Escondido, parte 07

[continuação de ontem]

Onde é que eu poderia ir procurar alguém? Saber notícias? Perceber o que estava a acontecer e porque é que ninguém parecia ligar ao que estava a acontecer? Porque estava a acontecer alguma coisa, não estava? Eu não estava doido, pois não?
E foi então que pensei nela.
Achava que a tinha visto na manifestação. Ela era toda dada aos movimentos de contestação. E em defesa das minorias e dos animais maltratados. Um dia organizou o rapto de uns cães numa pequena quinta para os lados de Alcogulhe. Isso valeu-lhe uma noite de detenção na esquadra da PSP de Leiria. E essa detenção serviu-lhe como cicatriz, medalha e cv. Isso foi o que me atraiu nela, na altura. Depois, mais tarde, também foi o que me afastou.
No dia da manifestação, tive a impressão que a tinha visto lá no meio de um grupo de amigos. Mas não liguei muito. O que aconteceu, já tinha acontecido há muito tempo. E eu não estava em fase de relembrar histórias do passado, por mais engraçadas e importantes que tivessem sido. Estava noutra. E nem sequer me sentia muito ligado aquele tipo de manifestações. Foi mais pelo tempo que estive enfiado em casa. Foi mais pelo ambiente de festa que se adivinhava. Fui mais para desanuviar. E depois aconteceu o que aconteceu.
Agora as coisas tinham-se tornado outras para mim. O que tinha acontecido na manifestação tinha-me empurrado para outro lado. Agora não era só uma brincadeira, uma forma de desanuviar daqueles quatro meses enfiado em casa e longe de toda a gente. Agora era sério. Agora tinha-se tornado sério. Alguém estava a querer tomar conta da vida. Da vida de todos nós. Alguém estava a querer fechar-nos dentro de uma gaiola e dar-nos ordens. E, aparentemente, quase ninguém parecia preocupado com isso.
Voltei a cruzar a cidade. Subi à Gândara dos Olivais e acabei por andar por lá à procura da casa dela. Aquilo parecia-me tudo igual. Casas, casas, casas. Casas e hiper-mercados. Um bowling. Já lá houve uma Moviflor. Agora há lá uma escola. Os miúdos saem directamente das mesas da escola para os lineares dos hiper-mercados. O mercado de trabalho não qualificado vai de vento em popa. Salários baixos e bons lucros.
Às voltas pelas ruas que me pareciam todas iguais da Gândara dos Olivais, acabei por pensar na primeira vez que fodemos. Foi logo depois da história os cães de Alcogulhe. Achei que tinha sido um grande feito e fui dizer-lho ao balcão do bar onde a encontrei no próprio dia em que foi posta em liberdade. Meia-hora depois estávamos a foder na casa-de-banho, ela encostada à porta e eu por trás, rápido, violento, ambos a arfar e a acabarmos rápido o que estávamos a fazer depois da dona do bar ir lá bater à porta a mandar-nos para o Íbis. Ela ainda disse que o Íbis era caro. Eu disse-lhe, ao ouvido, que era mais bem cheiroso. Ela riu. Eu puxei as calças para cima e ela o vestido para baixo. Nessa noite ainda nos enrolamos no chão da sala e eu fi-la queimar as costas na alcatifa, ao fazê-la roçar-se, para cima e para baixo, à medida em que entrava e quase saía dela. Não deu um queixume. Eu queimei os joelhos, na mesma alcatifa, e passei dois dias com os joelhos a arder.
Andámos uns meses naquilo. Eu nunca tinha tido uma namorada assim. Assim tão corporal. Acho que nunca fodi tanto. Acho que nunca me apareceu foder tanto. E, contudo, uns meses depois, o adeus. Primeiro as férias de Verão e depois a Universidade. Cidades diferentes e um afastamento que surgiu natural. Cruzámos-nos uma ou duas vezes de regresso a Leiria, mas as coisas já tinham seguido outro caminho. Para mim e para ela. Foi uma das poucas vezes em que o fim surgiu sem dor nem dramas. Foi quase como uma normalidade. Como se fosse o prolongamento natural do que tínhamos tido.
Ao virar numa esquina pareci reconhecer a rua. Andei em frente até um prédio e era o prédio. O prédio dela. A porta da rua aberta. Subi no elevador. Toquei à campainha. Esperei. A porta abriu. E lá estava ela. Lá estava ela exactamente como me recordava dela. E depois olhei melhor e percebi que não. Não estava como eu me lembrava dela. Estava com os olhos inchados. Inchados e vermelhos. Tinha estado a chorar. Coisa que nunca a vi fazer. Ela não mostrou surpresa ao ver-me. Soube mais tarde que também me tinha visto na manifestação. E quando me viu ali, à porta de casa, percebeu que estávamos os dois na mesma luta.
Ela abriu a porta e deu-me passagem para o interior de casa. Depois fechou a porta, passou por mim e levou-me para a sala. Deu-me um copo de whiskey com três pedras de gelo e depois disse-me O meu marido está no hospital. E ela contou. E eu ouvi.
Na manifestação, quando as carrinhas bloquearam as saídas da Praça Rodrigues Lobo e os carecas saíram das caixas abertas das carrinhas, o marido dela foi o primeiro a levar com um taco de baseball na cabeça que lhe provocou um traumatismo craniano e, desde então, estava nos cuidados intensivos e o prognóstico era muito reservado. Mais ainda me contou que foi à polícia fazer participação e que a aconselharam a esquecer tudo o que tinha acontecido e não quiseram receber a queixa. Foi aí que percebeu que algo de muito errado estava a acontecer no país. Mas também percebeu que a maior parte das pessoas nem queria saber o que é que estava a acontecer.
E foi então que eu disse Então está mesmo a acontecer alguma coisa, não está? Então eu não estou doido, pois não?
Ao que ela retorquiu Acho que estamos todos doidos.

[continua amanhã]

[escrito directamente no facebook em 2020/07/24]

Campo de Trevos

Em frente a casa há um pequeno terreno cheio de trevos. Todos os anos, por esta altura, está sempre tudo verde. Mas começa lá mais atrás, para o final do ano que ficou. Começa quando o tempo arrefece. Ou, pelo menos, a ficar menos quente.
É um manto de verde que se estende como um tapete, aqui em frente. Durante a noite, e até o sol nascer, os trevos são como uma seta, com as folhas recolhidas, transformando-se num triângulo aguçado, apontado a céu. Mal o sol desperta, as folhas também despertam e abrem-se para receber o dia.
Costumo deitar-me entre os trevos a fumar um cigarro. A olhar as nuvens a passar lá em cima. A ver formas. A descobrir animais. A reconhecer caras. Sinto as formigas a passar sobre mim. Há sempre uma formiga. São trabalhadoras. Estão sempre à procura de comida. Às vezes picam-me. Às vezes também passam por cima de mim outros bicharocos que não sei o que são. São besouros, acho. Talvez sejam outras coisas. Mas são descarados. Passeiam sobre mim. Sobre o meu corpo. Por cima da roupa. Pela cara. Já os apanhei a entrar-me pelas calças acima e a caminhar pelas pernas. Fazem-me cócegas. Só evitam a mão que agarra o cigarro. Acho que não gostam do fumo do tabaco.
Os gatos aqui de casa também gostam de vir para aqui brincar. Andam às turras uns aos outros. Às vezes também aparecem os gatos da vizinhança. Como ontem.
Não sei se é da Lua, se a gata-mãe anda com o cio ou se são os gatos que andam doidos. Vêm a gata-mãe a passear, a mover os quadris, de rabo levantado, focinho muito direito, arrogante, elegante, dona e senhora do seu nariz e ficam desvairados.
Ontem apareceu um siamês. Nem sei de onde é que ele veio. Não conheço nenhum siamês aqui perto. Abri a janela do quarto e o cabrão do gato estava em cima da gata-mãe. A gata miava. Olhou para mim, quando abri a janela, e miou. Fiquei furioso. Furioso que um gato, que não sei de quem é, me venha foder a gata e, ainda por cima, no meio do meu campo de trevos. O mesmo campo de trevos onde costumo estar deitado, em comunhão com a natureza enquanto me evado para sítios que não conheço. Saí de casa. Agarrei num seixo que estava no alpendre, corri para o campo de trevos e gritei Oh meu caralho! o que é que estás aqui a fazer? e ele olhou assustado para mim, saiu de cima da gata-mãe, que fugiu, e ficou parado a olhar para mim, sem saber o que fazer. Eu levantei o braço. Ele fugiu. Mandei o seixo e acertei-lhe no lombo. Andou um pouco de lado. Não lhe fiz mal. Mas devo tê-lo assustado. Espero que não volte aqui. Espero que não venha incomodar a gata-mãe. Espero que não me venha irritar outra vez. Ah, cabrão! Se te apanho!, gritei enquanto o via a fugir, lá ao longe.
A gata-mãe regressou. Roçou-se nas minhas pernas. Miou. Acendi um cigarro. Deitei-me entre os trevos. A gata deitou-se em cima de mim. Em cima da minha barriga. Acompanhava a minha respiração para-cima-e-para-baixo. Arranquei um trevo. Tinha três folhas. Nunca vi nenhum trevo de quatro folhas. Acho que não tenho sorte.
Tenho sorte, sim. Sorte de ter este campo de trevos debaixo de mim e de uma gata-mãe a fazer-me companhia. E um cigarro na mão.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/04]