Elliott Smith

Acordei bem disposto. Acordei beijado pelo sol que entrava sorrateiro por entre as cortinas mal fechadas da janela. Abri um olho. O outro. Sorri ao sol. Senti o apelo do Verão e pensei É hoje que vou à praia.
Durou pouco esta sensação.
Primeiro porque mal tinha saído do banho, o sol já se tinha escondido atrás de uma nuvem escura como breu a prometer chuva.
Depois porque as redes sociais me recordaram Elliott Smith. Recordaram-me a morte de Elliott Smith pelo seu nascimento. Nasceu a seis de Agosto. Seis de Agosto de Mil Novecentos e Sessenta e Nove. Faria hoje cinquenta anos. Que não chegou a fazer. Já lá vão dezasseis anos. Dezasseis anos de ausência. Morreu em dois mil e três. Em Outubro. Num mês melancólico como convém a quem é melancólico.
Conheci-o com Figure 8. Afinal, o seu último trabalho lançado em vida. Conheci-o no fim. Só depois andei às arrecuas. E fui conhecer o resto. E depois, já depois da morte, conheci o From a Basement on the Hill, o disco em que andava a trabalhar quando morreu. Saiu algum tempo depois. Não sei o que dizer do disco. Claro que gostei. Um disco triste? Melancólico? Ele era sempre melancólico, mesmo quando a música apelava a bater o pé, com ritmo e entusiasmo. Descobrir ali a morte? Algum apelo? Não sei.
Conheci Elliott Smith tarde mas foi logo amor à primeira audição. Ouvi-o por acaso. Acho que gostei da capa do disco. Gostei da figura dele lá na capa. A figura de alguém que estava ali por acaso, porque alguém lhe disse para ficar. Mas sempre vi aquela personagem a querer ir embora para algum buraco com a guitarra na mão. Não o conhecia. Ouvi. Apaixonei-me. Quero mais, pensei.
Fui pôr o CD a tocar. Gosto muito deste disco, o Figure 8. Ainda hoje. Claro que há muito tempo que não o ouvia. Tanta coisa para ouvir nos dias de hoje que acabo por esquecer algumas das melhores coisas que fui colhendo ao longo do tempo.
Fiquei a pensar nisto tudo enquanto ouvia o disco. Fui para a varanda fumar um cigarro quando começou a chover. Não vinha tocada a vento e não me molhou. Estava-se bem na varanda. O som das colunas ainda lá chegava e lutava com o barulho furioso da cidade pela minha atenção. Mas os dois sons foram servindo de embalo. Misturaram-se um no outro. Criaram uma massa de som que servia de banda-sonora ao que não conseguia afastar da cabeça.
O sol incipiente. A chuva no Verão. A música. O prazer da música. O Elliott Smith. O Figure 8. A depressão. A morte.
Eles são sempre assim. Pessoas geniais. Pessoas magníficas. Pessoas capazes de transmitir sol em dias de chuva. Capazes de nos fazer chorar de alegria. Obrigar-nos a guerrear por um pedaço da sua genialidade. Às vezes nem os percebemos. Às vezes não queremos perceber. Às vezes mijamos para cima deles quando os sentimos frágeis. Lembro-me de Amy Winehouse no Rock in Rio Lisboa. A chacota. O riso. O gozo. O prazer de malhar quem está no chão. Eu sei porque também eu fiz o mesmo. E hoje tenho raiva de mim por isso. Por não ter percebido. Porque nunca percebemos. E quando percebemos, geralmente é tarde demais e depois só nos resta lamentar. Que é uma coisa que fazemos muito bem, principalmente em frente dos outros. Olha com eu sofro por ele! Por eles!
Este Verão está uma neura. Eu fui fumando cigarro atrás de cigarro à varanda. A tentar a chuva. Mas a chuva não me chegou a molhar. Mas molhei a cara. A morte é terrível, mas também é um fascínio. O fascínio do abismo.
Depois parou de chover. As nuvens escuras dissiparam-se e o sol regressou. Não tardou muito para estar calor. Mas para mim já era tarde. Entrei para dentro de casa e sentei-me no sofá.
Ainda estou sentado no sofá. Não me apetece ligar a televisão. O disco já chegou ao fim. A casa está em silêncio. Mas a minha cabeça não. Aqui vai uma grande confusão. Uma gritaria. Discussões. Muitos de mim a quererem dar ordens. E eu a perder o controle.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/06]

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Vida em Desequilíbrio

Ando desequilibrado. Para vestir as calças, tenho de me sentar na cama ou encostar ao guarda-fatos. Quando levanto uma perna para enfiar na perneira, perco o equilíbrio e caio. Da primeira vez que aconteceu caí sobre a mesa-de-cabeceira e trilhei a orelha. Fez muito sangue. Tive de ir ao hospital. Levei pontos. A minha orelha já não é tão bonita como era. Por outro lado, ganhou personalidade. A cicatriz dá-me um falso ar de rufia. Como se fosse um troféu de guerra.
Também ouço um zumbido constante nos ouvidos. E, com muita frequência, uma valente dor de cabeça que me obriga a fechar os olhos e só acalma com Clonix.
Eu já estou habituado à desgraça. Contudo, evito ir ao médico. Não gosto de médicos, de hospitais e das contas finais. Contudo, tenho de lá ir por causa dos outros.
O meu pai fugiu de casa há dois dias. Deve ter-se perdido. Tem Alzheimer. Já avisei a polícia. Já percorri todos os hospitais, clínicas, lares e casas de putas da região. Nada. Se calhar apanhou o expresso para um lado qualquer no mundo e desapareceu de vez.
A minha mãe está com demência. Vive com o meu pai. Quer dizer, vivia. Ele agora não sei por onde anda. Não está com ela, isso de certeza. Ela é que organizava tudo da vida deles. Ainda cozinha. Faz a lida da casa. Toma banho sozinha. Dava banho ao meu pai. Mas depois, encetava inúmeras discussões com umas gajas que, dizia ela, lhe entravam lá por casa, para lhe roubarem o ouro, para além de andarem a construírem uma meia-casa no tecto, entre a casa deles e a dos vizinhos de cima, para abrirem uma discoteca que era também uma casa de putas onde o meu pai queria ir, mas nunca conseguiu dar com ela, isto segundo a minha mãe.
A minha filha foi embora. Casou, disse que estava farta de circo, e foi embora não sei para onde que não disse. Já não nos falamos há cerca de cinco anos. Acho que já sou avô. Mas não tenho a certeza.
Amanhã tenho um trabalho. Vai durar três dias. É para fazer um inventário. Chamam-me sempre para estes trabalhinhos de merda. Mas eu até gosto. Ando por lá sozinho. Não tenho de falar com ninguém. Na verdade, é o meu tipo de trabalho preferido. Espero que esta noite não venha a dor de cabeça. Senão, não poderei ir trabalhar amanhã. E eu preciso de ir trabalhar. Preciso do dinheiro. Hoje era o último dia para pagar a renda da casa. Vou ter de esperar até receber por este inventário para a pagar. Ao que me reduzi. A inventários! Mas tenho de pagar a renda da casa, a água, a luz, o gás, o telemóvel, a internet, o cabo, os seguros, a gasolina… Pareço estar vivo para pagar contas!
Vou deitar-me. Beber um copo de vinho. Fumar um cigarro. E deitar-me. E vou rezar. Para amanhã não ter dor de cabeça e poder fazer o inventário. Para poder pagar a renda da casa.
Devia ir à procura do meu pai.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/08]

Homem-Aranha

Estava ao telefone. Estava a ouvir. Que é só o que faço. Ouvir. Já não tenho paciência para discussões. Portanto, ouço. Ouço e calo. É melhor ceder a razão que perdê-la. E já estive vezes de mais a ponto de a perder. E não quero mais. Assim, ouço.
Desliguei. Fui desligado, na verdade. Não tens nada para dizer, é?, perguntou. E não, não tinha nada para dizer. É melhor nunca ter nada para dizer. E então, desligou o telefone. Eu larguei o telemóvel na mesa da cozinha e fui para a varanda fumar um cigarro. Precisava de poluição. De encher os pulmões.
Encostei-me à varanda de cigarro aceso.
Primeiro, ouvi barulho. Uma grande confusão. Gritos. Preces. Um grande bruá. Depois olhei a varanda do prédio em frente e vi o que não queria ter visto: uma criancinha, aí dos seus cinco, seis anos, pendurada na varanda. Pendurada no lado de fora. Pendurada na varanda com o vazio da rua a seus pés. À sua frente, um homem, talvez o pai, não sei, tentava agarrar a criança mas esta não queria que o homem a agarrasse, chorava e ameaçava largar-se se ele se aproximasse.
O cigarro caiu-me dos dedos para a rua lá em baixo. Espreitei para ver se não tinha caído em cima da cabeça de ninguém, e vi que caiu, caiu na cabeça de uma senhora que devia ter laca no cabelo porque houve assim uma pequena labareda na cabeça dela, consumiu-lhe todo o cabelo, e um rapaz lá ao lado só teve tempo de tirar o casaco e, com ele, apagar a chama na cabeça da senhora. Enquanto me assustava por ter provocado aquele acidente, vi o Homem-Aranha. Não era uma banda-desenhada da Marvel. Era mesmo a sério. O Homem-Aranha estava ali a subir prédio acima.
Um tipo negro, provavelmente africano, estava a subir o prédio em frente agarrando-se às varandas dos andares, rés-do-chão, primeiro andar, segundo andar, terceiro andar, quarto andar, assim, quase à mesma velocidade que eu levo a escrever o trajecto e, quando dei por ele, o Homem-Aranha estava na varanda do quarto andar, na varanda do meu vizinho de frente, na varanda onde a criança estava pendurada, a agarrá-la por um braço e puxá-la para dentro, e a criança a abraçá-lo, e o outro homem a cair de joelhos a chorar e a pedir perdão e a polícia a chegar lá em baixo, que eu ouvi a sirene, e ouvi-os a saírem do carro e a entrarem no prédio, e as pessoas lá em baixo a baterem palmas e a gritarem palavras de incentivo, bonitas, acolhedoras, a assobiarem, de telemóveis em riste, a registar todo o acontecimento, a criança pendurada e o Homem-Aranha a subir, e este continuava abraçado à criança e o outro homem continuava a chorar e a pedir perdão e a polícia chegou à varanda e agarrou na criança e levou o Homem-Aranha e o outro homem que estava a chorar para dentro de casa para conversarem e perceber o que se tinha passado.
Eu ainda estava a ver a aura do homem que parecia o Homem-Aranha a subir o prédio quando reparei que a senhora estava a chorar o cabelo queimado e um outro polícia estava a registar a ocorrência e pensei que ainda vinham aí chatices para mim e o melhor era ficar calado, recolher para dentro de casa e ir fumar um cigarro para a sala. Mas pensei na beleza do que vi. E pensei que ainda havia gente no mundo. Havia gente que era pessoa. Havia gente que merecia todo o meu carinho e admiração. Havia gente que merecia ouvir a minha voz. E então eu disse, antes de ir fumar o cigarro para a sala, Obrigado! Obrigado, Homem-Aranha, por me fazeres acreditar.

[escrito directamente no facebook em 2018/05/28]

Vai Passar, Tudo Vai Passar

Olhei-me ao espelho e assustei-me.
Tinha o olho direito quase fechado, tal o inchaço. O olho esquerdo, aberto, límpido, estava com um enorme papo negro, bem escuro, como se fosse feito de sangue pisado. O cabelo estava em desalinho. Tinha sangue na camisola e, mais tarde, vim a descobrir ter sangue nas calças. E sim, era meu, o sangue. Mas não era de nenhuma ferida que tivesse no corpo. Tinha um pouco de sangue a escorrer da testa, se calhar devido a uma queda, teria lá levado a mão e teria espalhado o sangue por todo o lado. Nada de grave, portanto. Ou assim parecia.
Ao telefone ela dissera que me esperava. Estou à tua espera. Não quero saber de onde vens. Não quero saber onde estavas. Mas quero que venhas ter comigo.
Eu olhava o espelho e não sabia o que fazer. Iria assustá-la. E eu não queria isso. Ela não merecia isso. Não sabia o que fazer. Mas a verdade acaba sempre por ser a mais pequena recta entre dois pontos. Que assim fosse.
Saí de onde estava. E não, não disse a ninguém onde tinha estado. Entrei no carro dela e estivemos meia-hora a olhar um para o outro sem nos falarmos. Até que ela disse Vamos até minha casa. Não disse vamos ao hospital, ou ao Centro de Saúde, ou a uma clínica. Não. Disse Vamos até minha casa. E eu fui.
Levou-me para a casa-de-banho. Despiu-me com muito cuidado. Deu-me banho. Teve atenção aos hematomas. Secou-me devagar e aos pequenos toques. Vestiu-me uma roupa velha de um ex-namorado que estava ainda lá por casa. E depois colocou betadine nas feridas e alguns pensos, principalmente em zonas escondidas do corpo.
No fim olhou para mim e disse Vais ficar cá por casa uns dias. E não quero ouvir não. Não quero saber o que fizeste nem porque o fizeste. Deves ter tido as tuas razões. Ou pelo menos pensaste que tinhas essas razões. Por isso ficas cá em casa uns dias e não quero discussões.
E foi então que comecei a chorar. A chorar desalmadamente. E contei-lhe tudo o que fiz, e porque fiz, e porque o faria outra vez, e porque me sentia assim como me sentia naquele momento, e agora, e porque me achava um falhado, mesmo achando que era uma pessoa inteligente, culta, conhecedora, e no entanto de nada valia numa porra de mundo onde essas coisas cada vez valem menos.
E foi nessa altura que ela se aproximou de mim, agarrou-me, e me afagou os cabelos molhados e disse Vai passar. Tudo vai passar.

[2018/04/05]