Maria É Nome de Mulher

Ela acorda todos os dias às sete da manhã.
Levanta-se. Toma um duche rápido. Veste-se na casa-de-banho uma roupa escolhida de véspera sem grande prazer. Come uma torrada. Bebe uma caneca de café. Deixa comida aos gatos. Vai deitar milho às galinhas. Põe uma máquina de roupa a lavar. O pequeno-almoço pronto para os filhos. Deixa as coisas preparadas para um almoço rápido que virá fazer a casa.
Às oito menos dez está a sair. De carro.
Das oito à uma da tarde anda para cima e para baixo. Limpezas num lado. Passar a ferro e cozinhar noutro. Às vezes uns pontos de costura. Mas o normal é o aspirador na mão. A vassoura. O ferro de engomar. O tacho. A frigideira.
À uma da tarde regressa a casa. Prepara qualquer coisa rápido que já deixou adiantado de manhã. Uns ovo mexidos com espargos. Umas coxas de frango assadas. Umas cavalas em lata. Acompanha com uns brócolos. Alface. Tomate. Senta-se sozinha à mesa da cozinha. Come. Bebe um copo de vinho. Vê as notícias na televisão pequena, em cima da bancada. Aquece uma caneca de café no micro-ondas e vai bebê-lo para a entrada de casa enquanto fuma um cigarro e vê as galinhas de um lado para o outro, tontas, a debicar no milho que lhes deixou de manhã.
Acaba o cigarro e são duas menos dez. Deixa a louça por lavar no lava-louça. Arranca de carro. Às duas horas está noutro lado. Muda as roupas de cama. De muitas camas. Põe roupa a lavar. Limpa o pó. Aspira os tapetes. Faz pequenos arranjos. Às cinco horas sai. Ou devia sair. Às vezes ainda dá mais uma ajuda. Aqui. Ali. Onde for preciso. Na cozinha. Nos quartos. Às vezes lavar um carro urgente. Regar a relva porque o sistema de rega está avariado. E avaria muitas vezes. Uma ida à farmácia Por favor! buscar qualquer coisa de muito urgente para alguém muito necessitado mas sem tempo.
Chega a casa às cinco e meia. Às seis. Ou às sete. Põe a louça do almoço na máquina. Prepara o jantar. Para ela e para os filhos. Jantam. Verifica os trabalhos de casa. Dos dois. Ouve as queixas. De um. De outro. As sapatilhas que estão rotas. As calças que estão curtas. A camisola que está pequena. As meias novas para o ballet que as velhas estão rotas. O livro do Plano de Leitura que não se vai ler mas tem de se comprar. O fato para a ginástica. As senhas de almoço para a próxima semana. A amiga que amuou. O amigo que já não é. As dores de crescimento dos filhos enquanto, ao mesmo tempo, os vê afastarem-se de si. Mas, para já um ombro. Outro. Limpa umas lágrimas. E quem lhe seca as dela?
Arruma a mesa de jantar. Põe a louça na máquina, a lavar. Tira a roupa da máquina e estende-a à espera que não chova.
Senta-se frente à televisão.
Olha para qualquer coisa que está a dar. Não liga muito. Mas ajuda a espairecer. Dantes ainda via umas novelas. Mas começaram todas a parecerem-lhe iguais. E já não lhe chega as vidas dos outros para animar a sua.
Vai fechando os olhos enquanto olha para a televisão. Entretanto são onze horas. Levanta-se. Prepara a roupa para o dia seguinte. Prepara a roupa para os filhos, mesmo sabendo que eles vão acabar por vestir o que querem.
Na casa-de-banho, enquanto lava os dentes, olha em frente, para si reflectida, e pensa que tem de limpar o espelho. Os vidros das janelas. De aspirar a casa. Limpar o pó. Mudar a roupa das camas. Pelo menos das camas dos miúdos. E tem de comprar pasta dos dentes. Mudar a escova que aquela já tem, o quê?, quase um ano? Pensa que tem de fazer uma lista de coisas que precisa de comprar. E depois precisa de ver se tem dinheiro para tudo e escolher as prioridades.
Enquanto vai pelo corredor, e passa pelos quartos dos filhos para dar o beijo de boas-noites sem que tirem os olhos do telemóvel, pensa que é melhor, no dia seguinte, passar em casa dos pais. Talvez traga umas couves. Um coelho já esfolado. Talvez uma sopa de feijão. Dava bastante jeito uma sopa de feijão seco, pensa.
Deita-se nua na cama fria e solitária e pensa que já passou mais um fim-de-semana e nem deu por isso. Os dias são sempre iguais. Banais. Solitários. Cansativos. E entre um pensamento e outro há um interlúdio e são outra vez sete da manhã. O telemóvel toca a despertar e tudo recomeça da mesma maneira.
Tudo se alterou quando chegaram as primeiras dores de cabeça. Depois as dificuldades em adormecer. Por fim as dificuldades em levantar-se de manhã.
Vai ao médico de família. Análises. Testes. Nada. Não tem nada. Não tem nenhum problema. É só cansaço, ouve. É o stress do dia-a-dia, dizem-lhe. E começam os comprimidos.
Os comprimidos para as dores de cabeça cada vez mais frequentes e intensas.
Os comprimidos para adormecer e esquecer todos os pensamentos que lhe invadem a cabeça enquanto se lança para a cama à procura de um pouco de repouso.
Os comprimidos para acordar e forçar a levantar-se para retomar o seu dia-a-dia de contribuidora para o bem comum.
Foi num fim-de-dia que lá fui para lhe comprar uns ovos. Ovos a sério. Ovos de galinhas do campo. Galinhas que andam a passear dentro do galinheiro a debicar milho e que todos os dias põem ovos frescos com que se equilibram as contas da casa. Foi nesse dia que lá fui aos ovos e a vi caída no chão. Alguma roupa pendurada no estendal. Outra caída. Umas peças tinham voado para cima da figueira.
Não tinha pulso. Chamei o INEM. Mas já foi tarde. Os filhos agora estão a viver com os avós.

Abriram uma vagas de emprego.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/16]

Todas as Gajas São Bipolares

Era meia-noite.
Era meia-noite e eu já estava bêbado.
Virei-me para a gaja e disse Eu acho que todas as gajas são bipolares.
Ela ficou parada a olhar para mim. Durante muito tempo olhou para mim e não disse nada. E depois conseguiu largar O que é que queres dizer?
Não sabia.
De verdade que não sabia o que é que queria dizer com aquilo.
Acho que só queria chocá-la. Mandar assim uma bojarda para atordoar.
Mas depois comecei a pensar. A pensar nas gajas que tinham passado pela minha vida. Pela minha cama. Pelos meus braços. E, pensei Mas não são? Todas?
Não queria ser injusto. Sim, não queria ser injusto. Mas desfilei todo o meu historial de relacionamentos e os caminhos por que enveredaram e cheguei à conclusão que: Primeiro Eu estava louco e Segundo Todas as gajas mudavam de personalidade consoante estavam na cama ou na mesa comigo.
Não seria eu o bipolar?
Isto aconteceu durante o jantar. Não conversámos mais até ao fim.
Quando chegaram os cafés, bebi o meu sem açúcar para despachar o drama. Ia levá-la ao táxi e Adeus, até um dia destes.
Não sei porque disse o que disse.
Não sei porque raio não aprendo a calar a boca.
Elas são bipolares (e sim, são quase todas bipolares), mas eu tenho a porra de uma boca enorme que não consigo calar.
Fui para casa e não consegui dormir a noite inteira.
Acho que fui atormentado pela minha própria bipolaridade.
Chorei. Ri. E não preguei olho. Mas claro, estava bêbado.
No dia seguinte parecia um zombi mal dormido.
Precisava de aprender a calar a boca.
Sou o meu próprio inimigo.
De manhã, quando me levantei, tive de ir a correr para vomitar na retrete.
Passei o dia seguinte com a porra de uma azia.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/18]

O Último Vencedor do Euromilhões

Quando me aproximei da ponte vi que estava lá o melro. Andava de volta de qualquer coisa presa entre as madeiras da ponte. Eu já o tinha visto por lá outras vezes. E estava sempre no mesmo sítio.
Quando me pressentiu virar para o lado onde estava, bateu asas e voou. Ou, pelo menos, foi o que me pareceu. Porque a velocidade com que saiu do sítio de onde estava foi tanta que nem reparei no bater de asas. Na verdade parecia ter-se desmaterializado num lado para, provavelmente, se ter materializado noutro. Mas não reparei onde porque deixei, quase instantaneamente, de o ver.
Não foi, contudo, a primeira vez que o vi por ali. Não sabia se seria sempre o mesmo mas era normal haver sempre um melro ali, naquela zona mais destruída da ponte de madeira, a tentar bicar qualquer coisa que lhe estaria a chamar a atenção.
Foi no regresso, quando voltei para trás utilizando o mesmo caminho, e o melro não estava lá, que resolvi olhar para o sítio onde ele normalmente estava a tentar apanhar algo com o bico.
E vi uma moeda de dois euros.
Baixei-me. Apanhei um pequeno graveto que enfiei entre as ripas de madeira e consegui puxar a moeda de dois euros para fora. Sorri.
Como tinha uma moeda de cinquenta cêntimos comigo, voltei atrás, para o Centro Comercial de onde tinha vindo, e fui apostar no Euromilhões.
Quando voltei a passar na ponte, o melro já lá estava outra vez, mas agora não estava a tentar apanhar nada com o bico, estava só parado, na varanda da ponte, e parecia estar a olhar para mim e a rir, o sacana.
Era Sexta-feira. À noite foram anunciados os números sorteados. Olhei o meu boletim e, Glória! Glória, percebi ser o feliz e único contemplado com a sequência de números vencedores.
Dois dias depois, na Segunda-feira, fui ao banco e troquei algumas notas de euros por vários saquinhos cheios de moedas de dois euros.
Nessa noite, tarde na noite, voltei à ponte e andei a espetar várias moedas de dois euros entre as ripas de madeira.
No dia seguinte, era uma Terça-feira, dia de mercado municipal, havia uma quantidade enorme de melros a debicar as ripas de madeira da ponte. Alguns afastavam-se quando passavam pessoas. Mas depois voltavam. Havia como que um jogo de ir e vir dos melros, a baterem as asas que, afinal, ninguém via bater. Mas nunca ninguém teve curiosidade de procurar que raio é que os melros tentavam apanhar com os bicos entre as ripas de madeira da ponte.
Naquela cidade, nunca mais ninguém acertou nos números vencedores do Euromilhões. Eu fui o último. E só não digo algumas das coisas que fiz com o grosso prémio que me saiu porque não sou pessoa de me gabar das coisas boas que faço. Mas posso adiantar que, o Rui Patrício, não é a única pessoa viva com uma estátua em Leiria.

[escrito directamente no facebook em 2018/04/16]

Sentado Nu na Beira da Cama com os Pés Gelados

São quatro horas da manhã.
Não seria nada de anormal na minha vida se estivesse a acabar uma garrafa de vinho ou a acabar de fumar um cigarro ou, então, somente a abandonar uma cama ao Deus-dará que me tivesse acolhido por algumas horas em troca de algumas cabriolices. Final de proezas físicas, final de cama. Hora do Táxi ou, como é ar do tempo, hora do Uber. Como se eu vivesse numa grande metrópole.
Isto não é Nova Iorque. Nem sequer Lisboa. Isto é Leiria e, às quatro da manhã, de um Domingo para Segunda-feira, quem ainda não está na cama é meliante, anda à cata dos restos utilizáveis que gente respeitável deitou para o lixo mas ainda serve para quem tem poucos recursos económicos ou trabalha na empresa de recolha de sólidos urbanos (o famoso RSU para quem ainda não sabe).
Eu não sou nenhuma destas coisas. Não, também não sou nenhum extra-terrestre. Sou tão-só um tipo com algumas dificuldades em acompanhar o andar normal de todos os outros em todos os outros dias. E não, não estou louco. Nem acho que estejam todos errados e eu é que esteja certo. Se bem que…
São quatro da manhã. Agora, na verdade, são quatro e vinte da manhã (demorei vinte minutos a chegar aqui). Estou nu, sentado na cama, com os pés a gelar no chão de madeira (eu não uso tapetes) e acabei de acender um cigarro.
Tenho a janela aberta. As persianas e o vidro. Queria sentir o pulsar à cidade. Mas qual pulsar? Esta cidade nem existe.
São quatro e vinte da manhã, estou sentado nu na beira da cama com os pés descalços a arrefecer no chão de madeira, a fumar um cigarro cujo fumo sai pela janela de vidro aberta e que me deixa o quarto tão gelado que penso poder acordar morto no dia seguinte sem que ninguém me venha descobrir antes do cheiro começar a incomodar o prédio.
Olho para as luzes da cidade adormecida e penso Esta porra de cidade nem néon tem. São umas luzinhas. Uns candeeiros plantados pela cidade para o cidadão ver onde pousa os pés e umas pequenas e mal enjorcadas publicidades feitas, se calhar, por algum primo mais afoito que até percebe um pouco destas coisas e resolveu a necessidade com um orçamento muito mais barato e, assim, fez-se um anúncio tardio ao-seja-lá-o-que-fôr que mantém esta não existente cidade a fingir que até existe.
São quatro e vinte cinco da manhã. Acabei o cigarro e mandei a beata pela janela aberta para o meio da rua. E pensei Quero que o ambiente se foda!
São quatro e vinte cinco da manhã, já fumei o cigarro, continuo sentado nu na beira da cama e estou à espera do que se segue. E o que é que se segue?
O que é que vai acontecer na cena seguinte?
O que é que me espera?
O que é que a vida tem guardado para mim?
O que é que um tipo nu sentado à beira da cama, gelado de pés e corpo, pode esperar da vida?
São quatro e meia da manhã e não sei o que é que hei-de fazer.

[escrito directamente no facebook em 2018/04/16]