O Carteiro Toca Mesmo Sempre Duas Vezes

Eu estava a beber. Ela também. Estávamos alegres. Bem-dispostos. Estávamos em casa. Ela começou a despir-me. Eu despi-a. Caímos os dois no chão da sala. Ela ficou por baixo de mim. Acabou com as costas queimadas de roçar na carpete. Eu esfacelei os joelhos e os cotovelos. No fim fumei um cigarro. Nu. À janela. Ela não, que não fumava. Mas a boa disposição não durou muito. Ela tinha parado de tomar os comprimidos para não perder a libido e não me perder. Começou a enervar-se. Primeiro foi o cigarro. O fumo do cigarro. Depois o estar nu à janela. Zangou-se comigo. Levantou-se uma discussão feia. Nem parecia que tínhamos estado tão bem alguns minutos antes. E pôs-me fora de casa. Assim. Num estalar de dedos. Põe-te a andar! disse.
Eu fiz uma pequena mochila e saí de casa.
Sentei-me num banco de jardim no pequeno largo em frente a casa. Dali eu via as janelas. De casa ela via-me ali em baixo.
Raios partam a gaja! pensava eu enquanto acendia um cigarro e ia olhando para a janela de casa dela. Não via nada. Nada de nada. As cortinas tapavam tudo. Nem me via nu, à janela, a fumar um cigarro depois de ter feito amor com ela.
Veio a noite. Deitei-me no banco. Enrolado sobre mim próprio. A cabeça sobre a mochila. Para onde é que havia de ir? Não tinha dinheiro para um hotel. Não ia para casa da minha mãe. Fiquei ali. No banco de jardim. Frente à casa dela.
Estava com fome. Mas acabei por adormecer.
Fui acordado de madrugada. Já se via o dia clarear atrás da montanha que rodeava a cidade. Fui acordado com o telemóvel a tocar. Era ela. Anda para casa! dizia.
E eu fui para casa. Para casa dela.
Mas isto voltou a acontecer mais vezes. Ela voltou a não tomar os comprimidos. Bebíamos cada vez mais. Passávamos os dias nus a andar por casa. Ela trabalhava em casa. Eu estava sem trabalho. Bebíamos e comíamos. E fazíamos sexo. Dançávamos. Dançávamos muito. Dançávamos nus, enrolados um no outro. Às vezes estávamos alguns dias sem tomar banho. Íamos para a cama. Depois para o sofá. Para a mesa da cozinha. À porta da rua a ouvir o elevador a subir e a descer. Também aconteceu no duche, numa das poucas vezes, nesse período, em que tomámos banho.
Durante essa época fui posto na rua mais três ou quatro vezes. De todas as vezes ela acabava a mandar-me subir. E eu era bem-mandado. Saía de casa quando ela me mandava embora. E voltava a subir quando ela me chamava. Foi um período um bocado esquizofrénico. Muito amor. Muito ódio. Muito sexo. Muita loucura.
Este foi um período muito estranho. Bebia muito. Ela também. Eu fumava. Ela não, não fumava cigarros. Mas acompanhava-me nas ganzas. Nessa altura fazíamos grandes banquetes. Experimentávamos cozinhados com o que havia lá por casa e, normalmente, acabávamos no chão da cozinha, um em cima do outro, às vezes violentamente, a tentar descobrir até onde é que conseguíamos ir. E fomos muito longe. E fomos, por vezes até, demasiado longe. Mas não quero falar sobre isso.
Ela continuava sem tomar os comprimidos.
A última vez que me mandou embora eu fui, mas dessa vez não fiquei no banco de jardim. Também, já era Inverno, estava frio e ameaçava chuva. Ganhei coragem e fui para casa da minha mãe. O telefone voltou a tocar de madrugada. Mas dessa vez não atendi. E durante essa semana, nunca atendi o telefone. E depois, as chamadas dela foram espaçando-se no tempo. Até se extinguirem por completo.
Eu acabei por arranjar um trabalho. Continuei a viver em casa da minha mãe. Afinal, não estava lá mal.
Hoje estava no Pingo Doce, um pequeno Pingo Doce que existe ao pé de casa da minha mãe, estava a comprar umas cavalas para ela cozer (ela gosta de cavalas cozidas com feijão verde) quando a vi. Ela estava parada, ao lado dos congelados, a olhar para mim enquanto eu pedia à senhora do supermercado para amanhar umas cavalas.
Ela tinha uma garrafa de Mouchão nas mãos. E disse Olá. Eu fiquei a olhar para ela. Para ela e para a garrafa de Mouchão. Foda-se! pensei. Larguei as cavalas e o cesto com as compras que estava a fazer para a minha mãe e saí com ela do supermercado.
Fomos para casa dela.
Eu comecei a beber. Ela também. Já estávamos alegres. Bem-dispostos. Estávamos em casa dela. Ela começou a despir-me. Eu despi-a. Caímos os dois no chão da sala. Eu levantei-me e vim até à casa-de-banho. Ainda cá estou. Queria ir-me embora. Não devia ter vindo. Não devia ter vindo para casa dela. Não quero voltar a passar pelo mesmo. Eu estou nu aqui dentro. Aqui na casa-de-banho. Ela está nua na sala. À minha espera. E eu quero ir-me embora. Mas não sei como.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/23]

Quem É que Está Aí?

Sinto a porta da rua a abrir. Deve ser ela, penso. Está de regresso, finalmente. Já era tempo, não?
Aproveitei a vergonha do sol para arrumar a lenha que me vieram trazer a casa. Não estava muito calor. Chuviscou um pouco. Peguei no carrinho-de-mão e andei, para cima e para baixo, a acartar a lenha para debaixo do telheiro. Amealhar para o Inverno. Enquanto ainda nos deixam queimar madeira para nos aquecermos.
Ia no segundo carrinho quando o sol despertou e veio na companhia do calor. Custou-me carregar o resto da lenha. Não sei quantas viagens fiz com o carrinho-de-mão. Mas ganhei umas bolhas nas mãos. Despertei a minha alergia ao calor e tive de tomar um Zyrtec. Demorou a fazer efeito.
Enquanto acartava a lenha para o telheiro pensei na conversa que tinha tido com ela no dia anterior. A conversa que azedou e acabou por me deixar sozinho em casa.
Eu só tinha dito que a culpa era dela. Não dela, dela, especificamente. Mas de todas as elas e eles e nós. Eu! Eu também me incluía na culpa mas, na conversa, tinha-me saído um dela por força das circunstâncias. Estávamos a discutir e era eu contra ela. E ela levou com a culpa. Mas a culpa não era só dela. Mas também. Eu só disse A culpa é tua. E ela, admirada, quase escandalizada, perguntou Minha? Minha como? e eu respondi-lhe Porque votaste neles. E ela ficou ali assim, admirada, de boca aberta, a olhar para mim.
O sol já tinha despertado. Abrira as portas ao calor. A transpiração corria-me corpo abaixo. E eu pensava no que ela me tinha dito.
Mas eu sou só um voto e votei para protestar. Não significa mais que isso. Um protesto que não tem poder nenhum. Um voto. O que é que isto significa? Nada! Não significa nada! Mas significava. Tanto significava que eles tinham chegado ao poder. Todos os votos unitários contados um-a-um conseguiu elegê-los. Com maioria absoluta. E estavam a transformar tudo. A vida como nós tínhamos aprendido a viver. Tudo transformado em nome da eficiência. Em nome do futuro. Mas qual futuro? Era tudo muito obscuro e bizarro. Porque nem sequer é para todos. Quem pode pagar pode comprar a bula. Porque há bulas. Há sempre bulas. Há bulas para quem pode pagar. E foi isso que lhe quis explicar. Que pessoas como nós, estão sempre fodidas. Utilizam-nos e depois descartam-nos. Os outros, os que podem, os que mandam, esses podem sempre pagar para ser como eles querem. E, ironia do destino, somos sempre nós que elegemos esta gente. Era isso que eu lhe estava a explicar. E ela só me perguntou E eu sou a culpada pela merda de vida que agora temos? E eu nem precisei de lhe responder. Olhei para ela. Um olhar parvo e cínico, admito. Só olhei para ela. E ela viu a resposta no meu olhar.
Já estava cansado quando fiz a última viagem até ao telheiro com o resto da lenha. E parecia que tudo aquilo era só para me chatear. Na minha última viagem o sol despediu-se. O céu cobriu-se de negro, trouxe de volta um pouco de frio e um bocadinho de chuva. Pensei Ao menos a lenha não fica molhada.
Parei debaixo do telheiro a olhar para a pilha de lenha. Arrumei o carrinho-de-mão. Observei a chuva e voltei a pensar na conversa que tinha tido com ela.
Mas já não houve conversa. Ela ficou zangada comigo. Levantou-se do sofá e saiu de casa. Ouvi o carro a descer a alameda e a sair o portão. Onde andaria?, pensei.
Afinal está aqui, de regresso a casa. Afinal a conversa era estúpida. Não era caso para tanto. Claro que ela era culpada. Ela como eu. Mas não precisava de ficar zangada comigo e sair porta fora. E pergunto alto És tu?, mas ninguém me responde. Nem ouço barulho. Não me chega o cheiro dela. Não lhe ouço a respiração. Nem lhe sinto os passos. Quem será? Quem é que está aí?

[escrito directamente no facebook em 2019/09/18]

Gente Doida

Já estava há duas semanas a viver naquela casa perto da aldeia, a casa que um amigo me emprestou por uns tempos, tempos indefinidos, para eu escrever, esquecer mágoas e poupar o pouco dinheiro que me restava, quando eles bateram as palmas no portão ao fundo do quintal. A casa não tinha campainha. E eu não estava à espera de visitas então, não estava muito preocupado com a falta de sinalização para alguém que chegasse se pudesse fazer anunciar pois, com certeza, não seria para me visitar. Afinal, o casal bateu palmas, eram muito expeditos e sim, vinham visitar-me. Mais concretamente, vinham convidar-me para ir jantar a casa deles. Eu e a minha senhora Há uma senhora, não há?, perguntou ela sorridente. E eu disse que não. Era só eu. E era o suficiente para me chatear. Eles fizeram um sorriso amarelo. E ela continuou Os miúdos foram para um Festival de Verão, temos dois filhos, não é? um casalinho, nem sabemos já qual foi o Festival, há tantos, não é?, enquanto punha a mão sobre o meu braço, o marido a olhar, nós os três à entrada, no portão, que não os mandei subir até ao alpendre, e depois continuou E como somos vizinhos resolvemos vir dar-lhe as boas-vindas e convidá-lo para jantar. Amanhã. Não precisa de levar nada. Nem sobremesa. Nem o vinho. Basta aparecer.
Eu não estava com muita vontade de relacionamentos com a vizinhança. Também foi por isso que fui para ali, para aquele Ku de Judas, longe de tudo e de todos. Apetecia-me declinar o convite. Dizer não. Mas o olhar da mulher não mo deixou dizer. E acabei por murmurar Sim… assim, em suspenso, como se ao aceitar daquela forma tão sumida não me estivesse a comprometer. Mas estava. E sabia que estava.
E no dia seguinte, lá acabarei por descer o quintal até ao portão, fiz a estrada até casa deles, mais ou menos dois quilómetros, nos quais acabei por fumar quatro cigarros, numa média de um cigarro por cada quinhentos metros, e toquei à campainha. A casa deles tinha campainha. Apareceu um cão a ladrar ao ouvir a campainha. Não reconhecia a raça do cão. Mas não era daqueles muito amigáveis. O dono acabou por descer até à porta para agarrar na trela do cão e me fazer entrar.
Entrei.
Acabei por levar um saco de plástico com fisális que apanhei lá no quintal e que nascem assim, de natureza espontânea, aos molhos, mais do que lhes consigo dar andamento. Ela agradeceu. Disse que os ia juntar à salada. Colocou-me um copo de vinho branco nas mãos, deixou-me com o marido e voltou para dentro de casa.
Eu acabei por ficar no jardim com o marido. A beber um copo de vinho branco. Ele também. Também tinha um copo de vinho branco nas mãos. E conversámos. Ele conversou. Empregado bancário. Tinha ido para a delegação da aldeia nos anos noventa. Acabaram por comprar aquela casa ali. Tiveram os filhos. Dois. Um casalinho. Estavam num Festival de Verão qualquer. Ela dava aulas ao secundário. Geografia. Deixou de dar e dedicou-se ao fabrico de compotas que vendia na aldeia e pela internet. Gostavam da calma da aldeia. Às vezes sentiam falta de gente com quem conversar. Gente da mesma idade. Com os mesmo gostos. Entretanto o Banco resolveu encerrar a delegação da aldeia. Ele tinha de voltar para a cidade. Ao fim de vinte anos tinha de regressar à cidade. Ou pedia a reforma. Não sabia o que fazer. A mulher também não estava a ser de muita ajuda. Aliás as coisas entre eles já não eram as mesmas. Ele sentia-se cansado dela. Imaginava que ela também estivesse saturada dele. Foi por isso que me foram convidar para jantar. Para mudar rotinas. Fazer algo de diferente.
E eu senti-me estranho. Um estranho no meio de estranhos já com informação que não queria ter. Não queria saber nada daquilo. Não queria aquela intimidade. Não queria ser puxado para dentro de uma vida que não era a minha.
Mas já era tarde. Já estava ali. De copo na mão. De ouvidos abertos à lamúria alheia.
Bebemos aqueles copos. Bebemos mais dois. Ela juntou-se a nós. E depois fomos até ao alpendre onde estava a mesa de jantar.
Comemos um lombo assado no forno com alecrim. Um puré de maçã. Uma salada com rúcula, tomate, requeijão esfarelado e os fisális. E esvaziámos várias garrafas. Agora de vinho tinto.
Já tínhamos jantado. Estávamos os três um pouco alterados com o vinho. Lembro-me de me descobrir a falar muito depressa e muito alto. Não costumo ser assim. Tentei acalmar-me. E foi quando percebi que não era eu que estava alterado. Era ele. E ela. Quando percebi, estavam a discutir um com o outro. Não sei em que altura é que a conversa descambou para aquilo. Acho que se esqueceram de mim. Soltaram os seus problemas. Eu não conseguia seguir a conversa. Só o barulho que faziam. Acendi um cigarro. Voltei a encher o meu copo com o resto de uma garrafa que deixei cair ao chão, e não se partiu, e recostei-me na cadeira a olhar para eles e a pensar se não seria a altura de me ir embora, quando ele pegou no garfo, levantou a mão acima da cabeça e espetou-o com força na mão dela que estava pousada na mesa mesa.
Ela gritou. Eu dei um pulo na cadeira. Ele assustou-se com o próprio gesto. Largou o garfo espetado na mão dela. Começou a chorar. Levantou-se a chorar como um bebé. Ela só dizia asneiras. Maldizia a vida e a ele. Eu deixei cair o cigarro da boca para o chão. E ela disse Vai buscar a chave do carro, caralho! e ele foi. E ela levantou a mão com o garfo espetado e disse Foda-se! Eu reparei que o garfo não tinha espetado na mesa. Já não era mau. Podia ter sido pior. Podia ter preso a mão à mesa.
Ele chegou com a chave do carro. Ela virou-se para mim e disse Desculpa, mas temos de ir ao hospital. E saíram a correr do alpendre para o carro. Ele gritou Quando saíres fecha o portão para o cão não sair. Amanhã telefonamos. E vi o carro arrancar.
Eu acendi outro cigarro. Acabei o copo de vinho. Virei todas as outras garrafas e descobri que estavam todas vazias. Apanhei os fisális que ainda estavam na tigela da salada e comi-os. Voltei a acender outro cigarro e saí de casa deles. Fiz o caminho de regresso a casa devagar. A acender uns cigarros nos outros. A pensar. A pensar nem sei bem em quê. Com músicas dos anos oitenta a tocar na cabeça. Porquê? Porquê músicas dos anos oitenta?
Quando cheguei a casa, arranquei o cabo do telefone fixo da parede. Desliguei o meu telemóvel. Fui à cozinha buscar uma garrafa de vinho e sentei-me no alpendre a fumar outro cigarro. Estava a fumar muito. E de repente percebi o que estava na minha cabeça a fermentar a algum tempo. Era uma frase, uma ideia Esta gente é doida! E lembrei-me porque é que tinha largado a cidade e toda aquela gente que conhecia.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/01]

O Telheiro

Um pouco mais acima na rua onde eu vivo há um antigo telheiro abandonado. É um telheiro em que metade do tecto já desabou. Duas paredes de madeira ainda se conservam em pé. O mato cresce à volta e lá por dentro, sem que alguém cuide dele. Não sei de quem é o telheiro ou o terreno onde está. Nem sei se é terreno baldio ou da junta. A verdade é que nunca vi ninguém cuidar do telheiro ou do terreno. Morre ao Deus-dará.
Mas é um telheiro com muita frequência.
Durante o dia são os miúdos das escolas das redondezas. Faltam às aulas e vão para lá fumar umas ganzas. Jogar à Verdade ou Consequência. Trocar beijos. Mexer uns nos outros por cima das camisolas.
Durante a noite são os namorados. Os amantes. Já vi ir para lá muito filho-de-família aqui da terra. Até os pais deles. E as moças aqui da terra. Tudo muito em segredo. Tudo muito secreto. Por vezes tombam uns nos outros. Os que chegam e os que partem. Fingem que não se vêm. Que não se conhecem. Que não estão lá. Acabam por se encontrar todos na igreja, na missa de Domingo. Eu sei porque os vejo a sair da igreja. Vejo-os a sair da igreja quando vou comprar um frango assado na churrasqueira frente ao adro.
De madrugada são os dealers. Vende-se de tudo. Compra-se de tudo.
O mais maravilhoso nisto é que, no meio de tanta actividade, diária e nocturna, não se dá por nada. Não fazem barulho. São discretos. Silenciosos.
Mas não é nada comigo.
Ou não era.
Não era até à noite passada.
Ontem à noite estava no alpendre a fumar um cigarro. Vi chegar um carro. Vi sair um homem do carro. Vi sair uma mulher do carro. Vi-os subir até ao telheiro. E pensei Com um carro desses e vais foder para o telheiro?
Segui-os com o olhar até perdê-los de vista. Fiquei à escuta. O silêncio da noite. Um cão ao longe. Uma motorizada. Um ou outro carro na estrada lá mais ao fundo.
Apaguei o cigarro.
Desci do alpendre. Saí do quintal. Subi a estrada. Depois subi o terreno até ao telheiro. Em silêncio. Dei a volta ao telheiro. Com cuidado. O luar era pouco. Não via onde punha os pés. Então, punha-os com cuidado. Um após o outro. Espreitei várias vezes. Espreitei várias vezes por entre as ripas de madeira. Por entre as ervas selvagens. Por entre o mato crescido. Até que os vi. Ela de costas, em pé, agarrada a um barrote. Ele por trás dela. Ela com a saia levantada. Ele com as calças em baixo. Ouvi o silêncio tornar-se sonoro. Pequenos gritinhos primeiro. Depois em crescendo. Pequenos gritinhos tornados gritos. Numa mecânica própria. Ritmada. Encostei-me à parede de madeira ainda erguida. Sentei-me à escuta. De costas para eles. A ouvir os ritmos. Reconheci-o. Reconheci-a. O meio é pequeno. Não há muita gente. E as pessoas são sempre as mesmas. E repetem-se. Ele era frequentador habitual do telheiro. Ela era a primeira vez que a via ali. Tinha-a como mulher recatada.
E estava eu nestes pensamentos quando percebi que o som estava já demasiado alto. Já não eram gritinhos, nem gritos. Era uma discussão. Ele discutia com ela. Refilava. Injuriava-a. Ela chorava. Tentava refutar o que ele dizia. Eu não percebia os contornos da discussão, mas percebia os Mas… O Não é assim… O Não tenho culpa… E os Não quero!… dela.
E ouvi o primeiro estalo. E o segundo. E o silêncio que se lhes seguiu. Levantei-me e voltei a espreitar. Estavam os dois em pé. Ele estava a ajeitar as calças. Era o que me parecia. Afinal estava a tirar o cinto. Vi a cara que ela fez. Uma cara de medo. E vi quando ele lhe deu com o cinto. Uma vez. Duas vezes. Eu fiquei nervoso. Pensei Vou lá!… E estava para lá ir quando a vi fugir, tropeçar, e bater com a cabeça num pedaço de ripa de madeira que estava solta. Mas presa o suficiente para aguentar um choque. E vi-a espetar-se na madeira. A cabeça dela a espetar-se na ripa de madeira. E ela ficar espetada. Mas não caiu porque a ripa aguentou-lhe o peso do corpo morto. Ele ficou parado por momentos. A olhar para ela ali de pé, de pernas um pouco dobradas, com uma ripa de madeira a entrar pela cara dentro, e quieta. Quieta e em silêncio. E o sangue a escorrer. A escorrer por ela abaixo.
Eu fiquei parado. Já não consegui lá ir. Fiquei ali em silêncio a vê-lo. A vê-la. A vê-los aos dois.
E vi quando ele voltou a colocar o cinto nas calças e olhou em volta e saiu do telheiro. E vi quando ela ficou lá sozinha, pendurada numa ripa de madeira a deitar sangue.
Voltei a sentar-me. As costas de encontro à parede de madeira. Ouvi o carro dele a arrancar. Acendi um cigarro. Fumei um bom bocado. Depois agarrei no telefone. Marquei o 112.
Isto aconteceu ontem.
A polícia já lá esteve. Os bombeiros também. E a polícia forense. Parecia um episódio do CSI.
Agora a polícia está a tocar à minha campainha. Eu estou a hesitar em abrir a porta. Não que eu não queira abrir a porta. Estou a tentar pensar se vou contar o que vi ou não. Não gosto de me envolver. E ele é uma pessoa importante. Estou a pensar. A polícia continua a tocar a campainha. Eu tenho de atender. Abrir-lhes a porta. O que é que eu lhes digo?

[escrito directamente no facebook em 2019/05/13]

Isto Vai Durar Até Quando?

Saí de casa. Estou sempre a sair de casa. Vai-não-vai, aí vou eu. Saio de casa e fecho a porta nas minhas costas. Fecho a porta com estrondo nas minhas costas. Para se ouvir. Para se ouvir que saí de casa.
Faço uma pequena mochila com algumas coisas. Cuecas, meias, um livro. Coisas assim. Essenciais à vida de todos os dias. E penso Desta vez é que é! Como se fosse. Mas nunca é.
Pego na mochila. Saio de casa. Fecho a porta com estrondo nas minhas costas e entro nas ruas da cidade. Nos dias de chuva é mais chato. Gosto mais dos dias de sol. Caminho pelas ruas luminosas enquanto penso no que fazer. Para onde vou? Casa de amigos? Pensão? Alojamento local?
Acabo quase sempre por optar pelo Ibis. Não é caro. É relativamente anónimo. Não está bem no centro da cidade embora não esteja longe. É um hotel discreto.
Mas é sempre uma tristeza.
Acabo deitado em cima da cama. Uma cama sem colchão. As camas do Ibis são de espuma. Deito-me e afundo-me. Cinco minuto depois estou cheio de dores nas costas. Mas aguento. Porra! aguento tanta coisa. Também aguento uma dor nas costas.
Acabo deitado em cima de uma cama de espuma num quarto do Ibis. Vestido. Calçado. O cinto a apertar a barriga. As sapatilhas a sujar a manta branca. O comando da televisão na mão a fazer zapping em canais que nunca vejo a não ser lá, de todas as vezes em que habito lá. Já tenho ficha no Ibis. Já me fazem desconto. Já me arranjaram dormida num dia treze de Maio de lotação esgotada com os peregrinos de Maria. Sou um bom cliente. Um cliente habitual.
Há vezes em que ainda nem decidi o que fazer, ou seja, ainda estou a adiar a solução Ibis, e já o telemóvel toca. Não atendo. Sei que é ela. Ouviu a porta a bater com estrondo. Primeiro fica furiosa. Depois arrepende-se. Em seguida liga-me. Eu não atendo. Volta a ficar furiosa. Manda umas mensagens a refilar comigo. A chamar-me nomes. És um merdas! Depois pára. Normalmente eu já estou no Ibis, deitado sobre a espuma da cama, de comando da televisão na mão a fazer zapping sem nenhum objectivo quando chega a primeira mensagem das desculpas.
Desculpa, diz. Desculpa desculpa desculpa, volta a dizer. Desculpa, não queria dizer o que disse, insiste. Depois chegam várias outras mensagens a explicar porque chegámos ali, aquele ponto. Àquele ponto específico. Aponta as culpas dela. Aponta as minhas culpas. Eu não respondo logo. E ela pergunta onde estou. Onde é que estás?, pergunta. E eu continuo sem responder. E ela avança logo Estás em casa de alguma amiga, não é? E eu rio-me. Um riso amarelo, é certo. Mas acho piada a que tudo se resuma a isso. Estás com alguma amiga, não é? Apetecia-me dizer-lhe que não. Não, não estou com nenhuma amiga, percebes? Estou sozinho. Sozinho no Ibis. Sozinho no Ibis a fazer zapping por canais de merda que nem sei do que falam. Mas não digo nada. Não telefono. Não mando mensagens. Não atendo nem respondo ao que me lança. Ainda estou muito zangado. Não saí de casa por sair. Saí porque me zanguei. Fiquei farto. Quis cortar a ligação. Ir embora. Disse-me Desta vez é que é. E não! Não é!
Passa um dia ou dois. Acabo por atender o telefone. Acabo a falar. A ouvir as desculpas dela. A pedir as minhas desculpas. A pensar que é uma idiota. Que sou um idiota. Que somos todos uns idiotas que só estamos bem onde não estamos. Que só queremos o que não temos.
Olho para o livro na espécie de mesa-de-cabeceira. Não consigo ler. Não tenho espírito para ler. Continuo no zapping. Acabo por ficar num qualquer canal alemão onde não entendo nada do que é dito.
E, depois, acabo por voltar para casa. Acabo sempre por voltar para casa.
A última vez que aconteceu foi hoje ao fim da tarde. Já nem sei porquê. Mais uma discussão parva. Voltei a sair de casa. Voltei a bater a porta com estrondo nas minhas costas. Voltei a caminhar pelas ruas da cidade, já a escurecer e com o frio a cair sobre mim. Voltei a decidir-me pelo Ibis. Voltei a não atender o telemóvel.
Estou deitado em cima da cama de espuma com as sapatilhas a sujar a manta branca. Tenho o comando na mão e faço zapping por canais que nunca vi. Já recebi várias mensagens dela. A última era a perguntar Qual das tuas amigas te cedeu cama? Qual delas te abriu as pernas? E eu estou zangado. Estou sozinho. Estou sozinho a precisar de calma. Não vou responder a estas mensagens. Amanhã vamos fazer as pazes. Daqui a dois dias estou de regresso a casa. E pergunto-me Isto vai durar até quando?

[escrito directamente no facebook em 2019/03/16]

O Homem nas Escadas

São oito da manhã. Estou à janela da cozinha. Bebo o café acabado de fazer. Lá dentro, no quarto, ela continua deitada. Não está grande coisa. Sem vontade de se levantar da cama. Sem vontade de sair de casa. Sem vontade de nada. Eu deixo-a estar. Deixo-a descansar. Mais tarde ligarei para o escritório a dar conta da sua ausência. À noite trago um risotto de cogumelos. Talvez a anime.
O carro da polícia passa devagar lá em baixo, no largo. Ontem à noite não apareceram. Os miúdos andaram a fazer barulho até às tantas. Se calhar também foi isso que a deixou assim. Não descansou. Ficou nervosa.
Deito o resto do café no lava-louça.
Passo na casa-de-banho e lavo os dentes. Olho-me ao espelho. Estou a ficar velho. Estes últimos meses foram terríveis. Envelheci rapidamente. Foi de um momento para o outro. Tenho muito pêlos brancos na barba. Umas grandes olheiras que fazem a cara tombar e ficar macilenta. Umas peles descaídas no pescoço. E uma grande dificuldade em focar a minha imagem no espelho. Preciso de novos óculos.
Agarro do casaco e na mochila e saio de casa. Chamo o elevador. A luz de chamada começa a piscar. Está avariado. Gaita! Os dois.
Percorro o corredor até à porta das escadas. Entro naquele buraco onde raramente entrei. Está frio. Visto o casaco. Começo a descer. Os meus passos ecoam pelas escadas. Acho que até os meus pensamentos fazem ricochete nestas paredes frias. Olá! Olá! OLÁ!
Não. O eco dos meus pensamentos afinal é só na minha cabeça.
Vou a meio das escadas e vejo uma garrafa de água de Luso. Litro e meio. Já encetada. Uma caixa de pizza. Abro-a. Tem duas fatias. Frias. Ao canto, um saco-cama enrolado. Que é isto? Alguém anda a dormir aqui nas escadas.
Deixo tudo como estava. Desço o resto das escadas. Vou trabalhar.
Trabalho.
Almoço.
Trabalho.
Tenho uma discussão com um colega de trabalho. Eu tenho razão na discussão. O que eu defendo prevalece. O meu colega fica chateado. Ele que se foda!
Trabalho.
Restaurante take-away. Compro um risotto de cogumelos. Para duas pessoas.
Casa.
Eu janto.
Ela continua na cama. Agora não fala comigo. Acho que não fiz qualquer coisa que devia ter feito. Ou era ter dito? Já não sei.
Continuo a beber o vinho que comecei a beber no meu jantar solitário.
Sento-me frente à televisão. Faço horas. Faço horas para ir as escadas ver quem é que está lá a dormir.
Uma da manhã. Começa o noticiário da hora certa na SIC Notícias.
Levanto-me do sofá. Calço umas sapatilhas. Visto uma camisola. Saio de casa. Percorro o corredor até à porta das escadas. Abro sem fazer barulho. Desço as escadas em silêncio. Nem eu me ouço. Está tudo às escuras. Sigo agarrado ao corrimão. Cheira-me a frango assado. Ao chegar a meio das escadas noto uma luz muito ténue. Alguém está nas escadas. Alguém está nas escadas a comer frango assado. Ouço o mastigar. Aproximo-me. Devagar. A luz ténue agora é um bocadinho mais presente. E vejo que está alguém sentado num degrau das escadas. Sentado em cima do saco-cama. É um homem. É o meu vizinho de baixo. Que raio está aqui a fazer?
Chamo-o. Chamo por ele. Chamo pelo nome dele. Não muito alto para não o assustar. Mas não o impede de dar um salto. Assustei-o na mesma. Ele aponta a luz ténue de uma lanterna pequena de dínamo para mim. Reconhece-me. Diz o meu nome. Diz o meu nome com um ponto de exclamação no final. Pensa O que é que estás aqui a fazer? Penso O que é que estás aqui a fazer? Ambos pensamos o mesmo. Mas eu é que preciso de uma resposta. Agora pergunto sonoramente O que é que estás aqui a fazer?
Ele olha para mim. Se fosse mais novo, uma criança, mesmo um adolescente, diria que estava a fazer beicinho. Mas ele não. Ele não estaria a fazer beicinho. Ele está prestes a chorar. Ele sente-se apanhado no seu segredo. Mas faz um esforço para segurar as lágrimas. E diz Olá! Estás bom? Como se nos tivéssemos encontrado no elevador a caminho de uma festa.
O que é que se passa? pergunto.
Ele fica a olhar para mim em silêncio. À procura de um começo. Tipo Era uma vez… Mas aquela não era uma história dessas. Ele suspira. Tem uma garrafa de vinho tinto ao lado. Agarra nela e passa-ma para as mãos. Eu sento-me num degrau acima dele e bebo um gole de vinho.
E ele começa A minha mulher chateou-se comigo. Perdi o emprego. Perdi o emprego e ela chateou-se comigo. Saí de casa. Ela pôs-me fora de casa. Não sei para onde ir. Não tenho dinheiro para um hotel. Pedir aos amigos… nem falar! Não quero ter de dar explicações a ninguém. Estas que te estou a dar a ti. Não quero falar disto a ninguém. Tenho evitado toda a gente. Durmo aqui. Como aqui. Durante o dia vou para a rua. Vou para zonas da cidade onde não espero encontrar gente conhecida. Passeio pelas ruas. Sento-me nos bancos de jardim. Espero que o tempo passe. Espero que o tempo passe e tudo regresse. Espero que ela me chame de volta para casa. Espero que me telefonem para um trabalho. Espero que volte a ter um salário. Espero que possa voltar a tomar um duche de água quente. Espero voltar a dormir numa cama com colchão e um tecto por cima da cabeça…
Eu ouço. Não sei o que lhe dizer. Não posso levá-lo para casa. Não com ela assim. Não no estado em que ela está.
Agarro na garrafa de vinho e bebo mais um gole. Um gole bastante grande. Quero ficar entorpecido.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/15]