O Silêncio do Amor

Já quase não falamos. Às vezes ouço-me grunhir qualquer concordância. Ela nem isso. Não é que não gostemos de estar um com o outro, que gostamos. Gostamos e muito. Ela foi o meu primeiro amor. Eu também acho que fui o primeiro amor dela. Mas ela nunca me disse e eu também nunca lhe perguntei.
Estamos juntos há tanto tempo que, por vezes, funcionamos como um só. Como se eu começasse a desenvolver uma ideia e ela a acabasse, mas a acabasse da mesma forma que eu acabaria. E vice-versa.
De manhã andamos por casa. Ela arruma coisas. Tem sempre coisas para arrumar, coisas que nunca imaginei desarrumadas, mas que ela vai arrumar. Para as coisas mais pesadas, limpar o pó, aspirar, passar a ferro, vem cá uma miúda a casa. É uma bielorrussa. Inteligente. Com estudos superiores mas, isto, isto de andar a tratar da casa de pessoas, foi o que conseguiu arranjar.
Enquanto ela ciranda pela casa a arrumar coisas, eu arquivo os recortes dos jornais que cortei na véspera. Pequenas histórias. Algumas opiniões. Memórias futuras. Depois vejo que filmes vão passar na televisão para eventualmente vermos, ou eventualmente eu ver e ela deixar-se adormecer logo no genérico inicial. Já era assim quando era nova, com a idade só apurou esta sua capacidade.
De manhã bebemos uma chávena de chá. Camomila. Tília. Ou outras tisanas que por vezes nos oferecem. Eu como um biscoito. Ou um bocado de pão torrado, mas não muito torrado por causa dos dentes. Ela costuma comer uns cereais. Eu nunca consegui gostar de cereais.
Depois ela vai lavar-se. A seguir lavo-me eu. Ela, entretanto, prepara o almoço. É a nossa refeição principal. Às vezes aproveitamos restos dos dias anteriores. Comemos pouco. Há sempre sobras. Comemos muito frango. Frango assado. Frango guisado. Frango cozido. Canja de galinha feita com frango. O frango é o mais barato. E gostamos de frango. Gostamos os dois de frango. Às vezes também comemos cavala. Também é barato. Eu não gosto muito mas ela tem o cuidado de fazer a cavala de mil-e-uma maneira de forma a que me seja mais agradável.
Chega o almoço. Almoçamos. Almoçamos em silêncio na cozinha. Por vezes olhamos para a rua através da janela. Por vezes ligamos uma velha televisão a preto e branco que temos na cozinha para ouvir as notícias. Mas já não temos grande interesse nas notícias. Depois levantamos os dois a mesa. Ela passa a louça por água e eu ponho-a na máquina. Fico com dores nas costas. Tenho de me esticar. Em seguida vamos à rua.
Até sairmos de casa ainda não falámos uma palavra. Passámos a manhã em silêncio. Sem música. A ouvir os passos lentos de um e outro a cirandar pela casa.
Na rua caminhamos devagar. Tentamos não cair. Uma queda, nesta idade, pode ser fatal. Caminhamos devagar. Vamos ao café. Eu bebo um descafeinado. Ela bebe um carioca de café. Estamos por ali um pouco. Às vezes chegam alguns conhecidos. Alguns amigos do passado, velhos como nós. Às vezes chegam os filhos desses amigos. Às vezes os netos. Um cumprimento breve. Um sorriso. Passa rápido. E voltamos ao nosso rame-rame. Às vezes os velhos ficam por ali também um bocado. Nessa altura alguém fala. Alguém fala um pouco. Não muito. Mas já é uma conversa. Às vezes pedaços de conversa. Conversas iniciadas no dia anterior, na semana passada, há muitos anos a caminho de uma discoteca, de um festival de Verão, de um jogo de futebol. Sim, também já tivemos uma vida como a de toda a gente. Também fomos a sítios. Também vimos coisas. Também lutámos por melhores condições. Também fizemos sexo. Fizemos. Agora sorrio à ideia de sexo.
Folheio os jornais do dia. Às vezes peço para rasgar uma folha quando a notícia me interessa e levo a folha para arquivar no dia seguinte. Olhamos as pessoas que passam. Os miúdos cheios de vida. As miúdas muito bonitas. Todos com muito cabelo revolto.
O tempo começa a arrefecer. Compramos pão e voltamos para casa. Ela deita-se um pouco sobre a cama. Eu coloco-lhe uma mantinha por cima. Às vezes adormece. Eu sento-me no sofá da sala. Ligo a televisão e, normalmente, deixo-me adormecer.
Depois jantamos qualquer coisa leve. Uma sopa. Uma torrada. Uma peça de fruta. Depois vemos um filme. Ela adormece no genérico inicial. Por vezes lá consegue ver um filme do início ao fim. Se for um filme com acção. Ou uma história de amor.
No fim do filme vamos para a cama. Vestimos os pijamas. Passamos pela casa-de-banho. Lavamos os dentes. Ela penteia-se. Eu não tenho nada para pentear. Tomamos os comprimidos que temos para tomar. Ela deita-se. Eu dou uma volta pela casa. Para ver se está tudo desligado, fechado, trancado, e quando regresso ao quarto, para me deitar ao lado dela, já ela está a dormir. Mas mal me sente deitar ao lado dela, vira-se e abraça-me. O abraço não vai durar muito tempo porque depois terá de se virar para o outro lado, e dormimos de costas um para outro porque é a melhor maneira de conseguirmos dormir. Mas aquele primeiro momento, já adormecida, em que me abraça, já vem desde o início dos tempos. E nunca não aconteceu. E eu gosto. Gosto que ela me abrace por aqueles dois ou três minutos antes de ser virar para o outro lado.
Chegámos ao fim do dia. De mais um dia. Poucas palavras trocámos um com o outro, mas não foi preciso. Já falámos sobre tudo o que tínhamos para falar. Já discutimos tudo o que tínhamos para discutir. Já sabemos o que o outro pensa. Mas só estamos bem assim. Um com outro. Um a caminhar ao lado do outro. Um a almoçar ao lado do outro. Um deitado ao lado do outro, mesmo que de costas voltadas.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/14]

Más Memórias de Coimbra

Ir a Coimbra traz-me sempre más memórias.
Nos meus últimos anos, Coimbra tem sido os Covões e o IPO. Com passagens rápidas pelo Fórum para comer junk food.
Nem sempre foi assim. Coimbra já me foi a cena da música, dos festivais de Música Moderna, do States, dos É Mas Foice e dos Tédio Boys. Também já foi do teatro. E dos Caminhos do Cinema Português. Coimbra já me foram as madrugadas a vomitar pelo Quebra Costas e os pequenos-almoços em tascas com história depois de noites loucas no Via Latina. O que Coimbra nunca foi, para mim, foi a cidade dos estudantes e a universidade, se bem que até tenha por lá passado durante uma queima-das-fitas e tenha andado ao murro com uns gajos do rugby por causa de uma gaja.
Esse tempo já lá vai. Envelheci. Deixei de andar ao murro e aprendi a nunca mais me meter com os tipos do rugby. Deixei de ir a discotecas e bares e deixei de vomitar pelas sarjetas nas ruas da cidade. E acho que Coimbra acompanhou este meu envelhecimento. Esta outra Coimbra, pelo menos. A dos médicos e enfermeiras e medicamentos e consultas.
Nestes últimos anos tenho andado a pagar a factura dos anos de irreverência juvenil. Sinto-lhes a culpa.
Começou com os Covões. Ultimamente é o IPO.
Tudo isto seria suportável. O difícil é cá vir. Sair de casa. Sair de casa de manhã, num dia de chuva como o de hoje, fazer a auto-estrada atrás de um camião que mija de chuveiro para cima do pára-brisas. Parar na estação de serviço de Pombal para beber um café queimado e fumar um cigarro, à pressa, como um agarrado necessitado da próxima dose de nicotina, e que me deixa enjoado. Apanhar a hora de ponta de entrada na cidade. Arranjar um lugar, só um!, lugar vago para o carro enquanto vou ao IPO. Procuro em ruas cada vez mais distantes do portão de entrada. Às vezes penso estacionar o carro em Leiria e apanhar o expresso. E depois são as horas de espera em salas fechadas, de janelas seladas, sem ar-condicionado, na companhia de gente tão mais triste que eu. Ouço-lhes as tosses e as respirações pesadas. Vejo-lhes os cabelos rapados. E o cheiro? O cheiro a humidade, mistura de perfumes baratos e transpiração. Em dias como o de hoje é difícil fugir ao cheiro a mofo. No Verão é o chulé de pés enfiados em sandálias de plástico compradas numa loja do chinês onde a grande maioria das pessoas ainda têm carteira. E sempre, sempre, o cheiro a mijo.
Aguardo. Aguardo sentado em cadeiras rijas, impróprias para quem está com problemas de saúde, ao lado de gente a sofrer mais que eu, em frente de gente que tosse e espirra para cima de mim. Estamos todos juntinhos, colados uns aos outros, transpiração colada a transpiração. Quase que ouvimos os pensamentos uns dos outros. As esperanças frustradas. Os futuros hipotecados. A morte no horizonte. A desgraça. A puta da desgraça. A puta da desgraça do outro que é sempre pior que a minha.
Acabo sempre por pensar que, no meio de tudo aquilo, sou um sortudo. Não sou dos piores. Eu ainda tenho futuro. Um futuro de merda quando olho para a conta bancária. Mas um futuro, mesmo assim.
Passam minutos. Que se tornam horas. O rabo fica dormente naquelas cadeiras rijas. Já me coço todo. A cabeça. Os tornozelos. Já não sei como estar. Levo um livro que não leio. O telemóvel que não apanha Wi-Fi. Levanto-me. Dou o lugar porque já não consigo mais estar sentado.
E finalmente lá vou eu. Entro e saio. Temos de controlar, ouço. Tomar atenção, ouço de novo. Olha para uns exames. Analisa. Decifra. Eu não percebo nada do que vejo, do que ele vê. Ouço o que diz e esqueço. Há quem queira saber tudo. Ouça tudo. Tente decifrar. Procurar na net. Eu não. Eu não quero saber. A minha ignorância mata o mal e livra-me da ansiedade. Não quero saber. A minha morte será inesperada. Pelo menos, para mim.
Saio para a rua. Continua a chover. Mas sabe-me bem as gotas de chuva na cara. Sentir aquele frio sobre mim. A água que escorre pelo pescoço abaixo. Vou para o carro com o guarda-chuva fechado. Caminho à chuva. E sinto-me recuperar.
Antes de por o carro a trabalhar penso que é melhor ir comer qualquer coisa antes de ir embora.
É então que vou ao Fórum. Mais uma vez vou comer ao Fórum. Penso que no meio de tanta oferta gastronómica, poderei escolher qualquer coisa de diferente. E acabo, invariavelmente, de cada vez e todas as vezes, a optar por um McRoyal Cheese. Coca-Cola. Batatas fritas. Sozinho numa mesa solitária. Afastado de toda a gente. Grupos de miúdos da escola à galhofa. Rapariguinhas do shopping a contar segredos umas às outras. E eu ali, num canto, solitário, com um hambúrguer na mão, a pensar… Não, não estou a pensar. Naquela altura não estou a pensar em nada. Deixo-me estar em silêncio a enfiar o hambúrguer pelas goelas e a despejar a cola para desembuchar. E vejo a vida dos outros. Se eles soubessem!…
Depois pego na minha solidão e levo-a de novo para casa. Mas volto atrás. Pego no tabuleiro e liberto a mesa.
Faço o caminho de regresso à chuva, outra vez, com a rádio ligada e as notícias do dia em loop. Mas esqueço-me que vou na estrada. Na auto-estrada. A cabeça voa. Vai não sei onde. Perco-me a mim e a ela. Quando desperto, estou parado à porta de casa.
E antes de sair abano a cabeça e tento esquecer Coimbra. Coimbra traz-me más memórias.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/21]

Comprar um Disco de Vinil Era um Acto Quase Religioso

Hoje fui tirar o pó aos vinis.
Abri a tampa de acrílico do prato. Mirei a agulha. Não tinha pó agarrado. Há tanto tempo que a agulha não tocava no vinil, nem a tampa era aberta, que não havia pó para tirar.
Apanhei um disco qualquer. Deitei a mão a uma das prateleiras. Mas já sabia o que é que devia andar por ali, naquela prateleira. Naquela prateleira especificamente.
Journeys to Glory. Os neo-românticos Spandau Ballet, antes da lamechice do True e das baladas para constituir família. O fabuloso álbum de capa branca com o discóbolo. E que abre com o marcial To Cut a Long Story Short.
Tirei o disco da prateleira. Soprei o provável pó da capa. Retirei a capa interior com as letras. Depois puxei o plástico. Retirei o vinil. Levei-o à altura dos olhos. Olhei para as estrias. Não tinham um grão de pó. Coloquei-o no prato. Baixei a agulha. Ouvi aquele ruído típico da agulha no disco antes de começar a música.
Deitei-me no chão. Regressei à adolescência.
Lembro quando desci à cidade para comprar o disco. Naquela altura, comprar um disco de vinil era quase um acto religioso.
Entrei na loja. Discoteca. Era assim que se chamavam as lojas onde se vendiam discos de vinil. Discoteca. Sim, também era um sítio onde se podia ouvir música e dançar e beber umas cervejas, Pisang Ambon, uma Cuba Libre ou uma Batida de Coco, bater o coro a umas miúdas e mostrar a toda a gente a t-shirt tão fixe que tínhamos. Mas era também, e primeiro, a loja onde ouvíamos os discos. E comprávamos. Quando em grupo, comprávamos discos diferentes. Para poderem rodar entre todos. Para haver música diferente nas festas de garagem. Para haver acesso a mais informação numa era tão longe dos motores de busca, das redes sociais e do Youtube.
Então, entrei na discoteca. Eram as novidades. Spandau Ballet. Classix Nouveaux. Duran Duran. Depeche Mode. Ouvi-os todos. Haveria de os comprar a todos. Lavei o carro ao meu pai mais vezes que o normal. Aspirei a casa à minha mãe sem ela ter de me pedir. Precisava do dinheiro. Para os discos. Para aqueles discos. Eu queria ser um neo-romântico! O primeiro foi mesmo o Journeys to Glory. Quantas vezes ouvi o Mandolin! E o The Freeze!
Nessa mesma semana cortei o cabelo. Cortei o cabelo muito curto, mas deixei uma franja descaída. Uma grande franja descaída. E como o meu cabelo era encaracolado, parecia ter um ninho de ratos na cabeça. Pelo menos era assim que a minha mãe dizia que parecia.
Comecei a ir aos concertos dos Heróis do Mar. Chamaram-me fascista. Usei umas calças largas em cima e apertadas em baixo. Acho que havia um nome para isto. Não me recordo. Comprei umas botas com franjas. Um casaco de algodão com fecho a cruzar à frente. Tudo era cor.
Arranjei uma namorada. Àqueles discos, juntei outros. E continuei a ir à discoteca ouvir as novidades. E a comprá-las.
O meu pai andava contentíssimo com a minha disponibilidade para lavar o carro. Por fora e por dentro. Quanto mais limpo, quanto mais tempo de trabalho, maior o salário. Eram os meus mercados em acção.
Ainda me lembro do dia em que na discoteca ouvi uma outra coisa. Uma coisa diferente. Muito diferente. Eram uns tipos que também tinham os cabelos esquisitos, mas um outro tipo de esquisitice. Chamavam-se Echo and The Bunnymen. Que nome fantástico! Estavam no meio da neve. Vestiam gabardines escuras. Fazia-me sentir frio. A música, a voz, as letras, era tudo muito mais negro. Carregado. Por vezes, até, triste. Melancólico.
Cortei o ninho de ratos. Deixei o cabelo crescer. Comecei a vestir de preto. Usava uma gabardine de três-quartos. Comecei a fumar. E decidi que o mundo era uma merda.
Deixei de ouvir os Spandau Ballet.
Agora, sentado aqui no chão da sala, de pano do pó na mão, mas sem limpar o que quer que seja, delicio-me com o regresso a este disco dos Spandau Ballet. E foda-se, ele ainda é muito bom.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/04]

Na Stereogun

Fui convidado para ler uns textos na Stereogun.
A princípio nem queria acreditar. Estórias na discoteca! Para quem?
Conversaram comigo. Tentaram convencer-me. Explicaram as razões.
Pensei.
Pensei.
Aceitei.
Seleccionei uns textos. Preparei-os. Li-os. Reli-os. Alterei alguns para serem lidos em voz alta. Para serem percebidos por quem ouve a minha voz. Para não matar de tédio o paciente habitual de uma casa de música.
Chegou o dia.
Estava nervoso. Escolhi a roupa com dificuldade. Tomei banho. Despenteei o cabelo. Vesti-me. Despi-me. Vesti outra roupa. Mudei de t-shirt. Tomei uma Cecrisina. Usei o Ventilan. Tudo na prevenção. Não consegui jantar. Tinha o estômago às voltas. Como se estivesse a preparar-me para um exame. Fui à casa-de-banho. Várias vezes.
Fui mais cedo para a Stereogun. Tive de esperar à porta que chegasse alguém. Estava tudo fechado. Era muito cedo. Chegara demasiado cedo. E precisava de ir, de novo, à casa-de-banho. Os nervos.
Chegou alguém. Abriu a porta. Deixou-me entrar. Fui directo à casa-de-banho. Mas que estava eu ali a fazer? Não conseguia frequentar casas-de-banho públicas! Lavei a cara. Esfreguei-a. Esfreguei os olhos. Olhei no espelho. Puxei de um cigarro. Acendi-o. Fiquei ali, na casa-de-banho, a fumar o cigarro, a olhar-me no espelho e a dizer-me Caga nisso! Não é nada! Nada de especial!
Quando saí da casa-de-banho, já a discoteca estava aberta ao público. Já havia algumas pessoas por lá. Fui para o balcão. Uma mini, pedi. E um Bushmills. Sem gelo. Despejei-o de um trago. Fiquei a brincar com a mini. Repeti a dose. E perdi-me nas contas.
Fui despertado por alguém que me agarrou pelo braço e me levou para o palco. Estava lá um banco alto. Encostei-me. Alguém colocou os meus textos num suporte à minha frente. Ao lado do microfone. Deu umas pancadas no microfone. Ouvi o pum-pum nas colunas. Deu-me também uma pancada nas costas e sussurrou-me Muita merda, pá! E por instantes não percebi. O que é que o gajo queria dizer com aquilo? Quis segui-lo com o olhar, mas o olhar embaciou e depois perdi-o na escuridão.
Eu estava debaixo de um foco de luz. Não via nada à minha frente. Esqueci onde estava. Esqueci tudo. Esqueci-me de mim.
Acendi um cigarro. Ouvi alguém dizer qualquer coisa, mas não percebi o quê. Um tipo aproximou-se de mim e tirou-me o cigarro. E disse Então, pá? Começa a ler a merda dos textos! E eu respondi Vai para o caralho!, mas acho que ele não ouviu. Ou não ligou. Ou cagou em mim.
Acendi um cigarro. Ouvi alguém dizer, aos berros pareceu-me, Apaga essa merda! Mas não tenho a certeza. Um tipo aproximou-se de mim, tirou-me o cigarro da mão e deixou-me um copo de whiskey. Acho que era whiskey porque bebi-o num gole e era amargo. Devia ser whiskey.
Acendi um cigarro. Comecei a sentir-me mal. A luz que tinha nos olhos estava a fazer-me confusão. Estava a ficar com calor. Tirei a t-shirt. Queimei-a no cigarro. Doía-me a barriga. Desculpem, o estômago – parece que é esta a expressão correcta. Continuei a fumar. Coloquei a mão em pala sobre os olhos para ver onde estava. Para ver quem é que ali estava. O que havia para além do projector, do foco de luz.
Ouvia barulho. Barulhos. Vozes. Um bruá de vozes. Não percebia o que as vozes diziam. Mas ouvia-as. Vertigens. Estava com vertigens. A cabeça começou a andar à roda. Segurei-me mais ao banco, mas o corpo não queria obedecer. Senti-me rodopiar. O projector de luz cegou-me. O corpo bailava. A cabeça parecia explodir. O estômago refilava comigo. Estava sozinho. Estava ali sozinho e não sabia onde estava. O cigarro caiu-me dos dedos para o chão. O estômago revoltou-se e rebentou. Senti uma massa amarga subir por mim acima. E da minha boca saiu um esguicho de coisas. De várias texturas. De inúmeras densidades. Vomitei. Vomitei para a minha frente. Vomitei tudo o que tinha dentro de mim para a minha frente. Ouvi gritos. Berros. Alguém gritou Filho-da-puta! Não sei se foi para mim. Senti-me cair. Senti dor. Dores. Senti-me magoar. Acho que vi sangue. Podia ser vomitado. E depois…
E depois tudo desapareceu. E eu desintegrei-me.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/20]

Vida em Desequilíbrio

Ando desequilibrado. Para vestir as calças, tenho de me sentar na cama ou encostar ao guarda-fatos. Quando levanto uma perna para enfiar na perneira, perco o equilíbrio e caio. Da primeira vez que aconteceu caí sobre a mesa-de-cabeceira e trilhei a orelha. Fez muito sangue. Tive de ir ao hospital. Levei pontos. A minha orelha já não é tão bonita como era. Por outro lado, ganhou personalidade. A cicatriz dá-me um falso ar de rufia. Como se fosse um troféu de guerra.
Também ouço um zumbido constante nos ouvidos. E, com muita frequência, uma valente dor de cabeça que me obriga a fechar os olhos e só acalma com Clonix.
Eu já estou habituado à desgraça. Contudo, evito ir ao médico. Não gosto de médicos, de hospitais e das contas finais. Contudo, tenho de lá ir por causa dos outros.
O meu pai fugiu de casa há dois dias. Deve ter-se perdido. Tem Alzheimer. Já avisei a polícia. Já percorri todos os hospitais, clínicas, lares e casas de putas da região. Nada. Se calhar apanhou o expresso para um lado qualquer no mundo e desapareceu de vez.
A minha mãe está com demência. Vive com o meu pai. Quer dizer, vivia. Ele agora não sei por onde anda. Não está com ela, isso de certeza. Ela é que organizava tudo da vida deles. Ainda cozinha. Faz a lida da casa. Toma banho sozinha. Dava banho ao meu pai. Mas depois, encetava inúmeras discussões com umas gajas que, dizia ela, lhe entravam lá por casa, para lhe roubarem o ouro, para além de andarem a construírem uma meia-casa no tecto, entre a casa deles e a dos vizinhos de cima, para abrirem uma discoteca que era também uma casa de putas onde o meu pai queria ir, mas nunca conseguiu dar com ela, isto segundo a minha mãe.
A minha filha foi embora. Casou, disse que estava farta de circo, e foi embora não sei para onde que não disse. Já não nos falamos há cerca de cinco anos. Acho que já sou avô. Mas não tenho a certeza.
Amanhã tenho um trabalho. Vai durar três dias. É para fazer um inventário. Chamam-me sempre para estes trabalhinhos de merda. Mas eu até gosto. Ando por lá sozinho. Não tenho de falar com ninguém. Na verdade, é o meu tipo de trabalho preferido. Espero que esta noite não venha a dor de cabeça. Senão, não poderei ir trabalhar amanhã. E eu preciso de ir trabalhar. Preciso do dinheiro. Hoje era o último dia para pagar a renda da casa. Vou ter de esperar até receber por este inventário para a pagar. Ao que me reduzi. A inventários! Mas tenho de pagar a renda da casa, a água, a luz, o gás, o telemóvel, a internet, o cabo, os seguros, a gasolina… Pareço estar vivo para pagar contas!
Vou deitar-me. Beber um copo de vinho. Fumar um cigarro. E deitar-me. E vou rezar. Para amanhã não ter dor de cabeça e poder fazer o inventário. Para poder pagar a renda da casa.
Devia ir à procura do meu pai.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/08]

Abalroado por uma Iluminação de Natal

Eu ia ali na Mouzinho de Albuquerque, aquela rua que queria ser avenida mas não é, só tem um sentido, o de vir, o de entrar na cidade, nunca sai, tem duas faixas de rodagem mas uma é para estacionar com os quatro piscas ligados que Eu vou só ali, num instantinho!, está sempre com obras, com estaleiros que ocupam os passeios, pequenos, e obrigam os peões a galgar o asfalto, ora de um lado, ora do outro, ou uma das faixas de rodagem, o que afunila a entrada na cidade para quem vem dali, do norte, que tem meia-dúzia de lojas, umas que abrem-e-fecham, outra enorme, num edifício bonito que serve de armazém de chineses, uns comes-e-bebes, uma oficina de motorizadas, uma estação-de-serviço rodeada de casas, algumas de habitação, uma discoteca, mas afinal são duas, quase três, e outras coisas avulso, mas que tem direito a iluminação de Natal que, como toda a gente sabe, é quando um homem quiser e a mulher deixar! – tenho ouvido esta na TSF, diariamente, várias vezes ao dia, tanta vez que se torna obsessiva, chata e enfada que é normalmente o que me acontece com a publicidade antes dos noticiários da TSF, replicados até à exaustão, e que já me dão ressaca, estou tão farto de os ouvir que lhes comecei a ganhar algum ódio a esses produtos anunciados antes da hora-certa em que me preparo para ouvir as novidades do país e do mundo.
Então, eu ia ali na Mouzinho de Albuquerque, devagar, que é a única maneira possível de fazer aquelas faixas de rodagem que afinal é só uma, e há sempre carros a entrar na cidade e a tentar mudar de faixa porque lá à frente já só há uma e ninguém avisa nada, não há indicações, placas, anúncios, telegramas, telex ou o que seja, quando me caiu uma iluminação de Natal em cheio nos cornos. Nos cornos é uma maneira de dizer que eu não os tenho. Caiu em cima do carro, de mim e da minha sanidade. Partiu-me o vidro pára-brisas. Amolgou-me o capot. Fez-me guinar o volante para a esquerda. Galguei o passeio. Atropelei uma jovem mãe com carrinho de bebé (não aconteceu nada ao bebé!) e entrei pelo armazém do chinês dentro e ainda levei com o carro que vinha atrás e que se atrapalhou com o que viu e sentiu e acabou por seguir-me os passos, bater-me por trás e empurrar-me ainda mais para dentro do armazém .
Eu vinha devagar. Ali não se consegue vir depressa àquela hora, mesmo que quisesse. Vinha entre um carro e outro. A ouvir qualquer coisa na rádio. Talvez o Tubo de Ensaio. Talvez o Não Há Dinheiro mas Há Palhaço. Sim, vinha a dar atenção ao que estava a ouvir, mas vinha com atenção à estrada que a minha costela feminina é grande e eu sou multitasking. Vinha a tentar não desesperar com aquele pára-arranca que, numa cidade de pequena dimensão, é ainda mais desesperante, quando uma enorme placa de luz veio lá do céu, suspensa nos cabos de electricidade, e baloiçou à minha frente, como o Tarzan, trazendo atrelado um pedaço do muro do telhado que lhe servia de apoio mas que, afinal, não apoiava nada, estava moribundo, partiu-se e despenhou-se sobre a rua cheia de viaturas tendo acabado por escolher exactamente a minha para me deixar ainda com mais espírito natalício.
Parei o carro. Os outros carros pararam atrás do meu…
Já era Natal quando a polícia finalmente lá chegou. Chegou para fazer o relatório do acidente. Averiguar responsabilidades.
Já tinha passado o Ano Novo quando finalmente todos os carros conseguiram passar pela Rua Mouzinho de Albuquerque.
Foi já pelo Carnaval que finalmente consegui comer o Bolo-Rei que me tinham oferecido.
Felizmente, ninguém se magoou. Acho.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/26]

A Tasca da Idalina

Às duas da manhã fechavam a porta. Às duas e meia punham-me na rua.
Os bares da cidade fechavam às duas da manhã. Sem falta. Quando alguém se atrasava, lá vinha a polícia, cumprindo as ordens da edilidade, fechar as portas dos bares, uma-a-uma.
Às duas e meia da manhã estava na rua. E agora? Era Sexta-feira. Era Sábado. Era tarde demais para ficar nos bares. Era cedo demais para ir para a discoteca. Era nessa altura que arrancava para a Tasca da Idalina.
A Tasca da Idalina ficava na garagem da própria Idalina. Na garagem de casa. Não havia carro. Nem mota. Havia mesas. Cadeiras. Frigoríficos. E uma grelha. Sempre com brasas.
Ah! e havia pessoas.
Batia à porta. Ela abria. Eu entrava. Olá! à direita. Então?! à esquerda. Dirigia-me ao frigorífico e agarrava uma Sagres. Uma média. Assentava no papel.
Passava pela grelha e deixava lá uma lentrisca a assar. Sentava-me numa mesa qualquer. Na companhia de quem quer que fosse. E discutia. Ali discutia-se. Discutia-se tudo. Música. Cinema. Futebol. Gajas. Gajos. Política. Discutia-se muito política. Havia muita gente de esquerda. Mas também de direita. Ali havia de tudo. Gostos muitos diferentes. Mas uma enorme vontade de discutir. E de aprender.
Na Tasca da Idalina discutia-se tudo. Sem entraves. Sem dogmas. As posições extremavam-se. Mas as pessoas não deixavam de ser amigas, as que eram amigas. De se conhecerem, as que se conheciam. As que não se conheciam passavam a conhecer-se e, numa visita seguinte, já eram conhecidas.
Levantava-me. Ia buscar a lentrisca. Um bocado de pão. Trazia faca e garfo. Guardanapos havia na mesa. Sentava-me. Retomava a conversa onde tinha ficado. Nunca perdia o fio-à-meada. Bons tempos em que a memória funcionava. Depois voltava a levantar-me e ia buscar outra Sagres. Alguém pedia Traz aí uma cerveja, pá! e eu levava.
Voltava a sentar-me. A beber. A fumar. Vindo do nada, um charro. Dava umas baforadas e passava. Ao outro e não ao mesmo.
As horas passavam. Já era tarde para ir para a discoteca. A Idalina queria ir dormir. O dia começava a despertar. O que é que comeste? e o que é que bebeste? E eu pagava. Todos pagávamos. E sentia-me em casa. E discutia. O que eu gostava de discutir. Depois ia para casa. Dormir algumas horas até a minha mãe me acordar para almoçar. Feijoada. A sério, mãe? Estou mal disposto! Bebesses menos, ontem.
Um dia deixei de ir à Tasca da Idalina porque a vida levou-me para outro lado. Não sei o que lhe aconteceu. Mas foi uma boa época da minha vida.
Tenho saudades da Tasca da Idalina. E da liberdade que tínhamos naquelas quatro paredes de uma garagem. Se calhar era uma cave.

[escrito directamente no facebook em 2018/10/21]