O Mundo a Fazer uma Barrela

Olhei para o céu e vi passar os aviões cheios de munições. Mais tarde haveria de os ver regressar bem mais leves, vazios de munições, depois de não-sei-quantos curdos mortos no norte da Síria.
Estava no alpendre. Sentei-me na cadeira. Acendi um cigarro.
Na casa do outro lado da estrada havia festa. Uma festa popular. Muito popular. Muita gente a dançar ao som de música popular. Havia vinho. Cerveja. Espumante. Umas jovens em biquínis diminutos mergulhavam numa piscina. Nas varandas, nas várias varandas da casa, apareceram várias pessoas, uma em cada varanda. A música foi desligada. As pessoas pararam de dançar. Pararam de beber. Ficaram paradas com os copos nas mãos. As raparigas pararam de nadar na piscina e toda a gente prestou atenção. Todos olharam para as varandas. Em silêncio. Atentos. Cada um olhava para a sua mas toda a gente parecia estar a olhar para todas as varandas ao mesmo tempo. Numa varanda estava Jair Bolsonaro. Na outra, ao lado, Donald Trump. Na outra a seguir estava Nicolás Maduro. Depois Viktor Orbán. E Recep Erdogan. Ao lado, Vladimir Putin. A seguir estava Boris Johnson. Logo depois Mohammad bin Salman. Colado estava Xi Jinping. Depois outras personagens que não identifiquei logo. E lá no canto, na última varanda, que afinal não era uma varanda mas uma janela, estava André Ventura. Que raio é isto? Como é que a casa em frente tem tantas varandas? E janelas? E toda esta gente? Quem é esta gente toda? E o que está aqui a fazer à frente de minha casa?
Os homens nas varandas, e o que estava à janela, começaram a discursar. Todos a uma voz como se fossem um só. Em todas as línguas do mundo que eram uma só. E toda a gente atenta a ouvir. Os homens que discursavam estavam com os olhos vermelhos, injectados de sangue, escorria-lhes uma baba verde, ácida, pelos cantos da boca e cuspiam perdigotos sobre as pessoas enquanto falavam com elas, enquanto lhes cuspiam palavras de ódio. As pessoas pareciam hipnotizadas. Batiam palmas. Uivavam. Anuíam. Concordavam. E começaram também elas a babar. Babar ódio. O terreno em frente começou a ficar inundado de tanta baba. Depois os discursos pararam. Apareceram uma moças quase despidas, de seios proeminentes, a erguer umas placas sobre a cabeça com alguns dizeres: Eu Primeiro; Eu à Frente; Eu De Novo em Primeiro; Ordem e Progresso; Acima de Todos Eu, Acima de Mim Deus.
Achei tudo muito interessante. Mas estava com sede. Levantei-me e fui buscar um copo de vinho. Regressei ao alpendre. Acendi novo cigarro.
Ao fundo, vi as montanhas a abanar, como se fossem de gelatina. Tremiam como varas verdes. As vacas que sobreviveram deixaram de ter leite e passaram a dar manteiga. As ovelhas perderam os caracóis e ficaram com o pêlo liso e escorrido. Depois um furação passou por cima das montanhas e levou as turbinas eólicas pelos ares. Deixou umas nuvens escuras, carregadas de água, que largaram tudo sobre as pedreiras que devastavam as montanhas e inundaram os vales, arrastaram casas e carros e os camiões de transporte de pedras das pedreiras e devastaram as quintas e quintais como as pedreiras tinham devastado as montanhas.
A água veio pela montanha abaixo, o rio e o ribeiro galgaram as margens, houve inundação em todo o lado e acabou por terminar com a festa na casa em frente, do outro lado da rua. As varandas foram destruídas e as pessoas que lá estavam foram arrastadas pelas águas furiosas e zangadas. Ainda vi a cabeça do André Ventura a tentar manter-se à tona da água que corria violenta.
Não chegou cá acima, felizmente.
Deu-me uma certa agonia. Cuspi para o chão do alpendre. Pensei que eu vivia num cantinho do céu guardado por Deus. Via todas as desgraças a acontecerem lá longe. Do outro lado da estrada. Longe do meu alpendre.
Depois senti um trovão a ribombar sobre mim, sobre a minha cabeça, e pensei Falei cedo demais, porra!
Foi então que me levantei da cadeira do alpendre e resolvi entrar em casa. Nesse momento voltavam os aviões turcos, mais leves, depois de terem despejado toda a munição sobre os curdos que, coitados, andaram a salvar-nos do Daesh e agora estavam a ser dizimados.
Ainda antes de entrar em casa senti um aperto no coração. Virei-me para trás e percebi. Ao ver a enxurrada levar toda a gente na fúria das águas, percebi. Alguns amigos de infância estavam naquela embrulhada. Eram levados. Eram levados para longe. Alguns morriam. Morriam cheios de ódio. E senti-me triste. Triste por eles. Depois pensei que isto era o mundo a dar uma barrela.
Entrei em casa e fechei a porta nas minhas costas.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/13]

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A Malta de Chicago

Tudo começou quando os ultraliberais chegaram ao Parlamento. Não demorou até conseguirem maioria e formarem governo. A Malta de Chicago, como entre eles se denominavam, puseram o país de pernas para o ar. Às vezes, virar as pernas para o ar pode não ser mau. Aqui, naquela altura, foi. Ainda é.
Logo na chegada ao Parlamento gritaram ao que vinham. Ocuparam espaço nas redes sociais a ilustrar os amanhãs gloriosos onde o homem poderia ter direito de escolha. Não era Liberdade. Não era Segurança. Nem era Riqueza. Era Escolha. Essa era a palavra de ordem que começaram a disseminar como vírus: Escolha. Como se a Escolha fosse uma possibilidade para a maior parte da população.
A juventude e a comunicação fácil criou algum élan ao grupo e, desde o início, a aprovação das ruas superou a representação no Parlamento. Não causou, por isso, estranheza quando, nas eleições seguintes, a meio do mandato por queda do governo de esquerda que começou, aos poucos, a perder a rua, ganhou as eleições com maioria absoluta.
A Malta de Chicago foi buscar votos a muitos lados do espectro político. À direita mais conservadora, que os viam como o mal menor (antes ultraliberais que socialistas), aos sociais-democratas, em extinção depois de uma guerra fratricida entre as várias cambiantes dentro do partido, que acharam por bem migrarem para aquele que já tinha sido um sonho de uma parte do partido, à esquerda desiludida com a falta de investimento na saúde, na educação, e iludida com esse chamariz da Escolha, de poderem colocar os filhos nas escolas preferidas. O Estado não paga a escola, paga o aluno. Pois, mas as escolas escolhem os alunos. Não há lugar para todos. Não há, com certeza, lugar para alguns deles. Há que fazer selecção. E foi o que foi feito.
Não tardou que a escola pública se degradasse e fosse residual. Muitas crianças já não conseguiam ir à escola. Mas havia trabalho. Havia sempre trabalho para os jovens empreendedores que não tivessem medo de fazer dinheiro.
Não tardou que os hospitais públicos se degradassem e os que restavam fossem meia-dúzia ao longo do país. Poucos médicos nos hospitais públicos. Poucas condições. O INEM, deficitário, foi extinto. Sociedades privadas de bombeiros e paramédicos começaram a fazer o trabalho do INEM. Mas era necessário ter seguro. Seguro privado. Seguro privado pago e em dia. Seguro que a maioria da população não tinha. Começou a morrer gente nas ruas, nas estradas, à entrada das portas fechadas dos hospitais.
Eu penso sempre que foi aqui que morreu a época do humanismo e começou a época da ganância financeira extrema. O dinheiro era Deus e a religião o pão e a filosofia.
A verdade é que tudo começou a ser pago. Um bebé já nascia com a dívida dos pais. Com dívidas não se podia votar. A Malta de Chicago eternizou-se no poder. Não havia quem não tivesse dívidas. Dívidas criadas para se poder viver. A única coisa que ainda não se pagava era o ar que se respira. Mas não sei até quando. Já ouvi uns zun-zuns.
O Estado ficou mesmo mínimo e as grandes corporações conduzem o Estado que finge que conduz o país.
É estranho tudo isto. Olho para trás e lembro-me como a vida era. Difícil, mas correcta. Não há muito tempo. Quase ontem.
Acendo um cigarro. Tusso. Dói-me a perna.
Um paramédico chega-se a mim e diz Se fumar esse cigarro terá de pagar uma taxa extra no transporte. Se houver transporte!…
Eu continuo a fumar o cigarro. Desvio o olhar do paramédico. Estou sentado no lancil do passeio. Tenho a perna em sangue. Acho que não está partida, mas deita muito sangue. Os paramédicos não a podem verificar nem levar-me para o hospital até confirmar que o seguro está pago. Eu já disse que está pago. Mas eles têm de confirmar a minha conta. Parece que há uns problemas no site. Ainda não conseguiram aceder à conta.
E eu espero.
Sentado no lancil com a perna a sangrar e cheio de dores.
Olho o fumo que sai do cigarro. Através do fumo do cigarro vejo a mota que me bateu. A mota está caída no asfalto. Aquilo é sucata. Está toda partida. Destruída. O miúdo que me atropelou já foi para o hospital. Golden Card. Eu tenho de esperar. O meu cartão… O meu cartão não é Golden Card. Não sou um gajo de Chicago.
Acho que ainda vou acabar por ir a pé para casa. Espero ter lá betadine.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/10]

Mundo Binário

Tudo começou quando o mundo ficou de risco ao meio. De um lado ficaram uns. Do outro ficaram os outros. O mundo tornou-se uma espécie de claques de futebol. Um Benfica x Porto. Ou um Real Madrid x Barcelona. Ou os Manchesters. O United de um lado. O City do outro. Ou uns EUA x URSS dos bons e seguros velhos tempos da guerra fria. Velhos x Novos. Homens x Mulheres. Brancos x Pretos. Heterossexuais x Homossexuais. Analógicos x Digitais. Enfim, tudo começou quando o mundo se tornou binário. Os contra e os a favor.
As pessoas barricaram-se. As cidades dividiam-se em duas. Normalmente separadas por rios. O campo voltou ao arame-farpado. A polícia vivia acantonada nas cidades e só saía dos seu quartéis em situações muito particulares. Os militares patrulhavam o campo, mas agiam como milícias. As pessoas do campo passaram a andar armadas para se defenderem uns dos outros e dos militares. Era normal haver picos de mortes violentas aos fins-de-semana e, em especial, nos finais de mês quando era dia de receber e metade do mundo embebedava-se. E acabava ao tiro. A outra metade ficava escondida em casa. Com medo.
Metade do mundo seguia a teoria da evolução. A outra metade era criacionista.
Metade do mundo estudava as profecias de Nostradamus. A outra metade estudava a Bíblia.
Havia ainda outra metade que estudava os livros do Divino Marquês, mas não havia muitas certezas sobre isso porque metades só há duas e esta vinha desestabilizar tudo e, sobre o que cada um faz na sua cama, em privado, não há garantias, se bem que alguns governos tentassem regular a actividade sexual por causa do rendimento produtivo e a poupança de energia. Mas nunca foram bem sucedidos nas suas tentativas. As pessoas, quando querem, são esguias e escapam. Mas só quando querem muito. Quando fazem por isso. Havia ainda quem não quisesse saber de nada e andasse por aí, um dia após o outro, sem se chatear muito.
Metade do mundo só comia carne de vaca e ficou obesa. A outra metade só comia vegetais e andava anémica. Metade do mundo fumava haxixe. A outra metade chutava cavalo. Havia ainda quem lambesse ácidos, mas havia quem dissesse que era só um mito. Um mito urbano.
Há poucos anos, quando se percebeu, finalmente, que o mundo estava nas últimas e já não havia nada a fazer para o salvar, já há muito que não voavam aviões, nem circulavam carros, carrinhas, camiões e motocicletas, e o homem movia-se de bicicleta, de skate e trotineta e só voavam alguns, poucos, aviões e só circulavam alguns, poucos, carros quando alguns dos dirigentes precisavam de se encontrar pessoalmente com outros e os telefones e a internet estava em baixo, coisa que acontecia com muita frequência porque a manutenção era muito difícil de executar num mundo sem mobilidade, onde o turista se extinguiu e só aparecia um ou outro viajante de vez em quando, de bicicleta, ou a pé, mas eram ignorados e já me perdi no raciocínio.
Ora, volto atrás e recomeço.
Há poucos anos, quando se percebeu, finalmente, que o mundo estava nas últimas e já não havia nada a fazer para o salvar, decidiu-se que tinha de se deixar a Terra e partir. Ora, com o tempo restante, tinha, toda a gente, de trabalhar em benefício geral para que se pudessem fabricar naves suficientes para levar toda a gente daqui para fora ou, pelo menos, a maior parte das pessoas, pois haveria de haver gente que iria querer ficar na Terra, onde tinha nascido queria morrer, e ficar na Terra não iria significar logo a morte, pelo menos era o que se dizia. Mas nunca se chegou a um acordo. Propôs-se Marte como destino. Mas houve logo quem se opusesse e lançasse a Lua como a única possibilidade real. O mundo voltou a dividir-se de novo, num outro risco ao meio.
E estávamos assim, sem saber o que fazer. Como fazer. Para onde ir. Depois de cinco eleições mundiais as coisas mantinham-se na mesma. Não haviam acordos nem consensos quando, de repente, há seis meses, se descobriu um asteróide, com dois quilómetros de diâmetro, que vinha em trajectória de choque com a Terra.
Pânico!
Durante algum tempo ainda se pensou na hipótese de construir uns mísseis espaciais capazes de interceptar o asteróide mas, nunca se chegou a acordo sobre que tipo de misseis fabricar. Ou eram russos. Ou chineses. Ou americanos. Ou indianos. Mas os países nunca conseguiram entrar em conversas uns com os outros porque não queriam mostrar planos classificados uns aos outros. Tudo era segredo de Estado. E tudo se complicou quando se perguntou quem ia pagar a factura. Ninguém queria pagar.
Estamos, agora, a dois dias do impacto. Não se construiu nenhum míssil. Nem naves espaciais para levar as pessoas para outro lado. É verdade que saíram algumas naves privadas com meia dúzia dos mais ricos dos ricos mas, para onde é que vão? Em que condições?
Metade do mundo acredita que vamos morrer. Outra metade acredita que não. Muitos ainda dizem que Deus nos vai acudir. Outros dizem que Deus está farto de nos aturar.
Eu não sei em que acreditar. Escrevi estas palavras na esperança que me sobrevivam, se acaso eu morrer, e possam contar ao futuro este nosso passado.
Foi um prazer andar por aqui.
Talvez nos encontremos mais tarde se, por acaso, houver, afinal, renascimento como nos prometia a religião católica.
Adeus.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/26]

Cheira a Homem, Aqui Dentro

A minha mãe entrava pelo quarto dentro a barafustar e dizia-me Abre a janela, rapaz! Cheira a homem, aqui dentro. E cheirava. Cheirava à transpiração de um adolescente que dormia enfiado debaixo de dois cobertores em pleno Verão porque gostava de se sentir aconchegado. Cheirava às pívias batidas durante a noite, debaixo dos lençóis, enquanto olhava as fotografias já gastas de um número qualquer da revista Gina.
Depois ela abria as cortinas, a janela de vidro toda para trás, para deixar entrar o ar fresco e lavar os odores impuros que se sentiam ali dentro no quarto onde eu nidificava, virava-se para mim e dizia Vá, vamos a levantar! e eu que remédio tinha senão levantar-me e manter o respeito pela minha mãe, pelo menos até à hora do almoço, à espera que fizesse algo que fosse do meu agrado, o que quase nunca era um problema porque sempre fui uma boa boca, graças a Deus, e a cozinha dela era santa.
Mais tarde, continuava a entrar pelo quarto dentro a barafustar e dizia-me Abre a janela, rapaz! Cheira a homem, aqui dentro. E cheirava. Cheirava ao álcool ingerido de véspera a destilar pelo poros do corpo. Cheirava a tabaco frio fumado e entranhado na roupa que jazia no chão, ao fundo da cama, numa massa disforme. Cheirava a vomitado, pelos excessos da noite.
Depois ela abria as cortinas, a janela de vidro toda para trás, para deixar entrar o ar fresco e lavar os odores impuros que se sentiam ali no quarto onde eu nidificava, virava-se para mim e dizia Vá, vamos a levantar! e eu não me mexia à espera que ela saísse do quarto sem me puxar os cobertores para trás e não me ver de pau feito, tesão de mijo à espera de se sentir, enfim, aliviado.
E depois, continuava assim a entrar pelo quarto dentro a barafustar e dizia-me Abre a janela, rapaz! Cheira a homem, aqui dentro. E cheirava. Cheirava mal. Cheirava a cama. A corpo de homem deprimido sem vontade de se levantar, tomar banho e sair de casa. Cheirava a noites e dias do mesmo pijama caído sobre um corpo que não se lavava e mal se alimentava. Um corpo que se arrastava pelas sombras do corredor para ir à casa-de-banho quando não estava ninguém em casa.
Depois ela abria as cortinas, a janela de vidro toda para trás, para deixar entrar o ar fresco e mostrar-me como a vida corria bonita lá fora, virava-se para mim e dizia Vá, vamos a levantar!, mas eu não me levantava, não via nada lá de fora, encolhido na cama, cabeça coberta pelos cobertores a ansiar que ela saísse do quarto e me deixasse sozinho ali, na cama.
E mais tarde, muito mais tarde, ela continuava assim a entrar pelo quarto dentro, mas mais devagar, a barafustar, mas a barafustar baixinho, e dizia Abre a janela, rapaz! Cheira a homem, aqui dentro. Mas não era verdade. Já não cheirava mais a homem ali dentro. Ali já só cheirava a memórias de um dia, um outro dia…
Depois ela abria as cortinas, a janela de vidro toda para trás, para deixar entrar o ar fresco e apoiava-se na janela e respirava o ar fresco que agora era para ela, todo para ela, e já não se virava para trás nem dizia Vá, vamos a levantar!

[escrito directamente no facebook em 2019/08/23]

O Chão Parecia Querer Fugir de Mim

Desde de manhã que se ouvem os morteiros. Desde há seis dias que sou acordado, de manhã, pelos morteiros. Há uma semana que anda tudo em festa. A aldeia engalanou-se para a festa do Santo e bem-receber os seus filhos emigrados de retorno. Eu sou acordado, todos os dias, com os morteiros.
Hoje havia uma missa campal. Numa pequena capela que a aldeia construiu fora de portas, ao lado de um riacho que, no Verão, serve de praia fluvial aos mais encalorados.
Desde manhã que ouvia a passagem de carros e motas e vozes de gente a pé, lá em baixo, ao pé do portão. Iam preparar a missa. Depois da missa, havia sempre uma pequena festa com comes e bebes que os paroquianos levavam e dividiam por toda a gente. Mas havia gente que ia para lá só para encher o bandulho e não levava nada. Não que eu soubesse quem era. Eu nem conheço ninguém! Mas contaram-me. Contaram-me ao balcão do café para onde eu fui para ver a festa mais de perto.
Farto de acordar cedo com os morteiros, e de andar a rebolar na cama, hoje levantei-me e fui até ao café da aldeia. Encostei-me ao balcão e deixei-me estar. Comecei por pagar umas ginginhas a uns tipos que já lá estavam e, depois, eu também passei a ser um daqueles a quem se paga um copo, seja lá do que for, porque já lá estava.
Fui para lá ainda não eram nove da manhã. Fui embora quase eram quase duas da tarde. E eu sem almoçar. Ainda não tinha comido nada. Mas tinha bebido bem. A missa devia estar a acabar. Depois iam todos piquenicar. Toda a aldeia. Toda a aldeia, menos os que estavam lá, no café, comigo e, tal como eu, encostados ao balcão e sem se conseguirem levantar.
Eu mudei de bebida. Passei para o Martini Rosso com cerveja. Uma casca de limão e é imbatível.
Um pouco depois apareceu lá uma velha para buscar o marido e levou-o puxado por uma orelha. Eu não tinha ninguém que me fosse buscar. Eu não passo vergonhas.
A mulher do dono do café esteve a guisar um pouco de bochechas de porco para levar para o piquenique e o marido colocou uns pires no balcão. Para nós. Mais uns bocados de pão saloio, cortado às tiras grossas. Eu peguei num palito e fui picando e comendo todos os bocados de carne que fui encontrando. Descobri que estava com fome. Uma fome dos diabos. Rasguei pedaços de pão e embebi-os no molho. Uma delícia.
Passei para a imperial. Sem mais nada. Só cerveja, mesmo. Estava com sede. E foi de um golo.
Estava calor. Estava com calor.
Fui até à entrada do café. Tirei a camisola. Abri o primeiro botão das calças. Libertei a barriga. A aldeia estava deserta. Devia estar tudo no piquenique.
Decidi ir para casa. Comecei a andar, mas parecia difícil. O chão estava torto. E parecia querer fugir de baixo de mim. Senti uma mão no ombro. Virei-me. Era o dono do café. Aparentemente, esquecera-me de pagar. Tirei uma nota que tinha no bolso dos calções. Dei-lha para a mão. Acho que a nota caiu ao chão. Mas fui embora e ninguém foi atrás de mim.
Passei o largo da igreja. Desci a rua que sai da aldeia até à rotunda. Penso que ia muito depressa. Porque tudo estava a passar muito rápido por mim e eu não conseguia focar nada. Mas, ao mesmo tempo, parecia-me que estava a demorar muito tempo a chegar a casa.
Cheguei à rotunda. Tentei acender um cigarro. O cigarro caiu ao chão. Tentei acender outro. Voltou a cair. Deixei de lado a vontade e continuei estrada fora até casa. Encontrei o portão. Abri-o e entrei.
Senti-me mal disposto. A cabeça às voltas. Vómitos. O estômago a refilar comigo. Peidei-me.
Caí na alameda. Vomitei. Adormeci.

Acordo com vozes. Vozes em conversas várias. Vozes em gritos de brincadeira. Motores. O barulho vem de baixo. Do outro lado do portão. Estou caído na alameda. A cabeça no chão de terra batida. A boca aberta a aspirar pó e o que me parece uma formiga passeia-se pelos meus lábios. Ergo-me. Dói-me a cabeça. As ancas. Magoei-me. Deve ter sido da queda. Tenho a cara presa. É vomitado seco.
Agarro um cigarro. Acendo-o. Agora consigo acendê-lo. Levanto-me. Sacudo os calções. Vejo que tenho sangue nos joelhos. Agarro a camisola do chão. Também tenho o corpo com vomitado.
Olho para o portão. Imagino as pessoas do outro lado a virem em grupo, alegres e contentes, em grupo, da missa e do piquenique. Provavelmente alguns mandaram-se ao ribeiro e tomaram banho. Num ribeiro benzido por Deus.
Eu viro as costas ao portão e começo a subir a alameda. O cigarro aceso ao canto da boca. Mas o fumo começa a incomodar-me os olhos.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/19]

O que É que Estás a Pensar?

O que é que eu queria, afinal? Saúde? Uma mulher muito bonita? Boa? O Euromilhões? Na verdade o menu é tão extenso que não sei dar prioridade.
Estava sentado. Estava em calções e chinelos. Lembro-me dos chinelos porque me lembro do triângulo de sombra que cortava o pé direito ao meio. Os dedos para um lado. O calcanhar para outro. Às vezes a sombra desaparecia ou ocupava o pé todo conforme o pé ia ou vinha, de uma perna cruzada sobre a outra, num nervosismo que me é constante e que se agrava quando não sei o que quero.
Tentava dar prioridade à saúde. A verdade é que, nos últimos tempos, tenho andado com um saquinho de comprimidos atrás de mim para tentar minimizar as mazelas. Sim, saúde é prioritário. Lembro-me disso cada vez que sinto as dores provocadas pelo nervo ciático. Pelo músculo do pescoço que me bloqueia os movimentos de cabeça e do braço esquerdo e me faz parecer um robot dos anos ’80 a dançar o Fade to Grey dos Visage. Mas já tenho idade suficiente para saber que vou esquecer as mazelas assim que me livrar de todas elas. A saúde só é um problema quando não a temos. Quando estamos bem, estamos bem! Com excepção dos hipocondríacos. E eu não sou um.
E entre uma saúde que pode ser importante e uma mulher, qual deveria ser a prioridade? É que é difícil decidir. Porque uma boa mulher pode fazer esquecer a falta de ar num ataque de bronquite. Eu sei porque já me fizeram esquecer de tomar o Ventilan num ataque de bronquite. E, depois, não há nada melhor para fazer inveja aos invejosos dos amigos que uma mulher bonita. E se for bonita e boa, é ouro sobre azul. Imagino, então, se para além de bonita e boa, é culta e inteligente? Para todas as outras mulheres, será, com certeza um estafermo. Para os outros homens será, de certeza, motivo de guerra. Mas não quero entrar em disputas com ninguém. Está demasiado calor.
O Euromilhões era sem dúvida a melhor aposta na lista das necessidades. Com o Euromilhões viria o resto. A saúde e a mulher boa e bonita e culta e inteligente. A minha mãe sempre me disse que dinheiro chama dinheiro. Por isso é que as pessoas ricas continuam ricas. Com excepção das que fazem cambalachos e acabam por perder tudo. Mais cedo ou mais tarde. Por vezes até nos sentamos a assistir à queda desses ídolos que, afinal, têm pés de barro. Se fosse religioso diria que Deus escreve direito por linhas tortas, mas como não sou, a melhor definição é mesmo cá se fazem, cá se pagam.
Foi nessa altura que entrou na minha linha de visão uma imperial dentro de um copo de fino, gelado, a borbulhar, com um dedo de espuma branca no topo. O copo foi colocado na mesa. Ao lado, um pequeno pires de tremoços, não daqueles bojudos que as senhoras vendem em pequenas bancas nas praças das pequenas localidades, mas aqueles pequeninos e rijos, com umas pedras de sal grosso polvilhadas por cima e ainda molhados por terem acabado de sair do balde onde estão mergulhados à espera de poderem servir os desejos de um bebedor de cerveja.
Descruzo as pernas. Perco o triângulo de luz e sombra sobre o pé e levanto o olhar. Vejo à minha frente o mar a bater na areia. Miúdos e miúdas mergulham e brincam dentro de água. Vejo, perto, o nadador-salvador. Ao fundo, o pau da bandeira. Está verde, a bandeira. Há gaivotas no mar. Gente em colchões-de-ar. Um casal passeia-se num caiaque. Passa uma velha com uma mala térmica a vender bolas de Berlim com creme. Estamos a meio da tarde. Está sol e calor. O povo desfruta deste feriado religioso a banhos. Ela dá-me um toque com o braço dela no meu e diz Acorda! Está aí a imperial!, enquanto vai chupando um Cornetto de morango.
Eu queria tudo aquilo. Eu já tenho tudo aquilo. Tenho a saúde que os meus cinquenta anos aguentam. A mulher dos meus sonhos quando acordo e abro os olhos. E dinheiro suficiente para pagar esta imperial. Que mais poderia querer?
Pego no copo de imperial e bebo um longo gole que me congela a garganta. No fim digo Ah! em jeito de satisfação. Pego em meia-dúzia de tremoços e vou comendo-os, um de cada vez, com casca e tudo, enquanto vejo o mar a refrescar os corpos do povo, ávido de libertação. Ela olha para mim e pergunta O que é que estavas a pensar? E eu olho para ela e já nem sei.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/15]

A Vida É Difícil

Vim de carro à cidade. Tinha de tratar de uns papéis e vim de carro. Não compreendo isto. Cada vez mais tecnológicos e digitais e ainda temos de passar a vida com papéis e a comparecer ao vivo para provar que nós somos nós e não outros a fazerem-se passar por nós. E, no entanto, nós andamos por todo o lado, vendidos por toda a gente a toda a gente que nos queira comprar. Somos os novos escravos. Aqueles a quem prometeram a democracia e acabaram por levar com a tecnocracia.
Ia eu já de carro, numa estrada via-rápida, quando comecei a sentir um zumbido nos ouvidos. Não sei como surgiu. Nem se surgiu ali, naquele momento. Pode ter aparecido antes mas só ter dado conta ali, talvez por ser mais silencioso, talvez por ser uma zona de muitos cabos de alta-tensão, talvez por eu estar mais atento.
E pensei que, ultimamente, tenho ouvido muito zumbido nos ouvidos. E pensei mais ainda, se seria melhor ouvir zumbidos nos ouvidos ou vozes na cabeça?
Parecia-me que era melhor ouvir vozes. Seria dado como maluquinho e ninguém me levava a mal e perdoavam-me as parvoíces e descontavam-me as asneiras. Com um zumbido nos ouvidos, ninguém se preocupa nem muito menos quer saber.
O quê? o tipo dos zumbidos nos ouvidos? Esse gajo é parvo!
O quê? o tipo das vozes na cabeça? Esse gajo é tontinho, coitado, tens de dar um desconto.
A vida é difícil para quem sai da norma.
Tomo uns comprimidos. Para isto é para outras coisas. Mas às vezes esqueço-me. Não me lembro de tudo. Não consigo lembrar-me de tudo. De tudo, destas coisas, porque há coisas que não me esqueço. Por exemplo, o Salário Mínimo são seiscentos euros. Em dois mil e dezanove, o Salário Mínimo são seiscentos euros. Disto lembro-me. E quando me esqueço vou ao site da Pordata para confirmar. É sempre bom confirmar os factos. A história. As notícias. Não confio em ninguém que manda coisas assim, da boca para fora. Se nem eu sou de confiança para mim próprio…
Cheguei à cidade. Dei várias voltas para estacionar. Nem parece Agosto. Ou se calhar é por isso. É Agosto. Chego à repartição pública e assusto-me. A fila dá a volta ao quarteirão. São famílias inteiras. Algumas com cães. Muitas destas famílias estão em calções de banho e biquínis. Sinto-me na Praia da Vieira. Fala-se francês por todo o lado. Há algum inglês. Pouco. Um casal falava em alemão. Parecia-me.
Abri os braços para o céu. Dirigi o meu olhar para lá. Comecei a rezar um Pai Nosso em alta-voz, enquanto me aproximava do início da fila. Quando acabou o Pai Nosso, avancei com uma Avé Maria. Ao chegar ao início da fila abençoei as pessoas que lá estavam executei uma pregação sobre a vida dos escolhidos de Deus para governar a Terra e pus-me em primeiro lugar.
Já ninguém respeita ninguém. Começaram a refilar comigo. Chamaram-me herege e, perante a minha insistência em nome do Bom Jesus, deram-me uma carga de porrada que me deixaram estendido no chão.
Um funcionário público, lá do interior, viu o que estava a acontecer e chamou a polícia e o INEM. O INEM não apareceu, mas apareceram os bombeiros. Antes ainda da polícia. E levaram-me ao hospital.
Dou graças ao SNS. É a minha vingança. Os gajos que me mandaram para aqui são os gajos que estão a pagar o meu internamento. Sim, fiquei internado.
Continuo com o zumbido nos ouvidos. Agora também já ouço vozes na cabeça. Tomo vários comprimidos ao longo do dia que não sei para o que são. Ninguém me diz nada. Mas são às cores. Parecem saídos de uma embalagem de M&M’s. Eu acho que me dão inibidores sexuais para não saltar para cima das enfermeiras. São giras, as enfermeiras do SNS.
Mas agora, o que me preocupa é o carro. O ticket de estacionamento já passou do prazo há muito tempo. O que é que lhe vão fazer. O quê? Não, não levam nada para a sucata. Queres ir agora? Ah! Depois de almoço? Vamos os dois? Está bem, pá. Vamos os dois para a Praia da Vieira. Mas porquê a Praia da Vieira? Há lá enfermeiras do SNS?

[escrito directamente no facebook em 2019/08/09]