Regressar a Casa

Já lá não ia desde a morte dos meus pais. Agora precisava de ir. Não precisava mesmo. Podia não pensar em tudo o que está semeado por lá, tudo o que foi semeado por lá ao longo dos anos, dos meus anos também, durante a minha infância e adolescência, todos os segredos que fui guardando em cofres impossíveis de serem encontrados, em caixas do tempo que iria abrir alguns anos depois e que esqueci, ou perdi o interesse, não sei, há alturas na vida em que somos parvos e fazemos gala dessa parvoíce, como as cidades que deitam casas antigas, casas com história, abaixo, ou as árvores, que estão sempre doentes, nunca vi árvores para adoecer como as árvores da cidade e ao longo do rio, coitadas, sempre doentes, sempre a apodrecer, sempre a fazerem tudo para serem serradas, podadas, deitadas abaixo, às vezes também é porque tiram a vista a alguém importante, ou sujam a calçada, e para que é que interessa a sombra que fazem nas pedras de basalto da cidade quando se percorre as ruas da cidade de automóvel com motorista?
Na verdade não precisava de ir lá a casa. Podia deitar fora a chave, vender a casa a quem quisesse comprar, com ou sem recheio, segredos, livros, poemas escritos aos dezasseis anos, contos que se arrastavam em folhas soltas e que um dia iriam fazer um livro, um Epitáfio à Loucura, um nome assim pomposo na arrogância da minha adolescência, e depois largados por lá, perdidos em gavetas, no meio de livros que nunca mais abri, ficaram a apanhar pó que a minha mãe nunca mexia nas minhas coisas, era eu que limpava sempre o pó aos livros, aos discos, às prateleiras que ia enfiando no quarto, era preciso acomodar sempre mais livros que apareciam assim, às carradas, nasciam do dinheiro das senhas de almoço que não comprava, dos trabalhos que prometia à vizinhança, à minha mãe, ao meu pai, para poder ler quando descobri que havia mais gente no mundo que eu e que tinham histórias fantásticas de vidas absurdas, tão longe da minha para me contarem, e são ainda alguns destes livros que ficaram por lá, Os Cinco, os Sete, As Gémeas no Colégio de Santa Clara, O Colégio das Quatro Torres, a colecção Mistério, livros que guardei para os meus filhos e foram ficando por ali, eles cresceram, não ganharam hábitos de leitura, nunca lhes cheguei a dar os livros e eles agora não servirão para mais ninguém, nem para mim que não tenho vontade de regressar à infância, uma infância em que a vida ainda podia ser uma aventura nos Rochedos do Demónio, mas ainda por lá estarão outros livros, livros para alguém mais crescido, como os livros do Harold Robbins que devorei na cama noites dentro, de lanterna em punho e a porta encostada para os meus pais não verem a luz acesa tão tarde em dias de aulas, e cadernos inteiros com desenhos e riscos e palavras soltas e nomes de miúdas, miúdas de quem gostava, algumas já nem saberei quem são, quem foram, mas devem ter sido importantes que as miúdas sempre foram importantes na minha vida, mesmo as que não me ligavam nenhuma que eu sempre gostei das miúdas mesmo as que não gostavam de mim, algumas delas vieram a gostar anos depois mas já era tarde, não era?, que o comboio só passa uma vez na estação, li esta frase estúpida não sei onde e sempre pensei que a iria utilizar um dia e ainda estou à espera desse dia.
Quantos anos passaram desde que aqui entrei pela última vez?
Lembro-me de ver a minha mãe ali à janela, naquela janela ali, a janela da cozinha, onde ela ia chamar-me, chamar-me pelo meu nome em diminutivo, em altos berros para toda a rua e todo o bairro saberem que ela andava à minha procura, malandro, e onde é que eu andaria? Por aí, mãe, por aí.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/19]

Um Murro nas Trombas

Caminho pela ecopista. Levo máquina fotográfica e tiro algumas fotografias. Não as mostro a ninguém. Nem eu jamais as vou ver. Acumulo cartões de memória cheios de fotografias e filmes que nunca mais vejo depois de os registar. Vão ficar para memória futura da minha vida nesta época. Uma memória a quem interessar.
Vejo ao fundo a vila. À volta há aldeias. Um pouco por todo o lado há casas. Pedreiras a esventrar a montanha. A zona é muito ruidosa. Não há um enquadramento vazio, selvagem, sem rasto de intervenção humana.
Passo por dentro de um túnel. Regresso ao céu aberto numa nesga e retorno a um segundo túnel. Está frio dentro dos túneis. Caem pingos de água do tecto. Um deles acerta-me na cabeça. Sinto-o contornar-me o crânio e escapar-se pescoço abaixo e enfiar-se pela costas. Dá-me um arrepio. Depois desaparece absorvido pela camisola.
Deixo o segundo túnel para trás e páro para fumar um cigarro. O trajecto está vazio de gente. As pessoas devem andar às compras no Centro Comercial. Está um bom dia para andar na rua. Não está frio. Não chove. Está…
Sinto um aperto no coração. Penso se não será do tabaco. Mas percebo logo que não.
Passo o ano a fugir. Passo o ano a pensar numas coisas para não pensar noutras. Esquecendo-as, esqueço-me da tristeza.
Levo com a época em cheio nas trombas. Sem aviso. Num sítio sem história, a fumar um cigarro e a ver como lá ao fundo, e visto aqui de cima, tudo é tão pequeno, as pessoas, a vida, os problemas.
E zás.
Materializa-se dentro do coração. Provoca-me uma lágrima que tento reprimir e ainda digo Que raio! como se não soubesse a que se deve, mas sei.
Eu bem tento não ligar à quadra, às festas, ao apelo constante do amor ao próximo, à família, ao reencontro. E, no entanto, ela chega. Forte. A ausência. A minha e a deles.
Não consigo parar a enxurrada de água que galga dos olhos para fora. Sento-me na cerca de madeira que circunda o caminho e não deixa as pessoas perderem-se ao longo da pista, sento-me com as pernas para fora, sobre o penhasco, lá em baixo a vila, o castelo, que está lá em baixo embora esteja numa colina, sento-me lá, na cerca, a fumar o cigarro e a pensar nas ausências. Digo Merda de Natal! como se o Natal tivesse culpa, alguma culpa dos nossos problemas. Dos meus problemas. Mas sei que não é o Natal que me incomoda. É esta alegria a que sou alérgico. Uma alegria obrigatória como obrigatório é comprar coisas, não importa o quê, coisas, muitas coisas, livros, discos, jogos, roupa, meias e a porra dos Ferrero-Rocher que andam de casa em casa até que finalmente alguém os come, ninguém sabe quem.
Sento-me na cerca de madeira a fumar um cigarro e pergunto-me se ainda se lembram de mim. E não sei a resposta. Ou tenho medo de saber.
Quero que passe rápido o Natal e eu possa voltar ao esquecimento. Prefiro esquecer que sentir a minha ausência na ausência deles.
Apago o cigarro contra a madeira da cerca. Levo a beata apagada na mão. Esqueci-me que tinha a máquina fotográfica nas mãos e bato-a contra a madeira da cerca. Porra! Regresso à minha vida de olhos molhados e o coração desfeito. Ainda o sinto bater, mas bate descompassado. Um coração em segunda-mão, com certeza. Um resto que ninguém quis.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/22]

Uma Vida Simples

Simplicidade. É ao que reduzi a minha vida. À simplicidade.
Mudei de casa. Aluguei um T1. Um quarto, uma sala com uma kitchenette e uma casa-de-banho com polibã. Duas janelas para a rua com vista desafogada. Vejo, ao fundo, a cidade.
Vendi todos os móveis. Os que não consegui vender, ofereci à Remar. Fiquei com o colchão da cama e um estrado com pernas. Dois conjuntos de lençóis. Um edredão e uma manta. Uma mesa e duas cadeira. Uma panela. Dois pratos. Duas tigelas para sopa. Dois conjuntos de talheres. Uma colher-de-pau. Uma faca de serrilha para cortar o pão. Uma faca de corte. Uma tábua de plástico para cortar coisas. Uma saca de pano. A kitchenette já tem um pequeno fogão de placa de indução. Um frigorífico pequeno, com uma gaveta pequena para congelar. Há também um esquentador inteligente mas que só espero usar no Inverno.
Vendi toda a minha roupa. O que não consegui vender, ofereci à Cruz Vermelha. Fiquei com dois pares de calças. Duas t-shirts. Duas sweat-shirts. Uma camisola. Quatro pares de meias. Quatro cuecas. Um casaco de meia-estação e um grande, de Inverno, quente. Fiquei com um par de sapatilhas, umas botas e uns chinelos de borracha, de enfiar entre os dedos.
Fiz um contrato com uma cabeleireira da cidade. Vendo-lhe o meu cabelo, quando o corto, uma vez por ano.
Vendi o carro. A mota. A bicicleta. O skate. A televisão. A alta-fidelidade. A máquina fotográfica. A Lomo. A câmara de filmar. Vendi os livros. Todos os livros, com excepção dos livros do Philip Roth e do Alberto Pimenta que esses vou querer reler para o resto da minha vida. Vendi os discos de vinil. Os CDs. Os DVDs. As bandas-desenhadas. Fiquei só com A Balada do Mar Salgado do Hugo Pratt. Vendi tudo o que não pudesse transportar comigo se tivesse que partir, rápido, com uma mochila às costas.
Deixei de fumar. E se me custou! Deixei de beber álcool. Qualquer tipo de álcool. Mesmo o vinho tinto. O que me custou! Deixei de comer fritos. Passei a comer sopa. Muita sopa. Um frango assado de vez em quando. Pão com manteiga é a minha dieta. E fruta. E legumes.
Fiquei com o computador e o telemóvel.
Deixei de ver futebol. Mesmo os jogos do Benfica. E foi, talvez, o mais difícil de fazer, largar assim os jogos do Benfica. Tenho medo da ressaca.
Deixei de ir ao cinema. Ao teatro. A concertos. Deixei de comprar livros. Discos. Filmes. Descarrego música e filmes ilegalmente em torrents da internet para não morrer estúpido e porque o que quero ver nunca aparece cá pela cidade. A cidade só nos dá aquilo que acha que nós queremos ver, não aquilo que nós queremos realmente ver. Muito menos se forem poucas pessoas a quererem ver. Larguei a televisão. Não vejo mais os telejornais. De nenhuma estação. Nem os comentários do Luís Marques Mendes.
Passeio a pé pela cidade. Procuro os poucos jardins ainda existentes. Tento entrar nas redes sociais mas o sinal de wi-fi da rede pública é miserável.
Deixei de frequentar os centro comerciais. Mesmo os da cidade. Não entro nas lojas dos chineses nem das de 1€. Vou às lojas de rua. Compro o que necessito nas mercearias resistentes. É chato porque é um pouco mais caro. Mas a fruta sabe-me a fruta. E as senhoras que me atendem sabem o meu nome.
Faço todos os trajectos a pé. Só quando tenho de sair da cidade é que vou de autocarro, carreira, camioneta. Tudo isto porque não há comboios na minha cidade. E quem disser o contrário, estará a mentir.
Fui entregar os gatos e os cães ao canil municipal. Não sei se fiz bem ou mal. Se calhar fiz mal. Mas não tinha outra opção.
Agora levo uma vida simples. Tão simples que já me perguntei Que raio é que faço aqui? Mas vou aguentando.
Em dias de chuva ou de sol, chego-me à janela a apreciar as mudanças na cidade visto aqui de cima. E nessa altura sinto falta do cigarro entre os dedos e um copo de vinho tinto nas mãos. Mas resisto. Vou resistindo.
Escolhi o meu caminho. A simplicidade.
Larguei a família os amigos e as amantes para me livrar dos vícios e das necessidades que o contacto com os outros obriga. Agora estou só comigo. Levo uma vida simples. Não sei para o que é que me servirá, mas deverá servir para alguma coisa.
Para já estou mais magro. Já tive de mandar fazer mais dois furos no cinto. Não sei exactamente que peso tenho porque não tenho balança em casa e, quando vou à cidade, não vou propriamente à procura de uma farmácia para me pesar. Na verdade vou à procura de uma banco à sombra de uma árvore para ler umas páginas soltas do Bestiário Lusitano do Alberto Pimenta. E aguentar a passagem do tempo. Um dia a seguir ao outro. E ainda aqui estou. Na terceira rocha a contar do sol.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/11]

O Meu Pai Nunca Teve Qualquer Relação com a Arte

O meu pai nunca teve qualquer relação com a arte. A vida dos meus pais, um como o outro, neste sentido, foi bem diferente da minha. A forma de arte da qual o meu pai esteve alguma vez mais perto foi através de uma finta do Eusébio e do Victor Baptista ou de uma defesa do Costa Pereira e do Bento. Vagamente num fado da Amália e, sobretudo, numa qualquer canção romântica do Tony de Matos. Sim, pelo que a minha mãe me contava, o meu pai era um romântico. À luz da época dele. Deles. Do meu pai e da minha mãe. O meu pai gostava de dançar. E acho que gostava de dançar as músicas do Tony de Matos. Sempre que ouço O Destino Marca a Hora lembro-me do meu pai. Do meu pai com a minha mãe. Em dupla. Pelo que a minha mãe me contava.
Também ela nunca teve nenhuma relação próxima com a arte. A minha mãe era uma excelente cozinheira. Não uma chef. Não. Uma cozinheira. Uma cozinheira daquelas que se fala quando falamos, com saudade, da comida da mãe ou da avô. Comidas que muitos de nós tentamos reencontrar nas mulheres que vamos tendo ao longo da vida. E alguns de nós, como eu, acabamos por sermos os próprios, na impossibilidade de reencontrar as mães na cozinha, os recriadores das comidas de casa. Não me dou mal entre os tachos, as frigideiras e o forno. Mas não sou como a minha mãe. A minha mãe sabia fazer os pratos clássicos que as mães e as avós sabiam fazer e, às vezes, punha-se a inventar com o que tinha em casa e descobria-nos maravilhas de agradar ao palato. Nunca houve um livro em casa dos meus pais. Nunca houve um livro até eu começar a comprá-los. Nem a minha mãe tinha um qualquer livro de cozinha. Nem assentava nada do que inventava. Tinha tudo na cabeça. E as medidas eram à medida da mão, primeiro, e do gosto, depois.
Mesmo não tendo nenhuma relação com a arte, mesmo não havendo nenhum livro lá em casa, os meus pais sempre me incentivaram a ler e a gostar de arte. A ter predisposição para isso, pelo menos. Os primeiros livros que entraram em casa foram os que eu comprei. Os que eu comprei com o dinheiro que eles me davam para os poder comprar.
Lembro-me de ver jornais, especialmente A Bola, a Crónica Feminina, a Simplesmente Maria e as Selecções do Reader’s Digest lá por casa. Perdidos em gavetas. Largados em cima do sofá. Mas nada de muito importante. Uns números avulsos. Soltos. E espalhados pela casa, ao acaso.
Até que comecei a comprar as primeiras bandas-desenhadas. Os primeiros livros da Enid Blyton. O que originou a existência de uma primeira estante para os livros mandada fazer de propósito, para o meu quarto, pelo meu pai.
Mas mesmo não tendo qualquer relação com a arte, por vezes o meu pai surpreendia-me ao extravasar os pedidos que normalmente lhe fazia para o natal e para o aniversário. Livros.
Uma vez surgiu em casa com a adaptação para banda-desenhada de o Tubarão, o filme de Steven Spielberg que andava, na altura, a assustar toda a gente em todo o mundo. Em minha casa não foi excepção. E foi uma surpresa vê-lo chegar com uma banda-desenhada. Para mim. E sem ter de a pedir.
Outra vez, e não sei como, deve ter ouvido na rádio, visto na televisão, ouvido nalguma conversa entre gente amiga, conhecidos, não sei, apareceu em casa com o disco Anjo da Guarda de António Variações. Foi o primeiro disco que comprou. Não era para mim, embora eu o julgasse, erradamente. Era um disco para a casa. Porque, tanto ele como a minha mãe o queriam ouvir. Ouvir na aparelhagem que havia lá em casa e que o meu pai tinha comprado para mim. Pelo menos era o que eu julgava. Era eu que lhe dava uso, não? Era eu que comprava os discos. Os discos todos. Era eu que ouvia as músicas. As músicas dos discos que comprava. Em altos berros. Até tinha levado a aparelhagem para o meu quarto. O meu quarto era o meu mundo. Nesse dia, a aparelhagem voltou para a sala onde tinha estado originalmente. E ficou lá por algum tempo.
O meu pai nunca teve nenhuma relação com a arte. Mas sempre teve a arte de bem me surpreender. Quando ia a Lisboa, e antigamente ir a Lisboa não é o mesmo que hoje, em que demoramos menos de uma hora a fazer estes poucos mais de cem quilómetros que nos separam, na época ir a Lisboa era uma aventura, toda uma viagem de horas, em carros mais fracos, menos confortáveis, cansativos, aparecia por casa com Pastéis de Belém, Queijadas de Sintra, frango frito de um restaurante da baixa, que já procurei e nunca encontrei, provavelmente fechou, restos de uma época morta e enterrada nas fundações desta modernidade que nos veio tornar iguais a toda a gente de todo o lado.
A minha mãe era uma grande cozinheira. Recordo com muita saudade alguns pratos de uma simplicidade desarmante que ainda hoje me fazem água na boca, coisas tão estúpidas como arroz branco, quase em calda, não é malandrinho, é mesmo quase-calda, a acompanhar uns bifes de vaca panados, mas bem panados, bem fritos, coisa que nunca consegui encontrar fora de casa, mesmo quando ia às cinco da manhã comer uma sandes de panado à Sopa da Puta, o panado não era o mesmo nem tão bom, e hoje, então, nuns panados de porco, de peru, de frango, umas coisas desenxabidas, nunca há ecos dos panados da minha mãe, nem dos seus rissóis de peixe ou da mão-de-vaca com grão, que hoje parece asséptico nos restaurantes onde ainda se aventuram. Ela também fazia frango frito. Hoje já ninguém faz frango frito. Comem no KFC uma imitação americana. Mas mesmo o frango frito da minha mãe, cheio de limão e piri-piri, sendo tão bom, não era tão bom como o que o meu pai trazia naqueles dias em que chegava das suas idas a Lisboa e os trazia em pequenas caixas de cartão todas besuntadas de gordura dos fritos.
O meu pai nunca teve nenhuma relação com a arte. Mas sempre teve arte de me criar memórias vivas. Como arte.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/31]

Jesus Cristo no Tecto da Sala

O senhorio não quis renovar o contrato. Tenho de sair daqui de casa. É sempre estranho cada vez que tenho de sair de casa. Parece que estou a deixar bocados meus para trás. Afinal, a casa era minha. Era minha até ao final do contrato.
Tenho de voltar a encaixotar tudo outra vez. Cada vez mais sinto vontade de não o fazer. É um drama. Voltar a carregar os livros dentro de caixotes que se vão romper com o peso dos livros que vão cair no chão e dobrar capas, os cantos das folhas, eventualmente rasgar páginas. Vou carregar com caixotes para os quais não vou ter força. Por vezes apetece-me mandar os livros todos para o caralho.
Olho para o móvel onde estão ordenados. Olho para os caixotes vazios. As roupas é só enfiar nas malas. Os discos e os filmes já vão nos discos externos. Mas os livros!… Os livros são o cabo dos trabalhos para serem transportados ao longo de uma vida de saltimbanco. Nem quero pensar nos livros que já fui deixando para trás. Em todas as outras casas por onde passei. Até fico doente.
Acendo um cigarro. Deito-me no chão da sala. Olho o tecto. Descubro umas teias-de-aranha. Decido que já não tenho de me preocupar com estas limpezas.
Sinto comichão nas costas. Meto a mão debaixo de mim e coço-me. Sinto uma coisa a mexer. Agarro-a. Uma barata. Esmago-a com o polegar contra o chão. Ouço um barulho obsceno, um crack, enquanto a barata é esmagada. Ela desfaz-se numa pasta nojenta. O polegar fica sujo. Limpo-o às calças. Com o cigarro aceso, queimo as antenas da barata. Ela já está morta. As antenas vão-se queimando. Cheira-me a queimado. Não sei se o cheiro é do cigarro se das antenas da barata.
Apago o cigarro no chão da sala.
Tenho vontade de largar estes livros todos pela varanda abaixo.
Queria ser livre. Pular de casa em casa sem me preocupar com o que tenho de levar às costas. Foi isto o que a escola nunca me ensinou. Como viver uma vida de arrendamento em arrendamento? De aluguer em aluguer? Viver a vida ao pé-cochinho, ora assim, ora assado.
Vejo as lombadas dos livros. Há pequenas ilhas que identifico logo. Pela cor e pelo conjunto. Não, já não consigo ler nenhuma lombada daqui. Estou muito longe para conseguir ler. Os óculos que uso são para ler de perto. Mas identifico aquelas colecções. Ali, na quarta prateleira, mais para a direita, estão os livros do Philip Roth. Todos os livros que a Dom Quixote editou em Portugal. Pena que tenham andado sempre a mudar de capas. Há umas hardcover. Outras softcover. E nas softcover há géneros diferentes de capas. Cabrões do caralho! É só para me chatear! As capas que gosto mais são as coloridas. Capas softcover de cores vivas. Aquela vermelha do Casei com um Comunista é um mimo.
Acendo outro cigarro.
Naquela prateleira, do outro lado, vejo a colecção completa, mais uns livros especiais com capas desenhadas por outros artistas e dois volumes que compilam os trabalhos jornalísticos de Spider Jerusalem ao longo da série Transmetropolitan de Warren Ellis e Darick Robertson. Uma graphic novel fabulosa. Política. Agressiva. Muito violenta. Um pouco mais atrás a colecção completa do Sandman de Neil Gaiman.
É disto que me quero desfazer?
Não consigo. Vou ter de arrastar estes livros todos comigo até ao fim dos meus dias. E hei-de chorar todos os outros que fui deixando lá por onde passei. Espero que tenham servido a alguém. Espero que tenham sido lidos. Que tenham sido lidos como eu os li.
O borrão queimado do cigarro tomba sobre mim. Sobre o meu peito. Vejo-o queimar a camisola. Depois sinto-o queimar-me a mim. Mas não me queixo. Apago o cigarro no chão da sala, ao lado do outro.
Bom, vou levantar-me e começar a encher os caixotes.
Mas não me levanto.
Decidir é mais fácil que fazer. Eu decido muitas coisas. Tenho decidido muitas coisas ao longo da minha vida. E ainda ando para aqui. De casa em casa. À espera de parar. Como se acabassem as fichas dos carrinhos de choque. E eu tivesse de ficar dentro do carrinho à espera que me lá fossem buscar.
Fico deitado de costas no meio da sala. Cruzo as mãos atrás da cabeça. Olho de novo o tecto. Para além das teias-de-aranha, vejo umas rachas, umas manchas. Uma delas parece-me a cara de Jesus Cristo, exactamente como eu conheci no colégio das freiras. Rio-me. E penso que o senhorio vai ter de pintar a casa toda.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/03]

Voltar a Votar

Por vezes tento recordar como as coisas eram. Mas já se torna cada vez mais difícil. A memória já não é a mesma. E o presente vai matando o passado aos poucos. Nunca houve muita necessidade de o esconder. O passado. Na verdade nunca foi preciso reescrevê-lo. Ele morre de morte natural na memória dos poucos resistentes que ainda não morreram. Tudo se perde. Tudo acaba por se perder. Tudo acaba por se perder se não fizermos nada para manter vivas essas memórias.
Lembro-me da última vez que houve eleições livres. Eleições em que todas as pessoas, homens e mulheres, com mais de dezoito anos, puderam votar. Era Primavera. Uma Primavera especialmente quente. As alterações climáticas estavam a começar a alterar o ritmo dos ciclos climáticos. As estações andavam baralhadas. Estava, portanto, muito calor. As pessoas foram para a praia. Lembro-me porque, em dia de eleições, a abertura dos serviços noticiosos foi com as filas intermináveis de carros para ir para a praia e para vir da praia. Foi um Domingo que entrou por Segunda e Terça-feira dentro. Lembro-me porque tudo isso criou um grande caos. Gente que faltou ao trabalho. Miúdos que faltaram à escola. Até deputados que faltaram à Assembleia. Todos perdidos em filas de trânsito intermináveis. Lembro-me porque essas foram as últimas eleições. As últimas eleições livres. As eleições dos dez por cento. Só dez por cento dos eleitores é que foram votar. Houve mesmo candidatos que não chegaram a ir às urnas. Candidatos que não foram votar. Lembro-me porque foram as eleições ganhas por grupúsculos de bandidos sem ideologia mas com uma fome imensa de poder e capital. Lembro-me porque foi assim que assumiram o poder e nunca mais de lá saíram. Lembro-me porque foi assim que chegámos ao dia de hoje.
Pouca gente se lembra. Mas ainda há quem se lembre.
Quase ninguém quer lembrar. Lembrar é assumir a culpa. O erro. E é difícil dizer que a culpa é nossa. É difícil dizer que a culpa é minha. Minha!
Sim, eu ainda me lembro. E por vezes tenho de contar. Contar a mim. Para me ouvir. Para que não me esqueça. Para que não deixe de saber o caminho que me trouxe aqui onde estou hoje.
Estou à janela. Estou à janela do meu quarto. Agora partilho a casa com mais quatro pessoas. Agora as pessoas vivem em quartos. As casas são divididas em quartos. Uma pessoa, um quarto. Uma família, um quarto. É a divisão equitativa para evitar a miséria dos sem-abrigo. É um estado-protector. É assim que contam a história. Mas eu sei dos condomínios onde vive a elite. Os condomínios. Os parques. Os jardins. Os lagos. Longe das cidades. Longe da miséria das grandes cidades.
Enrolo um cigarro. É difícil arranjar cigarros. Fazem mal à saúde, disseram. Foram proibidos. Mas arranjo barba-de-milho e consigo enrolar uns nas folhas de uma Bíblia que encontrei no mercado. Custou-me dez LP’s de vinil. Voltaram a estar na moda. O povo ouve música em MP3. O som flat, sem perspectiva, sem dimensão, sem ondas dos MP3. A elite redescobriu a qualidade de vinil. Os meus antigos discos têm muito valor. Dez deles valeram-me esta Bíblia que me permite continuar a fumar aqui, assim, à janela, enquanto olho as pessoas que continuam iguais, a correrem para sítios, a irem para trabalhos sem sentido mas ocupacionais. Sem tempo para nada. Sem tempo para olharem umas para as outras. Sem tempo para pensarem no tempo que ficou. Sem tempo para olharem para trás.
Eu não.
Eu gosto de pensar naquilo que perdi. Eu obrigo-me a pensar naquilo que perdi. Porque tenho esperança de um dia conseguir recuperar a vontade de ser mais que um grupo. Porque tenho esperança de um dia ser mais que um número num conjunto de gente igual. Porque tenho a esperança de um dia conseguir voltar a ser um indivíduo. E voltar a votar. Voltar a ter a possibilidade de votar. Voltar a ter o direito e o dever de escrever a minha própria história.
Tenho uns livros do Philip K. Dick. Do Stanislaw Lem. Do Philip Roth. Livros que vou passando a algumas pessoas. A pessoas que ainda não perderam a esperança. A pessoas que ainda questionam. A pessoas que ainda não perderam a capacidade de pensar, mesmo que seja cada vez mais difícil fazê-lo. E quando regressam, esses livros, vêm com algumas memórias. Vêm com algumas ideias. Alguns deles vêm com relatos de vidas escondidas. As boas e as más. É assim que eu sei dos condomínios. E de outras coisas que um dia contarei.
Agora só quero fumar esta cigarro feito com barba-e-milho e uma folha da Bíblia. Agora só quero parar esta lágrima que teima em tombar cada vez que penso nestas coisas em que penso. Agora só quero olhar lá para fora e imaginar que estas pessoas, que vejo ali a passar autómatas, um dia, ainda podem voltar a ser livres. Livres e felizes.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/24]

Entre Velharias

Estou no meio da Praça. E como vim aqui parar?
Estou no meio da Praça e à minha volta uma quantidade de velharias. São bancas e banquinhas, cavaletes com portas a servir de mesas, ripas, placas, umas mais curtas outras mais compridas. Umas leves. Outras fortes. Depende do que estão a suportar. Há de tudo, para minha desgraça.
Não gosto de velharias. De antiguidades. De bibelots. De objectos artísticos feitos de madeira exótica. Não gosto de acumuladores de lixo e pó. Não gosto de casas encavalitadas em objectos parados e inúteis a ocupar espaço e a requerer, a cada duas horas, uma limpeza que não posso, não quero, dar.
Mas não sei como vim aqui parar. Nem para quê. Nem por quê.
Olho em volto e sinto tonturas. Perco-me entre chávenas de porcelana com asa partida, colecções inteiras do Top Star, Pop Star, Euro Star e PolyGram de discos em vinyl, bicicletas, trotinetas, triciclos, uma mota a pedais ou uma bicicleta a motor, enxadas, sachos, ancinhos, pás, podões, machados, uma foice, serras e uma serra-elétrica e vejo-me a agarrar na serra-eléctrica, puxo-lhe a corda, ponho-a a trabalhar, ouço o rrrrrrrrrrrrrrr do motor e vejo a serra a circular à volta e eu a cortar em metades, metades-verticais e metades-horizontais, gente que não conheço, a largar pedaços de carne ensanguentada por cima dos bibelots, e vejo-os a partir uma colecção completa de copos da Ivima, daqueles com piquinhos de todas as cores do arco-íris como uma bandeira do Orgulho Gay, e uma chuva ácida, vermelha, vermelha de sangue a tombar sobre a cabeça dos meninos e meninas excitados com todas aquelas velharias que entram em casa e ficam esquecidos a um canto até que uma prima faz anos e é preciso uma prenda de última hora.
Não! Afinal estou ainda parado no meio da Praça. Volto a olhar à volta. Uma colecção de louça inglesa, uma caixa com singles em vinyl de 45rpm, máquinas fotográficas cheias de pó, máquinas de Super-8, tripés, máquinas de projectar, máquinas de escrever, uma delas sem a letra A, solitários, vasos, penicos, moedas, uma quantidade absurda de moedas, penso em roubar aquilo tudo e penso que provavelmente não valem um chavo, camisolas da Nazaré, casacos da Serra-da-Estrela, samarras alentejanas, uma colcha de retalhos e uma outra em renda não-sei-de-quê, talvez de bilros, talvez de Peniche, uma pasteleira, um cão velho que não sei se está para venda se é companhia do dono também ele velho e a dormir com a cabeça pendente sobre o peito e um fio de cuspo a cair do canto da boca pelo queixo abaixo.
Porque é que estou aqui?
E ouço Anda! Anda, vá lá!
Alguém agarra na minha mão e puxa-me. Alguém diz anda.
Eu abro os olhos. Estou sentado num sofá. Estou sentado num sofá numa loja do IKEA. Alguém agarra na minha mão e chama-me. Quem é? Quem me agarra na mão?
Levanto-me do sofá. Corro atrás de quem me puxa. Uma mão-na-mão, entre os corredores labirínticos da loja, entre famílias que se passeiam de mãos atrás das costas a olhar, que a carteira é sempre curta, até chegar ao pé de uma estante, cheia de prateleiras, parar e dizer É esta! É esta! É bonita, não é?
E eu ainda pergunto E quem é que vai montar isto?, mas já sei a resposta e quero voltar para a feira das velharias e agarrar na serra-eléctrica.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/19]