Não Tenho Medo de Morrer

Não tenho medo de morrer.
Tenho medo da doença, da deficiência, da incapacidade. Tenho medo da consciência da morte. Tenho medo de ficar ainda mais dependente, do que já sou, dos outros.
Não tenho medo de morrer.
Tenho medo do medo das pessoas que me são queridas. Tenho medo de filho e de pai. Tenho medo de amante e de amado. Tenho medo de amigos, alguns, os que trago aqui no peito, os que não são sangue mas são alma.
Mas não tenho medo de morrer.
A minha vida já vai longa. Acho que vivi uma boa vida. Pode não ter sido a melhor das vidas, mas foi a vida que consegui viver da forma que quis e me foi possível. E tenho gostado da vida que fui vivendo. Se pudesse voltar atrás acho que poderia repetir quase tudo. Quase tudo. E quase tudo diz muito sobre a vida que vivi.
Por isso não tenho medo de morrer.
O que se está a passar agora no mundo assusta-me, mas não me faz temer a morte. Faz-me ter medo pelos outros, os que ainda têm tanto para viver, os que ainda não puderam viver o que eu já vivi. Os que ainda acalentam planos para o futuro e têm esperança.
Eu não tenho medo de morrer.
Tenho mais medo dos caminhos que escolhemos e que nos trouxeram até aqui. Não todos os caminhos, mas muitos deles. Alguns caminhos que fomos percorrendo nestes últimos tempos são caminhos de cabras em direcção a sítio nenhum que não o lucro pessoal de meia-dúzia de gente egoísta.
Temo pela falta de memória e desconhecimento da História. Temo pela verdade escondida e pela mentira gritada alto para se fazer ouvir como a única verdade. Temo pela mentirosa falta de alternativas. Temo pela falta de líderes capazes e pela glorificação de bestas inúteis e mesquinhas. Temo pela ignorância geral. Pela falta de lucidez. Pelo não querer saber. Pelo fechar de olhos.
Eu não tenho medo de morrer.
Acho que está na hora de mudarmos de vida. Chegámos do nada a isto. Ainda temos de ir de isto ao futuro. A História não chegou ao fim e este neo-liberalismo canibal não pode ser, não é, o único caminho. O Homem tem de ser o centro da vida, como o está, parece, a ser agora. Ou quase.
O que a vida me ensinou é que há sempre alternativa. Há sempre outro caminho. Mesmo quando achamos que não. Mesmo quando todos nos gritam que não existe. Porque existe. E a História tem demonstrado que há sempre outra escolha.
Eu vejo-os já a fazer contas. E estarão certas as contas, com toda a certeza. Eles são economistas, gestores, matemáticos, professores. As contas estão certas. Nem ponho em causa os seus resultados. Os elementos da equação é que talvez sejam os errados. Os elementos da equação é que talvez sejam outros. Talvez devam ser outros.
Penso sempre numa prova de 100m, cujo recorde está constantemente a ser quebrado nos Jogos Olímpicos ou em cada novo campeonato do mundo. É a superação pessoal e humana de corrida para corrida. E imagino que mantendo esta progressão de quebra de recordes, chegaria o dia em que o atleta cruzaria a meta no momento da partida. Ora, isso não é possível. Há um espaço a percorrer que não admite a ausência do tempo. O mesmo se passa com o capitalismo como o conhecemos. É uma bizarria pensar que haverá sempre um crescimento constante. Há-de chegar uma altura em que o crescimento não é mais possível porque se chegou ao limite do espaço-tempo como na prova de 100m.
Para que se encontrem novos caminhos é necessário mudar os elementos da equação. Se calhar o Homem, e não o dinheiro ou o trabalho, tem de passar a estar no centro da economia. Um Homem vale muito mais que todo o trabalho físico que conseguir produzir. Porque um Homem também é muito mais que os braços e as pernas e os turnos numa fábrica a fazer rolhas. Contar estórias ajuda a prevenir o caos, a afastar a loucura. Olhem à volta. Olhem o que está a acontecer. Reparem na importância das coisas. Vejam o valor de uma simples carcaça feita nestas condições, por quem a faz, e o que é necessário ultrapassar para a adquirir. Reparem na importância da música, do cinema, da literatura, nestes dias que correm mais devagar. Reparem na importância que, neste momento, se descobriu na calma, no lazer, no tempo. Reparem na relevância de médicos, enfermeiros, cientistas, motoristas, padeiros, merceeiros… Qual a contabilização destes factores numa equação?
Ao ver o que se passa hoje no mundo, tenho esperança que as coisas mudem. Porque no meio do caos e do terror que estamos a viver, há um humanismo e uma civilidade de que duvidava.
Claro que há bolsas de gente má, gente malformada, gente mesquinha e gananciosa, gente boçal que continua a querer colocar o pé em cima da cabeça alheia para chegar mais alto que os outros. Mas os bons, os de coração puro, os bem-intencionados e amigos dos amigos e de gente que nunca viu em lado nenhum estão em franca maioria. Não sei se é o medo da morte. Não sei se é o medo da perda de um modo de vida. Mas há vida nestes dias e nestas gentes.
Eu não tenho medo de morrer.
E estou num grupo de risco. Tenho problemas respiratórios e já estou a entrar na idade da velhice. Se for infectado pelo Covid-19, há fortes possibilidades de não conseguir sobreviver. Mas não tenho medo de morrer. Tenho pena de deixar a ausência aos meus amores. Tenho pena de deixar a solidão a quem me ama. Mas fico descansado porque acho que, talvez, talvez alguém tenha aprendido alguma coisa com estes dias e a nossa civilização possa arrepiar caminho e criar um novo paradigma mais de acordo com as esperanças da maioria. Talvez.
Eu não tenho medo de morrer. E se tal acontecer, vou de coração cheio pelo que tenho visto nos últimos dias. Dias de morte, mas também dias de enorme coragem e humanismo.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/19]

O Silêncio do Amor

Já quase não falamos. Às vezes ouço-me grunhir qualquer concordância. Ela nem isso. Não é que não gostemos de estar um com o outro, que gostamos. Gostamos e muito. Ela foi o meu primeiro amor. Eu também acho que fui o primeiro amor dela. Mas ela nunca me disse e eu também nunca lhe perguntei.
Estamos juntos há tanto tempo que, por vezes, funcionamos como um só. Como se eu começasse a desenvolver uma ideia e ela a acabasse, mas a acabasse da mesma forma que eu acabaria. E vice-versa.
De manhã andamos por casa. Ela arruma coisas. Tem sempre coisas para arrumar, coisas que nunca imaginei desarrumadas, mas que ela vai arrumar. Para as coisas mais pesadas, limpar o pó, aspirar, passar a ferro, vem cá uma miúda a casa. É uma bielorrussa. Inteligente. Com estudos superiores mas, isto, isto de andar a tratar da casa de pessoas, foi o que conseguiu arranjar.
Enquanto ela ciranda pela casa a arrumar coisas, eu arquivo os recortes dos jornais que cortei na véspera. Pequenas histórias. Algumas opiniões. Memórias futuras. Depois vejo que filmes vão passar na televisão para eventualmente vermos, ou eventualmente eu ver e ela deixar-se adormecer logo no genérico inicial. Já era assim quando era nova, com a idade só apurou esta sua capacidade.
De manhã bebemos uma chávena de chá. Camomila. Tília. Ou outras tisanas que por vezes nos oferecem. Eu como um biscoito. Ou um bocado de pão torrado, mas não muito torrado por causa dos dentes. Ela costuma comer uns cereais. Eu nunca consegui gostar de cereais.
Depois ela vai lavar-se. A seguir lavo-me eu. Ela, entretanto, prepara o almoço. É a nossa refeição principal. Às vezes aproveitamos restos dos dias anteriores. Comemos pouco. Há sempre sobras. Comemos muito frango. Frango assado. Frango guisado. Frango cozido. Canja de galinha feita com frango. O frango é o mais barato. E gostamos de frango. Gostamos os dois de frango. Às vezes também comemos cavala. Também é barato. Eu não gosto muito mas ela tem o cuidado de fazer a cavala de mil-e-uma maneira de forma a que me seja mais agradável.
Chega o almoço. Almoçamos. Almoçamos em silêncio na cozinha. Por vezes olhamos para a rua através da janela. Por vezes ligamos uma velha televisão a preto e branco que temos na cozinha para ouvir as notícias. Mas já não temos grande interesse nas notícias. Depois levantamos os dois a mesa. Ela passa a louça por água e eu ponho-a na máquina. Fico com dores nas costas. Tenho de me esticar. Em seguida vamos à rua.
Até sairmos de casa ainda não falámos uma palavra. Passámos a manhã em silêncio. Sem música. A ouvir os passos lentos de um e outro a cirandar pela casa.
Na rua caminhamos devagar. Tentamos não cair. Uma queda, nesta idade, pode ser fatal. Caminhamos devagar. Vamos ao café. Eu bebo um descafeinado. Ela bebe um carioca de café. Estamos por ali um pouco. Às vezes chegam alguns conhecidos. Alguns amigos do passado, velhos como nós. Às vezes chegam os filhos desses amigos. Às vezes os netos. Um cumprimento breve. Um sorriso. Passa rápido. E voltamos ao nosso rame-rame. Às vezes os velhos ficam por ali também um bocado. Nessa altura alguém fala. Alguém fala um pouco. Não muito. Mas já é uma conversa. Às vezes pedaços de conversa. Conversas iniciadas no dia anterior, na semana passada, há muitos anos a caminho de uma discoteca, de um festival de Verão, de um jogo de futebol. Sim, também já tivemos uma vida como a de toda a gente. Também fomos a sítios. Também vimos coisas. Também lutámos por melhores condições. Também fizemos sexo. Fizemos. Agora sorrio à ideia de sexo.
Folheio os jornais do dia. Às vezes peço para rasgar uma folha quando a notícia me interessa e levo a folha para arquivar no dia seguinte. Olhamos as pessoas que passam. Os miúdos cheios de vida. As miúdas muito bonitas. Todos com muito cabelo revolto.
O tempo começa a arrefecer. Compramos pão e voltamos para casa. Ela deita-se um pouco sobre a cama. Eu coloco-lhe uma mantinha por cima. Às vezes adormece. Eu sento-me no sofá da sala. Ligo a televisão e, normalmente, deixo-me adormecer.
Depois jantamos qualquer coisa leve. Uma sopa. Uma torrada. Uma peça de fruta. Depois vemos um filme. Ela adormece no genérico inicial. Por vezes lá consegue ver um filme do início ao fim. Se for um filme com acção. Ou uma história de amor.
No fim do filme vamos para a cama. Vestimos os pijamas. Passamos pela casa-de-banho. Lavamos os dentes. Ela penteia-se. Eu não tenho nada para pentear. Tomamos os comprimidos que temos para tomar. Ela deita-se. Eu dou uma volta pela casa. Para ver se está tudo desligado, fechado, trancado, e quando regresso ao quarto, para me deitar ao lado dela, já ela está a dormir. Mas mal me sente deitar ao lado dela, vira-se e abraça-me. O abraço não vai durar muito tempo porque depois terá de se virar para o outro lado, e dormimos de costas um para outro porque é a melhor maneira de conseguirmos dormir. Mas aquele primeiro momento, já adormecida, em que me abraça, já vem desde o início dos tempos. E nunca não aconteceu. E eu gosto. Gosto que ela me abrace por aqueles dois ou três minutos antes de ser virar para o outro lado.
Chegámos ao fim do dia. De mais um dia. Poucas palavras trocámos um com o outro, mas não foi preciso. Já falámos sobre tudo o que tínhamos para falar. Já discutimos tudo o que tínhamos para discutir. Já sabemos o que o outro pensa. Mas só estamos bem assim. Um com outro. Um a caminhar ao lado do outro. Um a almoçar ao lado do outro. Um deitado ao lado do outro, mesmo que de costas voltadas.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/14]

Dia de Eleições

É dia de eleições.
Acordo ainda de noite. Acordo com o cantar do galo. É madrugada escura. Levanto-me e ponho café a fazer. Enquanto o cheiro a café fresco inunda a cozinha, vejo, pela janela, os contornos das montanhas que o sol, do outro lado, começa a fazer clarear.
Tenho tempo e opto por um banho de imersão. Há quanto tempo não o faço?
Enquanto encho a banheira de água quente, faço a barba. Quando me olho ao espelho não me reconheço. Rapei a barba. Desde os dezoito anos que trazia sempre uma pequena penugem. Hoje foi tudo abaixo. Pareço mais novo. Sinto-me mais feio. Não me pareço. Quem sou eu?
Entro na banheira. A água está quente, mas insisto. Entro aos poucos. Devagar. Vejo as pernas a ficarem encarnadas. Grito quando os testículos se queimam. Tenho comichão no rabo. Coço. Mas deixo-me ir. Finalmente estou deitado na banheira, coberto de água quente, e sinto-me bem. Sinto-me confortável. Descontraio. Fecho os olhos. Adormeço.
Acordo com frio. É já de dia. Deixei-me adormecer. A água na banheira está fria. Abro o ralo e deixo-a escorrer. Ligo o duche e tomo um banho rápido de água quente.
Seco-me. Visto uns boxers e uma camisola de alças e vou beber café. Está frio. Aqueço-o no micro-ondas. Torro uma fatia de pão saloio. Barro-lhe manteiga. Como e bebo.
Penso no que vestir. E decido pelo fato. Há anos que não o visto. Comprei-o para um casamento. Os noivos já se divorciaram e eu nunca mais vesti o fato. Mas vou vesti-lo hoje. Agora. Primeiro passo pela casa-de-banho e lavo os dentes.
Ponho uma camisa branca sobre a camisola de alças. Visto as calças. Ponho o cinto de cabedal. Calço os sapatos também de cabedal. Ainda me servem. Mas sinto os pés apertados. Ponho gravata. Casaco. Relógio no pulso. Carteira com os documentos e vinte euros no bolso das calças. Coloco os óculos escuros e saio de casa. Acendo um cigarro.
Está sol. Calor. Mas tenho de ir a pé. Desço o quintal. Viro à esquerda e faço a estrada até ao centro da aldeia. Entro no café. Peço uma Aldeia Velha. Viro-a de um trago. Largo uma moeda no balcão. Saio e dirijo-me à escola primária. Agora chama-se primeiro ciclo. O que importa são os nomes. Também tenho o meu. E preciso dele para descobrir onde votar. Não há muito por onde procurar. Três mesas de voto.
Entro na sala. Dou o cartão de cidadão. Dizem alto o meu nome e sinto alguma vergonha. Baixo os olhos para o chão. Quero passar despercebido. Mas sinto que errei ao vestir o fato. Sou o único de fato a votar. Coloco a cruz no sítio que me parece o certo. Sinto-me livre no meu dever que também é o meu direito. Dobro-o duas vezes. Coloco-o na urna.
Saio da sala. Acendo outro cigarro. Está calor. Sinto umas gotas de transpiração a cair pelas têmporas. A gravata enforca-me.
Vejo as horas. Meio-dia. Olho a carteira. Descubro os vinte euros. Decido ir almoçar um bitoque ao snack-bar. Um bitoque e uma imperial. Um pão para molhar no ovo a cavalo. O bife do bitoque será fino e rijo. Irei deslocar o pulso ao tentar cortar o bife. Irei partir um dente ao trincar um bocado de gordura. Irei deixar cair um pingo de cerveja na camisa branca e um bocado de amarelo do ovo sobre a gravata. Irei pensar no motivo de nunca usar gravatas. Irei beber um café queimado. Uma aguardente manhosa que me irá fazer azia. E irei pensar que teria feito melhor ter ido para casa, fritado umas salsichas, torrado um pão de véspera e comido um cachorro com mostarda, acompanhado pelo vinho tinto da cooperativa e bebido o café da avó feito de manhãzinha.
Coloco as mãos nos bolsos. E vou até ao snack-bar. Está a apetecer-me um bitoque, por mais ranhoso que seja. Com um pouco de sorte há azeitonas de entrada. E dias não são dias. E hoje é dia de eleições.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/06]

O Móvel

Levei o móvel velho para junto dos caixotes de lixo. Esperava que os tipos da recolha o conseguissem levar. Talvez lhes desse jeito. Talvez servisse a alguém, agora que já não me serve a mim.
O móvel era dela. Ela foi embora. O móvel também.
Vejo o móvel cá de cima, da janela da sala. Gostava do móvel. Mas não o quero cá em casa.
Começou a chover. Uma chuva miudinha. O tempo escureceu de repente. Acho que a chuva virá aí com mais força. É pena o móvel estar lá em baixo, à chuva. Vai estragar-se. Mas não o vou buscar. Já o tirei de casa. Já não volta para cá.
Um homem aproxima-se do lixo. Olha para dentro dos caixotes. Tira um saco de plástico do bolso das calças e começa a enchê-lo com coisas que encontra dentro dos caixotes do lixo. Restos de comida, provavelmente.
Reparou no móvel. Abre as gavetas. Experimenta o peso. Acende um cigarro. Anda ali à volta do móvel. Está a apreciar. A avaliar. Tenta levantar o móvel. Tenta levantar o móvel com o cigarro a fumegar ao canto da boca. Não é pesado, deve ter pensado. Vai levá-lo.
Ficava contente se ele levasse o móvel. Gostava de saber que o móvel servia a alguém.
Vejo-o tirar mais sacos de plástico dos bolsos das calças. Com os sacos de plástico, prende as gavetas, umas às outras, através do puxadores. Depois dá mais umas voltas em torno do móvel.
O homem tira uma maçã do saco de plástico. Limpa-a à manga da camisa. Trinca-a. Senta-se no lancil do passeio a comer a maçã e a olhar para o móvel.
Eu acabo o cigarro. Vou à cozinha. Apago a beata na água da torneira do lava-loiças e mando-a para o lixo. Coço a cabeça. Sinto-me cansado. Começa a doer-me um dente. Apetecia-me ir ao cinema. Mas está a chover. Não vou sair de casa. Que importa o cinema? Vejo a novela na SIC. Passa-se na Nazaré. Talvez se veja o McNamara a surfar na Praia do Norte.
Tomo um Clonix. Tento parar a dor de dentes que se começa a fazer sentir demasiado.
Vou à despensa. Procuro vinho. O que há? Um Prado. O que é isto? Dão. Como é que veio aqui parar um Dão? Não gosto de me afastar do Alentejo, mas não sou esquisito. Venha o Prado.
Abro a garrafa. Sirvo um copo. Volto para a janela. O homem ainda anda lá em baixo. Está de volta das caixas de cartão. Encontra uma caixa grande. Desfaz a caixa. Abre o cartão, na sua totalidade, no chão. Puxa o móvel para cima do cartão. Faz um buraco no cartão. Enfia lá a mão e começa a puxar o cartão, com o móvel lá em cima, pela estrada fora. Vai devagar para que o móvel não saia do cartão. Sorrio.
Ainda bem que o móvel serve a alguém. Fico contente por ter contribuído.
Agora começa a chover com mais força. Coitado do homem.
Mas quando chegar a casa e mostrar o móvel à mulher, vai ter direito a festa. Sinto-me quase como uma alcoviteira.
Ainda não é noite mas o céu está bastante escuro. Acho que a chuva ainda vai piorar mais. Acho que vem aí um temporal. Espero que o homem chegue depressa e bem a casa.
Também me apetecia festa. Mas não consigo ser alcoviteira de mim mesmo. É pena. Uma festa ia bem. Ainda me dói o dente. Vou beber mais um copo de vinho Prado. Não é alentejano mas, não se pode ter tudo.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/21]

Vinho & Cigarros

Acabei com o Murganheira Tinto 2017 que alguém deixou cá por casa não sei quando. Tirei a rolha de borracha, cheirei-o, não me cheirou grande coisa, mas não estava azedo e ainda deu três copos não muito cheios.
Este vinho, li na garrafa, é um DOP Távora-Varosa. Não sei onde fica esta região. Talvez lá para o norte. Talvez perto do Douro. Perto do Dão. Mas não sei. Ponho-me a adivinhar.
Bebi os três copos que ainda restavam na companhia de três cigarros. O casamento perfeito. Um cigarro por copo. Mas tive de beber devagar. Para o cigarro não ficar sozinho. Ainda espreitei um resto de queijo que também tinha ficado por aqui. Comecei a tirar o bolor e acabou por não ficar nada do queijo. Tive de lavar as mãos com detergente da louça para tirar o cheiro a bolor que ficou entranhado nas mãos.
Fui para a janela beber e fumar. Fui para a janela olhar para a rua. A rua estava cheia de gente a pé. Muitas crianças com mochilas às costas. A escola já deve ter começado. Muitas crianças com as mães. De mãos dadas com as mães a caminhar pelos passeios paralelos à estrada por onde passam tantos camiões. Às vezes os camiões passam por ai a grande velocidade, como se a rua não fosse uma rua mas uma estrada. As mães e as crianças a entrar e a sair das lojas. Loja de roupa para crianças. Papelaria. Loja de chineses. Há muita gente a comprar material escolar nos chineses. Que importa que o material seja mau? Que importa que tudo aquilo provoque comichão nas mãos e pieira nos pulmões? Que importa que sejam crianças, que deviam também estar na escola, a fazer baixar os preços pela sua força de trabalho barata? É mais barata, ponto. As pessoas não têm dinheiro para tudo. É por isso que vou bebendo estes vinhos esquecidos cá por casa. Não há dinheiro para mais. Eu também preferia um Mouchão.
Via as mães a saírem pelas portas das lojas com as criancinhas pela mão. Vi uma a sair da mercearia com a criança a comer um sorvete, daqueles das máquinas, que ficam todos esticados para cima, como uma crista, e imaginei um camião cheio de coisas que nem sei o que são, a descontrolar-se e a passar por cima da mãe, da criancinha e do sorvete, deitar abaixo a parede da mercearia e destruir tudo até ser finalmente parado por uma parede-mestra, mais dura de roer e mais difícil de deitar abaixo. Imaginei o fogo que se seguia. Os feridos. Os mortos. A mãe e a criancinha esmagados contra a parede da mercearia. O gelado derretido no chão. A polícia a chegar. Os bombeiros, que tiveram de ser desviados do combate a um incêndio no Pinhal do Rei, aqui à volta da cidade, para tentar salvar algumas das vítimas desta decisão de não fazer os camiões passarem por fora da localidade.
Mas era tudo só um filme. A imaginação galopante por trás dos três copos de vinho tinto Murganheira de 2017.
Na realidade um tipo em cima de uma Lambreta tinha acabado de puxar a bolsa a uma mulher grávida, gravidíssima, com uma barriga enorme, que com o puxão acabou por cair no passeio e rebolar para a estrada no preciso momento em que passava um carro da polícia que fez uma travagem brusca, um dos agentes saiu do carro ainda em andamento para acudir à mulher, mas logo voltou a entrar no carro, confirmado que estava que a mulher sobreviveria, e depressa arrancou atrás da Lambreta que já tinha virado numa rua perpendicular lá mais à frente, com as sirenes a soprarem forte e as luzes azuis e vermelhas a girarem e a baterem nas paredes sujas dos prédio em redor, o meu incluído.
Depois vim para dentro de casa. Já não tinha vinho. Nem cigarros. Deixei aquelas pessoas seguirem com as suas vidas e eu imaginei o meu final. Só para mim. Mas não o vou contar. Pelo menos enquanto não tiver mais vinho e cigarros.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/12]

Gente Doida

Já estava há duas semanas a viver naquela casa perto da aldeia, a casa que um amigo me emprestou por uns tempos, tempos indefinidos, para eu escrever, esquecer mágoas e poupar o pouco dinheiro que me restava, quando eles bateram as palmas no portão ao fundo do quintal. A casa não tinha campainha. E eu não estava à espera de visitas então, não estava muito preocupado com a falta de sinalização para alguém que chegasse se pudesse fazer anunciar pois, com certeza, não seria para me visitar. Afinal, o casal bateu palmas, eram muito expeditos e sim, vinham visitar-me. Mais concretamente, vinham convidar-me para ir jantar a casa deles. Eu e a minha senhora Há uma senhora, não há?, perguntou ela sorridente. E eu disse que não. Era só eu. E era o suficiente para me chatear. Eles fizeram um sorriso amarelo. E ela continuou Os miúdos foram para um Festival de Verão, temos dois filhos, não é? um casalinho, nem sabemos já qual foi o Festival, há tantos, não é?, enquanto punha a mão sobre o meu braço, o marido a olhar, nós os três à entrada, no portão, que não os mandei subir até ao alpendre, e depois continuou E como somos vizinhos resolvemos vir dar-lhe as boas-vindas e convidá-lo para jantar. Amanhã. Não precisa de levar nada. Nem sobremesa. Nem o vinho. Basta aparecer.
Eu não estava com muita vontade de relacionamentos com a vizinhança. Também foi por isso que fui para ali, para aquele Ku de Judas, longe de tudo e de todos. Apetecia-me declinar o convite. Dizer não. Mas o olhar da mulher não mo deixou dizer. E acabei por murmurar Sim… assim, em suspenso, como se ao aceitar daquela forma tão sumida não me estivesse a comprometer. Mas estava. E sabia que estava.
E no dia seguinte, lá acabarei por descer o quintal até ao portão, fiz a estrada até casa deles, mais ou menos dois quilómetros, nos quais acabei por fumar quatro cigarros, numa média de um cigarro por cada quinhentos metros, e toquei à campainha. A casa deles tinha campainha. Apareceu um cão a ladrar ao ouvir a campainha. Não reconhecia a raça do cão. Mas não era daqueles muito amigáveis. O dono acabou por descer até à porta para agarrar na coleira do cão e fazer-me entrar.
Entrei.
Acabei por levar um saco de plástico com fisális que apanhei lá no quintal e que nascem assim, de natureza espontânea, aos molhos, mais do que lhes consigo dar andamento. Ela agradeceu. Disse que os ia juntar à salada. Colocou-me um copo de vinho branco nas mãos, deixou-me com o marido e voltou para dentro de casa.
Eu acabei por ficar no jardim com o marido. A beber um copo de vinho branco. Ele também. Também tinha um copo de vinho branco nas mãos. E conversámos. Ele conversou. Empregado bancário. Tinha ido para a delegação da aldeia nos anos noventa. Acabaram por comprar aquela casa ali. Tiveram os filhos. Dois. Um casalinho. Estavam num Festival de Verão qualquer. Ela dava aulas ao secundário. Geografia. Deixou de dar e dedicou-se ao fabrico de compotas que vendia na aldeia e pela internet. Gostavam da calma da aldeia. Às vezes sentiam falta de gente com quem conversar. Gente da mesma idade. Com os mesmo gostos. Entretanto o Banco resolveu encerrar a delegação da aldeia. Ele tinha de voltar para a cidade. Ao fim de vinte anos tinha de regressar à cidade. Ou pedia a reforma. Não sabia o que fazer. A mulher também não estava a ser de muita ajuda. Aliás as coisas entre eles já não eram as mesmas. Ele sentia-se cansado dela. Imaginava que ela também estivesse saturada dele. Foi por isso que me foram convidar para jantar. Para mudar rotinas. Fazer algo de diferente.
E eu senti-me estranho. Um estranho no meio de estranhos já com informação que não queria ter. Não queria saber nada daquilo. Não queria aquela intimidade. Não queria ser puxado para dentro de uma vida que não era a minha.
Mas já era tarde. Já estava ali. De copo na mão. De ouvidos abertos à lamúria alheia.
Bebemos aqueles copos. Bebemos mais dois. Ela juntou-se a nós. E depois fomos até ao alpendre onde estava a mesa de jantar.
Comemos um lombo assado no forno com alecrim. Um puré de maçã. Uma salada com rúcula, tomate, requeijão esfarelado e os fisális. E esvaziámos várias garrafas. Agora de vinho tinto.
Já tínhamos jantado. Estávamos os três um pouco alterados com o vinho. Lembro-me de me descobrir a falar muito depressa e muito alto. Não costumo ser assim. Tentei acalmar-me. E foi quando percebi que não era eu que estava alterado. Era ele. E ela. Quando percebi, estavam a discutir um com o outro. Não sei em que altura é que a conversa descambou para aquilo. Acho que se esqueceram de mim. Soltaram os seus problemas. Eu não conseguia seguir a conversa. Só o barulho que faziam. Acendi um cigarro. Voltei a encher o meu copo com o resto de uma garrafa que deixei cair ao chão, e não se partiu, e recostei-me na cadeira a olhar para eles e a pensar se não seria a altura de me ir embora, quando ele pegou no garfo, levantou a mão acima da cabeça e espetou-o com força na mão dela que estava pousada na mesa mesa.
Ela gritou. Eu dei um pulo na cadeira. Ele assustou-se com o próprio gesto. Largou o garfo espetado na mão dela. Começou a chorar. Levantou-se a chorar como um bebé. Ela só dizia asneiras. Maldizia a vida e a ele. Eu deixei cair o cigarro da boca para o chão. E ela disse Vai buscar a chave do carro, caralho! e ele foi. E ela levantou a mão com o garfo espetado e disse Foda-se! Eu reparei que o garfo não tinha espetado na mesa. Já não era mau. Podia ter sido pior. Podia ter preso a mão à mesa.
Ele chegou com a chave do carro. Ela virou-se para mim e disse Desculpa, mas temos de ir ao hospital. E saíram a correr do alpendre para o carro. Ele gritou Quando saíres fecha o portão para o cão não sair. Amanhã telefonamos. E vi o carro arrancar.
Eu acendi outro cigarro. Acabei o copo de vinho. Virei todas as outras garrafas e descobri que estavam todas vazias. Apanhei os fisális que ainda estavam na tigela da salada e comi-os. Voltei a acender outro cigarro e saí de casa deles. Fiz o caminho de regresso a casa devagar. A acender uns cigarros nos outros. A pensar. A pensar nem sei bem em quê. Com músicas dos anos oitenta a tocar na cabeça. Porquê? Porquê músicas dos anos oitenta?
Quando cheguei a casa, arranquei o cabo do telefone fixo da parede. Desliguei o meu telemóvel. Fui à cozinha buscar uma garrafa de vinho e sentei-me no alpendre a fumar outro cigarro. Estava a fumar muito. E de repente percebi o que estava na minha cabeça a fermentar a algum tempo. Era uma frase, uma ideia Esta gente é doida! E lembrei-me porque é que tinha largado a cidade e toda aquela gente que conhecia.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/01]

Pressa

Tinha pressa em sair de casa. Tenho sempre pressa. Ela estava à minha espera e estava ansiosa. Mas quanto mais depressa mais devagar. Olhei em volta e pensei que não conseguia sair e deixar a casa assim.
Comecei a correr. Fiz a cama. Na verdade puxei as orelhas ao edredão. Tirei a louça da máquina e arrumei-a. Pus lá dentro a louça suja que estava no lava-louça. Nem a passei por água. Aqueci, no micro-ondas, uns bocados de carne para o cão. Quando a fui levar, os gatos foram atrás de mim a queixarem-se que também queriam comer. Depois fui abrir duas latas de atum e fui dá-las aos gatos. Apanhei a roupa que estava no estendal. Larguei-a em cima da cama. Passei pela casa-de-banho para lavar os dentes e vi a toalha no chão. Apanhei a toalha. Tirei os cabelos do ralo. Lavei os dentes.
Saí de casa. Entrei no carro. Olhei-me no espelho retrovisor. Foda-se. Estava em tronco nu. Saí do carro. Voltei a casa. Reparei que estava no trinco. Porra! Vesti uma camisola. Saí. Fechei a porta à chave. Entrei no carro. Arranquei. Um sinal sonoro. O carro estava na reserva. Tinha de ir à Estação de Serviço. Fui. Agarrei na agulheta. Parei. Olhei para o depósito. Parei a tempo. Era gasolina. Queria gasóleo. Tinha de ter mais calma. Tinha de pensar no que estava a fazer. Mudei de agulheta.
Enchi o depósito. Paguei. Fui embora.
Entrei na auto-estrada. Voei pela estrada deserta. Quando saí, a máquina de pagamento electrónico acendeu a luz amarela. Devo ter algum problema com a Via Verde. Ou a conta sem dinheiro.
Cheguei a casa dela. Parei o carro. Fui até ao café. Ela estava lá sentada. Bebia uma meia-de-leite e uma torrada em pão de forma. Beijei-a. Perguntei-lhe Então? e ela respondeu-me A quadrilha está lá em cima, em casa. Querem roubar-me o ouro. Que ouro? perguntei. O que acham que eu tenho, respondeu.
Levantei-me e disse-lhe Vou lá acima. Ela olhou para mim assustada e disse-me Tem cuidado. Eu mostrei-lhe a mão no bolso das calças e disse-lhe Tenho aqui uma pistola. Vê lá o que fazes. Não te desgraces.
Eu saí do café. Subi a casa dela. Estava tudo tranquilo. Voltei a descer.
Então?, perguntou-me. E eu disse-lhe Já podes voltar para casa. Dei dois tiros para o ar e eles fugiram. Não ouviste os tiros? Ela olhou-me admirada e abanou a cabeça.
Depois pedi uma torrada para mim. E um sumo de laranja natural. Perguntei-lhe se ainda tinha Xanax. E Zolpidem. Disse-me que sim. Acenei com a cabeça.
O tempo estava bom e acabámos por ficar um bocado ali no café.
Mais tarde ela disse-me Vai-te embora que eu agora vou para casa descansar um bocado. Ela pagou o pequeno-almoço. O dela e o meu. Deu-me um beijo. Disse Obrigada por vires cá. E eu sorri.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/07]

A Vida Não Basta

Eu estava a ver-me. Eu estava a ver-me ali sentado, na poltrona baixa, atrás daquela pequena mesa aos meus pés, cheia de livros vários, muitos deles de poesia. E os tipos ao meu lado. O Manuel António Pina. O Afonso Cruz. O Luís Mourão. Eu via-me ali, no meio deles. No meio da conversa deles. O Manuel estava a falar. O Afonso replicava. O Luís sugeria. Eu tentava intervir, mas via-me a balbuciar qualquer coisa de inaudível. Gesticulava. Parecia um boneco daqueles articulados que, dantes, viajavam no vidros traseiros dos carros, assim, a abanar a cabeça, os braços, mas só pelo movimento do carro, não por vontade própria ou com sentido. Mas ninguém via. Ninguém me via. Só eu. Só mesmo eu é que me via ali no meio deles.
Eu estava lá, mas não estava lá. Já não estava lá.
E depois percebi.
Ainda tentei levantar a voz. Pus-me a gritar. Levantei-me da poltrona baixa para dizer ao Manuel como tinha comprado o meu primeiro livro dele por acaso. Por puro acaso. Como uma paixão à primeira vista. Sem saber quem ele era. Sem saber que o livro era dele. E que era tão bom. Oh, porra, se era maravilhoso! Queria dizer-lhe que tinha comprado aquele livro por ter como título o poema mais bonito que já tinha lido
Ainda Não É o Fim Nem o Princípio do Mundo
Calma
É Apenas um Pouco Tarde
Mas ele não me ouvia. Ninguém me ouvia. Nem eu próprio, a ver-me à distância, me conseguia ouvir.
E, então, vi.
Não fui eu que vi. Foi ele. Ele que era eu. Vi os olhos frios de réptil que me observavam do meio da plateia. Os olhos frios de réptil que não estavam a ligar à conversa do Manuel, do Afonso, do Luís. Não. Os olhos frios de réptil estavam cravados em mim. Assim, meio cerrados. Como se me focassem. Como uma faca espetada no coração. Empurrando a lâmina fria cada vez mais para dentro. Devagar. Muito devagar. Com tempo. Com prazer. A fazer doer. Como uma vingança. Como uma vingança que se consome tranquila. Com calma.
Os olhos frios de réptil levantaram-se da cadeira, no meio da plateia atenta ao debate. Uma garra empunhava um revólver apontado na minha direcção, e eu vi o projéctil sair disparado do cano de metal e percorrer brevemente o espaço que nos separava, num tempo presente que logo se tornou passado, e trespassar-me o corpo, bem no meio do coração, e eu vi uma mancha vermelho escuro, quase castanho, a alastrar vagarosa pela camisa clara, vincada de véspera para estar ali, engomada, ao pé deles, à frente de toda a gente, como uma cidade do SimCity original em expansão, comendo centímetros, metros, quilómetros de vida. Assim, aos poucos, mas imparável.
Eu vi-me a ir. E então, percebi.
Percebi porque ninguém me escutava. Porque ninguém me via. Só então percebi que era porque a vida, por si só, não bastava. Não me bastava.
Percebi que, às vezes, é preciso a morte para dar razão à vida.
Sintonizei os ouvidos. Pus-me à escuta. E ouvi
“Os tempos não vão bons para nós, os mortos…”

[escrito directamente no facebook em 2019/01/28]

Enquanto Ela Faz uma Panela de Sopa

Ela anda de um lado para o outro na cozinha a preparar uma sopa. Corta uns legumes. Batatas. Cenouras. Bocados de uma abóbora. A um canto da bancada, uma pequena televisão debita um qualquer programa da tarde que acompanha a espaços, enquanto vai colocando as coisas que preparou numa panela. Pega num copo de vinho branco e beberica um pouco. Olha para trás. Para mim. Sorri.
Eu estou aqui, também. Estou na cozinha. Estou sentado à mesa da cozinha e olho-a a preparar a sopa. Também tenho um copo de vinho branco. Mas bebo tudo de um trago. Volto a encher o copo. Sou eu que tenho a garrafa. E vou despejando-a à velocidade da luz.
Tenho um livro à frente. Tenho um livro sobre Charlotte Salomon à minha frente. Um livro sobre a vida e a arte de Charlotte Salomon. Para ler. Para ver. Para apreciar as suas pinturas. Mas não consigo. O livro mantem-se fechado. Aprecio o vai-e-vem dela enquanto prepara a sopa.
Pára por momentos em frente à televisão para ouvir melhor algo que lhe prendeu a atenção. Depois diz-me qualquer coisa. Se calhar relacionado com o que acabou de ouvir. Mas eu não ouço. Não consigo ouvir. Vejo-a. Vejo-a só. Vejo-a a falar para mim. E a continuar a cirandar na cozinha, de um lado para outro. A mexer em objectos que não conheço. Corta. Barra. Mistura. Despeja. Acende. Tritura. Separa. Lixo. Ufa.
Aproxima-se de mim e coloca-me à frente um prato com petiscos. Umas tostas barradas com queijo-creme, salmão fumado, cebolinho, limão.
A quantidade de coisas que consegue fazer ao mesmo tempo é assustadora. Eu não consigo fazer mais que olhar para ela.
Então, viro-me na mesa e deito o copo para o chão. Estilhaça-se. Estava vazio. Menos mal. Mas já ela vem com uma pá. Uma vassoura. Apanha os bocados de vidro. Depois traz uma esfregona e limpa o chão. Também não havia muito para limpar. Se não se fizesse nada, daqui a pouco estava seco. Mas ela limpa. Seca. E eu fico ali, fascinado, a vê-la pôr ordem no caos.
Já tenho outro copo à frente. Com vinho branco. Ele agarra o dela. Pede um brinde. Levanto o copo. Levantamos. Tocam um no outro. Ela bebe um golo. Eu volto a despejar o copo. Tenho de moderar a bebida.
Não estou embriagado. Tenho sede. E o vinho escorre pela garganta abaixo.
Volto a olhar para a Charlotte Salomon, ali à minha espera. À espera da minha atenção.
Ele tira-me o livro da frente. Põe a mesa. Dois pratos para sopa. Duas colheres. Um frasco de azeite. Umas azeitonas. Desliga o fogão. Acende um cigarro. Oferece-mo. Acende outro para ela. Pega-me na mão e leva-me para a varanda. Está frio. Um frio de rachar. Ela agarra-se a mim. Enfia-se debaixo do meu braço. Quer o meu calor. Fumamos os cigarros. Batemos o dente. Rimos da estupidez de estarmos ali ao frio. Acabamos de fumar. Deitamos as beatas fora. Voltamos para dentro de casa. Ela pega numa concha e coloca sopa nas duas taças. Põe-lhes umas azeitonas. Um fio de azeite.
Sentamos-nos em frente às malgas de sopa. Vimos o fumo a subir até ao tecto. Sopramos. Esperamos. Esperamos que arrefeça um pouco.
Eu vejo-a comer. Devagar. Devagarinho. Sopra. Arrefece.
E eu esqueço-me de comer a minha.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/07]

Abalroado por uma Iluminação de Natal

Eu ia ali na Mouzinho de Albuquerque, aquela rua que queria ser avenida mas não é, só tem um sentido, o de vir, o de entrar na cidade, nunca sai, tem duas faixas de rodagem mas uma é para estacionar com os quatro piscas ligados que Eu vou só ali, num instantinho!, está sempre com obras, com estaleiros que ocupam os passeios, pequenos, e obrigam os peões a galgar o asfalto, ora de um lado, ora do outro, ou uma das faixas de rodagem, o que afunila a entrada na cidade para quem vem dali, do norte, que tem meia-dúzia de lojas, umas que abrem-e-fecham, outra enorme, num edifício bonito que serve de armazém de chineses, uns comes-e-bebes, uma oficina de motorizadas, uma estação-de-serviço rodeada de casas, algumas de habitação, uma discoteca, mas afinal são duas, quase três, e outras coisas avulso, mas que tem direito a iluminação de Natal que, como toda a gente sabe, é quando um homem quiser e a mulher deixar! – tenho ouvido esta na TSF, diariamente, várias vezes ao dia, tanta vez que se torna obsessiva, chata e enfada que é normalmente o que me acontece com a publicidade antes dos noticiários da TSF, replicados até à exaustão, e que já me dão ressaca, estou tão farto de os ouvir que lhes comecei a ganhar algum ódio a esses produtos anunciados antes da hora-certa em que me preparo para ouvir as novidades do país e do mundo.
Então, eu ia ali na Mouzinho de Albuquerque, devagar, que é a única maneira possível de fazer aquelas faixas de rodagem que afinal é só uma, e há sempre carros a entrar na cidade e a tentar mudar de faixa porque lá à frente já só há uma e ninguém avisa nada, não há indicações, placas, anúncios, telegramas, telex ou o que seja, quando me caiu uma iluminação de Natal em cheio nos cornos. Nos cornos é uma maneira de dizer que eu não os tenho. Caiu em cima do carro, de mim e da minha sanidade. Partiu-me o vidro pára-brisas. Amolgou-me o capot. Fez-me guinar o volante para a esquerda. Galguei o passeio. Atropelei uma jovem mãe com carrinho de bebé (não aconteceu nada ao bebé!) e entrei pelo armazém do chinês dentro e ainda levei com o carro que vinha atrás e que se atrapalhou com o que viu e sentiu e acabou por seguir-me os passos, bater-me por trás e empurrar-me ainda mais para dentro do armazém .
Eu vinha devagar. Ali não se consegue vir depressa àquela hora, mesmo que quisesse. Vinha entre um carro e outro. A ouvir qualquer coisa na rádio. Talvez o Tubo de Ensaio. Talvez o Não Há Dinheiro mas Há Palhaço. Sim, vinha a dar atenção ao que estava a ouvir, mas vinha com atenção à estrada que a minha costela feminina é grande e eu sou multitasking. Vinha a tentar não desesperar com aquele pára-arranca que, numa cidade de pequena dimensão, é ainda mais desesperante, quando uma enorme placa de luz veio lá do céu, suspensa nos cabos de electricidade, e baloiçou à minha frente, como o Tarzan, trazendo atrelado um pedaço do muro do telhado que lhe servia de apoio mas que, afinal, não apoiava nada, estava moribundo, partiu-se e despenhou-se sobre a rua cheia de viaturas tendo acabado por escolher exactamente a minha para me deixar ainda com mais espírito natalício.
Parei o carro. Os outros carros pararam atrás do meu…
Já era Natal quando a polícia finalmente lá chegou. Chegou para fazer o relatório do acidente. Averiguar responsabilidades.
Já tinha passado o Ano Novo quando finalmente todos os carros conseguiram passar pela Rua Mouzinho de Albuquerque.
Foi já pelo Carnaval que finalmente consegui comer o Bolo-Rei que me tinham oferecido.
Felizmente, ninguém se magoou. Acho.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/26]