Para um Diário da Quarentena (Terceiro Andamento)

Hoje foi um dia bizarro. Tudo o que não fiz ontem, fiz hoje.
Levantei-me cedo, seduzido pelo sol matinal. Lancei logo o edredão para os pés da cama. Saí de um salto, vesti uma t-shirt e fui à cozinha pôr o café a fazer. Liguei o iPod à coluna e deixei em modo aleatório. Arrancou com PJ Harvey. Uh Huh Her. Acendi um cigarro e fui fumá-lo para o alpendre. Os gatos vieram roçar-se nos meus pés descalços, dengosos, a ronronar.
Lancei o cigarro para o meio do quintal e entrei em casa para ir tomar um duche.
Sentia-me bem-disposto.
Pensei se eu seria mesmo eu.
Tomei o duche. Vesti-me. Bebi café. Comi uma banana. Lavei os dentes e peguei na chave do carro. Desliguei o iPod antes de sair de casa.
Hoje tinha de sair. Por motivos de trabalho, tinha de sair do meu refúgio. Largar as minhas rotinas. Tinha de ir longe. Não ia estar com muita gente. Nem ia demorar muito tempo. Mas era longe. Tinha de ir encher o depósito do carro. Ia aproveitar para registar o Euromilhões. Comprar pão fresco. Umas garrafas de vinho, que andam a esvaziar-se muito depressa.
Tinha umas máscaras e umas luvas no carro caso precisasse. Algumas moedas. O multibanco. Um lápis com borracha para marcar o código do cartão e fazer os pagamentos. E um frasco aspersor com álcool.
Fui.
Fiz o que tinha a fazer.
E regressei.
Entrei em casa. Despi-me ainda na cozinha. Pus a roupa na máquina e lavei-a a quarenta graus. Depois lavei-me a mim e vesti um fato-de-treino.
Abri uma garrafa de Adega de Pias, das mais baratas. Sentei-me à mesa da cozinha, frente ao computador e comecei a escrever. E escrevi bastante e durante bastante tempo. Tanto tempo que tive tempo de despejar a garrafa de vinho. Só então parei e acendi um cigarro. E reparei que já era de noite.
Este foi um bom dia, pá! pensei.
Lembrei-me que havia o Festival Eu Fico em Casa e liguei o Instagram. E deixei a tocar. Nem sei quem era que estava a tocar. Acho que nem conhecia. Deixei na coluna.
Abri outra garrafa de Adega de Pias. Cortei uns legumes. Desfiei um resto de frango assado que tinha no frigorífico. Salteei tudo no wok. Depois misturei uns bocados de sementes de sésamo e uma azeitonas.
Desliguei o festival e liguei a televisão. Hora do noticiário. Jantei os legumes salteados com o resto de frango desfiado na companhia do vinho tinto a tomar atenção às novidades do Covid-19, aos infectados e aos mortos. Afinal estávamos em emergência, ou não?
As coisas estavam cada vez pior.
Mas eu continuava bem disposto.
Quem seria eu, afinal?
Desliguei a televisão da cozinha. Baixei a tampa do computador. Arrumei a louça suja na máquina. Agarrei num copo e despejei-lhe dois dedos de Bushmills. Sem gelo. Fui para a sala. Liguei a televisão. Ao fim de algum tempo de permanência nos canais de notícias, comecei com o zapping.
Comecei a sentir a melancolia a instalar-se.
Relaxei.
Afina, eu era eu. Sou eu. E aqui estou, de rabo enfiado no fundo do sofá, a ganhar coragem para ir à cozinha buscar mais um bocado de whiskey e trazer para aqui o cinzeiro. Mas não me consigo levantar. Apetece-me, mas não me apetece. Tenho qualquer coisa a tremer dentro de mim.
Sorrio, mas não sei de quê.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/17]

Para um Diário da Quarentena (Primeiro Andamento)

No segundo dia de quarentena e não noto diferença no ritmo da minha vida. Continuo fechado em casa, com vários passeios pelo quintal a olhar as montanhas ao fundo, a beber copos de vinho tinto e a fumar cigarros no alpendre. Nada que já não faça nos outros dias da minha vida desde que resolvi virar costas à cidade que me estava a tratar mal.
Normalmente dou uns passeios pela aldeia. Bebo um café e um bagaço no café central, ao lado da igreja, e abasteço-me de pequenos produtos alimentares, frescos e pão, na mercearia. Ontem e hoje não saí daqui. Amanhã talvez vá comprar pão fresco. Se a mercearia estiver aberta.
Hoje o dia começou com sol. Não estava frio mas estava vento. Fumei um cigarro no alpendre, em pé, com um dos gatos a roçar-se nas pernas despidas. Depois voltei para casa e por cá tenho ficado.
Devia ir levar comida ao cão e aos gatos, mas estou com preguiça. Hoje não comem ração. Talvez cacem um rato ou um coelho. Os gatos costumam caçar coelhos e partilham-nos com o cão. Dão-se bem e não estão muito dependentes de mim. Mas eu prefiro dar-lhes ração para não andarem para ai restos de animais mortos e bolas de pêlos a voar. Sou alérgico aos pêlos dos animais.
Hoje não tomei banho. Já não lavo o cabelo há três dias. E está muito grande. Devia cortá-lo, mas não há-de ser agora. Não irei à cidade durante os próximos tempos.
Desde que me levantei que tenho andado nu cá por casa. A casa é quente e confortável. Tenho andado indeciso sobre o que fazer e ainda não vesti nada porque estou sempre a ponderar voltar para a cama e ir dormir.
Hoje não me apetece trabalhar. Comecei a ver uma série nova, The Outsider, e estava com vontade de terminar a temporada de uma vez mas, deu-me a fome e acabei por parar no terceiro episódio para ir grelhar um hambúrguer. Comi-o dentro de um pão da avó que torrei. Juntei-lhe uma fatia de queijo Limiano e um pouco de ketchup Heinz. Acompanhei com um resto de uma garrafa de vinho sobrevivente. Já tinha um pouco de pé. Ainda bem que o acabei. Amanhã tenho mesmo de ir à mercearia. Ou procurar alguém que tenha uns garrafões para vender.
Enquanto estava a comer o hambúrguer apanhei o Primeiro-Ministro na televisão a explicar as novas medidas de emergência. Não consegui concentrar-me no que ele disse. Sinto-me um pouco tonto. Tenho vertigens quando me falam de coisas que não quero ouvir. Mas acabo por perceber o geral da conversa. E percebi. Vou continuar fechado cá por casa. Nada a que não esteja habituado. Vou continuar a trabalhar em casa. O que já faço. Não vou a concentrações de pessoas. E não vou mesmo. Mesmo quando posso. Ou podia.
Passo na casa-de-banho para mijar. Lavo os dentes depois de ter comido o hambúrguer.
Páro no corredor. Sinto falta dos jogos de futebol. Tento perceber o que vou fazer. Tento perceber o que é que me apetece fazer. E percebo que não me apetece fazer nada. Acabo por rumar à cama. Deito-me. Tapo-me com o edredão por cima da cabeça.
Espero que os dias passem todos muito depressa, eu envelheça e mude de opinião. Às vezes gostava de voltar ao convívio das outras pessoas. Depois passa.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/15]

Interrompido

Tinha agarrado nas quatrocentas páginas de O Amor nos Tempos de Cólera e ido para o alpendre, sentado numa cadeira, um copo de gin na pequena mesa de apoio ao lado e um cigarro aceso nos dedos quando o telefone tocou. Era ela. Atendi.
Olá!, disse. Ela ficou em silêncio depois do meu cumprimento e demorou a dizer Olá!
Ela é que tinha telefonado, mas eu é que fiz a conversa. Percebi que estava nervosa. Talvez arrependida de ter ficado em casa sozinha. Talvez arrependida de não ter aceite o meu convite. E eu disse-lhe Estou no alpendre. De papo para o ar a adormecer esta solidão. Podias estar aqui. Podíamos estar a jogar Monopólio.
Ela deu uma pequena gargalhada. Talvez a primeira desde…
Tossicou um pouco e disse Estou à janela a olhar para a rua. Não passa ninguém.
Aqui também não passa ninguém, respondi-lhe, solidário. Mas era verdade. Desde manhã que não via ninguém a passar na estrada lá ao fundo. Nem a pé nem de carro. Nem as motorizadas de motor estridente que se ouvem normalmente a passar na aldeia se ouviam. Mas ouvia vozes ao longe. Devia haver gente no campo, a tratar das hortas, dos pomares, do gado.
Olhei para o fundo do quintal. Tentei focar o olhar.
Pousei o livro na mesa ao lado do copo de gin e levantei-me da cadeira. O olhar ao fundo. Ao fundo do quintal.
Ela disse Já contei os mosaicos da casa-de-banho. São bastantes. Mas já esqueci quantos eram. Eu respondi Cá em casa não há mosaicos na casa-de-banho, como sabes. Só azulejos. São maiores. Serão menos, de certeza. Falava com ela enquanto descia as escadas do alpendre de olhos postos ao fundo do quintal.
Não sabia do cão e dos gatos. Deviam andar a passear alheios a toda esta situação de emergência. E ela disse Tenho comprimidos suficientes para um mês. Ainda bem!, saiu-me. Mas sim, ainda bem. Ainda bem por ela. Sabia como precisava dos comprimidos. Sabia como ficava sem os comprimidos.
Eu aproximava-me do fundo do quintal.
Ela disse Não tenho conseguido cozinhar. Tenho comido latas de conserva. Havia só dois dias que tínhamos ficado confinados em casa e ela já estava cansada. Esperava que conseguisse aguentar o tempo que fosse preciso. E vinha aí muito tempo. Muito tempo fechados em casa. Mesmo que ela quisesse agora aceitar o meu convite, eu não podia lá ir buscá-la. Ouvia as notícias que contavam das autoridades a patrulhar as áreas com mais densidade populacional para obrigar as pessoas a ficarem em casa. Já havia relatos de prisões. Já tinha lido no Facebook que tinham sido disparados tiros que tinham atingido algumas pessoas que teriam furado a quarentena. Para irem para a praia, dizia-se. Mas não sabia se era verdade ou não. Por aqui não se via polícias, guardas ou militares. É verdade que não tinha visto ninguém a passar aqui ao fundo. Mas ouvia vozes. Barulhos. Devia haver gente nos campos. A tratar das hortas. Dos pomares. Do gado. As pessoas aqui estão isoladas do mundo e aproveitam para furar o bloqueio. Devem andar de casa em casa. Eu estou por aqui. Sozinho.
Abri uma lata de atum com feijão frade. Nunca pensei gostar. Não é mau.
Cheguei ao fundo do quintal. Mandei fora a beata do cigarro. Baixei-me. Era um pássaro morto. Não estava ferido. Não via nenhum golpe. Não havia sangue. Estava morto mas estava intacto.
Está? ouvi lá do outro lado ela a sentir-se ignorada. Desculpa! disse, e continuei Descobri um pássaro morto aqui no quintal.
E depois senti o som seco de uma pancada um pouco mais ao lado, dentro do quintal. Fui até lá. Era outro pássaro que tinha acabado de cair. Igualmente intacto. Olhei à minha volta e não vi ninguém. Olhei para o céu e não vi nada. Olhei para a estrada e descobri mais dois pássaro caídos no asfalto.
Senti-me engolir em seco. Lembrei-me do copo de gin que tinha deixado na mesa lá em cima no alpendre. Tentei salivar para humedecer a garganta, mas não consegui. E disse-lhe para o telefone Tenho de desligar, e desliguei.
Comecei a andar mais depressa para o alpendre enquanto tentava ligar para o cento e doze. Interrompido. Para a polícia. Interrompido. Cheguei ao alpendre e bebi um grande gole de gin. Refresquei a garganta. Tentei ligar para a guarda. Interrompido. Acendi um cigarro. Vi cair mais dois pássaros no quintal. Tentei ligar para a linha de saúde, para o jornal da cidade, para a câmara municipal… Tudo interrompido!

[escrito directamente no facebook em 2020/03/14]

A História em Directo

O tipo está sentado à minha frente. Muito lá para a frente. À frente das câmaras que filmam tudo aquilo que diz. E eu vejo. E ouço. Ouço em primeira mão as histórias de um participante na história do meu país. Estou na primeira fila, na verdade em segunda que as câmaras estão primeiro que eu, a ouvir contar a história por quem a viveu.
Por vezes faço comparações. Entre o que ouço e o que sabia. O que julgava saber. A história não tem contemplações. Foi. Aconteceu. Por vezes vivemos enganados em ideias imaginadas e difundidas por outros que ouviram as mesmas história mas contadas em segunda, terceira, quarta mão. E quem conta um conto…
Passam as horas. O tipo não pára de falar. De contar eventos. De colocar a história no seu lugar. De recolocar a história no seu caminho. De colocar os pontos nos is. Quantas histórias existem na história? Quantas histórias a história concebe? Quantas são verdade? Quantas não passam de fantasia?
Os que a vivem fazem crer nelas. E fico ali, feito parvo, a ouvir falar do meu país como se fossem histórias de um qualquer filme de Hollywood.
Há pessoas que nos adormecem. Nem sempre na melhor das camas. Há outras pessoas que nos despertam, nos fazem tomar atenção e ansiar por mais conhecimento.
A luz cai. O dia da lugar à noite. Muda-se a luz. Mas continuamos em frente. O tipo não pára. É uma metralhadora de memórias. E dispara. Dispara sem parar. Dispara recordações. Se bem me lembro…
O tempo passa. Adormeço? Talvez. Acordo noutra realidade.
Vejo a figura do Primeiro-Ministro na televisão a avisar-me da emergência. Estamos em caso de emergência mas não tanto. Há decisões a tomar mas só se tomam algumas. Talvez as mais simples. Talvez. Há algumas decisões que parecem ser tomadas já demasiado tarde. Mas estamos todos a aprender coisas novas todos os dias. Há que ouvir os técnicos. Sim, claro. Há que ouvir os técnicos. Os técnicos é que sabem. Mas as decisões são políticas. São sempre políticas. E são os políticos que têm de tomar as decisões. Não podem fugir à responsabilidade.
Estou a viver a história em directo. Mas o que me fascina mesmo é a história contada à distância. Uma história já arrefecida e percebida. Uma história que me é contada por quem a viveu. E que me parece mais real que a história que eu vivo em directo que mais me parece um sonho que tenho acordado.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/12]

Cavalgar na Onda

Cheguei cedo de manhã ao Sítio. Dei umas voltas à procura de lugar para o carro. Todos os cantos estavam cheios de carros. Não havia um lugar vago. Era dia de semana e o Sítio da Nazaré estava cheio de gente de fora que tinha ido à caça das ondas gigantes.
Acabei por arranjar lugar já fora da localidade. A caminho do Pinhal do Rei, ao longo da Estrada Atlântica que faz toda a costa junto ao mar.
Voltei a pé até ao Sítio. Mochila às costas. Máquina fotográfica na mão. Desci em direcção ao forte. Mas acabei por não ir até lá abaixo. Estava muita gente. Muita confusão. Odeio confusão.
Optei por um cabeço acima do forte. Via as carecas dos mirones ao longo da estrada até ao forte e noutros cabeços mais abaixo. Mas ali estava bem. Sozinho e com uma boa vista para o mar. Estava toda a gente à espera. Ver as ondas gigantes e as pranchas a cavalgá-las requer tempo e paciência.
Sentei-me numa pedra. Estava sozinho ali naquele cabeço. Como companhia, o som das ondas que rebentavam nas rochas. Tirei uma sanduíche de paio com manteiga da mochila e pus-me a comer enquanto ia olhando as ondas, já grandes e imponentes, para mim, mas ainda não gigantes.
As pessoas continuavam a chegar. Muitas raparigas novas. Muitos rapazes em calções. Estava frio e vento. Mas havia muitos rapazes em calções. Eram estrangeiros. Toda a gente com máquinas fotográficas com objectivas muito melhores que a minha. Senti uma certa inveja. E pensei Sou igual a toda a gente. Inveja. Ciúme. Azedume. Sou um gajo como os outros.
Depois via os casais que circulavam por ali. Os grupos de amigos. E percebia o acentuar da minha solidão. Estava ali sozinho. Gosto de estar sozinho. Mas às vezes não.
No mar andavam as motos de água de um lado para o outro com os surfistas atrás. Estavam à procura da onda perfeita. Ou de aproximações. Mas nada. O mar estava bravo. Revolto. Com muita rebentação. As ondas não eram as ideais para montarem e deixarem-se levar.
Acabei a sanduíche de paio. Guardei a prata na mochila. Limpei a boca as mangas do casaco e acendi um cigarro.
Às vezes penso que fazer surf é como ir à pesca. É preciso tempo. Ter paciência. Esperar. Não sou muito de esperar. Não tenho muita paciência. Mas às vezes tenho que ter.
Passaram duas miúdas pelo meu cabeço. Eram estrangeiras. Há muitos estrangeiros por aqui, agora. Vinham de mãos dadas. Acenaram-me, simpáticas. Olharam o mar dali. Acharam longe. Continuaram em frente.
Caiu-me um pingo na cara. Olhei para cima. Para o céu. Vi cair pingos. Começou a chover. Puxei as golas do casaco para cima. Pus a câmara dentro do casaco. Ao fundo abriram-se alguns chapéus-de-chuva. Mas ninguém arredou pé. Toda a gente ficou onde estava. Iam para onde? Não havia sítio para onde fugirem. Não havia beirais. Árvores. Carros. Ou iam embora, de regresso ao Sítio e aos carros estacionados lá, algures, ou entravam em algum café, ou aguentavam a chuva que aí vinha. Foi o que eu fiz. Aguentei a chuva. Encolhido sobre mim. O cigarro molhou-se e apagou-se. Mandei-o fora. Mandei-o ao mar.
Estranhamente estava a gostar de estar ali. Estava frio. Fazia vento. Chovia. As ondas ainda não eram as melhores para ver uma corrida. Mas o estar ali, sentir o cheiro a maresia, ver o céu cinzento, muito escuro, um céu de fim-de-mundo, e um mar agitado e com muita rebentação que provocava um lençol de espuma junto à Praia do Norte, fazia sentir-me bem como há muito não sentia.
Estes últimos meses tinham sido complicados. Não conseguia trabalho. Estava a entrar na fase de gastar os últimos tostões que tinha escondidos em casa para uma emergência quando caiu este pedido para fotografar as ondas gigantes que se esperava que viessem a acontecer na Praia do Norte.
E ali estava eu. Na Praia do Norte. À espera. À espera debaixo de uma chuvada que, passado pouco tempo, parou como tinha começado.
As nuvens fugiram. O céu cinzento e escuro deu lugar a um céu azul, não muito limpo, mas o suficiente para tornar o dia mais alegre. E pensei que era uma premonição. Aquele dia era um retrato da minha vida. Depois da tempestade, a bonança. E assim ia passando o tempo. A ver se agarrava a esperança.
Entretanto, as ondas começaram a crescer e a vir mais redondas.
As motos de água voltaram a galgá-las.
Agarrei na câmara. Tirei uma fotos. Uma fotos soltas. Do forte cheio de gente. Da Praia do Norte. Da frente urbana da Nazaré brilhante com o sol que despontava.
E então, alguém agarrou uma onda. Comecei a disparar a máquina. Vi a moto a descer a onda para trás e alguém, solitário, a cavalgar a onda. Uma onda grande. Não gigante, mas grande. Grande o suficiente para causar medo. E dar umas grandes fotos. A rebentação perseguia a prancha e o rapaz que lá ia em cima e que se mantinha, sempre, à frente da onda destruidora. A fugir. E eu a disparar a máquina. Estava a tirar boas fotos. E o rapaz mantinha-se na prancha, sem cair, a deslizar pela onda abaixo e para o lado, a manter-se paralelo à terra, a ganhar terreno, a voar nas asas da prancha. A tentar ganhar tempo. E espaço. A fugir à crista da onda e da sua rebentação que começava agora, a ser mais forte. E eu a fotografar. E então, a rebentação apanhou o rapaz e a prancha, envolveu-o e chicoteou-o. Ele fora apanhado. Enrolado na confusão da rebentação que vinha onda abaixo. Eu deixei de fotografar. Olhei para o mar. Para a onda. Para a rebentação. Procurava um ponto negro. Procurava o rapaz. Procurava a prancha. Procurava qualquer coisa que me garantisse a segurança daquele surfista. Olhei. Procurei. Esperei.
Depois vi muita gente a correr para a Praia do Norte. A correr ao longo das arribas. A descer para a areia da praia. Eu agarrei na mochila. Desliguei a máquina. E virei costas ao mar. Não ia tirar mais fotografias naquele dia.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/16]

A Mulher Desaparecida

Íamos a meio da subida da montanha, quando o sol que estava fugiu e o céu escureceu de repente a ameaçar chuva. Ela ia um pouco mais à frente. Eu mais atrás. Não tínhamos roupa para a chuva. Tínhamos trazido um casaco, cada um, porque nos avisaram que Faz frio no alto da montanha!, mas nada para a chuva. Aliás, é Verão, faz sol, calor, quem é que vai pensar na chuva?
Acelerei o passo para a apanhar e não ter de estar para ali a gritar.
Olha, vem aí chuva!, disse-lhe mal consegui colocar-me ao seu lado. Ela não disse nada. Continuou a andar. E eu ainda disse Temos de encontrar um abrigo! Mas ela não me deu resposta. Continuou na sua caminhada imparável.
E foi então que a chuva caiu. Não chegou! Caiu, mesmo. Assim de repente. Com uma força doida.
Olhei em volta à procura de abrigo. Pareceu-me ver uma pequena cabana de pastores ou caçadores, não sei para quem servem estes abrigos. Se calhar a todos eles. Toquei nela a avisá-la. Apontei para o que me parecia uma cabana. Mas ela ignorou-me. A mim e à cabana. E continuou a andar. Eu fui ver se a cabana era mesmo uma cabana ou uma mera ilusão de óptica.
E era mesmo uma cabana. A porta estava aberta. Entrei. Estava quase vazia. Mas tinha algumas coisas para situações de emergência. Uma mesa. Umas cadeiras. Um pequeno fogão ligado a uma pequena bilha de gás. Que tinha gás. Um frasco de café, com café. Uma torneira. Com água corrente, se calhar de algum poço ou de algum veio freático. Pacotes de bolachas de água e sal. Uma pequena edição de bolso do Moby Dick de Herman Melville. Voltei a sair. Fui à procura dela. Chovia que Deus-a-dava. Dei umas voltas. Não a conseguia encontrar. Ainda a chamei Hey! Hey! Mas nem eu próprio me ouvia com aquela chuva, e não conseguia ver quase nada. Voltei para trás, para a cabana. Podia ser que ela a tivesse visto. Ou se lembrasse do que eu tinha dito. Talvez fosse lá ter. Talvez.
Voltei à cabana. Tirei a mochila das costas. Ainda tinha uma sandes na mochila. Cheirei o café. Acendi o fogão. Fiz uma cafeteira de café. Comi a sandes. Bebi o café. Acendi um cigarro. Olhei para a rua pela janela pequena e suja. Continuava a chover muito. Agarrei no Moby Dick. Era uma edição Inglesa. Larguei-a onde estava. Apaguei a beata. Sentei-me à mesa. Pousei a cabeça sobre os braços descansados sobre a mesa.
E devo ter adormecido.
Quando acordei, a chuva já tinha parado. O sol já tinha recuperado o céu. Olhei lá para fora. Nem uma nuvem.
Peguei na mochila e saí da cabana.
Doíam-me as costas de ter estado debruçado sobre a mesa. Mas continuei para cima. Fui à procura dela.
Um pouco mais à frente, o caminho continuava por um penhasco sobre o mar. Espreitei para baixo. As rochas. As rochas e as ondas do mar a bater-lhes com violência. Era uma imagem terrivelmente bonita. Tirei a máquina fotográfica. Fiz umas fotos do penhasco. Das rochas. Das ondas. Do mato por onde eu iria continuar a caminhar para subir a montanha. Antes de voltar a arrancar, bebi um bocado de água. E, então, fui.
Ainda demorei umas boas duas horas a chegar ao cume. Estava deserto. Eu estava lá sozinho. Ninguém ousou subir ao cume naquele dia. Mas nem ela ali estava. Dei uma volta. Olhei todos os lados da ilha. Pensei que gostaria de viver ali. Naquela solidão. Com galinhas para matar a fome e uma garrafa de vinho que nunca ficasse vazia para me matar a sede.
Podia plantar erva. Ninguém iria descobrir. Mas não sabia se o clima era o apropriado para a erva. Na verdade não sei nada destas coisas. Mas podia saber. Era só olhar no Google. Espreitei o telemóvel. Mas não havia rede.
Fumei um cigarro. Bebi mais um bocado de água.
Voltei a dar mais uma volta em torno do cume. Para ver se via alguém. Para ver se a via a ela. Mas não vi. Nem a ela nem ninguém.
E comecei a descida.
Quando regressei ao hotel, a primeira coisa que fiz foi perguntar se ela já tinha chegado.
Depois pensei que devia ir alertar a polícia. Mas foi nessa altura que decidi que, primeiro precisava de tomar um banho. Um banho quente e retemperador. Beber um copo de vinho. Petiscar um queijinho. E só então, alertar a polícia.
E é o que estou aqui agora a fazer, senhor agente. Avisar a polícia que perdi a minha mulher há uns dias, na montanha, quando começou a chover. E que amanhã tenho de me ir embora que no dia seguinte entro ao trabalho.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/08]