ansiosa por chegar a casa. Queria ver o filho. Queria saber se estava bem.
Ia em pé, agarrada ao varão perto da porta de saída do autocarro. Contrariava as curvas da estrada com posições do corpo. Voltou a telefonar. Ninguém atendia.
O autocarro parou na sua paragem. Ela saiu. Ela saiu a correr e foi a correr, o correr possível que o seu corpo cansado e já muito gasto pelas amarguras da vida lhe permitia. Cruzou a estrada depressa. Sem olhar. O seu foco era a casa. Subiu a rua. Subiu a rua até ao cimo. Depois virou à direita e entrou dentro do bairro. E depois foi andando em passo rápido, rua-a-rua, lá no interior do bairro. Ruas pequenas e estreitas. Casas baixas como se quisessem passar despercebidas aos olhos da lei, da ordem e das finanças. Saltou por cima de uns esgotos que corriam a céu aberto. Sim, ainda havia disso ali, naquele bairro. Naquele bairro de emigrantes. Naquele bairro de onde vinham os braços para limpar as casas douradas da cidade. Da capital. Uma capital de luxo ancorada nos braços da precariedade.
Chegou a casa. Enfiou a chave na fechadura. Abriu a porta. Correu para o cubículo que era o quarto do filho. A cama estava vazia. Ela levou a mão à boca para sufocar um grito de desespero. Os olhos largaram lágrimas que corriam desalmadas sem pedir licença. E então ela ouviu Mãe?! O que é que estás aqui a fazer?
Ela virou-se para trás e viu, sentado à mesa, à entrada de casa, a tomar o pequeno-almoço na forma de uma tigela com cereais e leite, o seu filho. O filho que era dela. Só dela. Ela largou o saco de cartão com a bata para lavar e a carteira no chão e lançou-se sobre ele estendendo-lhe os braços como tentáculos e sufocando-o no seu amor de mãe-pai que julgava que o seu mundo tinha desabado mas afinal não. Afinal ele estava ali. Estava sentado à mesa a tomar o pequeno-almoço antes de sair para a escola. Camisa branca. Calças de ganga limpinhas. A mochila arrumada com tudo o necessário.
Mãe?!… Sai… Deixa-me acabar de comer para ir embora, disse o filho. E ela sorriu. Limpou as lágrimas às costas da mão a sorrir. E retirou suavemente as mãos-tenaz de cima do filho. E disse-lhe Desculpa. Desculpa não ter vindo ontem à noite. Eu logo explico. Agora vou tomar um banho rápido que estou atrasada.
Ela deu-lhe um beijo na face. Entrou naquele pequeno polibã e deixou que a água fria lhe lavasse o medo. Foi uma lavagem rápida que estava atrasada. Mais passar o corpo por água. Vestiu uma roupa limpa. Meteu uma bata lavada no saco de cartão e deixou a suja numa bacia. Despachou-se mais depressa que o filho. Ela era aquilo. Rápida. Decidida. Não perdia tempo com preâmbulos. Ela conhecia as exigências da vida. Deu um beijo rápido na face do filho e saiu de casa a correr. Aquele correr dela, que era um andar assim mais depressa. Até porque os anos e o cansaço não a deixavam ser mais rápida. Ainda ouviu um Até logo, mãe! Adoro-te! que o filho lhe gritou. Sorriu. Ruborizou. E continuou a sua caminhada, agora em sentido inverso, pelas mesmas ruas pequenas e estreitas do bairro de emigrantes.
Saiu do bairro. Virou à esquerda. Desceu a rua embalada que para baixo todos os santos ajudam.
O autocarro que queria apanhar estava a chegar à paragem.
Ela viu-o. Viu-o e decidiu que tinha de o apanhar. Estava já atrasada.
Ela pôs o pé na estrada para a atravessar, para a atravessar a correr para não deixar fugir o autocarro, pôs o pé na estrada, sem olhar para um lado, nem para o outro, a correr, naquela sua correria que era mais um andar depressa, o mais depressa que os anos e o cansaço lhe permitiam e foi então que apareceu um táxi, que não a viu, e lhe bateu, a ela que não o viu, e a levantou pelo capot acima até ao pára-brisas que rachou com o impacto e a projectou uns metros à frente, mandando-a de rojo pelo chão de asfalto, até ela parar, quieta, silenciosa, com o corpo dobrado em dobras impossíveis, no chão sujo e triste.
O táxi parou. O taxista saiu do carro e levou as mãos à cara. Os autocarros pararam. O autocarro dela não arrancou. As pessoas começaram a aproximar-se do corpo inanimado.
Ao fundo, o filho dela cruzou a estrada, olhou para aquela confusão mas seguiu em frente. Ia para a escola. Tinha de ir para a escola. Era a única coisa que a mãe lhe exigia. Que fosse para a escola. Que estudasse. Que fosse alguém na vida. Alguém que ela nunca tinha sido.

[escrito directamente no facebook em 2018/10/16]

Embalado pelo Mar

Acabou o Agosto. Está a acabar o Verão. Os emigrantes já foram lá para onde estão emigrados. As festas de todos os santos possíveis também terminaram.
Vou à praia e estou sozinho. O mar está calmo. A ondulação é tranquila. Adormece. Deito-me no colchão-de-ar e deixo-me ir ao sabor das correntes fracas que por aqui andam agora. Acho que o mar esperou que toda a gente se fosse embora para me presentear com uma praia de sonho.
O senhor das Bolas de Berlim já não passa por aqui. Mas trago um tupperware com pedaços de melão, do verde e do amarelo, com pedaços de meloa, de melancia.
Sento-me na toalha, molhado, o cabelo a pingar, e dou cabo de todos os pedaços enquanto o diabo esfrega um olho.
Olho à volta e vejo um casal estrangeiro muito branco. Ele espalha Factor 50 pelas costas dela.
Lá mais ao fundo, uma avó com o neto. Ele come um gelado. Ela faz renda.
Não há mais ninguém.
Há gente que se passeia pela calçada marginal.
Sente-se o cheiro das sardinhas assadas. Ainda há pessoas suficientes para fazer mexer os restaurantes e snacks e cafés e bares, mas são outro tipo de pessoas que procura outro tipo de experiências.
Por momentos sinto-me só. Quase sozinho no mundo.
Olho para este mar tão convidativo e penso no que é que poderia querer mais.
Sorrio. Sorrio para mim. Cá por dentro.
Pego no colchão-de-ar e lanço-me ao mar. Deixo-me embalar. Os olhos fecham-se. Deixo-me adormecer. Sinto-me a ser levado para longe. Suavemente. Sinto os poucos barulhos da praia a ficarem cada vez mais longe. Mas não abro os olhos. Deixo-me tombar nas mãos do mar e deixo-me levar onde ele me quiser levar.
Não estou preocupado. Acredito que me vai levar a bom porto. Deixo-me ir. No suave embalo deste mar em final de Verão.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/12]

Em Agosto Vi Zé Café & Guida

A festa era na aldeia. Naquela aldeia. Poderia ser noutra que em Agosto há festas todos os dias em diferentes aldeias, vilas, cidades e às vezes até se sobrepõem as festas porque é preciso agradar aos santos e santinhos todos e aos emigrantes filhos da terra que vêm cá construir as suas casas e pagar IMI e mais outros impostos que a Junta está necessitada, mas hoje era ali, naquela aldeia, no sopé da montanha, ao lado da Nacional 1. Pelo menos era o que tinha lido no cartaz publicitário à saída do InterMarché.
À entrada da aldeia fui recebido com decorações luminosas daquelas que se utilizam no Natal ou na Feira de Maio, com curvas, rectas, circunferências em espiral e unicórnios e o nome da terrinha em luzes brilhantes de tom amarelado.
Entrei pela aldeia e não vi nada. Estava deserta. Deserta de festa e de pessoas. Não havia vivalma na rua. Não havia barulho. Não havia luminosidade para além do pórtico de chegada. Um vazio.
Dei uma volta por umas ruas residenciais que se transformavam em estradas industriais. A aldeia confundia-se com a zona industrial. Por vezes com pouca luz. Ou nenhuma. Tornava-se assustador.
Não se passava nada.
Estava num buraco negro.
Dei voltas e mais voltas e descobri que a aldeia era essencialmente uma estrada comprida e segui-a em frente, passei pela igreja silenciosa e, quase no fim, quando a aldeia parecia misturar-se com a escuridão e dar lugar ao pinhal, lá surgiu o clube recreativo e cultural, mais umas luzinhas coloridas, festivas e o som da festa, do baile, do concerto, a dar colorido ao cheiro a bifanas, frango assado e à filhós que acompanhava o café da avó.
Quando cheguei já Zé Café & Guida estavam em cima do palco. Cantavam um dos seus hits que falava de amor, desamor, lágrimas e alegria. O Zé Café agarrado ao órgão eléctrico. A Guida de microfone na mão, às vezes no suporte, ia carregando o dedo no iPad que estava espetado no aparelhómetro do órgão.
Meia dúzia de pares dançava em frente à boca do palco. Ele com ela e ela com ela. Mães e filhas. Irmãs. Não havia muito mais a dar pezinhos de dança. O resto das gentes estava espalhado pelas barracas de repasto, sentados em cadeiras de plástico a comer e a beber.
No fim da música a Guida chamou ao palco a Leonor, a filha pequenina, aí dos seus dez anos, que foi interpretar uma música chamada Mariana e mais tarde uma outra da qual esqueci o nome, mas que era cantada em português do Brasil com um belo sotaque carioca.
Três músicas mais à frente e o baile foi interrompido por dois tipos que apareceram a dar murros um ao outro. Chegaram outras pessoas a tentar separá-los, e alguns acabaram também por se engalfinhar. Havia sangue a voar. A Guida parou de cantar e agarrou na filha ao colo. O Zé Café continuou a tocar um muzak para ver se entretinha a besta do apocalipse. Ouvia-se gritos. Palavras feias. Cheguei-me para um lado. Afastei-me da confusão. Histórias de gajas. Gajas com gajos. Traições, ou nem isso. Simplesmente ciúmes. Há gajos assim. Ciumentos. E gajas também assim, namoradeiras.
O Zé Café parou a música. A confusão agora era total. Homens, mulheres e crianças estavam no meio da barafunda. Alguns dos homens batiam-se a sério. Vi uma navalha. Vi sangue. Vi um nariz partido. Vi uns dentes a rasgar uma orelha. Só não vi a polícia.
Saí dali. Entrei no carro e voltei à Nacional. Pensei em ir ao Bigodes comer uma sopa, mas achei que precisava era de ir para casa, fumar um cigarro e dormir. Amanhã havia outra festa. E eu comecei a tomar-lhe o gosto.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/14]