O Meu Pai Nunca Teve Qualquer Relação com a Arte

O meu pai nunca teve qualquer relação com a arte. A vida dos meus pais, um como o outro, neste sentido, foi bem diferente da minha. A forma de arte da qual o meu pai esteve alguma vez mais perto foi através de uma finta do Eusébio e do Victor Baptista ou de uma defesa do Costa Pereira e do Bento. Vagamente num fado da Amália e, sobretudo, numa qualquer canção romântica do Tony de Matos. Sim, pelo que a minha mãe me contava, o meu pai era um romântico. À luz da época dele. Deles. Do meu pai e da minha mãe. O meu pai gostava de dançar. E acho que gostava de dançar as músicas do Tony de Matos. Sempre que ouço O Destino Marca a Hora lembro-me do meu pai. Do meu pai com a minha mãe. Em dupla. Pelo que a minha mãe me contava.
Também ela nunca teve nenhuma relação próxima com a arte. A minha mãe era uma excelente cozinheira. Não uma chef. Não. Uma cozinheira. Uma cozinheira daquelas que se fala quando falamos, com saudade, da comida da mãe ou da avô. Comidas que muitos de nós tentamos reencontrar nas mulheres que vamos tendo ao longo da vida. E alguns de nós, como eu, acabamos por sermos os próprios, na impossibilidade de reencontrar as mães na cozinha, os recriadores das comidas de casa. Não me dou mal entre os tachos, as frigideiras e o forno. Mas não sou como a minha mãe. A minha mãe sabia fazer os pratos clássicos que as mães e as avós sabiam fazer e, às vezes, punha-se a inventar com o que tinha em casa e descobria-nos maravilhas de agradar ao palato. Nunca houve um livro em casa dos meus pais. Nunca houve um livro até eu começar a comprá-los. Nem a minha mãe tinha um qualquer livro de cozinha. Nem assentava nada do que inventava. Tinha tudo na cabeça. E as medidas eram à medida da mão, primeiro, e do gosto, depois.
Mesmo não tendo nenhuma relação com a arte, mesmo não havendo nenhum livro lá em casa, os meus pais sempre me incentivaram a ler e a gostar de arte. A ter predisposição para isso, pelo menos. Os primeiros livros que entraram em casa foram os que eu comprei. Os que eu comprei com o dinheiro que eles me davam para os poder comprar.
Lembro-me de ver jornais, especialmente A Bola, a Crónica Feminina, a Simplesmente Maria e as Selecções do Reader’s Digest lá por casa. Perdidos em gavetas. Largados em cima do sofá. Mas nada de muito importante. Uns números avulsos. Soltos. E espalhados pela casa, ao acaso.
Até que comecei a comprar as primeiras bandas-desenhadas. Os primeiros livros da Enid Blyton. O que originou a existência de uma primeira estante para os livros mandada fazer de propósito, para o meu quarto, pelo meu pai.
Mas mesmo não tendo qualquer relação com a arte, por vezes o meu pai surpreendia-me ao extravasar os pedidos que normalmente lhe fazia para o natal e para o aniversário. Livros.
Uma vez surgiu em casa com a adaptação para banda-desenhada de o Tubarão, o filme de Steven Spielberg que andava, na altura, a assustar toda a gente em todo o mundo. Em minha casa não foi excepção. E foi uma surpresa vê-lo chegar com uma banda-desenhada. Para mim. E sem ter de a pedir.
Outra vez, e não sei como, deve ter ouvido na rádio, visto na televisão, ouvido nalguma conversa entre gente amiga, conhecidos, não sei, apareceu em casa com o disco Anjo da Guarda de António Variações. Foi o primeiro disco que comprou. Não era para mim, embora eu o julgasse, erradamente. Era um disco para a casa. Porque, tanto ele como a minha mãe o queriam ouvir. Ouvir na aparelhagem que havia lá em casa e que o meu pai tinha comprado para mim. Pelo menos era o que eu julgava. Era eu que lhe dava uso, não? Era eu que comprava os discos. Os discos todos. Era eu que ouvia as músicas. As músicas dos discos que comprava. Em altos berros. Até tinha levado a aparelhagem para o meu quarto. O meu quarto era o meu mundo. Nesse dia, a aparelhagem voltou para a sala onde tinha estado originalmente. E ficou lá por algum tempo.
O meu pai nunca teve nenhuma relação com a arte. Mas sempre teve a arte de bem me surpreender. Quando ia a Lisboa, e antigamente ir a Lisboa não é o mesmo que hoje, em que demoramos menos de uma hora a fazer estes poucos mais de cem quilómetros que nos separam, na época ir a Lisboa era uma aventura, toda uma viagem de horas, em carros mais fracos, menos confortáveis, cansativos, aparecia por casa com Pastéis de Belém, Queijadas de Sintra, frango frito de um restaurante da baixa, que já procurei e nunca encontrei, provavelmente fechou, restos de uma época morta e enterrada nas fundações desta modernidade que nos veio tornar iguais a toda a gente de todo o lado.
A minha mãe era uma grande cozinheira. Recordo com muita saudade alguns pratos de uma simplicidade desarmante que ainda hoje me fazem água na boca, coisas tão estúpidas como arroz branco, quase em calda, não é malandrinho, é mesmo quase-calda, a acompanhar uns bifes de vaca panados, mas bem panados, bem fritos, coisa que nunca consegui encontrar fora de casa, mesmo quando ia às cinco da manhã comer uma sandes de panado à Sopa da Puta, o panado não era o mesmo nem tão bom, e hoje, então, nuns panados de porco, de peru, de frango, umas coisas desenxabidas, nunca há ecos dos panados da minha mãe, nem dos seus rissóis de peixe ou da mão-de-vaca com grão, que hoje parece asséptico nos restaurantes onde ainda se aventuram. Ela também fazia frango frito. Hoje já ninguém faz frango frito. Comem no KFC uma imitação americana. Mas mesmo o frango frito da minha mãe, cheio de limão e piri-piri, sendo tão bom, não era tão bom como o que o meu pai trazia naqueles dias em que chegava das suas idas a Lisboa e os trazia em pequenas caixas de cartão todas besuntadas de gordura dos fritos.
O meu pai nunca teve nenhuma relação com a arte. Mas sempre teve arte de me criar memórias vivas. Como arte.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/31]

Jesus Cristo no Tecto da Sala

O senhorio não quis renovar o contrato. Tenho de sair daqui de casa. É sempre estranho cada vez que tenho de sair de casa. Parece que estou a deixar bocados meus para trás. Afinal, a casa era minha. Era minha até ao final do contrato.
Tenho de voltar a encaixotar tudo outra vez. Cada vez mais sinto vontade de não o fazer. É um drama. Voltar a carregar os livros dentro de caixotes que se vão romper com o peso dos livros que vão cair no chão e dobrar capas, os cantos das folhas, eventualmente rasgar páginas. Vou carregar com caixotes para os quais não vou ter força. Por vezes apetece-me mandar os livros todos para o caralho.
Olho para o móvel onde estão ordenados. Olho para os caixotes vazios. As roupas é só enfiar nas malas. Os discos e os filmes já vão nos discos externos. Mas os livros!… Os livros são o cabo dos trabalhos para serem transportados ao longo de uma vida de saltimbanco. Nem quero pensar nos livros que já fui deixando para trás. Em todas as outras casas por onde passei. Até fico doente.
Acendo um cigarro. Deito-me no chão da sala. Olho o tecto. Descubro umas teias-de-aranha. Decido que já não tenho de me preocupar com estas limpezas.
Sinto comichão nas costas. Meto a mão debaixo de mim e coço-me. Sinto uma coisa a mexer. Agarro-a. Uma barata. Esmago-a com o polegar contra o chão. Ouço um barulho obsceno, um crack, enquanto a barata é esmagada. Ela desfaz-se numa pasta nojenta. O polegar fica sujo. Limpo-o às calças. Com o cigarro aceso, queimo as antenas da barata. Ela já está morta. As antenas vão-se queimando. Cheira-me a queimado. Não sei se o cheiro é do cigarro se das antenas da barata.
Apago o cigarro no chão da sala.
Tenho vontade de largar estes livros todos pela varanda abaixo.
Queria ser livre. Pular de casa em casa sem me preocupar com o que tenho de levar às costas. Foi isto o que a escola nunca me ensinou. Como viver uma vida de arrendamento em arrendamento? De aluguer em aluguer? Viver a vida ao pé-cochinho, ora assim, ora assado.
Vejo as lombadas dos livros. Há pequenas ilhas que identifico logo. Pela cor e pelo conjunto. Não, já não consigo ler nenhuma lombada daqui. Estou muito longe para conseguir ler. Os óculos que uso são para ler de perto. Mas identifico aquelas colecções. Ali, na quarta prateleira, mais para a direita, estão os livros do Philip Roth. Todos os livros que a Dom Quixote editou em Portugal. Pena que tenham andado sempre a mudar de capas. Há umas hardcover. Outras softcover. E nas softcover há géneros diferentes de capas. Cabrões do caralho! É só para me chatear! As capas que gosto mais são as coloridas. Capas softcover de cores vivas. Aquela vermelha do Casei com um Comunista é um mimo.
Acendo outro cigarro.
Naquela prateleira, do outro lado, vejo a colecção completa, mais uns livros especiais com capas desenhadas por outros artistas e dois volumes que compilam os trabalhos jornalísticos de Spider Jerusalem ao longo da série Transmetropolitan de Warren Ellis e Darick Robertson. Uma graphic novel fabulosa. Política. Agressiva. Muito violenta. Um pouco mais atrás a colecção completa do Sandman de Neil Gaiman.
É disto que me quero desfazer?
Não consigo. Vou ter de arrastar estes livros todos comigo até ao fim dos meus dias. E hei-de chorar todos os outros que fui deixando lá por onde passei. Espero que tenham servido a alguém. Espero que tenham sido lidos. Que tenham sido lidos como eu os li.
O borrão queimado do cigarro tomba sobre mim. Sobre o meu peito. Vejo-o queimar a camisola. Depois sinto-o queimar-me a mim. Mas não me queixo. Apago o cigarro no chão da sala, ao lado do outro.
Bom, vou levantar-me e começar a encher os caixotes.
Mas não me levanto.
Decidir é mais fácil que fazer. Eu decido muitas coisas. Tenho decidido muitas coisas ao longo da minha vida. E ainda ando para aqui. De casa em casa. À espera de parar. Como se acabassem as fichas dos carrinhos de choque. E eu tivesse de ficar dentro do carrinho à espera que me lá fossem buscar.
Fico deitado de costas no meio da sala. Cruzo as mãos atrás da cabeça. Olho de novo o tecto. Para além das teias-de-aranha, vejo umas rachas, umas manchas. Uma delas parece-me a cara de Jesus Cristo, exactamente como eu conheci no colégio das freiras. Rio-me. E penso que o senhorio vai ter de pintar a casa toda.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/03]

Voltar a Votar

Por vezes tento recordar como as coisas eram. Mas já se torna cada vez mais difícil. A memória já não é a mesma. E o presente vai matando o passado aos poucos. Nunca houve muita necessidade de o esconder. O passado. Na verdade nunca foi preciso reescrevê-lo. Ele morre de morte natural na memória dos poucos resistentes que ainda não morreram. Tudo se perde. Tudo acaba por se perder. Tudo acaba por se perder se não fizermos nada para manter vivas essas memórias.
Lembro-me da última vez que houve eleições livres. Eleições em que todas as pessoas, homens e mulheres, com mais de dezoito anos, puderam votar. Era Primavera. Uma Primavera especialmente quente. As alterações climáticas estavam a começar a alterar o ritmo dos ciclos climáticos. As estações andavam baralhadas. Estava, portanto, muito calor. As pessoas foram para a praia. Lembro-me porque, em dia de eleições, a abertura dos serviços noticiosos foi com as filas intermináveis de carros para ir para a praia e para vir da praia. Foi um Domingo que entrou por Segunda e Terça-feira dentro. Lembro-me porque tudo isso criou um grande caos. Gente que faltou ao trabalho. Miúdos que faltaram à escola. Até deputados que faltaram à Assembleia. Todos perdidos em filas de trânsito intermináveis. Lembro-me porque essas foram as últimas eleições. As últimas eleições livres. As eleições dos dez por cento. Só dez por cento dos eleitores é que foram votar. Houve mesmo candidatos que não chegaram a ir às urnas. Candidatos que não foram votar. Lembro-me porque foram as eleições ganhas por grupúsculos de bandidos sem ideologia mas com uma fome imensa de poder e capital. Lembro-me porque foi assim que assumiram o poder e nunca mais de lá saíram. Lembro-me porque foi assim que chegámos ao dia de hoje.
Pouca gente se lembra. Mas ainda há quem se lembre.
Quase ninguém quer lembrar. Lembrar é assumir a culpa. O erro. E é difícil dizer que a culpa é nossa. É difícil dizer que a culpa é minha. Minha!
Sim, eu ainda me lembro. E por vezes tenho de contar. Contar a mim. Para me ouvir. Para que não me esqueça. Para que não deixe de saber o caminho que me trouxe aqui onde estou hoje.
Estou à janela. Estou à janela do meu quarto. Agora partilho a casa com mais quatro pessoas. Agora as pessoas vivem em quartos. As casas são divididas em quartos. Uma pessoa, um quarto. Uma família, um quarto. É a divisão equitativa para evitar a miséria dos sem-abrigo. É um estado-protector. É assim que contam a história. Mas eu sei dos condomínios onde vive a elite. Os condomínios. Os parques. Os jardins. Os lagos. Longe das cidades. Longe da miséria das grandes cidades.
Enrolo um cigarro. É difícil arranjar cigarros. Fazem mal à saúde, disseram. Foram proibidos. Mas arranjo barba-de-milho e consigo enrolar uns nas folhas de uma Bíblia que encontrei no mercado. Custou-me dez LP’s de vinil. Voltaram a estar na moda. O povo ouve música em MP3. O som flat, sem perspectiva, sem dimensão, sem ondas dos MP3. A elite redescobriu a qualidade de vinil. Os meus antigos discos têm muito valor. Dez deles valeram-me esta Bíblia que me permite continuar a fumar aqui, assim, à janela, enquanto olho as pessoas que continuam iguais, a correrem para sítios, a irem para trabalhos sem sentido mas ocupacionais. Sem tempo para nada. Sem tempo para olharem umas para as outras. Sem tempo para pensarem no tempo que ficou. Sem tempo para olharem para trás.
Eu não.
Eu gosto de pensar naquilo que perdi. Eu obrigo-me a pensar naquilo que perdi. Porque tenho esperança de um dia conseguir recuperar a vontade de ser mais que um grupo. Porque tenho esperança de um dia ser mais que um número num conjunto de gente igual. Porque tenho a esperança de um dia conseguir voltar a ser um indivíduo. E voltar a votar. Voltar a ter a possibilidade de votar. Voltar a ter o direito e o dever de escrever a minha própria história.
Tenho uns livros do Philip K. Dick. Do Stanislaw Lem. Do Philip Roth. Livros que vou passando a algumas pessoas. A pessoas que ainda não perderam a esperança. A pessoas que ainda questionam. A pessoas que ainda não perderam a capacidade de pensar, mesmo que seja cada vez mais difícil fazê-lo. E quando regressam, esses livros, vêm com algumas memórias. Vêm com algumas ideias. Alguns deles vêm com relatos de vidas escondidas. As boas e as más. É assim que eu sei dos condomínios. E de outras coisas que um dia contarei.
Agora só quero fumar esta cigarro feito com barba-e-milho e uma folha da Bíblia. Agora só quero parar esta lágrima que teima em tombar cada vez que penso nestas coisas em que penso. Agora só quero olhar lá para fora e imaginar que estas pessoas, que vejo ali a passar autómatas, um dia, ainda podem voltar a ser livres. Livres e felizes.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/24]

Entre Velharias

Estou no meio da Praça. E como vim aqui parar?
Estou no meio da Praça e à minha volta uma quantidade de velharias. São bancas e banquinhas, cavaletes com portas a servir de mesas, ripas, placas, umas mais curtas umas mais compridas. Umas leves. Outras fortes. Depende do que estão a suportar. Há de tudo, para minha desgraça.
Não gosto de velharias. De antiguidades. De bibelots. De objectos artísticos feitos de madeira exótica. Não gosto de acumuladores de lixo e pó. Não gosto de casas encavalitadas em objectos parados e inúteis a ocupar espaço e a requerer, a cada duas horas, uma limpeza que não posso, não quero, dar.
Mas não sei como vim aqui parar. Nem para quê. Nem por quê.
Olho em volto e sinto tonturas. Perco-me entre chávenas de porcelana com asa partida, colecções inteiras do Top Star, Pop Star, Euro Star e PolyGram de discos em vynil, bicicletas, trotinetas, triciclos, uma mota a pedais ou uma bicicleta a motor, enxadas, sachos, encinhos, pás, podões, machados, uma foice, serras e uma serra-elétrica e vejo-me a agarrar na serra-eléctrica, puxo-lhe a corda, ponho-a a trabalhar, ouço o rrrrrrrrrrrrrrr do motor e vejo a serra a circular à volta e eu a cortar em metades, metades-verticais e metades-horizontais, gente que não conheço, a largar pedaços de carne ensanguentada por cima dos bibelots, e vejo-os a partir uma colecção completa de copos da Ivima, daqueles com piquinhos de todas as cores do arco-íris como uma bandeira do Orgulho Gay, e uma chuva ácida, vermelha, vermelha de sangue a tombar sobre a cabeça dos meninos e meninas excitados com todas aquelas velharias que entram em casa e ficam esquecidos a um canto até que uma prima faz anos e é preciso uma prenda de última hora.
Não! Afinal estou ainda parado no meio da Praça. Volto a olhar à volta. Uma colecção de louça inglesa, uma caixa com singles em vynil de 45rpm, máquinas fotográficas cheias de pó, máquinas de Super-8, tripés, máquinas de projectar, máquinas de escrever, uma delas sem a letra A, solitários, vasos, penicos, moedas, uma quantidade absurda de moedas, penso em roubar aquilo tudo e penso que provavelmente não valem um chavo, camisolas da Nazaré, casacos da Serra-da-Estrela, samarras alentejanas, uma colcha de retalhos e uma outra em renda não-sei-de-quê, talvez de bilros, talvez de Peniche, uma pasteleira, um cão velho que não sei se está para venda se é companhia do dono também ele velho e a dormir com a cabeça pendente sobre o peito e um fio de cuspo a cair do canto da boca pelo queixo abaixo.
Porque é que estou aqui?
E ouço Anda! Anda, vá lá!
Alguém agarra na minha mão e puxa-me. Alguém diz anda.
Eu abro os olhos. Estou sentado num sofá. Estou sentado num sofá numa loja do IKEA. Alguém agarra na minha mão e chama-me. Quem é? Quem me agarra na mão?
Levanto-me do sofá. Corro atrás de quem me puxa. Uma mão-na-mão, entre os corredores labirínticos da loja, entre famílias que se passeiam de mãos atrás das costas a olhar, que a carteira é sempre curta, até chegar ao pé de uma estante, cheia de prateleiras, parar e dizer É esta! É esta! É bonita, não é?
E eu ainda pergunto E quem é que vai montar isto?, mas já sei a resposta e quero voltar para a feira das velharias e agarrar na serra-eléctrica.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/19]

Às Vezes Penso em C.

Às vezes ainda penso em C. Em como foi a minha vida e como poderia ter sido.
C. foi a minha primeira namorada. A primeira namorada a sério. A namorada com quem passeava de mãos dadas. A quem dava um beijo de língua logo de manhã, quando nos encontrávamos na escola, mesmo em dias em que me tinha esquecido de lavar os dentes e ela sem se queixar. Foi a namorada com quem tive as primeiras relações sexuais de uma forma mais ou menos constante. Foi também com ela que apanhei os primeiros sustos do atraso do período. Mas nunca chegou a não vir.
Durante os anos em que namorámos fomos inseparáveis. Éramos amigos. Talvez os melhores amigos um do outro. Gostávamos das mesmas coisas. Sem obrigação. É que acabámos por ir adquirindo os mesmo gostos. Líamos os mesmos livros. Ouvíamos os mesmos discos. Íamos juntos ao cinema. Ainda não havia pipocas nem tinha chegado o VLC. Íamos juntos a concertos. Os poucos que existiam. Ainda não havia festivais de Verão. O Vilar de Mouros passou sem darmos por isso e o Artlântico acabou por nos deixar em Lisboa sem sabermos o que fazer na ausência de um festival que acabou por não acontecer. Gostávamos de exposições. Fumámos as mesmas marcas de cigarros. Foram várias ao longo dos anos. Quando nos separámos eu fugi para o CT. Ela deixou de fumar. Bebíamos em conjunto. Eu mais que ela. Eu embebedava-me. Ela aturava-me a bebedeira e os vomitados. Eu era do Benfica. Ela do Sporting. Mas não ligava muito. Ela era de direita. Eu também, mas refilava muito. Ela era mais conciliadora.
Tudo começou por nos detestarmos. Éramos da mesma turma no secundário. Ela era uma miúda de nariz arrebitado e pêlo na venta. Eu era um gajo teimoso e com a mania que sabia sempre tudo. Tivemos muitas discussões nas aulas. Discussões sobre a matéria. Sobre os pontos de vista. A última discussão que tivemos, antes de anos e anos de mãos transpiradas juntas a percorrer as ruas da cidade, terminou com eu a dar-lhe um beijo nos lábios, provocador, e ela, primeiro a ficar corada, depois envergonhada, acabou por sair da sala de aula a correr e a deixar a discussão sem final. A professora deu-me um pequeno ralhete. Que me entrou por um lado e saiu pelo outro.
Fui à procura de C. pela escola. Quando a encontrei foi porque ela veio ter comigo. Eu estava a rir, gozão. Ele chegou ao pé de mim e mandou-me um estalo. Um estalo valente. Sonoro. Fiquei com os dedos dela marcados na cara. Ainda não tinha barba para disfarçar. Mas depois de me dar o estalo, abraçou-me e beijou-me. Beijei-a. Beijámos-nos. Depois perguntei-lhe Queres namorar comigo? e ela disse Sim! Foi a primeira e última vez que pedi namoro a alguém, assim mesmo, com as letras todas. E ela disse sim. E lembro-me de ficar de sorriso enorme, de orelha a orelha, e nunca mais tive um sorriso desses.
Nesse dia, nos final das aulas, fomos lanchar juntos. Foi o primeiro de muitos lanches que partilhámos durante os anos seguintes.
Foi quando fomos para a Universidade que a nossa relação terminou. Fomos para a mesma cidade grande. Mas fomos para Faculdades diferentes. Cursar cursos diferentes. Viver em zonas diferentes da cidade. Fomos com expectativas diferentes. Começámos a ser diferentes. A desejar coisas diferentes. A fazer coisas diferentes. A crescer de forma diferente. Ela a crescer. Eu a manter a adolescência. E quando demos por nós já não éramos nós. Eu já era outro. Ela também. Acabámos por morrer. E renascemos diferentes. Eu e ela. E já não éramos nós.
Depois disso nunca mais a vi.
Soube, há uns anos, que tinha casado. Tinha duas filhas.
Às vezes penso nela. Penso nela como parte de uma época da minha vida em que também penso bastante. E agora, mais velho, é com maior regularidade que regresso lá atrás. E também com muita saudade.
Às vezes pergunto como seria a minha vida se tivesse continuado a namorar com C.
Às vezes sinto uma certa emoção quando penso nessa época e em C.
Às vezes penso se eu ainda seria eu e que versão de mim seria. E se seria melhor ou pior. Diferente, com certeza.
Às vezes gostava de poder voltar atrás no tempo e poder voltar ao mesmo momento. Àquele momento. Não sei qual seria a minha escolha. Mas gostava de poder voltar a escolher. Só para ver. Só para lembrar como é que era. E como é que sou.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/17]

Universo Paralelo

Às vezes há sítios que conheço e que desaparecem do mapa. Entram num universo paralelo. Nunca mais os vejo. Deixam de existir. E quando menos espero, caem do céu à minha frente. E eu penso Que porra é esta? Como é que nunca mais cá vim? Houve muitas praias alentejanas a que aconteceu isso. Desapareceram. Nunca mais as encontrei.
O mesmo de passa com algumas pessoas. Pessoas de quem era muito amigo e, de um momento para o outro, desaparecem. Deixam de ser. Provavelmente nunca foram. Começo a pensar que eram um sonho meu. Que na verdade nunca tinham existido. Que eram amigos imaginários. Até que um dia me volto a cruzar com eles. E penso Onde caralho andaste, pá?
Foi o que me aconteceu ontem.
Fui muito amigo do F. Durante muitos anos fomos mesmo muito próximos. Fazíamos tudo, ou quase tudo, juntos. Gostávamos das mesmas coisas. Queríamos fazer as mesmas coisas. Gostávamos dos mesmos discos, quando os discos ainda eram de vinil, saíam bem poucos, duravam bem mais, eram mais devorados e decorávamos as letras e conseguíamos trautear as músicas – nunca aprendi música, e é o meu grande drama, que eu sempre acreditei ter perfil de estrela rock.
Gostávamos dos mesmos filmes, quando os filmes ainda eram projectados em película em écrans de salas escuras, e tínhamos de fugir de casa dos pais para ir às sessões da meia-noite.
Gostávamos dos mesmos livros, quando ainda os roubávamos nas livrarias da cidade, e os líamos à vez, primeiro eu, depois ele.
Gostávamos das mesmas comidas, um bitoque com ovo a cavalo, nem muito nem pouco frito, para podermos molhar o pão na gema amarelinha.
Gostávamos das mesmas raparigas. Aconteceu namorarmos à vez com as mesmas raparigas. Primeiro ele. Depois eu. E vice-versa. Mas um dia as coisas acabaram ao soco debaixo de uma nespereira à borda da estrada ao pé de minha casa. Por causa de uma rapariga. Há sempre uma rapariga. Há sempre uma rapariga para dar cabo de tudo.
E, então, um dia o F. desapareceu. Deixei de o ver. Passei a ouvir os discos sozinho. E comecei a escrever o que achava deles, já que não os podia discutir com F., e acabei a publicar crítica de música no Sete. Passei a ir ao cinema sozinho e comecei a gostar do cinema francês. Passei a comprar os livros. E apaixonei-me pela poesia. Deixei de comer bitoques e optei pela feijoada. Engordei. Nunca mais tive uma namorada. A vida perdeu algum sal. Mas consegui amealhar algum dinheiro. Não se pode ter tudo, não é?
Até ontem.
Ontem cruzei-me com F. nas rulotes.
Era meia-noite. Estava com fome. Não tinha nada em casa. Saí e fui às rulotes. Estava a dar a primeira dentada numa bifana com tiras de bacon frito, queijo, alface, tomate, cogumelos e cebola caramelizada daquela dos pacotes industriais, bem regada de ketchup, maionese com alho e mostarda, com os molhos a escorrerem-me pelos cantos da boca e pelos dedos, quando olhei para um tipo e reconheci: F.!
Ele também me reconheceu, estando eu bem disfarçado de gordo e quase careca – nisso, saí mesmo ao meu pai.
Então, F.?, perguntei-lhe. Ao que me respondeu com outra pergunta, Então?
Deu-me uma palmada amistosa no braço. Pediu um hambúrguer vegan, que levou para casa, e disse Ciao.
Eu não disse nada que tinha a boca cheia. Mas fiquei a vê-lo ir-se embora. A pensar que era um Cometa. Ou uma Supernova. E que iria desaparecer outra vez. Entrar num universo paralelo. E viver outra vida. Uma vida sem mim.
Dei o resto da bifana ao cão que andava por ali a cirandar.
Agora era eu que iria desaparecer deste universo. Iria embora da cidade. Iria emagrecer. Iria ser outra pessoa. Iria viver num universo paralelo.
Não sabia era se tinha força de vontade.
Ainda estou à procura dela.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/26]

Ruído de Fundo

Era 24 de Dezembro. Véspera de Natal.
Nesta altura as famílias juntam-se à volta da mesa e partilham bacalhau cozido com couve portuguesa ou polvo ou cabrito e camarões e filhoses e coscorões e fatias douradas e arroz doce e tronco de chocolate e Bolo Rei. Uma overdose gastronómica que termina sempre com uma quantidade inacreditável de doces que as avós e as mães tentam manter na tradição. Tudo isto muito bem regado a álcool. Depois, a distribuição dos presentes. Normalmente para os mais pequenos e em grandes quantidades. E há sempre um tio mais bem disposto que se veste de Pai Natal e faz as vezes. Ainda é muito assim, com uma ou outra variação.
Neste 24 de Dezembro eu cheguei a casa com um frango assado e um pacote de batatas fritas da Matutano. Coloquei a toalha na mesa, meio frango no prato e abri o pacote das batatas e coloquei-as na mesa à frente do prato. Fui ao frigorífico buscar um frasco de maionese. Abri a torneira do pacote de vinho Capataz e enchi um copo. Sentei-me e celebrei o meu Natal. Sozinho.
Liguei a televisão para o som me fazer companhia. Não sei o que estava a transmitir. Não sei em que canal estava ligado. Era só um ruído de fundo, uma companhia, uma garantia de que não estava só no mundo.
O telemóvel tocou. Mas não me levantei. Depois tocou o sinal de mensagem. Som que se repetiu várias vezes ao longo da noite.
Depois de acabar o meio frango e de despejar três copos de Capataz, fui fazer café e fui até à varanda beber o café e fumar um cigarro.
À minha frente e ao meu lado eram só festas. Muitas casas recebiam a família e os amigos para celebrar o Natal. Ouvia-se o barulho das crianças a correr, a gritar, animadas, contentes, felizes.
Voltei para o interior. Servi-me de um whiskey e sentei-me frente à televisão. E continuei sem saber o que estava a dar e em que canal estava. A minha cabeça estava vazia. Recebia o calor do álcool e agradecia-o.
Adormeci. Ou pelo menos, acho que adormeci.
E acordei. Ou pelo menos, penso que acordei. Com sons de gritos. Vinham do andar de cima. Primeiro eram umas vozes, poucas, que gritavam. Depois era um conjunto de várias vozes em enorme discussão, gritos que se sobrepunham a outros gritos. Percebi que alguém batia em alguém. Os pés faziam um sapateado que se ouvia cá em baixo. Alguém chorava. Várias pessoas choravam. De repente, um tiro. E o silêncio.
Fui até à varanda ver se percebia alguma coisa e quando lá cheguei, o silêncio extinguiu-se.
Do apartamento em cima e dos prédios em frente e de todo o lado pessoas discutiam com pessoas e havia quem lutasse e gritavam-se nomes e diziam-se asneiras e ouviam-se tiros e fogo e lume e gente era mandada para fora pelas janelas e deitada das varandas abaixo e deflagravam incêndios em vários sítios em várias janelas de vários apartamentos e ouvia-se o som de sirenes da polícia e de bombeiros e de paramédicos mas os gritos continuavam e na rua lá em baixo empilhavam-se corpos de gente que caía ou era empurrada gente a arder gente já morta por um tiro ou uma facada ou estrangulada e via-se uma árvore de Natal a voar janela fora e cair em cima da pilha de cadáveres e livros e discos e porcelanas e roupa muita roupa e televisões e colunas de música tudo a voar pelo ar para fora das janelas e a cair tudo na rua num rodopio caótico…
Estive algum tempo assim, parado, paralisado, a olhar a morte a acontecer à minha volta. Depois entrei dentro de casa e fechei a janela da varanda. Fui buscar um copo de vinho Capataz e sentei-me no sofá, frente à televisão. Desliguei-a e fiquei ali, a olhar para o ecrã vazio a tentar deixar de ouvir o barulho que vinha lá de fora.
Queria que o Natal acabasse e tudo voltasse ao normal.

[escrito directamente no facebook em 2017/12/20]