A Companhia do Meu Primeiro Cigarro do Dia

Nunca tinha reparado nela e, agora, vejo-a todos os dias. Por volta das oito da manhã, acendo um cigarro na varanda, e vejo-a a caminhar ao longo da rua até desaparecer lá ao fundo, e virar à direita, na esquina da pastelaria agora fechada. Ela não sai aqui do prédio. Já vem de baixo. Do início da rua. Não sei se vive aqui ou se só passa por aqui mas, todos os dias, todos os dias desde que estou fechado em casa, vejo-a passar lá em baixo.
Logo da primeira vez chamou-me a atenção porque não passava ninguém aqui em baixo na rua. Eram oito da manhã e eu tinha saído da cama, vestido uns boxers, e vindo à varanda fumar o meu primeiro cigarro do dia. Estava calor, nesse dia. A rua estava deserta. Esta rua que, num dia normal está cheia de gente que a percorre para cima e para baixo, esta rua que, a partir das oito da manhã começa a carregar as suas baterias com a chegada das carrinhas da panificadora, os camiões da cerveja, o pessoal das entregas da DHL, os empregados das lojas que empurram as montras para o passeio, as esplanadas que brotam de novo com mesas e cadeiras e chapéus-de-sol todos os dias, a senhora das flores que coloca vasos na rua, a escola de condução que estaciona a motorizada frente à entrada a apelar às aulas, agora está deserta. Mesmo o pessoal da câmara que, às vezes, e com ajuda dos bombeiros, vinha aqui dar uma limpeza geral, com mangueira, varrer as misérias presas às pedras da calçada, não têm aparecido agora. Agora e desde aquele primeiro dia em que toda a gente, ou quase toda a gente, ficou em casa para evitar a contaminação. Foi nesse dia o primeiro dia em que a vi, a passar lá em baixo, sozinha, na rua deserta, a caminho de qualquer lugar. Provavelmente trabalhar. Num daqueles trabalhos essenciais à nossa vida. Se calhar é repositora de lineares. Caixa de supermercado. Técnica de farmácia. Médica. Enfermeira. Polícia não me parece. Pelo menos daqui de cima. Tem o cabelo loiro. E eu nunca conheci uma agente da polícia com o cabelo loiro.
Agora já não me levanto todos os dias para vir aqui à varanda fumar um cigarro. Agora levanto-me todos os dias para a ver passar lá em baixo. Vai sempre bonita. Bem arranjada. Eu, desde que estou para aqui fechado em casa, ando de boxers, às vezes nu, quando está frio visto um fato-de-treino, que é o que levo à rua se preciso de sair para ir ao supermercado ou à farmácia, ou então visto uma roupa velha, as calças de ganga de pernas largas, as t-shirts que usava para dormir, as sapatilhas rotas, as meias sem elástico, porque regresso a casa e vai tudo para lavar a quarenta graus, e eu de regresso ao duche. Ela não. Ela vai sempre elegante. Como se fosse para alguma festa, mas não será para uma festa porque agora não existem festas. É só uma miúda que gosta de se arranjar e ainda bem, porque gosto de a ver assim arranjada, às vezes de calças de ganga, sapatilhas All Star, outras vezes de saia e camisa, também já a vi de vestido, um casaco por cima, meias de vidro, tudo de várias cores, não sei se tem uma preferida que já lhe vi a colecção da Pantone. O meu guarda-roupa é essencialmente preto e cinzento e o azul das calças de ganga. Um guarda-roupa triste e melancólico. Ela é uma miúda alegre e que me alegra. Agora já preciso dela diariamente para me marcar o arranque do dia. Preciso de a ver. Começo a ter com ela, uma miúda com que nunca falei, mais afinidade que com as minhas ex-mulheres. Imagino-a cheirosa, o cheiro do banho acabado de tomar e talvez o aroma fresco de um perfume leve. O sorriso, que nunca lhe vi, plantado na cara. E uma conversa sem fim.
No outro dia pensei no dia em que não a vir passar. Pensei no dia em que chego à varanda, acendo um cigarro e ela não passa lá em baixo na rua. Nesse dia deprimi um pouco. Cheguei a ter vertigens na varanda. Espero não voltar a deprimir mais. Espero que ela continue a passar. Espero que continue a fazer companhia ao meu primeiro cigarro da manhã.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/18]

Uma História de Amor

Conheci-a no dia em que o pai morreu. Entrei no bar. Sentei-me ao balcão. Pedi um gin tónico, Pode ser Bombay, disse, e ouvi uma fungadela ao meu lado. Era ela. Estava a chorar. Ofereci-lhe um lenço. Aceitou. Depois de ter bebido o meu gin, ofereceu-me ela outro. Aceitei. Conversou comigo. Foi aí que soube que o pai tinha acabado de morrer. Estava no hospital e tinha acabado de morrer. Ela largou toda a gente no hospital o pai, a família, os amigos, o namorado e foi dar uma volta a pé pela cidade. Começou a chover. Entrou naquele bar. Bebeu um whiskey. Começou a pensar no pai. Na ausência do pai. Na falta que já sentia. Começou a chorar. E eu ofereci-lhe um lenço.
Foi nessa altura que vi como era bonita. Cabelos castanhos, nem muito escuros nem muito claros. Um pouco abaixo do ombros. Tapava-lhe o pescoço quando vista por trás, e eu sei porque vi quando fui à casa-de-banho e, ao regressar, regressei pelas costas dela.
Tinha uma voz doce, embora naquela altura estivesse um bocado amargurada. Mas percebia-se a doçura que lá estava. Era calma a falar. Mesmo no meio de toda aquela tristeza. Tinha os dedos esguios, compridos e finos, numas mãos elegantes, nem muito grandes nem muito pequenas. Eu reparei quando ela colocou a mão em cima da minha e me convidou para ir à casa dela. Eu lembrei-me dela ter mencionado um namorado. Hesitei por momentos. Mas momentos tão curtos que acho que ela nem se apercebeu da minha hesitação.
Entrei em casa dela nessa noite e nunca mais saí de lá. A partir desse dia aconteceu uma história de amor. Uma verdadeira história de amor. Como a dos romances de cordel. Eu gostava dela, ela gostava de mim e vivemos felizes para sempre. E foi mesmo isso que aconteceu. Vivemos felizes para sempre.
Estou a falar disto agora porque se acabou o Para sempre. Ela morreu. Morreu de morte natural, ao contrário do pai dela. Já estávamos velhotes. Ela e eu. Ela já foi e eu hei-de ir. Já não falta muito. Eu devia ter ido primeiro. O que é que estou aqui a fazer sem ela?
Acho que fiquei por cá para contar esta pequena história.
A nossa história começou com uma morte e acabou com outra. Primeiro o pai dela, agora ela. No meio, uma história de amor com final feliz. Mas o que ela não sabia, nunca soube, nem ninguém mais soube, foi que houve outra morte nesta história. Uma morte que só eu é que soube que acontecera. Quer dizer, toda a gente soube da morte, mas ninguém nunca soube como é que verdadeiramente morreu. Só eu. E sei porque estava lá. E fui o responsável pela morte. Pela morte do namorado dela. Para toda a gente foi um suicídio. Mas não foi.
Estávamos, eu e ela, a viver juntos já quase há um mês. O pai tinha morrido, tinham feito o funeral e a missa de sétimo dia quando, uma noite, depois de ter ido jantar um prego no pão ao balcão de uma tasca no centro da cidade, perto do sítio onde estava a trabalhar, era já tarde e resolvi comer um prego no pão antes de ir para casa, quando fui abordado por um tipo. Não o conhecia de lado nenhum. Mas ele conhecia-me. E apresentou-se. Era o namorado. O ex-namorado dela. Então primeiro apresentou-se e em seguida ameaçou-me. Que eu não sabia quem ele era, mas que não era flor que se cheirasse (palavras dele), e que sabia que ela ainda gostava dele só que estava desnorteada pela morte do pai e eu tinha ajudado a esse desnorte. O melhor a fazer era afastar-me. Eu ouvi-o. Mais por educação que por respeito. Eu nunca disse nada. Limitei-me a ouvir. No fim, quando percebi que já tinha debitado todas as ameaças para que eu enfiasse o rabo entre as pernas e saísse de casa dela, da vida dela e do amor dela, virei costas e fui para o carro. Estava ao volante do carro quando o vejo virado para mim, levar a mão à cabeça a formar um pistola e fazer um gesto com a boca que, na minha cabeça, ressoou como Bang!
Pus o carro a trabalhar. Fiquei ali uns momentos a olhar para ele com a mão em pistola na cabeça, até que começou a rir, a rir à gargalhada. Cínico. Eu meti a primeira, pisei o acelerador e arranquei com o carro para cima dele. Ao aproximar-me, guinei o volante para a direita mas, ele já se tinha assustado e tinha mandado um salto para a esquerda e acabou a pular o muro que dava para a linha do comboio que ali, naquela zona da cidade, passava desnivelado da estrada, e caiu no meio da linha no momento em que o comboio ia a passar.
Eu ainda parei o carro. Olhei para o muro. Percebi o comboio a passar. Ouvi o comboio a apitar. Percebi o comboio a travar. E fui embora. Não queria saber mais do que tinha acontecido. Talvez não tivesse acontecido nada. Talvez tivesse acontecido alguma coisa. Mas não queria saber. Queria apagar aqueles últimos minutos da minha cabeça. Queria esquecer. E esqueci.
Vivi… Quantos anos?… Mais de trinta anos com ela. Vivi… Vivemos uma verdadeira história de amor. Um com o outro. Eu esqueci o que tinha acontecido. O ex-namorado tinha realmente morrido na linha do comboio. Atropelado pelo comboio. Foi considerado suicídio. Por algum tempo, ela culpou-se por o ter deixado da forma que deixou. Mas passou. Tudo passa, não é?
Foi depois da morte dela que me lembrei daquela noite. Foi depois da morte que me lembrei onde estava ancorada a nossa felicidade.
É por isso que eu tenho de fazer o que vou fazer. Tenho de fechar o círculo. Espero conseguir levantar as pernas por cima do muro. É que o corpo já não me obedece como dantes.
Já vou ter contigo, meu amor.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/08]

Uma Brasileira na Rua Direita

Fazia a Rua Direita. Caminhava devagar à procura do número. A numeração não era certa, ou então tinha-a perdido lá para trás. Havia saltos de números e os mesmos números com A e B e até C. A rua estava um bocado decadente. Lojas fechadas. Casas degradadas. As portas da rua das casas abertas ou inexistentes. Candeeiros públicos sem iluminação. As poucas lojas em funcionamento tenham pouca ou nenhuma luz nas montras e as montras não eram feitas há muitos anos. Se calhar, desde o primeiro dia, desde o dia de abertura de portas que as montras se mantinham inalteradas. Havia uma montra com um papel, escrito à mão, a informar Montra em Execução, e eu só me perguntava, em silêncio e de mãos nos bolsos, Que montra?
Em todas as cidades há uma Rua Direita. Quase sempre é uma rua torta, esconsa e que já viu melhores dias. Esta também era assim. Enorme, eu fartei-me de andar, aos esses, numa rua aos esses e em fim de ciclo. Mas este era também um mal dos centros históricos das cidades, estrangulados lentamente pelos centros comerciais luminosos e com parques de estacionamento gratuito nas periferias das cidades e a especulação imobiliária que tentava aguentar os prédio quase vazios até morrerem todos os velhos que os habitam e depois apresentar, na Câmara Municipal, um projecto de recuperação da zona. Há sempre uma recuperação da zona histórica para encher os bolsos a alguns. No outro dia vi uma caixa multibanco colocada num buraco feito numa muralha histórica. Depois da queixa da população, retiraram a caixa multibanco e taparam o buraco com cimento. E assim vão as cidades, vivendo desgraçadamente entre remendos e ambições desmedidas da ganância alheia.
Mas às vezes havia gente que punha estas casas degradadas a render. Eu procurava uma casa dessas. Tinha visto o anúncio no Correio da Manhã Jovem brasileira nova na cidade. No centro da cidade. Com número de telefone. E eu telefonei. Precisava de telefonar. Precisava de umas mãos suaves de uma mulher no meu corpo velho, ressequido e triste. E telefonei. Ouvi a voz da brasileira. Era na Rua Direita. E fui assim para a Rua Direita. À procura do número que a brasileira me dera.
Depois de muito caminhar ao longo da Rua Direita, lá encontrei o número. Olhei o pequeno prédio. Sem luzes nas janelas. Uma antiga loja fechada no rés-do-chão, com a montra tapada com folhas de jornais. Folhas do Correio da Manhã. A porta da rua estava aberta. A casa tinha porta da rua, uma porta de madeira, e estava fechada, fechada mas aberta, encostada, porque o trinco não funcionava, e eu empurrei a porta para trás e a porta abriu e eu entrei e procurei o interruptor da luz das escadas e não encontrei e acabei por acender a luz do telemóvel e subi as escadas até ao primeiro andar, como a brasileira me tinha dito para fazer, e depois bati à porta da direita. Ao subir as escadas íngremes, sujas e tristes, pensei que tinha feito bem em ter levantado só duas notas de vinte euros e não levar mais dinheiro comigo. Nunca se sabe onde se vai quando se vai a sítios como este. Nem se sabe quem se vai encontrar quando nos vamos encontrar com alguém que não conhecemos. Mas depois, despimos-nos com a facilidade do desejo que nos come a alma e o corpo. É a tesão. E já não queremos saber de mais nada, nem de medos e de onde é que nos metemos e com quem, porque depois só manda a lei da tesão. E era para isso que eu estava ali, para me libertar da tesão às mãos jovens de uma bela brasileira.
Subi ao primeiro andar. Bati à porta. Ninguém respondeu. Voltei a bater com as nozes dos dedos da mão direita, enquanto a esquerda aguentava a lanterna feita do telemóvel. Estava para dar meia volta e ir embora, desiludido, quando a porta se abriu. Vi, em contraluz, um corpo na transparência de uma combinação. Uma cabeleira volumosa. O corpo parecia elegante. E uma voz disse Oi!, enquanto abria a porta para trás e me franqueava a entrada. E eu entrei. Levei dois beijinhos na cara. Senti um cheiro demasiado doce, talvez baunilha, vindo da jovem brasileira. Agoniei-me. Ela conduziu-me para o interior da casa. Não passámos por lado nenhum. Fui levado directamente para um quarto. Ela tirou-me o casaco. Agora que já não estava em contraluz, a jovem brasileira já não parecia tão jovem. Nem tão elegante. Nem sequer era bonita. Tinha buracos na cara. Talvez de bexigas. Os cabelos volumosos mudavam de cor entre o preto da raiz e o louro das pontas. Senti uma certa repulsa. Mas já ali estava e ali acabei por ficar. E ela disse Despe-te que eu já venho, e deu-me um beijo na cara e passou a mão pela minha pila, prometendo-me o céu, e saiu do quarto e eu despi-me rápido e sentei-me nu em cima da cama e comecei a olhar para a coberta da cama e pensei que era melhor nem pensar em olhar para a coberta da cama. Suspirei. A porta abriu-se. A não-tão-jovem-assim brasileira regressou ao meu convívio. Aproximou-se. Empurrou-me sobre a cama, sentou-se em cima de mim e eu senti uma picada no braço.
Depois não senti mais nada.
Quando acordei estava sozinho na cama. Estava com dores. Com dores no corpo. Mais tarde percebi que tinha uma costura nas costas. Não havia luz. Procurei o telemóvel. Não havia telemóvel. Procurei a minha roupa. Encontrei-a. Vesti-me. Vesti-me com muita dificuldade. Saí do quarto. Saí do quarto a apalpar as paredes da casa até chegar à porta da rua. Saí da casa. Saí do prédio. Regressei à rua. À Rua Direita. Doía-me o corpo. Tinha sangue nas mãos. Arrastava os pés. Procurei outra rua. Procurei um táxi. Pedi o hospital.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/03]

Um Mergulho na Piscina

A miúda chegou. Foi ter com os outros miúdos. Mandou os chinelos a voar. Tirou logo as calças. A blusa. Largou tudo no chão. Depois fez pose para mostrar o fato-de-banho novo. Reduzido. Fluorescente.
Eu estava no meu canto. Sentado na cadeira. À sombra de um chapéu-de-sol. Quantos anos teria a miúda?, pensei. Dezasseis? Dezassete? Não, definitivamente não. Dezoito anos. Decidi que tinha dezoito anos para não ser atormentado pela culpa. E continuei a olhar para a miúda à beira da piscina, em pose para o grupo de amigos, a mostrar o corpo, o fato-de-banho, aquele conjunto que tapa-e-revela.
E, no fim de tudo, eu ainda gostava de olhar para as miúdas.
Ela virou costas ao grupo e mandou um salto para a piscina, e mergulhou, com as mãos à frente do corpo.
Eu senti um tremor. Imaginei que senti um tremor quando a vi mergulhar na água da piscina. Mantive o olhar ansioso sobre as águas. Sentia umas gotas de transpiração a escorrer-me pelas frontes.
Vi-me há trinta anos atrás. Vi-me assim, num estúpido ritual de acasalamento qualquer. Numa brincadeira animalesca para gáudio dos meus amigos. Para brilhar aos olhos das miúdas. Corri. Corri ao longo da relva da piscina, uma correria elegante, o corpo direito, os braços a cortarem o ar, os cabelos a esvoaçarem sobre os olhos, cheguei à zona das lajes, senti um ligeiro escorregar dos pés, mas percebi-os suficientemente seguros para ganhar impulso, saltar para o ar, sobrevoar a água cheia de cloro, sentir-me o super-herói da piscina, as miúdas de boca aberta, espantadas com a elegância do meu salto, o mergulho na água como uma agulha, a escapar ao atrito, a furar o espelho de água como se fosse uma vara e ir fundo dentro da piscina e esqueci-me que ali, daquele lado, a piscina era baixa, e já ia tarde quando me lembrei, e foi nesse preciso momento em que me lembrei que senti a cabeça a bater no fundo da piscina e senti a dor, um choque eléctrico, e desapareci de mim, deixei de me recordar do que quer que fosse, que já não era eu, pelo menos não era eu acordado, consciente, e só voltei a tomar-me por conta numa cama de lençóis brancos e impecavelmente esticados, e algumas pessoas ao meu lado, reconheci nelas a minha mãe, o meu pai e vi-os a chorar e percebi o que lembrava de ter percebido logo no momento imediatamente antes de apagar e ficar tudo negro Estou fodido! E estava. Estava fodido. E o mundo acabou ali. Naquela cama de hospital.
Nunca chorei.
Passaram muitos anos. E agora estava ansioso por causa do mergulho da miúda. Não devia ter vindo aqui, à piscina.
Revirei os olhos para o lado e disse à rapariga que estava sentada, não muito longe de mim, a ler um livro, não consegui ver a capa, não sei que livro era, e disse-lhe Leva-me daqui. Ela pousou o livro no chão. Vestiu-se. Arrumou as suas coisas e colocou as mãos sobre a cadeira, destravou-a e começou a girá-la . Eu ainda tive tempo de ver a miúda a subir as escadas para sair da piscina e ir, molhada, ter com o grupo de amigos que a esperava deitado sobre a relva.
Eu suspirei aliviado. Mas ainda sentia umas gotas de transpiração a correrem-me pelo pescoço abaixo. A rapariga, baixou-se enquanto empurrava a cadeira e disse-me Foi uma boa manhã. Temos de cá voltar.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/05]

Helena

Helena.
É um bonito nome para uma senhora. Talvez com os seus, já quase, cinquenta anos. Mãe de dois filhos. Talvez um casalinho. Mas já crescidos. Ele a acabar a Faculdade. Ela grávida da sua primeira criancinha e prestes a tornar a mãe em avó. Mas uma mãe, ou avó, elegante. Bonita. O tempo passa lento por ela. Ainda ouve piropos na rua. Não liga. Nunca liga. É uma senhora. E sabe o quanto é bonita. E inteligente.
Agora, como nome de depressão, não o consigo percepcionar. Isto lá é nome para uma depressão? Para uma depressão atmosférica? Chuva a rodos. Ventania infernal. Nuvens escuras, cinzentas e pretas. Frio. Geada. Tempo de Inverno. De melancolia. De tristeza. De chá quente e pieira nos pulmões. Porra! Helena?
Uma vez conheci uma Helena.
Estava no Parque de Campismo do Pedrogão. Ela era irlandesa. Da República da Irlanda. Tínhamos a mesma idade. Mas ela era bonita. Simpática. Culta. Falava muito bem inglês. Não sei o que viu em mim.
Eu estava a jogar futebol de salão. No ringue ao ar-livre do Parque de Campismo. Eu estava na equipa sem camisolas. Naquela altura não tinha esta barriga de anos a beber cerveja. Talvez fosse isso. Ausência de fermentação.
Houve uma pausa no jogo. Fui fumar um cigarro. Ela aproximou-se. Pediu-me um. Ofereci-lho. Agradeceu. Sorriu. E depois ficou por ali. Fumou-me o resto dos cigarros enquanto eu jogava à bola. Mais tarde, depois do jogo, depois do banho, depois de ter passado uma hora a experimentar qual a t-shirt certa para aquela noite, depois do jantar, encontrei-a na esplanada do café do Parque. Convidei-a para sair. E ela saiu. E foi uma bela semana. Uma semana em que andámos juntos todo o tempo. De dia e de noite. E no fim chorámos a despedida.
Não! Não, porra!
Essa não era a Helena. Essa era a Karen.
A Helena era na verdade Helen e era alemã. Também falava inglês melhor que eu. Um pouco mais velha. Também era bonita. Usava umas sandálias de couro e umas calças do cocó. Às vezes não tomava banho. Essa não fumava os meus cigarros porque fumava tabaco de enrolar. Andava a passear de mochila às costas com outra amiga cujo nome esqueci. Também chorámos na despedida. Eu e a Helen.
Esse foi um ano de muito choro bom.
As Helenas são sempre boas raparigas. Com excepção das depressões. Essas não são grande merda. Mas as Helenas, as verdadeiras Helenas, mesmo que se chamem Karen ou Helen, essas são sempre maravilhosas.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/01]

A Revolução em Marcha

Este é um grande país, afinal. Cheio de gente valorosa. Voluntariosa. Inteligente. Mas nos lugares errados. Com os caminhos tapados.
Estava a ler os comentários às notícias do dia. Os comentários que o povo anónimo escrevia sobre as notícias reluzentes da actualidade. As notícias sobre política, economia e finanças. Também sobre futebol. Sim, eles tinham razão. O povo. As elites estavam erradas. Enredadas nas suas obrigações. Atoladas na corrupção. No compadrio dos pequenos chefes de secção. As elites ajudavam-se entre elas. Construíam o seu próprio condomínio fechado. Porta fechada a sete-chaves. O povo estava a descobrir isso. No início nem ligou. Era lá entre eles. Mas depois começou a pagar a factura. E começou a irritar-se. A ver os outros a irritarem-se noutros lados. Era preciso mudar o estado das coisas. Era preciso saltar das caixas de comentários para a rua. Era preciso colocar a revolução em marcha. Era preciso substituir a velha razão de estado pelo novo pragmatismo social. O que estava em baixo tinha de passar para cima.
Foi o que aconteceu em França. Em Inglaterra. No Brasil.
O um por cento devia ser substituído pelos noventa e nove por cento. As ajudas do estado não podiam mais ser aos bancos, mas às famílias. O risco sistémico não era mais o descalabro das finanças que sobrevivia mal aos erros sucessivos do CEO com mais olhos que barriga. O risco sistémico era o do suicídio em massa de quem não tinha comida para pôr na mesa, para colocar na boca dos filhos.
Eu resolvi fazer a minha parte.
Tomo banho. Um duche quente. A escaldar. Vejo a minha pele a ficar encarnada. Faço a barba. Duas vezes. Corto-me. Faço algum sangue. Estanco-o com pedaços de papel higiénico. Quero ficar limpo. Passo after-shave pela cara. Arde. Dou duas palmadas.
Visto um fato. Um fato azul escuro. É a primeira vez que visto um fato. Camisa branca. Gravata às riscas em vários tons de azul. Uso os botões-de-punho do meu pai. Calço sapatos de sola. Sinto-me elegante.
Pego na pistola e coloco-a à cintura. À frente. Entalada entre o cós das calças e a barriga. Amarrota um pouco a camisa. Mas não faz mal. Aperto um botão do casaco. Estou elegante.
Entro no carro. Vou devagar até à casa dela. Páro o carro a certa distância. Vejo a porta de saída. Aguardo pelo momento certo. Substituir o velho pelo novo. O amante há-de sair por ali. E quando sair, começa a revolução. Um tiro. Quando ele sair pela porta da rua, eu saio do carro. Aproximo-me dele e disparo. Limpo o meu caminho. Recupero o tempo perdido. Começa a revolução.
Vejo a porta a abrir. Vejo o amante a sair pela porta da rua. Coloco a mão na arma, antes de sair do carro. Ouço um som forte. Sinto uma picada… Um murro.
Foda-se!
Olho para baixo. Vejo uma mancha de sangue a alastrar pela camisa branca. E não pára. O vermelho come o branco. Vem em jorro. Porra! A vista começa a ficar turva. Levo a mão à porta. Quero abri-la mas não consigo.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/29]

Campo de Trevos

Em frente a casa há um pequeno terreno cheio de trevos. Todos os anos, por esta altura, está sempre tudo verde. Mas começa lá mais atrás, para o final do ano que ficou. Começa quando o tempo arrefece. Ou, pelo menos, a ficar menos quente.
É um manto de verde que se estende como um tapete, aqui em frente. Durante a noite, e até o sol nascer, os trevos são como uma seta, com as folhas recolhidas, transformando-se num triângulo aguçado, apontado a céu. Mal o sol desperta, as folhas também despertam e abrem-se para receber o dia.
Costumo deitar-me entre os trevos a fumar um cigarro. A olhar as nuvens a passar lá em cima. A ver formas. A descobrir animais. A reconhecer caras. Sinto as formigas a passar sobre mim. Há sempre uma formiga. São trabalhadoras. Estão sempre à procura de comida. Às vezes picam-me. Às vezes também passam por cima de mim outros bicharocos que não sei o que são. São besouros, acho. Talvez sejam outras coisas. Mas são descarados. Passeiam sobre mim. Sobre o meu corpo. Por cima da roupa. Pela cara. Já os apanhei a entrar-me pelas calças acima e a caminhar pelas pernas. Fazem-me cócegas. Só evitam a mão que agarra o cigarro. Acho que não gostam do fumo do tabaco.
Os gatos aqui de casa também gostam de vir para aqui brincar. Andam às turras uns aos outros. Às vezes também aparecem os gatos da vizinhança. Como ontem.
Não sei se é da Lua, se a gata-mãe anda com o cio ou se são os gatos que andam doidos. Vêm a gata-mãe a passear, a mover os quadris, de rabo levantado, focinho muito direito, arrogante, elegante, dona e senhora do seu nariz e ficam desvairados.
Ontem apareceu um siamês. Nem sei de onde é que ele veio. Não conheço nenhum siamês aqui perto. Abri a janela do quarto e o cabrão do gato estava em cima da gata-mãe. A gata miava. Olhou para mim, quando abri a janela, e miou. Fiquei furioso. Furioso que um gato, que não sei de quem é, me venha foder a gata e, ainda por cima, no meio do meu campo de trevos. O mesmo campo de trevos onde costumo estar deitado, em comunhão com a natureza enquanto me evado para sítios que não conheço. Saí de casa. Agarrei num seixo que estava no alpendre, corri para o campo de trevos e gritei Oh meu caralho! o que é que estás aqui a fazer? e ele olhou assustado para mim, saiu de cima da gata-mãe, que fugiu, e ficou parado a olhar para mim, sem saber o que fazer. Eu levantei o braço. Ele fugiu. Mandei o seixo e acertei-lhe no lombo. Andou um pouco de lado. Não lhe fiz mal. Mas devo tê-lo assustado. Espero que não volte aqui. Espero que não venha incomodar a gata-mãe. Espero que não me venha irritar outra vez. Ah, cabrão! Se te apanho!, gritei enquanto o via a fugir, lá ao longe.
A gata-mãe regressou. Roçou-se nas minhas pernas. Miou. Acendi um cigarro. Deitei-me entre os trevos. A gata deitou-se em cima de mim. Em cima da minha barriga. Acompanhava a minha respiração para-cima-e-para-baixo. Arranquei um trevo. Tinha três folhas. Nunca vi nenhum trevo de quatro folhas. Acho que não tenho sorte.
Tenho sorte, sim. Sorte de ter este campo de trevos debaixo de mim e de uma gata-mãe a fazer-me companhia. E um cigarro na mão.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/04]

A Minha Mãe Queria que Eu Fosse Tão Elegante como o Meu Pai

A minha mãe olhava para mim e dizia Porque é que não és como o teu pai?, mas não para ser ele, ou ser parecido com ele, mas para ser mais como ele.
O meu pai era elegante. Sempre de fato. Calças, casaco, camisa, gravata e, às vezes, até colete. Usava botões-de-punho. Tinha vários diferentes, para as diferentes camisas e diferentes ocasiões. Eu poderia tentar explicar como é que determinado botão-de-punho era para determinada camisa. Mas não sei. É uma ciência que me transcende. O meu pai sabia. E tentou ensinar-me. Mas não tive ouvidos.
O meu pai fazia a barba todos os dias de manhã. Eu acordava, geralmente, com ele a fazer a barba. Fazia quase sempre com lâminas. Pincelava a espuma na cara e depois raspava. Quando estava com muita pressa fazia à máquina, mas não gostava. Dizia que Não fica como deve ficar. Depois massajava-se com after shave. Um dia ofereceu-me uma navalha para a barba. Nunca a utilizei. Não sei utilizar. Era raro que ele utilizasse mas, uma vez, fez-me a barba a mim, com a navalha. E depois colocou-me um pano quente sobre a cara acabada de ser escanhoada. Deve ter sido a última vez que a minha cara ficou livre de pelos.
Nunca vi o meu pai usar calças de ganga. Aquelas que até Primeiros-Ministros de países do Primeiro Mundo usam quando visitam países do Terceiro Mundo. Muito menos calções. Calções de banho, sim. Nas poucas vezes que foi à praia.
Também nunca vi o meu pai calçar sapatilhas. Muito menos ténis. Talvez tenha usado alpercatas nos tempos de mocidade, mas nem ele se devia lembrar de tal heresia.
De Inverno usava, geralmente, uma gabardina ou um sobretudo sobre o fato. Gabardina em dias de chuva ou de vento. Sobretudo em dias frios. Cheguei a roubar-lhe algumas gabardinas. Principalmente na minha fase urbano-depressivo. Gabardinas de três-quartos. Escuras. Cinzento escuro.
Nunca usou botas. Sempre sapatos. Sapatos de sola. Nunca de borracha e muito menos de plástico. O que me complicou a vida quando quis comprar umas Doc Martens.
De Verão usava calças mais leves, mas sempre impecavelmente vincadas pela minha mãe, e camisas leves de manga comprida. Não usava mangas curtas e, no Verão, prescindia da gravata. A não ser que usasse casaco por algum motivo e, então sim, usava gravata. Nessa altura usava uns sapatos mais leves, com uns furinhos em cima, no couro, a formar desenhos.
O meu pai usava óculos. Óculos de ver. E em toda a vida, deve ter mudado de armação, não mais de quatro vezes. É aqui que sou mais parecido com ele. Agora também uso óculos para ver que estou a ficar velho e os livros que fui lendo ao longo da vida gastaram-me a vista, mas sempre usei óculos de sol, que tenho uma vista com muita sensibilidade à luz. A iluminação branca, fluorescente, dá-me nervos e é capaz de me levar a cometer actos de loucura. E em toda a minha vida devo ter usado quatro ou cinco armações diferentes.
Em casa o meu pai usava roupão por cima do pijama. Eu nunca uso pijama. Já usei quando a minha mãe me obrigava. Quando deixou de me conseguir obrigar, deixei de usar. Gosto de boxers. E t-shirt. E, na hora de dormir, nem uso um pingo de Channel 5. E roupão, foi coisa que nunca usei na vida. Faz-se sentir preso. E eu não gosto de me sentir preso.
A última vez que entrei em casa da minha mãe ela perguntou És tu, menino?, e eu disse Sim, sou eu!, e ela perguntou-me se por acaso eu era algum menino. E disse-me Senti logo, pela falta do after shave, que não era o teu pai. E quando te vi assim, maltrapilho, nessas calças de ganga todas ruças, nessa camisola que já deve ter sido um dia, há muito anos, branca – quem é que te lava a roupa? podia por um bocadinho de lixívia para desencardir -, e com essas sapatilhas todas sujas e rotas – como é que consegues andar assim, meu Deus? – percebi logo que não era o teu pai. Que desgosto, filho.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/21]

A Mulher que Nunca Acabava uma Conversa

Ela era uma daquelas mulheres que nunca acabam um assunto, vão assim despejando coisas ao longo dos tempos como se a conversa ainda lá estivesse, em banho-maria. E ia despejando as ideias como se fossem arrotos. Iam saindo. Aos solavancos.
Às vezes não percebia muito bem para onde é que caminhava a conversa. Quando julgava que já estava terminada, lá vinha um Portanto, um Assim, um Contudo ou ainda um Ou se quiseres, como se eu quisesse alguma coisa. Não, não queria!
Chegava a acontecer a conversa prolongar-se por vários sítios, entrando na conversa com várias pessoas diferentes, prolongando-se no tempo e no espaço, sem nunca perder o fio-à-meada.
Também no Facebook era assim. Talvez pior. Escrevia um post. Depois editava-o. Duas vezes. Três vezes. Havia posts que já não tinham nada a ver com os posts originais, tal a quantidade de edições. Chegava, inclusivamente, a responder a si própria para continuar uma estória sem fim.
Era cansativo. Ela era uma mulher cansativa.
Mas era interessante. Culta. Inteligente. Elegante. Lia. Gostava de pintura. Conhecia vinhos. Gastronomia. Acompanhava todos os programas de comida que passavam pela televisão. Claro que, na vida real, não comia glúten, nem lactose, nem gorduras, nem fritos, nem açucares. Procurava sempre as coisas light, qualquer coisa free, magro, com omega 3, cálcio. Uma lista interminável de coisas. E depois passava a vida na casa-de-banho. Nunca percebi se era causa ou consequência.
E então, uma vez virou-se para mim, ia eu a conduzir o carro, ela ia ao lado, no banco do pendura, e disse Isto não vai a lado nenhum. Eu já estava um pouco farto e aproveitei a deixa para sair. Encostei o carro à berma, abri a porta, saí e fui, a pé, em frente. Ela ainda me chamou algumas vezes. Ouvi-a gritar pelo meu nome. Mas não me quis virar. Alguém tinha de pôr um ponto final numa conversa que nunca mais terminava.
Ainda não tinham passado vinte minutos quando cheguei ao fim da estrada. Era uma estrada sem saída. E aí percebi a conversa dela Isto não vai a lado nenhum, pois não. Mas não podia dizer que estava a falar da estrada? Que porra!
Peguei no telemóvel. Sem rede. Voltei para trás a pé. Cheguei ao ponto de onde tinha partido mas o carro já não estava lá. E ela também não.
Entretanto passaram-se dois dias. Tenho a cara a arder por causa dos pêlos da barba. Há dois dias que não faço a barba e não estou habituado a ter pêlos na cara. Estou com fome. Só comi umas amoras selvagens que encontrei ali, numas silvas. Bebi água do pequeno ribeiro que cruzei ontem. Fiquei com diarreia. Não tenho papel. Não tenho lenços de papel. Já me perdi. Acho que ando aqui às voltas e não encontro a estrada de regresso. Ainda não vi nenhum carro. Continuo sem rede no telemóvel. Não tenho cigarros. Para quê, cigarros? Não fumo. Está bem, mas podia começar. Talvez me aliviassem os nervos. Está a ficar escuro. Acho que vai chover. Não tenho onde me abrigar. Não sei para onde ir. Tenho saudades dela. Gostava das conversas que tinha com ela. Gostava de a ouvir falar. Quando é que é o Festival da Canção?

[escrito directamente no facebook em 2018/07/20]