Naquele Tempo Não Havia…

Andava à procura da razão e abri a Crítica de Kant. Há quanto tempo não pegava naquele pequeno volume? Caiu uma fotografia. Caiu ao chão. Vi-a à distância do meu mais que um metro e oitenta. Reconheci-a. A fotografia. Já tinha uns anos. Uns valentes anos. Era uma fotografia a preto e branco.
Naquele tempo não havia fotografias a cores.
Baixei-me e apanhei a fotografia. Sim, reconhecia-a. Reconhecia-me. Eu e ela. Eu e ela numa mesa de restaurante. Eu tinha a carta na mão e lia a ementa. Ela olhava para o fotógrafo. Eu ainda tinha cabelo. Bastante cabelo. Ela ainda tinha vida e sorria.
Naquele tempo havia fotógrafos nos restaurantes.
Ela olhava para a câmara do fotógrafo quando o fotógrafo disparou. Depois o fotógrafo disse No fim do jantar a fotografia estará revelada. E estava. E trouxemo-la connosco, para casa.
Não me lembro como é que foi parar dentro da Crítica da Razão Pura.
Lembro-me que depois do fotógrafo tirar a fotografia ela virou-se para mim e perguntou-me És feliz? E eu ouvi a pergunta e senti a pergunta entrar por mim dentro a semear questões e procurar respostas.
Se eu era feliz?
O que era a felicidade? Se fosse acertar no Euromilhões em dia de acumulado gordo, não, provavelmente não era uma pessoa feliz.
Se fosse poder fazer o que gostava de fazer, talvez fosse mais-ou-menos feliz. Se fosse levar uma vida sem preocupações financeiras e ter uma saúde de ferro e um emprego compensador financeira e filosoficamente falando, não, se calhar não era uma pessoa feliz. Se me sentia amado e amante, se gostava de mim e do que era, mesmo que às vezes não fosse grande merda, talvez fosse um bocadinho feliz. Sim, talvez fosse um bocadinho feliz.
Naquele tempo não havia ninguém que fosse muito feliz.
Onde estava a comparação? Se eu era feliz comparado com quê? Com quem? Se me comparasse com o meu vizinho do lado, vítima de doença ruim que o consumiu durante anos antes que, finalmente, pudesse morrer, sim, sentia-me uma pessoa quase feliz. Se me comparasse com a vizinha de baixo que tinha acabado de ter gémeos e recuperou logo a boa forma física de um corpo que era extremamente desejável, não, se calhar, e olhando para a barriga que já tombava sobre a cintura das calças e obrigava os botões da camisa a ficarem em tensão, se calhar não, não era feliz.
Naquele tempo, se não se pensasse muito, talvez se fosse um bocadinho feliz.
Na verdade lembro-me de não saber exactamente que resposta dar.
O fotógrafo já nos tinha deixado para podermos usufruir, descansados, de um jantar a dois.
Naquele tempo não se jantava muitas vezes fora.
Não havia muitas oportunidades para se jantar fora. Era caro jantar fora de casa. Não só nós os dois. Quase toda a gente. Quase toda a gente almoçava e jantava em casa. Era muito mais barato. Às vezes levava-se o almoço para o trabalho numa marmita. Os jantares fora de casa eram só em dias de festa. Uma comemoração. Um aniversário. Uma promessa.
Naquele tempo não havia Dia dos Namorados.
Também não haviam assim tantos restaurantes como há agora que parece que nascem debaixo das pedras da calçada e há restaurantes para tudo, temáticos, típicos de países, tipos de comida, de comer em pé ou sentado, em cadeiras ou no chão, lights, gourmet, paleo, sem glúten, só peixe, só carne maturada, eu sei lá. Hoje há restaurantes que não acabam mais e para todo o tipo de carteira.
Naquele tempo não havia muita coisa.
As pessoas iam de vez em quando ao cinema. De vez em quando ao teatro. De vez em quando ao futebol. De vez em quando ao baile. De vez em quando a uma boîte. Passeava-se pelos jardins da cidade de mãos-dadas. Nas margens do rio. Comíamos pevides ao longo do rio, em passeio.
Naquele tempo não havia muitas distracções.
Ao olhar agora para a fotografia lembro-me de estar a ler a carta, ter esbarrado no Magret de Pato, ter olhado para ela e ter dito Sim, sou feliz, e de ela ter sorrido, um sorriso sincero e franco, um sorriso que vi esboçar muitas vezes enquanto viveu ao meu lado. Lembro-me do último sorriso que me ofereceu, momentos antes de parar de respirar pela última vez.
Sim, era feliz.
Como é que esta fotografia veio parar dentro da Crítica da Razão Pura? E porque raio andava eu à procura de razão?

A Boneca Insuflável

Comprei uma boneca insuflável. Não era para ter sexo. Era só mesmo pela companhia.
Tento não ligar muito ao que vejo nas redes sociais e nos programas vespertinos de televisão onde ancoro tantas vezes depois de almoço entre o café expresso que deixo arrefecer por esquecimento e um trabalho de merda que não consigo desengatar. Sentado no sofá, às vezes sentado à mesa frente ao computador ligado e uma folha do Word em branco à espera que os dedos descortinem letras que, em conjunto e sequencialmente me resolvam o problema de coisas para dizer que não saem nem à lei da bala, olho para os programas feitos a pensar em donas-de-casa e velhos sem amigos com quem jogar à sueca, sinto que estou nos dois grupos, e tento inspirar-me sabendo, desde logo, que nunca há ali realmente nada para mim.
Mas insisto.
Neste últimos dias tenho levado com uma massiva campanha comercial do Dia dos Namorados. Quem não tem namorado namorada mulher esposo consorte amante amigo-colorido é um pária que não merece viver debaixo do mesmo céu azul-brilhante que todas aquelas pessoas belas e bonitas inteligentes e bem-parecidas, frequentadoras de ginásios e atletas de jogging diário, de manhã preferencialmente, antes de ir trabalhar para aparecerem no estúdio bem tonificadas, e sexualmente bem resolvidas na vida, que me querem enfiar opiniões pela goela abaixo. Eu tenho trocado todas essas escolhas atléticas por garrafas de vinho tinto e cigarros sem filtro que me fazem a voz sexy mas sem companhia matinal para a apreciar. Mas tanto os ouvi falar que deixei que me enfiassem o enorme prazer da companhia que quer um só dia no ano para se fazer existir que, derrotado, acabei por me deixar entrar na onda, dei por mim ansioso por não ter namorada, cocei os braços como um caruncho à espera da próxima dose e a tentar descobrir onde ir buscar o papel para o cavalo, que peguei no carro, desci à cidade, a cidade de Leiria, ali mesmo em baixo, entrei numa sex-shop e comprei uma boneca insuflável. Ufa! Ao pagar percebi que convidar uma mulher de carne-e-osso, talvez mesmo daquelas que percorrem o Marachão, nas margens do Liz, para-trás-e-para-a-frente a olharem-me nos olhos, me teria saído mais em conta mas, ao mesmo tempo, pensei que, assim, não tinha de manter conversa e podia ser que esta relação durasse para além do dia 15 de Fevereiro ou, pelo menos, até se romper que, cá por casa, quando era mais novo, as bóias não duravam mais que a primeira semana de férias, e isto em anos bons.
Foi durante a noite que as coisas começaram a ficar mais esquisitas.
Para me habituar à companhia, e como ainda faltavam dois dias para o Dia dos Namorados, convidei-a a dormir comigo.
Na penumbra do quarto, iluminado por vezes pelos faróis dos carros que passavam no exterior e invadiam a minha privacidade, olhava para o lado esquerdo da cama e via uma boca aberta, parecia estar mesmo à minha espera.
O desejo é uma coisa muito esquisita. Esquisita e estranha. E mais estranha fica, à medida que lhe vamos dando lastro.
Malditos programas vespertinos de televisão. Maldito Dia dos Namorados.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/12]

São Valentim

Conheço-o desde sempre. Toda a minha vida ele andou por aqui. Aliás, já por cá andava quando nasci. Ele já andava na rua aos pontapés na bola quando eu dei o primeiro berro pendurado pelos pés nas mão ásperas da parteira.
Ele era o filho da porteira. Foi o meu primeiro amigo. Eu descia as escadas do prédio e ia para casa dele. O quarto dele era um mundo de bizarrias. Cheio de tralha. Tudo a que pudesse deitar a mão e que sugerisse retorno. Nem que fosse no futuro. A primeira colecção de latas de bebidas que vi na vida, foi em cima do guarda-fatos do quarto dele, em exposição. Até tinha algumas de Espanha. E de França. Eram latas que os primos, emigrados, lhes traziam nas férias.
Foi com ele que fumei o primeiro cigarro. O primeiro charro.
Foi com ele que aprendi os primeiros rudimentos do sexo. Ele era mais velho. Mais sabido. Já tinha ido com umas miúdas. Até já tinha um pequeno bigode (um pequeno bigode?! uma penugem!) quando, uma vez, me disse O que elas gostam é disto!, e apalpou o próprio sexo, por cima das calças de ganga apertadas e com remendos entre-pernas.
Eu saí dali. Da casa dos meus pais. Da cidade. Cresci. Fui estudar para outra cidade. Uma cidade maior. Deixei de vir a casa tantas vezes. Foi um processo gradual. E, aos poucos, acabei por me afastar.
A morte dos meus pais trouxe-me de volta. Cansei-me da cidade grande. Voltei à cidade pequena. Ocupei a casa dos meus pais. Agora minha. Minha e da minha mulher. E da minha filha. Sim, casei, tive uma bela menina que, graças a Deus, sai à mãe, e regressei à casa onde nasci.
Ele continuava lá. Na casa da porteira. Agora era a casa do porteiro. A mãe já tinha falecida há uns anos. Ele ficou com o lugar que era da mãe. Agora era ele que cuidava das casas. Do prédio. De nós.
A primeira vez que o vi, quando regressei, apresentei-lhe a minha família. Mas tudo o que tinha tido com ele, tinha-se esvaído. Já não o conhecia. Não sabia o que conversar com ele.
Agora, quando me cruzava com ele nas escadas, era Olá! Bom-dia! Boa-noite! Até logo! e encerrava ali o assunto. Às vezes percebia que ele queria encetar alguma espécie de conversa cúmplice. Mas a cumplicidade já não existia. Já não existia nada entre nós. O tempo tinha tratado de a assassinar.
A verdade é que me incomodava cruzar com ele nas escadas. Ou no pequeno jardim de entrada do prédio, onde ele estava quase sempre a tratar de qualquer coisa. E sim, aquele pequeno jardim era uma preciosidade dele, mas que elevava o nosso prédio, no contexto dos prédios cinzentos daquela rua cinzenta, a outro nível. Dava prazer chegar a casa. Mas o facto de ter que lhe dirigir uma palavra, como se o conhecesse, e conhecia, de facto, deixava-me um pouco deprimido.
Hoje, quando cheguei a casa, voltei a cruzar-me com ele nas escadas. Parecia que, às vezes, me fazia uma espera. Agora estava a arranjar uma caixa do correio. Eu entrei no prédio. Levava um ramo de flores na mão. Um ramo com treze rosas vermelhas. Uma por cada ano da relação que tinha com a minha mulher. E ele viu-me chegar com o ramo de rosas e largou um rasgado sorriso e disse Dia dos Namorados, hein? e eu anui.
Preparava-me para pôr o pé no primeiro degrau, para subir as escadas e ir para casa quando ele me colocou a mão no braço e me fez parar. Chegou-se ao pé de mim, com a boca próxima do meu ouvido e disse Eu cá é mais putas e vinho verde! e fez um pequeno sorriso.
Eu não me manifestei. Ou acenei levemente a cabeça, já não me recordo, e foi aí que ele começou Nunca tive sorte com as mulheres, sabes? A maior parte das que tive, foi a pagar. E isto, hoje, está difícil. Ser porteiro não dá muito. Não dá nada! Dá para ir vivendo, assim, aos poucos de cada vez. Uma vez ou outra vou à bola. Em Maio vou à feira. Mas não tenho férias. Também, para onde é que ia? Sozinho?
Ele já tinha largado o meu braço. Mas eu não conseguia ir embora. Queria ir. Mas não podia. Não podia deixá-lo ali sozinho. A necessidade de falar. De contar algo. Algo que eu não queria ouvir. Mas tinha de ouvir. Tinha de lhe dar tempo. Um pouco do meu tempo. Em nome do passado. Afinal, tínhamos sido amigos.
Disse Putas e vinho verde? Mais o YouPorn e uma garrafa de Seven-Up. A vida está complicada, pá…
Senti-o ficar mais pequeno. Os ombros descaíram para a frente. O pescoço enterrou-se pelo corpo. Os olhos encovaram num buraco negro. De repente descobri-lhe o cabelo grisalho. A barba rala, com peladas, e muitos pêlos brancos. Vi as mãos a tremer.
Baixei a mão com que agarrava o ramo de flores. Aproximei-me dele. Dei-lhe um abraço. Dei-lhe um abraço sentido. Éramos crianças e estávamos na rua a brincar. Eu e ele. À bola. Com os carrinhos de rolamentos com que caí e esfacelei os joelhos. Aos índios, com arcos e flechas feitos de varetas de chapéus-de-chuva velhos e com o qual lhe ia vazando um olho. Felizmente não aconteceu nada.
E disse-lhe baixinho Estou aqui! Se precisares de alguma coisa, estou aqui, pá.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/14]