Não Quero Ser Feliz, Quero Viver

Ser feliz? Eu não quero ser feliz! Eu quero viver, foda-se,

subir o Amazonas, descer o Mississippi, mergulhar no Ganges, no Ganges não que aquele rio está nojento e cheio de merda, mas podia mergulhar no Tejo, ali na Amieira, se houvesse água suficiente porque agora nunca se sabe, embora o ministro garanta a pés juntos que água é coisa que nunca falta ao Tejo, e eu acho que o ministro nunca viu o Tejo para além das janelas do seu gabinete no Terreiro do Paço, se é que é no Terreiro do Paço que o ministro tem o gabinete, eles são tantos e nunca sabemos quantos são, quem são, onde estão, e eu gostaria de subir o Kilimanjaro, o Himalaias e o K2, deslizar pelas encostas dos Alpes abaixo, cruzar o Atlântico até à Terra do Fogo e subir as Américas, as Américas todas, desde a América do Sul até à América do Norte, passando devagar, e com paciência, pela América Central, e apreender bem toda a América Latina, subir o Chile até ao deserto do Atacama, fazer o trem da Morte do Pacífico ao Atlântico, nadar nas Caraíbas mas com atenção aos tubarões que também são gente e gente perigosa, mas não são maus, são assim, visitar Fernando de Noronha e Paraty, beber uma Skol em Manaus e deixar-me transpirar até ficar magrinho e elegante, navegar por entre os manguezais do Maranhão e dançar Nação Zumbi em Pernambuco, ir ao terreiro na Bahia, visitar os pueblos no México e comer chili até deixar a língua vermelha, mastigar folhas de coca na Bolívia e sobreviver à ditadura da Bíblia que persegue o continente, e comer um bife de chorizo, que saudades tenho de um bife de chorizo barrado de chimichurri, ir até ao Alaska, pular o Pólo Norte e descer à Sibéria caminhar pelos tãos todos, Azerbaijão, Turquemenistão, Uzbequistão, Cazaquistão, Tajiquistão, Afeganistão, Paquistão, Quirguistão, que já foi Quirguízia e outras coisas porque já todos foram outras coisas que os homens não conseguem estar sossegados, raios os partam, a ver a vida fluir, têm de estar sempre a fazer uma merda qualquer, guerras, batalhas, revoluções, a chatear o vizinho pelo simples prazer de colocar uma bota cardada na cabeça de uma criança que só quer ouvir o vento, o chilrear dos pássaros, a erva a crescer como uma vez me disseram que era o que acontecia no Laos, as pessoas sentavam-se a ouvir a erva a crescer nos campos e sim, gostava de passear por lá, pelo Laos, Vietname, Cambodja e partilhar tigelas de arroz com velhos mais velhos que a Terra, e esqueci-me que também queria andar a cavalo pela Mongólia e cruzar a China pela Grande-Muralha e poder ser visto da Lua por algum selenita que possa existir, e o Neil Armstrong não os viu porque se esconderam todos quando viram chegar o boneco da Michelin que podia levar também, não se sabe, nunca se sabe, uma Bíblia na mão para evangelizar toda a gente e pôr toda a gente de arma na mão, dar um passo de uma Coreia à outra, e no que foi um Vietname ao outro se descobrisse onde já foi a fronteira, e regressar à Indochina que também há-de ficar lá para esses lados mas só os franceses e a Marguerite Duras é que sabem, e tenho saudades de ler Marguerite Duras, na verdade tenho saudade de ter a idade que tinha quando tinha tempo e vontade de ler os livros da Marguerite Duras e da Yourcenar, e navegar ao Deus-dará pelos Mares da China com o Corto Maltese, e descer às nésias, a Polinésia, a Micronésia e a Melanésia, mergulhar no Mar de Coral, cruzar a pé o deserto australiano, apascentar ovelhas nas montanhas neo-zelandesas, navegar até aquele ponto, aquele ponto exacto, que é o ponto mais solitário do mundo, onde no meio do Oceano Pacífico estamos o mais longe possível de terra, de gente, de civilização, de dor, de obrigação, e regras e deveres, e da religião e da Bíblia e de todo o consumo a que sou obrigado, mas isto não iria durar muito tempo que eu iria querer voltar para o meio de gente, cruzar o canal do Panamá para regressar ao Atlântico e descer a África onde nasci, onde nascemos, nós todos, onde todos temos origem, uma só raça e várias cores, o suficiente para o ódio dos néscios, e fazer o caminho de Capelo e Ivens de Angola a Moçambique, e mergulhar nas águas tépidas do Índico mas com cuidado que é uma zona de muitos tsumanis, e eu quero conhecer tudo e ver tudo e perceber tudo, mas há coisas que não quero ver, e não quero ver um tsunami no Índico, nem o Stromboli em actividade, nem a falha de Santo André a tremer, nem uma avalanche nos Alpes, mas dar voltas e mais voltas à Terra, a pé, a cavalo, de bicicleta, de barco, a subir e a descer, a comer, a beber, a ler, a ver, a apreender, a renascer, a sorrir, a chorar, a correr, a gatinhar nos braços de uma mulher, de um homem, branco, preto, vermelho, amarelo, às bolinhas cor-de-rosa, comer queijos, uvas, tâmaras, fios-de-ovos, beber vinhos, cervejas, licores, cheirar perfumes, odores, descer cascatas, nadar em rios e mares, amar nas dunas, nas praias, deitado no musgo, em camas alegres e bem resolvidas, ouvir música, ver concertos, ler ainda mais livros e revistas e jornais, passear com animais e passear de chinelos, sapatilhas, botas, ao frio, ao calor, no Verão, no Outono, no Inverno, na Primavera, no Hemisfério Norte, no Sul, no Médio Oriente e visitar Veneza enquanto não é Atlântida, e ser tudo e todos, e falar todas as línguas do mundo, e acordar em todas as camas do mundo, em todos os cantos do mundo, em paz com toda a gente do mundo, mesmo com os que ainda não sabem que a vida é muito mais interessante se for vivida assim, desta forma, vivida

e depois ficar furioso ao ser acordado por duas mulheres cinzentas que tocam a campainha de casa para me falarem da Sentinela e eu percebo que sonhava, não vivia, e então faço uma pequena mochila, e parto de casa nesse mesmo momento, embarco num barco para o outro lado do equador, e vou finalmente subir o Amazonas, preâmbulo para uma viagem a conhecer todo o mundo e tudo o que o mundo tem para me dar antes de encetar a minha viagem derradeira para Marte, onde me espera, finalmente, a imortalidade.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/19]

O Contribuinte

Houve um tempo em que os bancos ocuparam os centros das cidades.
A Caixa Geral de Depósitos, por exemplo, tomou o lugar das igrejas e passou a ser o edifício com mais impacto na malha arquitectónica da zona histórica das cidades. Construiu edifícios enormes, por vezes demasiado grandes para os centros mirrados das cidades da média dimensão. Uma arquitectura a lembrar a Roma imperial. Edifícios de linhas direitas. Utilização de pedra clara. Nalguns casos, vidro. Eram um símbolo de poder. Edifícios criados para causar impressão. Um certo esmagamento. Respeito. Medo.
Os outros bancos, numa lógica de crescimento constante, começaram a invadir os centros históricos, a invadir a baixa das cidades, como se a cidade fosse só deles. Abriram agências em todo o lado. Umas em cima das outras. Fecharam cafés. Pastelarias. Lojas históricas. Memórias. Memórias das próprias cidades. Memórias da história das cidades. Os bancos ajudaram a encarecer o metro quadrado nestas zonas. Alguns deles transformaram tanto os edifícios para onde se deslocaram que os edifícios tornaram-se outros. Houve grandes transformações urbanas motivadas pela proliferação das agências bancárias. Mataram edifícios intemporais por troca por uma modernidade parola que está envelhecida antes mesmo de começar a funcionar.
Os anos passaram. As novas tecnologias mudaram a relação dos bancos com os seus clientes. Os clientes deixaram de ser clientes para passarem a ser fonte de rendimento. Tudo é pago. Tudo é pago para uma classe que vive da utilização do dinheiro alheio. Tudo é pago e tudo é feito para ser o próprio cliente a ter todo o trabalho. E como se não bastasse, agora começaram a abandonar os centros das cidades. Depois de ajudarem e esvaziar os centros das cidades, agora deixam-nas ao Deus-dará. Mudam-se para centros-comerciais. Mudam-se para centros-financeiros. Para zonas de escritórios. Locais de maior agrupamento de clientes, esquecendo-se do funcionamento real das cidades.
Penso nisto ao olhar para o banco fechado à minha frente. Não é só a porta que está fechada. É mesmo o banco. Encerrou. Leio o papel colado no vidro da porta. Mudámos para outro sítio, dizem. Desde ontem. Nem o Multibanco funciona. E esse sítio para onde mudaram é outro sítio mesmo. É noutra localidade. E agora? Não pensam em mim? Afinal têm lá o meu dinheiro.
Estou parado frente à porta fechada do banco. Sinto-me deprimido. Os ombros tombam. Ouço um barulho atrás de mim. Um barulho que me assusta. Um barulho grave e muito alto. Viro-me para trás e vejo um carro com o chassis quebrado. Um carro que quebrou o chassis na lomba da passadeira camuflada. Atrás de mim há uma passadeira em lomba. Mas o tempo comeu a pintura da passadeira. E não há manutenção. É um dos grandes problemas destas tempos. A manutenção. O motorista não viu a lomba. Nem vinha muito depressa. Mas o suficiente para ser bloqueado pela lomba. Não é a primeira vez que vejo coisas assim acontecer. Mas nunca como hoje. Um chassis quebrado. Numa lomba em passadeira cega, surda e muda.
Sinto que deixei de ser uma pessoa. Sinto que passei a ser um número numa qualquer folha Excel. Sou o número que paga. E é só isso que sou. Um contribuinte.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/02]

O Telheiro

Um pouco mais acima na rua onde eu vivo há um antigo telheiro abandonado. É um telheiro em que metade do tecto já desabou. Duas paredes de madeira ainda se conservam em pé. O mato cresce à volta e lá por dentro, sem que alguém cuide dele. Não sei de quem é o telheiro ou o terreno onde está. Nem sei se é terreno baldio ou da junta. A verdade é que nunca vi ninguém cuidar do telheiro ou do terreno. Morre ao Deus-dará.
Mas é um telheiro com muita frequência.
Durante o dia são os miúdos das escolas das redondezas. Faltam às aulas e vão para lá fumar umas ganzas. Jogar à Verdade ou Consequência. Trocar beijos. Mexer uns nos outros por cima das camisolas.
Durante a noite são os namorados. Os amantes. Já vi ir para lá muito filho-de-família aqui da terra. Até os pais deles. E as moças aqui da terra. Tudo muito em segredo. Tudo muito secreto. Por vezes tombam uns nos outros. Os que chegam e os que partem. Fingem que não se vêm. Que não se conhecem. Que não estão lá. Acabam por se encontrar todos na igreja, na missa de Domingo. Eu sei porque os vejo a sair da igreja. Vejo-os a sair da igreja quando vou comprar um frango assado na churrasqueira frente ao adro.
De madrugada são os dealers. Vende-se de tudo. Compra-se de tudo.
O mais maravilhoso nisto é que, no meio de tanta actividade, diária e nocturna, não se dá por nada. Não fazem barulho. São discretos. Silenciosos.
Mas não é nada comigo.
Ou não era.
Não era até à noite passada.
Ontem à noite estava no alpendre a fumar um cigarro. Vi chegar um carro. Vi sair um homem do carro. Vi sair uma mulher do carro. Vi-os subir até ao telheiro. E pensei Com um carro desses e vais foder para o telheiro?
Segui-os com o olhar até perdê-los de vista. Fiquei à escuta. O silêncio da noite. Um cão ao longe. Uma motorizada. Um ou outro carro na estrada lá mais ao fundo.
Apaguei o cigarro.
Desci do alpendre. Saí do quintal. Subi a estrada. Depois subi o terreno até ao telheiro. Em silêncio. Dei a volta ao telheiro. Com cuidado. O luar era pouco. Não via onde punha os pés. Então, punha-os com cuidado. Um após o outro. Espreitei várias vezes. Espreitei várias vezes por entre as ripas de madeira. Por entre as ervas selvagens. Por entre o mato crescido. Até que os vi. Ela de costas, em pé, agarrada a um barrote. Ele por trás dela. Ela com a saia levantada. Ele com as calças em baixo. Ouvi o silêncio tornar-se sonoro. Pequenos gritinhos primeiro. Depois em crescendo. Pequenos gritinhos tornados gritos. Numa mecânica própria. Ritmada. Encostei-me à parede de madeira ainda erguida. Sentei-me à escuta. De costas para eles. A ouvir os ritmos. Reconheci-o. Reconheci-a. O meio é pequeno. Não há muita gente. E as pessoas são sempre as mesmas. E repetem-se. Ele era frequentador habitual do telheiro. Ela era a primeira vez que a via ali. Tinha-a como mulher recatada.
E estava eu nestes pensamentos quando percebi que o som estava já demasiado alto. Já não eram gritinhos, nem gritos. Era uma discussão. Ele discutia com ela. Refilava. Injuriava-a. Ela chorava. Tentava refutar o que ele dizia. Eu não percebia os contornos da discussão, mas percebia os Mas… O Não é assim… O Não tenho culpa… E os Não quero!… dela.
E ouvi o primeiro estalo. E o segundo. E o silêncio que se lhes seguiu. Levantei-me e voltei a espreitar. Estavam os dois em pé. Ele estava a ajeitar as calças. Era o que me parecia. Afinal estava a tirar o cinto. Vi a cara que ela fez. Uma cara de medo. E vi quando ele lhe deu com o cinto. Uma vez. Duas vezes. Eu fiquei nervoso. Pensei Vou lá!… E estava para lá ir quando a vi fugir, tropeçar, e bater com a cabeça num pedaço de ripa de madeira que estava solta. Mas presa o suficiente para aguentar um choque. E vi-a espetar-se na madeira. A cabeça dela a espetar-se na ripa de madeira. E ela ficar espetada. Mas não caiu porque a ripa aguentou-lhe o peso do corpo morto. Ele ficou parado por momentos. A olhar para ela ali de pé, de pernas um pouco dobradas, com uma ripa de madeira a entrar pela cara dentro, e quieta. Quieta e em silêncio. E o sangue a escorrer. A escorrer por ela abaixo.
Eu fiquei parado. Já não consegui lá ir. Fiquei ali em silêncio a vê-lo. A vê-la. A vê-los aos dois.
E vi quando ele voltou a colocar o cinto nas calças e olhou em volta e saiu do telheiro. E vi quando ela ficou lá sozinha, pendurada numa ripa de madeira a deitar sangue.
Voltei a sentar-me. As costas de encontro à parede de madeira. Ouvi o carro dele a arrancar. Acendi um cigarro. Fumei um bom bocado. Depois agarrei no telefone. Marquei o 112.
Isto aconteceu ontem.
A polícia já lá esteve. Os bombeiros também. E a polícia forense. Parecia um episódio do CSI.
Agora a polícia está a tocar à minha campainha. Eu estou a hesitar em abrir a porta. Não que eu não queira abrir a porta. Estou a tentar pensar se vou contar o que vi ou não. Não gosto de me envolver. E ele é uma pessoa importante. Estou a pensar. A polícia continua a tocar a campainha. Eu tenho de atender. Abrir-lhes a porta. O que é que eu lhes digo?

[escrito directamente no facebook em 2019/05/13]

Queria Ter Mais Tempo

Queria ter tempo para recomeçar tudo. Recomeçar de novo. Mas agora a sério. Desta vez, de vez.
Queria ter tempo para voltar a dormir numa cama rija, com um bom colchão que não se desfaça debaixo do meu corpo, que se move cada vez com mais dificuldade, todas as vezes que me viro. Voltar a ter os meus livros, deixados um pouco ao Deus-dará, arrumados em prateleiras, em estantes, com as cotas limpas, ordenadas e viradas para mim e eu poder saber que livros ali tenho, que livros já li, e lembrar-me o que contam só por reler os seus títulos, como fazia quando criança, na minha casa que era a casa dos meus pais, e os livros eram poucos, mas eram lidos e relidos, com a mesma avidez do início, e voltava a vivê-los ao ler-lhes as cotas. Voltar a andar de bicicleta ao longa da Costa Atlântica e deixar-me inebriar com a maresia fresca da madrugada. Voltar às festas de Agosto e bailar aquelas músicas pirosas cujas letras conheço de cor. Voltar a ter a primeira bebedeira. O primeiro beijo. A primeira noite de amor.
Queria ter tempo para experimentar uma vida como a dos outros. Uma casa com cerca de madeira pintada de branco; umas laranjeiras a espalhar o perfume ácido que entra pelas janelas abertas da casa; um baloiço para me embalar; um tanque para mergulhar nos dias quentes de Agosto; um labrador castanho a correr livremente na relva cortada por mim ao Domingo; um gato sonolento deitado no muro do alpendre e a olhar o mundo com desdém; uma família grande, enorme, reunida nas férias grandes, no Natal, na Passagem de Ano, no Carnaval, na Páscoa, no dia dos meus anos, a contar histórias, representar pequenas peças de teatro, a correr pela praia em pleno Outono e mergulhar nas ondas do mar frio antes da chegada das marés vivas.
Queria ter tempo para ter tempo. Queria que fosse tudo outra vez como era, mas agora como devia ter sido. Explicado por quem soubesse como devia ser, se quisesse e não obrigado a ser por ter que ser. Que a vida era assim, mas podia ser diferente, devia ser diferente. Deixar os excessos no começo da idade. Recuperar outro caminho.
Queria ter tempo. Mas não tenho.
Seis meses. Talvez um pouco mais. Talvez um pouco menos. Mas certo como destino.
Queria ter tempo para poder despedir-me de toda a gente que foi gente comigo. Todos os amigos que fui perdendo na voragem dos anos. Todos os amigos que fui perdendo nas razões que já esqueci. Todos os amigos que afastei, que me afastaram. Todos os amigos que deixaram de o ser. Todos os amigos por vir. Todas as amantes que foram trituradas na velocidade dos dias, dos anos. As que deixei de amar. As que deixaram de me amar. As que ainda amo. As que ainda me amam. Todos os filhos que fui semeando. Todas as mortes que me roubaram.
Somos jovens durante toda a vida. Até que um dia acordamos velhos, na antecâmara da partida e sem tempo. Sem tempo para poder cheirar mais uma vez as torradas queimadas esquecidas entre uma conversa, dois beijos, um golo. O cheiro do café acabado de fazer numa manhã de Inverno com a chuva a cair lá fora. O sabor do chá de hibisco em tardes monótonas de Domingo. Talvez com uns scones. Barrados com manteiga e um pouco de geleia.
Seis meses não são nada mas são o que me resta. E o que me resta é um mundo. É este o meu mundo, agora, e vou vivê-lo de punhos cerrados para não ser parado por ninguém que só queira o meu bem.
E no dia, no dia que for o último, só quero que chova e eu possa sentir, uma última vez, o cheiro acre da terra molhada. E levá-la com lembrança de uma vida de onde não posso levar mais nada.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/28]

Sentado Nu na Beira da Cama com os Pés Gelados

São quatro horas da manhã.
Não seria nada de anormal na minha vida se estivesse a acabar uma garrafa de vinho ou a acabar de fumar um cigarro ou, então, somente a abandonar uma cama ao Deus-dará que me tivesse acolhido por algumas horas em troca de algumas cabriolices. Final de proezas físicas, final de cama. Hora do Táxi ou, como é ar do tempo, hora do Uber. Como se eu vivesse numa grande metrópole.
Isto não é Nova Iorque. Nem sequer Lisboa. Isto é Leiria e, às quatro da manhã, de um Domingo para Segunda-feira, quem ainda não está na cama é meliante, anda à cata dos restos utilizáveis que gente respeitável deitou para o lixo mas ainda serve para quem tem poucos recursos económicos ou trabalha na empresa de recolha de sólidos urbanos (o famoso RSU para quem ainda não sabe).
Eu não sou nenhuma destas coisas. Não, também não sou nenhum extra-terrestre. Sou tão-só um tipo com algumas dificuldades em acompanhar o andar normal de todos os outros em todos os outros dias. E não, não estou louco. Nem acho que estejam todos errados e eu é que esteja certo. Se bem que…
São quatro da manhã. Agora, na verdade, são quatro e vinte da manhã (demorei vinte minutos a chegar aqui). Estou nu, sentado na cama, com os pés a gelar no chão de madeira (eu não uso tapetes) e acabei de acender um cigarro.
Tenho a janela aberta. As persianas e o vidro. Queria sentir o pulsar à cidade. Mas qual pulsar? Esta cidade nem existe.
São quatro e vinte da manhã, estou sentado nu na beira da cama com os pés descalços a arrefecer no chão de madeira, a fumar um cigarro cujo fumo sai pela janela de vidro aberta e que me deixa o quarto tão gelado que penso poder acordar morto no dia seguinte sem que ninguém me venha descobrir antes do cheiro começar a incomodar o prédio.
Olho para as luzes da cidade adormecida e penso Esta porra de cidade nem néon tem. São umas luzinhas. Uns candeeiros plantados pela cidade para o cidadão ver onde pousa os pés e umas pequenas e mal enjorcadas publicidades feitas, se calhar, por algum primo mais afoito que até percebe um pouco destas coisas e resolveu a necessidade com um orçamento muito mais barato e, assim, fez-se um anúncio tardio ao-seja-lá-o-que-fôr que mantém esta não existente cidade a fingir que até existe.
São quatro e vinte cinco da manhã. Acabei o cigarro e mandei a beata pela janela aberta para o meio da rua. E pensei Quero que o ambiente se foda!
São quatro e vinte cinco da manhã, já fumei o cigarro, continuo sentado nu na beira da cama e estou à espera do que se segue. E o que é que se segue?
O que é que vai acontecer na cena seguinte?
O que é que me espera?
O que é que a vida tem guardado para mim?
O que é que um tipo nu sentado à beira da cama, gelado de pés e corpo, pode esperar da vida?
São quatro e meia da manhã e não sei o que é que hei-de fazer.

[escrito directamente no facebook em 2018/04/16]

A Erva do Meu Vizinho

Descobri que o meu vizinho do lado tem uma pequena plantação de erva na varanda. Não é bem uma plantação, são três vasos. Nem estão acomodados nem nada. Crescem ali fora, ao sabor do vento, do frio, da luz do sol e do reflexo da lua. Crescem ao deus-dará.
Estou chateado com a vida. Vim à varanda para fumar um cigarro, esquecer-me e acabei por me lembrar.
Espreito para além da pequena parede que nos separa as varandas. E sim, ali estão os vasos.
Olho em frente, para o prédio em frente. Para os lados. Espreito para baixo, para a rua e depois para cima. Subo para o muro da minha varanda, agarro-me à parede, fico ali, por segundos, suspenso no vazio enquanto um pé, e depois o outro, passa de um muro para o outro, e salto para a varanda do lado. Fico ali um bocado em silêncio, à escuta. Atento. Não está ninguém. Pego numas folhas. E repito todos os mesmos gestos, as mesmas acções, dou os mesmos passos, mas no sentido inverso.
Chego à minha varanda e sinto o coração a bater muito alto. Estou ao mesmo tempo excitado e ansioso.
Entro em casa, pego numa série de coisas que preciso, volto à varanda, sento-me no chão e preparo um charro.
Depois de o ter enrolado, acendo-o. Tusso. Dou mais uma passa e tusso outra vez. Tenho um pequeno ataque de tosse, mas insisto. Continuo a fumar. E vou fumando-o enquanto olho para a rua, lá em baixo.
A neura começa a passar.
Começo a relaxar.
Penso em coisas novas, coisas alegres que me deixam bem disposto. Rio-me. Rio-me sozinho.
Volto a pensar nos problemas que me atazanaram o dia. Mas de passagem. Já não são problemas. São uma memória.
Coço o braço. Tenho calor e comichão no braço e coço-o.
Olho para a varanda em frente e vejo a minha vizinha a mandar o computador portátil em direcção à cara do marido que se afasta no último segundo e o computador cai na rua. Engasgo-me. Entre o fumo e o riso, engasgo-me quando percebo o computador a cair no vazio e a fazer barulho quando se estilhaça lá em baixo, na rua.
Vou espreitar. Não ia ninguém a passar. Olho em frente e vejo o meu vizinho também a olhar para o computador e depois para mim. Não a vejo a ela.
Estou a ficar com fome. Esta cena do computador deu-me fome.
Reparo na Lua lá em cima. Está brilhante. E começo a pensar que quase 50 anos depois de terem, terem… O quê?, aluado? Alunado?… Rio-me outra vez e tento encontrar a palavra certa e não chego lá. E esqueço-me do que estava a pensar. Porra, era sobre a Lua. Isso sei eu. Mas, e depois? Seria sobre algum eclipse?…
Porque é que os clips se chamam clips? É parecido com eclipse. Está no meio do eclipse, é isso. Foda-se, nunca tinha pensado nessa merda. Que cena!
Estou com fome. Acho que tenho ali dentro algumas bolachas. Foda-se, que fome.

[escrito directamente no facebook em 2018/03/22]

Sexta-Feira

Já houve um tempo, há muito muito tempo, em que a Sexta-feira era bem mais fixe que o Sábado. Era o melhor dia da semana. Era o último dia da semana de trabalho; era o início do fim-de-semana; era o dia em que se saía para jantar fora, muitas vezes com os amigos; era o dia da discoteca; dos concertos; muitas vezes, dos namoros que depois se prolongavam fim-de-semana fora até chocarem de frente com a fria Segunda-feira.
Mas isto foi há muito muito tempo.
Agora a Sexta-feira é mais outro dia de merda igual aos outros todos. Talvez mesmo pior. Só não é tão mau como o Domingo porque o Domingo é mesmo o rei da neura.
Hoje é Sexta-feira. Tive um dia de trabalho normal. Almocei uma coisa insípida de pé, ao balcão, para não gastar muito tempo nem dinheiro.
À minha volta percebia a agitação dos meus colegas mais novos, todos com as hormonas aos saltos. Eles gostam das Sextas-feiras.
No final do dia passei pelo café para beber uma cerveja. Já havia gente de banho tomado pronta para a noite. Acompanhei a cerveja com uns tremoços e enjoei a maior parte dos perfumes femininos que pairavam por ali.
Passei no supermercado para comprar pão.
Cheguei a casa e deixei-me cair no sofá. Não estava propriamente cansado, mais saturado dos ritmos que se sucedem dia-após-dia. As rotinas vazias, sem sentido. Para onde raio é que caminho?
Às vezes sinto-me no pior da adolescência e nos seus dramas existenciais. Sim, é estúpido pensar estas coisas, mas a verdade é que se perde o rumo das coisas e caminhamos ao deus-dará e quando chegamos a algum lado, quando chegamos, perguntamos porquê.
O telemóvel tocou. Olhei o nome no ecrã. Não me apetecia. Não naquela altura. Queria ficar em casa. Sozinho. Sem aquelas vozinhas irritantes de quem está muito feliz e quer toda a gente ali em órbita também feliz. Mas as coisas não são assim. E essas vozinhas deixam-me irritado.
Por vezes saio sozinho de casa e evito os sítios por onde andam as vozinhas. Vou a sítios onde ninguém me conhece e eu não tenho de ser uma personagem. Posso estar sozinho, sossegado, em silêncio, a ler um livro ou a ver um jogo do Benfica, a fumar um cigarro, a beber uma imperial ou um café.
Por vezes dou comigo a perguntar se o ser social é mesmo uma condição humana. Porque eu cada vez mais me afasto das pessoas. Não tenho paciência para as vidas a que somos obrigados em conjunto. Sinto-me mais tranquilo e sossegado longe da agitação das pessoas.
Por isso, quando chega a Sexta-feira chega-me também a neura que, regra geral, se mantém até ao Domingo.
Acho que cada vez mais gosto dos dias da semana. Há sempre menos risco de encontrar gente conhecida e com disponibilidade.
Hoje não liguei a televisão. Fui para a mesa da cozinha ver um livro que me ofereceram sobre a obra do Mark Rothko. Acabei por fumar um maço de cigarros e beber uma garrafa de vinho. Fui para a cama sonhar com aquelas cores. Com aquele vazio tão cheio de vertigem.
Acabou por ser uma boa Sexta-feira.

[escrito directamente no facebook em 2018/01/12]