Uma Desgraça Nunca Vem Só

Naquela época, a civilização começava em Aveiras. As despedidas da província eram feitas no Pôr-do-Sol 2, encostados ao balcão, agarrados a um pão com panado e uma Coca-Cola, ou uma mini para os mais afoitos que naquela altura a polícia não andava a perseguir os alcoolizados ao volante, e depois de uma bica de café queimado, o ingresso na estrada do futuro em direcção à capital.
A primeira vez que entrei na estrada da civilização ao volante de um carro, foi com um Fiat 127 branco nas mãos. O meu segundo carro. O primeiro tinha sido um Simca, também branco, com motor atrás e um saco com cinquenta quilos de areia à frente para o carro não levantar cavalinho, mas com ele não me arriscava a tão longa viagem. A minha experiência mais louca com o Simca tinha sido de Leiria a São Pedro de Moel, à noite, depois de jantar, depois da noite de Leiria fechar, e estar meia-hora parado nos semáforos na Marinha Grande à espera que o carro arrefecesse. Depois de parar (e geralmente ia abaixo quando estava parado num semáforo, ou à entrada de uma rotunda se não pudesse entrar logo) tinha de esperar que o humor arrefecesse. Então, o Simca nunca saiu das berças da cidade provinciana.
Já o Fiat, carro italiano, nervoso, pequeno mas irreverente que até permitia algumas ultrapassagens em plena N1, era carro para chegar à capital.
Foi derrubado em Vila Franca de Xira, com a ponte Marechal Carmona à vista. Começou por tossicar, solavancou, desligou-se do peso do meu pé no acelerador, abrandou e disse-me Daqui não saio. Encostei-o à curta berma da estrada. Saí do carro. Acendi um cigarro e perguntei-me E agora? O que faço agora? E não sabia.
Fumei o cigarro.
Um carro abrandou. Abrandou até quase parar ao pé de mim. Mas não chegou a parar. Um carro desprevenido bateu-lhe por trás e o carro foi projectado para a frente. Como um carrinho-de-choques na Feira de Maio. Mas o carro não saiu da estrada, aproveitou o empurrão e continuou o caminho. O que lhe bateu, também. Nenhum deles se preocupou com as chapas amolgadas. Toda a gente tinha pressa de chegar à capital. Eu também. E resto era paisagem.
Acendi outro cigarro. Pensei Se houvesse telemóveis, GPS, computadores, mas não! Que merda de época! E era. Era uma merda de época. Os carros não tinham fecho centralizado de portas. As janelas precisavam de força braçal para serem abertas. Não havia ar-condicionado. Só chauffage. Os bancos não eram climatizados. Os encostos de cabeça não traziam DVD. Os isqueiros funcionavam. Os cinzeiros andavam sempre cheios de cinza e beatas velhas. Os porta-luvas carregavam velhos maços de cigarros vazios e amarrotados, caroços de maçãs meio roídos e preservativos usados. Uma desgraça.
E como uma desgraça nunca vem só, e precisa de companhia para um bom happening, lá apareceu um reboque. O homem-reboque tentou ligar o carro. Nada. Abriu o capot. Olhou lá para dentro. Colocou o dedo do pirete numa peça. Noutra. Bateu. Ninguém respondeu. Abriu o depósito de água. Viu a vareta do óleo. Depois virou-se para mim e disse-me, com ar professoral e entendido, O motor gripou.
Mas quem se gripou fui eu.
Puxou-me o carro para cima do reboque. Deu-me boleia ao lado dele. Fumámos cigarros. Eu por nervosismo. Ele por tradição. E levou-me o carro para uma oficina não muito longe de minha casa. Tive de esperar pelo dia seguinte para a oficina abrir que era Domingo. Passei um cheque ao homem-reboque (ainda se utilizavam cheques, alguns só visados). O carro ficou meio em cima de um canteiro de flores mal tratadas pela autarquia. Fui a pé para casa. Nessa noite não jantei. Só bebi vinho e fumei cigarros. Estava nervoso. Nervoso e zangado.
Fui deitar-me quando se acabou o vinho e os cigarros. E não dormi a pensar no cheque passado ao homem-reboque. Nem sabia se tinha dinheiro suficiente na conta. E não dormi a pensar no motor gripado. E não dormi a pensar em quanto é que o motor gripado iria custar. E não dormi a pensar no que fazer ao carro se não conseguisse fazer nada.
E foi então que acordei com o despertador a tocar e a angustia a chegar. Agora tinha de ir tratar do carro.
E uma desgraça nunca vem só. A minha sorte é que estava no coração da civilização.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/24]

Um Beijo e o Chá de Hibisco

Ela baixou-se e deu-me um beijo. Baixou-se ao pé de mim. Eu senti-a chegar antes de a ver. Senti-lhe o cheiro. Uma mistura de várias especiarias que tinha estado a utilizar na preparação do jantar, mas por cima, por cima de tudo isso, o perfume, o perfume floral que costuma utilizar e que já conheço. Cheirei-a e percebi que ela vinha lá. Depois baixou-se e deu-me um beijo.
Deixou-me um chávena de chá juntamente com o beijo. Uma chávena com chá de hibisco a fumegar. Deu-me primeiro o beijo. Os lábios dela nos meus. Ainda senti a língua atrevida a sair por momentos da sua boca e tocar, levemente, nos meus lábios. Depois largou a chávena com o chá na mesa. Ao lado do computador. Sorriu-me e voltou para os seus afazeres. Eu estava nos meus.
Eu estava na cozinha. Sentado à mesa da cozinha. Via-a a cirandar em volta do fogão. Ia à despensa. Voltava com coisas. E eu sei lá que coisas! Coisas! Caixas de plástico. Saquinhos. Embrulhos. Depois continuava de costas para mim. Em volta do fogão. Às vezes ficava uns tempos na bancada ao lado do fogão. A fazer coisas. Sentia os gestos. Os braços a mexer. Sempre de costas para mim. Abria uma gaveta. Outra. Uma porta do armário. Abriu o forno e vi sair de lá uma nuvem de fumo. E pensei Está tudo estragado! Deixou queimar! Mas, estranhamente, ela continuava na sua normalidade de um lado para o outro. Calma. Não sentia cheiro de queimado. Afinal, não se passava nada. Eu é que me precipitei. É claro que ela tinha tudo sobre controle. Sabia o que fazer. Ela era mesmo um mestre na cozinha. Mesmo quando era eu a cozinhar, nunca se afastava muito. A dada altura sabia que eu ia pedir isto. Ou aquilo. Perguntar se não tinha. Se ainda tinha. Se por acaso. Ou então. E uma sugestão? E ela estava sempre pronta para ajudar. Cobrir as necessidades. Completar. E sabia sempre como.
Olhava-a nessa azáfama e não conseguia fazer o que tinha de fazer. Eu.
Os dedos estavam em cima do teclado do computador. Procuravam letras. Queriam escrever palavras. Formar raciocínios. Mas os dedos não se mexiam. Não havia letras nem palavras nem raciocínios que me fizessem mover. E ia olhando para ela. Ela não tinha os mesmo bloqueios que eu. Estava sempre à frente das suas necessidades. Nunca ficava um minuto parada a pensar E agora?! O que faço agora?! Não! Ela antecipava sempre as suas necessidades. E também as dos outros. As minhas.
Foi assim que eu a cheirei a aproximar-se de mim quando estava entretido a olhar o site de A Bola à procura de inspiração. Ela chegou e deu-me um beijo. E depois largou-me uma chávena de chá de hibisco em cima da mesa, ao lado do computador. E eu fiquei a apreciá-la a afastar-se, de regresso à bancada onde terminava de fazer o jantar, mas onde ainda tinha tido tempo para me fazer um chá. E eu vi-a ir. E apreciei-a. O corpo. Olhei-lhe as ancas a ondular enquanto se distanciava. O rabo. Ela tinha um belo rabo! E dava gosto olhá-lo. Olhá-la.
Bebi um pouco de chá de hibisco. Soprei a fumarada da água a ferver e bebi um pouco do chá.
Depois estalei os dedos das mãos e comecei a escrever por ali fora. Sem parar.
Não dei pelo tempo passar.
Só dei por mim quando a ouvi dizer Anda jantar. E fui.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/06]

Os Homens Compram a Cerveja, as Mulheres o Resto

Eles passam invariavelmente sozinhos.
Vem agora ali um. Traz uma caixa de 15 garrafas de Sagres Mini. Lá atrás vem outro. Traz uma caixa mais pesada. Deve ter 25 garrafas de Sagres Média. São caixas de cartão. Já não há grades de plástico.
Agora vem uma mulher. O que é que ela…? Ah, um volume de 10 embalagens de leite. E mais uns pacotes de arroz no regaço. Vem carregada. E vem lá outra. Outra mulher. Esta vem com frescos. Tem vários saquinhos de plástico transparentes. 2 curgetes. 3 pepinos. Acho. São parecidos. Mas deve ser isso. Mais umas cenouras. Não consigo perceber quantas. 3 tomates. 1 caixa de tomate cherry. Mais uns brócolos. Também não consigo perceber quantos. São um monte. Um volume considerável. Tenta abri o porta-bagagens de um Renault Clio. Porra. Deixou cair as cenouras. Já apanhou.
Agora vem ali um tipo com 2 garrafas de vinho. Uma em cada mão.
Um casal. Ele traz uma embalagem de cerveja. É artesanal. Não consigo perceber a marca. Ela traz fruta e umas embalagens de arroz e esparguete.
Estou aqui no parque de estacionamento do Lidl, aqui no final da Avenida 25 de Abril, em Leiria, e reparo que os homens vêm ao Lidl para comprar cerveja. Vá lá, às vezes também compram vinho. Tinto.
As mulheres diversificam mais as suas compras. Leite, verduras, frescos, sumos, massas. Fruta. Detergentes. Sim, ali vem uma com uns garrafões grandes de detergentes. É o quê? Amaciador de roupa, detergente de louça, champô.
As mulheres vêm ao Lidl comprar coisas para a casa. Para elas. Para eles. Para os filhos. Produtos de alimentação. De higiene. Produtos de limpeza.
Os homens vêm comprar cerveja. Às vezes vinho. Muito esporadicamente uns amendoins com casca ou uma embalagem de tremoços.
Eu não.
Eu estou aqui à espera dela.
Estou aqui parado a ver as caixas. Ver as caixas através da vitrine grande. As filas nas caixas. As pessoas a pagarem pelos produtos que compram.
Vem ali mais uma. Aquela traz uma data de embalagens, não-sei-de-quê, nos braços. Olha, olha, deixou cair tudo. E vem ali um carro. Cabrão. O gajo desviou-se para não parar e não ajudou a senhora. Filho da puta. Vou lá eu ajudar… Não, não vale a pena. Ela já está ali na caixa. Estou a vê-la ali na caixa. Está a comprar, o quê? queijos, manteiga, um pão de Rio Maior, vinho tinto, não consigo ver de onde… Também traz uns frescos. Distingo uns brócolos. Umas beringelas. Uma embalagem de cerveja. Uma embalagem de 6 Super Bock Médias. Foda-se! Queijos e vinho? É uma festa?
É agora. Foda-se é agora.
Ligo o carro.
Tenho carro travado e faço aceleração.
O barulho do meu carro ecoa pelo parque de estacionamento do Lidl. Os pneus pintam o asfalto de preto.
Destravo-o.
Vou a direito. Rasgo o parque. Sempre em frente. Passo por uma mulher que carrega um saco grande do Continente e que se assusta com a minha passagem acelerada. Aproximo-me da grande vitrine. Lá dentro ainda ninguém me viu. Estou quase quase lá.
Ela olha para fora. Vê o carro. Vê-me ao volante do carro. Abre a boca de espanto. O carro bate contra o vidro da grande montra. Galga para o interior do Lidl. Sinto os vidros a caírem em cima do carro. Do capô. Do tejadilho. O som do vidro a quebrar é ensurdecedor e ainda ecoa quando o carro entra por ali dentro e rebenta com a caixa e leva à frente a empregada da caixa e ela, ela vai de arrasto, ela e outras como ela que estão na fila. Uns homens conseguem saltar para os lados e fugir. E eu vejo tudo em câmara lenta. Vejo o carro a entrar pelo Lidl dentro e levá-la a ela, a ela e a toda a gente que lá está, menos os homens que se puseram ao fresco, levá-los a todos à frente do carro, enquanto os vidros da montra continuam a cair sobre o carro, a fazer um barulho ensurdecedor e então tudo fica branco, o carro parece parado no vazio, eu olho, olho e não vejo nada, nada nem ninguém, só ouço o barulho dos estilhaços dos vidros a caírem sobre o carro e começo a sentir as dores como se eu fosse o carro, e fosse sobre mim que tudo cai e o meu corpo começa a sangrar, abrem-se buracos, rasgos, feridas nos meus braços, nas minhas pernas, na cabeça, no peito, e é só sangue e já não vejo ninguém e não sei o que é feito do Lidl nem dela nem dos outros todos nem de mim…
Silêncio…
E depois… Depois começo a ouvir o Nessum Dorma. Pavarotti. Que porra…?

[escrito directamente no facebook em 2018/07/05]

O Chão de Tijoleira, Talvez pela Última Vez

Agarrei-lhe os cabelos e puxei-lhe a cabeça para trás. Mas não como quando a beijo. Não havia ali nada de beijos, nem de desejo. Não havia ali nada de sexual. Estava furioso com ela. Havia fúria naquela mão. Havia fúria na força que exercia sobre os cabelos que ela tinha pintado de loiro mas cujas raízes escuras já começavam a ser muito evidentes.
Ela não se ficou.
Fechou a mão, com força, e com o punho mandou-me um murro no sexo.
Larguei-lhe os cabelos. E dobrei-me de dor.
Acertara-me em cheio nos testículos. Parecia que iam rebentar.
Acabámos por cair os dois no chão. Ela viu como eu fiquei e ficou preocupada. Gatinhou até mim. Agarrou-me a cara com as duas mãos e disse Desculpa! Desculpa! Mas a culpa foi tua.
A porra da culpa era sempre minha.
Claro que a culpa era sempre minha porque era sempre eu que pagava os copos.
E agora?
Era isso que lhe estava a dizer enquanto lhe puxava os cabelos loiros mal pintados no pequeno salão caseiro da vizinha do primeiro direito. E agora? E agora como é que íamos pagar a renda da casa?
Ontem deixou-me um bilhete preso no frigorífico. A única coisa que o frigorífico comportava para além de uma garrafa de água do Continente por metade: Estou no Bar. Vem cá ter.
E eu, parvo, fui.
Eram oito horas da noite.
Ela já lá estava desde as quatro da tarde. Vá lá, reconheceu-me. Principalmente porque estava à minha espera para pagar a despesa do que já consumira.
Acabámos por ficar lá até às três da manhã. O Bar fechou às duas mas continuámos por lá até nos porem na rua.
Hoje de manhã é que percebi o que tinha acontecido.
Aconteceu o que já tem acontecido bastantes vezes nos últimos tempos.
O pouco dinheiro que me restava no bolso das calças já não chegava para pagar a merda da renda da casa.
E já é dia seis.
Temos… Temos?!… Tenho, eu, eu tenho dois dias para um milagre. Se não, rua.
Quando isto acontece cinco vezes num ano, não há senhorio que seja compreensivo.
E foi do que me voltei a lembrar enquanto ela me acariciava a cara, pedia desculpa mas dizia que a culpa era minha.
Voltei a agarrar-lhe aqueles cabelos louros mal-pintados e puxei-lhe a cabeça outra vez para trás. Mas desta vez olhei-a de outra maneira. E os olhos dela viram as coisas de outra forma. E ela deixou ir a cabeça para trás, deixou-a ser puxada pela minha mão enquanto libertava o pescoço, branco, suave, desejável. E mo ofereceu.
Estávamos os dois caídos no chão.
Eu aproximei-me dela e beijei-lhe o pescoço. Mordisquei-o. Mordi-o. Sangrei-o.
Quando demos por nós estávamos os dois nus a rebolar no chão de tijoleira da cozinha. E a pensar que podia ser o nosso último dia ali, numa casa, sem ver as estrelas, e com a voz da Júlia Pinheiro como pano de fundo.

[escrito directamente no facebook em 2018/04/19]

Com Frio e sem Poder Entrar em Casa

Estou gelado. Estive duas horas sentado no café à espera dela. E não apareceu. Bem… Não sei. Pode ter aparecido depois de me ter vindo embora.
Ao chegar ao café, despi o casaco e sentei-me. Pedi uma bica e pus-me à espera.
Acabei por agarrar-me ao telemóvel e, entre Facebook, Instagram, Flickr, Pinterest, Tumblr, Twiter e Messenger, acabei por ficar sem bateria.
Pedi outro café.
Estalei os dedos das duas mãos.
Alisei as unhas das mãos utilizando os dentes como uma espécie de lima.
Comi as peles dos cantos dos dedos.
Revi, mentalmente, os vencedores dos Oscars de 2018. Ainda os tinha bastante presentes na memória.
Percebi que ela já não vinha.
Levantei-me. Larguei umas moedas na mesa e vesti o casaco. E foi quando vesti o casaco que percebi que estava cheio de frio. Estava gelado. Tremi. Tinha estado ali duas horas a acumular frio e agora percebia-o todo de uma vez.
Saí do café e pus-me a andar rápido para ver se aquecia.
A meio da rua parei. Para onde é que vou?, inquiri-me. E, por momentos, não sabia qual o meu destino. Depois lá percebi e disse, sonoro, Casa!
Recomecei a andar. Os dentes começaram a bater uns nos outros. Eu ouvia o barulho que eles faziam a bater uns nos outros. Senti um arrepio a subir pela coluna acima.
Começou a chover.
Puxei as golas do casaco para cima e disse uma asneira qualquer. E olhei para o céu com cara zangada.
Comecei a ficar encharcado.
Tentei correr, mas a perna direita estava machucada e não me permitia grandes saltos.
Os dentes continuavam a bater uns nos outros. Sentia-me gelado e, para me distrair do frio, comecei a programar os meus passos para quando abrisse a porta da rua e entrasse em casa.
Tirar o casaco e as botas; despir as calças e o resto da roupa; tomar um banho bem quente de duche; secar-me; vestir o pijama de flanela; acender a lareira; encher um copo de vinho tinto; levar uma bandeja com uns queijinhos e um naco de pão para a sala e assistir ao telejornal.
Depois levantei o braço para ver as horas e perceber se ainda ia a tempo de ver o telejornal.
E, de repente, parei debaixo de toda aquela chuva.
As chaves. Não tinha as chaves de casa. Era por isso que me ia encontrar com ela no café. Ela tinha umas chaves minhas e ia devolvê-las para eu poder entrar em casa.
Ela não tinha aparecido.
Eu não tinha chaves.
Não conseguia entrar em casa.
A chuva continuava a cair-me em cima. Sentia-me frio. Gelado. Parecia congelar.
E fiquei sem saber para onde ir. O que fazer.
Fiquei parado ali, no meio da rua, sem conseguir mexer-me, sem saber o que fazer.
E agora?, dizia para mim próprio.

[escrito directamente no facebook em 2018/03/11]

É Agora…

Foi num instante.
Aconteceu tudo num instante. Muito rápido. No entanto, eu vivi tudo muito lentamente. Apercebi-me de todos os passos que levaram ao acontecimento. Mas foi tudo num muito breve instante.
Estávamos dentro do carro. Eu e ela. Vínhamos do concerto. Vínhamos a ouvir o disco. E a cantar. Estávamos felizes. Tínhamos tido uma boa noite. A primeira desde há algum tempo.
Ela colocou a mão no meu colo. Eu olhei-a. Agarrei-lhe a mão e apertei-a suavemente. Ela virou-se para mim. Sorrimos. Ela aproximou-se para me beijar. Eu estiquei-me para me aproximar dos seus lábios. E saboreei-os. Toquei-lhes levemente com a língua e soube-me bem. Isto foi num instante. Tudo muito rápido. Quando virei a minha atenção de novo para a estrada, tinha um tractor à minha frente, sem luzes, um bloco negro contra a pouca luz do luar. Uma massa de ferro a andar muito devagar, a bloquear-me o caminho.
Rápido, virei o volante para a esquerda, para fugir ao tractor e não bater com o lado direito do carro. Mas a guinada foi muito acentuada e o carro perdeu rumo, eu perdi a direcção, larguei o volante e deixei-o solto, permiti-lhe a vontade própria, e foi então que o vi, o lancil do passeio na borda da estrada, o carro a bater-lhe, a levantar-se e a capotar, e a deslizar em direcção a uma grande e forte árvore, e eu a vê-la aproximar-se e pensar É agora! Não consigo fugir, e olhei para ela em jeito de despedida e, de repente já não estou a contar a história, estou a vivê-la, muito lentamente, passo-a-passo, e vejo a árvore a aproximar-se rapidamente muito lentamente do carro, dela, de mim, e percebo que não consigo fugir-lhe e vamo-nos encontrar dentro dos breves instante que eu consigo contabilizar e dizer É agora…

[escrito directamente no facebook em 2017/10/04]