A Rapariga sem os Dentes da Frente

Naquela época vivia com uma rapariga que não tinha os dentes da frente. Tinha batido com a boca no tablier do carro num acidente que tivera com um antigo namorado. Não usava cinto de segurança. Os problemas só acontecem aos outros, não é?
Quando a conheci ela disse-me que andava a juntar dinheiro para mandar pôr uns dentes à frente. Mas que, até ao momento, ainda não tinha conseguido juntar dinheiro nenhum. No seguimento da conversa, ofereceu-me uma bebida. Eu aceitei. Uma bebida nunca vem só e termina sempre da mesma maneira.
Quando acordei, no dia seguinte, ela ainda dormia. Observei-a a dormir. Era bonita, a miúda. Tinha um dormir suave. Depois lembrei-me da falta dos dentes à frente e pensei que não lhe fizeram falta nenhuma na noite anterior. Comecei a rir e ela acordou. Abriu os olhos, esfregou-os com as mãos, olhou para mim e sorriu-me. Eu vi-lhe a ausência dos dentes da frente e percebi que não me incomodava nada.
Nesse momento ela levantou-se da cama, nua, e começou aos saltos em cima do colchão e disse Faço ginástica todos os dias ao acordar. Mas a mim, aquilo não se parecia muito com ginástica. Levantei-me e acompanhei-a aos saltos. Até que a cama partiu e ela caiu para cima de mim e acabámos os dois por cair para cima da mesa-de-cabeceira e deitar o candeeiro ao chão. O abajur de vidro partiu-se. Eu magoei-me numa anca que bateu forte na mesa-de-cabeceira. Ela estava caída em cima de mim a rir que nem uma doida e perguntou-me Queres o pequeno-almoço? e eu, cheio de dores, incapaz de falar, acenei com a cabeça. Ela levantou-se de cima de mim, apanhou uma t-shirt caída no chão (e que era minha) e vestiu-a enquanto saía do quarto.
Regressou o silêncio. Eu estava magoado. Com dores. Levantei-me com cuidado para não me fazer doer mais. Levantei-me com cuidado para não me espetar em nenhum pedaço de vidro. Levantei-me com cuidado para não voltar a cair. Sentei-me em cima da cama partida e deixei-me tombar de costas sobre o colchão. Lembro-me de ver uma grande racha a cruzar o tecto de um lado ao outro e de ver um aranhão (eu tenho medo de aranhas) a subir a parede até ao tecto.
Então ela voltou ao quarto. Vinha a fumar um charro. Passou-mo e disse Pequeno-almoço na cama. E aquele foi o primeiro pequeno-almoço de muitos. Naquele dia deitámos a cama fora e deixámos o colchão no chão onde iríamos dormir nos meses seguintes, sempre a adiar a compra de um estrado novo da mesma forma que ela adiava a colocação dos dentes da frente.
O que não adiávamos eram as noites. Noites de rock and roll. Muito álcool, muitas drogas, muito sexo. De repente parecia que estava de regresso aos anos de faculdade. Só me faltava o sermão do meu pai a perguntar-me O que é que andas a fazer da tua vida?
Foi uma época de muitos excessos, aquela. O vinho às refeições, a cerveja fora delas, o gin à noite e o vodka para atestar. Depois começávamos pelos charros para irmos com calma e seguiam-se as pastilhas para desbundar. Às vezes coca, quando tínhamos dinheiro. Terminávamos a noite a foder que nem uns cães, eu em cima dela, os dois a arfar em cima do colchão que continuava no chão e depois íamos vomitar à sanita da casa-de-banho. Às vezes não chegávamos lá. E, no dia seguinte, lá tínhamos de andar de rabo para o ar a limpar o que tínhamos sujado na véspera. Às vezes o cheiro demorava a ir embora de casa. Mas eu gostava de a ver de gatas, de rabo para o ar, a esfregar o chão. Ela tinha um belo rabo, oh se tinha.
Tudo se precipitou num acidente que tivemos. Nenhum de nós morreu. Mas podíamos ter morrido.
Vínhamos de uma noite numa discoteca à beira mar. Foi ao passar pela zona de pinhal. Vínhamos já muito bêbados e drogados. Ela vinha a conduzir. Eu estava sentado ao lado, debruçado sobre ela, a tentar enfiar-lhe a língua na orelha e ela a fugir com a cara, a percorrer-lhe o corpo com as mãos e ela a rir e a gritar Pára! Pára!, mas a gostar das minhas mãos atrevidas, até que numa curva, não sei o que aconteceu, o carro guinou (ou terá sido ela?) e eu fui projectado do carro pela porta que estava mal fechada e se abriu, andei a rebolar no asfalto, queimei os braços e as pernas, esfacelei os joelhos e as palmas das mãos e acabei a bater com a cabeça numa pedra (pode ter sido num tronco de uma árvore cortada, já não me recordo) e ainda vi o carro a rodopiar antes de bater violentamente contra uma árvore e eu apagar.
Aquele acidente foi o fim de uma época.
Ela partiu o resto dos dentes. Andou de cadeira-de-rodas durante alguns meses, mas acabou por recuperar. Não consegue correr, nem dançar, mas caminha sozinha e sem o apoio de nada nem de ninguém.
Eu fiquei com umas escoriações, nada de muito grave. Mas assustei-me. Deixei o álcool e as drogas. Só não deixei o sexo porque entretanto conheci uma enfermeira no hospital que me tratou durante aquela semana em que estive internado. Era uma enfermeira muito habilidosa com as mãos. A primeira vez que saímos juntos fomos ao cinema ver uma reposição de Os Americanos do Robert Altman segundo Raymond Carver. Fui muitas vezes ao cinema com a enfermeira.
A outra, a rapariga sem dentes à frente e com um belo rabo, nunca mais a vi depois de sair do hospital. Falámos uma vez ao telefone. Uma chamada de despedida.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/16]

Tocar a Rebate

E era o quê? O fim de uma época? O fim de uma história? E onde é que eu estava nela? Na história? Era o protagonista ou um mero figurante a quem davam as ordens a executar? Vira ali, faz assim e assado ao cabelo com a mão, acelera mais um pouco o passo e baixa a cabeça, e os olhos, toma especial atenção em baixar a cabeça. Era o respeito?
No fim de tudo aquilo só queria perceber se eu significava alguma coisa. Se era algum marco na história. Se tinha relevância. Senão, nada valia a pena e o melhor era mesmo acabar com tudo e de vez.
Depois de tantos anos a fazer como as galinhas de carne rija com que a minha mãe fazia a cabidela, a acartar pedra para o castelo, calejar as mãos, magoar as costas, perder a visão e os nervos fazerem-me cair o cabelo, a inação fazer-me crescer a barriga e a pila ficar cada vez mais sem tesão, vejo-me na eminência de perder tudo o resto, o pouco que me sobra, a vida. Uma vida sem grande valor, é certo, mas que é a minha.
Desanimado com tudo o que tem vindo a acontecer, sentei-me no sofá a ver a terceira temporada da série The Deuce. O coração da Big Apple na sua fase mais decadente mas, talvez, a mais criativa. Times Square é um balde de lixo mas onde jorra vida, a vida dos sobreviventes, dos sobreviventes da marginalidade que vinha de trás, a pornografia, a prostituição, a indústria de cinema pornográfico, as drogas e os clubes nocturnos onde toda a gente renascia para mais uma dose de loucura, entre a arte e os excessos. Já se morria de Sida. Eram os homossexuais, primeiro. Não tardaria a chegar a toda a gente. Mas a carga de doença homossexual iria sobreviver ao futuro, mesmo que já todos saibamos que não.
Num dos episódios uma personagem diz para outra, que está infectada com o HIV, Morre, mas morre a gritar, a fazer barulho, a chamar a atenção.
E foi aí que parei. Não vi o resto da temporada. Sei como é que terminou Times Square, agora limpo e higienizado, rico, glamoroso. Não sei como é que terminou a história de Vincent (o irmão gémeo, Frankie, esse foi morto a tiro nas ruas sombrias e decadentes), Candy, Abby, Lory e todos os outros construtores em negativo do sonho americano. Um sonho americano feito em cima de corpos vendidos em pensões baratas, no celulóide e mais tarde no vídeo, e nas ruas sujas e a cheirar a mijo.
Fui ao quarto. Ao armário do quarto. Ao fundo do armário do quarto. À caixa escondida no fundo do armário do quarto. Agarrei no revólver. Prendi-o no cós das calças. Saí de casa. Parei no alpendre. Acendi um cigarro. Um dos gatos veio roçar-se em mim. Baixei-me e fiz-lhe uma festa. O gato caiu no chão de patas para cima à espera que lhe afagasse o peito. Assim fiz. Depois desci a alameda até à estrada. Vi o cão a olhar para mim do quintal. Os gatos acompanharam-me enquanto descia a alameda e pararam ao portão a ver-me fazer a estrada em direcção à aldeia.
Era um dia de sol. Estava sol e calor. Um céu azul como só no Verão. Ninguém diria que estávamos ainda em pleno Março, não era sequer a Páscoa e vivíamos na hora de Inverno.
Fiz a estrada a fumar o cigarro. Quando entrei na aldeia sentia a transpiração a escorregar-me pela testa, os sovacos a ficarem inundados e os olhos a fecharem-se com o excesso de claridade.
Não havia ninguém na rua. As pessoas, pelo menos as da aldeia, e pelo menos naquela altura, estavam a levar a sério a história do confinamento, da reclusão, da quarentena que nos tinham sugerido para não dizer imposto. Agora que tinham começado a morrer uns velhos. E estes já tinham nome. Eram vizinhos, amigos, família. Agora a morte existia e tinha rosto. Finalmente obedeciam à sugestão. Afinal estamos em democracia, não é? O povo é soberano. Pena que uma parte do povo não saiba ser povo e é tão só e ainda animal, animal feroz a aprovisionar para tempos difíceis para si e para os seus esquecendo que somos grupo, sociedade, e só assim, juntos e em grupo conseguimos sobreviver a todas as contrariedades que nos possam aparecer à frente.
Não havia então ninguém nas ruas da aldeia. Talvez fosse afinal por estar calor e terem aproveitado para dormir a sesta. Já que quase ninguém estava a trabalhar, às vezes ainda se via um ou outro aldeão a cuidar dos seus talhões de terra a plantar batatas e milho e outras coisas da época, mas aqueles que trabalhavam na cidade e estavam de regresso a casa, alguns deles despedidos num eufemístico lay-off e outros sem apelo nem agravo, já sem terem onde cair, a comer os últimos tupperware com sopa que uns velhos mais velhos faziam sempre a mais e chega sempre para mais um, a fome que começava a alastrar, a fome que, final, nunca tinha desaparecido desde antes da revolução dos cravos, porque há sempre uns que não encaixam, que são excedentários, que não interessam, chamam-lhes ervas daninhas ou as maçãs podres do cesto, porque há sempre quem saiba tudo e saiba bem e marque o destino dos outros porque antes os outros que eles, antes que eles se tornem nos outros, e então estariam a dormir a sesta porque enquanto se dorme a sesta afugentam-se as fomes, as tristezas e, ao despertar, há sempre um momento em que a história pode tombar para qualquer um dos lados e, um dia, até pode ser que tombe para o lado certo.
Não havia ninguém nas ruas quentes e brancas da aldeia. As portas da igreja estavam abertas. Mas não estava ninguém. Agora ninguém vinha à igreja. A missa era transmitida pela internet. As portas estavam abertas para se algum fiel quisesse, precisasse, de se sentir em comunhão, mas um de cada vez que as regras agora são essas. E eu entrei na igreja e fui direito à torre sineira e abri a porta e entrei e agarrei-me à corda do sino e comecei a puxá-la para baixo com toda a minha força e deixei-me subir com ela no embalo e voltei a puxar a corda e o sino começou a bater a bater com força um toque de rebate violento forte e eu a subir na corda no embalo e a regressar para bater de novo e outra vez e mais outra os pés no chão os pés no ar a puxar a voar a bater a rebate outra vez e mais outra e outra e gritei gritei alto a plenos pulmões todas as minhas dores gritei todo o calão aprendido no anos de liceu e com as mulheres dos pescadores da Nazaré até me deixar sem voz no berro final…
Deixei o sino embalado a tocar sem parar.
Estava transpirado. Cansado. Afónico. Os olhos muito abertos.
Agarrei no revólver que tinha preso no cós das calças e fui para a entrada de portas abertas da igreja. O revólver na mão.
Venham. Venham.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/28]

A Queda

É possível que ela já lá estivesse quando eu cheguei. Mas não reparei logo nela. Se estava, não a vi. Quando cheguei, queria ter saído do carro e descido a arriba até à praia e passear-me à beira-mar, se calhar até descalçar as sapatilhas e molhar os pés na água fria do mar do Vale Furado. Mas não saí nem desci nem passeei nem molhei. Agarrei na garrafa de vodka que tinha levado, uma garrafa de Stolichnaya, quente à temperatura ambiente que, estando em Fevereiro, parecia Agosto, emborquei uns goles, senti a garganta a arder e pensei Um cigarro. Preciso de um cigarro. E acendi um cigarro.
Na rádio, passava uma música qualquer intercalada com algumas conversas mas nem me lembro de quê. Não estava a tomar atenção. Aliás, não estava a tomar atenção a nada. Só às minhas egoístas dores.
Estava calor. Um Fevereiro que não parecia Fevereiro, mais um Agosto fora de tempo. Um tempo quente. Eu estava de t-shirt e ouvi a praia a chamar por mim. Telefonei para o trabalho e despedi-me. Não gostava do trabalho. Não gostava das pessoas com quem trabalhava. Ganhava mal. Por pouco não pagava para ter que trabalhar. Telefonei e disse-lhes Morri. Não posso ir trabalhar porque morri. Morri para sempre.
Abri o congelador. Agarrei na garrafa de Stolichnaya e saí de casa. Ainda não tinha chegado ao carro já a garrafa estava quente. Sim, estava calor. Estava um dia de grande calor. E eu fui até à praia. Fui até ao Vale Furado. Estava a pensar descer à praia, com um pouco de sorte não estava lá ninguém, ou pelo menos pouca gente, e despia-me, ficava nu, e mergulhava no mar frio, dava umas braçadas e saía para o sol quente e deixava-me estar ali assim, descalço e nu sobre a areia quente do Vale Furado a ser aquecido pelos raios deste sol de Fevereiro. Se calhar até fumava um cigarro ali assim de pé no meio da praia. Era isto que pensava enquanto fazia o asfalto que me ia lá levar.
Quando cheguei ao Vale Furado, parei o carro na arriba e deixei-me lá ficar sentado. Bebi uns goles de vodka. Fumei um cigarro. Senti o calor do sol passar através das janelas abertas do carro e a sonolência a tomar conta de mim. O barulho da rádio embalava-me. Pensava no trabalho que acabara de perder, como já tinha perdido a mulher, os filhos, o meu pai, a minha mãe, a maior parte dos meus amigos… Suspirei. Senti-me adormecer a pensar que o dia seguinte nunca seria a véspera da véspera e havia de ser o que fosse.
Devo ter acordado quando a rádio se silenciou. Ou talvez não. O sistema de economia eléctrica do carro desliga a rádio mais ou menos quinze minutos depois do carro estar desligado. Devo ter dormido mais que isso. Mas acordei com um estranho silêncio na cabeça. Abri os olhos. O sol ainda estava brilhante. Eu transpirava. Agarrei na garrafa de vodka e levei-a-à boca. Foi quando acendi o cigarro que reparei na miúda.
Estava sentada na cerca que protege as pessoas da queda abrupta sobre o mar. As pessoas chegam-se ali, encostam-se à cerca de madeira e olham as ondas a baterem nas rochas. Olham o mar a forçar a entrada pela areia acima. Um pouco mais longe é possível ver a Praia do Norte. Em dias claros conseguem-se ver as Berlengas, os Farilhões e as Desertas. Não recordo se as vi ou não. Porque depois de acender o cigarro reparei na miúda. A miúda estava sentada na cerca, virada para o mar. Coisa mais natural. Fumava um cigarro. Adivinhei-lhe o cigarro entre os dedos da mão que levava à boca. O fumo dissipava-se logo e mal o via. Mais que o adivinha. E lembro-me de pensar A miúda é gira. E era. Era bem gira. E ainda pensei O que faz uma miúda gira como ela sozinha aqui, num sítio como este? Depois sorri e pensei O mesmo que eu. Lembro-me de ainda ter gargalhado às parvoíces que pensava.
E depois ainda ponderei se iria, ou não, descer à praia e tomar um banho no mar, nu. E estava a pensar nisto quando vi a miúda descer da cerca, caminhar em frente e desaparecer da minha vista. Assim.
Fiquei parado dentro do carro. Deixei de pensar. Deixei de respirar. Deixei de a ver. Deixei de tudo e, por uns breves momentos, nem percebi o que tinha acabado de acontecer.
Até que vi aparecer gente que devia estar na esplanada do Mad, debruçar-se sobre a cerca e olhar para baixo. Houve ainda quem se aventurasse a passar a cerca para o outro lado e chegar-se mais sobre o penhasco para ver se via alguma coisa. Mas ninguém viu nada. A miúda desapareceu. Deve ter desaparecido no mar. E iria ser desovada algures numa outra praia, talvez mais para norte, talvez mais para sul, conforme a maré e as correntes e eu não percebia nada de marés nem de correntes.
Fiquei no carro. Não saí. Não fui espreitar. Não fui falar com ninguém. Não fui comentar o que achava do que tinha visto. Não fui dar a minha opinião. Fiquei no carro. A tentar recuperar a respiração.
Não esperei que chegasse a polícia nem os bombeiros. Acabei o resto da garrafa de vodka, pus o carro a trabalhar e saí dali.
Vim devagar o caminho todo. Não conseguia tirar da cabeça a figura daquela miúda sentada na cerca sobre o mar.
Cheguei a casa e fui até à varanda onde ainda estou.
Estou debruçado sobre a amurada da varanda a olhar lá para baixo. E não consigo não olhar. Não consigo sair daqui. Sinto uma vertigem. Uma vertigem que me chama. Um apelo ao salto. À queda.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/04]

Uma Brasileira na Rua Direita

Fazia a Rua Direita. Caminhava devagar à procura do número. A numeração não era certa, ou então tinha-a perdido lá para trás. Havia saltos de números e os mesmos números com A e B e até C. A rua estava um bocado decadente. Lojas fechadas. Casas degradadas. As portas da rua das casas abertas ou inexistentes. Candeeiros públicos sem iluminação. As poucas lojas em funcionamento tenham pouca ou nenhuma luz nas montras e as montras não eram feitas há muitos anos. Se calhar, desde o primeiro dia, desde o dia de abertura de portas que as montras se mantinham inalteradas. Havia uma montra com um papel, escrito à mão, a informar Montra em Execução, e eu só me perguntava, em silêncio e de mãos nos bolsos, Que montra?
Em todas as cidades há uma Rua Direita. Quase sempre é uma rua torta, esconsa e que já viu melhores dias. Esta também era assim. Enorme, eu fartei-me de andar, aos esses, numa rua aos esses e em fim de ciclo. Mas este era também um mal dos centros históricos das cidades, estrangulados lentamente pelos centros comerciais luminosos e com parques de estacionamento gratuito nas periferias das cidades e a especulação imobiliária que tentava aguentar os prédio quase vazios até morrerem todos os velhos que os habitam e depois apresentar, na Câmara Municipal, um projecto de recuperação da zona. Há sempre uma recuperação da zona histórica para encher os bolsos a alguns. No outro dia vi uma caixa multibanco colocada num buraco feito numa muralha histórica. Depois da queixa da população, retiraram a caixa multibanco e taparam o buraco com cimento. E assim vão as cidades, vivendo desgraçadamente entre remendos e ambições desmedidas da ganância alheia.
Mas às vezes havia gente que punha estas casas degradadas a render. Eu procurava uma casa dessas. Tinha visto o anúncio no Correio da Manhã Jovem brasileira nova na cidade. No centro da cidade. Com número de telefone. E eu telefonei. Precisava de telefonar. Precisava de umas mãos suaves de uma mulher no meu corpo velho, ressequido e triste. E telefonei. Ouvi a voz da brasileira. Era na Rua Direita. E fui assim para a Rua Direita. À procura do número que a brasileira me dera.
Depois de muito caminhar ao longo da Rua Direita, lá encontrei o número. Olhei o pequeno prédio. Sem luzes nas janelas. Uma antiga loja fechada no rés-do-chão, com a montra tapada com folhas de jornais. Folhas do Correio da Manhã. A porta da rua estava aberta. A casa tinha porta da rua, uma porta de madeira, e estava fechada, fechada mas aberta, encostada, porque o trinco não funcionava, e eu empurrei a porta para trás e a porta abriu e eu entrei e procurei o interruptor da luz das escadas e não encontrei e acabei por acender a luz do telemóvel e subi as escadas até ao primeiro andar, como a brasileira me tinha dito para fazer, e depois bati à porta da direita. Ao subir as escadas íngremes, sujas e tristes, pensei que tinha feito bem em ter levantado só duas notas de vinte euros e não levar mais dinheiro comigo. Nunca se sabe onde se vai quando se vai a sítios como este. Nem se sabe quem se vai encontrar quando nos vamos encontrar com alguém que não conhecemos. Mas depois, despimos-nos com a facilidade do desejo que nos come a alma e o corpo. É a tesão. E já não queremos saber de mais nada, nem de medos e de onde é que nos metemos e com quem, porque depois só manda a lei da tesão. E era para isso que eu estava ali, para me libertar da tesão às mãos jovens de uma bela brasileira.
Subi ao primeiro andar. Bati à porta. Ninguém respondeu. Voltei a bater com as nozes dos dedos da mão direita, enquanto a esquerda aguentava a lanterna feita do telemóvel. Estava para dar meia volta e ir embora, desiludido, quando a porta se abriu. Vi, em contraluz, um corpo na transparência de uma combinação. Uma cabeleira volumosa. O corpo parecia elegante. E uma voz disse Oi!, enquanto abria a porta para trás e me franqueava a entrada. E eu entrei. Levei dois beijinhos na cara. Senti um cheiro demasiado doce, talvez baunilha, vindo da jovem brasileira. Agoniei-me. Ela conduziu-me para o interior da casa. Não passámos por lado nenhum. Fui levado directamente para um quarto. Ela tirou-me o casaco. Agora que já não estava em contraluz, a jovem brasileira já não parecia tão jovem. Nem tão elegante. Nem sequer era bonita. Tinha buracos na cara. Talvez de bexigas. Os cabelos volumosos mudavam de cor entre o preto da raiz e o louro das pontas. Senti uma certa repulsa. Mas já ali estava e ali acabei por ficar. E ela disse Despe-te que eu já venho, e deu-me um beijo na cara e passou a mão pela minha pila, prometendo-me o céu, e saiu do quarto e eu despi-me rápido e sentei-me nu em cima da cama e comecei a olhar para a coberta da cama e pensei que era melhor nem pensar em olhar para a coberta da cama. Suspirei. A porta abriu-se. A não-tão-jovem-assim brasileira regressou ao meu convívio. Aproximou-se. Empurrou-me sobre a cama, sentou-se em cima de mim e eu senti uma picada no braço.
Depois não senti mais nada.
Quando acordei estava sozinho na cama. Estava com dores. Com dores no corpo. Mais tarde percebi que tinha uma costura nas costas. Não havia luz. Procurei o telemóvel. Não havia telemóvel. Procurei a minha roupa. Encontrei-a. Vesti-me. Vesti-me com muita dificuldade. Saí do quarto. Saí do quarto a apalpar as paredes da casa até chegar à porta da rua. Saí da casa. Saí do prédio. Regressei à rua. À Rua Direita. Doía-me o corpo. Tinha sangue nas mãos. Arrastava os pés. Procurei outra rua. Procurei um táxi. Pedi o hospital.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/03]

Morrer e Voltar a Nascer

Eu já tinha morrido há uns anos, bastantes até, quando fui descoberto. Não eu, eu fisicamente, que eu já estava morto e o que tinha restado de mim tinha sido feito pó e comido pelos bichos, mas o eu que deixou umas coisas escritas pela internet, buraco sem tempo, e que foram descobertas, por puro acaso, por alguém que gostou delas e as partilhou com o mundo.
Eu já tinha morrido. Tinha morrido de fome. Tinha deixado de conseguir trabalho. Tinha-me fechado em mim mesmo e perdido o contacto com um mundo que não espera por ninguém e quem fica para trás fica para trás que o futuro é em frente e o que é preciso é abrir sempre a porta do amanhã, um amanhã glorioso e cheio de vitórias, sucessos pessoais e glórias de equipa, num sempre-eterno crescimento económico e social sem paralelo nos anais da história do mundo.
Eu tinha-me afastado de tudo isso. Não era competidor. Não queria saber de corridas e grandezas. Tinha as minhas dores e não queria que mas tirassem. Era um processo muito pessoal numa época de portas escancaradas nas redes sociais onde toda a gente tinha opinião sobre tudo e sobre todos e quem tivesse mais admiradores e seguidores é que fazia o mundo girar. Oh, e se o mundo girou! Girou tanto que retrocedeu no tempo e o tempo medieval voltou.
Eu já tinha morrido antes de tudo isso acontecer. Tinha-me fechado em casa. Sem trabalho e sem dinheiro, afastei-me de tudo. Fechei-me em casa. Eu e as minhas dores. E comecei a escrever sobre elas e a lançá-las na rede. Para quem quisesse ler. Para que quem tivesse paciência para ler o pudesse fazer. Escrevi durante todos os dias durante todo o tempo que resisti a todas as faltas que começaram a fustigar-me.
Deixei de conseguir pagar a água e a luz. Abri a torneira selada da água. Fiz uma puxada de luz desde o candeeiro da estrada. Deixei de pagar o IMI, mas nunca me vieram chatear por isso. O telefone era coisa que já não usava há muito tempo. Telefonar a quem? Estava toda a gente ocupada. Andava toda a gente a tentar ser feliz, a destilar ódio nas redes sociais para libertar as dores de alma e a serem melhores e maiores uns-que-os-outros.
Fui alimentando-me com o que havia por aqui nas árvores em redor de casa e na pequena horta que fui mantendo enquanto tive paciência e força para tal. Os gatos e o cão desapareceram. Talvez tenham morrido, como eu. Ainda vi por aí um deles morto. Queria tê-lo enterrado, mas o tempo foi passando e eu esqueci-me.
Sentava-me todos os dias no sofá a olhar para a parede branco-ovo em frente, a parede onde esteve pendurado, durante anos, um grande poster da Lolita de Stanley Kubrick que fui obrigado a retirar e a destruir porque era uma pouca-vergonha pedófila. Sentava-me no sofá a olhar para a parede em frente, vazia, e via as estórias. As minhas estórias. Surgiam-me assim. Do nada. Formavam-se na parede, como um filme mudo projectado numa tela, e eu só tinha de escrever o que via e foi o que fui fazendo. Tornou-se esse o meu trabalho. O meu trabalho não remunerado. E durou até eu morrer. Morri de fome. Deixei de conseguir cultivar a horta. As árvores deixaram de dar o que davam. Ainda fui bebendo água durante algum tempo. Emagreci. Emagreci tanto que depois nem água conseguia beber. Fiquei translúcido. Fiquei deitado na cama durante algumas semanas. As semanas finais. Já nem escrevia. Já nem nada.
E um dia, deixei de ser.
Fui enterrado em cova rasa. Comido pelos bichos e mais tarde, quando era já só pó, despejado para dar lugar a outro pobre coitado como eu.
Deixei de ser e depois deixei de estar.
A minha passagem pela Terra não deixara rasto.
Até que um dia…
Um dia alguém encontrou o meu rasto na internet. Encontrou o meu blog e todos os meus contos. Alguém achou que aquilo que ali estava tinha valor. Alguém resolveu retirar os contos do blog e publicá-los. Alguém lucrou muito com o sucesso de um perdedor que tinha morrido de fome muitos anos antes. Antes de ser encontrado. Muito tempo depois do regresso das trevas e, de novo, do regresso da luz e de o humanismo ter regressado, de novo, e outra vez, às agendas políticas do mundo e de o Homem se ter reencontrado consigo próprio
E eu sei que isso aconteceu porque sei tudo. Mesmo depois de morto, desfeito e desaparecido da Terra sem deixar rasto. E estou aqui a contar tudo porque posso. Eu sei. Eu sou. Eu estou.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/03]

Chorar com Facilidade

Agora desato a chorar por tudo e por nada. Acho que nem preciso de motivo para começar a chorar.
Estava a ver um episódio da série This Is Us, mas sem grande convicção, tinha lá parado no decurso do zapping e, cinco minutos depois, comecei a chorar, solidário com as dores de uma das personagens. Pior que isso, achei que era eu que estava em causa. Que as dores eram minhas. Que aquela história encaixava verdadeiramente na minha história. Que era um eco da minha vida. Que aquela história era a minha história. Bolas. E era mesmo assim. Triste. Emotiva. Dolorosa. E comecei a chorar. Mas a chorar compulsivamente.
Peguei, ao acaso, nos Poemas Quotidianos do António Reis, estiquei o braço para a estante e foi o livro que veio preso nos dedos, abri à sorte e li

Sei que choras
muitas vezes
sozinha

e que lavas
o rosto

(ah onde
ando eu)

para a tua dor
não ser minha

e rompi a chorar. O livro nas mãos. As páginas molhadas das lágrimas. O papel a enfolar. A dor. A dor é minha. Abro a boca. Em silêncio. Mas choro. Choro muito.
Aconteceu-me também ao ver as notícias na televisão. O pivot contava que a Argentina tinha recusado a última tranche da ajuda financeira do FMI ao país por causa dos enormes encargos que acarretava e comecei a chorar. A pensar que ainda havia gente como eu. Gente que pensava como eu. Que achava que havia sempre mais alternativa que a alternativa que diziam ser única.
Também com a morte de José Mário Branco, acontecido nestes últimos dias, chorei. Mas não foi a morte dele que me fez chorar. Foi o ouvir, pela enésima vez, a catarse que é o FMI. Estava sentado no sofá e senti-me desfazer. Deixei de ser eu, de ter corpo e misturei-me ao sofá. Eu era uma massa amorfa e disforme que se tinha moldado ao mais banal dos elementos: o sofá de sala onde se assiste aos filmes de Domingo à tarde; onde se passa pelas brasas debaixo de uma mantinha quente e aconchegante; e, afinal, onde estava sentado, sozinho, enquanto ouvia o FMI na voz dolorosamente bela de José Mário Branco.
Acendi um cigarro e, enquanto fumava, enquanto via o fumo subir ao tecto da sala, comecei, outra vez a chorar. Por nada. Comecei a chorar. Acabei por molhar o cigarro. Apagou-se. Entristeceu-me ainda mais. E acendi outro.
Mas cada vez que choro sinto um enorme alívio e pareço renascer.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/27]

Atento

Quando o vi, a minha primeira reacção foi vomitar. Apoiei-me na parede, o corpo curvou-se para a frente e vomitei sobre as sapatilhas. Limpei a boca à manga da camisola. Virei-me e procurei-o de novo.
Já não o vi.
Ainda dei algumas voltas pelas ruas adjacentes, mas não voltei a vê-lo. Pensei que não estivesse por cá. Pensei que tivesse ido embora da cidade. Na verdade nunca pensei. Presumi que sim. Que depois de tudo o que se tinha passado, ele tivesse ido embora da cidade.
Agora estou a tremer. Fiquei nervoso. Fiquei nervoso ao vê-lo.
Sento-me no lancil do passeio. Não consigo andar. Preciso de descansar. Preciso de pensar noutras coisas. Acendo um cigarro. Encosto-me ao marco do correio.
Passa um polícia. Olha para mim. Aproxima-se e pergunta Está tudo bem?, ao que respondo Só uma quebra de tensão, senhor agente. Não quero ter de explicar tudo outra vez. Mais uma vez. Reviver tudo de novo. Não, não quero. Por isso digo Só uma quebra de tensão!
O polícia insiste. Se calhar pensa que estou na ressaca. Insiste Precisa de alguma coisa? Quer que chame os bombeiros? E eu volto a fugir à justificação. Obrigado, senhor agente. É só fumar este cigarro que já fico bem. Mostro-lhe o cigarro nos dedos. Também o olho.
O polícia ainda olha um pouco para mim. Depois levanta a mão, numa forma de cumprimento, e segue o seu caminho, de bloco na mão. Vai olhando os bilhetes nos tabliers dos automóveis.
Eu fumo o cigarro e sinto-me descontrair. Por instantes esqueci quem vi. Por instantes regressei ao esquecimento.
Acabo o cigarro. Levanto-me. Sinto-me mais calmo. Regresso ao meu caminho, mas vou atento. Os meus olhos percorrem todas as caras com que me cruzo, as que vejo à distância, as que passam, rápidas, pelo canto do olho.
No início pensei muitas vezes no que lhe faria se me cruzasse com ele. E desenvolvi muito modelos gráficos da minha vontade. Depois fui deixando de pensar nele e no que aconteceria se me cruzasse com ele. Não que tivesse esquecido, perdoado, ultrapassado tudo. Mas o tempo ajuda-nos a livrar do mal. Segui em frente. O melhor que consegui. Que pude. Ainda pensei mesmo que tivesse saído da cidade e ido, sei lá, para fora, para o estrangeiro, recomeçar a vida longe, longe de tudo isto, longe de mim e das minhas dores.
Lembro-me que cheguei a comprar um revólver. Ainda andei uns tempos com ele, mas acabei por o lançar ao rio. Não gostei daquilo em que me estava a tornar. Depois andei com um facalhão de mato. Pelo menos, não era a brutalidade de uma bala disparada à distância, sem pensar. Para o facalhão tinha de me aproximar dele e espetar-lho. Sentir-lhe a dor. O grito. Ver o sangue a jorrar, provavelmente para cima de mim. Guardei o facalhão na arrecadação, junto com as revistas do Tarzan do Burne Hogarth. Depois só trazia o canivete-suíço. Hoje, nem isso.
Mas agora que o voltei a ver, já não sei. Já não sei nada. Dói-me o estômago. E a cabeça. Espero não voltar a vê-lo. Nunca mais. Mas estou atento.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/16]

A Angústia da Novidade

Sempre que inicio um novo trabalho, sobrevém uma enorme angústia. É-me difícil o começo. O recomeço. O partir de novo para…
Não sei se é a mesma angústia do guarda-redes no momento do penalty de que falava Peter Handke. Mas a novidade tende a socar-me o estômago. E sofro. As dores são horríveis. Começo por ficar com a garganta seca. A cabeça fica pesada. Mas vazia. É uma sensação estranha. A barriga começa às voltas como se fosse uma máquina de lavar roupa. E fico extremamente triste. E inerte. Por vezes choro. E então quero desistir. Quero sempre desistir.
Hoje tinha uma reunião.
Hoje tinha de sair de casa para ir a uma reunião.
Acordei dois minutos antes do despertador. Acordo sempre. Acho que fico ansioso. Abri os olhos. Completamente desperto. Liguei o rádio na mesa-de-cabeceira. Levantei-me ao som do noticiário. Não liguei às notícias. Era só um ruído de companhia. Abri as cortinas. Entrou alguma luz no quarto. Não muita que ainda é Inverno e o tempo está de chuva. Entrou alguma luz cinzenta e fraquinha no quarto o que me deixou melancólico, mas permitiu-me encontrar os boxers e uma t-shirt para ir à cozinha. Percorri o corredor descalço. Fiz café. Enfiei-me debaixo do duche e fiquei ali. Sem me mexer. A absorver o conforto da água quente a cair-me em cima. Por momentos esqueci-me. Esqueci-me de mim. Esqueci-me onde estava. Esqueci-me da reunião. Esqueci-me que estava no duche. Depois tomei consciência. O tempo tinha passado. Percebi o nervoso a instalar-se. Já não havia tempo para o champô. Não havia tempo para o sabonete. Não havia tempo para tomar banho. Contentei-me com o corpo enxaguado de água quente. Saí. Sequei-me. Fui ao quarto e vesti-me. Não me apetecia sair de casa. Porque raio tinha de ir lá onde tinha de ir para fazer um trabalho que iria fazer em casa? Sentei-me na cama a calçar as sapatilhas. Imaginei-me cair para trás e deixar-me adormecer de novo e não ter reunião nem trabalho nem obrigação nem nada.
Voltei à cozinha. Comecei a beber uma caneca de café. Olhei para o pão. Não me apetecia. Olhei para a fruta. Também não. E enquanto olhava à volta da cozinha, enquanto procurava algo para pôr o estômago a trabalhar, percebi que ele já andava por ali às voltas. Merda.
Fiquei maldisposto.
Fico sempre maldisposto quando inicio um trabalho. Fico sempre maldisposto quando tenho que encontrar alguém que não conheço. Não gosto de pessoas que não conheço. Não gosto de conhecer pessoas. É por isso que não faço novos amigos. Nem consigo manter os velhos. É tudo muito cansativo. E tudo isto me deixa angustiado.
Pousei a caneca com o resto do café na bancada ao lado do lava-louça. Pousei mal a caneca. E a caneca caiu. Caiu no chão. Partiu-se. Partiu-se com estardalhaço. Espalhou o resto de café pelo chão da cozinha. Pelas minhas sapatilhas. Pelas minhas calças. Ficaram salpicadas, as calças. Eu estava maldisposto. Muito maldisposto. E ainda fiquei pior.
Fui à casa-de-banho.
Não valeu de nada. Molhei a cara. Olhei-me no espelho. E disse-me Tem calma, pá! Mas não conseguia.
Agarrei no telemóvel. Na mochila. Nos óculos. Nas chaves de casa. Abri a porta para sair e senti que estava a transpirar. Sentia uma gota a escorrer pelas têmporas. A descer pelas costas abaixo. Tinha as mãos húmidas. Imaginei-me a cumprimentar umas mãos macias e sedosas com as mãos assim, neste estado. O estômago revolveu-se. Contorci-me. Contorci-me de dores. Não tive tempo de regressar à casa-de-banho. Abri muito a boca. Num esgar. Vomitei ali. Na entrada de casa. Pela parede. Pelo chão.
Voltei a entrar em casa. Sentei-me no sofá. A olhar para a parede em frente. A parede em frente por cima da televisão. Estava lá uma racha que passava por trás da televisão.
Peguei no telemóvel. Marquei o número. Tremi. Senti-me enterrar no sofá. Doía-me o estômago. A boca cheirava a vomitado. O mundo estava a morrer. Do outro lado atenderam. E eu disse Bom-dia!
E expliquei. Desculpei-me. Desliguei.
No momento em que percebi que podia fazer ali o trabalho, ali em casa, sem ter de passar por uma reunião com quem não conheço, as dores de barriga desapareceram. Miraculosamente. Passou a má-disposição. Já não transpirava. Tinha as mãos secas. A cabeça lúcida. E uma vontade incrível de comer uma torrada banhada de manteiga Milhafre.
Levantei-me. Fui apanhar os cacos da caneca. Pus uma torrada a fazer. Peguei numa esfregona e limpei o chão da cozinha. Fui à casa-de-banho e lavei os dentes. Lavei a cara. Fui ao quarto e desliguei o rádio. Puxei o edredão para trás. Para arejar a cama. E anotei mentalmente para fazer a cama antes de almoço. Voltei à cozinha e comi a torrada com manteiga. Depois fui para a sala. Sentei-me à mesa, frente ao computador.
Abri o computador. Olhei para ele. Senti-me nervoso. Outra vez. Pensei Como é que vou começar esta merda?
Acendi um cigarro. Olhei para as horas. Tinha muito tempo. Bastante, mesmo. Levantei-me. Fui até à rua fumar o resto do cigarro. O gato veio a correr roçar-se nas minhas pernas.

O tempo passou. O tempo passou e eu não dei por ele.
Estou a dez minutos do tempo-limite para entregar o trabalho.
Estou sentado em frente ao computador. Sinto uma angústia enorme. Tenho um peso sobre as costas. A barriga anda às voltas. As mãos estão húmidas. Tremo. Mas o corpo não mexe. É cá por dentro. Uma tremedeira interior.
Mexo os dedos. Coloco os dedos sobre o teclado e começo a escrever.
Alguma coisa há-de acontecer.
E amanhã é outro dia.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/08]

As Minhas Dores de Cabeça

Voltaram as dores de cabeça. Umas dores de cabeça violentas. Parece que tenho um berbequim a perfurar-me o crânio. A perfurar-me o cérebro. Dói-me a cabeça toda. Como se tivesse um capacete de dor a transmiti-lo homogeneamente por todo o lado. E que se propaga ao resto do corpo. Os olhos fecham-se. Tenho vómitos. Dores de barriga. Um mal-estar geral.
Tento viver com estas dores. Tento viver a minha vida normal com estas dores. Não me queixo. Não digo nada a ninguém. Não quero ouvir aquela resposta tipo Tens de ir ao médico!
Vou aguentando. Continuo a viver a minha vida como se nada se passasse.
Estava em casa dela. Sentado à mesa da cozinha enquanto a via cirandar de um lado para o outro a preparar o jantar para nós dois. E falava. Falava, falava, falava. E eu ouvia. E via.
Andava de um lado para o outro. O esparguete a cozer na panela. Os restos de bifes de perú do almoço, cortados em pedaços fininhos. E falava de coisas, nem sei quais. Cortava pimentos. Cogumelos Portobello (era o que tinha!). Quadrados de bacon. Tomate seco. Alho. E continuava a doer-me a cabeça. E o estômago. Despejou tudo para um wok. Mexeu. Misturou. Depois juntou lá o esparguete já cozido. E voltou a mexer. E não parava de falar não-sei-de-quê. Pimenta. E mexeu de novo. Depois colocou na mesa onde eu estava. Eu contorcia-me de dores de cabeça. Mas tentava ignorar. Voltou a colocar vinho no copo dela. O meu ainda estava intacto. Não estava com muita vontade de beber vinho. Sim, eu sei. Nunca se diz não ao vinho. Mas devo estar doente.
Ela sentou-se, sorridente e satisfeita, e disse Vamos jantar? Eu sorri, um sorriso tímido e acenei a cabeça.
Ela serviu-me. Serviu-se. Levantou o copo. Eu levantei o meu. Batemos os copos. Dissemos Tchim! Tchim! e bebemos um golo. Eu senti o vinho na boca, a descer pelo esófago e a desaparecer lá em baixo, no estômago.
Ela estava contente e continuava a falar. Eu via-lhe a boca a mexer. Uma boca sorridente. Via o garfo a levar esparguete e enfiá-lo na boca. A boca a mexer. A mastigar e a falar.
A cabeça continuava a doer-me.
Agarrei no garfo. Enrolei um bocado de esparguete e um conjunto de várias coisas que não confirmei o que era e coloquei na boca. Mastiguei. Mastiguei. Devagar. Sem vontade. Engoli. Senti aquela bola a passar da boca para o interior do corpo. Mas não desapareceu. Andou por ali. Sem fugir. Para cima e para baixo. Pelo estômago. E comecei a ficar enjoado.
Esqueci-me dela. Deixei de a ouvir. Senti que a bola de esparguete voltava a subir pelo esófago. Parou na garganta. Sentia a comida presa na garganta. E, depois, depois veio para a boca e projectou-se para fora. A boca abriu-se e saiu tudo de uma vez para cima da mesa. Para cima do meu prato. Do prato dela. Dos copos. Do peito dela. Uma massa multiforme, grenat, nojenta.
Senti-me corar de vergonha. Mas os vómitos não paravam. Queria levantar-me para ir à casa-de-banho, mas não conseguia. A cabeça continuava a doer-me. Os olhos encharcados. A boca azeda. Ela saiu da minha frente e não sei para onde foi. Eu não sabia o que fazer. A não ser voltar a vomitar.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/13]

Na Estrada Nacional 1

A Estrada Nacional 1 é ainda um mundo à parte. É todo um outro tempo que veio de arrasto para este. Uma espécie de furúnculo cheio de pus que sobrevive aos antibióticos modernistas do século XXI numa faixa de tempo que parou algures lá para trás, com todos os vícios e dores que a consumiam.
Fiz a EN1 na semana passada e entrei na cápsula do tempo.
Ia devagar numa estrada onde se pisa no acelerador. Mas há troços onde se anda devagar. E não, não é por causa da polícia, radares ou operações Stop. É por causa das meninas que ainda se sentam em caixas de madeira à beira da estrada, a abanar a perna mostrando disponibilidade.
Reparei nisso por acaso. Ia devagar atrás de um camião. Ia distraído a ouvir música atrás de um camião. A cofiar a barba com uma mão enquanto a outra agarrava o volante. Quando o camião encosta na berma à direita e ele passa por mim. O vestido. Na verdade fui eu que passei por ele porque era eu que ia na estrada. Mas ele veio, passou ao meu lado, chamou-me a atenção distraída, e ficou lá para trás com o camião. Mas ainda vi. E confirmei pelo retrovisor. Um vestido pendurado no ramo de uma árvore à beira da estrada, à entrada de uma estrada de terra batida. O vestido esvoaçava ao vento. O camião parado ao lado.
Depois, mais à frente, um caixote de fruta, em madeira, em pé, à entrada de outra estrada de terra batida. Mais um pedaço de pano, talvez um lenço, preso numa árvore. E finalmente percebi. Uma rapariga estava sentada, agachada, em cima de um tijolo, as pernas abertas, a olhar descaradamente para quem ali passava. Quando eu passei, os seus olhos colaram-se aos meus. Uns olhos frios, vazios, mortos. Semi-fechados pelo cansaço. Mas uns olhos disponíveis. Uns olhos que não prometiam nada, mas que davam tudo.
Os olhos ficaram lá para trás.
Mais à frente virei à esquerda. Aguardei e voltei à estrada. Voltei atrás. Quis voltar a ver aquele mundo que não sabia ainda existir assim, ali, daquela maneira.
No regresso passei mais devagar. Vi a tristeza sentada em bancos de piquenique no interior das estradas de terra batida. Estradas marcadas no seu início. Um vestido. Um lenço. Um pedaço de pano colorido. Marcavam presença. Aqui há gente. Elas estavam ali. Disponíveis. Mortas mas serviçais.
Imaginei os locais. Um banco. Uma manta no chão do mato. Um preservativo que seria largado ao lado, junto com outros preservativos já usados e largados ali, à espera que o tempo os consumisse. A falta de água corrente. Talvez um jerricã. Talvez um garrafão. Um par de olhos a garantir a segurança. A troca negocial. O garantir do pagamento. A luta pela sobrevivência. A falta de vida. A falta de amor. A falta de carinho. A falta de higiene. A falta de tudo. A necessidade de tudo o resto. A sujidade.
Não consegui perceber as idades. Pareciam novas. Mas velhas. Marcadas. E tudo sujo à volta.
Parei o carro numa das entradas. Atrás de mim, apitaram-me. Respirei fundo. As mão presas ao volante como garras. Uma cara colada à janela a forçar um sorriso impossível. Os dedos a bater no vidro. Olha para mim, diziam. Uma promessa falsa. Ao fundo, um homem encostado a uma árvore, discreto, mas suficientemente em campo para avisar que lá estava. A mão na cintura a afastar o casaco e a pistola, presa nas calças. Um aviso.
Vomitei. Vomitei para cima do volante.
A rapariga olhou triste para mim e percebeu. Não voltou a bater no vidro. Não insistiu. Afastou e disse qualquer coisa para trás. Para o homem no mato.
Voltei a ligar o carro, esperei pela oportunidade e voltei a entrar na EN1.
Quando estava quase a chegar a Leiria é que percebi que tinha regressado ao ponto de partida. Queria ter ido para o outro lado. Mas tudo se baralhou.
A vida às vezes é uma merda.
Retomei a viagem no dia seguinte. Mas fui pela Auto-Estrada.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/18]