Há Gente Brilhante a Quem a Vida Vira as Costas

Quando o pai dele morreu, ele passou a estar a maior parte do tempo aqui em casa. Até que se mudou para cá.
Já cá passava bastante tempo. Era a escapatória a que se permitia. Tinha abdicado de tudo por causa do pai. Desistira de uma carreira no cinema por causa do pai. Desistira de ter uma relação amorosa por causa do pai. No início ainda ia tendo uns casos. Nada de muito sério porque ele também não queria. Tinha o pai para cuidar. Mas depois, mais para o fim, isolou-se e deixou de se dar com outras pessoas. Família. Amigos. As namoradas que foi tendo. Desligou-se de tudo. E foi fácil desligar-se de tudo. Deixou de sair. Deixou de ter telemóvel. Desligou-se das redes sociais. Depressa também foi esquecido. Passou a viver em função do pai. Cuidava dele. Dava-lhe banho. Vestia-o. Lavava-lhe a roupa. Cortava-lhe as unhas das mãos e dos pés, o que mais lhe custava fazer, chegou a dizer-me. Cozinhava. Levava-o a passear. Todos os dias o ajudava a dar umas voltas a pé à volta do parque em frente a casa. Aos Domingos pegava no carro e levava-o mais longe. À praia. Às vezes a almoçar fora. Uma vez levou-o a ver um jogo de futebol da União de Leiria, que ele já não via há que tempos. Outra vez foi de propósito a Lisboa para o levar ao Bingo. Mas o pai não gostou. Era tudo demasiado rápido para ele. Atrasava-se a confirmar os números. Uma vez chegou a deixar passar uma linha e, depois do grito de Bingo!, já foi tarde.
Entre os cuidados com o pai, ele vinha cá a casa. Bebíamos um vinho. Fumávamos uns cigarros. Conversávamos. Conversávamos muito. Ele lia bastante e gostava de discutir os livros que lia. Às vezes eu nem sabia do que é que ele estava a falar, mas deixava-o falar. Ele era um bom orador. Um orador entusiasta. E que entusiasmava.
Viviam da pensão do pai. A casa era alugada. O carro era do pai e era a única coisa de valor que ainda tinham. Mas já era um valor residual. Os carros começam a desvalorizar mal saem do stand, não é? Aquele carro tinha sido comprado em segunda mão. O valor já não era muito. Chegaram a ter um cão mas morreu já o pai estava reformado e ele a cuidar do pai. Nunca mais quiseram ter outro cão.
Quando o pai morreu, ele não sabia muito bem o que fazer. Passou ali uns tempos um bocado complicados. Estava há muito tempo afastado do mundo para voltar a ele assim, de chofre. Começou a passar mais tempo cá em casa. Até que se mudou em definitivo para cá. Fui eu que o sugeri.
O pai morreu e acabaram-se os cheques da pensão. Ao fim de algum tempo deixou de ter dinheiro. Ainda procurou trabalho. Mas não conseguia nada. Como é que havia de conseguir? Já estava velho para o mercado de trabalho. Ainda era um tipo novo mas, para qualquer trabalho, nos dias de hoje, havia sempre meia-dúzia de miúdos esfomeados prontos a matar por uma oportunidade. Alguns sujeitavam-se até a trabalhar sem receber na esperança de fazerem bom trabalho e serem convidados a ficar. Ele não se importou muito. Custava-lhe estar com outras pessoas. Cansavam-no.
Teve de deixar a casa. Ficou sem dinheiro para a renda. Para a água, para a luz, para o gás.
Convidei-o a ficar cá em casa. De qualquer forma já cá passava tanto tempo. Foi só trazer as suas poucas coisas. Deitou quase tudo o que tinha em casa para o lixo. Trouxe a roupa. A roupa e alguns livros. E o carro. Ainda andava e já ninguém lhe dava nada por aquilo.
Aqui em casa cozinhava. Limpava. Fazia pequenos arranjos. Mesmo coisas mais complicadas, não desistia enquanto não dava conta do recado. Tratava do jardim. Nunca saía. Passava a maior parte do tempo em que não estava a fazer nada na casa ou a cozinhar, a ler. Lia muito. Leu uma grande parte dos meus livros. Livros que eu nunca li.
E então um dia, cheguei a casa e ele não estava cá. Descobri um papel na cozinha onde estava escrito Desculpa. Só isso. Desculpa.
Depois descobri-o no fundo do poço que está no jardim. Jogou-se no poço.
Acho que a vida nunca o quis. E ele cansou-se de andar para aqui assim. Numa vida sem sentido.
Desculpa, escreveu no papel que deixou na cozinha. E foi só o que deixou. Desculpa.
Gostava de conversar com ele. Era um tipo inteligente. Um tipo que merecia ter mais do que o que teve. Teve azar na vida que teve. Há gente assim. Gente brilhante a quem a vida vira as costas.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/24]

Tenho Saudades da Feijoada à Transmontana da Minha Mãe

Apetecia-me comer uma feijoada à transmontana.
Não tenho os ingredientes aqui em casa. Nem há sítios, agora, a estas horas da noite, onde ir comer uma feijoada como deve ser. A feijoada, tal como o cozido à portuguesa e a dobrada, tem dias específicos para ser confeccionado nos restaurantes da cidade. Não se come feijoada quando se quer. Só quando há. Claro que se pode fazer em casa. Mas se tivessem provado a feijoada à transmontana da minha mãe, dificilmente comeriam outra feijoada qualquer feita por quem quer que fosse.
A feijoada à transmontana da minha mãe era a feijoada. Divina. E serve, servirá, de baliza para todas as outras feijoadas da minha vida.
Há alturas, contudo, em que comeria uma feijoada qualquer. À transmontana, à brasileira, de lata ou de pacote.
Nunca será a mesma coisa. Mas às vezes não importa. Às vezes não importa mesmo nada. Bastava eu ter uma lata de feijão cá por casa que a devorava. Devorava como se fosse uma feijoada. Não da minha mãe, claro.
Às vezes sabemos que as coisas não são o que queremos. E, no entanto, abrimos-nos a elas. É como mijar contra o vento. Sabemos ao que vamos. E, no entanto, lá vamos nós. Dar o peito às balas. Arriscar o couro e o cabelo. Esquecer e mergulhar.
Já fiz várias feijoadas. E não são más, as feijoadas que eu faço. Na verdade até são muito boas. Mas não são como a da minha mãe. E há muito que ela deixou de a fazer. Por isso nunca se degradou. A minha mãe deixou de a fazer, como deixou de fazer outras coisas boas que fazia, antes de conseguir deixar de fazer. Assim retenho tudo em bom na memória. Intacto. Como era. Como era quando ela fazia. E fazia sempre bem.
Lembro-me dos Domingos. Dos Domingos de ressaca. Dos Domingos em que entrava na cama de madrugada, já o galo tinha sido morto para a cabidela e o sol ia alto, na companhia de uma valente cabra, e era acordado poucas horas depois pela minha mãe a avisar que a feijoada estava na mesa. Não que o Domingo fosse o dia da feijoada. Não. A feijoada, como todas as comidas que a minha mãe fazia, era quando lhe apetecesse fazer. E aos Domingos apetecia-lhe muito fazer feijoada. Ou cozido à portuguesa. E então lá ia eu, em cuecas, sem ter tomado banho, cheio de ramelas, o cabelo desgrenhado, a boca empastelada, a cheirar a álcool, cigarros e transpiração, sentar-me à mesa, deixar-me inebriar pelo cheiro das carnes estufadas, as couves, o arroz branco que polvilhava sobre tudo aquilo e ouvir a minha mãe refilar comigo por ir para a mesa naqueles preparos. E eu dizia-lhe Oh, mãe! Mas somos só nós! e ela respondia-me Nem que fosses só tu! Isso não são maneiras! e eu pensava que mal ela sabia como era a minha vida quando ela não estava presente. A javardice que me guiava. Mas eu também não lhe dizia mais nada. A conversa sobre o estado em que ia para a mesa de Domingo comer a feijoada morria ali, porque tudo era vencido pelo prazer de estar a almoçar com o filho.
Depois que ela deixou de cozinhar estas coisas, eu tentei recuperar a sua mão. Mas nunca consegui. Uma vez até a convidei para uma feijoada feita por mim. Disse que tinha gostado muito. Mas acho que foi só por simpatia.
Mas aos Domingos, e quando durmo em casa dela, continuo a ir para a mesa saído directamente da cama. No Verão, até vou sem camisola. E ela continua a refilar comigo. Agora ainda diz Julgas que tens dezoito anos, não é? Mas não tens! Olha-me essa barriga!

[escrito directamente no facebook em 2019/04/12]

Não Saber o que Fazer a Seguir

Saí de casa depois de almoço.
Pus os pés na estrada e fui por ali fora. O sol a dar na cabeça. Os carros a passarem rente a mim. Naquela zona não há passeio. Entre o asfalto e o campo de terra lavrada há uma vala para deixar correr as águas em dias de chuva. O que é feito desses dias?
Não sei onde é que ia. Ia, só.
Os Domingos são dias de uma certa melancolia. E quando não há bola, fico sem saber o que fazer. É que não posso ficar em casa o tempo todo. Não posso ficar dentro da cama o tempo todo. Não posso ficar debaixo dos lençóis o tempo todo.
Preciso livrar-me desta força que me prende. Faço um esforço. Às vezes penso que é um esforço inglório. Acabo sempre por voltar para lá. Sim, acabo sempre por voltar para lá, mas enquanto ando aqui por fora sinto-me bem. Relativamente bem.
Saí de casa e fui por ali fora.
O sol estava forte. Batia-me com força na cabeça. Eu caminhava pelo asfalto e, quando vinha um carro, afastava-me para a vala. A vala estava seca, mas era difícil caminhar na vala. O caminho não era direito e entortava-me os pés. Deformava-me as sapatilhas. Magoava-me os joelhos. Houve uma altura em que eram muitos os carros e tive de ir para o campo lavrado. Entre a vala de inclinada e os torrões de terra seca do campo lavrado não sabia qual o melhor caminho. Mas optei pelo campo de terra lavrada. Sujei as sapatilhas. Pensei que, mais tarde, teria de as lavar. Não consigo andar com as sapatilhas sujas. Não, não me incomodam as sapatilhas sujas. Tenho umas All Star todas porcas. A minha mãe até tem vergonha de sair comigo se eu usar as All Star tal o seu estado de sujidade. Mas não estas. Estas, umas New Balance 996 são muito boas para caminhar, mas não podem ficar sujas. Não ficam bem sujas. E isso incomoda-me. Mas anotei. Passei por cima da vontade e decidi que as limpava quando chegasse a casa. Logo que chegasse a casa.
O sol estava quente. Encontrei uma árvore no caminho. Não sei que árvore era. Não percebo nada de árvores. Mas tinha uma boa ramagem. Um tronco grosso. Sentei-me lá debaixo, à sombra. As costas contra o tronco. Puxei de um cigarro. Acendi-o.
E, depois de fumar ali sentado, o que é que iria fazer?
Essa era a pergunta que eu fazia ali sentado. Na verdade não conseguia descansar. Na verdade, nem conseguia saborear o cigarro. A minha preocupação era sempre o que é que iria fazer a seguir.
Descobri um dos meus grandes problemas: nunca estou bem onde estou porque estou sempre a pensar onde vou a seguir.
Descobri um dos meus grandes problemas: nunca estou bem a fazer o que faço porque estou sempre a pensar o que fazer a seguir.
Descobri um dos meus grandes problemas: nunca estou bem a gostar de ninguém porque estou sempre a pensar em quem vou gostar a seguir.
Por vezes sinto-me enlouquecer. É por isso que gosto de me enfiar na cama. Tapar-me com os lençóis. Não ver nada. Não ouvir nada. Deixar passar o Domingo. E os outros dias da semana todos, uns atrás dos outros. Depressa. O tempo a passar rápido.
Acabei o cigarro. Apaguei a beata na terra. Levantei-me.
Não sabia o que fazer.
Não sabia para onde ir.
Não sabia o que queria.
E estava ali assim, naquela imobilidade, quando chegou o carro.
O carro parou. Abriu-se uma janela. Ela olhou para mim a sorrir e perguntou Queres vir? E eu disse Sim, mãe. Ela abriu a porta do outro lado e eu entrei.
Enquanto ela engatava a primeira e o carro arrancava, ainda me disse Fiz um Bolo Veludo de Framboesa. E eu sorri.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/24]

A Volta dos Tristes

Em dia feriado promove-se a Volta dos Tristes.
A Volta dos Tristes vem do tempo dos meus pais. Se calhar era-lhes anterior. Se calhar aprenderam com os pais deles e eles com os avós dos filhos. Mas eu aprendi com os meus pais. Nos dias de feriado, como em alguns Domingos, promovia-se a Volta dos Tristes. E agora também. Em dia feriado promove-se a Volta dos Tristes.
A Volta dos Tristes é um passeio, geralmente de automóvel, a um sítio onde se vai normalmente, nos outros dias, mas com outro espírito e com roupinha de feriado, ou a um sítio sem jeiteira nenhuma.
Em Leiria havia muitos trajectos para a Volta dos Tristes.
Um desses trajectos era ir de carro até à Praça Rodrigues Lobo. Os carros ainda podiam circular na Praça que, então, era uma rotunda. O Francisco Rodrigues Lobo ainda estava no centro da Praça, da rotunda. Eu jogava à bola na Praça. Para além de fintar os adversários, também tinha de fintar o Francisco que estava mesmo no meio do campo, e tentar acertar na parte de baixo dos bancos da Praça para marcar golo. As balizas. Os pais dos jogadores dividiam-se pelos dois cafés com pequenas esplanadas que existiam ao longo das Arcadas. Os carros eram estacionados em frente às Arcadas. E à volta da Praça, na rotunda. Às vezes acontecia um vidro partido. Lanchávamos uma torrada. Bebíamos um galão, uma Laranjina C ou uma Superfresco. Depois os carros arrancavam para casa e estava feito o dia. O dia especial. Feriado. Ou Domingo.
Outra Volta dos Tristes era ir de carro até ao Estádio Municipal Dr. Magalhães Pessoa, quando ainda havia dois campos, um relvado, no estádio, outro pelado, ao lado, verdadeiro campo da bola, aberto às pessoas, e um Pavilhão Gimnodesportivo, onde se realizavam os desportos de pavilhão. Joguei lá andebol pela União Desportiva de Leiria. Mas nunca fui grande jogador. Portanto as pessoas iam de carro até à zona dos campos ver que jogo é que havia. Porque às vezes havia jogos dos juniores, dos juvenis, dos iniciados. Às vezes havia torneios de futebol das escolas. Às vezes havia outras coisas. Os homens iam ver a bola. As mulheres, algumas, ficavam nos carros a fazer renda. A minha mãe, não, que gostava de bola. Depois, no fim, voltavam para casa. Ou iam lanchar à Praça. Ou fazer um lanche ajantarado na Barreira ou nas Cortes.
Ainda havia outra Volta dos Tristes mais completa, e que eu gostava mais, que era ir de carro até ao Pedrogão, a praia do concelho. Parar na marginal. Comprar uns tremoços e umas pevides. Esperar que o vento não fosse muito e não nos enchesse a boca e o nariz de areia. Havia quem fosse à Praia da Vieira ou a São Pedro de Moel, mas era gente sem noção de cidadania: Praia da Vieira e São Pedro de Moel pertenciam à Marinha Grande. Era a Volta dos Tristes dos outros.
Hoje, dia feriado, Dia dos Mortos, de Todos-os-Santos, do Bolinho, do Pão-por-Deus, manhã seguinte à ressaca do Halloween, fiz a minha Volta dos Tristes. Saí de carro, depois de almoço (uma verdadeira Volta dos Tristes é feita à tarde, depois de almoçar), e fui até à praia. Fui até uma arriba onde via o mar. O mar estava cinzento-escuro. O céu também. Mas eram cinzentos diferentes. Não chovia. Estava um pouco de vento. E frio. E fiquei dentro do carro a ouvir os noticiários na TSF. Quando a luz começou a cair, voltei para casa. Acabou a volta.
Agora estou com a neura. Coisa que me acontece muito, em adulto, depois da Volta dos Tristes. Mas não consigo não a fazer.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/01]